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quarta-feira, 8 de março de 2017

A nossa alegria desde que nasceu - Czarevich Nicolau Alexandrovich - Segunda Parte

Nicolau Alexandrovich
No dia seguinte, Nicolau obrigou-se a levantar da cama e estava determinado a ver os tesouros do Palácio Pitti, mas o esforço foi demasiado grande e, quando regressou, teve de voltar para a cama onde ficou durante as seis semanas seguintes. Tinha um inchaço nas costas. Segundo os médicos, tratava-se de um abcesso e, enquanto era submetido a uma série de tratamentos dolorosos, a sua comitiva fazia os possíveis para o distrair. Sérgio de Leuchtenberg, o seu primo de quinze anos que estava a viver em Florença, ia visitá-lo todos os dias e falava-lhe sobre todas as maravilhas da cidade que ele nunca conseguiria ver. No dia de ano novo, o czarevich e a sua comitiva partiram para Livorno, onde a corveta Vitiaz os esperava para os levar por mar até Nice para junto da czarina. Tinham sido preparados aposentos no primeiro andar da Villa Diesbach. Um dos tios maternos de Nicolau, o grão-duque Luís III de Hesse estava a ocupar o rés-do-chão, por isso a sua comitiva teve de se alojar num hotel próximo.

Sérgio de Leuchtenberg, filho da grã-duquesa Maria Nikolaevna da Rússia.
As dores diminuíram, mas Nicolau tinha medo de voltar a sofrer tanto como nos meses anteriores. Sentia-se muito fraco e não conseguia endireitar as costas, por isso tinha de ser levado ao colo quando subia e descia as escadas. Os médicos franceses receitaram massagens e tratamentos com vapor. Nicolau também dava passeios de carruagem todos os dias e parava do lado de fora da Villa Bermond, para que a sua mãe pudesse sair e vê-lo. As pessoas que os viram comentaram que a relação entre mãe e filho era extremamente afectuosa. Sempre que via a mãe, Nicolau segurava-lhe a mão e beijava cada um dos seus dedos e nenhum deles conseguia esconder a preocupação que sentiam. Ao longo de toda a sua curta vida, Nicolau tinha aprendido a dominar as suas emoções. Um dia, quando caminhava no Vale das Flores, apoiado numa bengala e no braço de um amigo, disse que não se atrevia a falar sobre Dagmar porque a amava demasiado e, se pensasse nela, não se conseguiria controlar.

Nicolau Alexandrovich e Dagmar
Desde que o noivado tinha sido anunciado que o jovem casal trocava correspondência regularmente. Enquanto Nicolau enfrentava a sua doença, Dagmar estava a aprender a língua e os costumes russos que, dentro em breve, seria o seu país. Nesse inverno, quando contou a Nicolau que, agora, sentia que acreditava mais na Igreja Ortodoxa do que naquela que tinha sido a sua religião desde que nasceu, ele ficou particularmente feliz: as suas cartas mostram que era profundamente religioso e que estava desejoso por partilhar essa fé com a sua futura esposa. O casal fantasiava sobre os filhos que teriam e sobre como seria a sua vida juntos no Palácio de Anichkov, a residência onde normalmente vivia o herdeiro do trono e onde já estavam a ser preparados apartamentos para eles. No seu estado enfraquecido, eram estes sonhos que davam esperança a Nicolau.

Nicolau 

À medida que as semanas iam passando, Nicolau começou a sofrer dores de cabeça e enjoos frequentes. Os médicos diziam que tudo não passava de reumatismo, talvez com um ligeiro toque de malária, e a czarina queria acreditar, mas houve fortes discussões entre os médicos e o conde Stroganov e a tensão começou a aumentar. Tiveram de ser chamados dois especialistas franceses, Nélaton e Rayer, no final de Janeiro que confirmaram o diagnóstico de reumatismo, um grande alívio para os médicos que já o estavam a tratar. No entanto, o professor Burci, que o tinha tratado em Florença, enviou várias mensagens preocupantes através do cônsul russo a avisar que o abcesso que tinha detectado tinha todas as hipóteses de piorar caso se insistisse no tratamento actual, e que, naquele ponto, já podia estar a afectar a medula óssea. No entanto, ninguém ouviu os seus avisos. Os médicos oficiais estavam de tal forma confiantes que, em finais de Fevereiro, foi enviado um emissário a Copenhaga para tratar de um encontro entre Dagmar e a czarina e até para dar início aos preparativos para o casamento.


Nicolau Alexandrovich

Em Março, Nicolau piorou novamente e mostrava uma sensibilidade anormal ao som. Queixava-se que o barulho das ondas na praia não o deixava dormir, por isso foi levado para a Villa Bermond. A 11 de Março, o Journal de Nice publicou um boletim optimista do progresso do seu estado de saúde e, dois dias depois, esteve presente numa festa para os Chasseurs da Guarda Imperial, para fazer revista às tropas e distribuir prémios, mas não conseguiu sair da carruagem e teve de se esforçar para disfarçar as dores que sentia. Entretanto, passou mais um mês e, na Dinamarca, Dagmar começou a preocupar-se com a falta de cartas do seu noivo. A 7 de Abril, depois de passar quinze dias sem saber nada dele, enviou um pedido desesperado ao seu "querido Nixa", onde lhe relembrou que, com a chegada da primavera, o seu próximo encontro se estava a aproximar. A princesa não conseguia pensar em mais nada e estava desesperada por saber novidades. Numa das suas cartas brincava com ele com a possibilidade de que, talvez, se tivesse apaixonado por outra, uma carta que demorou dois dias a escrever. No entanto, quando chegaram finalmente notícias, não podiam ter sido piores. No domingo de Páscoa, o estado de saúde de Nicolau piorou subitamente: tinha febre e a sua visão estava turvada. Foi enviado um telegrama ao czar que pariu de São Petersburgo nessa mesma noite levando consigo o seu médico pessoal.

Dagmar da Dinamarca
Nessa mesma noite, Nicolau teve um ataque e ficou com o lado direito do corpo paralisado durante algumas horas, o que fez com que se instalasse o caos na Villa Bermond. Começaram também a juntar-se multidões silenciosas do lado de fora. A czarina recusava-se a deixar a cama do filho e as suas damas-de-companhia estavam a ficar de tal forma histéricas que o conde Stroganov perdeu a paciência e mandou sair todos os que não se conseguissem controlar. Na segunda-feira de Páscoa, a 18 de Abril, os criados vestiram o czarevich e colocaram-no numa cadeira para que ele recebesse a comunhão. A notícia da sua doença tinha atraído especialistas de toda a Europa e um deles, o professor Rehrberg de Viena, conseguiu apresentar o primeiro diagnóstico correcto: tratava-se de uma meningite bacteriana que lhe estava a afectar o cérebro e a coluna. Mas era tarde demais. Poucos dias depois, Nicolau começou a sofrer períodos de delírio durante os quais não conseguia reconhecer ninguém. Até esse momento, os únicos parentes adultos da czarina presentes eram o seu irmão Alexandre de Battenberg e a esposa dele, Júlia, mas a partir daí começaram a chegar membros da família de toda a Europa. Na quinta-feira, chegou o irmão mais novo de Nicolau, o grão-duque Alexandre. Nicolau ficou contente por ver o irmão que era criticado por todos menos por ele. Quando comparado com o czarevich, Alexandre sempre parecera desajeitado e pouco inteligente, e a maioria das pessoas ignorava-o. Dagmar chegou a Nice na sexta-feira acompanhada da mãe. Às 14:30 desse mesmo dia chegou o czar. A czarina acordou o filho para lhe dizer que o pai tinha chegado. Nicolau segurou-lhe a mão, beijou-lhe cada um dos seus dedos e perguntou-lhe o que faria ela sem ele. Era a primeira vez que falava da sua morte e o seu pai caiu de joelhos ao lado da sua cama, lavado em lágrimas.

Nicolau com o seu irmão mais velho, Alexandre
Nicolau passava cada vez mais tempo a dormir, apesar de acordar com todos os pequenos sons. No domingo, viu Dagmar a entrar no quarto e perguntou à mãe num suspiro: "não é bonita?". Dagmar passou muito tempo ao lado dele nesse dia, a ajeitar-lhe as almofadas e a segurar-lhe a mão enquanto lhe falava docemente. Alexandre também esteve algum tempo ao lado do irmão, a segurar-lhe a outra mão. Mais tarde, criou-se a lenda de que Nicolau tinha juntado as mãos dos dois e que lhes pediu para se casarem um com o outro quando ele morresse, mas não há qualquer relato de que tal tenha acontecido, pelo menos nos testemunhos mais antigos. O fim chegou na noite de domingo, dia 24 de Abril. Lá fora brilhava o sol do início da primavera e guardas franceses e russos faziam uma vigília silenciosa. O quarto de Nicolau estava cheio de pessoas, entre parentes, comitivas e médicos enquanto padres iam cantando orações. Nicolau já não conseguia falar, mas, antes de morrer, deixou cair uma lágrima.

Gravura a representar a morte de Nicolau Alexandrovich
Dois dias depois, o corpo foi levado numa procissão de velas para a Igreja Ortodoxa na Rue de Longchamps. O corpo de Nicolau seria levado para casa a bordo do Alexander Nevsky, com os navios Oleg, Vitiaz e Almaz como escolta, e estavam marcadas cerimónias solenes para cada paragem da procissão até o caixão ser colocado em segurança a bordo do navio. Apenas o conde Stroganov se lembrava de uma manhã, cerca de três meses antes, quando Nicolau estava a ver um esquadrão a navegar pela sua janela e ficou numa espécie de transe. Quando voltou a si, disse: "pensei que estava a bordo do Alexander Nevsky e que ia começar uma longa viagem..."

Nicolau no seu leito de morte
A viagem foi longa e difícil. O Alexander Nevsky quase se perdeu devido aos ventos fortes que se faziam sentir na costa de Portugal. O esquadrão teve de parar em Lisboa durante algum tempo antes de seguir viagem para Plymouth, onde os navios britânicos Liverpool e Royal Adelaide dispararam uma salva de vinte-e-uma balas e padres russos ortodoxos de Londres foram a bordo do navio para dar uma missa. Na costa dinamarquesa havia um nevoeiro espesso e o navio quase foi contra as rochas em Skaggerrak antes de chegar a águas mais calmas para um encontro triste com a família real dinamarquesa. A 2 de Junho, o Alexander Nevsky chegou finalmente a Kronstadt, o porto que Nicolau tinha admirado da sua janela um ano antes. Agora, com grande solenidade, o seu caixão foi levado para o convés do iate Alexandria para a sua última viagem pelo Neva até à Catedral de São Pedro e São Paulo. A 6 de Junho, o czarevich Nicolau, que nasceu para governar a Rússia como czar Nicolau II, foi sepultado. "Não foi só um homem que nos deixou", escreveu o seu tutor, o historiador Stassioulevich, "foi a juventude, a beleza, o primeiro amor, acabado de despertar (...) Foi um jovem que personificava todas as esperanças que um milhão de homens corajosos tinham no futuro. Foi a nobreza, a bondade, a amizade, o espírito de justiça e de igualdade. Foi o símbolo de tudo o que é amado e sagrado para nós neste planeta".

Nicolau Alexandrovich
Esta tragédia mudou para sempre o futuro da dinastia, mas os seus efeitos imediatos foram sentidos em especial por dois jovens que estavam presentes na Villa Bermond: a princesa Dagmar e o grão-duque Alexandre Alexandrovich. Dagmar não esteve presente no funeral de Nicolau. Juntamente com o irmão mais velho, teve um encontro privado com o czar e a czarina em Heiligenberg, onde os russos ficaram a descansar durante a viagem de regresso a casa, mas o príncipe-herdeiro Frederico foi o único membro da família real dinamarquesa a seguir viagem até São Petersburgo. Com apenas dezassete anos de idade, Dagmar ficou esgotada física e psicologicamente pelas experiências que tinha vivido nos últimos meses e os seus pais queriam protegê-la de mais sofrimento.

A princesa Dagmar de luto por Nicolau.
Mas havia também planos sobre os quais ninguém queria falar de momento e que poderiam ser postos em causa caso fossem propostos na altura errada. Tanto o czar e a czarina como os pais de Dagmar queriam um noivado entre ela e Alexandre, que tinha agora de ocupar o lugar de Nicolau. A czarina insistiu de forma demasiado insistente e rápida na ideia que tinha todas as possibilidades de falhar. Ainda não tinha passado sequer um mês desde a morte de Nicolau quando a mãe de Dagmar, a rainha Luísa, pediu cuidado. Disse que também que o melhor era dar espaço a Alexandre para se habituar à sua nova posição e chegar às suas próprias conclusões sem pressões desnecessárias. Por seu lado, a rainha Luísa sabia que a sua filha iria sentir-se repelida e magoada se começassem imediatamente as negociações para um novo casamento. Nicolau ainda era a única pessoa que lhe ocupava a cabeça. Algumas semanas depois, a rainha Luísa recusou um convite feito pela corte russa para que Dagmar fizesse uma visita a São Petersburgo. Disse que seria demasiado doloroso fazer uma peregrinação até à campa do seu falecido noivo e as conversas especulativas que iriam surgir caso uma visita desse género fosse feita só podiam ser prejudiciais. Luísa conseguia ver como a situação seria interpretada e queria proteger a filha de invejas e boatos maldosos.

A rainha Luísa da Dinamarca com a sua filha Dagmar.
Mas a czarina tinha bons motivos para a sua pressa quase indecente uma vez que, após a morte de Nicolau, ela e o marido ficaram com um czarevich muito hesitante e infeliz nas mãos. Alexandre ficou destroçado com a morte do irmão. Com menos de dois anos de diferença de idades, os irmãos eram extremamente unidos. Mesmo quando estava na Dinamarca a comemorar o seu noivado, Nicolau não conseguia deixar de pensar em Alexandre. "Tenho muitas saudades do Sasha", escreveu ele à sua mãe, "gostava muito que ele estivesse aqui". No caso de Alexandre, o seu afecto tinha também um toque de respeito e, até certo ponto, dependência. Alguns meses após a morte de Nicolau, Alexandre escreveu no seu diário que ainda se sentia triste e só desde que ficou "sem o meu amigo de quem gostava mais do que qualquer outra pessoa no mundo". Recordou como partilhava tudo com o seu irmão mais velho, como não escondia nada dele e como sabia que Nicolau fazia o mesmo. Apesar de continuar a ter os seus irmãos mais novos Vladimir, Alexei, Sérgio e Paulo, Alexandre sentia que nenhum deles poderia ocupar o mesmo lugar de Nicolau na sua vida.

Nicolau Alexandrovich (Nixa) com o seu irmão mais novo Alexandre (Sasha, futuro czar Alexandre III)
Alto, com uma constituição forte e desastrado, Alexandre nunca teve as muito admiradas boas maneiras do irmão nem se sentia tão à vontade na companhia de outros. Não era tão inteligente, nem atraente: as pessoas achavam-no grosseiro e ele não fazia nada para as convencer do contrário - apesar de o seu diário mostrar que era um jovem inesperadamente sensível e que se exprimia de forma notável. No entanto, Alexandre tinha noção e sentia-se intimidado pela sua falta de talento, e, pouco depois de se tornar czarevich, um primo encontrou-o a chorar amargamente devido à mudança do seu destino. Alexandre queria ser apenas o irmão mais novo e, para piorar ainda mais a situação, estava apaixonado.

Alexandre Alexandrovich, futuro czar Alexandre III
Era normal que um grão-duque - ou qualquer príncipe - se afeiçoasse a uma das muitas jovens atraentes e de boas famílias com quem se cruzava na corte. Tinha acontecido o mesmo ao czar Alexandre II quando era mais novo, por isso ele sabia bem que tal podia acontecer e até o aceitava até certo ponto. A princesa Maria Elimovna Mescherskaya era uma das damas-de-companhia mais jovens da czarina e particularmente bonita: "toda ela tinha algo de oriental, principalmente nos seus olhos escuros e aveludados que deixavam todos fascinadas", recordou um amigo. Maria conseguia despertar o lado mais gentil de Alexandre e ele conseguia falar facilmente com ela: a relação entre eles parecia durar já há algum tempo e estar sólida na altura em que Nicolau morreu. Além de todos os outros deveres que herdou, foi-lhe também transmitido que teria de contrair um casamento adequado - com Dagmar, que tinha conhecido pela primeira vez no leito de morte do irmão. Em inícios de Julho, quando os seus pais estavam a pressionar os dinamarqueses para enviar Dagmar para uma visita, Alexandre decidiu cortar todos os laços com Maria, uma decisão que foi extremamente difícil para ele. A ausência da dama-de-companhia magoou-me porque ele estava habituado a vê-la todos os dias. Gostava das conversas que tinham e ansiava por elas: tendo em conta o facto de não se sentir à vontade perto de outras pessoas, devia ser particularmente difícil encontrar alguém com quem conseguisse falar facilmente e com prazer. No entanto, apesar de tudo, esforçou-se por se habituar à ideia de que se teria de casar com Dagmar.

Maria Elimovna Mescherskaya
No entanto, alguns meses depois, Alexandre perdeu a coragem. Era difícil evitar Maria e o amor que sentiam um pelo outro tornou-se ainda mais forte ao longo da primavera e outono de 1865. À medida que o ano de luto obrigatório chegava ao fim, Alexandre sabia que teria de tomar uma decisão. O seu pai já o tinha avisado de que, assim que o período de luto terminasse, ele teria de viajar até à Dinamarca e que já estavam a decorrer os preparativos para o casamento. Em inícios de Abril, Alexandre escreveu novamente no seu diário que teria de interromper as visitas a Maria. "Vou-me despedir da M.E. que amei como nunca amei mais ninguém até hoje e a quem estou agradecido por tudo o que fez por mim: o bom e o mau". Alexandre tinha a certeza daquilo que sentia, mas não sabia o que pensava a sua amada, mas recordava as suas longas conversas a sós e as dificuldades que tinham passado com saudade e nostalgia. No entanto, bastaram apenas algumas semanas para Alexandre se aperceber novamente que não se conseguia separar dela e, em finais de Maio, prestes a partir para a Dinamarca, tomou uma decisão muito difícil. Queria libertar-se das paredes que se fechavam à sua volta. Não conseguia sentir nada por Dagmar e começava a achar que a única solução era renunciar dos seus direitos ao trono. "Não me sinto capaz de governar. Tenho pouco respeito pelas pessoas e farto-me de tudo o que está relacionado com a minha posição". Alexandre queria viver novamente a vida despreocupada de um irmão mais novo e queria casar-se com Maria Elimovna.

Alexandre Alexandrovich
Não se sabe bem como, mas os jornais ficaram a saber desta história e foram publicados artigos sobre o romance entre Alexandre e a princesa Mescherskaya na Dinamarca, onde, compreensivelmente, causaram alguma preocupação. O czar mandou chamar o filho e perguntou-lhe se havia verdade nos rumores. Confrontado com uma pergunta tão directa, Alexandre admitiu que não queria casar-se com Dagmar. O czar deu-lhe um dia para pensar. A 31 de Maio, quando a sua partida para a Dinamarca estava eminente, Alexandre foi dar um passeio com os pais, passou algum tempo sozinho com a mãe e depois foi enfrentar o pai a quem anunciou que não iria à Dinamarca. Quando o czar lhe perguntou os motivos para ter tomado essa decisão e o questionou sobre o que sentia por Maria, Alexandre confessou sem rodeios que tinha decidido abdicar dos seus direitos ao trono.

Alexandre Alexandrovich
Esta notícia apanhou o czar num momento vulnerável. Algumas semanas antes, Alexandre II tinha escapado por pouco a uma tentativa de assassinato que o deixou abalado. Havia várias coisas que o preocupavam: morte do filho mais velho, a esposa completamente entregue à sua dor, e uma obsessão que durava já há quase um ano pela princesa Dolgorukaya que, na altura, ainda resistia aos seus avanços. Talvez noutras circunstâncias Alexandre tivesse compreendido, mas, naquele dia, perdeu completamente o controlo e disse ao filho que também ele ocupava uma posição que nunca tinha desejado. Tanto ele como o filho tinham de colocar o dever em primeiro lugar. O czar já não estava disposto a ter paciência e a pena que sentia pelo filho estava por um fio, por isso ordenou-lhe que fosse até à Dinamarca e deixou bem claro que a princesa Mescherskaya já não estaria na corte quando ele regressasse. Talvez fosse a culpa que ele próprio sentia que intensificaram a raiva do czar. Alexandre não teve sequer oportunidade de se defender, foi simplesmente dispensado a sentir-se miserável.

Alexandre (esq) com o pai e os irmãos Alexei e Vladimir
No dia seguinte, Alexandre embarcou no iate imperial com destino à Dinamarca, juntamente com o seu irmão Vladimir. Seria difícil imaginar circunstâncias menos favoráveis do que estas, mas, alguns dias depois de chegar, Alexandre enviou uma carta com boas notícias para casa: afinal achava que, com o tempo, iria conseguir gostar de Dagmar. Como já tinha acontecido noutras ocasiões, Alexandre não tinha a certeza dos seus sentimentos, o que o deixava preocupado, mas agora estava preparado para seguir em frente com esperança. O ponto essencial para esta mudança de opinião parece ter sido o amor e dor que tanto ele como Dagmar sentiam pela perda de Nicolau e também a sensação de que ela já fazia parte da família. Foram precisos mais alguns dias para Alexandre ganhar coragem e falar de casamento, mas, quando o fez, os dois compreenderam-se imediatamente. Alexandre ainda mal tinha acabado de falar quando Dagmar o abraçou e os dois começaram a chorar. Nesse momento, todos os seus pensamentos e palavras foram para Nicolau. Alexandre garantiu-lhe que o seu irmão ficaria feliz por eles e perguntou-lhe se era capaz de o aceitar como substituto dele. Dagmar disse-lhe que os iria amar sempre aos dois e, depois, o novo casal abraçou-se e ficou a falar sobre Nicolau, a trocar memórias que tinham dele e que ainda estavam frescas nas suas mentes.

Alexandre e Dagmar
O noivado foi anunciado e Alexandre regressou à Rússia. Inicialmente o casamento estava planeado para a primavera seguinte, mas o czar e a czarina mudaram rapidamente de ideias, insistindo que Dagmar devia mudar-se para a Rússia no outono para que o casamento se realizasse em Novembro. Talvez sentissem que a determinação do filho iria esmorecer se Dagmar não estivesse com ele ou que ele poderia sentir a falta da sua antiga vida se estivesse sozinho na Rússia. Mas talvez a sua maior preocupação fosse o facto de Alexandre não se conseguir adaptar à sua nova posição pública. Qualquer que fosse o motivo, Dagmar deixou a Dinamarca a 22 de Setembro, fazendo a sua entrada oficial em São Petersburgo ao lado do irmão a 29 de Setembro. Teve um mês para se preparar para a sua cerimónia de conversão à Igreja Ortodoxa Russa sob a orientação do arcebispo da Grande Capela do Palácio de Inverno e tudo isto não deve ter sido fácil uma vez que a jovem era constantemente confrontada com aquela que poderia ter sido a sua vida junto de Nicolau. Os aposentos dele no palácio e em Czarskoe Selo foram preservados tal como ele os tinha deixado, o seu rosto surgia em milhares de molduras e o corpo dele estava sepultado do outro lado do rio Neva, à vista do palácio. Muitos anos depois, Dagmar ainda chorava quando falava do seu primeiro noivo. Durante aquelas primeiras semanas, decidiu gastar todas as suas energias em festas e bailas, até receber um aviso gentil do pai de que tanta actividade lhe podia fazer mal à saúde.

Dagmar da Dinamarca
A 24 de Outubro, a princesa converteu-se e deixou os seus nomes de infância, passando, a partir desse dia, a chamar-se Maria Feodorovna. No entanto, a família preservou a sua alcunha, Minny. O casamento realizou-se catorze dias depois. Pouco depois do meio dia foi disparada uma salva de tiros e, dentro do palácio, começaram as procissões. O czar e a czarina lideraram o cortejo que atravessou a capela até chegar à cúpula  de luz do altar, onde o arcebispo metropolitano de Novgorod e São Petersburgo estava à espera para os receber, a segurar um crucifixo que cada um deles beijou. Alexandre ia logo a seguir aos pais, depois vinha a sua noiva, depois o princesa de Gales e as princesas-herdeiras da Prússia e da Dinamarca. Atrás deles vinham os irmãos mais novos e a irmã de Alexandre, assim como outros membros da família imperial. Quem observou a cerimónia, reparou que o arcebispo teve um cuidado especial com as crianças, baixando-se para as ajudar a beijar a cruz. O esplendor deve ter sido quase avassalador e, quando o dia chegou ao fim, o ministro do interior, Peter Valuyev, escreveu no seu diário que tinha visto Maria cansada pela primeira vez e que tinha, por momentos, perdido a força de vontade que a tinha levado até ali.

Maria Feodorovna e Alexandre (futuro Alexandre III)
No entanto, Maria recuperou rapidamente a sua energia e a sua capacidade de encantar todos aqueles que a conheciam. Desde o início que tanto ela como Alexandre mostraram o afecto que sentiam um pelo outro em público, assim como não escondiam de ninguém quando estavam irritados um com o outro. O pai de Maria, o rei Cristiano, comentou com agrado que, depois de um desentendimento, os dois mostravam-se ainda mais felizes um com o outro. O facto de os dois se entenderem bem em privado foi excelente uma vez que Alexandre teve sempre dificuldades em aceitar o seu papel público. Não gostava de ter de aparecer em público, mesmo perante pessoas simples que viajavam vários quilómetros só para o ver passar ao longe. Quando era obrigado a aparecer em público, muitas vezes recusava-se e ficava amuado e difícil, ficando de mau humor no final da tarefa. No entanto, Maria Feodorovna possuía o talento social que faltava ao marido e, felizmente, mesmo quando o mau humor dele a magoava, parecia compreendê-lo profundamente, ajudando-o a ultrapassar as suas dificuldades. Com o passar do tempo, a força que ela mostrava em todas as situações começou a ajudá-lo a adaptar-se. Na verdade, o facto de ele se ter tornado num dos czares mais admirados da Rússia deveu-se tanto a Maria quanto a ele. No final de 1866, um ano que tinha sido tão monumental para ambos, Alexandre escreveu no seu diário que ainda não se sentia digno da sua esposa, mas que estava determinado a melhorar para se sentir adequado. Compreendia tudo aquilo que ela tinha feito por ele e estava ansioso por aumentar a sua felicidade. A rápida sucessão dos acontecimentos que o tinha atirado para a segunda posição mais importante do império, como herdeiro do trono, e o tinham levado a casar com a mulher que o seu irmão tinha amado ao longo de vários anos ainda o deixavam assombrado: "acho difícil que alguém tenha passado pelas mesmas mudanças que passei".

Alexandre III e Maria Feodorovna
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Segunda Parte

Alexandre Alexandrovich
Com alguma relutância, Nicolau I deu autorização ao filho para convalescer em Itália, mas, em finais de Janeiro de 1839, a comitiva já estava novamente em viagem, desta vez pelas cortes da Alemanha. Não era segredo que Alexandre estava à procura de uma esposa. Os seus pais tinham esperança que gostasse da princesa Alexandrina de Baden, mas a jovem de dezoito anos não despertou qualquer sentimento em Alexandre. A partir da corte do pai dela, em Karlsruhe, Alexandre avançou para Heidelberg, mas estava normalmente a sentir-se exausto e, a 12 de Março, o general Kavelin sugeriu uma paragem não-planeada em Darmstadt. Alexandre queria uma noite descansada, mas o grão-duque de Hesse tinha outros planos, convidando o czarevich e a sua comitiva para o teatro e, depois, para jantar. A maioria sentia-se demasiado cansada para ir, mas Alexandre não podia recusar. "Foi só na manhã seguinte", contou Zhukovsky aos pais dele, "que fiquei a saber o que tinha acontecido na noite anterior. Dizer que estava feliz não chega (...). Atingimos o objectivo da nossa viagem".

Darmstadt em 1830
Alexandre ficou paralisado quando viu a filha do grão-duque. Aos catorze anos de idade, Maria de Hesse-Darmstadt ainda era uma criança, mas era alta para a idade e inteligente. Também se sentia sozinha, sentia a falta da mãe que a tinha criado longe da corte e que tinha morrido de tuberculose quando Maria tinha apenas onze anos de idade. Durante um curto período de tempo, quando Maria era mais nova, os seus pais tinham-se separado e havia rumores em todas as cortes da Europa de que o grão-duque não era o seu pai biológico. Nem toda a gente em Darmstadt era simpática para Maria e Alexandre era demasiado sensível para resistir à combinação da sua juventude, beleza e infelicidade. A sua comitiva ficou em Darmstadt durante alguns dias e, quando chegou a altura de partir, Alexandre levou consigo um medalhão com uma madeixa de cabelo de Maria.

Maria de Hesse-Darmstadt
Na noite de 19 de Março, Alexandre chegou a Haia onde iria passar um mês com a sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, princesa de Orange, e a família dela para comemorar a Páscoa e o seu vigésimo-primeiro aniversário. "O Sasha foi encantador no seu uniforme de cossaco, que lhe fica maravilhosamente bem.", escreveu Ana ao seu irmão nessa noite. "O bigode pequenino dele está a crescer e, quanto à aparência, posso dizer-te que o acho um jovem muito bonito". Os dias em Haia eram passados tranquilamente, a fazer visitas e escrever cartas, e, à noite, Alexandre fazia companhia à tia à hora do chá. É possível que lhe tenha falado de Maria, pelo menos é essa a ideia que a grã-duquesa Ana transmite numa outra carta dirigida ao irmão: "tenho a certeza que a diferença de locais e ambiente não o distraíram do objectivo principal que o devia ocupar". Ana ficou encantada com o seu sobrinho: "tem muito tacto, graciosidade e dignidade", escreveu ela, "com uma naturalidade que encanta".

Ana Pavlovna, princesa de Orange
A 20 de Abril, Alexandre deixou Haia e partiu para Inglaterra para mais uma visita de sucesso. A rainha Vitória, que era um ano mais nova do que ele e ainda solteira, achou a naturalidade tão encantadora como a sua tia tinha achado. Alexandre ficou no país um mês e foi recebido com entusiasmo por todo o lado. A 29 de Maio regressou a Haia e, depois, com a autorização dos pais, voltou a Darmstadt onde já tinham começado as negociações preliminares para o seu casamento com Maria.


A rainha Vitória em 1838

Existe uma história contada desde sempre e, por isso, dada como verdadeira, de que o czar Nicolau I estava contra o noivado e manteve a sua posição durante um ano, obrigando o filho a lutar por aquilo que queria. Almedingen descreveu como o czar, furioso, exigiu que Alexandre regressasse à Rússia após a primeira visita a Darmstadt, e escreve que Alexandre voltou para enfrentar a fúria do pai antes de continuar a sua viagem pelas cortes europeias. Apesar de este cenário parecer familiar, não há provas que o sustentem. A comitiva de Alexandre chegou a Darmstadt a 12 de Março e ficou lá durante alguns dias, chegando a Haia no dia 19. Sendo que na altura não tinham um meio de transporte mais rápido do que um cavalo, seria impossível incluir uma visita a São Petersburgo neste período de tempo, mesmo que o czar a tivesse ordenado, e, além disso, não existem sinais de que Nicolau estivesse realmente contra a união: o que o czar queria realmente era ver o filho bem casado. Em Abril, o embaixador austríaco em São Petersburgo reportou que o czar tinha aceite a aliança de Hesse e que a tinha comunicado ao seu próprio governo. Em Maio, Nicolau escreveu ao seu cunhado, o príncipe de Orange, e, ao referir-se ao seu sobrinho, o filho mais velho da sua irmã, acrescentou: "também o meu filho já encontrou o seu amor. Vamos ver o que irá acontecer. Pelo menos até agora, as belas jovens inglesas ainda não conseguiram ultrapassar Darmstadt". Havia apenas um motivo pelo qual Alexandre teria de esperar para o casamento: o facto de Maria ainda não ter sequer quinze anos de idade.

Maria de Hesse-Darmstadt
Após uma breve visita à família de Hesse, Alexandre regressou à Rússia, onde o seu pai o começou a incluir nos assuntos de estado e, à medida que o ano ia passando, o czarevich preparava-se para regressar a Darmstadt. O seu pai era da opinião de que ele não podia tomar uma decisão definitiva enquanto não visse a princesa novamente. O czar e a czarina não iriam tentar influenciar o filho, "mas ficaríamos encantados se a decisão fosse afirmativa". O noivado foi anunciado em Abril. Nicolau I e Alexandra também estavam a viajar pela Europa nessa primavera e deram os parabéns a Alexandre e Maria pessoalmente em Frankfurt, nesse mês de Junho. Em Agosto, algumas semanas depois de Maria completar dezasseis anos de idade, a família viajou em conjunto para a Rússia. A 28 de Abril de 1841, na véspera do dia em que Alexandre completou vinte-e-três anos de idade, os dois casaram-se na capela do Palácio de Inverno.

Maria Alexandrovna e o futuro czar Alexandre II
O casamento trouxe a Alexandre um nível de felicidade pessoal que ele já não sentia desde antes de o seu pai subir ao trono. Alexandre e Maria (agora conhecida como Maria Alexandrovna) eram jovens, interessavam-se por literatura, música e poesia, e a sua corte tornou-se no ponto principal dos seus amigos que partilhavam dos mesmos gostos. A maioria das suas noites eram passadas a dançar, a ouvir música, a ler em voz alta e a trocar ideias. A sua primeira filha, Alexandra, nasceu em Czarskoe Selo no verão de 1842 e um filho, Nicolau, nasceu um ano depois. Com o seu nascimento, a linha de sucessão ficou garantida e os avós ficaram encantados. Depois nasceram Alexandre, Vladimir, Alexei, Maria... Alexandre era um pai dedicado. As paredes do seu escritório em Czarskoe Selo estavam cobertas de retratos da sua esposa e filhos e a sua secretária quase transbordava com miniaturas deles. As crianças brincavam ao lado dele enquanto ele trabalhava. A pequena Alexandra morreu de meningite tuberculosa oito semanas antes de completar sete anos de idade e Alexandre guardou cuidadosamente o seu vestido de seda azul o resto da sua vida. A pequena grã-duquesa tinha um lugar especial no coração do pai. Muitos anos depois da sua morte, quando a sua outra filha, Maria, estava prestes a casar, Alexandre contou a Lady Augusta Stanley sobre a criança que tinha perdido, que "era tão dedicada a ele que costumava pedir para ficar na mesma divisão do pai, mesmo quando ele estava ocupado, e ficava lá durante longas horas, em silêncio, só para poder ver o papá".

Alexandre com os seus dois filhos mais velhos, Alexandra e Nicolau
Mas Alexandre e Maria Alexandrovna partilhavam mais do que os filhos. Alexandre estava já envolvido activamente no governo do seu pai e pedia a opinião da sua esposa para tudo. Levava os papéis de estado para casa e os dois liam e discutiam os mesmos entre si. Alexandre respeitava o bom senso de Maria, assim como o da sua tia Helena Pavlovna, que se tinha tornado na amiga mais chegada de Maria dentro da família imperial. Juntos, o jovem casal lia as obras acabadas de publicar de Turgenev e Gogol, que estavam na mira da censura oficial. Juntos, estudavam os relatórios mais recentes sobre o estado do país, que eram demasiado controversos para mostrar ao czar. Zhukovsky ainda estava por perto e continuava a incentivar Alexandre: "o teu coração deseja sinceramente o maior bem e, um dia, terás grande poder nas tuas mãos (...) mas terás de saber o que fazer (...) assim que souberes que uma medida é boa, a sua aceitação deve ser imediatamente seguida da sua concretização".

Alexandre Alexandrovich
Em 1842, Alexandre liderou um comité que o seu pai tinha convocado para alterar as condições da servidão. Os seus objectivos eram limitados, mas isso não impediu uma tempestade de protestos. Havia interesses ocultos na Rússia que estavam decididos a preservar o sistema tal como ele estava. As acções do comité foram atrasadas pela burocracia. O descontentamento aumentou. Em algumas zonas, a esperança numa reforma foi arrasada e, quando isso aconteceu, os camponeses tornaram-se violentos ou abandonaram as suas terras. Noutros locais também houve violência, mas pelo motivo contrário: os camponeses temiam a mudança. Era um ambiente caótico e desmotivante e a única resposta do czar Nicolau I foi aumentar ainda mais a repressão. Esta atitude prolongou-se ao longo da década de 1840. Com uma censura rigorosa e castigos medievais, Nicolau I tentou proteger a Rússia dos pedidos de mudança que se estavam a espalhar por toda a Europa, mas não havia nada que conseguisse silenciar a fúria no país. No entanto, Alexandre que, na altura, era já uma figura central do governo, não foi culpado por nenhuma destas políticas. Ainda havia uma aura dourada à sua volta.

Nicolau I da Rússia
O reinado de Nicolau aproximava-se do seu doloroso final. A partir de 1852, Alexandre viu o seu pai a entrar em conflito directo contra as grandes potências europeias. Ninguém queria que a Guerra da Crimeia acontecesse. Alexandre, que nunca se sentira como um verdadeiro soldado, detestava a ideia de ir para a guerra e percebeu imediatamente qual seria o resultado daquela em particular, mas não podia opôr-se ao pai. Era praticamente o regente do império, detendo todos os poderes à excepção do poder essencial para decidir a política geral, e Maria partilhava a sua ansiedade, à medida que ia procurando coragem nos evangelhos e nas cartas de Zhukovsky e assistia ao desenrolar dos acontecimentos. Não havia coragem suficiente do lado russo para compensar a falta de organização e de liderança. No início de 1855, Alexandre não aguentava mais e dispensou o comandante-em-chefe, substituindo-o por um homem da sua confiança. Dois dias depois, chegava a notícia de que o czar Nicolau I tinha morrido e que Alexandre se tinha tornado czar da Rússia. Tinha trinta-e-seis anos de idade e herdava um país perto do colapso.

Alexandre (esq) com o pai Nicolau I e o irmão Constantino Nikolaevich (dir).
Neste ponto baixo, havia mais esperança no seu reinado do que nunca. Nos seus primeiros meses de reinado, Alexandre aliviou a censura e levantou as restrições que tinham sido impostas a viagens ao estrangeiro. Mais tarde, iria abolir a pena capital e o castigo por chicotadas. Os responsáveis pela Revolta Dezembrista foram finalmente libertados. Até os maiores inimigos do regime esperavam que Alexandre conseguisse um milagre. Em Inglaterra, um socialista exilado, Alexander Herzen, editor do diário Kolokol (O Sino) fez uma promessa extraordinária. Disse que iria abandonar a oposição "porque tenho em mim a esperança de que o czar fará algo pela Rússia. Majestade, dê liberdade à palavra russa (...) dê-nos liberdade de expressão (...) dê a terra aos camponeses". Foi um momento extraordinário. Tudo parecia possível, e as pombas voavam por toda a Rússia.

Fogo de artíficio na coroação de Alexandre II em 1856
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Primeira Parte

A imperatriz Alexandra Feodorovna com os seus dois filhos mais velhos: Maria e Alexandre
Em meados do século XIX, a ideia de um trono passar pacificamente de pai para filho era uma novidade na Rússia, onde, ao longo de duzentos anos, a sucessão tinha sido problemática e, muitas vezes, violenta. Alexandre I tornou-se czar após o assassinato do pai e muitos suspeitavam que ele tinha estado envolvido no mesmo; a sombra dessa dúvida nunca o abandonou. O seu irmão mais novo foi obrigado a subir ao trono que não queria devido à repressão violenta da Revolta Dezembrista. Por isso, quando Nicolau I morreu na sua cama e deixou um filho capaz, com experiência e pronto para assumir o governo do país, até os inimigos da dinastia estavam prontos para acreditar num futuro melhor. Mas este tipo de esperança já rodeava o czar desde o seu nascimento.

Alexandre II com a sua irmã Maria Nikolaevna
Os presságios favoráveis e ruinosos acompanham sempre os príncipes como uma sombra. Quando a criança que se tornaria no "Czar Libertador" da Rússia nasceu no Kremlin em Abril de 1818, todos os sinos de Moscovo estavam a tocar para celebrar a Páscoa. Diz-se que um bando de pombas brancas sobrevoou o telhado do Mosteiro Chudov, onde, tradicionalmente, os bebés imperiais eram baptizados. Muitas vezes repetida, esta história acabaria por simbolizar o pesado fardo de esperança e expectativa que Alexandre Nikolaevich sempre carregou consigo. Ao descrever o seu nascimento muitos anos depois, a sua mãe lembra-se de se ter sentido "um tanto solene e melancólica, ao pensar que aquele menino seria um dia o imperador". 

Alexandre Nikolaevich
Existem pequenos vislumbres da infância de Alexandre Nikolaevich nas cartas da sua avó, a imperatriz Maria Feodorovna. "O menino (...) muda todos os dias. É uma criança encantadora (...) sobe às árvores, mas acho que consegue livrar-se das situações mais perigosas. Baloiça-se nos ramos, salta por todo o lado (...) o Sasha é ágil como um macaquinho". Protegido por uma família anormalmente chegada e afectuosa, Alexandre não tinha noção da importância da sua posição. O seu pai, o grão-duque Nicolau Pavlovich, era severo, mas também sabia dar o braço a torcer e brincar com os filhos nas alturas certas e, muitas vezes, tinha um papel activo nos seus jogos. Quando Alexandre tinha seis anos de idade, o gentil capitão Karl Merder foi nomeado para substituir as suas amas e governantas, mas o padrão pacifico da sua vida não foi perturbado por esta mudança.


Alexandre com a sua irmã Maria Nikolaevna
Uma outra mudança que teve um impacto mais palpável aconteceu em 1825, quando o seu pai Nicolau subiu ao trono da Rússia num período de caos e violência. Quando os Dezembristas dispararam os primeiros tiros na Praça do Senado, a ideia de russos a derramar sangue uns dos outros parecia uma novidade assustadora, no entanto, com o passar do tempo, tornar-se-ia em algo demasiado familiar. O pequeno Alexandre não deve ter percebido o que estava a acontecer à sua volta. Durante alguns dias mais tensos, teve de sair de sua casa e foi colocado sob a protecção dos Guardas Finlandeses, no pátio iluminado a tochas do Palácio de Inverno, e ficou ao lado da sua mãe destroçada enquanto ela rezava pela protecção do marido. Foi uma apresentação assustadora ao mundo do poder político. Desde cedo que Alexandre começou a ser educado para levar a cabo as reformas que a Rússia tanto precisavam nas temia as forças que as reformas mal executadas poderiam libertar. A sombra daqueles dias de Dezembro nunca o abandonou. Mas nunca houve um príncipe melhor preparado do que ele: em 1826, Nicolau I ofereceu ao poeta Zhukovsky a posição de tutor do herdeiro, em parceria com Merder.

Alexandre Nikolaevich
Perante os acontecimentos, Zhukovsky parece ter sido uma escolha improvável. Filho ilegítimo de um proprietário das províncias, a sua mãe tinha sido uma refém adolescente, levada para a Rússia depois de uma das guerras do império contra a Turquia. O seu pai proporcionou-lhe uma boa educação, com o objectivo de o preparar para o serviço público, mas o jovem Zhukovsky nunca se sentiu atraído por essa área. Foi andando de emprego em emprego até que os seus poemas chamaram a atenção da imperatriz-viúva Maria Feodorovna. Foi na sua casa que Zhukovsky floresceu e, quando o seu filho Nicolau casou com a princesa de Berlim, o poeta foi o escolhido para lhe ensinar a língua russa. Seria Alexandra a pedir ao marido para nomear Zhukovsky para tutor do seu filho mais velho. O poeta mostrou ser imune às tentações da vida na corte. Honesto e idealista, dizia aquilo que pensava sem temer represálias e nunca se aproveitou da sua posição privilegiada junto dos imperadores. Acabaria por morrer relativamente pobre.

Vasily Zhukovsky, tutor de Alexandre.
Ainda antes de iniciar o seu trabalho, Zhukovsky emitiu um proteste veemente contra a introdução do czarevich de oito anos à vida militar. Tinha sido permitido ao rapaz andar de cavalo ao lado das tropas durante a parada da coroação do seu pai: as multidões adoraram o momento e Nicolau não conseguiu esconder o seu orgulho, mas Merder reparou que Alexandre ficou demasiado entusiasmado depois e não se conseguia concentrar nas suas lições. "Senhora, perdoe-me," escreveu Zhukovsky à czarina, "uma paixão demasiado desenvolvida pela arte da guerra - mesmo se encorajada durante uma parada - seria prejudicial para o corpo e para a mente (...) ele acabaria por ver o seu povo como um regimento gigantesco e o seu país como um quartel". Inicialmente, o czar ficou furioso, mas quando o tutor ameaçou demitir-se, acabou por ceder e ouviu as ideias do poeta.

Alexandre Nikolaevich
Zhukovsky definiu um programa de estudos de nove anos para o czarevich. Alexandre teria dois colegas com quem iria partilhar as suas lições, num ambiente escolar estruturado que não deveria ser interrompido por qualquer dever cerimonial. Os três iriam dormir, comer, trabalhar e brincar juntos: a competição entre eles eram mal vista, e os rapazes foram encorajados a discutir os livros que andavam a ler uns com os outros, assim como a escrever diários. As áreas mais importantes da sua formação foram história, línguas e uma temática religiosa. À medida que foram progredindo, os rapazes também começaram a aprender ciências, direito e filosofia. O bom-comportamento era recompensado com a oportunidade de colocar dinheiro na caixa para os pobres - algo que poderia ser uma receita para o desastre noutras salas-de-aula. O treino militar era uma parte secundária do programa, durante o qual aprendiam esgrima, ginástica e equitação. Aos domingos as aulas eram substituídas por trabalhos manuais e passeios.

Alexandre Nikolaevich
Quando estava bem-disposto, Alexandre era uma criança educada e honesta, era visivelmente inteligente e tinha uma natureza generosa. Ficava comovido com qualquer sinal de sofrimento e tristeza. Mas, apesar de tudo, não deixava de ser um rapaz normal que também tinha momentos de travessuras e preguiça, e os seus tutores repararam que tinha a tendência preocupante de transformar qualquer pequeno percalço numa crise. Chorava com demasiada facilidade e, muitas vezes, sem motivo. Com paciência e com o passar do tempo, Zhukovsky descobriu temia a sua herança, por ter ainda na memória a violência da Revolta Dezembrista, que associava à subida ao poder do pai. Alexandre tinha onze anos quando a sua mãe deu à luz um segundo filho varão. Alexandre terá dito: "Estou tão feliz. Assim o papá vai poder escolhê-lo a ele para herdeiro".

Nicolau I (centro) com Alexandre (esquerda), Constantino (direita), Nicolau e Miguel durante a Guerra da Crimeia.
Apesar de Zhukovsky ser gentil, o seu idealismo exacerbado também pode ter contribuído para os medos do seu aluno. Em certa ocasião, deu a Alexandre um ensaio no qual definia aquele que, do seu ponto de vista, era o governante ideal, e o futuro czar guardou-o consigo o resto da vida. "Respeita a lei," escreveu Zhukovsky, "uma lei que seja negligenciada pelo czar nunca será cumprida pelo povo (...). Respeita a opinião pública, pois esta ilumina muitas vezes o soberano (...). Governa pela ordem, não pelo poder (...). Ama o teu povo; a não ser que o czar ame o seu povo, o povo não pode amar o seu czar". O tutor também deixou a seguinte nota na secretária de Alexandre: "Serás tu a entrar na História um dia. Isso é inevitável pelo acaso do teu nascimento. A História irá julgar-te antes do resto do mundo e esse julgamento será para todo o sempre". Era uma perspectiva aterrorizante para um rapaz de onze anos.

Alexandre Nikolaevich
Nesse mesmo ano, em 1829, Alexandre participou em manobras militares pela primeira vez. O seu pai notou uma certa falta de entusiasmo, o que levou ao aumento das tensões entre o czar e os tutores do filho. Nicolau queria que se desse mais importância às ciências militares e ficou chocado quando Zhukovsky escolheu para tutor de História do filho o professor Arseniev, que tinha sido expulso da universidade onde dava aulas por ter atacado a corrupção do sistema judicial. Zhukovsky argumentou que Alexandre tinha de compreender em que estado se encontrava realmente o país. Um professor de religião de quem ele gostava particularmente foi dispensado devido às suas simpatias por dissidentes. À medida que as tensões entre a escola e a corte aumentavam, Alexandre começou a levar as aulas menos a sério e a discutir com os seus companheiros. Em 1832, Merder sofreu um pequeno ataque cardíaco. Arseniev culpou Alexandre pelo sucedido e ele desfez-se em lágrimas e prometeu que se iria portar melhor.


Alexandre Nikolaevich
Alexandre estava prestes a iniciar uma nova etapa da sua vida. Em 1834, quando fez dezasseis anos de idade, tornou-se no primeiro príncipe Romanov a fazer um juramento de lealdade ao czar - com o passar do tempo, este iria tornar-se num ritual de passagem importante para todos os homens da família imperial. As palavras e o cenário eram esmagadores: na capela do Palácio de Inverno, perante uma congregação de cortesãos, representantes do governo, convidados estrangeiros e do clero, o jovem prometeu obedecer ao pai "em tudo, sem poupar o meu corpo, até à minha última gota de sangue". "Pushkin recordou que todos os presentes "ficaram profundamente comovidos". Muitos não conseguiram segurar as lágrimas. Alexandre herdou a sua fortuna naquele dia e, por opção própria, ofereceu quantias de dinheiro generosas aos governadores-gerais de São Petersburgo e Moscovo para que eles as distribuíssem pelos pobres. Só muito mais tarde é que soube que Merder, que tinha ido para Itália para descansar e recuperar a saúde, tinha sofrido outro ataque cardíaco alguns dias antes da cerimónia e que a última palavra que tinha dito antes de morrer tinha sido o nome do seu aluno.


Alexandre Nikolaevich
O czarevich voltou para a sala de aulas com a determinação de ter sucesso. Sentia-se culpado e triste por Merder e a única forma que encontrou para se sentir melhor foi através do trabalho. Ainda faltavam três anos para concluir o sistema de nove criado por Zhukovsky e, no exame final, o jovem de dezanove anos mostrou que dominava várias áreas de conhecimento e que possuía uma compreensão profunda do mundo à sua volta. Mas, além das aulas, Alexandre também passou os seus três últimos anos de estudo a conhecer a sociedade. Todos os queriam ver e, para um rapaz habituado a camas de campanha e a salas-de-aula funcionais, esta nova vida deve ter parecido cheia de tentações. Inevitavelmente, começaram a surgir alguns rumores de que o czarevich estava apaixonado, mas nada escandaloso. Além do mais, Alexandre detestava lisonjas. Não demorou muito até toda a corte estar rendida ao seu futuro imperador.

Alexandre Nikolaevich
Com a sua educação formal concluída, Alexandre foi enviado para uma visita de sete meses pela Rússia, com uma agenda de visitas exigente elaborada pelo pai. Na companhia de Zhukovsky e do General Kavelin, o substituto de Merder, o herdeiro viajou por todo o país a uma velocidade estonteante. "Até quando estamos na cama à noite," queixou-se Zhukovsky à czarina, "sentimos que ainda estamos a galopar". As vilas que iam surgindo pelo caminho organizaram recepções civis, missas nas igrejas, banquetes e bailes, e os dignitários locais faziam fila para conhecer o seu futuro governante. Os camponeses faziam caminhadas de vários quilómetros só para ver a carruagem de Alexandre a passar. O grupo visitou escolas, hospitais, fábricas, instituições caritativas e igrejas; Alexandre observava e ouvia com interesse, mas sabia que ainda lhe faltava ver muita coisa.

Alexandre Nikolaevich
Alexandre começou a pedir para parar nas aldeias mais sujas e negligenciadas, nas quais saía da carruagem e caminhava, entrando nas cabanas dos camponeses como convidado. Não se importava que estas visitas não planeadas atrasassem a sua agenda. Para os camponeses devem ter parecido visitas fora deste mundo, mas se alguém se sentisse demasiado intimidado para falar, pelo menos Alexandre podia ver com os seus próprios olhos como viviam. O seu itinerário incluía uma visita à Sibéria, onde a família imperial nunca tinha estado. Enquanto lá esteve, decidiu ir visitar os campos de prisioneiros para falar com eles enquanto estes arrastavam as suas correntes. Em Tobolsk, fez um desvio especial para conhecer os Dezembristas exilados, responsáveis por uma rebelião da qual ele tinha as piores recordações. As condições do seu exílio deixaram-no de tal forma chocado que Alexandre escreveu uma carta arrebatadora ao pai a pedir-lhe clemência. O czar ouviu, mas não fez nada.

Nicolau I e Alexandre Nikolaevich
É fácil ver estas histórias com algum cinismo. Alexandre vinha do nível mais privilegiado da sociedade e quando a sua visita acabasse, ele podia regressar aos seus palácios. Mas os seus sentimentos eram genuínos e duradouros: ele insistiu em ver o verdadeiro estado em que se encontrava a Rússia, e não admira que tenha sido a fonte de grandes esperanças. O desafio seria quando o seu desejo de fazer o bem tivesse de ser traduzido em acções políticas duras. Nessa altura, as certezas dos ensinamentos de Zhukovsky, de que a opinião pública ficaria sempre do lado de um governante justo, e de que, se um governante que amasse o seu povo, este iria sempre amá-lo em troca, já não fariam tanto sentido.


Alexandre Alexandrovich
No entanto, por agora, tudo o que Alexandre fazia se transformava em ouro. A Rússia adorava-o e a sua missão seguinte seria uma digressão pela Europa pela qual os seus pais ansiavam com urgência uma vez que os rumores sobre as paixões de Alexandre se tinham transformado em realidade. Em inícios de 1838, Alexandre tinha-se apaixonado profundamente por uma dama-de-companhia polaca chamada Olga Kalinovskaya e, apesar de o czarevich saber que nunca se poderia casar com ela, os pensamentos de como poderia ser uma vida ao pé dela atormentavam-no. Alexandre iria apaixonar-se com demasiada facilidade e demasiado envolvimento o resto da vida. O seu pai compreendia-o e estava ansioso por o levar a conhecer o mundo, por o manter ocupado e por lhe encontrar uma esposa adequada. O czar planeou um calendário exaustivo para o filho que Alexandre seguiu com vontade, mas não demorou muito até o ritmo o começar a afectar. No início do verão de 1838, quando se encontrava em Copenhaga, Alexandre apanhou uma constipação que rapidamente se agravou e transformou numa bronquite que o obrigou a passar vários dias de cama. Finalmente a sua comitiva chegou até Ems, mas acabaram por ficar retidos na cidade durante três meses, devido aos ataques de tosse agoniantes e às febres que o czarevich não conseguia curar. Durante o resto da viagem, sofreu de asma.

Olga Kalinovskaya 

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat