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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Nota Yurovsky (1922) - Primeira Parte

Yakov Yurovsky

Nos primeiros dias de Julho de 1918, recebi uma ordem da parte dos deputados dos Urais do Comité Executivo de trabalhadores, camponeses e soldados soviéticos que me elevaram à posição de Comandante da chamada Casa do Propósito Especial, na qual se encontravam o czar Nicolau II, a sua família e alguns criados chegados a eles.

Entre 7 e 8 de Julho, parti, juntamente com o presidente do Comité Executivo Regional dos Soviéticos dos Urais, o camarada Beloboridov, para a Casa do Propósito Especial, onde substituí o antigo comandante, o camarada Avdeyev. Deve dizer-se que o camarada Avdeyev, assim como o seu assistente, o camarada Ukraintzev, cuidaram dos seus deveres de maneira descuidada no que diz respeito à guarda do czar que, na opinião deles, devia ter sido liquidado imediatamente. Esta atitude reflectiu-se irremediavelmente na moral dos antigos trabalhadores da Fábrica Zlokazovky que se tinham tornado guardas da casa, assim como dos soldados do Exército Vermelho da Fábrica Syseretsky. Já há algum tempo que os trabalhadores diziam que Nicolau e a sua família deviam ter sido mortos para não gastarem o dinheiro das pessoas a manter guardas e tudo o mais. Contudo, nesta altura, o Comité Central ainda não tinha tomado nenhuma decisão definitiva sobre esta questão e era necessário tomar medidas para que os guardas tivessem o mais alto nível de conduta possível. Deve dizer-se que nem o aparelho de comunicação que nos ligava ao regimento soviético e secções da guarda exterior, nem as metralhadoras que tinham sido arranjadas em vários locais funcionavam correctamente. Esta situação forçou-me a contratar alguns camaradas experientes que conhecia da Comissão Extraordinária regional onde tinha sido colega e membro. Desta forma, organizei a guarda interna, contratei novos metralhadores  um dos quais me recordo em particular: o camarada Tzsalms. Neste momento não me recordo dos apelidos de outros camaradas. Deve dizer-se que, em caso de incêndio, não se tomariam quaisquer precauções. Havia equipamento de fogos, havia um poço ao qual se poderia ir buscar água e organizei pessoalmente tudo o que fosse necessário em caso de incêndio. À medida que fui conhecendo os prisioneiros, reparei que estes ainda possuíam bens preciosos, nomeadamente nas mãos de Nicolau, bem como nas da sua família e criados – o cozinheiro Kharitonov, o criado de quarto Trupp e também no Dr. Botkin e na dama-de-companhia, Demidova. Entre os prisioneiros também havia um rapaz chamado Sednev, que servia o Alexei. Os bens de Nicolau estavam guardados em vários locais, dentro de casa e na zona do armazém. Propus organizar uma busca, mas o Comité Executivo não me deu autorização para tal.


A Casa Ipatiev
Deve compreender-se que esta busca não foi considerada necessária uma vez que, por esta altura, tinham acabado de descobrir um esquema que permitia a troca de cartas entre Nicolau e o mundo exterior. No entanto considerei que deixá-los ficar com os seus valores nesta altura poderia não ser seguro tendo em conta o facto de que tal poderia tentar alguns dos guardas, decidi, por minha própria conta e risco, retirar-lhes os bens valiosos que possuíam. Para tal, convidei o assistente do comandante, o camarada Nikulin para me acompanhar e pedi-lhe que documentasse estes bens. Nicolau e os filhos não mostraram descontentamento. O czar só pediu para deixarmos Alexei ficar com o relógio, uma vez que sem ele ficaria aborrecido. Contudo, Alexandra Feodorovna mostrou-se descontente e expressou-se em voz alta quando tentei retirar-lhe a pulseira de ouro do pulso, que se estendia por todo o seu braço e não podia retirar-se sem a ajuda de uma ferramenta. A mulher anunciou que usava aquela pulseira há vinte anos e que agora invadiam a sua privacidade para a tirar. Tendo em conta que as suas filhas possuíam pulseiras iguais, e que não pareciam particularmente valiosas, deixei-as ficar com elas. Depois de documentar estes objectos, pedi a caixa de jóias que Nicolau me entregou para colocar lá dentro todos os objectos. Selei-a com o selo de comandante e entreguei-a a Nicolau para que a guardasse. Quando os visitei para a inspecção, Nicolau entregou-me a caixa de jóias e disse-me: “A sua caixa de jóias está intacta.”


Nicolau e Alexandra na varanda da Casa do Governador em Tobolsk
Quanto a rações, inicialmente, a família recebia uma ração do soviete. Estas refeições estavam longe de ser luxuosas, mas decidimos impedir que chegassem refeições do exterior e estas começaram a ser preparadas na cozinha. Além disso, consegui descobrir que o mosteiro local conseguia entregar tortas coalhadas, manteiga, ovos e coisas parecidas à família. Decidi permitir que tal acontecesse, mas fiquei muito surpreendido por serem permitidas tais liberdades. Mais tarde descobri que o Comandante Avdeyev tinha permitido que tal acontecesse, mas que não permitia que grande parte chegasse à família, ficando com as ofertas para si e para os camaradas. Decidi que tudo o que chegasse para a família lhes devia ser entregue. Foi só no segundo ou no terceiro dia que descobri que as entregas tinham sido autorizadas pelo camarada Avdeyev. Decidi proibir todas as entregas, deixando entrar apenas leite. O Dr. Botkin disse-me que “só depois de ter nomeado nos últimos dois dias temos recebido tudo o que o mosteiro entregava e de repente não podemos receber nada outra vez, as crianças precisam de ser nutrridas, mas a nutrição é tão insuficiente que ficamos muito felizes por receber as entregas do mosteiro”. Contudo, recusei-me a entregar fosse o que fosse, a não ser o leite e decidi que essas entregas deviam ser distribuídas pela população de Ecaterimburgo, uma vez que todas elas eram produzidas na cidade. Pensei que, já que os meus prisioneiros não faziam nada, deviam dar-se por satisfeitos com a mesma ração que todos os cidadãos recebiam. Por esta razão, o cozinheiro Kharitonov anunciou-me que não conseguia preparar nada com meio quarteirão de carne, ao que lhe respondi que eles se deviam habituar a viver sem regalias. Tinham de aprender a sobreviver, como se estivessem presos.

Fosse difícil ou não, Kharitonov teve de começar a usar medidas e pesos exactos para que a quantidade chegasse para cada dia. Disse-lhe que não lhes seria fornecido mais nada caso acabassem com o que tinham antes do previsto.

Maria e Anastásia durante o exílio no Palácio de Alexandre
O quarto no qual se encontravam Alexandra Feodorovna e o herdeiro tinha janelas com saída para o quintal cuja vista da rua estava barricada com cercas de madeira. Alexandra dava-se ao luxo de espreitar pela janela com frequência e de se aproximar dela. No entanto, uma vez, Alexandra deu-se ao luxo de se aproximar demasiado dela. A sentinela ameaçou bater-lhe com uma baioneta, pelo que ela veio queixar-se a mim. Disse-lhe que não tinha permissão para espreitar pelas janelas.

Três ou quatro dias antes da execução, foi instalado um painel de ferro na janela de Alexandra Feodorovna. Por causa disso, o Dr. Botkin anunciou que seria bom se fossem instalados painéis em todas as outras janelas. O horário interior era o seguinte: de manhã levantavam-se todos antes das 10. Ás 10 aparecia eu para inspeccionar a aparência de todos os prisioneiros. Alexandra Feodorovna manifestou o seu descontentamento em relação a esta prática, uma vez que não estava habituada a levantar-se tão cedo. Depois disse que a podia inspeccionar enquanto ela estivesse na cama, ao que ela declarou que não estava habituada a receber ninguém na sua cama. Declarei que isso não me fazia diferença, que faria a inspecção da forma que ela preferisse, mas teria de a fazer todos os dias. A Tatiana, a Olga ou a Maria (mais a Tatiana) pediam-me muitas vezes se podiam ir dar um passeio. Era raro ver Alexandra Feodorovna a caminhar. Quando ela saía de casa para tal, levava sempre um pára-sol e um chapéu. Os restantes costumavam caminhar sempre com as cabeças descobertas. Nicolau passeava à vez com cada uma das suas filhas. Nesta altura o Alexei entretinha-se com armas de brincar e com o rapaz Sednev.

Maria, Olga, Alexandra, Tatiana e Anastásia durante a Primeira Guerra Mundial
Enquanto estava a reparar o poço, Nicolau veio ter comigo e fez um comentário qualquer, mas eu fiz os possíveis para não desenvolver a conversa. Uma vez enquanto passeava, a Olga conversou com um dos oficiais e perguntou-lhe onde tinha prestado serviço durante a guerra. Ele respondeu que tinha prestado serviço num dos regimentos de granadeiros, no qual, durante uma revista militar, tinha visto as filhas do czar. Olga virou-se para Nicolau e exclamou: “Papá, este é um dos nossos granadeiros!”. Nicolau aproximou-se dele e disse: “Saudações!”, esperando, evidentemente, ouvir a resposta militar normal de “Desejo-lhe saúde!”, mas tudo o que ouviu foi um simples “olá”. Muito depois disso, um oficial camarada disse que não tinha tido oportunidade de falar porque eu me aproximei e a conversa terminou.


Tanto quanto pude notar, a família tinha um estilo de vida típico da classe média: de manhã bebiam chá, depois ocupavam-se com algum trabalho – cozer, remendar, bordar. Os mais inteligentes de todos eram a Tatiana, a segunda filha e a Olga, que se parecia muito com a irmã, incluindo nas expressões faciais. A Maria não era parecida com as duas irmãs mais velhas. É um pouco reticente e considerada como uma filha adoptiva. Anastásia, a mais nova, era corada e tinha um rosto bastante bonito. Alexei estava constantemente doente com uma doença que herdou da família, passava grande parte do tempo na cama e por isso tinha de ser levado ao colo para fora. Uma vez perguntei ao Dr. Botkin qual era a doença dele e ele respondeu-me que não se sentia à-vontade para me dizer uma vez que se tratava de um segredo da família, por isso não voltei a perguntar. Alexandra Feodorovna esforçava-se por ter um porte real, tentando relembrar-nos de quem era. Quanto a Nicolau, parecia que pertencia a uma família normal, onde a mulher era mais forte do que o marido. Ela pressionava-o muito. Na situação em que convivi com eles, pareciam uma família calma, governado pelo punho de ferro da mulher. Nicolau, com o seu rosto abatido, parecia muito normal, simples, quase que podia dizer que parecia um soldado camponês.


Olga, Tatiana, Anastásia e Maria no exílio no Palácio de Alexandre, 1917


Além de Alexandra Feodorovna, não se notavam sinais de arrogância em mais ninguém. Se esta não fosse a família imperial detestada, que bebia tanto sangue do povo, podia dizer-se que eram pessoas simples e não arrogantes. As raparigas, por exemplo, iam para a cozinha, ajudavam a cozinhar, tratavam das limpezas ou jogavam às cartas. Todos vestiam roupas simples, não havia nada elaborado. Nicolau comportava-se de forma honesta, “democrática” e, apesar de termos descoberto mais tarde que possuía vários pares de botas novos, só calçava botas remendadas. Um dos seus únicos prazeres era tomar banho várias vezes por dia. Contudo, proibi-os de o fazerem porque havia pouca água. Se uma pessoa considerasse esta família de forma objectiva, podia dizer-se que eram completamente inofensivos.

O pequeno Sednev tinha-se habituado tanto à família que já nem parecia um criado a servir o herdeiro do trono russo. Alexandra Feodorovna queixava-se muitas vezes do barulho que faziam com o cão que tinham, mas ele não deixava esta actividade de que gostava tanto, apesar de a incomodar. Trupp e Kharitonov eram leais como cães para os seus mestres.

O Dr. Botkin com os seus dois filhos
O Dr. Botkin era um amigo leal da família. Sempre que a família tinha alguma necessidade, ele desempenhava o papel de suplicante. Era leal à família de corpo e alma e preocupava-se juntamente com a família Romanov com as dificuldades das suas vidas. Toda a gente sabe que Nicolau e a sua família eram muito religiosos. Perguntaram-me se seria possível participarem numa liturgia. Convidei um padre e um diácono. Quando estavam no quarto do comandante a vestir-se, avisei-os de que podiam realizar a liturgia da forma que deveriam, seguindo os seus rituais, mas não podiam ter qualquer tipo de conversa com a família. O diácono afirmou: “isto já nos aconteceu antes e não servimos indivíduos tão importantes. Uma pessoa pode ficar confusa e pode haver escândalo, mas neste caso vamos espalhar o incenso com prazer pelas suas almas bondosas”. O Obednya foi servido. Nicolau e Alexnadra Feodorovna rezaram ferventemente.

Quando iniciei as minhas funções já se colocava a questão sobre a liquidação da família Romanov, uma vez que os checoslovacos e os cossacos já estavam próximos dos Montes Urais e aproximavam-se cada vez mais rapidamente de Ecaterimburgo. Afinal de contas, Nicolau tinha algum contacto com o exterior.

Tendo esta situação ameaçadora em vista, o assunto foi acelerado.

Fiquei encarregue desta situação, mas a liquidação estava nas mãos de outro camarada.

Anastásia, Maria e Tatiana numa janela em Tobolsk
A 16 de Julho de 1918, perto das duas da tarde, o camarada Filipp chegou à casa e apresentou-me a solução do Comité Executivo para executar Nicolau e foi nesta altura que alertei para o facto de que o jovem Sednev devieria ser retirado do local.

Durante essa noite chegaria um camarada que diria a palavra-passe “limpador-de-chaminés” e seria a ele que os corpos deveriam ser entregues, já que seria ele o responsável pelo enterro e por acabar com o trabalho. Chamei o jovem Sednev e disse-lhe que no dia anterior o seu tio Sednev, que tinha sido preso, tinha fugido, mas tinha já sido capturado novamente e desejava vê-lo. Por isso mandei-o ter com o tio. O rapaz ficou muito contente por poder regressar à sua terra-natal. A família Romanov começou a ficar inquieta. Como sempre, o Dr. Botkin veio ter comigo e perguntou-me para onde tínhamos mandado o rapaz. Disse-lhe o que tinha dito ao rapaz, mas mesmo assim ele continuava a parecer preocupado. Mais tarde foi a Tatiana que veio ter comigo, mas acalmei-a, dizendo-lhe que o rapaz tinha ido visitar o tio, mas que regressaria em breve. Convoquei o chefe do departamento, o camarada Pavel Medvedev da Fábrica Syseretsky e outros, e disse-lhes que, caso acontecesse algo fora do normal, teriam de esperar até receber um sinal especial que combinamos no momento. Depois de ter chamado os guardas interiores que tinham sido seleccionados para a execução de Nicolau e da sua família, distribuí tarefas e informeu quem deveria matar quem. Entreguei-lhes revólveres com o sistema “Nagan”. Quando os papéis estavam distribuídos, os oficiais pediram-me que os poupasse da responsabilidade de matar as jovens, uma vez que não seriam capazes de o fazer. Depois decidi que o melhor seria mesmo poupar completamente estes camaradas da execução, uma vez não eram capazes de cumprir os seus deveres pela revolução no momento mais crucial. Depois de ter cumprido todos os deveres, esperamos pelo “limpa-chaminés”. Contudo ele não chegou nem à meia-noite nem à uma da manhã e o tempo começava a esgotar-se. Finalmente, à uma e meia da manhã bateu à porta. O “limpa-chaminés” tinha chegado. Fui até aos aposentos dos prisioneiros e acordei o Dr. Botkin, dizendo-lhe que todos se tinham de vestir o mais depressa possível uma vez que estavam a haver distúrbios na cidade e tinha de os transferir para um lugar mais seguro. Não queria apressá-los, por isso dei-lhes a oportunidade de se vestirem. Às duas da manhã, transferi os guardas para os andares mais baixos. Disse-lhes para se colocarem na ordem combinada. Conduzi a família para a cave sozinho. Nicolau levava Alexei nos braços. O resto levava consigo algumas almofadas nas mãos, outros levavam outras coisas. Finalmente chegamos ao andar mais baixo e dirigimo-nos para uma divisão que tinha sido preparada anteriormente. Alexandra Feodorovna pediu uma cadeira e Nicolau pediu outra para Alexei.


Ordenei que trouxessem as cadeiras. Alexandra Feodorovna sentou-se e o Alexei também. Sugeri que todos se levantassem, o que fizeram, ocupando toda a parede de trás e uma das paredes de lado. A divisão era muito pequena. Nicolau estava levantado de costas para mim. Então anunciei: “O Comité Executivo dos Trabalhadores, Camponeses e Soldados Soviéticos dos Montes Urais tomou a decisão de vos executar.” Nicolau virou-se para mim e perguntou: “O quê, o quê?” Repeti a sentença e dei imediatamente a ordem para disparar. Fui o primeiro e matei Nicolau imediatamente. Os disparos prolongaram-se durante muito tempo e, apesar das minhas esperanças de que a parede de madeira não levasse as balas a fazer ricochete, estas começaram a ir para todo o lado. Não consegui ordenar aos soldados que parassem de disparar durante muito tempo, o que fez com que as coisas se descontrolassem. Mas quando consegui fazê-los parar finalmente, percebi que muitos deles ainda estavam vivos.

Por exemplo, o Dr. Botkin estava deitado sobre o cotovelo do seu braço direito, como se estivesse numa pose relaxada, mas um tiro de revólver eliminou-o imediatamente. O Alexei, a Tatiana, a Anastásia e a Olga também ainda estavam vivos, assim com a Demidova. O camarada Ermakov queria acabar o trabalho com uma baioneta. Contudo, tal não era possível. A razão pela qual foi tão difícil matá-los tornou-se clara mais tarde. As filhas do czar tinham uma armadura de diamantes cozida nos seus corpetes. Fui forçado a matar um de cada vez. Infelizmente os valores que os executados traziam chamaram a atenção de alguns guardas vermelhos que se encontravam presentes e decidiram roubá-los. Propus que se acabasse com o saque aos cadáveres e pedi ao camarada Medvedev que verificasse se não tinham sido roubados valores da mala. Decidi juntar tudo que se encontrava no local imediatamente.

Pedi ao Nikulin que vigiasse a estrada quando os cadáveres fossem carregados e também deixei outro soldado na cave para vigiar os que ainda se encontravam lá. Depois de carregar os cadáveres chamei os participantes e exigi que devolvessem imediatamente tudo o que tinham roubado senão seriam castigados. Um a um, os soldados começaram a devolver o que tinham. No final descobrimos que havia dois ou três homens fracos. Apesar do facto de ter a inclinação de entregar o resto do trabalho ao camarada Ermakov, temi que ele não conseguisse cumpri-lo da forma mais correcta e decidi ir eu mesmo. Deixei o Nikulin para trás. Ordenei-lhe que não mudasse a guarda que estava de vigia para que parecesse que estava tudo normal.

Esboço para um quadro da família Romanov realizado pouco depois do nascimento de Anastásia
Nota: Ao todo existem 6 notas escritas por Yurovsky sobre o assassinato dos Romanov, cada uma com detalhes contraditórios.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Locais - A Casa Ipatiev


Quando foi decidido prender a família Romanov em Ekaterinburgo, uma cidade mineira no centro da Sibéria, os bolcheviques escolheram uma casa localizada no centro histórico da cidade na Rua Voznessenki para ser usada como prisão.
O nome da casa vem do nome do seu proprietário, Nikolai Ipatiev. Este homem viveu com a sua família no primeiro andar da casa e usou os quartos subterrâneos como escritórios para o seu negócio de metalúrgica.  Era uma casa espaçosa (18 por 31 metros quadrados) e moderna com electricidade, telefone e até uma casa-de-banho com lavatório (muito raro na altura). A casa tinha também um terraço e um pequeno jardim com algumas árvores e arbustos.

A vedação de madeira da casa Ipatiev

A casa foi construída em 1897 por um homem chamado Andrei Redikortsev, que era um engenheiro nas minas de ferro. Mas Andrei estava envolvido em casos de corrupção e foi obrigado a vendê-la a outro homem, IG Charaviev. Este homem também trabalhava no negócio mineiro, mas nas minas de prata no Oeste dos Montes Urais. Em 1908, Charaviev vendeua casa a Nikolai Ipatiev por 6000 rublos.

Dez anos depois, no dia 27 de Abril, os bolcheviques ordenaram a Nikolai que abandonasse a sua casa dentro de dois dias depois de guardar todos os seus bens num pequeno quarto fechado no andar de baixo, mesmo ao lado da cave

a casa Ipatiev  na  cidade de Ekaterinburgo

A família imperial viveu na casa desde Abril até Julho, sob condições lastimáveis onde faltavam a privacidade e o respeito. Todos os dias tinham apenas uma hora para abandonar o seu interior e passear pelo jardim.

o jardim da casa Ipatiev

Na  casa as quatro Grã-Duquesas partilhavam um quarto enquanto que os seus pais e Alexis se reuniam noutro. Quase todos os dias os bolcheviques surpreendiam a família e os poucos acompanhantes que restavam com inspecções surpresa.


patamar superior

A família foi assassinada na cave da casa na madrugada do dia 18 de Julho de 1918. Nas suas paredes, um dos carrascos escreveu:

"E na mesma noite, Belsaczar foi morto pelos seus próprios escravos"

Trata-se de uma referência ao último rei da Babilónia, Belsazar, onde foi acrescentada deliberadamente a palavra "czar.

cave da Casa Ipatiev após o assassinato

Outras imagens da casa:


sala de desenho

sala de jantar

quarto das Grã-Duquesas

quarto de Nicolau, Alexandra e Alexis

detalhe da parede do quarto do czar

Após a morte dos Romanov a casa teve muitos usos.
Logo em 1923, as fotografias da casa foram espalhadas pela imprensa Sovietica como “o último palácio do último czar”. Em 1927, a casa foi introduzida num ramo do Museu da Revolução dos Montes Urais. Depois disso tornou-se numa escola de agricultura para, em 1938, se transformar num museu Anti-religioso. Durante este período era costume os membros do partido comunista que visitavam a casa tirar fotografias junto da parede danificada pelos assassinatos do czar e da família na cave. Em 1946 tornou-se a sede do Partido Comunista local. Em 1974 foi oficialmente registada como “Monumento Histórico da Revolução”, no entanto, para embaraço do governo, a casa estava a tornar-se um popular local de peregrinação para aqueles que queriam honrar a memória da família imperial.


Em 1978, à medida que o 60º aniversário da execução da família se aproximava, o Politiburo decidiu tomar medidas, declarando que a casa não tinha “importância histórica suficiente” e ordenou a sua demolição. Esta tarefa passou para as mãos de Boris Iéltsin, responsável pelo partido local que demoliu a casa em Julho de 1977. Mais tarde ele escreveu nas suas memórias publicadas em 1990 que, “mais cedo ou mais tarde todos estaremos envergonhados com este exemplo de barbaridade”. Mas apesar desta acção, os peregrinos continuavam a chegar ao local, muitas vezes em segredo, a meio da noite. Muitos deixavam as suas lembranças no local vazio.


Após a queda da União Soviética foi erguida uma cruz no local onde se encontrava a cave, de forma a não esquecer as atrocidades lá cometidas. No momento em que esta cruz foi colocada, existem relatos de que, no meio do dia cinzento e cheio de nuvens, um raio de sol a iluminou durante 40 minutos apesar de o dia continuar escuro.

Mais tarde seria construída a Igreja do Sangue Derramado de Todos os Santos perto do local para que todos pudessem prestar a devida homenagem aos Romanov.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Biografia - Alexandra Feodorovna (Alice de Hesse-Darmstadt)


Alexandra Feodorovna nasceu no dia 6 de Junho de 1872 no Novo Palácio em Darmstadt como princesa Alix Vitória Helena Luísa Beatriz de Hesse-Darmstadt, um ducado que pertencia ao Império Alemão. Foi a sexta criança entre os sete filhos do grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt, e da princesa Alice do Reino Unido, segunda filha da rainha Vitória e do seu esposo Alberto. Alice foi baptizada no dia 1 de Julho de 1872 com os rituais da Igreja Luterana e foram-lhe dados os nomes da sua mãe e tias. Os seus padrinhos foram o principe de Gales, a princesa de Gales, o czarevich da Rússia, a czarinavich da Rússia, a princesa Beatriz do Reino Unido, a duquesa de Cambridge e Ana da Prússia.

Alexandra com poucos meses de idade
Em Novembro de 1878, o ducado de Hesse foi atingido por uma onda de Difteria. A própria Alix, as suas irmãs Vitória, Irene e May e o irmão Ernie foram afectados. Enquanto as suas irmãs e irmão recuperaram, a pequena May de 4 anos não resistiu, acabando por morrer pouco antes do final do mês. Entretanto, a sua mãe, acabou também por ser afectada depois de cuidar do seu filho Ernie quando ele ficou doente. Quando a pequena Alix tinha apenas 6 anos de idade, no dia 14 de Dezembro de 1878, a sua mãe morreu, exactamente 7 anos depois da morte do príncipe Alberto. A princesa Alix tornou-se muito próxima da sua avó materna, passando grande parte da sua infância no Reino Unido entre as propriedades do Castelo de Balmoral, na Escócia, da Casa Osborne e da Ilha de Wright. Quando era mais nova, tinha a alcunha de Sunny, mas após a morte da sua mãe e da irmã mais nova, ela tornou-se mais amarga e solitária. Em 1892, quando tinha 20 anos, o seu pai morreu e o seu irmão, Ernesto Luís, sucedeu-o como grão-duque de Hesse-Darmstadt.

Alix com a irmã May, que morreu 1878
Alice casou-se relativamente tarde tendo em conta a idade própria para casar da altura, principalmente por ter recusado casar-se com o príncipe Alberto Victor, duque de Clarence (filho mais velho do príncipe de Gales), apesar da forte pressão familiar. Há quem diga que a Rainha Vitória queria que os seus dois netos se casassem, mas como gostava muito de Alix, aceitou a sua decisão. A velha rainha chegou mesmo a afirmar que estava orgulhosa da sua neta por esta a enfrentar, algo que muitas pessoas, incluindo o seu próprio filho, não se atreviam a fazer.Alice, contudo, tinha já conhecido e estava apaixonada pelo czarevich da Rússia, cuja mãe era cunhada do seu tio, o príncipe de Gales e cujo tio, o grão-duque Sérgio Alexandrovich, era casado com a sua irmã Isabel. Além disso, ambos eram primos em segundo grão, uma vez que eram netos da princesa Guilhermina de Baden.

Alice com o primo Alberto Eduardo com quem a avó queria que se casasse

Nicolau e Alice tinham-se conhecido em 1884, quando a sua irmã se casou com o seu tio e quando ela regressou à Rússia em 1889, apaixonaram-se. “O meu sonho é um dia casar-me com a Alice H. Já a ama há muito tempo, mas com mais sentimento e força desde 1889 quando ela passou seis semanas em São Petersburgo. Durante muito tempo resisti, mas sei que os meus sonhos se vão tornar realidade,” escreveu Nicolau no seu diário. Alice partilhava os mesmos sentimentos. No princípio, o pai de Nicolau, o czar Alexandre III, rejeitou a perspectiva de casamento. A sociedade atacava abertamente a princesa Alix, mas não aprofundavam o assunto, uma vez que tinham a certeza de que o czar e a sua esposa, a imperatriz Maria, eram totalmente anti-germânicos e não tinham intenções de permitir uma união do seu filho com uma princesa alemã.

Alix com o pai, o grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt, por volta de 1890
Apesar de a princesa Alix vir de boas famílias, era do conhecimento geral que Alexandre III estava a preparar um casamento com alguém de ainda maior importância para o seu filho e para o país. Alguém como a princesa Helena, a filha alta e morena de Luís Filipe, Conde de Paris, (irmã mais nova da rainha Amélia de Portugal) pretendente do trono francês. A ideia de se casar com Helena não agradava a Nicolau que escreveu no seu diário, “ A mamã fez algumas referências à Helena, filha do Conde de Paris. Eu, pessoalmente, quero ir numa direcção e é evidente que a mamã quer que escolha a outra.” Felizmente, Helena também se opôs. Ela era católica e não estava disposta a mudar de religião. O czar decidiu então enviar emissários para visitar a princesa Margarida da Prússia, filha do kaiser Frederico III e irmã do futuro kaiser Guilherme II. Rapidamente Nicolau declarou que preferiria tornar-se monge do que casar com a aborrecida Margarida. De qualquer forma a princesa também não estava disposta a deixar a sua religião. Durante todo o tempo que conseguiu, Alexandre III ignorou os pedidos do filho. Apenas começou a baixar as defesas quando a sua saúde começou a deteriorar-se em 1894. Alix levantou também dúvidas em relação ao facto de ter de deixar a sua fé luterana, mas Nicolau acabaria por convencê-la e, eventualmente, tornou-se uma ortodoxa muito crente.

Alix, de luto pelo pai em 1892
Nicolau e Alexandra ficaram noivos em Abril de 1894. Alexandre III morreu no dia 1 de Novembro de 1894, o que fez com que Nicolau se tornasse czar de todas as Rússias aos 26 anos de idade. O casamento realizou-se na capela do Palácio de Inverno em São Petersburgo no dia 26 de Novembro de 1894. Foi um casamento vitoriano, sereno e próprio por fora, mas baseado num amor físico intenso e apaixonante. A irmã mais velha de Alexandra, Ella, passou também a ser sua tia por casamento. De facto, ela, tal como Nicolau, era prima directa do rei Jorge V do Reino Unido. Para além do rei da Inglaterra, Nicolau era também primo directo do rei Cristiano X da Dinamarca, do rei Constantino I da Grécia e do rei Haakon VII da Noruega.

Alexandra acompanhou a Família Imperial quando esta regressava a São Petersburgo com o corpo do czar e diz-se que foi cumprimentada pelo povo da Rússia com sussurros uníssonos de que: “Ela chega-nos atrás de um caixão”.

Casamento de Nicolau II e Alexandra

Alexandra Feodorovna tornou-se imperatriz da Rússia no dia do casamento, no entanto a coroação oficial decorreu apenas no dia 14 de Maio de 1896 no interior do Kremlin de Moscovo. No dia seguinte, as celebrações ficaram manchadas quando se soube que vários camponeses tinham morrido. As vitimas morreram no Campo de Khodynka em Moscovo quando pensaram que não haveria presentes comemorativos para todos. Quando a polícia chegou, o campo parecia um campo de batalha. Nessa tarde os hospitais da cidade estavam sobrelotados com feridos e todos sabiam o que tinha acontecido. Nicolau e Alexandra ficaram chocados e o novo czar declarou que não podia ir ao baile organizado pelo embaixador francês, Marquis da Montebello nessa noite. No entanto os seus tios imploraram-lhe para o fazer, pois, caso contrário, ofenderia os franceses. Tragicamente, como aconteceria muitas vezes ao longo do seu reinado, Nicolau assentiu e foi ao baile com a sua esposa. Serge Witte comentou, “Estávamos à espera que a festa fosse cancelada, mas em vez disso, decorreu na mesma, como se nada tivesse acontecido e o baile foi aberto por Suas Majestades a dançar graciosamente.” Foi uma noite dolorosa. “A imperatriz apareceu em grande angústia, com os olhos avermelhados das lágrimas”, escreveu o embaixador britânico à rainha Vitória. Muitos russos mais supersticiosos, viram o desastre do Campo Khodynka como um presságio de que o reinado seria infeliz. Outros, mais sofisticados ou mais vingativos, usaram a tragédia para expor a falta de humanismo da autocracia e a completa superficialidade do jovem czar e da sua “mulher alemã".

Alexandra em traje oficial russo
Alexandra era odiada na corte e pelo povo russo. Quando apareceu pela primeira vez, era calada, de aparência fria, arrogante e indiferente. Ficou magoada pela sua recepção muito pouco entusiasmada e afirmou estar cansada da perda de moral e etiqueta da corte russa. Alexandra era chamada de petulante e aborrecida, provincial, entediante e convencida e tanto a nova imperatriz como a Corte viviam em constante atrito. Durante um baile, Alexandra reparou numa jovem mulher que, na sua opinião, tinha o decote demasiado baixo. Uma dama-de-companhia foi enviada a essa mulher e disse-lhe: “Minha senhora, Sua Majestade deseja informá-la de que em Darmstadt, não usamos os nossos vestidos dessa maneira.” A mulher respondeu, “A sério?”, ao mesmo tempo que puxava o decota um pouco mais para baixo. “Então, por favor, diga as Sua Majestade que, na Rússia, é assim que usamos os vestidos.

Alexandra pouco depois de chegar à Rússia
Alexandra fez poucas tentativas para fazer amizade com os outros membros da grande família Romanov e, regra geral, frequentava o menor número de eventos da corte possível. A imperatriz era comparada negativamente em relação à mãe do czar, Maria Feodorovna, filha do rei Cristiano IX da Dinamarca e irmã mais nova da princesa de Gales. Na Rússia, Maria Feodorovna, ofuscava a sua nora, ao contrário do que acontecia na maioria das cortes europeias. A atitude teimosa de Alexandra não lhe permitia que aprendesse nada da sua experiente sogra que a poderia ter ajudado muito. Maria Feodorovna tinha vivido na Rússia durante 17 anos antes de subir ao trono enquanto que Alexandra tinha passado pouco mais de um mês no país antes de se casar. A tia da czarina, Vitória, princesa real do Reino Unido, disse numa carta à rainha Vitória que “a Alix é muito autoritária e insiste em ter tudo feito à maneira dela. Nunca vai conseguir manejar nem um pouco do poder que ela acha que tem…


A incapacidade de Alexandra em gerar um herdeiro para o trono Russo nas suas primeiras quarto tentativas foi fonte de grande desapontamento.

Alexandra era fervorosamente protectora do papel do seu marido como Czar e apoiava activamente o seu direito de governar de forma autocrática. Ela defendia o seu direito divino e acredita ser desnecessário pensar na aprovação de outras pessoas.

Alexandra com as suas três filhas mais velhas: Maria, Olga e Tatiana
Mesmo por cima do “Mauve Boudoir” de Alexandra no Palácio de Alexandre, ficavam os quartos das crianças. De manhã, a imperatriz podia encostar-se no seu sofá e ouvir os passos dos filhos e o som dos seus pianos. Um elevador e uma escadaria privados levavam directamente aos quartos do andar superior. Para o povo russo, Alexandra era uma alemã fria que não conseguia ver a necessidade daqueles que a rodeavam a não ser que fossem da família e, até certo ponto, tinham razão. A czarina, tal como o seu marido, era muito dedicada à sua família. Desde a sua infância que tinha sido muito tímida, uma característica que partilhava com a sua avó Vitória. Odiava aparições públicas e evitava-as, aparecendo apenas quando era absolutamente necessário. Alexandra preferia retirar-se da acção, abrindo caminho à sua sogra. Esta timidez e desejo de estar sozinha, tiveram um grande impacto nos seus cinco filhos e no Império. Ela nunca se esforçou por ser amada pelo povo russo.

Quase um ano depois do seu casamento, Alexandra deu à luz a primeira filha do casal, uma menina chamada Olga que nasceu no dia 15 de Novembro de 1895. Olga não poderia subir ao trono devido às leis paulistas implementadas pelo czar Paulo I. Olga foi motivo de alegria para os seus pais que chegaram mesmo a afirmar que preferiram ter uma menina porque, se tivessem tido um rapaz, ele pertenceria ao povo russo e, assim, tinham a sua filha só para eles. No entanto a alegria foi-se esmorecendo à medida que mais três meninas se seguiram: Tatiana no dia 10 de Junho de 1897, Maria no dia 26 de Junho de 1899 e Anastasia no dia 18 de Junho de 1901. Passariam mais três anos antes de a Imperatriz dar à luz o seu tão esperado herdeiro, Alexis Nikolaevich que nasceu no Palácio de Peterhof no dia 12 de Agosto de 1904. Para tristeza dos seus pais, Alexis nasceu com Hemofilia.

Alexandra com os seus cinco filhos
Por vezes, Alexandra tinha dificuldades com a sua filha mais velha, talvez devido ao facto de ela ser muito chegada ao pai. Olga era tímida e submissa e impressionava as pessoas com a sua bondade, inocência e a força dos seus sentimentos. Quando ficou mais velha, Olga lia muito, tanto ficção como poesia, levando muitas vezes livros da sua mãe antes de ela os ler. “Tens de esperar para ver se este livro é indicado para ti, mamã.”, dizia ela. Alexandra era muito mais próxima da sua segunda filha Tatiana. Tanto em público como em privado, Tatiana rodeava a sua mãe de atenção. Se um favor era necessário, todas as crianças imperiais concordavam que “a Tatiana tem de pedi-lo.” Durante os últimos meses da família, Tatiana ajudava a sua mãe a mudar-se de lugar para lugar, passeava-a pela casa na sua cadeira-de-rodas e tentava animá-la. A filha seguinte, Maria, gostava de falar sobre casamentos e filhos. O czar achava que ela daria uma esposa excelente. Maria era considerada o anjo da família. Anastasia, a filha mais nova e mais famosa, era conhecida como “shvibzik” (diabrete). Trepava árvores e recusava-se a descer a não ser que o pai a mandasse. A sua tia e madrinha, a grã-duquesa Olga Alexandrovna, recordou mais tarde uma ocasião em que Anastasia estava a falar de forma tão mal educada que teve de lhe dar um estalo.


Alexandra com as suas quatro filhas: Olga, Anastásia, Maria e Tatiana
Quando eram crianças, Alexandra vestia as suas filhas aos pares, as duas mais velhas e as duas mais novas usavam vestidos iguais. Quando Olga e Tatiana cresceram, começaram a ter mais protagonismo em aparições públicas. Apesar de, em privado, tratarem os pais por “Mamã” e Papá”, em público, os seus filhos tratavam-nos por “imperador e imperatriz.” Nicolau e Alexandre entenderam que as suas filhas mais velhas deveriam fazer as suas apresentações à sociedade em 1914 quando Olga tinha 19 e Tatiana 17 anos, mas o rebentar da Primeira Guerra Mundial estragou os planos. Em 1917, as quatro irmãs tinham florescido e tornado em jovens mulheres cujos talentos e personalidades que, como o destino decretou, nunca seriam totalmente reveladas.


Alexandra com as suas filhas mais velhas: Olga, Maria e Tatiana
Alexandra era totalmente devota ao seu filho Alexei. O tutor das crianças, Pierre Gilliard, escreveu, “O Alexei era o centro desta família unida, o centro de todas as esperanças e afectos. As irmãs dele veneravam-no. Ele era o orgulho e alegria dos pais. Quando estava bem, o palácio transformava-se.” Tendo de viver com o conhecimento de que lhe tinha transmitido uma doença sanguínea, Alexandra vivia obcecada com a ideia de proteger o filho e estava sempre atenta ao que ele fazia, consultando um grande número de médicos até se virar para misticismo com Rasputine, um monge siberiano que, segundo alguns relatos, conseguia curar o czarevich durante as suas crises. Alexandra mimava o seu filho e deixava que ele fizesse tudo o que quisesse. Parecia que lhe prestava mais atenção a ele do que a qualquer uma das suas quatro filhas. Quando a doença de Alexei foi finalmente anunciada ao público em 1912, Alexandra tornou-se numa figura ainda mais odiada entre o seu povo. A sua origem alemã faria com que a sua popularidade descesse ainda mais durante a Primeira Guerra Mundial.


Alexei e Alexandra
Alexei nasceu durante o ponto mais crítico da Guerra Russo-Japonesa, dia 12 de Agosto de 1904. O czarevich era herdeiro aparente ao trono russo, e Alexandra tinha cumprido o seu papel mais importante como czarina, dando à luz um filho varão. A principio, o rapaz parecia saudável e normal, mas com apenas algumas semanas, foi notado que quando ele caia ou chocava contra qualquer coisa, as suas nódoas não saravam, mas pioravam e o seu sangue demorava muito tempo a estancar. Cedo se descobriu que Alexis sofria de Hemofilia, que apenas poderia ter sido transmitido pelo lado materno da família. De um modo geral, a Hemofilia era fatal em inícios do século XX, e tinha entrado nas casas reais europeias através das filhas da rainha Vitória que era, ela própria, portadora do gene. Alexandra tinha perdido um irmão, Frederico, com esta doença, bem como um tio, o príncipe Leopoldo, duque de Albany. A sua irmã, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt, era também portadora do gene e, do seu casamento com o seu primo, o príncipe Henrique da Prússia, teve dois filhos que sofriam da doença, fazendo com que ela chegasse também à família real da Prússia.

Sendo uma doença incurável e uma constante ameaça à vida, sofrida apenas por herdeiros masculinos, tomou-se a decisão de manter o estado de saúde de Alexei em segredo do povo russo. Como portadora do gene da Hemofilia, Alexandra não sofria da doença, mas é provável que tivesse uma coagulação mais baixa do que o normal. O seu estado de portadora, juntamente com a sua preocupação com a saúde do filho, pode ter sido uma das razões para a sua suposta fraca saúde.

Alexandra e Alexei
Inicialmente, Alexandra virou-se para os médicos russos para tratar de Alexei. Os seus tratamentos, no geral, falhavam, uma vez que não era conhecida qualquer cura. Sofrendo com o facto de saber que qualquer queda ou corte poderia matar o seu filho, a imperatriz decidiu fazer ainda mais trabalho de caridade. Também se virou para a religião, à procura de conforto, o que a levou a familiarizar-se com os rituais e Santos da Igreja Ortodoxa, passando horas a rezar na sua capela privada. Em desespero, Alexandra começou a confiar cada vez mais em místicos e nos chamados “homens santos”. Um destes, Gregório Rasputine, parecia ter sucesso.

O estilo de vida decadente de Rasputine, levou Nicolau a enviá-lo para longe da família em diversas ocasiões. Mesmo depois de o director da Polícia dizer pessoalmente a Alexandra que Rasputine, bêbado, se tinha exposto num restaurante de Moscovo, gabando-se à multidão que Nicolau o deixava deitar-se com a sua mulher sempre que quisesse, ela culpava os rumores maliciosos. “Os Santos são sempre torturados.” Escreveu uma vez. “Ele é odiado porque nós o amamos.” Nicolau não era tão cego, mas mesmo ele se sentia incapaz de fazer alguma coisa em relação ao homem que parecia salvar a vida do seu filho. Um ministro de Nicolau escreveu, “Ele não gostava de enviar Rasputin para longe, pois, se Alexei morresse, aos olhos da sua mãe, ele teria sido o responsável pela morte do seu próprio filho.

Alexandra e os seus filhos com Rasputine
Desde o principio que se faziam acusações a Rasputine nas suas costas. Apesar de alguns dos mais altos membros do clero de São Petersburgo o aceitarem como um profeta vivo, outros denunciavam-no como uma fraude e um herege. As histórias da sua casa na Sibéria perseguiam-no, tais como o rumor de que, para celebrar um casamento, o monge exigia dormir com a noiva antes do noivo. No seu apartamento em São Petersburgo, onde vivia com a sua filha Maria, Rasputine era visitado por qualquer um que procurasse uma bênção, uma cura ou um favor da czarina. As mulheres, encantadas com o misticismo rudimentar que rodeava o monge, também o procuravam para as “bênçãos privadas” que eram conduzidas com a maior das privacidades no seu quarto. Rasputine gostava de pregar um tipo de teologia única em que uma pessoa tinha de se tornar familiar com o pecado antes de ter a oportunidade de o ultrapassar.


Rasputine
Em 1912, Alexis sofreu uma grave hemorragia que lhe ameaçou a vida quando a família se encontrava de férias em Spala, na Polónia. Alexandra e Nicolau faziam turnos para ficar sempre com ele e tentar (em vão) reconfortá-lo e tentar fazê-lo esquecer das dores. Num raro momento de paz, Alexis sussurrou à mãe, “Quando eu morrer, já não vai doer, pois não, mamã?” Devastada, parecia que Deus não estava a responder às orações de Alexandra para a salvação do seu filho. Acreditando que o seu filho ia morrer, a imperatriz tentou em desespero enviar um telegrama a Gregório Rasputine, que rapidamente enviou a resposta: “Deus viu as vossas lágrimas e ouviu as vossas orações. Não te lamentes. O pequeno não vai morrer. Não permitas que os médicos o incomodem demasiado.” O conselho de Rasputine  acabou por coincidir com os primeiros sinais de que o herdeiro estava a recuperar. A partir de 1912, Alexandra passou a confiar cada vez mais no monge e a acreditar verdadeiramente na sua capacidade para curar o filho. Esta confiança cega acabou por permitir a subida política de Rasputine, que iria abalar seriamente a popularidade da família imperial durante a Primeira Guerra Mundial.

Alexei numa cadeira de rodas no inverno de 1917
O rebentar da Primeira Guerra Mundial foi um momento crucial para a Rússia e para Alexandra. A guerra devastou o Império da Dinastia Romanov contra o Império alemão da Dinastia Hohenzollern, muito mais forte. Quando Alexandra soube das mobilizações russas, entrou de rompante no escritório do seu marido. Anna Vyrubova, uma amiga da imperatriz, sentou-se do lado de fora, à espera, ouvindo as vozes zangadas a sair da sala e que se exaltavam cada vez mais à medida que o tempo passava. A meio da conversa, a porta abriu-se e Alexandra saiu, com Anna a correr atrás de si. Quando chegou ao quarto, encontrou Alexandra deitada na cama, a chorar histericamente, “Guerra! E eu nem sequer sabia! Isto é o fim de tudo!

O ducado de Hesse-Darmstadt e, governado pelo seu irmão, fazia parte do Império Alemão e era, claro, o local de nascimento de Alexandra. Este facto fez com que ela se tornasse ainda mais odiada pelo povo russo que a acusava de colaborar com os alemães. Para piorar as coisas, o kaiser Guilherme II era primo directo de Alexandra. Ironicamente, a única coisa que a czarina e a sogra, Maria Feodorovna tinham em comum era o grande ódio que sentiam pelo kaiser alemão.
Durante a guerra, Alexandra trabalhou como enfermeira para a Cruz Vermelha, num hospital de Czarskoe Selo, juntamente com as suas duas filhas mais velhas.

Alexandra, no seu uniforme de enfermeira, com um grupo de soldados.
Quando o czar viajou para a linha da frente em 1915 para se encarregar pessoalmente do comando do Exercito, deixou Alexandra responsável pela regência de São Petersburgo. O seu cunhado, O grão-duque Alexandre Mikhailovich, recordou, “Quando o imperador foi para a Guerra, claro que ficou a sua mulher a governar em vez dele.” Durante os dois anos e meio que se seguiram, o governo Russo deteriorou-se mais rapidamente do que em qualquer outra altura. Alexandra não tinha experiência e contratava e voltava a admitir ministros incompetentes, o que fez com que o governo nunca fosse estável ou eficiente.

O envolvimento da czarina nos assuntos políticos aconteceu por seu próprio pedido. “Deixa-me ajudar-te, meu tesouro. De certeza que deve haver alguma forma de uma mulher poder ser útil. Desejo tanto poder tornar as coisas mais fáceis para ti… Desejo meter o meu nariz em tudo.”, escreveu ela ao czar. Isto tornou-se particularmente perigoso durante uma guerra de destruição lenta, uma vez que nem as tropas nem a população civil conseguiam satisfazer as suas necessidades básicas. Alexandra prestava apenas atenção aos conselhos de Rasputine, e acreditava-se (apesar de ser falso) que a sua relação era de natureza sexual. Diz-se que, quando a imperatriz se encontrou com o Embaixador Britânico, lhe disse, “Não tenho paciência com os ministros que o tentam impedir (Rasputine) de cumprir o seu dever. A situação exige firmeza. O imperador, infelizmente, é fraco, mas eu não sou e pretendo manter-me firme.” Alexandra era o centro de um número cada vez mais crescente de rumores extremamente negativos e acreditava-se que era uma espia alemã na corte russa.

Alexandra por volta de 1916
A Primeira Guerra Mundial foi um fardo que o Império Russo não conseguiu suportar tanto a nível económico como político. A falta de bens essenciais e ondas de fome tornaram-se situações banais de todos os dias, vividas por milhões de russos. 15 milhões de homens foram desviados da Agricultura para lutar na guerra, e os caminhos-de-ferro estavam quase todos reservados ao uso pela guerra, impedindo assim o transporte dos poucos recursos do campo para as grandes cidades. A inflação crescia a olhos vistos e, combinada com a falta de comida e pouca eficácia dos militares russos na guerra, gerou um clima de grande tensão entre a população de São Petersburgo e outras cidades.

A decisão do czar de comandar pessoalmente as tropas contra os conselhos dos seus ministros, acabou por se revelar desastrosa, uma vez que ele era directamente culpado pelas derrotas. O facto de estar longe do governo e o deixar nas mãos da sua esposa, ajudou a destruir o prestígio da dinastia. O Inverno severo de 1916-17 foi o golpe final para o Império Russo com grandes vagas de fome originadas pela falta de comida nos armazéns. A má governação e as derrotas na guerra, acabaram por virar os soldados contra o czar. O sentimento dos soldados é muito bem capturado numa cena do filme de Jean Renoir, “A Grande Ilusão”, onde Alexandra envia caixas aos prisioneiros de guerra russos. Contentes por pensar que vão receber vodka, eles abrem-nas e descobrem bíblias, iniciando, assim, um motim.

"A Grande Ilusão" de Jean Renoir

A grave situação política e económica do país acabou por resultar na Revolução de Fevereiro de 1917.

Num esforço de pôr fim aos eventos que se desenrolavam na capital, Nicolau tentou chegar a São Petersburgo de comboio, contudo o seu caminho foi bloqueado em Pskov onde, depois de ser aconselhado por todos os seus generais, abdicou por si e pelo seu filho Alexei. Alexandra ficou assim numa situação perigosa, como esposa do czar deposto, odiada pelo povo russo. Nicolau recebeu finalmente autorização para regressar ao Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo onde ficou sob prisão domiciliária juntamente com a sua família. Apesar do facto de ser primo tanto de Alexandra como de Nicolau, o rei Jorge V do Reino Unido recusou-se a deixar com que a família fosse evacuada para o seu país, uma vez que tinha receio da má fama da família no seu país e que a sua presença pudesse ter repercussões no seu trono.


Alexandra e Nicolau em 1913
O Governo Provisório, formado depois da revolução, manteve Nicolau, Alexandra e os seus filhos limitados à sua residência no Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo, até serem deslocados para Tobolsk a 1 de Agosto de 1917, uma decisão tomada pelo governo de Kerensky com o objectivo de manter a família fastada da capital e do perigo. De Tobolsk, Alexandra conseguiu enviar uma carta à sua cunhada Xenia Alexandrovna que se encontrava na Crimeia:

“Minha querida Xenia, Os meus pensamentos estão contigo, imagino que, contigo, esteja tudo mágico, bom e bonito – tu és as flores. Mas é indescritível como tudo é doloroso aqui, não consigo explicar. Estou feliz por ti que estás novamente reunida com a tua família de quem tinhas sido separada. Gostaria de ver a Olga [irmã do czar] na sua nova felicidade. Todos estão saudáveis, mas eu, durante as últimas 6 semanas, tenho tido dores insuportáveis na cara por causa do meu maxilar. Muito tormentoso…

Vivemos tranquilamente. Estamos bem instalados apesar de Tobolsk ser, muito, muito longe de toda a gente, mas Deus é misericordioso. Ele dá-me força e consolo…”


Nicolau e Alexandra na varanda da casa onde ficaram em Tobolsk. Verão de 1917
Alexandra e a sua família permaneceram em Tobolsk até depois da Revolução de Outubro, mas acabaram por ser deslocados pelos bolcheviques para a cidade de Ecaterimburgo em 1918. Na altura, Alexei estava a recuperar de uma queda grave que sofreu durante o Inverno, por isso não pôde viajar e ficou em Tobolsk com as irmãs Olga, Tatiana e Anastásia. Alexandra e Nicolau acabaram por fazer a viagem em primeiro lugar com a sua filha Maria e chegaram à Casa Ipatiev no dia 30 de Abril de 1918. Quando entraram na sua nova prisão, foi-lhes ordenado que abrissem a sua bagagem. Alexandra protestou imediatamente. Nicolau tentou defendê-la afirmando, “Até este momento temos sido tratados educadamente por homens que eram cavalheiros, mas agora…” O antigo czar foi rapidamente interrompido e informado pelos guardas de que já não se encontrava em Czarskoe Selo. Qualquer recusa ao cumprimento das regras resultaria na sua separação do resto da família, uma segunda ofensa seria recompensada com trabalho pesado.

Temendo pela segurança do marido, Alexandra desistiu rapidamente e permitiu que a revistassem. Na parede daquele que seria o seu último quarto, Alexandra desenhou uma Suástica, o seu símbolo preferido de boa sorte, e escreveu debaixo a data 17/30 de Abril de 1918. Em Maio o resto da família chegou a Ecaterimburgo. Alexandra ficou feliz por ter a sua família novamente reunida.

Alexandra
Havia 75 homens a guardar constantemente a Casa Ipatiev. Muitos deles eram trabalhadores de fábricas locais. O comandante da casa, Alexandre Avadeyev era “um verdadeiro bolchevique”. A maioria das testemunhas recordou-o como escabroso, bruto e bêbado. Se lhe chegasse qualquer tipo de pedido por parte da família, a resposta era sempre, “Eles que vão para o inferno!” Os guardas da casa ouviam-no referir-se muitas vezes ao czar como “Nicolau, o bebedor de sangue” e a Alexandra como “a cabra alemã”.

Para os Romanov, a vida na Casa Ipatiev era um pesadelo de incerteza e medo. A família imperial nunca soube se iria lá continuar no dia seguinte, se seriam separados ou até mortos. Os privilégios que lhes eram permitidos eram poucos. Durante uma hora, à tarde, podiam passear no jardim morto sempre sob a vigilância apertada dos guardas. Alexei ainda não conseguia andar depois de outro ataque de Hemofilia, por isso era o seu marinheiro Nagorny que o transportava. Alexandra raramente se juntava à família nestas actividades. Em vez disso passava a maior parte do tempo sentada na cadeira de rodas a ler a Bíblia ou os trabalhos de São Serafim. À noite, os Romanov jogavam às cartas ou liam. Recebiam muito pouco correio do mundo exterior e os únicos jornais permitidos eram edições já ultrapassadas. Um dos guardas, Anatoly Yakimov observou a família e recordou:

“Apesar de não falar com eles quando os conheci, tive uma impressão que me entrou na alma. O czar já não era novo, tinha a barba grisalha (…) Os olhos dele eram gentis e tinha uma expressão simpática. Fiquei com a impressão de que ele era uma pessoa simpática, modesta e faladora. Às vezes parecia que falava comigo directamente. A czarina não era nada como ele. Tinha uma expressão severa. Tinha a aparência e os modos de uma mulher arrogante e zangada. Por vezes falávamos sobre eles entre nós e todos achávamos o Nicolau Alexandrovich um homem modesto, mas que ela era muito diferente e parecia exactamente a mulher de quem tínhamos ouvido falar. Parecia mais velha do que o czar. Tinha algumas réstias de cabelo branco e o rosto dela não era de uma mulher jovem (…)”


Alexandra e Nicolau
No dia 4 de Julho de 1918, Yakov Yurovsky, o chefe da Tcheca de Ekaterinburgo, foi nomeado comandante da Casa Ipatiev. Yurovsky era um bolchevique leal, um homem em quem Moscovo podia confiar para que as suas ordens fossem cumpridas. Yurovsky rapidamente apertou a segurança. Recolheu todas as jóias e valores da família e guardou-os numa caixa fechada que entregou aos prisioneiros. Alexandra apenas ficou com duas pulseiras que lhe tinham sido oferecidas pelo seu tio Leopoldo, duque de Albany quando ela era criança e que não conseguia tirar. Ele não sabia que a antiga czarina e as suas filhas tinham cosido as suas jóias pessoais nos seus corpetes e almofadas. Estas apenas seriam descobertas após o assassinato que tinha sido marcado para o dia 13 de Julho.

No Domingo, dia 14 de Julho de 1918, dois padres foram à Casa Ipatiev para celebrar a Liturgia Divina. Um dos padres, Storozhen, recordou, “Entrei primeiro na sala de estar, depois vinham o diácono e Yurovsky. Ao mesmo tempo, Nicolau e Alexandra entraram pelas portas opostas que davam acesso a uma sala interior. Duas das filhas estavam com eles. Não tive oportunidade para ver quais. Penso que Yurovsky perguntou a Nicolau Alexandrovich, 'Bem, estão aqui todos?' e ele respondeu firmemente, 'Sim, estamos todos.' Um pouco mais à frente estava Alexandra Feodorovna que já estava no lugar, com as duas filhas e Alexei Nicolaievich. Ele estava sentado numa cadeira de rodas e estava a usar um casaco. Estava pálido, mas não tanto da primeira vez em que o vi. No geral, parecia mais saudável. Alexandra Feodorovna também parecia mais saudável. (…) Na Liturgia, é costume a um certo ponto ler uma oração. Nesta altura, por alguma razão, o diácono, em vez de a ler, começou a cantá-la, e eu fiquei um pouco envergonhado por esta mudança do ritual. Mas tínhamos começado a cantar secretamente quando os membros da família Romanov, atrás de mim, caíram de joelhos (…)

Muitos dizem que esta cerimónia foi o funeral que, durante muitos anos, a família não teve.


Alexandra com as filhas Tatiana e Olga em Tobolsk
A Sexta-Feira, dia 17 de Julho de 1918, amanheceu quente e peirenta. O dia decorreu normalmente para a família. Às quatro da tarde, Nicolau e as suas filhas deram o seu passeio habitual no jardim. Ao final da tarde, Yurovsky mandou embora o ajudante de cozinha Leonid Sedinev, de 15 anos  afirmando que um tio o queria ver. Às 7 horas, Yurovsky convocou todos os homens da Tcheca ao seu quarto e ordenou-lhes a recolher todos os revolveres dos guardas que se encontravam do lado de fora. Com 12 armas poisadas em cima da mesa, ele disse, “Esta noite vamos matar a família inteira. Todos eles.


Alexandra com três das suas filhas em Tobolsk
Os antigos czar e czarina e toda a sua família, incluindo Alexei, gravemente doente, bem como alguns criados leais, foram executados pelos bolcheviques na cave da Casa Ipatiev na madrugada de 17 de Julho de 1918. Pouco antes da execução, Alexandra queixou-se do facto de não ter cadeiras onde se sentar e o seu pedido foi satisfeito prontamente quando um guarda lhe trouxe duas. Alguns minutos depois, um grupo de guardas, cada um deles escondendo um revolver, entrou na sala. O seu líder, Yurovsky, leu casualmente a sentença, “Os vossos parentes tentaram salvar-vos. Falharam e agora temos de vos matar.” Nicolau levantou-se da sua cadeira e teve apenas tempo de perguntar, “O quê?” antes de ser baleado na cabeça.

Alexandra assistiu à morte do marido e de dois criados antes do comissário Peter Ermakov a matar com uma bala que perfurou o lado direito da sua cabeça. Alexandra não teve tempo de acabar de fazer o sinal da cruz. Ermakov, bêbado, apunhalou o seu cadáver e o do seu marido, partindo-lhes várias costelas. Alexandra estava deitada junto ao seu marido Nicolau, banhada numa poça de sangue.

Alexandra Feodorovna morreu aos 46 anos de idade.
90 anos depois da sua morte, a "mulher alemã" é agora venerada como uma santa, (principalmente após a sua canonização em 2000) pelo povo que, outrora, a odiou.