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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Atrás da Imperatriz - A Grã-Duquesa Maria Pavlovna - Segunda Parte

Maria Pavlovna
É muito provável que, por vezes, Maria se sentisse isolada na Rússia, mas não fazia parte da sua personalidade mostrar isso. Em vez disso, dedicou-se à organização de festas luxuosas e caras e fez amizade com membros da comunidade diplomática e outros estrangeiros que viviam na cidade. Foi a primeira senhora da família imperial a receber divorciados no seu salão: os nouveau riche, as pessoas que estavam na moda e os actores, artistas e escritores que Vladimir conhecia na sua posição de presidente da Academia Imperial das Artes, encontravam todos lugar na sua mesa, onde as conversas eram inteligentes e divertidas e, muitas vezes, tinham um certo tom de vingança.

Vladimir Alexandrovich e Maria Pavlovna
Dentro da família imperial, Maria adoptou os ressentimentos do marido e sentia que eles deviam ser também seus. Ninguém podia acusar Maria de facilitar a paz. Vladimir envejava o irmão por ele ser czarevich e ter óptimas perspectivas de chegar ao poder. As sombras desta rivalidade vinham já desde a infância. Em Março de 1855, algumas semanas após a subida do marido ao trono, Maria Alexandrovna contou a uma das suas damas-de-companhia que tinha ouvido uma conversa preocupante entre os seus filhos. Tinha ouvido o czarevich Nicolau a dizer a Vladimir, na altura com cinco anos de idade, "quando fores czar (...)". Maria interrompeu-o. "Sabes perfeitamente que o Vladimir nunca será czar". "Não,  ele vai ser czar", respondeu Nicolau, "o nome dele significa 'governante do mundo'". A mãe dos rapazes explicou-lhes que a sucessão tinha a ver com a ordem de nascimento e não com os nomes, mas Nicolau não desistiu da sua ideia: "o avô era o terceiro filho e tornou-se czar. Eu vou morrer, depois o Sasha vai-me suceder. Mas o Sasha também vai morrer e depois será a vez do Vladimir".

Sasha (o futuro czar Alexandre III) com o seu irmão Vladimir Alexandrovich.
Não passavam de conversas de crianças, mas a czarina ficou arrepiada quando ouviu estas palavras saírem da boca de alguém tão novo. A ideia tornou-se mais séria quando Nicolau morreu mesmo e Alexandre se tornou czarevich. Vladimir ficou mais perto do que nunca de chegar ao trono quando Alexandre anunciou a sua intenção de renunciar ao trono para se casar com Marie Mescherskaya: se tivesse mesmo seguido o seu coração, Vladimir teria ocupado o seu lugar de czarevich e, depois, poderia suceder ao pai como czar. É possível que Vladimir tivesse ressentido o seu azar e, à medida que se foi afastando cada vez mais do trono com o nascimento dos filhos do czar, a sua desilusão deve ter aumentado consideravelmente. Por isso, com o passar dos anos, a relação entre os dois irmãos foi piorando cada vez mais e, quando Maria Feodorovna se juntou à mistura, a brecha tornou-se num precipício. Além de Maria Pavlovna, a esposa de Alexandre era a única mulher jovem na família directa do czar depois de a sua filha partir para Inglaterra quando se casou. Era seis anos mais velha do que Maria Pavlovna e também tinha conseguido estabelecer a sua posição e tornar-se popular. Além disso, não gostava de alemães. Não demorou muito até que as duas jovens, as mulheres que ocupavam a segunda e a terceira posições mais importantes na corte, começarem a sentir uma certa rivalidade uma pela outra.

Maria Feodorvna
Enquanto Alexandre II estava vivo, conseguiu controlar todas as rivalidades na sua família, mas o desconforto que os irmãos sentiam um pelo outro veio à tona na altura do assassinato do pai: quando o czar estava moribundo no seu escritório, foi Vladimir que controlou a situação e deu as ordens necessárias, uma vez que, nos primeiros momentos após a tragédia, o czarevich ficou sem reacção. Desde a infância que tinha sido Vladimir a dominar Alexandre e era provável que pensasse que esse domínio iria continuar. Mas estava enganado. Quando Alexandre III assumiu o poder e a poeira assentou, tornou-se claro que as coisas nunca mais voltariam a ser as mesmas.

Alexandre Alexandrovich e Vladimir Alexandrovich
O novo czar impôs a sua vontade à família, introduzindo uma série de alterações aos Estatutos da Família de modo a redefinir os seus direitos, títulos e até os seus rendimentos. Estas medidas faziam sentido e muita gente as apoiou, no entanto Vladimir era contra elas. Alexandre exigiu lealdade e recebeu-a, pelo menos em palavras, no entanto, é mais fácil desobedecer a um irmão do que a um pai. No dia da coroação de Alexandre, Vladimir foi nomeado comandante das forças militares na zona de São Petersburgo, apesar de não gostar particularmente da vida militar. Embora não houvesse um confronto directo entre os dois, o desconforto que ambos os casais sentiam um pelo outro tornou-se cada vez mais palpável.

Maria Feodorovna e Alexandre III
Vários anos mais tarde, esta fricção iria contribuir para a queda da monarquia, mas na década de 1880, não passava de um tópico divertido para as más-línguas da corte. Em 1888, o comboio imperial descarrilou em Borki quando o czar e a sua família se encontravam a bordo. Alexandre e os três filhos escaparam por pouco. Quando o czar surgiu por entre os escombros, a primeira coisa que terá dito foi: "imaginem qual não vai ser a desilusão do Vladimir". Um ano depois, rebentou um escândalo devido ao desaparecimento de fundos angariados em peditórios públicos para a construção de uma igreja em memória de Alexandre II. Vladimir presidia a comissão responsável pela obra há cinco anos e tornou-se suspeito de estar envolvido no desaparecimento dos fundos. As pessoas chamavam a atenção para as obras de redecoração que estavam a realizar-se no Palácio de Vladimir e os rumores foram-se espalhando. Sem consultar o irmão, Alexandre instaurou um inquérito através do qual se descobriu que o responsável pelo desfalque tinha sido o secretário da comissão que foi a julgamento, mesmo apesar de Vladimir o tentar proteger. Do lado de fora, Maria Feodorovna e Maria Pavlovna iam incentivando os respectivos maridos a levar a sua em diante.

Vladimir Alexandrovich e Maria Pavlovna
As suas diferenças não eram políticas. Vladimir não sentia mais afinidade pelas políticas do pai do que Alexandre, e Maria era tudo menos liberal. Tratava-se mais de uma questão de estilo e feitio. A família imperial, as famílias aristocráticas mais antigas da Rússia e todos aqueles que, tradicionalmente, prestavam serviços à corte, sentiam-se mais próximos de Alexandre III e de Maria Feodorovna. Os Vladimirovich eram mais arrojados e modernos. Durante as suas visitas a Paris e à Riviera Francesa, Maria tinha ganho um certo gosto pelos jogos de apostas e tinha até uma roleta na sua sala privada. As suas festas eram fabulosas e envolviam grandes gastos e preparativos. Na década de 1880, Maria organizou um baile de máscaras que ficou para a história. Para o preparar, Maria requisitou todos os livros relacionados com o tema da Biblioteca da Academia das Artes vários meses antes e exigiu que os seus convidados se vestissem rigorosamente de boiardos antigos. Não gostava nada de caminhar, mas dançava com gosto e entusiasmo e precisava de estar sempre no centro das atenções. Enquanto as pessoas estivessem a admirá-la, ela sentia-se feliz. Quando lhe pediam para receber e proteger alguém mais jovem e de origens mais humildes, era sempre gentil. Uma das filhas da grã-duquesa Olga Constantinovna, a princesa Maria da Grécia e Dinamarca, que visitou a Rússia pela primeira vez na década de 1889, recordou Maria Pavlovna como "a mulher mais charmosa que alguma vez conheci".

Maria Pavlovna
Os críticos diziam que Maria só se interessava pelas coisas boas da vida, mas ninguém se interessava pelo lado mais sério da sua personalidade. A correspondência que trocava com diplomatas e políticos por toda a Europa acabou por lhe causar ainda mais problemas. Alexandre III partilhava com a esposa um desdém pelos alemães enquanto que os Vladimirovich eram vistos como favoráveis ao país. Quando a polícia secreta descobriu que Maria trocava correspondência com Bismark, o czar ficou furioso e obrigou-a a parar de o fazer. Vladimir ficou indignado com a ordem, mas a suspeita de que ela não era leal, ou, pior ainda, uma agente da Alemanha, ficaria associada a ela durante muitos anos e não eram só os russos que acreditavam nessa possibilidade. Em 1884, o seu primo em segundo-grau, o kaiser Guilherme II, visitou São Petersburgo e contou ao seu avô que "a grã-duquesa Vladimir (...) faz maravilhas pela causa alemã".

Maria Pavlovna
Dez anos depois do seu casamento, Maria continuava a ser vista como uma estranha. Parecia desfrutar da sua posição e exercê-la com toda a dedicação. No entanto, há uma pista que mostra que o seu isolamento a magoava profundamente. Nem sequer Vladimir partilhava a sua religião, mas mesmo assim ela desafiava todas as convenções e ia à missa protestante em São Petersburgo sozinha. No entanto, em 1884, Maria ganhou duas possíveis aliadas. Isabel de Saxe-Altemburgo e Isabel "Ella" de Hesse-Darmstadt, casaram-se com membros da família Romanov nesse ano e ambas se recusaram a converter à Igreja Ortodoxa.

Maria Pavlovna rodeada das suas damas-de-companhia
Deve ter sido muito importante para Maria receber estes dois novos membros da família e sentir que elas estavam a seguir os seus passos. Ella foi a que mais se aproximou dos Vladimirovich. Era sobrinha de Maria Alexandrovna e conhecia Maria e Vladimir desde que nascera. Devia lembrar-se de como a sua mãe, a princesa Alice, tinha defendido Maria Pavlovna quando ela tinha decidido manter a sua religião. No entanto, em 1891, sete anos depois do casamento, Ella decidiu converter-se à Igreja Ortodoxa e uma das suas maiores preocupações foi não magoar Maria. Pediu mesmo ao pai para manter a notícia em segredo até que ela tivesse oportunidade de comunicar a sua decisão pessoalmente a Maria uma vez que "ela vai ficar muito triste, mas quero que ela saiba antes que se comece a falar muito nisto, para que a magoar o menos possível". No entanto, Maria ficou mesmo magoada e sentiu-se traída. Nunca perdoou Ella pela sua decisão.

Isabel Feodorovna
Era raro uma grã-duquesa mostrar-se tão vulnerável. A adolescente obstinada que tinha brincado com o pobre Jorge de Schwarzburg tinha-se tornado uma das jogadoras mais dinâmicas e interessantes no palco real, com contactos por toda a Europa. Na posição de segunda dama mais importante da corte, estava atrás da czarina em ocasiões oficiais, mas a sua corte era o local que estava mais na moda na altura. No entanto, durante a década de 1890, as coisas começaram a mudar. Os três filhos do czar, Nicolau, Jorge e Miguel estavam a crescer e, se os acontecimentos se desenrolassem como seria de esperar, o mais provável era casarem. Quando o fizessem, a posição de Maria iria perder importância. Esse era o maior medo e o que mais a preocupava.

Maria Pavlovna em 1895
A não ser que... Maria Feodorovna era uma mãe possessiva que não iria gostar de partilhar os filhos quando chegasse a altura de se casarem. Se, no futuro, Maria conseguisse atrair a esposa do czarevich para o seu circulo, orientar os seus primeiros passos na sociedade russa, poderia dar um significado completamente diferente às palavras "atrás da imperatriz".

Nicolau II, Maria Pavlovna, Vladimir Alexandrovich e Alexandra Feodorovna
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Atrás da Imperatriz - A Grã-Duquesa Maria Pavlovna - Primeira Parte

A família imperial russa em 1892

No início do século XIX, a Rússia não estava habituada a ter uma família real. Paulo foi o primeiro czar desde do século XVII a ter uma grande família e foi ele que definiu os Estatutos da Família que estabeleceram a ordem de sucessão, a religião e os casamentos dos seus descentes, algo que lhes viria a causar muita mágoa no futuro. A Revolta Dezembrista colocou os estatutos à prova pela primeira vez: depois de suceder ao trono de uma forma incerta, Nicolau I estava determinado a unir os seus filhos como se se tratassem de uma unidade disciplinada ao serviço da coroa. Um a um, à medida que foram chegando à idade adulta, os seus filhos foram chamados para prestar o Juramento de Lealdade, anunciando a sua fidelidade ao czar perante representantes do governo, da igreja e do exército - e cada um deles proferiu as palavras com sentimento. Nicolau criou uma família unida, impondo a sua autoridade. Alexandre II fortaleceu os laços entre si e os seus irmãos instituindo reuniões de família regulares que, aos poucos, foram atraindo uma nova geração para a "firma". Também fez questão de ter uma boa relação com os filhos dos seus irmãos. No entanto, as mulheres que entravam na família por casamento eram mais difíceis de dominar: o caso amoroso e o segundo casamento de Alexandre fizeram com que todas elas se afastassem e não temos forma de saber como seria a relação da família caso o czar não tivesse sido assassinado tão pouco tempo depois do casamento. No entanto, essa morte trouxe uma mudança ainda mais importante. Pela primeira vez, havia uma geração mais velha de príncipes Romanov, comprometidos por juramento a ser leais ao seu jovem sobrinho. Foi durante o reinado de Alexandre III que começaram a surgir as primeiras fissuras na unidade familiar que tinha sido criada pelo seu avô. A forma como tratou o grão-duque Constantino Nikolaevich mostrou a falta de confiança que tinha nos tios e, pior ainda, com o passar do tempo, também a sua relação com o seu irmão Vladimir começou a ser questionada. Vladimir era esperto e ambicioso e alguns diziam mesmo que tinha sido o filho favorito do seu pai. Logo desde a sua infância que a família sentia que Vladimir estava destinado a grandes feitos: o potencial para surgirem ciúmes e ressentimentos sempre esteve presente, mas só floresceu verdadeiramente quando ele se casou com uma princesa com um nível de ambição parecido com o dele. Ao recordar de forma incrível a corte de São Petersburgo, a rainha Maria da Roménia descreveu com as seguintes palavras o motivo pelo qual a sua tia 'Miechen', a grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia, era inesquecível:

A grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia
"Logo atrás da imperatriz [Maria Feodorovna] vinha a tia Miechen, mais deslumbrante do que um pôr-do-sol, com um vestido laranja bordado a ouro. Sempre que se mexia, as pérolas em forma de pêra no seu diadema balançavam graciosamente para trás e para a frente. Não era magra o suficiente para as linhas clássicas dos vestidos, mas veste as roupas melhor do que qualquer outra mulher presente. Os ombros dela eram sublimes e brancos como creme. Tinha um ar de inteligência que mais ninguém conseguia mostrar".

A grã-duquesa Maria Pavlovna (dir.) com a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna na coroação de Nicolau II em 1896.
As palavras mais reveladoras nesta descrição são "atrás da imperatriz". Foi essa a posição que Maria ocupou e ressentiu durante grande parte da sua vida adulta. Algumas pessoas parecem nascer para ocupar uma posição mais importante do que aquela que o destino reserva para elas. Quando sentem esta limitação, os resultados podem ser desastrosos. A grã-duquesa Maria Pavlovna era uma dessas pessoas. Determinada, inteligente e imperial, teria sido uma imperatriz impressionante. Não foi feita para ser a esposa do segundo filho.

Maria Pavlovna com o marido, o grão-duque Vladimir Alexandrovich e os seus quatro filhos: Cyrill, Boris, André e Helena.
"Miechen" nasceu como duquesa Maria de Mecklemburgo-Schwerin, na primavera de 1854. Nasceu em Ludwigslust, uma residência de campo que ficava a sul da capital do grão-ducado. O ducado era um local calmo e rural que ficava na costa norte da Alemanha. Anos mais tarde, uma das cunhadas de Maria, a rainha Guilhermina dos Países Baixos [casada com o seu meio-irmão Henrique de Mecklemburgo-Schwerin], descreveu o território da seguinte forma: "com pouca gente, cheio de colinas e lagos, campos de milho e florestas". O ducado de Mecklemburgo-Schwerin que Guilhermina conheceu era hostil para com os seus vizinhos prussianos, mas, durante a infância de Maria, foi precisamente a influência prussiana que a dominou, algo que não é de admirar, tendo em conta que o verdadeiro poder em Schwerin estava nas mãos da formidável grã-duquesa viúva Alexandrina, irmã do rei da Prússia. Alexandrina dominava o seu filho, o grão-duque Frederico Francisco II, e deu estabilidade à sua neta, que teve uma infância cheia de tragédias. As duas tinham muitas parecenças. Alexandrina era uma mulher orgulhosa, abençoada com uma confiança absoluta em si mesma e na verdade das suas opiniões. Conseguia ser encantadora, mas, se alguém se metia no seu caminho, era absolutamente cruel.

Alexandrina da Prússia, avó paterna de Maria Pavlovna.
Maria foi a primeira filha do grão-duque. Antes, ele e a sua esposa, a princesa Augusta Reuss-Kostritz, tinham tido dois filhos: Frederico Francisco e Paulo Frederico e, depois de Maria, tiveram ainda mais dois rapazes, um dos quais morreu ainda pequeno. Maria perdeu a mãe quando tinha apenas sete anos de idade. As más-línguas disseram que o grão-duque recuperou da sua dor incrivelmente depressa e. pouco depois, já estava à procura de uma nova esposa. Durante algum tempo, parecia que os seus filhos teriam como madrasta a princesa Maria de Cambridge, que, mais tarde, se tornaria duquesa de Teck, mas nada aconteceu. Depois, em Maio de 1864, dois dias antes de a sua filha completar dez anos de idade, o grão-duque casou-se com a princesa Ana de Hesse-Darmstadt, sobrinha da czarina Maria Alexandrovna [e tia da futura imperatriz Alexandra Feodorovna].

Frederico Francisco II, pai de Maria Pavlovna, com a sua segunda esposa, a princesa Ana de Hesse-Darmstadt.
Tal como Maria, Ana era a única filha no meio de uma família de rapazes. Todos a adoravam, mas a princesa teve pouco tempo para causar impacto na sua nova família, uma vez que morreu ao dar à luz onze meses depois do casamento e seriam precisos mais quatro anos até o grão-duque conseguir encontrar uma nova mãe para os seus filhos. Durante esses anos, muito aconteceu na Alemanha. Enquanto a maioria dos príncipes alemães apoiou a Prússia com grande relutância durante a Guerra Austro-Prussiana de 1866, ou recusaram dar o seu apoio de todo, Frederico Francisco era um fervoroso apoiante de uma Alemanha unida sob a liderança da Prússia. Esta atitude causou ressentimento entre os seus vizinhos, mas ficar do lado vencedor fez com que Frederico preservasse o seu ducado e deu à sua família uma nova confiança e posição. No verão de 1868, o grão-duque casou-se pela terceira vez, desta vez com a princesa Maria de Schwarzburg-Rudolstadt, que era apenas quatro anos mais velha do que a sua filha.

Maria de Schwarzburg-Rudolstadt, a segunda madrasta de Maria Pavlovna.
A nova grã-duquesa era gentil e descontraída. Sem o orgulho e auto-estima da sua sogra, os seus gostos eram simples e impunha poucas regras na sua casa. Não existem registos do que ela pensava dos seus enteados nem do que eles pensavam dela, mas foi a sua chegada à família que quase decidiu o futuro de Maria. Em inícios de 1871, a princesa-herdeira da Prússia visitou Schwerin e reparou que estavam a decorrer negociações entre as famílias de Mecklemburgo e Schwarzburg. A 27 de Maio escreveu à rainha Vitória: "De certeza que já ouviste dizer que a Maria de Schwerin está noiva daquele idiota do Jorge de Schwarzburg (...) já foi anunciado oficialmente e foi tudo por cabeça dela. Ele parece-se mais com um ganso do que nunca". O "grande ganso" era o príncipe reinante de Schwarzburg-Rudolstadt, um primo em segundo grau da madrasta de Maria. Ele tinha trinta-e-três anos e Maria tinha acabado de fazer dezassete.

Maria Pavlovna em 1865
Os eventos que se seguiram ao longo dos anos seguintes colocaram Maria nas bocas de toda a realeza europeia. A ideia de se casar com Jorge de Schwarzburg tinha sido dela, mas, poucas semanas depois, foi também ela que decidiu romper o noivado depois de ter surgido uma oportunidade melhor. O grão-duque Vladimir Alexandrovich, terceiro filho do czar da Rússia, tinha vinte-e-quatro anos de idade, era culto, inteligente e possuía uma grande fortuna. O seu gosto exagerado pelas coisas boas da vida tinham prejudicado a cintura do grão-duque, mas ele continuava a ser atraente e, em Junho, fez uma visita à Alemanha com a sua família. Maria ficou impressionada e o pobre Jorge de Schwarzburg acabaria por ficar solteiro o resto da vida.

Maria Pavlovna em 1872
A grã-duquesa viúva pode ter tido alguma influência nesta mudança de opinião: se a princesa-herdeira da Prússia tivesse razão, Jorge não era um grande partido. Alexandrina tinha grandes ambições para a sua família e sentia uma simpatia profunda pela Rússia e tia-avó de Vladimir [a sua irmã mais velha, Alexandra Feodorovna, nascida Carlota da Prússia, era esposa do czar Nicolau I]. No entanto, romper um noivado era um passo perigoso. Toda a gente ficou a saber que Maria estava interessada em Vladimir, no entanto o anúncio do noivado tardava em chegar.

Vladimir Alexandrovich
Quando chegou o ano novo, a jovem duquesa foi considerada novamente "disponível". Em Janeiro de 1872, a rainha Vitória estava preocupada com essa ideia, uma vez que o seu filho favorito, o príncipe Artur, estava prestes a viajar até à Alemanha para conhecer princesas adequadas para se casar. Estaria em segurança? A rainha deu instruções muito claras ao seu tutor. Segundo ela, dizia-se que Maria "era muito bonito, mas também uma grande coquette que deitou fora a oportunidade de se casar com um príncipe de quem estava noiva para tentar conseguir um grão-duque russo. É bem possível que tente apanhar o príncipe Artur, mas não deve ser considerada". Chegou a primavera e depois o verão e mesmo assim o noivado com Vladimir ainda não era oficial, apesar de ele também estar interessado em casar-se com ela. Em Novembro, a princesa Alice contou à rainha Vitória o motivo: "a imperatriz da Rússia acabou de me escrever a informar-me que o noivado com a Maria de Mecklemburgo é completamente impossível uma vez que ela não quer mudar de religião. Espero que todas as outras princesas alemãs lhe sigam o exemplo".

Maria Pavlovna com a sua irmã mais nova, Ana, que morreu antes de chegar à idade adulta.
A determinação que se iria destacar em Maria muitos anos depois já se começava a notar. Depois de ter desistido da possibilidade de se tornar numa princesa reinante, ainda que de um principado menor, para ficar com Vladimir, agora mostrava que apenas o iria fazer se a união fosse realizada segundo os seus próprios termos. Teve de esperar quase dois anos: 1873 chegou e passou e parecia cada vez mais impossível chegar a um acordo. No entanto, com o chegar de uma nova primavera, os muros começaram finalmente a ruir. Alexandre II escreveu ao grão-duque Frederico Francisco a dar a sua permissão para que Maria se casasse com o seu filho. Depois de abrir uma excepção aos rigorosos estatutos da família Romanov, o czar deu também permissão para que Maria mantivesse a sua religião luterana sem que Vladimir perdesse os seus direitos de sucessão ao trono. (Actualmente, alguns membros da família Romanov contestam esta versão dos acontecimentos e afirmam que os seus parentes mais velhos lhes contaram que Vladimir assinou um documento secreto de renuncia ao trono para se poder casar com Maria. No entanto, nunca surgiu nenhuma prova de que tal tivesse mesmo acontecido). O noivado foi anunciado em 1874 e foi muito bem recebido na Alemanha, onde a atitude forte de Maria foi vista como uma grande vitória. As filhas mais velhas da rainha Vitória concordavam com essa opinião, mas mostravam também uma certa cautela. Alice tinha discutido o assunto com a mãe de Vladimir e tinha a certeza que a czarina tinha cedido à ideia do noivado contrariada. A princesa-herdeira previu que a situação iria acabar em conflito: "Não acho que o casamento da Maria de Schwerin com o Vladimir tenha grandes hipóteses de ser feliz", escreveu ela, "e ser de outra religião num país tão preconceitoso vai, sem dúvida, dificultar-lhe muito a vida". 

Fotografia do noivado entre Maria e Vladimir
É possível que o próprio czar tivesse as suas dúvidas. A sua decisão não foi popular dentro da família nem na sociedade. Ninguém queria que os seus adorados costumes e tradições fossem contrariados por uma jovem estrangeira. Vladimir e Maria casaram-se no Palácio de Inverno em Agosto e, provavelmente, não foi por acaso que a cerimónia se realizou no pico do verão. O embaixador britânico na Rússia, Lord Augustus Loftus, escreveu que "nesta época do ano, a cidade está praticamente deserta e, por isso, só vieram [ao casamento] aqueles que eram obrigados". A irmã de Vladimir, a grã-duquesa Maria Alexandrovna, tinha-se casado com o príncipe Alfredo do Reino Unido sete meses antes e Lord Augustus comparou as duas cerimónias de forma bastante desfavorável. Até a cerimónia protestante, pela qual Maria tanto tinha lutado, "pareceu muito aborrecida, quando comparada com a magnifica missa russa. Felizmente, não durou muito tempo".

A grã-duquesa Maria Pavlovna pouco depois da sua chegada à Rússia.
No entanto, apesar de tudo, o embaixador mostrou grande admiração pelo mais recente membro da família imperial. "A jovem grã-duquesa é uma personagem superior. Não é muito bonita, mas é extremamente intelectual e com um porte gracioso e digno. No Te Deum pelo aniversário do imperador, permaneceu sempre erecta enquanto todos os outros se ajoelhavam e faziam o sinal da cruz. Aqui é uma surpresa uma princesa estrangeira casar-se com um grão-duque e manter a sua religião, mas é um processo ao qual se terão de habituar, senão, em breve, não haverá esposas para os grão-duques russos".

Maria Pavlovna
Maria tinha chegado a São Petersburgo com a determinação de enfrentar a hostilidade de frente e com a cabeça erguida. Havia um tom de desafio até no patronímico que escolheu: "Pavlovna" era uma homenagem não só ao seu avô, o grão-duque Paulo Frederico de Mecklemburgo-Schwerin, mas também ao avô dele, o czar Paulo I da Rússia. O nome era uma lembrança constante de que Maria era também uma descente directa dos governantes mais poderosos da Rússia. A grã-duquesa considerava-se igual em estatuto ao marido e o resto da família costumava até dizer que ela era uma eslava mais autêntica do que eles, devido às origens eslavas da sua família. Segundo um amigo, o príncipe von Bulow, Maria achava piada ao antigo rumor de que o seu marido, os irmãos e a irmã dele não eram, na verdade, descendentes do grão-duque de Hesse-Darmstadt, mas sim de um dos seus oficiais da corte.

Vladimir Alexandrovich e Maria Pavlovna
No entanto, o casamento em si valeu a pena toda a luta. Quando era solteiro, Vladimir tinha fama de playboy, mas a sua personalidade e a de Maria eram muito semelhantes e o escândalo nunca tocou a sua relação. Eram felizes e, inicialmente, Maria adoptou com prazer o estilo de vida sumptuoso do marido: Vladimir foi o primeiro grão-duque a levar a sua esposa directamente para um palácio construído de propósito para ela. Na barragem do Neva, o local mais prestigiante de São Petersburgo, tinha mandado construir o Palácio de Vladimir, o edifício novo mais luxuoso da capital, com todas as funcionalidades mais recentes, decorado em grande. Poucas semanas depois de se instalar, Maria tinha já encomendado novas fardas de verão vermelhas para os criados.

Maria Pavlovna
No Natal, o casal encontrava-se em Czarskoe Selo, onde ficou durante algum tempo antes de regressar à cidade para uma ronda de festas que lhes ocupou o ano até à Quaresma. Nessa altura, Maria começou a sentir os sintomas da sua primeira gravidez e, em Julho, a sua avó viajou até São Petersburgo para assistir ao parto. O bebé, um rapaz, nasceu de boa saúde em Czarskoe Selo em finais de Agosto e recebeu o nome de Alexandre em honra do seu avô, o czar. Embora muitos membros da família continuassem a tratar Maria friamente, o seu sogro sempre a tratou com grande carinho e ela nunca o esqueceria.

Maria com o seu filho Kyrill
Em Outubro de 1876, Maria deu à luz o seu segundo filho, Kyrill, no entanto, pouco tempo depois, seguiu-se uma tragédia: o pequeno Alexandre morreu em Março de 1877. Como forma de a compensar, discretamente, o czar Alexandre II nomeou-a chefe do 37.º Regimento de Infantaria. Maria sabia cavalgar muito bem e gostou da oportunidade de participar na inspecção das tropas com o marido. Antes do final do ano, deu à luz o seu terceiro filho, Boris, e dois anos depois, um quarto filho, André. A sua única filha, Helena, nasceu em 1882. Os seus quatro filhos eram crianças bonitas e os pais sentiam-se imensamente orgulhosos deles. A cada dois ou três anos, costumavam levá-los até Schwerin. Kyrill recordou mais tarde uma ocasião na qual a grã-duquesa Alexandrina se vestiu de gala, sem esquecer as suas ordens e medalhas, para jantar com as crianças no berçário, tratando-o a ele e aos irmãos como se fossem monarcas estrangeiros numa visita de estado. Maria fortaleceu os laços entre as duas famílias quando apresentou o seu irmão mais velho, Frederico Francisco, a uma das primas de Vladimir, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna. Os dois casaram-se em 1879.

Maria Pavlovna com o seu irmão Frederico Francisco.

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 9 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Primeira Parte

O príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca com a sua esposa, a grã-duquesa Helena Vladimirovna no dia do seu casamento
Quando terminava a educação dos membros da família imperial, chegava a altura do casamento. Os estatutos impostos pelo czar Paulo I faziam com que os seus descendentes fossem obrigados a contrair matrimónio com parceiros do mesmo estatuto social, o que limitava a sua escolha a membros de famílias reinantes da Europa. Também havia considerações sociais a ter em conta: a Igreja Ortodoxa Russa proibia o casamento entre primos direitos, uma prática comum noutras casas reais, e, até 1874, as princesas estrangeiras que se casavam com homens da família Romanov eram obrigadas a converter-se à religião ortodoxa. Esta regra continuou a ser aplicada à esposa do herdeiro ao trono.

Gravura do casamento do futuro czar Alexandre III com Maria Feodorovna
Por outro lado, as grã-duquesas russas nunca se converteram a outra religião. Permaneceram ortodoxas, independentemente do noivo escolhido e, até aos dias de hoje, ainda sobrevivem igrejas russas por toda a Europa mandadas construir pelas filhas e netas de czares que se foram espalhando pelas famílias reais do continente. Era raro ver uma noiva Romanov que se adaptasse bem ao seu país de acolhimento. Rodeadas por culturas completamente diferentes daquela onde tinham nascido, quase todas elas acabariam por permanecer profundamente ligadas à Rússia e com saudades do seu país natal.

Para os seus irmãos, as coisas eram ainda mais complicadas. Os jovens Romanov não eram protegidos da sociedade e era quase inevitável que as suas primeiras paixões surgissem por alguma dama-de-companhia ou dançarina, o que tornava difícil a sua adaptação a uma casamento "adequado" e, à medida que a família foi crescendo, foi-se tornando cada vez mais difícil encontrar princesas pela Europa. Esse foi o maior problema da família imperial à medida que atravessava os seus últimos anos de existência e o número de membros da família que se foi casando abaixo da sua posição foi aumentando com o passar dos anos.

O grão-duque Paulo Alxandrovich com a sua segunda esposa, a aristocrata Olga Karnovitsch , depois princesa Paley
A grã-duquesa Maria Alexandrovna era particularmente afeiçoada ao seu pai, o czar Alexandre II da Rússia: "Perdemos a nossa filha mais velha e queríamos tanto ter outra que, quando ela nasceu, foi uma alegria. (...) Quando ela tinha aulas, as nossas horas não coincidiam e era raro ela poder fazer-me companhia nas minhas caminhadas, mas aos Domingos tinha-a só para mim e iamos sempre caminhar juntos (...) ontem, quando chegou à hora em que costumávamos fazer isso, não pude evitar e tive de lhe enviar um telegrama a dizer-lhe que estava a pensar nela e nas nossas caminhadas". Quando Maria e o príncipe Alfredo do Reino Unido começaram a apaixonar-se, ambos os seus pais mostraram alguma preocupação. As relações diplomáticas entre a Rússia e Grã-Bretanha estavam cortadas, mas o casal estava decidido e a cerimónia acabaria mesmo por celebrar-se na Grande Capela do Palácio de Inverno em Janeiro de 1872. Maria Alexandrovna teve muitas dificuldades para se adaptar à corte britânica e apenas acabaria por se sentir realmente à-vontade quando o seu marido se tornou duque de Saxe-Coburgo-Gota.

A grã-duquesa Maria Alexandrovna e o seu marido, o príncipe Alfredo do Reino Unido


Maria Alexandrovna mostra o seu filho mais velho, o príncipe Alfredo. A fotografia foi tirada na Rússia, por volta de 1875.


















As filhas mais velhas de Maria Alexandrovna: Maria, futura rainha da Roménia, e Vitória Melita, futura grã-duquesa de Hesse e grã-duquesa da Rússia. Ambos os seus casamentos seriam fonte de desentendimentos na Rússia.









A grã-duquesa Olga Constantinovna (em baixo, com a mãe) ficou noiva do rei Jorge I da Grécia no início de 1867, quando tinha apenas quinze anos de idade. Diz-se que o seu encontro em casa dos pais dela foi acidental, mas parece mais provável que a irmã dele, a futura czarina Maria Feodorovna, teve alguma influência para que ele acontecesse. É sabido que persuadiu os pais de Olga, que não estavam muito convencidos do sucesso da união, a dar o seu consentimento. "Onde é que foste aprender a ser tão casamenteira, minha marota?" perguntou o pai dela, o rei Cristiano IX da Dinamarca, "Deves ter tido muito trabalho a convencer o teu tio e a tua tia que, antes, estavam decididamente contra uma união deste tipo". Olga casou-se no Palácio de Inverno em Outubro e partiu para a Grécia pouco tempo depois, quando era ainda pouco mais do que uma criança. Levou consigo as suas bonecas e brinquedos favoritos que lhe serviram de conforto quando a experiência se tornou demasiado esmagadora. Acabaria por se adaptar relativamente bem ao seu novo país e tornou-se uma rainha bastante popular, mas o seu coração foi sempre russo. 


Olga Constantinovna e Alexandra Iosifovna
A rainha Olga com os seus filhos mais velhos, Constantino, herdeiro do trono grego, (à direita, sentado) e Jorge. Constantino nasceu em Agosto de 1868, antes de a sua mãe chegar aos dezassete anos de idade, e o seu nome foi escolhido por uma multidão que o entoou por baixo da varanda do palácio na noite do seu nascimento. Foi uma reviravolta curiosa: o primeiro Constantino da família imperial russa, o grão-duque Constantino Pavlovich, tinha recebido esse nome porque a sua avó, a czarina Catarina, a Grande, desejava criá-lo para que ele subisse um dia ao trono grego que era na altura ocupado pelo imperador otomano. Agora, quase um século depois, um dos seus descendentes, ainda para mais um com o mesmo nome, estava em linha directa para herdar o trono.

Olga Constantinovna com os seus dois filhos mais velhos
O rei Jorge e a rainha Olga em 1881 (abaixo). O rei e a rainha visitavam a Rússia e a Dinamarca, país natal do rei, com muita frequência. Na Dinamarca também se encontravam quase todos os outonos com Maria Feodorovna, Alexandre III e a sua família. Ambas as famílias foram sempre muito chegadas.

Jorge e Olga em 1881
A grã-duquesa Vladimir, Maria Pavlovna, com o seu irmão, o grão-duque hereditário Frederico Francisco de Mecklenburg-Schwerin em 1878 (abaixo). Maria Pavlovna também recorreu à sua posição de mulher casada para ajudar a arranjar o casamento dos seus irmãos solteiros. Apesar de ter uma personalidade gentil e quase santa, Frederico Francisco era o que precisava mais de ajuda. Sofria de uma forma grave de asma assim como ataques espaçados de uma doença de pele pouco atraente. Maria Feodorovna deixou-nos uma descrição bastante gráfica: "sofre de uma doença asquerosa, uma erupção cutânea que lhe afecta todo o pescoço e as orelhas de tal forma que ele teve de usar uma espécie de manto a semana inteira para não se ver. É uma tragédia para ele, coitado. É quase errado que ele se case". Mas Maria Pavlovna tinha quase tanto jeito como a cunhada para que as coisas acontecessem à sua maneira e reparou que uma prima do marido, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna de dezassete anos, poderia ser uma boa noiva para o irmão. Frederico Francisco fez uma visita a São Petersburgo e sentiu-se tão atraído por Anastásia que tomou imediatamente a iniciativa de escrever uma carta à mãe da sua futura esposa. "Pode imaginar como fiquei nervosa", escreveu Maria Pavlovna ao seu pai, "porque o futuro do meu irmão e o bem-estar do nosso amado estado de Mecklenburg-Schwerin depende disto."

Maria Pavlovna com o irmão, Frederico Francisco
Anastásia Mikhailovna em 1879 (abaixo), num retracto que faz justiça à descrição que Maria Feodorovna deixou dela no seu dia de casamento: "tão doce, delicada como uma rosa, bonita como uma fada". De forma característica, a futura czarina descreveu o noivo de forma perversa: "parecia alguém que tinha despertado do mundo dos mortos ou alguém que se esqueceram de enterrar". Mas Anastásia acabaria mesmo por o amar já que, de acordo com vários relatos, ele era uma pessoa muito amável - "o homem mais querido à face da Terra", segundo dizia a princesa de Pless. Foi com o estado de Mecklenburg-Schwerin que Anastásia teve problemas. Antes de se casar, a grã-duquesa esforçou-se verdadeiramente por estudar o estado que a ia receber, mas acabou por nunca se conseguir adaptar a ele. Detestava aquele lugar e os seus súbditos acabariam por sentir o mesmo em relação a ela. Não demorou muito até que Anastásia e Frederico compreendessem que apenas poderiam ser felizes como um casal longe do estado que ele estava destinado a reinar.

Anastásia Mikhailovna em 1879
Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat

quarta-feira, 21 de março de 2012

Casar na Família (Parte 2)

Uma fotografia de Maria Feodorovna com os seus filhos Miguel e Xenia, provavelmente tirada depois da ascensão do seu marido ao trono na primavera de 1881. A família imperial tinha sido  muito alemã, tanto em personalidade como nas simpatias, durante séculos, mas a chegada de Maria Feodorovna, princesa Dagmar da Dinamarca, marcou uma mudança. O seu primeiro noivo, o czarevich Nicolau, afirmou firmemente que o casamento iria acontecer por ser esse o seu desejo e que não tinha qualquer implicação política. Apesar disso, a Prússia e a Dinamarca tinham declarado guerra pouco antes do noivado e a antipatia entre os dois países durou décadas. A diminuição  das simpatias prussianas na corte russa durante o reinado de Alexandre III deveu-se, em parte, à influência da sua esposa. Apesar da sua dedicação ao país do marido, Maria Feodorovna manteve-se muito dinamarquesa e deu sempre o seu melhor para promover os interesses dinamarqueses na Rússia.


Mas as simpatias alemãs continuaram na corte do irmão de Alexandre, o grão-duque Vladimir, visto aqui com a sua noiva, a duquesa Maria de Mecklenburg-Schwerin. Maria era trineta do czar Paulo I. Quando conheceu Vladimir em 1871, tinha dezassete anos e tinha acabado de ficar noiva, por escolha própria, de um príncipe alemão muito mais velho. Rompeu o noivado imediatamente, apesar de terem sido precisos três anos para assegurar o seu noivado com Vladimir. A atracção foi mútua, o problema era que Maria se recusava firmemente a converter-se à religião ortodoxa, um passo que era exigido a todas as noivas Romanov há várias gerações. As negociações duraram três anos. Depois, na primavera de 1874, Alexandre II cedeu e permitiu a formalização do noivado. Esta decisão não foi bem-vista na Rússia, principalmente entre as princesas que já tinham sido forçadas a converter-se. Marcou a chegada de uma jovem assertiva e confiante que se tornaria uma força formidável na família.


A grã-duquesa Maria Pavlovna, o nome de casada de Maria, com o seu segundo filho, o grão-duque Cyril Vladimirovich, cerca de 1878. Um primeiro filho, chamado Alexandre, tinha morrido em 1877, pouco antes de completar dois anos de idade. Maria Pavlovna adaptou-se maravilhosamente ao esplendor e à riqueza de São Petersburgo e não demorou muito a tornar-se o centro dos círculos mais elegantes. Todos aqueles que não eram aceites na corte imperial, mais tradicional, viravam-se naturalmente para ela. Maria gostava de ser o centro das atenções. Uma mulher com um charme infinito, tinha como principal talento guiar e aconselhar qualquer pessoa mais nova ou com menos experiência do que ela. Teria sido uma imperatriz magnifica, mas a sua personalidade fazia com que não conseguisse contentar-se com o segundo lugar mais importante para uma mulher na Rússia. Foi rival da sua cunhada Maria Feodorovna desde o início.


A princesa Isabel de Saxe-Altenburg tinha dezasseis anos no verão de 1882, quando o grão-duque Constantino Constantinovich visitou Altemburgo. Constantino tinha vinte-e-quatro anos e estava a recuperar de um desgosto amoroso, e a atracção entre os dois foi imediata. Mas enquanto Isabel não tinha dúvidas, Constantino agonizava. Era um homem profundamente introspectivo e passou um ano sem escrever a Isabel, ao contrário do que tinha prometido, apesar de escrever poemas sobre ela. Depois regressou para pedi-la em casamento. Em Abril de 1884, Isabel chegou à Rússia. Tinha escolhido manter a religião luterana. Esta decisão foi um duro golpe para Constantino devido à sua forte devoção ortodoxa. Para piorar a situação, Isabel ofendeu a corte quando se recusou a beijar cruz erguida durante a missa.

Os medos de Constantino voltaram a despertar, mas, na manhã do casamento, Isabel escreveu-lhe uma carta para o acalmar: "Prometo que nunca farei nada para te enfurecer ou magoar por causa das nossas religiões divididas (...). Só te posso dizer mais uma vez que te amo muito."


Constantino acalmou-se e levou a carta de Isabel no bolso o dia inteiro. Sobre a cerimónia ortodoxa escreveu: "Depois de ouvir as palavras 'Deus nosso Senhor, pela honra e pela glória, casa este casal!', vi a Isabel como minha esposa, que me é entregue para sempre e quem devo amar, cuidar e estimar. O momento no qual o padre nos conduziu ao altar foi especialmente solene para mim, senti-me leve e feliz (...). Eramos marido e mulher. Tivemos permissão para nos beijar. Depois dirigimo-nos a Sua Majestade, à czarina e aos meus pais. A cerimónia começou. O canto era maravilhoso. Caiu-me uma pedra do coração."

As fotos de casamentos da família imperial no século XIX são raras, mas esta mostra Isabel, a grã-duquesa Isabel Mavrikievna, no dia de casamento, a usar a coroa das noivas. Durante a cerimónia de casamento ortodoxa, as coroas eram erguidas sobre as cabeças do casal, normalmente pelos parentes masculinos mais jovens. Colocando o seu início turbulento para trás, Isabel e Constantino começaram felizes a vida de casados. Ele chamava-a 'Lilinka'. Um mês depois do casamento, Constantino disse ao pai que "Ela já nos pertence." 



Os Vladimirovich: A grã-duquesa Maria Pavlovna e o marido com os filhos em 1884. As crianças são, da esquerda para a direita, Boris, Helena, Cyril e André.


Isabel de Hesse hesitou durante mais de um ano antes de aceitar o pedido de casamento do grão-duque Sérgio Alexandrovich que conhecia desde criança. Ele também estava hesitante, mas os dois ficaram noivos em Setembro de 1883. O pai de Isabel disse numa carta a Alexandre III: "Não hesitei antes de dar o meu consentimento porque conheço o Sérgio desde criança. Vejo que tem modos simpáticos e agradáveis e sei que fará a minha filha feliz". As cartas privadas que começam agora a surgir mostram que o casamento não foi o longo martírio que muitos descreveram. Essa ideia surgiu, acima de tudo, devido aos boatos da corte e das memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich que odiava Sérgio. 

Sérgio era um homem profundamente religioso que não escondia o seu gosto pela sociedade elegante, e fez muitos inimigos. "Muitas vezes era inseguro", recordou o grão-duque Ernesto Luís, irmão de Isabel."Isso fazia com que a sua postura endurecesse e os seus olhos pareciam severos (...) por isso as pessoas ficaram com uma impressão errada dele e achavam-no orgulhoso e frio, algo que ele certamente não era. Houve muitas, bastantes pessoas que ele ajudou, mas apenas o fazia no mais profundo sigilo."

"O Sérgio é uma pessoa," escreveu Isabel numa carta ao pai, "que quanto mais tempo passa com alguém, mais essa pessoa gosta dele (...)"


A grã-duquesa Isabel Feodorovna e o grão-duque Sérgio Alexandrovich em Darmstadt, cerca de 1889. Esta fotografia conta muito de um casal que ficou lado-a-lado durante mais de vinte anos, sem se preocupar com o que as pessoas diziam sobre eles. "As pessoas vão arranjar intrigas e mentir enquanto o mundo existir," escreveu Isabel numa carta à sua avó Vitória em 1896, "e nós não somos os primeiros nem vamos ser os últimos a ser caluniados." A relação aprofundou-se em 1891 quando Isabel decidiu converter-se à religião ortodoxa, tendo inicialmente preferido manter a sua religião luterana. Tal como para o grão-duque Constantino Constantinovich, esta decisão tinha sido difícil para Sérgio, mas não disse nada - "Foi um verdadeiro anjo da bondade  (...) nunca, nunca se queixou"- e a sua paciência foi recompensada. O facto de não terem filhos foi uma mágoa permanente que o casal partilhou e parece que ambos sabiam que a situação seria assim para sempre. Outros membros da família também o sabiam. "Coitados do Sérgio e da Ella", escreveu Alexandre III numa carta à esposa na primavera de 1892 "(...) por lhes ser negada esta bênção o resto da vida."


Desde a infância que Sérgio era muito chegado ao seu irmão mais novo, o grão-duque Paulo Alexandrovich, ao ponto de o levar consigo na sua lua-de-mel. Vítima de doenças pulmonares frequentes, Paulo passava os invernos na Grécia com a sua prima, a grã-duquesa Olga Constantinovna, e a sua família, e foi assim que encontrou a sua noiva. A princesa Alexandra da Grécia, filha de Olga, que se tornou a grã-duquesa Alexandra Georgievna após o seu casamento em Junho de 1889, não era uma desconhecida na Rússia, nem da família imperial devido às visitas da mãe à Rússia e à família do pai na Dinamarca que também a conhecia desde que tinha nascido. Também era ortodoxa, por isso a sua mudança para norte para se casar com Paulo não foi uma grande agitação, apesar de ter sentido a falta do clima grego.


Isabel Feodorovna e Alexandra Georgievna tornaram-se quase irmãs, criando uma relação semelhante aquela que existia entre os maridos desde sempre. O criado-de-quarto de Paulo, Alexei Volkov, descreveu desta forma os primeiros tempos de casamento do patrão: "Os recém-casados mudaram-se para o seu palácio no talude do Neva, atrás da Igreja da Anunciação e de frente para o quartel-general da marinha. A vida familiar deles seguiu tranquila e serena lá. A primeira filha (...) nasceu no palácio e os companheiros mais próximos e adorados do casal eram o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a sua esposa, a grã-duquesa Isabel Feodorovna."


A grã-duquesa Alexandra Georgievna com a sua filha Maria Pavlovna que nasceu no dia 6/18 de Abril de 1890 e foi baptizada um mês depois, tendo a czarina Maria Feodorovna e o grão-duque Sérgio como padrinhos.


Alexandra em 1891 com a sua mãe, a grã-duquesa Olga Constantinovna, a sua avó, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna e a sua filha Maria.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat