Java

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Maria Feodorovna por A. A. Mossolov


A imperatriz viúva, Maria Feodorovna, princesa da Dinamarca, descendia em parte da linha colateral dos príncipes de Schleswig-Holstein. O ambiente de Holstein era bastante patriarcal e profundamente “provinciano”, pelo que a imperatriz tinha aprendido a não dar demasiada atenção a questões de etiqueta e a dar muita importância aos defeitos daqueles que a rodeavam. Maria Feodorovna achava que a sua principal função como imperatriz era a de encantar todos que conhecesse e tinha todas as qualidades para o conseguir, sendo venerada pela corte e pelo povo.

Maria Feodorovna com a irmã Alexandra e o marido Alexandre na Dinamarca

A imperatriz era muito tolerante com os seus criados. Lembro-me de um episódio em que o cocheiro dela estava tão bêbado que acabou por adormecer no seu posto de trabalho, deixando os cavalos a correr desgovernadamente e foi incrivelmente difícil fazê-los parar. Maria Feodorovna apenas se preocupou em garantir que o incidente não chegava aos ouvidos do marido, tratando tudo com muito humor.

Ia muito frequentemente a Copenhaga, tendo o iate Polar Star à sua disposição e os seus criados tinham muito o hábito de comprar bens estrangeiros.
Maria Feodorovna com o marido Alexandre III

Trazer bens do estrangeiro era proibido pelos aduaneiros e pela corte. Em certa ocasião, quando o iate estava a regressar à Rússia, Freedericksz mandou revistar todas as malas. Havia principalmente cigarros, cartas de jogar e sedas, mas nenhum destes bens foi confiscado ou sequer foi exigido aos infractores que pagassem uma multa: Maria Feodorovna, com o seu encantador sorriso, declarou que queria que todas as multas e obrigações fossem pagas a partir da sua conta pessoal. A conta pessoal da imperatriz era gerida por Freedericksz, por isso teve de ser ele mesmo a pagar o valor que tinha exigido aos criados.



A imperatriz não conseguia recusar nada aos membros da sua comitiva e o czar Nicolau II não conseguia recusar nada à sua mãe.

A consequência desta cadeia era a de que grande parte das nomeações na corte era feita através da imperatriz Maria e da sua comitiva. Uma das suas damas-de-companhia, Madame Flotow, era responsável pelo cuidado das jóias e do guarda-roupa da imperatriz, mas tinha também conseguido obter grande influência. Logo que o nome de Madame Flotow aparecesse nos papéis de alguém que estivesse a pedir uma posição na corte, já todos sabiam que o czar o iria nomear, mesmo se estivesse mais inclinado para o rejeitar.

De alguma forma, não sei bem como, Madame Flotow sabia sempre de todas as decisões do soberano, algumas vezes até antes de elas serem escritas oficialmente!



A imperatriz intervinha directamente nos assuntos de estado? No que diz respeito a política estrangeira, creio que, no inicio, terá dado alguns conselhos ao filho que provavelmente o influenciaram, visto que Maria Feodorovna era irmã da rainha Alexandra do Reino Unido. Depois descobri que Nicolau II consultava muito a mãe em assuntos de política estrangeira. De qualquer forma, a imperatriz não tinha qualquer ambição, senão a de ser amada e admirada.

Maria Feodorovna com a irmã Alexandra

Quanto à política interna, posso ser muito mais preciso. Mesmo quando ela estava no trono ao lado do seu marido Alexandre III, a imperatriz nunca teve oportunidade nem desejo de se envolver nas questões mais complexas da política interna russa. Achava que não tinha pelo que o fazer; como senhora da realeza, ocupava-se apenas com as funções mais básicas que chegavam a alguém na sua posição. Coisas como problemas agrários, a Duma ou as finanças do país simplesmente não lhe interessavam.

A imperatriz começou quase imediatamente a fazer as suas visitas a Copenhaga que se foram prolongado cada vez mais e muito antes de o seu filho chegar ao trono, a sua influência sobre assuntos de estado já tinha sido reduzida a nada.


A. A. Mossolov foi chanceler da corte russa entre 1900 e 1916

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Viagem à Dinamarca e à Alemanha (1899) - Margaret Eager

Famílias reais russa e dinamarquesa em 1899
No outono desse ano (1899), fomos ao estrangeiro. Em Peterhoff entramos a bordo de um pequeno iate chamado Alexandra que nos levou até Kronstadt onde nos mudamos para o Standard. O Padre João de Kronstadt veio a bordo e abençoou o imperador, a imperatriz e as crianças; também me abençoou a mim.

Começamos a nossa viagem em Kronstadt no belo iate Standard que é tão grande como a linha costeira e leva quinhentos homens a bordo. Fomos sempre seguidos por outro iate, o Polar Star, para protecção. Foi nesse barco que o imperador fez a sua viagem educativa pelo mundo inteiro quando era czarevich.


Nicolau e Tatiana com Miss Eager a bordo do iate Standard
Tinham sido dadas ordens para o navio andar a meio gás em caso de nevoeiro que é muito comum no Báltico. O nevoeiro chegou e o Standard reduziu a velocidade, mas o Polar Star não, por isso acabou por nos ultrapassar e já estava a alguns nós de distância quando se percebeu o que tinha acontecido. Houve grande confusão a bordo de ambos os barcos e mudaram ambos um pouco a sua direcção. O Polar Star passou tão perto de nós que quase podemos apertar as mãos de quem estava a bordo dele. O resto da nossa viagem seguiu sem incidentes.

Quando chegamos a Copenhaga fomos recebidos pelo velho rei da Dinamarca, pelo príncipe de Gales (futuro rei Eduardo VII), pela princesa Vitória (do Reino Unido), pelo rei da Grécia e por muitos outros membros da realeza, e fomos de carro até ao Castelo de Bernstorff que ficava perto de Copenhaga. É uma residência muito pequena e havia tanta gente que chegava a ser desconfortável. Tem um pequeno parque e um jardim de rosas que a falecida rainha plantou.

Nicolau II  na companhia dos seus irmãos Miguel e Olga, do cunhado Alexandre, da prima Vitória do Reino Unido e dos primos Aage, Axel, Eric, Viggo e Cecília, filhos do príncipe Valdemar da Dinamarca
A princesa Vitória gostou muito das suas pequenas primas e elas, por seu lado, também mostraram muito afecto pela “Tia Toria”, como lhe chamavam. De facto, as três meninas foram o centro das atenções da família. A princesa de Gales ficou instalada num quarto ao lado do meu.

Ficamos cerca de dezasseis dias na Dinamarca, depois fomos para Kiel para visitar a irmã da imperatriz, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Naquela altura ela tinha dois filhos. Kiel é uma cidade bastante suja e muito movimentada, com um porto próspero; apesar de tudo tem lojas muito boas. Se alguém perguntar a um habitante de Kiel o que se pode comprar de recordação, ele sugere sempre peixe fumado. O peixe é muito valorizado por toda a Alemanha.

A princesa Vitória do Reino Unido com a princesa Cecília da Dinamarca
Ficamos dois dias em Kiel e depois fomos de comboio para Darmstadt, ou melhor, para Wolfsgarten. (…) Fomos recebidos na estação pelo grão-duque e grã-duquesa de Hesse e pela filha deles, a pequena princesa Ella, bem como pela irmã da grã-duquesa, a princesa-herdeira da Roménia que é uma mulher muito bonita. A princesa Ella tinha quatro anos na altura e era uma criança doce e bonita com grandes olhos cinza-esverdeados e uma grande quantidade de cabelo negro. Era muito parecida com a mãe, não só no rosto, mas também na forma como se movimentava. Gostava muito das suas primas e colocou alguns dos seus brinquedos na sala para que elas pudessem brincar e não demorou para que ficassem grandes amigas. A princesa queria muito ter um irmão e implorou com muita veemência para que a deixassem adoptar a grã-duquesa Tatiana. Disse que não íamos sentir tanta falta dela como da Olga ou da bebé (Maria) e chegou à conclusão de que Miss W. (a ama de Isabel) podia muito facilmente cuidar de mais uma criança. Nesse dia seguiu com muita atenção e olhos bem abertos a forma como eu tratava da bebé e perguntou à tia se não se importava de a deixar em Darmstadt e, claro, a imperatriz disse que não podia fazer isso. Depois tentou a via diplomática, assegurando a toda a gente que a Maria era uma bebé muito feia e que ficaríamos melhor sem aquela menina pateta. Quando pensou que tinha conseguido cumprir o seu objectivo, disse-me que a bebé era tão horrível que eu até a devia deitar fora!

A princesa Isabel de Hesse com a prima Olga, o pai Ernesto Luís, o tio Nicolau II e o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca
Passamos seis ou sete semanas muito felizes em Wolfgarten onde podemos usufruir de prazeres muito simples como chás ciganos. Fomos duas vezes a Darmstadt, tomamos chá no palácio e fomos às compras com as crianças. Darmstadt é uma cidade bem construída, com ruas largas e limpas e boas lojas. Levamos as crianças a uma loja de brinquedos e dissemos que elas podiam escolher o que quisessem para si e um presente para os seus familiares. A Olga escolheu o brinquedo mais pequeno que encontrou e agradeceu educadamente. Os funcionários da loja tentaram em vão mostrar-lhe brinquedos melhores, mas ela respondia sempre: “Não, obrigada, não quero isso.” Levei-a para um canto e perguntei-lhe porque é que ela não queria levar mais nada. Disse-lhe que as pessoas iam ficar tristes se ela não levasse mais nada e que não podia sair da loja sem escolher outras coisas. Então respondeu-me: “Mas de certeza que os brinquedos mais bonitos já são de outras meninas e ia ser muito mau se elas chegassem a casa e vissem que nós os tínhamos levado enquanto elas estavam a passear.” Expliquei-lhe como funcionava a loja e tanto ela como a Tatiana levaram um grande monte de brinquedos para casa.

Olga e Tatiana em Darmstadt em 1899
Foi com muita pena que deixamos Darmstadt. A caminho da Polónia, fizemos uma paragem em Potsdam para visitar o imperador e a imperatriz da Alemanha. Quando chegamos, havia tropas alinhadas na estação e foi o próprio imperador que nos veio receber. Uma banda tocou o hino nacional russo e os dois imperadores caminharam lado a lado enquanto inspeccionavam os regimentos que estavam presentes. O czar deu apertos de mão e felicitou os oficiais. O imperador e a imperatriz foram até ao palácio para almoçar, mas eu fiquei com as crianças no comboio até chegar uma carruagem que nos levou para lá já depois da refeição.

Nicolau com o kaiser Guilherme II em 1899
O imperador da Alemanha é exactamente igual ao que vemos nas fotografias e a esposa é uma mulher bonita e saudável. Nesta ocasião estava vestida de forma simples, com um vestido verde. Ambos adoraram as grã-duquesas e repararam principalmente nas roupas delas que tinham sido compradas em Londres de propósito para a visita. As meninas tinham vestido casacos creme de seda com chapéus a condizer. Debaixo tinham vestidos creme com faixas de seda cor-de-rosa.  A pequena princesa, única menina nascida do casal, levou-nos para o andar de cima e pareceu-me uma criança muito doce e bem-educada. Os quartos das crianças tinham todos papel de parede verde marinho e prateado e eram todos muito bonitos. Foi lá que tomamos chá com a princesa e o príncipe mais novo. Não havia criados na sala e foi próprio príncipe que distribuiu o pão e a manteiga por todos. Quando terminamos o chá, eles levaram a Olga para andar numa pequena carruagem puxada por um pónei vigiada pela ama inglesa que também levou consigo a Tatiana e andaram todos pelos conhecidos jardins de Sans Souci. Depois voltamos ao comboio e pusemos as crianças na cama. Cerca das dez da noite chegaram o imperador e a imperatriz. A banda tocou e começamos a viagem para a Polónia.

Vitória Luísa, filha do kaiser Guilherme II

domingo, 9 de outubro de 2011

Diário de André Vladimirovich

André Vladimirovich, filho mais novo do grão-duque Vladimir Alexandrovich

Nesta entrada do diário de André Vladimirovich, primo direito do czar Nicolau II, o grão-duque descreve uma visita que Alexandra Feodorovna fez à sua mãe, a grã-duquesa Maria Pavlovna, na companhia de Olga e Tatiana.

Alexandra, Helena Vladimirovna, Maria Pavlovna e Nicolau II

Petrogrado, 19 de Setembro de 1915

Há alguns dias a Alix e as duas filhas mais velhas foram tomar chá com a mamã em Czarskoe Selo. Há que notar que foi a primeira vez em vinte anos que a Alix foi visitar a mamã sozinha sem o Nicky. Mas o mais interessante de tudo foi a conversa.

Alexandra, Olga e Tatiana em 1915

A Alix queixou-se amarguradamente que tudo o que faz é criticado, principalmente em Moscovo e Petrogrado. Toda a gente está contra ela e, por isso, está com as mãos atadas. “Ainda agora,” disse ela, “soube que as irmãs da Cruz Vermelha alemã me querem visitar. Pelo bem da causa devia recebê-las, mas não posso fazer isso sabendo que acabará por ser usado contra mim.” A mamã perguntou se era verdade que ela e a corte estavam a pensar mudar-se para Moscovo. “Oh, até a senhora já ouviu falar disso! Não, não tenho intenções de me mudar, mas “eles” estavam com esperanças que o fizesse para que pudessem vir “eles” para aqui.” (É claro que com “eles” a imperatriz queria dizer o grão-duque Nicolau Nikolaevich e as montenegrinas [esposa e cunhada do grão-duque]) “Mas,” prosseguiu a imperatriz, “felizmente soubemos disto a tempo e foram tomadas as medidas necessárias. Ele [o grão-duque Nicolau] agora vai para o Cáucaso. Já não é possível aguentar isto. O Nicky não sabia nada sobre o que se estava a passar na guerra. “Ele” não lhe dizia nada, nunca lhe escrevia. O poder do Nicky estava a ser-lhe roubado por todos os lados. Tiraram-lhe tudo o que havia para ser tirado. É intolerável. Estamos numa altura em que é preciso que haja uma mão forte e segura no meio desta autoridade desgovernada. Implorei ao Nicky que não dispensasse o Goremykin desta vez. É um homem honesto e leal, com convicções firmes e princípios sólidos. Não é correcto afastá-lo das pessoas que lhe são devotas, que ficariam com ele até ao fim.”

Grão-duque Nicolau Nikolaevich
No que diz respeito ao facto de o Nicky ser o chefe supremo do exército, a imperatriz disse que agora o marido se encontra muito bem-disposto. Saber o que está a acontecer deu-lhe uma nova vida e um novo entusiasmo.

Este episódio na vida da nossa família é muito importante porque nos dá a oportunidade de compreender a Alix. Desde que ela está connosco [na Rússia], sempre se escondeu numa espécie de névoa impenetrável através da qual a sua personalidade se tornou obscurecida. Ninguém a conhecia realmente ou sequer a compreendia e isto explica os quebra-cabeças e palpites que se foram transformando em lendas à medida que o tempo passava. Quem tem razão, é difícil dizer. É uma pena, pois a personalidade da imperatriz devia ser adorada por toda a Rússia, ela devia ser vista e compreendida. Não sendo assim, fica no pano de fundo e perde a tão necessária popularidade. Claro que a conversa de que falo acima com a minha mãe não pode remediar tudo o que aconteceu nestes últimos vinte anos, mas devo dizer que para nós, pessoalmente, foi muito importante. Conseguimos vê-la noutra perspectiva; vemos que muitas das lendas que se formaram em torno dela não são verdadeiras, vemos que ela está no caminho certo. Se ela não disse mais nada, se fez o que fez, devemos assumir que o fez com bom senso. Mas era mais do que evidente que ela fervilhava de dor e tinha necessidade de confessar alguma dela com a minha mãe.

Alexandra

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Imperatriz Alexandra por Lili Dehn



A imperatriz levantava-se cedo. Tinha seis criadas para a vestir, entre as quais a chefe, Madeleine Zanoty, uma italiana cuja família servia os Hesse já há muito tempo. Louise Toutelberg, conhecida por “Toutel”, a segunda na hierarquia, vinha do Bâltico e havia mais quatro. As criadas trabalhavam três dias, mas nenhuma delas alguma vez viu a imperatriz nua ou no banho. Levantava-se e ia tomar banho sem assistência, vestindo depois o seu robe de seda japonesa por cima da roupa interior quando estava pronta para arranjar o cabelo. A imperatriz era extraordinariamente simples na forma como se vestia, uma característica visivelmente vitoriana, e o seu quarto estava decorado ao estilo de Windsor e do Palácio de Buckingham de 1840. Não gostava de nada transparente nem teatral nem na roupa interior nem nas camisas de dormir. A sua roupa interior era feita do melhor linho, com lindos bordados, mas tirando isso era muito simples. O seu cabelo ruivo alourado nunca via ferros de encaracolar e normalmente estava sempre arranjado de forma muito simples, excepto quando participava em funções de estado.  


Alexandra na Finlândia

O quarto do imperador e da imperatriz era grande e tinha duas grandes janelas com vista para o jardim. Ficava no andar de baixo devido aos problemas de coração da imperatriz que tinha grande dificuldade em subir escadas. Havia um elevador no corredor que ligava o andar de baixo aos aposentos das crianças, mas durante a Revolução a água foi cortada e ele deixou de funcionar. Apesar de tudo a imperatriz insistia em subir e descer as escadas constantemente para tratar das grã-duquesas e eu acompanhava-a sempre, ajudando-a em cada degrau. Vinham-me lágrimas aos olhos quando via como ela estava doente, mas determinada a não perder uma única oportunidade de estar com os seus adorados filhos.


Alexandra com as filhas

Havia uma grande cama dupla feita de madeira perto das janelas entre as quais ficava o toucador da imperatriz. Do lado direita da cama havia uma pequena porta na parede que dava para uma capela minúscula iluminada por candeeiros suspensos onde a imperatriz se fechava muitas vezes a rezar. A capela tinha uma mesa, um genuflexório no qual se encontravam uma bíblia e um ícone de Cristo. Esse ícone foi-me depois oferecido por Sua Majestade em memória dos tempos que passamos juntas em Czarskoe Selo e é um dos bens mais valiosos que tenho hoje.



Alexandra e Nicolau

A mobília no quarto imperial estava coberta por mantos floridos e a alcatifa era de uma cor simples. O quarto de vestir do imperador encontrava-se separado do quarto de dormir pelo corredor e, do lado oposto, ficava o quarto de vestir da imperatriz e a casa de banho. Ora aqui estão as suas faladas extravagâncias! A casa de banho estava longe de ser luxuosa, tinha uma banheira antiquada em tijoleira negra e o gosto vitoriano da imperatriz pela arrumação fazia com que insistisse em ver a banheira coberta durante o dia com uma manta de cretone. Havia uma lareira no quarto de vestir e as criadas esperavam no quarto adjacente até que a imperatriz as chamasse. Os vestidos da imperatriz eram guardados lá e noutro quarto cheio de grandes armários que ficava a meio caminho para os aposentos das crianças e era utilizado sobretudo pelas criadas para passar a ferro e remendar as roupas de Sua Majestade.
Alexandra Feodorovna
A imperatriz preferia sapatos longos e pontiagudos com o tacão muito baixo. Normalmente usava sapatos de camurça, bronze ou brancos, nunca de cetim. “Não aguento sapatos de cetim, preocupam-me”, costumava dizer. Os seus vestidos, excepto aqueles que usava em cerimónias públicas, eram muito simples: gostava de blusas e saias e era viciada em vestidos de chá. O seu estilo era tão refinado como o da rainha Maria de Inglaterra; tal como ela não gostava de modas exageradas e não esquecerei com facilidade de quando ela não gostou de me ver a usar uma saia hobble:
- Gosta mesmo dessa saia, Lili? – perguntou a imperatriz.
- Bem… Madame, - respondi eu sem saber o que havia de dizer – c’est la mode.
- Não cumpre função nenhuma de uma saia – respondeu ela. – Agora, Lili, prove-me que é confortável: corra, Lili, corra, e deixe-me ver a que velocidade corta mato com isso.
Escusado será dizer que nunca mais voltei a usar uma saia hobble.

Fotografia de noivado de Nicolau e Alexandra
A imperatriz já foi acusada de ter uma demência por pedras preciosas. Nunca vi nenhum indício disso; é verdade que tinha a sua quota-parte de jóias magníficas, mas a maior parte pertencia à coroa e estavam em sua posse apenas porque era a imperatriz. Gostava de anéis e de pulseiras e usava sempre um anel com uma pérola enorme e uma cruz com jóias. Alguns escritores dizem que esta cruz era decorada com esmeraldas, mas não concordo. Tenho a certeza que as pedras preciosas eram safiras e como a via todos os dias tenho quase a certeza que estou correcta. A imperatriz tinha mãos macias e bem formadas, mas nunca tinha as unhas pintadas, já que o imperador detestava unhas demasiado arranjadas.

O boudoir da Imperatriz, conhecido como “Le Cabinet Mauve de l’Imperatrice” era uma sala maravilhosa onde o amor da imperatriz por todos os tons de malva era bem visível. Na primavera e no inverno, o ar era perfumado por grandes quantidades de lilás e lírios do vale que chegavam todos os dias da Riviera. As paredes estavam cobertas de fotografias, incluindo um retrato da falecida mãe da imperatriz, a princesa Alice de Inglaterra, grã-duquesa de Hesse-Darmstadt, que estava entre um quadro da Anunciação e outro de Santa Cecília.


A mobília era malva e branca, em estilo Heppelwait e era fácil encontrar muitos “cantinhos acolhedores”. Havia uma grande mesa onde se encontravam várias fotografias da família, com especial destaque para uma da rainha Vitória que ocupava um lugar de honra.

Alexandra no seu boudoir
A outra sala-de-estar privada era muito maior, decorada e estofada em tons de verde e a imperatriz tinha construído num canto uma espécie de escadaria com pequenos degraus e uma varanda que estava sempre cheia de violetas na primavera. Nesta sala havia fotografias dela e do imperador e algumas miniaturas maravilhosas das grã-duquesas pintadas por Kaulbach. A da Maria era particularmente bonita.

 
Havia livros por todo o lado; a imperatriz era uma leitora ávida, mas dedicava-se acima de tudo a literatura formal e sabia a bíblia de uma ponta à outra. A biblioteca ficava ao lado da sala-de-estar verde e era aí que todos os livros e revistas novos eram colocados em cima de uma mesa redonda e eram constantemente reorganizados pela data de publicação.
Alexandra com a filha Anastásia

A Imperatriz gostava muito de escrever cartas e fazia-o sempre que lhe apetecia. A sua mesa de escrever estava na sala ao lado do seu quarto, mas via-a muitas vezes a escrever cartas num bloco apoiado no seu colo e usava sempre uma caneta-tinteiro. Antes da guerra escrevia todos os dias a uma grande amiga que tinha deixado na Alemanha e lia-me sempre as cartas que essa senhora lhe enviava. Os seus artigos de papelaria, como tudo o resto, eram simples, mas tinham sempre o selo imperial.
A propósito do seu gosto por lilás e lírios do vale, posso também referir que a imperatriz adorava todo o tipo de flores, principalmente lilás, magnólias, glicínia, rododendros, frísias e violetas. Um amor por flores costuma ser sempre acompanhado por um amor por perfumes e a imperatriz não fugia à regra. Normalmente usava o “Rosa Branca” de Atkinson que era, como ela dizia, um perfume “limpo” e “infinitamente doce”. A sua eau-de-toilette preferida era Verveine.



Quando conheci a Imperatriz ela não fumava, mas durante a Revolução começou a fazê-lo. Penso que seria porque era a única coisa que a acalmava.
A imperatriz sempre teve um diário, mas acabou por me calhar a mim queimar todos os seus diários, bem como os da princesa Sofia Orbeliani e da Anna Vyrubova. Depois tive também de queimar todas as cartas que o imperador lhe tinha enviado desde o noivado até aos primeiros dias da Revolução.

Um Dia Na Vida da Família Imperial - Lili Dehn

Às nove da manhã a imperatriz tomava o pequeno-almoço com o imperador; era uma refeição simples à inglesa e depois do pequeno-almoço subia ao andar superior para ver as crianças. Depois chegava a Anna Vyrubova e, se havia reuniões extremamente importantes, normalmente aconteciam de manhã, mas, se a imperatriz estivesse “livre” ia inspeccionar o seu colégio de enfermeiras domésticas que se regia inteiramente por linhas inglesas. Acreditava piamente na qualidade das enfermeiras que recebiam um treino inglês, especialmente para crianças e empenhava-se extensivamente no trabalho e organização desta instituição.

Alexandra com um bebé, provavelmente Alexei

O almoço era à uma hora à semana e ao meio dia e meia aos Domingos, mas quando a imperatriz se sentia indisposta, o que acontecia com frequência, comia no seu boudoir ou apenas na companhia do czarevich. Depois do almoço a imperatriz ia dar uma volta a pé ou passeava numa carruagem aberta. O chá era tomado às cinco da tarde, mas por vezes recebia pessoas entre o almoço e o chá.

Nicolau, Alexandra, Olga e Anastásia com Vitória Melita

A família encontrava-se à hora do chá que era uma ocasião bastante familiar, e o jantar que era servido às oito, era uma ocasião bastante móvel no sentido literal da palavra. O imperador não gostava de comer só numa sala em específico, por isso a mesa era sempre levada para a sala que ele preferisse nessa noite. Depois de jantar (e esta era sempre uma refeição muito simples), a família passava o resto do serão junta e as grã-duquesas, que gostavam muito de puzzles, passavam quase sempre esta altura a trabalhar neles. Por vezes o imperador lia em voz alta para as filhas e para a esposa. Era a vida familiar de uma família unida, mas uma vida que o resto do mundo não estava disposto a aceitar. De facto, um escritor russo não hesitou em afirmar abertamente que “teria sido melhor para a Rússia se a imperatriz tivesse sucumbido a todas as fragilidades atribuídas a Catarina II.” É irónico pensar nesta opinião quando uma pessoa se lembra como os jornais e o publico em geral criticaram a sua associação com Rasputine. Mas se ela tivesse sido como Catarina II, é possível que essa “fragilidade” pudesse ter sido considerada “melhor para a Rússia!”
Nicolau II com os filhos e um oficial


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Livros - Crónicas dos Czares Russos


Este livro inclui biografias de todos os czares russos desde Ivan III a Nicolau II e é ideal para quem quer ter uma ideia geral sobre a construção e a queda do Império Russo, com imagens, gráficos, tabelas e relatos de cada uma das épocas em primeira pessoa sobre cada um dos czares.

Encontra-se disponível na FNAC por 8 euros.
Também pode ser adquirido no Wook por 6,40 euros.

Um Pretendente no Século XVI

Não foram apenas os Romanov que tiveram pessoas a reclamar a sua identidade. Trezentos anos antes do aparecimento de Anna Anderson em Berlim, um nobre polaco surgiu em Moscovo, afirmando ser o czarevich Dmitri Ivanovich, um dos herdeiros do czar Ivan, o Terrível que tinha morrido em circunstâncias misteriosas dez anos antes.
A morte do czarevich Dmitri
A 15 de Maio de 1691, o meio-irmão mais novo do czar Fiodor I da Rússia, filho mais novo do sétimo casamento do czar Ivan, o Terrível com Maria Nagaya, aparece morto no jardim da sua casa em Uglich. A criança de oito anos foi encontrada com uma ferida fatal na garganta e um punhal por perto. Várias teorias surgiam imediatamente. A mais provável parecia ser a de que Dmitri se tinha ferido acidentalmente com o punhal depois de ter um ataque epiléptico enquanto jogava dardos, um jogo que, na Rússia da época, era jogado com as facas viradas ao contrário, mas muitos boiardos sentiam-se mais tentados a acusar Boris Godunov, o cunhado do czar que tinha uma grande influência no governo e que um dia se viria a tornar imperador da Rússia, de assassinar a criança. Havia ainda os que acreditavam que o suposto assassinato tinha sido obra de nobres polacos e lituanos que queriam conquistar a Rússia.
Boris Godunov
Depois de violentos protestos na cidade onde o czarevich vivia onde a população, que acreditava piamente que Dmitri tinha sido assassinado, queimou quinze pessoas, acusando-as de ser os assassinos, Boris Godunov ordenou que fosse feita uma investigação sobre a sua morte. Depois de ouvir várias testemunhas e de analisar os factos, os investigadores chegaram à conclusão de que a morte tinha sido acidental. A população e a mãe do czarevich aceitaram esta versão dos factos e o corpo foi enterrado sem grande alarido em Uglich.
Palácio onde Dmitri foi assassinado
Cerca de 1600, uma década depois destes acontecimentos e quando a Rússia passava por um período conturbado em que o czar, nesta altura já Boris Godunov, não conseguia controlar nem a população nem os boiardos, aparece um homem que afirma ser o falecido czarevich. A história que promoveu foi a de que a sua mãe tinha previsto que Godunov tentaria assassiná-lo, por isso entregou-o a um médico que o escondeu em vários mosteiros russos. Depois da morte do médico, o pretendente disse ter fugido para a Polónia onde foi professor antes de regressar à Rússia. Algumas pessoas que conheciam Dmitri disseram que o jovem se parecia com ele e tinha ares aristocráticos, sabia andar a cavalo, ler e escrever e falava polaco e russo. Até um dos boiardos que declarou a morte do czarevich Dmitri, Vassili Shuisky, que também seria czar, mudou a sua versão da história, afirmando que o morto tinha sido um amigo de Dmitri que brincava com ele.

Falso Dmitri I, o primeiro dos três que afirmaram ser o filho de Ivan, o Terrível

Apesar das qualidades do jovem, que mais tarde seria conhecido por Falso Dmitri I, a maior parte dos boiardos e a própria mãe do verdadeiro Dmitri não acreditaram que ele fosse a criança falecida dez anos antes o que, apesar de tudo, não impediu que apoiassem a sua pretenção ao trono. A maioria dos boiardos deu-lhe apoio imediato apenas para não pagarem impostos a Boris Godunov que consideravam seu igual e não poderoso o suficiente para ser czar. Além do apoio russo, Dmitri tinha já conseguido promessa de apoio militar por parte da Polónia e da Lituânia. Godunov acabaria por morrer antes do seu adversário conseguir alguma conquista efectiva, mas o seu filho e sucessor, Fiordor II, apanhado numa situação frágil de inicio de reinado, acabaria por ser preso e assassinado juntamente com a sua mãe pelos soldados fieis a Dmitri. O pretendente subiu ao trono no dia 21 de Julho de 1605.


O assassinato de Fiodor II e da sua mãe
Quando chegou ao trono com o nome de Dmitri II, mandou executar toda a família Godunov com a excepção da princesa Xenia Godunova que violou, prendeu e tornou sua comcumbina. Apesar de ser popular nos primeiros tempos do seu reinado, a sua popularidade começou depressa a decrescer devido a rumores fundados de que se tinha convertido secretamente ao catolicismo e planeava diminuir gradualmente o poder da Igreja Ortodoxa, principalmente pela presença de judeus no seu séquio real. Os rumores ganharam ainda mais força quando, em 1606, o czar se casou com Mariana Mniszech, uma nobre polaca católica.

Falso Dmitri I com a sua esposa
A queda de Dmitri foi tão rápida quanto a sua ascenção. Uma crónica da época afirma que, três dias depois do seu casamento, Dmitri mandou que se preparasse vitela assada à moda polaca, algo que fez os seus criados desconfiar seriamente da sua nacionalidade, visto que os russos ortodoxos consideravam a carne de vitela impura e imprópria para comer. A história espalhou-se rapidamente pela cidade, acompanhada de outros rumores mais antigos, de que o czar não tinha barba (quase obrigatória na época na Rússia), que já não ia à igreja, que não benzia perante o ícone de São Nicolau...

Na manhã de 17 de Julho de 1606, duas semanas depois do casamento, o kremlin é invadido por um grupo de boiardos liderados por Vassili Shuisky que, mais uma vez, mandara mudar a sua versão sobre a morte de Dmitri, afirmando que o czarevich tinha realmente morrido. Dmitri tentou fugir da multidão saltando de uma janela, mas partiu uma perna na tentativa, sendo morto pelos boiardos pouco depois.

Últimos momentos do Falso Dmitri I
Depois da morte de Dmitri, Vassili Shuisky tornou-se czar. Mais dois Dmitris apareceriam, o segundo em 1607 e o terceiro em 1612, mas nenhum conseguiu chegar tão longe como o primeiro. Para garantir que mais ninguém se voltaria a fazer passar pelo czarevich, Shuisky ordenou que o seu corpo fosse transladado com grande pompa e circunstância para Moscovo onde se encontra sepultado até aos dias de hoje. Mais tarde seria canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa.

Dmitri Ivanovich como santo da Igreja Ortodoxa

domingo, 17 de julho de 2011

A Morte dos Romanov - 17 de Julho de 1918


Na noite de 16 de Julho, entre as sete e as oito da noite, quando o meu turno tinha acabado de começar, o comandante Yurovsky (chefe do esquadrão de execução) ordenou-me que fosse buscar os revolveres Nagan aos guardas e que os levasse até ele. Recolhi doze revolveres dos sentinelas e de outros guardas e levei-os ao escritório do comandante.

O Yurovsky disse-me, "Temos de os matar hoje à noite, por isso avisa os guardas para não se assustarem se ouvirem tiros". Percebi então que o Yurovsky tinha todas as intenções de matar a família inteira do czar, bem como o médico e os criados que estavam com eles, mas não lhe perguntei onde nem quem tinha tomado essa decisão. Cerca das dez da noite, seguindo a ordem de Yurovsky, informei os guardas para não se assustarem caso ouvissem disparos.

Cerca da meia-noite, o Yurovsky acordou a família do czar. Não sei se lhes disse a razão pela qual tinham sido acordados ou para onde seriam levados, mas tenho a certeza que foi o Yurovsky que entrou no quarto ocupado pela família do czar. Cerca de uma hora depois, a família inteira, o médico, a criada da czarina e os criados do czar levantaram-se, lavaram-se e vestiram-se.

Pouco antes de o Yurovsky ir acordar a família, dois membros da Comissão Extraordinária (do Soviete de Ekaterinburg) chegaram à Casa Ipatiev. Pouco depois da uma da manhã, o czar, a czarina, as suas quatro filhas, a criada, o médico, o cozinheiro e os criados saíram dos seus quartos. O czar levava o filho nos braços. O imperador e o herdeira estavam vestidos de uniforme e levavam capas. A imperatriz, as suas filhas e os outros siguiam-nos. O Yurovsky, o seu assistente e os outros dois que mencionei em cima, membros da Comissão Extraordinária acompanharam-nos. Eu também estava presente.

Enquanto estive presente, nenhum membro da família do czar fez perguntas. Não choraram nem se lamentaram. Depois de descer as escadas da Casa Ipatiev para o primeiro andar, fomos para o quintal e, daí, entramos na segunda porta (do lado do portão), chegando à cave da casa. Quando chegamos à sala, adjunta à dispensa e com uma porta fechada atrás, o Yurovsky ordenou que se trouxessem cadeiras e o seu assistente trouxe três cadeiras. Uma delas foi dada ao imperador, uma à imperatriz e a terceira ao herdeiro.

A imperatriz sentou-se perto da parede, junto à janela, perto do pilar negro do arco. Atrás delas estavam três das suas filhas. Conhecia bem as caras delas porque as via todos os dias quando elas iam passear pelo jardim, mas não sabia como se chamavam. O herdeiro e o imperador sentaram-se lado a lado, quase a meio da sala. O doutor Botkin estava atrás do herdeiro. A criada, uma mulher muito alta, estava à esquerda da porta que dava para a dispensa, ao seu lado estava a filha mais nova do czar (Anastásia). Os outros dois estavam encostados à parede, à esquerda da porta de entrada para a sala.

A criada levava uma almofada. As filhas do czar também tinham almofadas pequenas com elas. Uma delas foi colocada na cadeira da imperatriz e outra na do herdeiro. Parecia que adivinhavam o seu destino, mas nenhum deles falou. Neste momento entraram onze homens na sala: O Yurovsky, o assistente, dois membros da Comissão Extraordinária e quatro operativos da Cheka (polícia secreta).

O Yurovsky ordenou-me que saísse, dizendo: "Vai até à rua, vê se está lá alguém e espera para ver se se conseguem ouvir os tiros." Saí para o quintal, que era protegido por uma vedação, mas antes de chegar à rua ouvi disparos. Regressei imediatamente à casa, só tinham passado dois ou três minutos, e quando entrei na sala onde a execução tinha acontecido vi que todos os membros da família do czar estavam deitados no chão, gravemente feridos ou mortos. O sangue corria como um riacho. O médico, a criada e os dois serventes também tinham sido atingidos. Quando entrei o herdeiro ainda estava vivo e gemia um pouco. O Yurovsky foi até ele e disparou mais dois ou três tiros contra ele. Depois o herdeiro ficou quieto.