Java

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Casar na Família (Parte 1)

A imperatriz Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia) rodeada pelas suas noras Maria Alexandrovna (esq) e Alexandra Iossifovna (dir).
Uma das soberanas que teve mais êxito na dinastia Romanov foi Catarina, a Grande que reinou entre 1762 e 1796. Deixou uma marca tão profunda na história do país que é fácil esquecer que a Rússia não era o seu país-natal. Atravessou a fronteira quando era ainda uma menina de catorze anos. Chamava-se Sofia de Anhalt-Zerbst e era alemã. Nas gerações que se seguiram, quase todas as noivas que se casavam com um Romanov eram estrangeiras: os membros da família tinham o dever de escolher uma companheira de origens reais, o que tornava este facto quase inevitável. Ano após ano chegavam estas princesas, retiradas das suas famílias, língua, cultura, religião e forçadas a aprender tudo novamente ao mesmo tempo que se adaptavam à vida de casadas. Até os nomes tinham de deixar. A transição nunca era fácil; para algumas era mesmo um pesadelo. As barreiras culturais tornaram-se ainda mais evidentes à medida que o século XIX avançava: por exemplo, na família do czar Nicolau I, os pais e filhos mais velhos falavam francês como língua principal enquanto os mais novos falavam russo. Este sentimento crescente de identidade nacional tornava a pressão cada vez mais forte. Contudo, as noivas Romanov provaram ser um grupo de senhoras inteligente que contribuiu de várias formas para o seu país adoptivo e influenciaram também a família Romanov.

Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia)
As duas representantes das gerações mais antigas das quais se conseguem encontrar fotografias: a imperatriz Alexandra Feodorovna, esposa do czar Nicolau I, e mãe do czar Alexandre II, que começou a sua vida com o nome Carlota da Prússia. Conheceu o grão-duque Nicolau Pavlovich, na altura irmão mais novo do czar Alexandre I, na corte do pai em Berlim quando ele tinha dezassete anos e ela quinze. Chegou à Rússia no verão de 1817, quando tinha dezoito anos, mudou de nome no seu baptismo ortodoxo, e casou-se na grande capela do Palácio de Inverno no dia em que completou dezanove anos. Tornou-se imperatriz em 1825 quando o seu marido sucedeu ao irmão. Alexandra Feodorovna pertencia a uma geração de mulheres de quem se esperava pouco além de um papel decorativo e dar à luz filhos e ela fê-lo na perfeição. O seu marido era atencioso e adorava-a. Alexandra presidia a corte, onde a vida era uma série de entretenimentos, com uma graciosidade natural. Lady Londonderry, que  visitou a Rússia em 1837, ouviu dizer sobre a imperatriz: "ela já nos deu tantas alegrias nestes vinte anos em que esteve no trono e nunca fez mal a uma alma".

Helena Pavlovna
A cunhada de Alexandra, a grã-duquesa Helena Pavlovna, nascida princesa Carlota de Württemberg. Depois de ter tido uma educação pouco convencional na Paris pós-revolucionária, o futuro de Carlota foi decidido pela sua família quando ela tinha quinze anos. Nunca tinha conhecido o grão-duque Miguel Pavlovich, irmão mais novo de Alexandre I e Nicolau I e ele não tinha qualquer interesse em casar. Apesar de tudo, um ano depois do noivado, o grão-duque recebeu-a na fronteira onde a princesa impressionou tudo e todos com a sua pose e inteligência. Os dois casaram-se em Fevereiro de 1824, mas foram miseráveis. Apesar de Helena ter dado à luz uma série de bebés, todas elas meninas, Miguel tratava-a com indiferença. Apenas o seu irmão mais velho viu o desespero da cunhada: "Temos de concordar que esta jovem e encantadora mulher foi sacrificada de forma muito graciosa e útil. A situação dela é assustadora." Helena tentou deixar a Rússia em 1827, mas a família imperial apenas permitiu uma separação temporária. Apesar de tudo, depois disto, a sorte dela mudou consideravelmente e a lista das suas conquistas na Rússia é formidável. As artes, música, instituições médicas, entre outras, receberam o seu patrocínio. Também foi ela a força por detrás da mudança política russa, encorajando os seus sobrinhos Alexandre II e Constantino a seguir o caminho da reforma.


Maria Alexandrovna
Maria Alexandrovna, Maria de Hesse-Darmstadt, tinha catorze anos e ainda usava o cabelo longo e solto da infância quando conheceu o futuro czar Alexandre II. Estava a comer cerejas quando foi chamada a aproximar-se e teve de cuspir as sementes para a mão antes de conseguir falar com ele. "Esta era a Maria, a nossa adorada Maria, que se tornou a felicidade do Sasha," escreveu a irmã do czar, Olga. "Os sentimentos dele despertaram assim que ela disse a primeira palavra. Não era uma boneca como as outras, não havia nada de convencido nela, nem ela esperava nada deste encontro." O noivado foi aprovado e os dois casaram três anos depois. Maria era inteligente e profundamente séria. Não foi capaz de se converter à religião ortodoxa antes de sentir que o queria realmente, acabando por se tornar ainda mais ortodoxa do que a maioria dos russos. Preocupava-se muito com o seu país e discutia com Alexandre, que respeitava muito a sua opinião, o seu trabalho. Também apoiou a educação das mulheres e a medicina. Maria Alexandrovna era adorada pela família, mas faltavam-lhe o à-vontade e os talentos sociais que tornaram outras imperatrizes populares.

Alexandra Iosifovna
A grã-duquesa Alexandra Iosifovna pertencia à família de Saxe-Altenburg e Nicolau I reparou nela em 1846, no dia em que ela completou dezasseis anos: no outono do mesmo ano, o seu segundo filho, Constantino, já estava em Altenburg. O efeito do seu primeiro encontro foi electrizante. "Não sei o que me aconteceu," escreveu Constantino de dezoito anos, "Sou uma pessoa completamente diferente. Há apenas um pensamento que me move, só tenho uma imagem perante os meus olhos: sempre e só ela, o meu anjo, a minha estrela. Acredito plenamente que estou apaixonado. Mas há quanto tempo a conheço? Só algumas horas e já me sinto a transbordar de amor." Constantino aguentou o seu entusiasmo até ao dia do casamento a 30 de Agosto / 11 de Setembro de 1848, e durante muitos anos depois. Alexandra sentia-se mais à-vontade na sociedade do que Maria e era menos dada a sentir saudades de casa. Segundo uma das suas damas-de-companhia, Anna Tiutcheva, a grã-duquesa não era esperta nem especialmente bem-educada: "adoptou o lugar de uma criança mimada na família e todos tratam a sua frequente falta de sensibilidade e mau-comportamento como brincadeiras engraçadas." Mas este comportamento apenas aconteceu nos seus primeiros anos. Com o passar do tempo, Alexandra tornou-se uma figura respeitada dentro da família.

Olga Feodorovna
A grã-duquesa Olga Feodorovna, princesa Cecília de Baden, nasceu em Karlsruhe em 1839. A história do seu primeiro encontro com o grão-duque Miguel Nikolaevich não foi registada, mas o casamento aconteceu por amor e Cecília teve sorte: dos quatro filhos do czar Nicolau I, apenas Miguel foi fiel durante todo o casamento. Cecília tinha dezasseis anos quando ficou noiva. Miguel disse à sua cunhada Maria Alexandrovna, que tinha escolhido o nome "Olga Fedorovna" porque não gostava de "Cecília". Os dois casaram-se no Palácio de Inverno a 16/28 de Agosto de 1857: "Rezei fervorosamente", escreveu Miguel no seu diário, "e agradeci a Deus com todo o meu coração por poder viver este dia." Os "Michels" eram um casal muito adorado no geral e a rainha Vitória achava-os "muito amáveis e amigáveis" e, sobre a grã-duquesa, disse: "tem muito bom humor, é alegre, muito encantadora - tão calma e gentil (...) Ficamos encantados com ele e ouvi dizer que, para onde quer que ele vá, todos os adoram, classes altas e baixas." A sua filha chamou-a "uma criatura de Deus em todos os sentidos".

Olga Feodorovna com o filho Sérgio

Em 1862, o grão-duque Miguel foi nomeado vice-rei do Cáucaso, uma posição que manteve durante quase vinte anos. O casal tinha a sua corte no Palácio de Tiflis e quatro dos seus sete filhos nasceram nesta região - Nesta fotografia, Olga Fedorovna pode ser vista com o seu quinto filho, Sérgio. Apesar de viver longe da capital, Olga adaptou-se completamente ao estilo de vida do país do marido e achava-se completamente russa.  A posição de vice-rainha permitia-lhe um certo nível de autonomia ao lado do marido e foi ela que abriu a primeira escola para meninas no Cáucaso, bem como um instituto técnico exclusivamente feminino. Também se envolveu em trabalhos médicos, principalmente durante a Guerra Russo-Turca de 1877-78. Gostava de saber o que se passava à sua volta e as suas observações eram reveladoras. Uma das suas damas-de-companhia descreveu-a mais tarde como "uma mulher anormalmente esperta, com um sentido crítico afiado. Alguns círculos sociais temiam-na profundamente devido aos seus comentários maldosos. Pessoalmente, não senti nada senão gentileza e consideração da parte dela (...)"

Alexandra Petrovna
A duquesa Alexandra de Oldemburgo pertencia a uma família alemã, mas tinha crescido em São Petersburgo. O seu pai era neto do czar Paulo I. Alexandra casou-se com o grão-duque Nicolau Nikolaevich em 1856, tornando-se grã-duquesa Alexandra Petrovna, e o primeiro filho do casal nasceu antes do final do ano. Alexandra Petrovna era uma artista de talento. Não tinha tempo para a vida da corte e não se interessava por roupas - algo que não agradava ao marido. A medicina fascinava-a:  o grão-duque ofereceu-lhe um hospital e ela dedicou todo o seu tempo a trabalhar lá. Criou um instituto técnico para enfermeiras em São Petersburgo ao mesmo tempo que o marido seguiu o exemplo dos irmãos e arranjou uma amante. Esta fotografia, tirada na década de 1870, mostra-a com o seu uniforme de enfermeira. No final desta década, Alexandra mudou-se para Kiev, onde abriu um convento que tinha o seu próprio hospital e clinica para dar tratamento gratuito aos pobres. Entrou no convento, adoptando o nome "Irmã Alexandra" e tornou-se abadessa: hoje em dia, a sua campa nos jardins do convento ainda é cuidada pelas freiras que lá trabalham.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Maria Feodorovna no Exílio

Maria Feodorovna


A vida da imperatriz-viúva no exílio começou com uma aspereza adequada. Quando o grupo  [que viajou no Malborough] foi finalmente recebido pelo rei Jorge V e pela rainha Maria em Victoria Station, uma das criadas confundiu o rei com o czar. Enquanto os parentes trocavam cumprimentos, a criada agarrou-se ao joelho do rei. Segundo um amigo de Vassily [filho mais novo da grã-duquesa Xenia], a família nunca esqueceu a cena: “foi embaraçoso para a imperatriz e para Xenia. O Vassily achou aquilo atroz.


Maria Feodorovna com a bisneta Irina


Apesar de a imperatriz e a sua irmã Alix se terem mostrado muito emocionadas quando se reencontraram em Portsmouth, não demorou para se começarem a irritar uma à outra. Tentaram fazer as coisas resultar, viveram juntas em Malborough House e recebiam Xenia e os filhos para almoçar aos domingos. Xenia e os filhos estavam a viver numa casa de quatro andares em Chelsea. Mas a rainha Alexandra era vagarosa e estava a ficar surda e a imperatriz-viúva sofria de artrite, lumbago e de um rendimento incerto.

Maria Feodorovna com a irmã Alexandra em Inglaterra


A imperatriz-viúva estava revoltada com aquilo que considerava ser a indiferença britânica em relação ao sofrimento dos refugiados russos e também com os seus companheiros de exílio que, segundo ela, estavam a deixar os padrões do protocolo descer.

Apenas alguns meses depois da sua chegada, a imperatriz-viúva, descontente, tinha decidido que queria regressar ao seu país-natal: a Dinamarca. Em Agosto de 1919 já estava a caminho. Estas notícias terão sido recebidas com um certo alívio, já que Maria se tinha tornado persona non grata em certos círculos políticos. Ela também estava muito contente: “Sempre é melhor ser a pessoa mais importante em Hvidore [uma casa que tinha comprado com a irmã na Dinamarca] do que a segunda mais importante em Sandringham”, afirmou.


Maria a ser recebida pelo sobrinho Cristiano na Dinamarca

Infelizmente os seus problemas não acabaram na Dinamarca, onde achou que o se sobrinho Cristiano X era constantemente desagradável. A certa altura ele pediu-lhe que desligasse algumas luzes no Palácio de Amalienborg, onde estava hospedada, já que estava a gastar muita electricidade. Ofendida, Maria ordenou imediatamente aos criados que acendessem as luzes todas. Em 1920 desistiu da luta e decidiu ficar permanentemente em Hvidore, onde o seu estatuto de pessoa mais importante era uma compensação para as acomodações mais humildes.

Tinha pouca segurança financeira. Tinha-se agarrado às suas jóias, mas recusava-se a vendê-las, dizendo teimosamente à família que eles iam herdar tudo quando ela morresse. 

Maria com o sobrinho Cristiano


A imperatriz-viúva e a rainha Alexandra encontraram-se pela última vez quando Maria visitou a Inglaterra em 1923 para assistir ao casamento do segundo filho do rei, Alberto, duque de Iorque, com Elizabeth Bowes-Lyon na Abadia de Westminster. A imperatriz-viúva ficou doente durante a visita e foi obrigada a ficar em Inglaterra durante vários meses, algo que, sem dúvida, irritou ambas as irmãs.


Maria e Alexandra na Dinamarca


O problema de quem seria o herdeiro legítimo do trono russo aparecia ocasionalmente. A imperatriz-viúva, recusando-se a acreditar que o czar estava morto, não permitia qualquer discussão: “Até agora ainda não apareceu nenhuma informação de confiança sobre o destino do meu adorado filho e dos meus netos. Por isso, penso que ainda é prematuro escolher um novo imperador. Ainda posso ter uma última réstia de esperança.” Em 1921, tinha-lhe sido oferecido o trono russo pela Assembleia Monárquica de Todas as Rússias. Respondeu de forma muito simples: “Ninguém viu o Nicky morto.”


Maria com a cunhada Olga Constantinovna

Vários conhecidos deixaram testemunhos de conversas nas quais a imperatriz-viúva fazia referências obscuras ao czar. A condessa Mengden escreveu que Maria disse: “Quando olho para trás e revejo a minha vida e aquilo por que passei, só posso acreditar em fantasmas”; o capitão Daneilback, um membro da sua comitiva, disse que a ouviam dizer frequentemente: “Na Rússia até o mais improvável acontece.”

Maria a bordo do Polar Star em 1911


Mas, em 1924, o seu primo controverso, o grão-duque Cyril, teve a ousadia de se autoproclamar primeiro guardião do trono e depois, passado um mês, imperador de Todas as Rússias. Cyril já não era muito bem visto pela grande maioria dos Romanov por ter hasteado uma bandeira vermelha no telhado do seu palácio quando o czar ainda estava no poder.


Cyril Vladimirovich com a esposa Vitória Melita


A imperatriz-viúva ficou furiosa. Seguindo finalmente a filosofia de que o inimigo do meu inimigo meu amigo é, fez um apelo apaixonante a Nikolasha, pondo de lado as suas antigas zangas. Escreveu: “Fiquei profundamente magoada quando li o manifesto do grão-duque Cyril Vladimirovich onde ele se proclamava IMPERADOR DE TODAS AS RÚSSIAS.

“Até agora ainda não apareceram informações precisas no que diz respeito ao destino dos meus adorados filhos ou do meu neto e, por isso, considero a proclamação de um novo IMPERADOR prematura. Não há ninguém que me pode tirar a minha última réstia de esperança.


Nicolau Nikolaevich


“Temo que este manifesto vá criar divisão. Isto não vai melhorar a situação, muito pelo contrário: vai piorá-la, e a Rússia já tem demasiado com que se preocupar.

“Se o NOSSO SENHOR achou por bem, nos SEUS caminhos insondáveis, chamar os meus adorados filhos e o meu neto para SEU lado, então, sem que tenha o desejo de olhar para o futuro e ainda com a minha esperança inabalável na misericórdia de DEUS, acredito que SUA MAJESTADE O IMPERADOR deverá ser escolhido segundo as nossas leis básicas pela Igreja Ortodoxa em harmonia com o povo russo (…) estou cera de que o membro mais velho da CASA DOS ROMANOV, o senhor, tenho a certeza, partilha da minha opinião. Maria”


Maria Feodorovna em 1923 desenhada pela sua filha Olga


Maria morreu em 1928, na presença das suas filhas Xenia e Olga e de um dos filhos de Xenia. Segundo o marido de Xenia, Sandro, a imperatriz-viúva morreu segurando a sua bíblia dinamarquesa. Esta era a mesma bíblia que lhe tinha sido confiscada por marinheiros revolucionários na Crimeia e, segundo parece, foi-lhe devolvida em Copenhaga pouco antes da sua morte. O seu neto, o príncipe Dmitri Alexandrovich, acrescentou que tinha sido enviada por um diplomata dinamarquês que a tinha encontrado numa livraria em Moscovo.



Texto retirado do livro "The Russian Court at Sea" de Frances Welch

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

300 Fotos Raras dos Romanov Leiloadas em Genebra

Cerca de 300 fotos raras da família Romanov serão brevemente leiloadas em Genebra. O álbum onde estas fotos foram encontradas pertencia a Ferdinand Tormeyer, tutor suíço do grão-duque Miguel Alexandrovich e da grã-duquesa Olga Alexandrovna. A maioria das fotos mostra Alexandre III, a sua esposa Maria Feodorovna e a sua família.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"The Romanovs - One Last Dance"


"The Romanovs - One Last Dance" é uma espécie de romance, disponível online no site Pan Historia que conta uma versão alternativa na vida dos Romanov, caso o czar Nicolau II nunca tivesse abdicado. Na versão original, a história começava em 1917, quando depois de a Rússia obter duas importantes vitórias durante a Primeira Guerra Mundial, a situação política melhora ligeiramente e, em vez de abdicar do trono, Nicolau apenas suspende os seus poderes. A família fica em prisão domiciliária, mas, após longas negociações entre Kerensky e Nicolau II, este concorda em deixar o sistema autocrático e a Rússia passa a ser uma monarquia constitucional. Nesta versão alternativa, Lenine é preso e executado enquanto Estaline é alvejado quando tenta roubar uma arma.

Quanto à vida pessoal da família, Maria Nikolaevna é a primeira das quatro filhas a casar e fá-lo com um soldado russo chamado Ivanshko Tarkhan e, ao longo da história, os dois têm três filhos. Tatiana casa-se com o príncipe Cristóvão da Grécia e Dinamarca, de quem tem dois filhos, Olga casa-se com o príncipe David do Reino Unido (mais conhecido por rei Eduardo VIII) de quem tem uma filha e, finalmente, Anastásia casa-se com o futuro rei Leopoldo III da Bélgica de quem tem um filho.

Qualquer pessoa pode escrever para este romance mediante registo no site e a criação de uma personagem que não esteja ainda ocupada. Para ler é necessário entrar no site, mas o registo não é necessário, basta entrar como convidado da seguinte forma:

Depois de seguir o link que se encontra no inicio deste post, clique em "login".


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O Último Inverno em Czarskoe Selo - Robert K. Massie (Última Parte)

Maria Nikolaevna
O governo imperial estava a desfazer-se e entre aqueles que observavam o processo com receio, estavam alguns que não eram russos. A guerra e a aliança tinham dado aos embaixadores da França e da Grã-Bretanha, Maurice Paléologue e Sir George Buchanan, posições de grande importância. Pelas duas embaixadas em Petrogrado e pelas secretárias dos dois embaixadores passavam questões importantes de fornecimento, munições e assuntos diplomáticos. À medida que se foi tornando claro que a crise interna da Rússia estava a afectar cada vez mais a sua capacidade como aliada militar, Buchanan e Paléologue viram-se numa situação delicada. Tendo obtido a confiança do czar, não tinham qualquer direito de falar sobre os assuntos que afectavam a política interna russa. Apesar de tudo, no inicio de 1917, ambos os embaixadores viram-se alvo de pedidos de todos os lados para que usassem o acesso que tinham ao czar para implorar que este escolhesse um governo aceitável para a Duma. Convictos de que não havia mais nada a fazer para salvar a Rússia como aliada, ambos concordaram. A tentativa de Paléologue, desfeita pela incerteza e cortesia de Nicolau, falhou completamente. A 12 de Janeiro, foi a vez de Buchanan ser recebido em Czarskoe Selo.

Maurice Paléologue

Sir George Buchanan era um diplomata de velha guarda, conhecido pela sua discrição, cabelo grisalho e monóculo. Sete anos de serviço na Rússia tinham-no deixado cansado e frágil, mas tinham-lhe garantido uma hoste de amigos e admiradores, incluindo o próprio czar. A única fraqueza que tinha na sua posição era o facto de não falar russo, o que não fazia diferença em Petrogrado onde todos aqueles que interessavam falavam francês ou inglês. Contudo, em 1916, quando Buchanan visitou Moscovo, onde se tornou cidadão honorário da cidade e recebeu um ícone e uma grande taça. “No coração da Rússia”, escreveu R. H. Bruse Lockhart, o cônsul britânico, que acompanhou Buchanan na sua visita, “tinha de dizer pelo menos uma ou duas palavras em russo. Tínhamos ensaiado cuidadosamente com o embaixador para que ele levantasse a taça e dissesse ao seu distinto público ‘Spasibo’, que é o termo mais curto na língua russa para dizer ‘obrigado’. Em vez disso, Sir George, com a voz firme, levantou a taça e disse ‘Za Pivo’, que, em russo significa ‘para cerveja’”.

George Buchanan

Em Czarskoe Selo, Buchanan ficou surpreendido por ser recebido pelo czar na sala de reuniões oficial e não no seu escritório, onde costumavam falar. Apesar de tudo, perguntou ao czar se podia falar honestamente e ele concordou. Buchanan foi directo ao assunto , dizendo a Nicolau que a Rússia precisava de um governo no qual a nação pudesse confiar. “Vossa Majestade, se me permite dizê-lo, tem apenas um caminho a seguir – nomeadamente quebrar a barreira que o separa do seu povo e reconquistar a sua confiança.”

Levantando-se e dando um olhar rígido a Buchanan, Nicolau perguntou: “Quer dizer que tenho de reconquistar a confiança do meu povo ou que eles precisam de ganhar a minha?”.
“Ambas as coisas, senhor,” respondeu Buchanan, “porque se não houver confiança mútua, a Rússia nunca vencerá esta guerra.”

O embaixador criticou Protopopov, “que, se Vossa Majestade me perdoar o facto de estar a dizer isto, está a levar a Rússia à ruína”.

“Fui eu que escolhi M. Protopopov”, disse Nicolau, “das filas da Duma para os agradar – e esta é a minha recompensa.”

Nicolau II
Buchanan avisou-o que a língua da revolução não estava a ser falada apenas em Petrogrado, mas por toda a Rússia, e que “no caso de haver uma revolução, só poderá contar com uma pequena parte do exército para defender a dinastia”. Depois concluiu com uma vaga de sentimentos íntimos:

“Sei bem que um embaixador não tem direito de usar a linguagem que usei com Vossa Majestade e tive de agarrar a minha coragem com ambas as mãos antes de falar da maneira que falei (…) [Mas] se visse um amigo meu a entrar num bosque numa noite escura ir um caminho que sabia que acabava num precipício, não seria meu dever, senhor, avisá-lo do perigo que corria? E não é da mesma forma meu dever avisar Vossa Majestade do abismo que está mesmo à vossa frente?”

O czar ficou comovido com o apelo de Buchanan e, quando ele se estava a ir embora, disse-lhe: “Agradeço-lhe, Sir George.” Contudo, a imperatriz ficou ofendida com a presunção de Buchanan. “O grão-duque Sérgio [Mikhailovich] disse que, se eu fosse um súbdito russo, teria sido mandado para a Sibéria”, escreveu ele mais tarde.

Nicolau II, Tatiana e Maria

Apesar de Rodzianko ter desdenhado a sugestão de Maria Pavlovna de “aniquilar” a imperatriz, concordava com a grã-duquesa na parte de que esta tinha de perder o seu poder político. No inicio do outono, quando Protopopov se tinha encontrado com ele e dito que o czar poderia vir a nomear o presidente da Duma para primeiro-ministro, Rodzianko tinha dito que uma das suas condições para aceitar o cargo era a de que “a imperatriz tem de abdicar de toda a sua influência nos assuntos de estado e permanecer em Livadia até ao fim da guerra.”. Agora, a meio do inverno, recebia uma visita do irmão mais novo do czar, o grão-duque Miguel Alexandrovich. Miguel, o bonito e amável “Misha”, estava a viver com a sua esposa, a condessa Brassova, em Gatchina, nos arredores da capital. Apesar de ser o próximo na linha de sucessão depois do czarevich, não tinha qualquer influência no irmão. Preocupado, e apercebendo-se do seu desamparo, perguntou-lhe como seria possível remediar aquela situação desesperada. Rodzianko voltou a declarar que “Alexandra Feodorovna é odiada ferozmente e por todos e todos os círculos pedem que seja retirada. Enquanto ela permanecer no poder, vamos continuar no nosso caminho para a destruição”. O grão-duque concordou com ele e implorou-lhe que fosse falar novamente com o czar. A 20 de Janeiro, Nicolau recebeu-o.

Miguel Alexandrovich com a sua esposa


“Vossa Majestade”, disse Rodzianko, “considero que o estado do país se tornou mais crítico e ameaçador do que nunca. O espirito de todas as pessoas é tal que podemos esperar as piores convulsões sociais (…) Toda a Rússia está unida na exigência de um novo governo e na nomeação de um primeiro-ministro responsável que possua a confiança da nação (…) Senhor, não resta um único homem honesto ou de confiança na sua comitiva; os melhores foram eliminados ou demitiram-se (…) É um segredo aberto que a imperatriz dá ordens sem o seu conhecimento, que os ministros lhe respondem a ela em assuntos de estado (…) A indignação e o ódio pela imperatriz estão a aumentar por todo o país. Ela é vista como uma protectora dos alemães. Até as pessoas mais comuns falam disso!”

Nicolau interrompeu-o: “Mostre-me factos. Não existem factos que comprovem as suas afirmações.”

“Não existem factos”, admitiu Rodzianko, “mas o tipo de política dirigida por Sua Majestade é uma prova destas ideias. Para salvar a sua família, Vossa Majestade tem de descobrir alguma forma de impedir a imperatriz de exercer qualquer influência na política (…) Vossa Majestade, não force o povo a escolher entre si e o bem do país.”

Nicolau e Alexandra
Nicolau segurou a cabeça entre as mãos. “Será possível”, perguntou ele, “que durante vinte e dois anos tenha dado o meu melhor e que durante vinte e dois anos tenha feito tudo mal?”

A pergunta era surpreendente. Estava muito além dos limites do adequado para que Rodzianko pudesse responder, contudo, compreendendo que a pergunta tinha sido feita de forma honesta, de homem para homem, o presidente reuniu toda a sua coragem e respondeu: “Sim, Vossa Majestade, durante vinte e dois anos seguiu o caminho errado.”

Um mês depois, a 23 de Fevereiro, Rodzianko viu Nicolau pela última vez. Desta vez, o czar mostrou uma atitude “certamente desagradável” e Rodzianko, por seu lado, foi honesto. Anunciando que a revolução estava iminente, declarou: “Considero meu dever, senhor, declarar-lhe a minha crença profunda de que este é o nosso último encontro formal.”
Nicolau não respondeu e Rodzianko foi dispensado pouco depois.

Nicolau e Alexandra
O aviso de Rodzianko foi dos últimos que Nicolau recebeu. Nicolau rejeitou-os a todos. Tinha jurado manter a autocracia e entrega-la intacta ao filho. Na sua cabeça, grão-duques citadinos, embaixadores estrangeiros e membros da Duma não representavam a opinião das massas de camponeses daquela que considerava ser a verdadeira Rússia. Acima de tudo, achava que ceder durante a guerra seria um sinal de fraqueza pessoal que apenas serviria para acelerar a revolução. Talvez quando a guerra terminasse tivesse mudado a autocracia e reconhecido o poder do governo. “Vou fazer tudo depois”, disse ele. “Mas não posso fazer nada neste momento. Não consigo fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo.”

Os ataques feitos à imperatriz e a sugestão de mandá-la para longe enfureciam-no. “A imperatriz é estrangeira”, afirmou ele ardentemente. “Não tem ninguém para a proteger a não ser eu próprio. Não a vou abandonar seja em que circunstância for. De qualquer forma, todas as acusações que lhe foram feitas são falsas. Estão a ser espalhadas mentiras cruéis sobre ela. Mas eu sei como vou fazer com que seja respeitada.”

Nicolau com os filhos e sobrinhos
No início de Março, depois de ter descansado dois meses com a família, o humor de Nicolau começou a melhorar. Estava confiante de que o exército, equipado com novas armas enviadas da Grã-Bretanha e de França, podia acabar com a guerra no final do ano. Queixando-se do “ar poluído” de Petrogrado, estava ansioso por voltar a Stavka para planear a ofensiva da Primavera.

Entretanto, Protopopov, que sentia uma crise aproximar-se, tentou disfarçar os seus medos recorrendo a medidas de contra-ataque. Foram chamados quatro regimentos de cavalaria da guarda imperial da frente de combate para Petrogrado e a polícia da cidade começou a treinar o uso de metralhadoras. A cavalaria nunca chegou. Em Stavka, o general Gurko ficou chocado com a ideia de virar os soldados contra as pessoas e ignorou a ordem. A 7 de Março, a véspera da partida de Nicolau para o quartel-general, Protopopov foi até ao palácio. Viu primeiro a imperatriz que lhe disse que o czar estava a insistir passar um mês na frente de batalha e que ela não conseguia fazê-lo mudar de ideias. Nicolau entrou no quarto e, levando Protopopov para um canto, disse-lhe que estaria de volta dentro de três semanas. Protopopov, agitado, disse-lhe: “Estamos em tal altura que a vossa presença é necessária tanto cá como lá (…) Temo muito pelas consequências”. Nicolau, afectado pelo alarme do seu ministro, prometeu que voltaria dentro de uma semana, se possível.

Nicolau II
Houve um momento, segundo Rodzianko, em que Nicolau esmoreceu na sua determinação de recusar a nomeação de um governo responsável. Na noite antes da sua partida, o czar convocou vários ministros, incluindo o príncipe Golitsyn e o primeiro-ministro e anunciou que pretendia ir à Duma no dia seguinte e anunciar pessoalmente a nomeação de um novo governo. Nessa mesma noite, Golitsyn foi convocado novamente e soube que o czar estava de partida para o quartel-general.

“Como é que isso é possível, Vossa Majestade?” Perguntou Golitsyn espantado. “Então e o governo responsável? Queria ir à Duma amanhã!”

“Mudei de ideias”, disse Nicolau. “Vou partir para Stavka esta noite.”

Esta conversa aconteceu na quarta-feira, 7 de Março de 1917. Cinco dias depois, na segunda-feira dia 12 de Março, o governo imperial caiu em Petrogrado.





terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Último Inverno em Czarskoe Selo - Robert K. Massie (Parte 3)


A morte de Rasputine foi um acto monárquico. Foi planeada por um grão-duque, um príncipe e um deputado de direita com o objectivo de purificar o trono e recuperar o prestígio da dinastia. Foi também uma forma de eliminar a própria imperatriz dos assuntos do governo, já que os conspiradores acreditavam que era Rasputine o poder que a incitava. O czar, pensavam eles, ficaria então livre para escolher ministros e seguir uma política que salvasse a monarquia e a Rússia. Era esta a esperança de muitos membros da família imperial, que na sua maioria, não gostou da forma como o monge foi assassinado, mas ficou aliviada por o ver morto.

Rasputine
O facto de o czar ter castigado o grão-duque Dmitri e o príncipe Félix Yussupov, ainda que de forma bastante branda, foi uma desilusão. A família assinou uma carta em conjunto dirigida a Nicolau onde pediam para que Dmitri fosse perdoado e a formação de um governo responsável. Nicolau, que estava já ofendido com o facto de membros da sua família estarem envolvidos no assassinato, ficou ainda mais indignado com a carta: “Não me permito que ninguém me dê conselhos”, respondeu ele furioso. “Um assassinato é sempre um assassinato. De qualquer forma sei que a consciência de muitos que assinaram esta carta não está leve.” Alguns dias depois, quando soube que um dos grão-duques que tinha assinado a carta, o liberal Nicolau Mikhailovich, andava por todos os clubes sociais que frequentava em Petrogrado a criticar abertamente o governo, o czar ordenou-lhe que deixasse a capital e se refugiasse numa das suas propriedades no campo.

Dmitri Pavlovich, um dos assassinos de Rasputine
Longe de apaziguar a separação que havia entre a família Romanov, o assassinato serviu apenas para a aumentar ainda mais. A imperatriz-viúva estava profundamente alarmada: “Uma pessoa devia (…) perdoar”, escreveu Maria Feodorovna a partir de Kiev. “Tenho a certeza que sabes o quanto a tua resposta brusca ofendeu a família, atirando-lhes para cima uma acusação horrível e completamente injustificada. Espero que alivies o fardo do pobre Dmitri e não o deixes na Pérsia (…) O pobre tio Paulo [pai de Dmitri] escreveu-me em desespero por nem sequer ter tido a oportunidade de se despedir (…) Este comportamento nem parece teu (…) preocupa-me muito.”

Maria Feodorovna
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, cunhado e primo do czar, deixou apressadamente a sua casa em Kiev para se dirigir a Czarskoe Selo com o objectivo de pedir a Nicolau que retirasse a imperatriz do governo e que deixasse a Duma governar de forma eficiente. Este era o “Sandro” da juventude de Nicolau, o seu alegre companheiro nos jantares com Kschessinska, o marido da sua irmã Xenia e sogro do príncipe Félix Yussupov. Alexandro encontrou a imperatriz deitada na cama, vestida com uma camisa-de-noite branca bordada a renda. Apesar de o czar estar presente, sentado numa cadeira ao lado da cama de casal, a fumar calmamente, o grão-duque foi directo ao assunto: “A forma como interferes nos assuntos de estado está a prejudicar (…) o prestígio do Nicky. Tenho sido sempre um amigo fiel, Alix, há vinte-e-quatro anos (…) e como teu amigo tenho de te dizer que todas as classes da nossa população se opõem às tuas políticas. Tens uma bela família, com filhos, porque é que não podes deixar os assuntos de estado para o teu marido, Alix? Por favor!”

Quando a imperatriz respondeu, dizendo que era impossível um autocrata partilhar os seus poderes com um parlamento, o grão-duque disse: “Estás muito enganada, Alix. O teu marido deixou de ser um autocrata no dia 17 de Outubro de 1905.”

Alexandre Mikhailovich
O encontro acabou mal, com o grão-duque Alexandre a gritar enfurecido: “Lembra-te que eu fiquei calado trinta meses, Alix! Durante trinta meses nunca disse (…) uma palavra sobre os assuntos vergonhosos do nosso governo, ou melhor, do teu governo. Estou a ver que estás disposta a perecer e que o teu marido concorda contigo, mas então e nós? (…) Não tens o direito de arrastar os teus parentes contigo para o precipício!” Nesta altura, Nicolau interrompeu-o calmamente e levou o primo para fora do quarto. Mais tarde, já em Kiev, Alexandre escreveu: “Uma pessoa não pode governar um país sem ouvir a voz do povo (…) Por mais estranho que possa parecer, é o governo que está a preparar a revolução (…) o governo está a fazer os possíveis para aumentar o número de descontentes e está a conseguir fazê-lo de forma admirável. Estamos a assistir a um espectáculo sem precedentes no qual a revolução parte de cima e não debaixo.”

Alexandre Mikhailovich
Um ramo da família imperial, os Vladimirovich, não se contentavam com cartas, e falavam abertamente de uma revolução no palácio que iria substituir os seus primos à força. A grã-duquesa Maria Pavlovna e os grão-duques Kyril, Boris e André – a viúva e os filhos do tio mais velho do czar, o grão-duque Vladimir - tinham ressentimentos muito enraizados no passado. O próprio Vladimir, um homem duro e ambicioso, sempre teve inveja do seu irmão mais velho, Alexandre III, e digeriu muito mal a ascensão ao trono do seu brando sobrinho. Um anglófobo convicto, Vladimir ficou furioso quando Nicolau escolheu uma consorte que, apesar de ter nascido em Darmstadt, era neta da rainha Vitória. Maria Pavlovna, que também era alemã, era a terceira grande senhora do Império Russo, aparecendo logo depois das duas imperatrizes. Socialmente, Maria era tudo o que Alexandra não era. Energética, ponderada, inteligente, instruída, dedicada aos boatos e intrigas e abertamente ambiciosa pelo futuro dos seus três filhos, transformou o seu grandioso palácio no Neva numa corte brilhante, que ofuscava facilmente a de Czarskoe Selo. Nas conversas animadas que dominavam os seus jantares e festas, criticas e escorno ao casal imperial eram temas frequentes. A grã-duquesa nunca se esquecia que depois do czarevich, que estava doente, e do irmão do czar, que estava casado com uma plebeia, o próximo na linha de sucessão era o seu filho Kyril.

Helena Vladimirovna, André Vladimirovich, Boris Vladimirovich, Kiril Vladimirovich e Vitória Melita
Além do mais, cada um dos seus filhos tinha as suas razões para manterem relações complicadas com o czar e a imperatriz. Kyril estava casado com a ex-mulher do irmão de Alexandra, o grão-duque Ernesto de Hesse. André tinha como amante a bailarina Mathilde Kschessinska, que tinha tido uma relação com Nicolau antes de ele se casar. Boris, o filho do meio de Vladimir, tinha pedido Olga, a filha mais velha do czar, em casamento. A imperatriz, numa carta ao marido, expressou alguma da repulsa que sentia por Boris: “A sua esposa seria arrastada para um cenário horrível (…) intrigas sem fim, maneiras e conversas levianas (…) um homem meio-gasto, blasé (…) de trinta e oito anos para uma menina pura e jovem dezoito anos mais nova do que ele, a viver numa casa na qual tantas mulheres já “partilharam” a sua vida! Uma menina inexperiente iria sofrer muito com um marido em quarta ou quinta mão ou mais!” Como a proposta de casamento tinha sido feita não só em nome de Boris, mas também em nome da sua mãe, Alexandra passou a ter grande ressentimento por Maria Pavlovna.

Boris Vladimirovich
Rodzianko sentiu o gosto desta amargura e da conspiração crescente quando, em Janeiro de 1917, foi convidado com urgência a almoçar no Palácio de Vladimir. Depois do almoço, escreveu ele, a grã-duquesa “começou a falar do estado do país no geral, da incompetência do governo, de Protopopov e da imperatriz. Fez referência ao nome desta última e começou a ficar cada vez mais entusiasmada, falando da sua influência nefasta e na interferência que tinha em tudo e disse que estava a destruir o país, que era a causa do perigo que ameaçava o imperador e o resto da família imperial, que estas condições já não eram toleráveis, que algo tinha de mudar, algo tinha de ser feito, retirado, destruído…”

Desejando compreender melhor o que ela queria dizer, Rodzianko perguntou: “O que quer dizer com ‘removido’?”

“A Duma tem de fazer alguma coisa. Ela tem de ser aniquilada.”

“Quem?”

“A imperatriz.”

“Vossa Alteza”, disse Rodzianko, “permita-me que finja que esta conversa nunca aconteceu, porque se a senhora se está a dirigir a mim na qualidade de presidente da Duma, o meu juramento de lealdade obriga-me a que vá falar imediatamente com Sua Mjestade Imperial para o informar de que a grã-duquesa Maria Pavlovna me acabou de dizer que a imperatriz deve ser aniquilada.”

Maria Pavlovna
Durante várias semanas, o golpe dos grão-duques foi o assunto mais falado em Petrogrado. Toda a gente sabia os seus detalhes: quatro regimentos da guarda imperial iriam entrar em Czarskoe Selo de noite e capturar a família imperial. A imperatriz seria presa num convento – o método russo clássico para se livrar de imperatrizes indesejadas – e o czar seria forçado a abdicar a favor do seu filho, tendo o grão-duque Nicolau como regente. Ninguém, nem sequer a polícia secreta que tinha reunido todos os pormenores, levou os grão-duques a sério. “Ontem à noite”, escreveu Paléologue a 9 de Janeiro, “o príncipe Gabriel Constantinovich organizou um jantar em honra da sua amante que já foi actriz. Entre os convidados encontravam-se o grão-duque Boris (…), alguns oficiais e um esquadrão de cortesãos elegantes. Durante a refeição só se falou da conspiração – dos regimentos da guarda imperial nos quais se pode confiar, no momento mais favorável para a revolta, etc. E tudo isto aconteceu enquanto os criados de movimentavam de um lado para o outro, prostitutas a olhar e a ouvir, ciganos a cantar e todos os convidados a beber Moet e Chandon brut imperial que era servido com abundância.”

Nicolau e Alexei nas celebrações do centenário da Dinastia Romanov

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Último Inverno em Czarskoe Selo - Robert K. Massie (Parte 2

Alexandra, Tatiana e Alexei em Czarskoe Selo
A morte de Rasputine abalou Alexandra, mas, agarrando-se à mesma crença interior que a iria manter viva durante os meses impiedosos que se seguiriam, não se deixou ir abaixo. Rasputine tinha-lhe dito muitas vezes: “Se eu morrer ou tu me abandonares, vais perder o teu filho e a tua coroa em seis meses”. A imperatriz nunca tinha duvidado dele. A morte de Rasputine retirou-lhe o salvador do seu filho e a sua ligação com Deus. Sem as suas rezas e conselhos, qualquer desastre era possível. O facto de o golpe ter partido de dentro da família imperial não a surpreendeu. Sabia o que pensavam e compreendia que tinha sido ela o verdadeiro alvo dos assassinos.


Alexandra com Dmitri Pavlovich, um dos assassinos de Rasputine
Após o assassinato, passou vários dias sentada em silêncio, com o rosto coberto de lágrimas, a olhar para o infinito. Depois recompôs-se e a cara que mostrava, até aqueles que viviam no palácio, era calma e decidida. Embora Deus lhe tivesse tirado o seu querido amigo, ela ainda estava viva. Enquanto ainda lhe restasse vida, iria perseverar na sua fé em Deus, na sua dedicação ao marido e à família, na sua resolução, encerrada agora com o martírio de Gregório, de manter a autocracia que Deus tinha dado à Rússia. Sentindo a mesma premonição de condenação na Terra que o seu marido sentia, preparou-se para os choques que estavam para vir. Desde aí e durante os meses de vida que lhe restavam, Alexandra nunca esmoreceu.

Foi a imperatriz quem assumiu o controlo. Desde o dia do assassinato que a caixa de correio de Anna Vyrubova se tinha enchido de cartas ameaçadoras. Por ordem da imperatriz, Anna mudou-se da sua pequena casa para aposentos no Palácio de Alexandra para sua segurança. Apesar de o czar viver no palácio, era a imperatriz que tinha mais influência nos assuntos políticos. O telefone mais importante do palácio não estava na secretária do czar, mas sim numa mesa do boudoir da imperatriz, debaixo de um quadro de Maria Antonieta. Os relatórios de Popov eram entregues tanto a Nicolau como a Alexandra, dependendo de quem estivesse disponível, às vezes eram até lidos pelos dois ao mesmo tempo. Além do mais, e com o conhecimento do marido, a imperatriz começou a ouvir as conversas oficiais do czar atrás das portas. Kokovtsov sentiu que algo parecido se estava a passar quando estava numa reunião com o czar: “Tive a sensação que a porta que dava acesso ao quarto-de-vestir do czar estava meia aberta, algo que nunca tinha acontecido antes, e que alguém estava de pé mesmo atrás dela,” escreveu ele. “Pode ter sido apenas impressão minha, mas foi uma sensação que permaneceu ao longo de toda a reunião”. Não foi apenas uma impressão, foi um estratagema temporário. Pouco depois, para maior conveniência, a imperatriz mandou construir uma escadaria de madeira que cortava pelas paredes do escritório e dava acesso a uma varanda com vista para a sala de reuniões do czar. Lá, escondida pelas cortinas, a imperatriz podia deitar-se num sofá e ouvir as conversas.

Alexandra com Nicolau e Alexei em 1916
A morte de Rasputine não mudou nada na forma como o governo era dirigido. Os ministros eram escolhidos e dispensados. Tropov, que tinha substituído Stumer como primeiro-ministro em Novembro, teve permissão para se despedir em Janeiro para ser substituído pelo príncipe Nicolau Golitsyn, um homem idoso que a imperatriz conhecia por ter sido presidente de uma das suas obras de caridade. Golitsyn ficou horrorizado com a sua nomeação e implorou ao czar que escolhesse outra pessoa, mas sem sucesso. “Se alguém tivesse usado a linguagem que eu usei para me descrever, tinha sido obrigado a desafia-lo para um duelo,” disse ele.

Nicolau e Alexandra
Fazia pouca diferença. O único ministro em quem Alexandra confiava completamente era Protopopov. O resto tinha pouca importância e Protopopov raramente se dava ao trabalho de estar presente em reuniões com os restantes ministros. Rodzianko até se recusava a falar com ele. Na recepção de ano novo, o presidente da Duma tentou evitar encontrar-se com o seu antigo deputado. “Reparei que ele me andava a seguir (…) por isso fui para outra parte da sala e fiquei de costas voltadas para ele. Apesar de tudo (…) Protopopov estendeu-me a mão. Respondi-lhe: ‘Nem aqui, nem nunca’. Protopopov (…) agarrou-me de forma amigável pelo cotovelo e disse: ‘Meu querido amigo, de certeza que conseguimos chegar a acordo.’ Tive nojo dele. ‘Deixe-me em paz. Para mim, o senhor é repelente.’”

Protopopov
Tal como Rasputine, o ministro do interior dependia unicamente do favor da imperatriz e, por isso, apressou-se a seguir as suas tendências espirituais. Tal como o monge tinha o costume de fazer, Protopopov telefonava para o palácio todos os dias às dez da manhã para falar quer com a imperatriz quer com Anna Vyrubova. Dizia que, por vezes, o espirito de Rasputine lhe aparecia à noite, que sentia a sua presença e ouvia a sua voz que lhe dava conselhos. Corria uma história por Petrogrado que dizia que Protopopov tinha caído de joelhos a mio de uma reunião com a imperatriz, dizendo-lhe: “Oh, Majestade, vejo Cristo atrás de si!”

Alexandra e Alexei
Apesar de imperatriz estar decidida, não gostava do seu trabalho. Todas as quintas-feiras, uma orquestra romena dava um concerto na sala de convívio do palácio. A cadeira da imperatriz era sempre colocada perto da lareira acesa e ela ficava sentada, absorvida pela música, a olhar para as chamas. Numa dessas noites, apenas duas semanas antes da Revolução, uma das suas amigas, Lili Dehn, sentou-se numa cadeira atrás dela. “A imperatriz parecia anormalmente triste”, escreveu, “sussurrei-lhe ao ouvido, preocupada: ‘Madame, porque está tão triste hoje?’ A imperatriz virou-se e olhou para mim (…) ‘Porque estou triste, Lili? (…) não sei porquê, mas (…) acho que tenho o coração partido.’”

Alexandra com Lili Dehn
Um visitante britânico que esteve com a imperatriz durante estas semanas ficou impressionado com o seu ar triste e resignado. Era o general Sir Henry Wilson, que visitou a Rússia durante uma missão dos Aliados, e tinha conhecido Alexandra quando ela ainda era uma criança em Darmstadt. Agora, “ao ser levado por uma longa passagem até ao boudoir da imperatriz – uma sala cheia de fotografias e bric-a-brac (…)” ele recordou-a “dos nossos jogos de ténis, nos bons velhos tempos em Darmstadt há trinta e seis anos (…) Ficou tão encantada com as recordações e relembrou-me nomes dos quais me tinha esquecido. Depois disso foi fácil. Disse que a sua família estava numa situação mais complicada do que a maioria porque tinham familiares e amigos na Inglaterra, Rússia e Alemanha. Falou-me das suas experiências e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Tinha um rosto bonito, mas muito, muito triste. É alta e graciosa, divide o cabelo a meio de forma simples e tem uma boa postura. O cabelo tem manchas cinzentas. Quando disse que a ia deixar em paz, já que ela devia estar cansada de ver estranhos e de fazer conversa, ela quase se riu e disse para ficar mais um pouco.”

Alexandra
Wilson ficou comovido com esta conversa. “Quanta tragédia há naquela vida”, escreveu ele. Apesar de tudo, quando deixou a Rússia uma semana depois, acrescentou: “Parece-me certo que o imperador e a imperatriz estão prestes a cair num precipício. Toda a gente – oficiais, mercadores, damas – fala abertamente da absoluta necessidade de se livrarem deles.”

Alexandra
Texto retirado do livro "Nicholas and Alexandra" de Robert K. Massie