Java

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Peterhof e Baptizado da Grã-Duquesa Maria

Alexandra, Maria, Nicolau, Tatiana e Olga
A cerca de seis ou oito quilómetros de Peterhoff encontra-se a Subswina Datcha (a minha villa), uma pequena casa rococó mobilada no estilo do Primeiro Império. Só a mobília daria uma fortuna muito considerável se fosse vendida em Londres. É muito bonita. Há muitos quadros valiosos e porcelanas do mais bonito possível, incluindo grandes jarras da bela porcelana de Dresden. A casa é rodeada por parques e jardins cheios de árvores e bem tratados, entre os quais se incluía um belo jardim de rosas. Foi construída por ordem do czar Nicolau I e foi lá dado um baile em honra do décimo-primeiro aniversário do seu filho. Os convidados dançaram na grande ponte de madeira que se ergue sobre a estrada.

Uma das coisas que as crianças mais gostavam de fazer era ir lá passar a tarde e tomar chá, principalmente durante a época do feno, quando escorregavam pelos montes de feno e corriam para cima e para baixo nas encostas cobertas de relva. Outra coisa de que gostavam muito era visitar a quinta, ver as vacas a ser ordenhadas, alimentar as galinhas, recolher os ovos e encher cestos de maçãs. Há dois anos atrás, a esposa do agricultor, uma mulher muito simpática, estava a criar quatro gatinhos cuja mãe tinha sido morta. Quando as pequenas grã-duquesas passavam por lá de manhã nos seus póneis ou de bicicleta, os gatinhos eram sempre trazidos cá para fora e quatro biberões eram entregues, um para cada criança. Com um gatinho numa mão e o biberão na outra, as meninas iam dar uma volta pelo quintal enquanto os alimentavam.

Olga, Tatiana, Maria e Anastásia em Peterhof
Quando a grã-duquesa Maria era bebé, fomos passar um dia a Robshai. Estavam a haver manobras militares na altura e nas quais participaram o imperador e a imperatriz e, um dia, entramos numa carruagem puxada por quatro cavalos lado-a-lado e, duas horas depois, chegamos a Robshai. O palácio era grande, mas pouco ocupado e tinha jardins bonitos. Algum tempo depois, passamos alguns dias em Krasnow Selo, onde também decorriam manobras militares. Krasnoe Selo significa “cidade bonita”, um termo impróprio, se alguma vez tal existiu. A cidade é uma colecção miserável de cabanas de madeira sujas, cada uma delas erguendo-se um pouco antes da estrada e com uma poça de água parada antes delas. Não havia sinais de um jardim, nem sequer de uma couve à vista. Há um pequeno parque bonito com várias sorveiras e era lá que costumávamos caminhar todas as manhãs.

Quando a Maria tinha duas semanas de idade, foi baptizada na igreja do Grande Palácio em Peterhoff. A cerimónia, que foi muito imponente, durou duas horas ou mais. A imperatriz tinha feito preparativos para que eu entrasse na igreja por uma porta particular e para regressar pela mesma. Portanto, no dia marcado, metida dentro de um vestido branco de seda, ocupei o meu lugar na carruagem e fui levada para a igreja. O cossaco que estava de guarda não estava a permitir a passagem da carruagem. Eu não falava russo e pensava que talvez recebesse permissão para entrar a pé. Por isso saí da carruagem. Mas não! O homem baixou a baioneta e bloqueou-me o caminho. Ali estava eu, no meu vestido branco, no meio da estrada, com uma multidão a olhar para mim. Não sabia o caminho por outra porta, mas finalmente vi um oficial que conhecia do palácio. Fui até ele, falei em francês e contei-lhe o meu dilema. O oficial foi extremamente simpático e passamos pelos guardas até entrar na igreja onde os padres e bispos já estavam reunidos. Estavam ocupados a escovar os longos cabelos. Um deles veio ter comigo e numa maravilhosa mistura de línguas perguntou-me a que temperatura deveria estar a água. Respondi-lhe em francês e inglês, mas não pareceu que ele tivesse percebido. Depois mostrei-lhe o número de graus com os meus dedos e um grupo de padres interessados e entusiasmados começaram a preparar a pia para a criança. Pouco depois começaram a entrar os convidados: embaixadores e as suas esposas, todos com os vestidos das suas cortes. Uma mulher chinesa pequena parecia muito simpática e inteligente. Tinha um quimono de seda azul vestido e um chapéu redondo pequeno na cabeça, uma flor vermelha em cada orelha e uma branca em cima delas. A igreja católica foi representada por um cardial com o seu chapéu vermelho e batina, e o chefe da Igreja Luterana na Rússia também estava presente, vestindo uma batina preta com rendas branca. Os polacos são maioritariamente católicos e os finlandeses luteranos ou da igreja reformadora. Também estavam presentes membros de várias cortes. A imperatriz-viúva e a imperatriz tinham quinhentas damas que pertenciam à corte – “Demoiselles d’honneur”, como eram chamadas. Estas damas vestiam-se todas de forma semelhante nestas ocasiões, com mantos de veludo vermelho bordados a ouro com anáguas de cetim branco. As senhoras mais velhas, “Les dames de la cour”, levavam vestidos verde-escuros bordados a ouro.

Alexandra Feodorovna com o vestido da corte
Quando estavam todos reunidos, a pequena heroína foi levada para a igreja pela princesa Galitzin, a senhora mais antiga da corte. A princesa levava uma almofada de pano de ouro, na qual repousava a pequena Maria Nikolaevna, na glória plena do seu vestido de renda cor-de-rosa e com um pequeno chapéu na cabeça à sua medida. O imperador, a imperatriz-viúva, os outros padrinhos e todos os grão-duques e duquesas e membros da realeza estrangeira surgiram a seguir. Segundo a lei da Igreja Ortodoxa Russa, os pais não podem ficar na igreja durante o baptismo, por isso o imperador, depois de receber os parabéns dos seus parentes, retirou-se da igreja, voltando depois para a Confirmação e para entregar a Ordem de Santa Ana à sua pequena filha. A bebé foi depois despida até ficar só de camisa interior, a mesma que o imperador tinha usado no seu baptismo. Infelizmente a mesma foi roubada da igreja nesse mesmo dia e nunca mais voltou a aparecer. Depois a bebé foi mergulhada três vezes na pia, o seu cabelo foi cortado em quatro sítios em forma de cruz. O que foi cortada foi enrolado em cera e atirado para a pia. Segundo a superstição russa, o bem ou o mal do futuro da criança depende se o cabelo flutuar ou se afunda. O cabelo da pequena Maria comportou-se de forma ortodoxa e afundaram todos imediatamente, por isso não há necessidade de nos preocuparmos com o seu futuro. A criança foi depois levada para trás de um painel onde foi vestida com roupas novas de prata e a missa continuou. Depois foi levada novamente para a igreja e ungida com óleo. O seu rosto, olhos, ouvidos, mãos e pés foram tocados com uma escova fina mergulhada em óleo. A seguir foi levada pela imperatriz-viúva para dar três voltas à igreja, apoiada em cada lado pelos seus padrinhos. Dois pajens seguravam o manto da imperatriz. O imperador, que tinha voltado a entrar na igreja depois de a cerimónia acabar, chegou-se à frente e investiu-lhe a Ordem com diamantes e depois a procissão retirou-se pela mesma ordem em que tinha entrado na igreja. A bebé foi levada para a igreja numa carruagem dourada de vidro puxada por seis cavalos brancos como a neve, cada um deles conduzido por um cavalariço vestido numa libré branca e escarlate com uma peruca, e foi escoltada por um guarda dos Cossacos. 

Maria com a mãe, Alexandra
Quando quis regressar pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo, os soldados não me deixaram passar e fui obrigada a regressar para a igreja. Não podia ficar lá, por isso fui pelo caminho pelo qual tinha passado a procissão, pelas grandes salas de estado e tive a sorte de encontrar alguém do palácio. Expliquei o meu dilema e fui entregue aos cuidados de uma senhora idosa respeitável que depois vim a descobrir tratar-se de uma das criadas do palácio e o meu guia disse-me que ia fazer um telefonema para me arranjar uma carruagem. Contudo, a carruagem não chegou e regressar a pé estava fora de questão porque, por um lado, a distância era muita e não sabia falar russo suficiente para perguntar o caminho a um polícia. Cerca das três e meia da tarde, a mulher foi procurar alguém que me pudesse ajudar. Pouco depois regressou com um homem que me disse: “Eu não falar inglês, eu falar alemão”. Expliquei-lhe que não sabia falar nem russo nem alemão. No entanto, problema da língua não preocupou o bom samaritano que chamou uma izvochik, o nome pelo qual são chamadas as carruagens na Rússia, colocou-me dentro dela e mandou-me para o sítio que pensava ser a minha casa. Fui levada primeiro para o palácio da imperatriz-viúva por erro e quando consegui finalmente regressar a casa, tinha estado desaparecida durante várias horas e sentia-me muito cansada e cheia de fome.

Margaret Eager com as quatro grã-duquesas
Na manhã seguinte chegou a notícia de que o czarevich Jorge Alexandrovich tinha morrido. Este pobre jovem sofria de tuberculose há muitos anos. Tinha vivido no Egipto durante algum tempo e tinha também experimentado muitos outros climas, mas só sentiu que conseguia respirar em Abbas Turman, no Cáucaso. A sua vida lá foi solitária e triste. A sua mãe e as suas irmãs, as grã-duquesas Xenia e Olga, bem como os seus sobrinhos da primeira costumavam visitá-lo todos os anos depois da Páscoa e ficavam até o tempo ficar demasiado quente para elas, uma vez que o clima é quente e a viagem longa e difícil, principalmente para crianças. Nesse ano, devido ao nascimento da pequena Maria, a viagem tinha sido adiada para um pouco mais tarde do que o costume e o pobre grão-duque esperava a chegada delas impacientemente. Numa carta escrita pouco antes da sua morte, ele disse que tinha saudades de ouvir o som da voz de uma mulher, o toque da mão de uma mulher e implorou que a sua mãe fosse ter com ele o mais depressa possível depois do baptismo. Ficou também muito desiludido pela Maria não ter sido um rapaz, pois sentia que o fardo da sua responsabilidade era quase intolerável.

Por erro, o imperador tinha-o nomeado czarevich em vez de herdeiro-aparente. Na Rússia este título nunca pode ser retirado, excepto quando aquele que o tem se torna imperador. Após a sua morte, o imperador nomeou o seu irmão mais novo, Miguel, herdeiro-aparente que tem usado este título com muita dignidade e honra, mas ficou muito feliz quando deixou de o ter após o nascimento do pequeno herdeiro, o grão-duque Alexei a 12 de Agosto de 1904.

O grão-duque Jorge Alexandrovich
Na manhã a seguir ao baptismo, o czarevich Jorge tinha-se levantado mais cedo do que o costume. Sentia-se melhor e mais animado e, apesar dos avisos do seu criado particular, decidiu dar uma volta de bicicleta. Desceu uma encosta e, quando chegou ao fundo, caiu de repente da bicicleta. Uma velha camponesa que estava a caminho da casa dele para lhe levar leite, acompanhada do seu neto, foram as únicas testemunhas do acidente. A mulher correu para o ajudar e viu que tinha sangue a escorrer-lhe da boca. Mandou o neto à casa dele para ir buscar ajuda e estava sentada no chão com a cabeça do jovem grão-duque no colo, mas poucos minutos depois ele morreu. Foi assim, ao lado da estrada, com os cuidados de uma velha camponesa, que morreu o herdeiro do trono russo. Cumpriu o ditado sobre os Romanov, que nenhum deles vai morrer deitado numa cama. Até onde sei, apenas o czar Nicolau I foi o único a conseguir esse feito. Morreu de pneumonia alguns dias após a queda de Sevastopol. Apesar de Alexandre III ter tido também uma morte natural, estava sentado numa cadeira na varanda quando tal aconteceu.

Jorge Alexandrovich
Foi construída uma igreja no local onde Jorge Alexandrovich faleceu. A imperatriz-viúva e a família viajaram para a Crimeia para acompanhar o seu corpo que foi levado para São Petersburgo para repousar na igreja da Fortaleza de Pedro e Paulo. A sua sepultura é cuidada por mãos carinhosas, com flores e plantas frescas sempre por perto e todos os anos se celebra uma missa em sua honra. Esta missa vai continuar a celebrar-se enquanto houver membros da família vivos, uma vez que este é um costume da igreja russa. Diz-se que o grão-duque Jorge se casou com a rapariga do telégrafo. Esta história é completamente infundada. O grão-duque vivia sozinho na sua casa no Cáucaso com os seus criados e a única excepção dava-se quando era visitado pela mãe e pela família.

Alguns dias depois do funeral, o encouraçado Alexandre III foi baptizado. O imperador, a imperatriz, a imperatriz-viúva e outros membros da família estiveram presentes na cerimónia. Segundo a tradição russa, todos se vestiram de luto branco, uma vez que ninguém participa numa cerimónia na Rússia vestido de peto. Começou uma tempestade súbita e um raio atingiu o navio, ferindo sete ou oito pessoas. O navio tinha o nome do marido da imperatriz-viúva que ficou muito perturbada com este acontecimento e disse que o navio se afundaria na sua primeira missão. 

Maria Feodorovna
Texto retirado do livro "Six Years at the Russian Court" de Margaret Eager.






quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As Primeiras Lições na Corte - Pierre Gilliard

Pierre Gilliard

No dia marcado para a minha primeira lição, uma carruagem real veio para me levar para a Casa de Alexandria, onde o czar e a família estavam a viver. No entanto, apesar do uniforme do cocheiro, do brasão imperial nos painéis e das ordens que tinham sido dadas em relação à minha chegada que, sem dúvida, tinham sido dadas, aprendi rapidamente que entrar na residência de Suas Majestades não era fácil. Mandaram-me parar no portão do parque e houve uma discussão de vários minutos antes de receber permissão para entrar. Quando viramos numa curva, não demorei até ver dois edifícios pequenos de tijolo interligados por uma ponte escondida. Se a carruagem não tivesse sido parada, nunca teria pensado que tinha chegado ao meu destino.


Fui levado para uma sala pequena, mobilada de forma simples em estilo inglês no segundo andar. A porta abriu-se a czarina entrou, segurando as suas filhas Olga e Tatiana pela mão. Depois de fazer alguns elogios, sentou-se na mesa e convidou-me a fazer o mesmo do lado oposto ao dela. As crianças sentaram-se nas outras duas pontas da mesa.


Olga e Tatiana na altura em que começaram a receber lições de francês de Gilliard

A czarina ainda era uma mulher bonita nesta altura. Era alta e magra e tinha um porte soberbo. Mas tudo isto deixou de contar quando a olhei nos olhos, aqueles olhos azuis-acinzentados que falavam e mostravam as emoções de uma alma sensível.

Olga, a grã-duquesa mais velha, era uma menina de dez anos, muito loira e com uns olhos brilhantes e marotos e um nariz ligeiramente retoussé. Examinou-me com um olhar que me pareceu procurar um ponto fraco na minha armadura desde o primeiro momento, mas havia algo de tão puro e honesto na criança que uma pessoa gostava imediatamente dela.

A segunda menina, Tatiana, tinha oito anos e meio. Tinha cabelo castanho-avermelhado e era mais bonita do que a irmã, mas dava a impressão de ser menos transparente, honesta e espontânea. 


A lição começou. Fiquei espantado, até embaraçado, pela simplicidade de uma cena que tinha esperado ser muito diferente. A czarina seguiu tudo o que eu disse muito atentamente. Senti de forma distinta que não estava a dar uma aula, mas sim a ser avaliado. O contraste entre o que tinha antecipado e a realidade deixou-me muito confuso. Para aumentar ainda mais o meu desconforto, tinha a ideia de que as minhas alunas estavam muito mais avançadas do que realmente verifiquei. Tinha escolhido certos exercícios, mas estes acabaram por ser demasiado complicados para elas. A lição que tinha preparado não serviu de nada e tive de improvisar e contar com outros materiais. Finalmente, para grande alívio meu, o relógio bateu as horas e marcou o final do meu sofrimento.

Nas semanas que se seguiram, a czarina esteve sempre presente nas lições das crianças, pelas quais se interessava visivelmente. Muito frequentemente, depois de as suas filhas deixarem a sala, a czarina discutia comigo sobre os melhores métodos de ensinar línguas modernas e ficava sempre espantado pelo bom senso das suas opiniões.

Alexandra
Desses primeiros dias, guardei na memória uma lição que dei um dia ou dois antes do problema do Manifesto de Outubro em 1905 que acabaria na criação da Duma. A czarina estava sentada numa cadeira baixa, perto da janela. Reparei imediatamente que estava distraída e preocupada. Apesar de tudo que podia fazer, o seu rosto traía-a e mostrava uma agitação interior. Esforçava-se obviamente para se concentrar em nós, mas não demorava a mergulhar novamente num estado de melancolia no qual se acabaria por perder. O seu trabalho escorregou-lhe dos dedos para o colo. Tinha as mãos apertadas e o seu olhar, que seguia os seus pensamentos, parecia perdido e indiferente às coisas que aconteciam à sua volta.

Quando a lição acabou, fechei o meu livro e esperei que a czarina se levantasse, um sinal de que me poderia retirar. Desta vez, apesar do silêncio que seguiu o fim da lição, ela estava tão perdida dos seus pensamentos que não se mexeu. Os minutos passavam e as crianças começam a ficar inquietas. Abri o meu livro novamente e continuei a ler. Só um quarto-de-hora depois, quando as grã-duquesas foram ter com a mãe, é que a czarina se apercebeu das horas.

Alexandra
Alguns meses depois, a czarina nomeou uma das damas-de-companhia, a princesa Obolensky, para a substituir durante as minhas lições. Assim acabou o período de uma espécie de avaliação à qual tinha sido submetido. Devo admitir que a mudança foi um alívio. Sentia-me muito mais à vontade com a presença da princesa Obolensky e, além do mais, ela ajudava-me muito. No entanto, desses primeiros meses, preservei uma memória vívida do grande interesse que a czarina, uma mãe com grande sentido de responsabilidade, tinha pela educação dos seus filhos. Em vez da imperatriz fria e altiva de quem ouvi falar tanto, e fiquei espantado por estar na presença de uma mulher completamente dedicada às suas obrigações maternas.

Também foi nesta altura que comecei a aperceber-me de certos sinais de reserva que tantas pessoas tinham levado a mal e lhe tinham valido tantos inimigos, eram na verdade sinais de uma timidez natural e, como tal, uma máscara para esconder a sua sensibilidade.


Alexandra Feodorovna


Vou dar um pormenor que ilustra o interesse da czarina na educação dos seus filhos e a importância que dava a estes mostrarem respeito pelos seus professores mostrando aquele sentido de decoro que é o primeiro elemento das boas maneiras. Enquanto esteve presente nas minhas lições, quando eu entrava na sala, encontrava sempre os livros e os cadernos empilhados de forma organizada nos lugares das minhas alunas na mesa e nunca tive de esperar um momento. O mesmo continuou a acontecer depois. Ao longo do tempo, às minhas primeiras alunas, Olga e Tatiana, juntaram-se a Maria, em 1907, e a Anastásia, em 1909, anos em que, respectivamente, completaram 9 anos de idade.

A saúde da czarina, que tinha já sofrido pela sua ansiedade devido à ameaça que havia sobre o czarevich, foi impedindo-a de seguir a educação das filhas. Na altura não me apercebi qual seria a causa da sua aparente indiferença e senti-me inclinado a censura-la, mas não demorou muito até que os acontecimentos me mostrassem que estava errado.

Alexei e Pierre Gilliard
Texto retirado do livro "Thirteen Years at the Russian Court" de Pierre Gilliard.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Príncipe Filipe e os Romanov


A propósito das celebrações do Jubileu de Diamante da rainha Isabel II do Reino, o blog "Os Romanov" resolveu fazer uma pequena pesquisa em nome próprio sobre as relações familiares do seu consorte, o príncipe Filipe, mais especificamente o seu parentesco com a família imperial russa, os Romanov, que são mais próximas do que a maioria dos leitores terá alguma vez pensado.

De facto, estas relações são tão próximas que, aquando da descoberta dos corpos dos Romanov no início dos anos 90, o príncipe Filipe foi uma das pessoas que forneceu amostras de sangue para determinar o perfil de ADN dos mesmos. Mas vamos começar pelo principio.

O Lado do Pai

Príncipe André da Grécia e Dinamarca
Filipe é o filho mais novo do príncipe André da Grécia e Dinamarca e da princesa Alice de Battenberg. O seu pai, que durante alguns anos foi um militar muito respeitado na Grécia antes de ser injustamente acusado de crimes de guerra por ocasião da guerra greco-turca de 1919-1920, era filho do rei Jorge I da Grécia e da grã-duquesa Olga Constantinovna da Rússia, o que faz com que, logo aqui, encontremos uma ligação muito directa com os Romanov.

No entanto, Filipe parece ter tido pouco contacto com a sua avó paterna Olga uma vez que, quando tinha apenas alguns meses de idade, em Dezembro de 1922, a sua família foi forçada a fugir da Grécia depois de o seu pai ter escapado por pouco a uma sentença de morte e a monarquia ser abolida. Enquanto Filipe acompanhou os pais e as quatro irmãs para o exílio em Paris, a sua avó Olga foi para Itália e morreu em 1926, uma semana depois de Filipe completar cinco anos de idade.

A grã-duquesa Olga Constantinovna, avó paterna de Filipe

Além da sua avó Olga, Filipe tinha também uma relação de parentesco muito próxima com os Romanov no seu lado grego da família. A irmã mais velha do seu pai, a princesa Alexandra da Grécia e Dinamarca, tinha-se casado em Abril de 1889 com o grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia. Antes de morrer tragicamente depois de um parto prematuro, a tia paterna de Filipe teve dois filhos: a grã-duquesa Maria Pavlovna e o grão-duque Dmitri Pavlovich da Rússia. Isto faz então com que Filipe seja primo direito do assassino de Rasputine.

Devido a vários factores como a diferença de idades, o facto de a mãe deles ter morrido cedo e a distância que os separava, também não foram encontrados registos de que Filipe tivesse tido alguma relação próxima com estes dois primos, embora seja provável que os tenha conhecido, uma vez que tanto Maria como Dmitri passaram algum tempo exilados em Paris na mesma altura em que a família de Filipe se encontrava lá. Apesar de tudo, Filipe seria demasiado novo para se lembrar de tais encontros.

O grão-duque Dmitri Pavlovich e a grã-duquesa Maria Pavlovna eram primos direitos do príncipe Filipe

Outro dos irmãos do seu pai, o príncipe Nicolau da Grécia e da Dinamarca que, ele próprio, era muito chegado à família Romanov, como provam várias fotos da época, casou-se com a grã-duquesa Helena Vladimirovna da Rússia, filha do grão-duque Vladimir Alexandrovich e da grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior. Neste caso, como a mãe de Filipe se tornou uma grande amiga de Helena quando ambas viviam na Grécia, existem registos de que ambos se encontraram várias vezes, principalmente depois de a monarquia ser restaurada na Grécia, altura em que o futuro consorte começou a passar sempre uma parte dos seus verões no país. Henry Channon, um socialite americano, recordou mesmo uma conversa que teve com Helena sobre o seu possível casamento com a princesa Isabel.

Nicolau da Grécia, tio paterno de Filipe, com o czar Nicolau II, o rei Jorge I da Grécia e a grã-duquesa Olga Alexandrovna
Filipe teve ainda a oportunidade de conviver de perto com um dos seus tios paternos que teve também um papel importante na história dos Romanov. O seu tio Jorge da Grécia e Dinamarca, conhecido por ter salvo Nicolau II do ataque de um japonês durante a Grande Digressão que ambos fizeram para completar os seus estudos, e a sua esposa Maria Bonaparte acolheram Filipe na sua casa em Paris depois de a sua mãe ser internada numa instituição de saúde mental e o seu pai ter partido para Monte Carlo. Foi mesmo Maria, que tinha estudado psicanálise com Freud, que recomendou os especialistas que diagnosticaram a mãe de Filipe com esquizofrenia. O casal também pagou os primeiros anos de escola de Filipe.

Maria Bonaparte e Jorge da Grécia e Dinamarca, tios paternos de Filipe

O Lado da Mãe

Alice de Battenberg, mãe do príncipe Filipe
Pelo lado da mãe, as ligações de Filipe aos Romanov são ainda mais evidentes e directas. Alice, que tinha recebido o nome em honra da sua avó materna, a princesa Alice do Reino Unido, era a filha mais velha da princesa Vitória de Hesse-Darmstadt e do seu marido, Luís de Battenberg. Vitória era irmã mais velha da grã-duquesa Isabel Feodorovna e da czarina Alexandra Feodorovna.

A relação de Filipe com a sua avó era muito forte, principalmente depois de a sua mãe ser internada quando o príncipe tinha pouco mais de seis anos de idade. Foi Vitória quem organizou a educação de Filipe e era ela quem decidia onde o neto iria passar as suas férias escolares. Era a principal responsável por Filipe e aquela que conseguiu manter alguma estabilidade na sua infância turbulenta. O duque de Edimburgo já falou muitas vezes da sua avó materna em várias entrevistas, sempre de forma carinhosa. "Admiro-a imensamente. Gostava muito dela. Era muito inteligente e culta. Tinha conversas fascinantes, sabia tudo, pelo menos do meu ponto de vista", disse, numa entrevista em 2011.

Vitória (esq.) avó materna de Filipe, com as irmãs Isabel Feodorovna e Alexandra Feodorovna

Embora Filipe não tenha tido muito contacto com as suas tias-avós russas, uma vez que nasceu três anos depois de elas morrerem, as suas irmãs mais velhas encontraram-se com a família Romanov pelo menos duas vezes, tendo em conta fotografias que existem da época. Os filhos do czar Nicolau II e da czarina Alexandra eram seus primos em segundo-grau.

Margarida e Teodora, irmãs mais velhas de Filipe, com as grã-duquesas Maria e Anastásia
Apesar de nunca ter conhecido Alexandra nem Isabel, Filipe passou muitas vezes férias com outra figura importante ligada à família Romanov: o grão-duque Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt. De facto, outra das suas irmãs, a princesa Cecília, casou-se com o filho mais velho dele, o príncipe Jorge Donatus. Foi Cecília que deixou o testemunho de umas férias que Filipe passou em Darmstadt com Ernesto Luís, a sua esposa Leonor e o resto da família:

"Foi muito bom (...) O tio Ernie e a tia Onor deram-lhe [a Filipe] uma bicicleta nova nos anos e agora ele anda em cima dela o dia todo. À noite, desde que vai tomar banho até ir para a cama toca a grafonola que lhe deste. Este ano recebeu presentes muito bons. A Dolla [Teodora] e a Tiny [Sofia] deram-lhe canivetes e o Don [Jorge Donatus] deu-lhe uma grande bola colorida para ele brincar na piscina. Eu dei-lhe uma toalha para ele se deitar no jardim. Tem-se portado muito bem e faz tudo o que a tia Onor manda."

Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt e Leonor de Solms, tios-avós  de Filipe, com o filho  Jorge Donatus, seu futuro cunhado
Quando foi para a escola em Inglaterra, Filipe começou a passar as suas férias de verão com um dos seus tios maternos, o marquês Jorge Mountbatten de Milford-Haven. Aqui encontramos mais uma ligação um pouco mais indirecta com os Romanov, uma vez que Jorge era casado com Nádia Mikhailovna de Torby, filha do grão-duque Miguel Mikhailovich da Rússia, um cunhado da grã-duquesa Xenia Alexandrovna. Por causa destas estadias, Filipe estabeleceu fortes amizades tanto com os filhos de Nádia como com os da sua irmã, Anastásia Mikhailovna de Torby. Jorge, que era também sobrinho de Isabel e Alexandra Feodorovna, também visitou os seus primos russos pelo menos uma vez.

Jorge Mountbatten, tio materno de Filipe, com as grã-duquesas Olga e Maria
Não foi possível encontrar testemunhos de Filipe em relação às suas relações familiares com os Romanov, no entanto, com o seu humor característico, Filipe respondeu da seguinte forma quando um jornalista lhe perguntou se gostaria de visitar a Rússia:

"Gostava muito de lá ir, embora essas bestas tenham assassinado metade da minha família"


Fontes

  • Eade Philip, "Young Prince Philip", Harper Press, 2011
  • BBC, "Prince Philip at 90", 2011

Xenia Alexandrovna no Exílio


Ao longo de toda a sua vida no exílio, a grã-duquesa Xenia fez os possíveis para manter certos aspectos da sua vida anterior. Começou a pintar novamente, vendendo alguns dos seus trabalhos a instituições de caridade. Agarrou-se aos seus criados russos, principalmente à lavadeira Anna Belousoff. A optimista Belousoff, que chegou a ter dez serventes e um cozinheiro, tinha sempre uma mala feita, pronta para um regresso iminente à Rússia. Tal como o príncipe Dmitri [filho de Xenia] recordou: "Ela costumava dizer: 'vamos regressar', e continuou a fazê-lo sempre até morrer com mais de noventa anos."

Xenia com a filha Irina
Mas a nostalgia que Xenia sentia pelo passado teve de se adaptar a assuntos mais urgentes, principalmente às suas finanças. Em 1921, o tutor dos seus filhos, Mr. Stewart, ajudou-a a abrir uma conta no banco Coutts, mas esta experiência começou mal: com mil libras de crédtico, Xenia gastou imediatamente noventa e oito no Harrods, uma soma equivalente a duas mil libras nos dias de hoje. Nesse mesmo ano, um encontro infeliz com um burlão americano custou-lhe dez mil libras. O homem tinha-lhe prometido milhões se ela investisse num inovador processo de impressão de fotografias. Foi preso depois de ter defraudado uma mulher e lhe ter ficado com o relógio, foi preso durante três meses e deportado para os Estados Unidos.

Xenia com a mãe Maria, a filha Irina e a neta Irina.
Nesta altura, o rei Jorge V decidiu intervir, tendo chegado a acordo para pagar duas mil e quatrocentas libras por ano à prima. Em 1925, decidiu também instala-la em Frogmore. A carta de agradecimento de Xenia é efusiva ao ponto de se tornar namorisqueira: "A sério Georgie, é muito bom e gentil da tua parte. Tive de te escrever imediatamente, mas estraguei muitas folhas de papel porque me sentia tímida! E não sabia bem o que estava a acontecer." Se soubesse que Jorge não tinha tentado salvar o czar, talvez Xenia não se sentisse tão agradecida.

O rei Jorge V do Reino Unido
Embora as suas necessidades práticas imediatas tivessem sido satisfeitas, Xenia teve ainda de enfrentar uma série de golpes inesperados. Após a morte de Lenine em 1924, os bolcheviques começaram a vender bens confiscados. Tesouros que tinham pertencido à família imperial começaram a aparecer em Inglaterra. A certa altura, um conhecido de Xenia mostrou-lhe uma caixa jade com uma coroa imperial estampada. "Tenho curiosidade em saber de quem seriam estas iniciais", disse ele. Quando Xenia respondeu: "São minhas," o homem, um coleccionador, voltou a colocar a caixa na janela e não disse nem mais uma palavra.

Xenia com o marido Sandro
Noutra ocasião, a rainha Maria apareceu com uma caixa cor-de-rosa onix Fabergé que servia para guardar cartas. Perguntou a Xenia o que achava dela. Xenia reconheceu-a imediatamente e disse: "Isso costumava estar em cima da minha escrivaninha". A partir daí, a rainha Maria passou a guardar a caixa num armário. Apesar de tudo, a rainha Maria não se sentiu minimamente mal por saber que a caixa de cartas pertencia a outra pessoa. A sua paixão por adquirir bens de outras pessoas era tão bem conhecida que os seus tesouros eram cuidadosamente escondidos dos seus convidados.

A rainha Maria do Reino Unido (Maria de Teck)
Em 1928, a dor de Xenia ao perder a mãe seria posta em segundo plano devido ao surgimento de uma campanha que apoiava uma mulher que dizia ser a sua sobrinha, a filha mais nova do czar, Anastásia. O processo que se seguiu, que foi o golpe final às já de si precárias finanças de Xenia, arrastar-se-ia ao longo de cinquenta anos. O problema da herança não se poderia resolver enquanto não se provasse que o czar, a esposa e os cinco filhos estavam mortos. Na década de 1930, Xenia visitou uma prima sua, a princesa Xenia Leeds, que acreditava na pretendente. A princesa tinha recebido 'Anastásia' na sua propriedade de Long Island durante vários meses e dizia que a sua suposta prima tinha reconhecido a voz do príncipe Dmitri do outro lado do campo de ténis.

Xenia Leeds, filha do grão-duque Jorge Mikhailovich, uma das únicas  Romanov que deu crédito a Anna  Anderson
Nos anos que se seguiram, as tragédia foram-se misturando com pequenas preocupações à medida que Xenia lutava para conseguir pagar sanitas, utensílios de cozinha e um serviço de água quente do governo britânico. As contas seguiam primeiro para o tesouro do estado, de onde eram posteriormente enviadas para o palácio real. "Uma vez que a grã-duquesa é muito pobre," explicou o gerente da fortuna privada do rei de forma severa, "o rei tem vindo a adquirir o hábito de pagar-lhe alterações e melhoramentos."

Xenia com dois dos seus netos
O rei Jorge V tinha tentado conter os gastos de Xenia durante vários anos, mas, em 1934, um surto de febre escarlate em Frogmore fez com que o seu sucessor, Eduardo VIII, sugerisse que Xenia se mudasse para Wilderness House, em Hampton Court. Os médicos tinham ficado alarmados quando encontraram mais de vinte convidados em Frogmore.

Xenia com a mãe Maria e o filho Rostislav
Foi construída uma capela ortodoxa na sala-de-estar de Wilderness House e Xenia instalou-se de forma satisfatória, não partilhando nenhuma das opiniões de Capability Brown que achava que a casa tinha "quartos desconfortáveis, uma cozinha ofensiva e escritórios maus."

Em 1938, o ambiente russo da casa de Xenia foi apimentado com a chegada de uma mística russa chamada Mãe Marta. "É uma freira (...) o Bertie e a Elizabeth conhecem-na," escreveu Xenia, de forma breve, numa carta dirigida à rainha Maria. A Mãe Marta tornou-se uma "figura controversa na família", como disse mais tarde um dos netos de Xenia, Alexandre. As pequenas princesas inglesas, Isabel e Margarida, tinham ficado muito surpreendidas com a sua parente russa, cantando a música "Volga Boat Song" [A Canção do Barco do Volga], sempre que passavam pela casa de Xenia. Agora ficaram ainda mais surpreendidas com a Mãe Marta, reparando principalmente nos seus pés grandes. Ambas as irmãs achavam que ela era um homem.

Isabel II e a irmã Margarida
James Pope-Hennessey, que visitou Xenia em finais da década de 1950, confirmou a opinião das duas irmãs, dando uma descrição elaborada do aspecto da Mãe Marta. "Usava uma touca de linho desarranjado e até mesmo amassado, cor de chá, atado na nuca com duas fitas. Tem a cara de um velho poderoso". Depois de terem passado pouco mais de vinte minutos juntos, Pope-Hennessey e Xenia foram interrompidos pela Mãe Marta, que tentou acabar com o encontro. Pope-Hennessey comparou imediatamente a grã-duquesa a um "pássaro selvagem excessivamente nervoso... encurralado". O facto de Xenia sentir pena desta freira melancólica pode ter sido um sinal da sua generosidade  ou da sua ingenuidade, que, segundo a grã-duquesa, estava "reduzida a esta existência, a saúde arruinada, os nervos abalados e eu sento-me e olho para ela, com o coração partido e mais preocupada do que as palavras podem descrever, acabando também por me sentir mal".


Xenia com a filha Irina e alguns dos seus netos
Xenia morreu em Hampton Court a 20 de Abril de 1960, rodeada pelos seus adorados netos. Segundo uma biografia: "A Mãe Marta apareceu carregando uma caixa com uma etiqueta a dizer 'véus negros de luto' que tinha sempre preparada para qualquer eventualidade". Depois do funeral desapareceu.

Xenia deixou 117,272.16 libras em testamento. Foi enterrada em Roquebrune, perto de Nicem ao lado do seu marido Sandro. No fim, o seu desejo de ser enterrada em Ai-Tudor, mas, segundo o seu filho Dmitri, Roquebrune foi escolhida por ser tão parecida com a Crimeia. 

Xenia em Inglaterra


Texto retirado do livro "The Russian Court at Sea" de Frances Welch.

terça-feira, 27 de março de 2012

As Crianças Imperiais - Anna Vyrubova

Alexandra Feodorovna com os filhos em Czarskoe Selo

O ano de 1912, apesar de estar destinado a acabar com a doença quase fatal do czarevich, começou de forma feliz para a família imperial. O inverno e a primavera foram pacíficos, o imperador andava ocupado com os habituais assuntos do império, a imperatriz, até onde a saúde lhe permitia, supervisionava a educação dos filhos e todos eles andavam ocupados com os seus livros e tutores. Deve dizer-se que nada foi omitido da educação dos filhos de Nicolau II e da imperatriz Alexandra Feodorovna que não os tornasse russos verdadeiros e leais, e os métodos de ensino aplicados foram cosmopolitas. Tinham tutores franceses, suíços e ingleses, mas todos os seus estudos eram controlados por um russo, o culto senhor Petrov, enquanto que certas disciplinas como física e ciência natural lhes eram ensinadas em regime particular numa escola em Czarskoe Selo. A primeira professora das crianças, de quem elas receberam a sua educação básica, foi a senhora Schneider, que tinha a alcunha de “Trina”, uma nativa dos estados bálticos do império. A senhora Schneider começou a servir a família alguns anos antes do casamento do imperador e da imperatriz, tendo sido responsável por ensinar russo à grã-duquesa Isabel Feodorovna. Depois ensinou russo quando a imperatriz chegou ao país e acabou por ficar na corte como leitora da imperatriz. A “Trina” era uma pessoa bastante difícil em vários aspectos, aproveitando-se da sua posição, mas não havia dúvidas de que era importante e dedicava-se de alma e coração à família. Acompanhou-os para a Sibéria e desapareceu lá com eles.

Anastásia, Maria e Alexei com as primas Olga e Isabel da Grécia em 1912


Talvez o instrutor mais valorizado fosse o senhor Pierre Gilliard, cujo livro “Treze Anos na Corte Russa” foi publicado em várias línguas e foi muito bem recebido. O senhor Gilliard, um cavalheiro suíço de muitos talentos, chegou a Czarskoe Selo para se tornar primeiro professor de francês das pequenas grã-duquesas. Depois também se tornou tutor do czarevich. O senhor Gilliard vivia no palácio e tinha a total confiança e carinho de Suas Majestades. O senhor Gibbs, o professor de inglês, também era um dos seus amigos mais chegados. Ambos estes homens acompanharam a família no exílio e permaneceram fiéis e amigos dedicados até serem expulsos à força pelos bolcheviques.

Pierre Gilliard


No seu livro, o senhor Gilliard recordou que nunca conseguiu ensinar as grã-duquesas a falar francês fluentemente. Tal é verdade porque as línguas usadas pela família eram o inglês e o russo e as crianças nunca se interessaram por outras línguas. A “Trina” devia ter-lhes ensinado a falar alemão, mas teve ainda menos êxito nessa língua do que o senhor Gilliard com o francês. O imperador e a imperatriz falavam quase exclusivamente em inglês, assim como o irmão da imperatriz, o grão-duque de Hesse, e a sua família. Entre si, as crianças falavam russo. Apenas o czarevich, graças à companhia constante do senhor Gilliard, conseguiu dominar o francês.

Alexei com Pierra Gilliard e Mr. Gibbs


Cada pormenor da educação das crianças foi supervisionado pela imperatriz que muitas vezes se sentava com eles na sala-de-aula durante horas. Foi ela quem lhes ensinou a coser e a bordar e a sua melhor aluna era a Tatiana, que tinha um talento extraordinário para todo o tipo de trabalhos manuais. Não só fazia blusas e outras peças de roupa, bordados e croché, como também arranjava o longo cabelo da mãe muitas vezes e ajudava-a a vestir-se tão bem como uma criada profissional. Não que a imperatriz pedisse tantos pormenores na sua roupa como a típica mulher na sua posição. Possuía aquele tipo de modéstia vitoriana que proibia qualquer intromissão à privacidade do seu quarto-de-vestir. Tudo o que as criadas tinham permissão para fazer era arranjar-lhe o cabelo, apertar-lhe as botas, vestir-lhe o vestido e colocar-lhe as jóias. A imperatriz tinha muito gosto na forma como se vestia e escolhia sempre as suas jóias para complementar e não apenas como ornamento do seu vestido. “Só quero rubis hoje,” dizia ela, ou então “pérolas e safiras para este vestido.”

Alexandra


A imperatriz e os seus filhos foram representados como se estivessem sempre rodeados de criados alemães, mas essa acusação é absolutamente falsa. A responsável pelo governo da casa era a senhora Gheringer, uma senhora russa que vinha todos os dias ao palácio, encomendava vestidos, fazia todas as compras necessárias, pagava as contas e executava todos os serviços pedidos pela imperatriz. A criada principal da imperatriz era Madeleine Zanotti, de origem inglesa e italiana que tinha vivido em Inglaterra a vida inteira antes de se mudar para Czarskoe Selo. Era uma mulher de meia-idade, muito inteligente e, como era costume das pessoas na sua posição, tinha tendência a ser tirânica. Madeleine era encarregada de todos os vestidos e jóias da imperatriz e, como já disse anteriormente, criticava muitas vezes os hábitos indolentes da imperatriz em relação, por exemplo, a troca de correspondência entre outras coisas. Uma segunda criada era Tutelberg, ou “Toodles”, uma menina bastante lenta e calada do Báltico. Ela e Madeleine eram grandes inimigas, mas concordavam numa coisa: nenhuma das duas aceitava usar barretes e aventais. A imperatriz aceitou esta exigência de boa vontade e permitiu que as criadas usassem apenas vestidos negros com fitas na cabeça. Havia criadas menos importantes, todas elas russas, e completamente dedicadas à família imperial. Estas raparigas, que usavam os barretes e aventais brancos protocolados, cuidavam dos quartos da imperatriz e das crianças. Quando a revolução rebentou, todas as criadas permaneceram fiéis à família e, uma delas, como irei contar depois, levou a cabo um serviço muito perigoso quando levou cartas escondidas à família na Sibéria. Uma das raparigas, Anna Demidova, foi morta com a família em 1918.

Anna Demidovna


O imperador tinha três criados, um dos quais, Shalferov, que tinha servido o czar Alexandre III, se tornou espião durante a Revolução. Outro, o velho Raziesh, que também tinha sido criado de Alexandre III, morreu ao serviço de Nicolau II, e foi substituído por Chemodurov, um homem honesto e muito leal. O terceiro criado chamava-se Katov. Tal como o nome comprova, todos eles eram russos, assim como os três homens que serviam a imperatriz, Leo e Kondratiev, ambos mortos durante os primeiros dias da Revolução, e Volkov, que acompanhou a família até à Sibéria com a permissão do Governo Provisório.

Nicolau II


As amas das crianças eram russas e a principal chamava-se Marie Vechniakova. Outras de quem me lembro bem eram a Alexandra, a quem chamavam “Shoura” e era uma das favoritas das meninas, Anna e Lisa, raparigas gentis e fiéis que não falavam mais nada além de russo. Havia, claro, centenas de criados e, que eu saiba, a maioria, senão todos, eram russos. O cozinheiro, Cubat, era francês e muito bom naquilo que fazia. Às vezes, quando um prato mais elaborado era preparado, Cubat estava acostumado a apresenta-lo, deixando-se ficar muito hirto na entrada, vestido em linho imaculadamente branco, até que o prato fosse servido. Cubat ficou muito rico ao serviço do czar e actualmente vive uma vida feliz e abastada na sua adorada França. Creio que foi muito leal até ao fim, algo que é mais do que se pode dizer da maioria dos criados. Os filhos deles foram educados às custas do imperador e a maioria, em vez de escolher profissões uteis, preferiu ir para a universidade, onde quase se tornaram revolucionários. Na opinião do meu pai, isto aconteceu devido ao facto de as universidades e liceus russos oferecerem pouco treino prático. Quando se apercebeu disto, a imperatriz abriu uma escola técnica em São Petersburgo para ambos os sexos que recebia estudantes de todo o Império. Nesta escola, os estudantes eram treinados para ensinar vários ofícios e, além desta academia normal, a imperatriz também abriu muitas escolas públicas onde rapazes e raparigas aprendiam as belas artes camponesas de bordar, tinturaria, entalhe e pintura. Estou a dar estes pormenores porque acho que são importantes para desmentir os rumores criados por escritores sensacionalistas que nunca poderiam ter sabido nada da vida privada da família imperial russa, mas que mesmo assim prejudicaram a campanha pela verdade.

Olga e Tatiana


Nenhum destes escritores sensacionalistas sabia ou tentou descobrir como o regime seguido pelas crianças era simples, para não dizer rigoroso. Todas elas, até o delicado czarevich, dormiam em camas-de-campanha armadas sem almofadas e com o menor número possível de cobertores. Tomavam um banho de água fria todas as manhãs e apenas tinham direito a água quente à noite. Devido a esta vida simples, a personalidade das crianças era modesta e natural sem um único vestígio de grandiosidade. Apesar de em 1912 as quatro meninas já estarem quase a chegar à idade adulta (a Olga já tinha dezoito anos e a Tatiana quase dezasseis), os seus pais continuavam a vê-las como crianças. As duas meninas mais velhas eram chamadas “as grandes” e recebiam muitos privilégios de adultos como, por exemplo, a possibilidade de ir a concertos e ao teatro com o imperador. As suas grã-duquesas mais novas e o czarevich eram “os pequeninos” e ainda não tinham saído do quarto-das-crianças.

Maria, Tariana, Olga e Anastásia


Nas sombras do mistério que assombra o destino destas crianças inocentes, é com grande emoção que as recordo, tal como elas pareciam: cheias de vida e de alegria, naqueles dias distantes, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente próximos, antes da Grande Guerra e da queda da Rússia imperial. Das quatro meninas, a Olga e a Maria tinham o aspecto mais russo, mostrando bem as suas origens Romanov. A Olga era, talvez, a mais inteligente de todas, tinha uma mente que compreendia tudo muito depressa e absorvia muito bem tudo o que aprendia quase sem se esforçar ou estudar. As suas características principais, devo dizer, eram uma grande força de vontade e um hábito muito directo de pensamento e acção. Embora estas qualidades sejam admiráveis numa mulher, numa criança podem ser difíceis e a Olga, quando era mais pequena, mostrou-se sempre muito teimosa e até desobediente. Tinham um temperamento quente que aprendeu a controlar cedo e, caso tivesse tido a oportunidade de viver uma vida normal, creio que se teria tornado uma mulher influente e distinta. Era muito bonita, com olhos azuis brilhantes e um rosto encantador que se parecia muito com o pai na delicadeza dos traços, principalmente o seu nariz delicado e ligeiramente pontiagudo.



Olga Nikolaevna


A Maria e a Anastásia também tinham cabelo loiro e eram meninas muito atraentes. A Maria tinha uns olhos esplendidos e umas bochechas rosadas. Tinha tendência a engordar e tinha uns lábios bastante grossos que prejudicavam um pouco a sua beleza. A Maria tinha uma personalidade naturalmente doce e muito gentil. As três tinham um pouco de maria-rapaz. Tinham herdado alguma da brusquidão dos seus antepassados Romanov que se revelava principalmente na sua inclinação para fazerem asneiras. A Anastásia, que era uma criança perspicaz e esperta, era muito dada a brincadeiras, algumas delas demasiado práticas para divertirem outras pessoas. Lembro-me de uma vez que a família estava na sua casa na Polónia durante o inverno e as crianças estavam a divertir-se com uma luta de bolas de neve. O diabrete que às vezes parecia possuir a Anastásia, levou-a a esconder uma pedra dentro de uma bola de neve que atirou directamente contra a cabeça da sua adorada irmã Tatiana. O míssil atingiu a pobre rapariga em cheio na cara com tal força que ela caiu ao chão e perdeu os sentidos. A Anastásia arrependeu-se e ficou triste durante vários dias e este incidente curou-a para sempre de voltar a repetir este tipo de brincadeiras.

Maria e Anastásia


A Tatiana era uma reencarnação quase perfeita da mãe. Mais alta e magra do que as irmãs, tinha traços suaves e refinados e os modos gentis e refinados dos seus antepassados ingleses. Com uma disposição amável e complacente, mostrava tal protecção em relação às irmãs e ao irmão que eles, por brincadeira, a chamavam “a governanta”. De todas, a grã-duquesa Tatiana era a mais popular com as pessoas e suspeito que era a preferida dos pais. Era completamente diferente dos outros, até no aspecto físico, tendo cabelo castanho e olhos cinzento-escuro que, à noite, pareciam negros. De todas as raparigas, a Tatiana era a mais sociável. Gostava da sociedade e desesperava quase pateticamente à procura de amigos. Mas na posição em que estas meninas se encontravam, era difícil encontrar amigos. A imperatriz temia ver as suas filhas na companhia das jovens demasiado sofisticadas da alta sociedade cujas mentes até na sala de aula eram alimentadas pelos rumores maliciosos de uma sociedade decadente. A imperatriz até desencorajava a relação das filhas com os primos e parentes chegados, muitos dos quais tinham começado uma vida depravada muito cedo.

Tatiana com o pai


Não daria a impressão de que estas jovens filhas do imperador e da imperatriz eram forçadas a viver vidas enfadonhas e paradas. Tinham permissão para terem um ou outro oficial preferido com quem podiam dançar, jogar ténis, passear ou andar a cavalo. Estes romances inocentes eram na realidade muito divertidos aos olhos de Suas Majestades que gostavam de gracejar com as filhas sobre qualquer belo oficial que parecia agradar-lhes. A grã-duquesa Olga Alexandrovna, irmã do imperador, simpatizava com o gosto pelo divertimento das sobrinhas e organizava festas e jogos de ténis para as grã-duquesas com frequência sendo os convidados, claro, escolhidos por ela. Tivemos algumas festas deste género em minha casa. Quanto à forma de vestir, um assunto tão importante para as jovens bonitas, as grã-duquesas podiam escolher o que quisessem. A senhora Brisac, uma costureira francesa de renome, fazia os vestidos para a família imperial e, através dela, chegavam ao palácio as últimas modas de Paris. Contudo, as meninas costumavam inclinar-se mais para o estilo simples inglês, principalmente quando tinham eventos públicos. No verão os vestidos eram quase todos brancos. Eram demasiado jovens para usarem jóias, excepto em grandes ocasiões. Cada uma delas recebeu uma pulseira de ouro no seu décimo-segundo aniversário que usavam sempre “para dar sorte”. Já tinha falado anteriormente do costume de oferecer a cada grã-duquesa um colar de pérolas e diamantes quando elas atingiam a maioridade, mas elas apenas o usavam em bailes muito formais.

Maria, Tatiana, Alexei, Anastásia e Olga com oficiais