Java

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Xenia Alexandrovna no Exílio


Ao longo de toda a sua vida no exílio, a grã-duquesa Xenia fez os possíveis para manter certos aspectos da sua vida anterior. Começou a pintar novamente, vendendo alguns dos seus trabalhos a instituições de caridade. Agarrou-se aos seus criados russos, principalmente à lavadeira Anna Belousoff. A optimista Belousoff, que chegou a ter dez serventes e um cozinheiro, tinha sempre uma mala feita, pronta para um regresso iminente à Rússia. Tal como o príncipe Dmitri [filho de Xenia] recordou: "Ela costumava dizer: 'vamos regressar', e continuou a fazê-lo sempre até morrer com mais de noventa anos."

Xenia com a filha Irina
Mas a nostalgia que Xenia sentia pelo passado teve de se adaptar a assuntos mais urgentes, principalmente às suas finanças. Em 1921, o tutor dos seus filhos, Mr. Stewart, ajudou-a a abrir uma conta no banco Coutts, mas esta experiência começou mal: com mil libras de crédtico, Xenia gastou imediatamente noventa e oito no Harrods, uma soma equivalente a duas mil libras nos dias de hoje. Nesse mesmo ano, um encontro infeliz com um burlão americano custou-lhe dez mil libras. O homem tinha-lhe prometido milhões se ela investisse num inovador processo de impressão de fotografias. Foi preso depois de ter defraudado uma mulher e lhe ter ficado com o relógio, foi preso durante três meses e deportado para os Estados Unidos.

Xenia com a mãe Maria, a filha Irina e a neta Irina.
Nesta altura, o rei Jorge V decidiu intervir, tendo chegado a acordo para pagar duas mil e quatrocentas libras por ano à prima. Em 1925, decidiu também instala-la em Frogmore. A carta de agradecimento de Xenia é efusiva ao ponto de se tornar namorisqueira: "A sério Georgie, é muito bom e gentil da tua parte. Tive de te escrever imediatamente, mas estraguei muitas folhas de papel porque me sentia tímida! E não sabia bem o que estava a acontecer." Se soubesse que Jorge não tinha tentado salvar o czar, talvez Xenia não se sentisse tão agradecida.

O rei Jorge V do Reino Unido
Embora as suas necessidades práticas imediatas tivessem sido satisfeitas, Xenia teve ainda de enfrentar uma série de golpes inesperados. Após a morte de Lenine em 1924, os bolcheviques começaram a vender bens confiscados. Tesouros que tinham pertencido à família imperial começaram a aparecer em Inglaterra. A certa altura, um conhecido de Xenia mostrou-lhe uma caixa jade com uma coroa imperial estampada. "Tenho curiosidade em saber de quem seriam estas iniciais", disse ele. Quando Xenia respondeu: "São minhas," o homem, um coleccionador, voltou a colocar a caixa na janela e não disse nem mais uma palavra.

Xenia com o marido Sandro
Noutra ocasião, a rainha Maria apareceu com uma caixa cor-de-rosa onix Fabergé que servia para guardar cartas. Perguntou a Xenia o que achava dela. Xenia reconheceu-a imediatamente e disse: "Isso costumava estar em cima da minha escrivaninha". A partir daí, a rainha Maria passou a guardar a caixa num armário. Apesar de tudo, a rainha Maria não se sentiu minimamente mal por saber que a caixa de cartas pertencia a outra pessoa. A sua paixão por adquirir bens de outras pessoas era tão bem conhecida que os seus tesouros eram cuidadosamente escondidos dos seus convidados.

A rainha Maria do Reino Unido (Maria de Teck)
Em 1928, a dor de Xenia ao perder a mãe seria posta em segundo plano devido ao surgimento de uma campanha que apoiava uma mulher que dizia ser a sua sobrinha, a filha mais nova do czar, Anastásia. O processo que se seguiu, que foi o golpe final às já de si precárias finanças de Xenia, arrastar-se-ia ao longo de cinquenta anos. O problema da herança não se poderia resolver enquanto não se provasse que o czar, a esposa e os cinco filhos estavam mortos. Na década de 1930, Xenia visitou uma prima sua, a princesa Xenia Leeds, que acreditava na pretendente. A princesa tinha recebido 'Anastásia' na sua propriedade de Long Island durante vários meses e dizia que a sua suposta prima tinha reconhecido a voz do príncipe Dmitri do outro lado do campo de ténis.

Xenia Leeds, filha do grão-duque Jorge Mikhailovich, uma das únicas  Romanov que deu crédito a Anna  Anderson
Nos anos que se seguiram, as tragédia foram-se misturando com pequenas preocupações à medida que Xenia lutava para conseguir pagar sanitas, utensílios de cozinha e um serviço de água quente do governo britânico. As contas seguiam primeiro para o tesouro do estado, de onde eram posteriormente enviadas para o palácio real. "Uma vez que a grã-duquesa é muito pobre," explicou o gerente da fortuna privada do rei de forma severa, "o rei tem vindo a adquirir o hábito de pagar-lhe alterações e melhoramentos."

Xenia com dois dos seus netos
O rei Jorge V tinha tentado conter os gastos de Xenia durante vários anos, mas, em 1934, um surto de febre escarlate em Frogmore fez com que o seu sucessor, Eduardo VIII, sugerisse que Xenia se mudasse para Wilderness House, em Hampton Court. Os médicos tinham ficado alarmados quando encontraram mais de vinte convidados em Frogmore.

Xenia com a mãe Maria e o filho Rostislav
Foi construída uma capela ortodoxa na sala-de-estar de Wilderness House e Xenia instalou-se de forma satisfatória, não partilhando nenhuma das opiniões de Capability Brown que achava que a casa tinha "quartos desconfortáveis, uma cozinha ofensiva e escritórios maus."

Em 1938, o ambiente russo da casa de Xenia foi apimentado com a chegada de uma mística russa chamada Mãe Marta. "É uma freira (...) o Bertie e a Elizabeth conhecem-na," escreveu Xenia, de forma breve, numa carta dirigida à rainha Maria. A Mãe Marta tornou-se uma "figura controversa na família", como disse mais tarde um dos netos de Xenia, Alexandre. As pequenas princesas inglesas, Isabel e Margarida, tinham ficado muito surpreendidas com a sua parente russa, cantando a música "Volga Boat Song" [A Canção do Barco do Volga], sempre que passavam pela casa de Xenia. Agora ficaram ainda mais surpreendidas com a Mãe Marta, reparando principalmente nos seus pés grandes. Ambas as irmãs achavam que ela era um homem.

Isabel II e a irmã Margarida
James Pope-Hennessey, que visitou Xenia em finais da década de 1950, confirmou a opinião das duas irmãs, dando uma descrição elaborada do aspecto da Mãe Marta. "Usava uma touca de linho desarranjado e até mesmo amassado, cor de chá, atado na nuca com duas fitas. Tem a cara de um velho poderoso". Depois de terem passado pouco mais de vinte minutos juntos, Pope-Hennessey e Xenia foram interrompidos pela Mãe Marta, que tentou acabar com o encontro. Pope-Hennessey comparou imediatamente a grã-duquesa a um "pássaro selvagem excessivamente nervoso... encurralado". O facto de Xenia sentir pena desta freira melancólica pode ter sido um sinal da sua generosidade  ou da sua ingenuidade, que, segundo a grã-duquesa, estava "reduzida a esta existência, a saúde arruinada, os nervos abalados e eu sento-me e olho para ela, com o coração partido e mais preocupada do que as palavras podem descrever, acabando também por me sentir mal".


Xenia com a filha Irina e alguns dos seus netos
Xenia morreu em Hampton Court a 20 de Abril de 1960, rodeada pelos seus adorados netos. Segundo uma biografia: "A Mãe Marta apareceu carregando uma caixa com uma etiqueta a dizer 'véus negros de luto' que tinha sempre preparada para qualquer eventualidade". Depois do funeral desapareceu.

Xenia deixou 117,272.16 libras em testamento. Foi enterrada em Roquebrune, perto de Nicem ao lado do seu marido Sandro. No fim, o seu desejo de ser enterrada em Ai-Tudor, mas, segundo o seu filho Dmitri, Roquebrune foi escolhida por ser tão parecida com a Crimeia. 

Xenia em Inglaterra


Texto retirado do livro "The Russian Court at Sea" de Frances Welch.

terça-feira, 27 de março de 2012

As Crianças Imperiais - Anna Vyrubova

Alexandra Feodorovna com os filhos em Czarskoe Selo

O ano de 1912, apesar de estar destinado a acabar com a doença quase fatal do czarevich, começou de forma feliz para a família imperial. O inverno e a primavera foram pacíficos, o imperador andava ocupado com os habituais assuntos do império, a imperatriz, até onde a saúde lhe permitia, supervisionava a educação dos filhos e todos eles andavam ocupados com os seus livros e tutores. Deve dizer-se que nada foi omitido da educação dos filhos de Nicolau II e da imperatriz Alexandra Feodorovna que não os tornasse russos verdadeiros e leais, e os métodos de ensino aplicados foram cosmopolitas. Tinham tutores franceses, suíços e ingleses, mas todos os seus estudos eram controlados por um russo, o culto senhor Petrov, enquanto que certas disciplinas como física e ciência natural lhes eram ensinadas em regime particular numa escola em Czarskoe Selo. A primeira professora das crianças, de quem elas receberam a sua educação básica, foi a senhora Schneider, que tinha a alcunha de “Trina”, uma nativa dos estados bálticos do império. A senhora Schneider começou a servir a família alguns anos antes do casamento do imperador e da imperatriz, tendo sido responsável por ensinar russo à grã-duquesa Isabel Feodorovna. Depois ensinou russo quando a imperatriz chegou ao país e acabou por ficar na corte como leitora da imperatriz. A “Trina” era uma pessoa bastante difícil em vários aspectos, aproveitando-se da sua posição, mas não havia dúvidas de que era importante e dedicava-se de alma e coração à família. Acompanhou-os para a Sibéria e desapareceu lá com eles.

Anastásia, Maria e Alexei com as primas Olga e Isabel da Grécia em 1912


Talvez o instrutor mais valorizado fosse o senhor Pierre Gilliard, cujo livro “Treze Anos na Corte Russa” foi publicado em várias línguas e foi muito bem recebido. O senhor Gilliard, um cavalheiro suíço de muitos talentos, chegou a Czarskoe Selo para se tornar primeiro professor de francês das pequenas grã-duquesas. Depois também se tornou tutor do czarevich. O senhor Gilliard vivia no palácio e tinha a total confiança e carinho de Suas Majestades. O senhor Gibbs, o professor de inglês, também era um dos seus amigos mais chegados. Ambos estes homens acompanharam a família no exílio e permaneceram fiéis e amigos dedicados até serem expulsos à força pelos bolcheviques.

Pierre Gilliard


No seu livro, o senhor Gilliard recordou que nunca conseguiu ensinar as grã-duquesas a falar francês fluentemente. Tal é verdade porque as línguas usadas pela família eram o inglês e o russo e as crianças nunca se interessaram por outras línguas. A “Trina” devia ter-lhes ensinado a falar alemão, mas teve ainda menos êxito nessa língua do que o senhor Gilliard com o francês. O imperador e a imperatriz falavam quase exclusivamente em inglês, assim como o irmão da imperatriz, o grão-duque de Hesse, e a sua família. Entre si, as crianças falavam russo. Apenas o czarevich, graças à companhia constante do senhor Gilliard, conseguiu dominar o francês.

Alexei com Pierra Gilliard e Mr. Gibbs


Cada pormenor da educação das crianças foi supervisionado pela imperatriz que muitas vezes se sentava com eles na sala-de-aula durante horas. Foi ela quem lhes ensinou a coser e a bordar e a sua melhor aluna era a Tatiana, que tinha um talento extraordinário para todo o tipo de trabalhos manuais. Não só fazia blusas e outras peças de roupa, bordados e croché, como também arranjava o longo cabelo da mãe muitas vezes e ajudava-a a vestir-se tão bem como uma criada profissional. Não que a imperatriz pedisse tantos pormenores na sua roupa como a típica mulher na sua posição. Possuía aquele tipo de modéstia vitoriana que proibia qualquer intromissão à privacidade do seu quarto-de-vestir. Tudo o que as criadas tinham permissão para fazer era arranjar-lhe o cabelo, apertar-lhe as botas, vestir-lhe o vestido e colocar-lhe as jóias. A imperatriz tinha muito gosto na forma como se vestia e escolhia sempre as suas jóias para complementar e não apenas como ornamento do seu vestido. “Só quero rubis hoje,” dizia ela, ou então “pérolas e safiras para este vestido.”

Alexandra


A imperatriz e os seus filhos foram representados como se estivessem sempre rodeados de criados alemães, mas essa acusação é absolutamente falsa. A responsável pelo governo da casa era a senhora Gheringer, uma senhora russa que vinha todos os dias ao palácio, encomendava vestidos, fazia todas as compras necessárias, pagava as contas e executava todos os serviços pedidos pela imperatriz. A criada principal da imperatriz era Madeleine Zanotti, de origem inglesa e italiana que tinha vivido em Inglaterra a vida inteira antes de se mudar para Czarskoe Selo. Era uma mulher de meia-idade, muito inteligente e, como era costume das pessoas na sua posição, tinha tendência a ser tirânica. Madeleine era encarregada de todos os vestidos e jóias da imperatriz e, como já disse anteriormente, criticava muitas vezes os hábitos indolentes da imperatriz em relação, por exemplo, a troca de correspondência entre outras coisas. Uma segunda criada era Tutelberg, ou “Toodles”, uma menina bastante lenta e calada do Báltico. Ela e Madeleine eram grandes inimigas, mas concordavam numa coisa: nenhuma das duas aceitava usar barretes e aventais. A imperatriz aceitou esta exigência de boa vontade e permitiu que as criadas usassem apenas vestidos negros com fitas na cabeça. Havia criadas menos importantes, todas elas russas, e completamente dedicadas à família imperial. Estas raparigas, que usavam os barretes e aventais brancos protocolados, cuidavam dos quartos da imperatriz e das crianças. Quando a revolução rebentou, todas as criadas permaneceram fiéis à família e, uma delas, como irei contar depois, levou a cabo um serviço muito perigoso quando levou cartas escondidas à família na Sibéria. Uma das raparigas, Anna Demidova, foi morta com a família em 1918.

Anna Demidovna


O imperador tinha três criados, um dos quais, Shalferov, que tinha servido o czar Alexandre III, se tornou espião durante a Revolução. Outro, o velho Raziesh, que também tinha sido criado de Alexandre III, morreu ao serviço de Nicolau II, e foi substituído por Chemodurov, um homem honesto e muito leal. O terceiro criado chamava-se Katov. Tal como o nome comprova, todos eles eram russos, assim como os três homens que serviam a imperatriz, Leo e Kondratiev, ambos mortos durante os primeiros dias da Revolução, e Volkov, que acompanhou a família até à Sibéria com a permissão do Governo Provisório.

Nicolau II


As amas das crianças eram russas e a principal chamava-se Marie Vechniakova. Outras de quem me lembro bem eram a Alexandra, a quem chamavam “Shoura” e era uma das favoritas das meninas, Anna e Lisa, raparigas gentis e fiéis que não falavam mais nada além de russo. Havia, claro, centenas de criados e, que eu saiba, a maioria, senão todos, eram russos. O cozinheiro, Cubat, era francês e muito bom naquilo que fazia. Às vezes, quando um prato mais elaborado era preparado, Cubat estava acostumado a apresenta-lo, deixando-se ficar muito hirto na entrada, vestido em linho imaculadamente branco, até que o prato fosse servido. Cubat ficou muito rico ao serviço do czar e actualmente vive uma vida feliz e abastada na sua adorada França. Creio que foi muito leal até ao fim, algo que é mais do que se pode dizer da maioria dos criados. Os filhos deles foram educados às custas do imperador e a maioria, em vez de escolher profissões uteis, preferiu ir para a universidade, onde quase se tornaram revolucionários. Na opinião do meu pai, isto aconteceu devido ao facto de as universidades e liceus russos oferecerem pouco treino prático. Quando se apercebeu disto, a imperatriz abriu uma escola técnica em São Petersburgo para ambos os sexos que recebia estudantes de todo o Império. Nesta escola, os estudantes eram treinados para ensinar vários ofícios e, além desta academia normal, a imperatriz também abriu muitas escolas públicas onde rapazes e raparigas aprendiam as belas artes camponesas de bordar, tinturaria, entalhe e pintura. Estou a dar estes pormenores porque acho que são importantes para desmentir os rumores criados por escritores sensacionalistas que nunca poderiam ter sabido nada da vida privada da família imperial russa, mas que mesmo assim prejudicaram a campanha pela verdade.

Olga e Tatiana


Nenhum destes escritores sensacionalistas sabia ou tentou descobrir como o regime seguido pelas crianças era simples, para não dizer rigoroso. Todas elas, até o delicado czarevich, dormiam em camas-de-campanha armadas sem almofadas e com o menor número possível de cobertores. Tomavam um banho de água fria todas as manhãs e apenas tinham direito a água quente à noite. Devido a esta vida simples, a personalidade das crianças era modesta e natural sem um único vestígio de grandiosidade. Apesar de em 1912 as quatro meninas já estarem quase a chegar à idade adulta (a Olga já tinha dezoito anos e a Tatiana quase dezasseis), os seus pais continuavam a vê-las como crianças. As duas meninas mais velhas eram chamadas “as grandes” e recebiam muitos privilégios de adultos como, por exemplo, a possibilidade de ir a concertos e ao teatro com o imperador. As suas grã-duquesas mais novas e o czarevich eram “os pequeninos” e ainda não tinham saído do quarto-das-crianças.

Maria, Tariana, Olga e Anastásia


Nas sombras do mistério que assombra o destino destas crianças inocentes, é com grande emoção que as recordo, tal como elas pareciam: cheias de vida e de alegria, naqueles dias distantes, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente próximos, antes da Grande Guerra e da queda da Rússia imperial. Das quatro meninas, a Olga e a Maria tinham o aspecto mais russo, mostrando bem as suas origens Romanov. A Olga era, talvez, a mais inteligente de todas, tinha uma mente que compreendia tudo muito depressa e absorvia muito bem tudo o que aprendia quase sem se esforçar ou estudar. As suas características principais, devo dizer, eram uma grande força de vontade e um hábito muito directo de pensamento e acção. Embora estas qualidades sejam admiráveis numa mulher, numa criança podem ser difíceis e a Olga, quando era mais pequena, mostrou-se sempre muito teimosa e até desobediente. Tinham um temperamento quente que aprendeu a controlar cedo e, caso tivesse tido a oportunidade de viver uma vida normal, creio que se teria tornado uma mulher influente e distinta. Era muito bonita, com olhos azuis brilhantes e um rosto encantador que se parecia muito com o pai na delicadeza dos traços, principalmente o seu nariz delicado e ligeiramente pontiagudo.



Olga Nikolaevna


A Maria e a Anastásia também tinham cabelo loiro e eram meninas muito atraentes. A Maria tinha uns olhos esplendidos e umas bochechas rosadas. Tinha tendência a engordar e tinha uns lábios bastante grossos que prejudicavam um pouco a sua beleza. A Maria tinha uma personalidade naturalmente doce e muito gentil. As três tinham um pouco de maria-rapaz. Tinham herdado alguma da brusquidão dos seus antepassados Romanov que se revelava principalmente na sua inclinação para fazerem asneiras. A Anastásia, que era uma criança perspicaz e esperta, era muito dada a brincadeiras, algumas delas demasiado práticas para divertirem outras pessoas. Lembro-me de uma vez que a família estava na sua casa na Polónia durante o inverno e as crianças estavam a divertir-se com uma luta de bolas de neve. O diabrete que às vezes parecia possuir a Anastásia, levou-a a esconder uma pedra dentro de uma bola de neve que atirou directamente contra a cabeça da sua adorada irmã Tatiana. O míssil atingiu a pobre rapariga em cheio na cara com tal força que ela caiu ao chão e perdeu os sentidos. A Anastásia arrependeu-se e ficou triste durante vários dias e este incidente curou-a para sempre de voltar a repetir este tipo de brincadeiras.

Maria e Anastásia


A Tatiana era uma reencarnação quase perfeita da mãe. Mais alta e magra do que as irmãs, tinha traços suaves e refinados e os modos gentis e refinados dos seus antepassados ingleses. Com uma disposição amável e complacente, mostrava tal protecção em relação às irmãs e ao irmão que eles, por brincadeira, a chamavam “a governanta”. De todas, a grã-duquesa Tatiana era a mais popular com as pessoas e suspeito que era a preferida dos pais. Era completamente diferente dos outros, até no aspecto físico, tendo cabelo castanho e olhos cinzento-escuro que, à noite, pareciam negros. De todas as raparigas, a Tatiana era a mais sociável. Gostava da sociedade e desesperava quase pateticamente à procura de amigos. Mas na posição em que estas meninas se encontravam, era difícil encontrar amigos. A imperatriz temia ver as suas filhas na companhia das jovens demasiado sofisticadas da alta sociedade cujas mentes até na sala de aula eram alimentadas pelos rumores maliciosos de uma sociedade decadente. A imperatriz até desencorajava a relação das filhas com os primos e parentes chegados, muitos dos quais tinham começado uma vida depravada muito cedo.

Tatiana com o pai


Não daria a impressão de que estas jovens filhas do imperador e da imperatriz eram forçadas a viver vidas enfadonhas e paradas. Tinham permissão para terem um ou outro oficial preferido com quem podiam dançar, jogar ténis, passear ou andar a cavalo. Estes romances inocentes eram na realidade muito divertidos aos olhos de Suas Majestades que gostavam de gracejar com as filhas sobre qualquer belo oficial que parecia agradar-lhes. A grã-duquesa Olga Alexandrovna, irmã do imperador, simpatizava com o gosto pelo divertimento das sobrinhas e organizava festas e jogos de ténis para as grã-duquesas com frequência sendo os convidados, claro, escolhidos por ela. Tivemos algumas festas deste género em minha casa. Quanto à forma de vestir, um assunto tão importante para as jovens bonitas, as grã-duquesas podiam escolher o que quisessem. A senhora Brisac, uma costureira francesa de renome, fazia os vestidos para a família imperial e, através dela, chegavam ao palácio as últimas modas de Paris. Contudo, as meninas costumavam inclinar-se mais para o estilo simples inglês, principalmente quando tinham eventos públicos. No verão os vestidos eram quase todos brancos. Eram demasiado jovens para usarem jóias, excepto em grandes ocasiões. Cada uma delas recebeu uma pulseira de ouro no seu décimo-segundo aniversário que usavam sempre “para dar sorte”. Já tinha falado anteriormente do costume de oferecer a cada grã-duquesa um colar de pérolas e diamantes quando elas atingiam a maioridade, mas elas apenas o usavam em bailes muito formais.

Maria, Tatiana, Alexei, Anastásia e Olga com oficiais

quinta-feira, 22 de março de 2012

The Romanov Channel, na MEO


Se possui o serviço MEO e gosta dos Romanov, recomendamos que visite o nosso recém-criado canal, o "The Romanov Channel", disponível no MEO Kanal, com o número 105118. De momento os conteúdos ainda são poucos, mas estamos a planear alargar a diversidade do canal com documentários e filmes. Estamos também abertos a sugestões de vídeos, fotografias ou qualquer conteúdo relacionado com os Romanov que gostassem de ver exibido.


Para mais informações:

Canal nº 105118 – The Romanov Channel no MEO Kanall

Casar na Família (Parte 3)


No verão de 1889, celebraram-se mais dois casamentos: o grão-duque Pedro Nikolaevich casou-se com a princesa Militsa de Montenegro em Peterhof e, três semanas depois, a sua irmã mais nova, Stana, uniu-se ao seu primo Jorge, duque de Leuchtenberg, tornando-se à maneira russa, Anastásia Nikolaevna. Filhas do príncipe Nicolau de Montenegro, Militsa, Stana e as suas irmãs foram colocadas sob protecção imperial por razões políticas durante o reinado de Alexandre II e foram educadas em São Petersburgo, no Instituto Smolny. A família imperial recebeu-as bem, pelo menos aparentemente, e as irmãs eram convidadas a participar nas reuniões de família, mas os membros da sociedade elegante de São Petersburgo  mostrava escárnio nas suas costas e considerava-as parentes muito fracas. As irmãs continuam a ser retratadas com um certo pretensionismo, algo injusto, já que as irmãs foram educadas para terem as suas próprias opiniões e tinham todas as capacidades para cumprir o que era esperado delas.


O casamento de Anastásia desfez-se alguns anos depois e, no outono de 1906, a sociedade ficou radiante com o rumor de um caso amoroso entre ela e o grão-duque Nicolau Nikolaevich Júnior, irmão de Pedro. Nicolau era um homem solitário que estava sempre atento às suas emoções. Poucos membros da família sabiam o que ele fazia, mas o grão-duque tinha mantido uma longa relação com a filha de um oficial da cidade, Sophie Burenina. Em 1892, Alexandre III deu-lhe permissão para se casar com ela legalmente, mas teria de abdicar dos seus direitos e títulos. Depois, pressionado por um grupo da família liderado pelo grão-duque Vladimir, o czar mudou de ideias. Nicolau aceitou a decisão e seguiu com a sua vida normalmente, mantendo apenas o seu irmão Pedro e a família dele por perto. O casamento de Anastásia acabou em divórcio em Novembro de 1906 e os rumores já a viam praticamente casada com Nicolau. De facto, Nicolau II não queria dar o seu consentimento e apenas aceitou o casamento porque o Santo Sidónio assim o aconselhou. O casal casou-se na Criméia na primavera de 1907, algo que enfureceu o resto da família que achava que o czar estava a mostrar favoritismo pelos Nickolaevich.


A grã-duquesa Maria Georgievna, que se casou com o grão-duque Jorge Mikhailovich, em Corfu, no dia 12 de Maio de 1900, era a irmã mais nova da grã-duquesa Alexandra Georgievna, a falecida esposa do grão-duque Paulo Alexandrovich, por isso os seus laços com a família imperial sempre foram fortes. Mas ela sentia dúvidas em relação ao seu casamento com Jorge Mikhailovich e recusou o seu pedido várias vezes. O grão-duque cortejou-a durante muitos anos. Quando Maria aceitou finalmente o pedido, deixou bem claro que não estava apaixonada por ele, uma situação que Jorge estava preparado para aceitar, na esperança de que a sua noiva fosse mudar. Como se previa, o casamento não foi um sucesso. "Ela parecia comovida com a dedicação dele", escreveu uma amiga, "e a fortuna que ele lhe entregou deslumbrou-a, mas nunca lhe estragou a natureza." Depois nasceram duas filhas, mas "por trás desta bênção aparente, o grão-duque nunca foi feliz. Sentia que havia algo de errado e esperou sempre que o tempo melhorasse as coisas. Por seu lado, a grã-duquesa parecia sentir cada vez mais que nada poderia trazer novamente aquela paz que ela tinha sentido enquanto solteira para a sua vida de casada."


Maria Georgievna com as suas filhas Nina (esquerda) e Xenia, cerca de 1908. Com o passar do tempo, seria a saúde das filhas que daria à grã-duquesa a desculpa perfeita para passar longos períodos longe da Rússia e do marido.


Uma geração depois, em 1896, Maria Feodorovna, agora czarina viúva, segura a sua neta, a grã-duquesa Olga Nikolaevna, filha mais velha de Nicolau II. A relação entre Maria Feodorovna e a sua nora Alexandra nunca foi fácil, mas nos primeiros tempos, as duas conseguiam manter um certo nível de harmonia. Maria Feodorovna estava hospedada no palácio quando Olga nasceu e tornou-se uma avó gentil e indulgente das cinco crianças imperiais.


A rivalidade entre as cunhadas Maria Feodorovna, czarina-viúva, e a grã-duquesa Maria Pavlovna, manteve-se ao longo do novo reinado. Na altura, aquilo que nunca tinha sido mais do que um rancor trivial entre duas mulheres muito confiantes e muito bem posicionada, sem que nenhuma das duas quisesse realmente magoar a outra, tornou-se uma fonte de verdadeira divisão. Alexandra, a jovem czarina, viu-se no meio destas duas mulheres que podiam ter sido mais úteis se a tivessem ajudado a enfrentar os desafios do seu novo papel. Incapaz de se sentir à vontade junto da sua sogra, Alexandra também rejeitou as tentativas de Maria Pavlovna de assumir o controlo, o que criou um ressentimento duradouro.

O vestido que Maria Feodorovna está a usar nesta fotografia (a de cima), sobreviveu até aos dias de hoje. Feito pelo costureiro Worth de Paris, em veludo castanho com um padrão de cravo bordado em tons dourados, fez parte de uma exposição sobre o vestuário do século XIX no Museu Hermitage em 1993.


Os Vladimirovich numa fotografia tirada na ocasião das suas bodas de prata em 1899: da esquerda para a direita, o grão-duque André, o grão-duque Vladimir, a grã-duquesa Helena, o grão-duque Cyril, a grã-duquesa Maria Pavlovna e o grão-duque Boris.


A grã-duquesa Isabel Mavrikievna e o grão-duque Constantino Constantinovich numa fotografia que mostra a longa felicidade da sua vida de casados. Recentemente as passagens retiradas do diário do grão-duque que sugerem as suas actividades homossexuais, têm dominado tudo o que é escrito sobre ele. Mas mesmo que estes comportamentos tenham tido algum significado, representaram apenas episódios isolados na sua vida dos quais ele se veio a arrepender. O efeito da sua publicação foi o de diminuir o papel consistente de uma pessoa que ficou sempre do seu lado: Isabel, a sua esposa e companheira por mais de três décadas, e mãe dos seus nove filhos, que foram nascendo ao longo de um período de vinte anos.


A fotografia acima foi tirada no dia do nome do filho mais novo da família, Jorge, no dia 23 de Abril de 1909, mas comemora as Bodas de Prata do casal que se tinham celebrado uma semana antes.  No seu diário, o grão-duque Constantino descreveu como, depois da festa para Jorge em Czarskoe Selo, a família se juntou na biblioteca de Maria Feodorovna (esposa de Paulo I), no Palácio de Pavlovsk, para tirar as fotografias com o fotografo Gorodetsky. 


Alexandra Iosifovna, grã-duquesa Constantino, mãe de Constantino Constantinovich e a última sobrevivente da sua geração: depois de 1909, mais ninguém na família se lembrava da corte do czar Nicolau I, à qual ela tinha chegado como uma jovem noiva, e Alexandra adorava contar às mulheres mais novas como os tempos tinham mudado. "Tinha sido uma beldade muito conhecida na sua época," escreveu a filha de uma das suas damas-de-companhia, "e agora era uma senhora idosa de respeito com cabelo cor-de-neve, muito bem penteado. Tinha mantido uma maneira muito elegante de se vestir e os seus vestidos negros e justos faziam-na parecer alta, erecta e magra."

Alexandra era o tipo de princesa antiga, graciosa e sorridente, mas nunca se esquecia a sua posição por um momento.

O último homem da família a contrair um casamento legal foi o neto de Alexandra Iosifovna, o príncipe João, filho mais velho do grão-duque Constantino Constantinovich. No verão de 1911 ficou noivo da princesa Helena da Sérvia, uma sobrinha das grã-duquesas Militsa e Anastásia, que tinha sido criada por elas e educada em Smolny depois de ter perdido a mãe quando era ainda criança. Mas foi outra das irmãs montenegrinas, Helena, rainha da Itália, que controlou o noivado, convidando Helena a visitar a sua casa ao mesmo tempo que João. O príncipe surpreendeu tudo e todos ao pedi-la em casamento quase imediatamente. A ideia de que João se queria casar causou grande divertimento à família, já que ele era um jovem alto, bastante simples, calado e muito religioso que tinha considerado tornar-se monge. Mas o seu casamento foi por amor e os dois foram muito felizes, tendo a gentileza dele complementado a personalidade mais agitada da esposa. Enquanto João regressou aos seus deveres na cavalaria, Helena começou a estudar Medicina na Universidade de São Petersburgo, tendo apenas desistido com alguma relutância quando nasceu o primeiro filho do casal.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Casar na Família (Parte 2)

Uma fotografia de Maria Feodorovna com os seus filhos Miguel e Xenia, provavelmente tirada depois da ascensão do seu marido ao trono na primavera de 1881. A família imperial tinha sido  muito alemã, tanto em personalidade como nas simpatias, durante séculos, mas a chegada de Maria Feodorovna, princesa Dagmar da Dinamarca, marcou uma mudança. O seu primeiro noivo, o czarevich Nicolau, afirmou firmemente que o casamento iria acontecer por ser esse o seu desejo e que não tinha qualquer implicação política. Apesar disso, a Prússia e a Dinamarca tinham declarado guerra pouco antes do noivado e a antipatia entre os dois países durou décadas. A diminuição  das simpatias prussianas na corte russa durante o reinado de Alexandre III deveu-se, em parte, à influência da sua esposa. Apesar da sua dedicação ao país do marido, Maria Feodorovna manteve-se muito dinamarquesa e deu sempre o seu melhor para promover os interesses dinamarqueses na Rússia.


Mas as simpatias alemãs continuaram na corte do irmão de Alexandre, o grão-duque Vladimir, visto aqui com a sua noiva, a duquesa Maria de Mecklenburg-Schwerin. Maria era trineta do czar Paulo I. Quando conheceu Vladimir em 1871, tinha dezassete anos e tinha acabado de ficar noiva, por escolha própria, de um príncipe alemão muito mais velho. Rompeu o noivado imediatamente, apesar de terem sido precisos três anos para assegurar o seu noivado com Vladimir. A atracção foi mútua, o problema era que Maria se recusava firmemente a converter-se à religião ortodoxa, um passo que era exigido a todas as noivas Romanov há várias gerações. As negociações duraram três anos. Depois, na primavera de 1874, Alexandre II cedeu e permitiu a formalização do noivado. Esta decisão não foi bem-vista na Rússia, principalmente entre as princesas que já tinham sido forçadas a converter-se. Marcou a chegada de uma jovem assertiva e confiante que se tornaria uma força formidável na família.


A grã-duquesa Maria Pavlovna, o nome de casada de Maria, com o seu segundo filho, o grão-duque Cyril Vladimirovich, cerca de 1878. Um primeiro filho, chamado Alexandre, tinha morrido em 1877, pouco antes de completar dois anos de idade. Maria Pavlovna adaptou-se maravilhosamente ao esplendor e à riqueza de São Petersburgo e não demorou muito a tornar-se o centro dos círculos mais elegantes. Todos aqueles que não eram aceites na corte imperial, mais tradicional, viravam-se naturalmente para ela. Maria gostava de ser o centro das atenções. Uma mulher com um charme infinito, tinha como principal talento guiar e aconselhar qualquer pessoa mais nova ou com menos experiência do que ela. Teria sido uma imperatriz magnifica, mas a sua personalidade fazia com que não conseguisse contentar-se com o segundo lugar mais importante para uma mulher na Rússia. Foi rival da sua cunhada Maria Feodorovna desde o início.


A princesa Isabel de Saxe-Altenburg tinha dezasseis anos no verão de 1882, quando o grão-duque Constantino Constantinovich visitou Altemburgo. Constantino tinha vinte-e-quatro anos e estava a recuperar de um desgosto amoroso, e a atracção entre os dois foi imediata. Mas enquanto Isabel não tinha dúvidas, Constantino agonizava. Era um homem profundamente introspectivo e passou um ano sem escrever a Isabel, ao contrário do que tinha prometido, apesar de escrever poemas sobre ela. Depois regressou para pedi-la em casamento. Em Abril de 1884, Isabel chegou à Rússia. Tinha escolhido manter a religião luterana. Esta decisão foi um duro golpe para Constantino devido à sua forte devoção ortodoxa. Para piorar a situação, Isabel ofendeu a corte quando se recusou a beijar cruz erguida durante a missa.

Os medos de Constantino voltaram a despertar, mas, na manhã do casamento, Isabel escreveu-lhe uma carta para o acalmar: "Prometo que nunca farei nada para te enfurecer ou magoar por causa das nossas religiões divididas (...). Só te posso dizer mais uma vez que te amo muito."


Constantino acalmou-se e levou a carta de Isabel no bolso o dia inteiro. Sobre a cerimónia ortodoxa escreveu: "Depois de ouvir as palavras 'Deus nosso Senhor, pela honra e pela glória, casa este casal!', vi a Isabel como minha esposa, que me é entregue para sempre e quem devo amar, cuidar e estimar. O momento no qual o padre nos conduziu ao altar foi especialmente solene para mim, senti-me leve e feliz (...). Eramos marido e mulher. Tivemos permissão para nos beijar. Depois dirigimo-nos a Sua Majestade, à czarina e aos meus pais. A cerimónia começou. O canto era maravilhoso. Caiu-me uma pedra do coração."

As fotos de casamentos da família imperial no século XIX são raras, mas esta mostra Isabel, a grã-duquesa Isabel Mavrikievna, no dia de casamento, a usar a coroa das noivas. Durante a cerimónia de casamento ortodoxa, as coroas eram erguidas sobre as cabeças do casal, normalmente pelos parentes masculinos mais jovens. Colocando o seu início turbulento para trás, Isabel e Constantino começaram felizes a vida de casados. Ele chamava-a 'Lilinka'. Um mês depois do casamento, Constantino disse ao pai que "Ela já nos pertence." 



Os Vladimirovich: A grã-duquesa Maria Pavlovna e o marido com os filhos em 1884. As crianças são, da esquerda para a direita, Boris, Helena, Cyril e André.


Isabel de Hesse hesitou durante mais de um ano antes de aceitar o pedido de casamento do grão-duque Sérgio Alexandrovich que conhecia desde criança. Ele também estava hesitante, mas os dois ficaram noivos em Setembro de 1883. O pai de Isabel disse numa carta a Alexandre III: "Não hesitei antes de dar o meu consentimento porque conheço o Sérgio desde criança. Vejo que tem modos simpáticos e agradáveis e sei que fará a minha filha feliz". As cartas privadas que começam agora a surgir mostram que o casamento não foi o longo martírio que muitos descreveram. Essa ideia surgiu, acima de tudo, devido aos boatos da corte e das memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich que odiava Sérgio. 

Sérgio era um homem profundamente religioso que não escondia o seu gosto pela sociedade elegante, e fez muitos inimigos. "Muitas vezes era inseguro", recordou o grão-duque Ernesto Luís, irmão de Isabel."Isso fazia com que a sua postura endurecesse e os seus olhos pareciam severos (...) por isso as pessoas ficaram com uma impressão errada dele e achavam-no orgulhoso e frio, algo que ele certamente não era. Houve muitas, bastantes pessoas que ele ajudou, mas apenas o fazia no mais profundo sigilo."

"O Sérgio é uma pessoa," escreveu Isabel numa carta ao pai, "que quanto mais tempo passa com alguém, mais essa pessoa gosta dele (...)"


A grã-duquesa Isabel Feodorovna e o grão-duque Sérgio Alexandrovich em Darmstadt, cerca de 1889. Esta fotografia conta muito de um casal que ficou lado-a-lado durante mais de vinte anos, sem se preocupar com o que as pessoas diziam sobre eles. "As pessoas vão arranjar intrigas e mentir enquanto o mundo existir," escreveu Isabel numa carta à sua avó Vitória em 1896, "e nós não somos os primeiros nem vamos ser os últimos a ser caluniados." A relação aprofundou-se em 1891 quando Isabel decidiu converter-se à religião ortodoxa, tendo inicialmente preferido manter a sua religião luterana. Tal como para o grão-duque Constantino Constantinovich, esta decisão tinha sido difícil para Sérgio, mas não disse nada - "Foi um verdadeiro anjo da bondade  (...) nunca, nunca se queixou"- e a sua paciência foi recompensada. O facto de não terem filhos foi uma mágoa permanente que o casal partilhou e parece que ambos sabiam que a situação seria assim para sempre. Outros membros da família também o sabiam. "Coitados do Sérgio e da Ella", escreveu Alexandre III numa carta à esposa na primavera de 1892 "(...) por lhes ser negada esta bênção o resto da vida."


Desde a infância que Sérgio era muito chegado ao seu irmão mais novo, o grão-duque Paulo Alexandrovich, ao ponto de o levar consigo na sua lua-de-mel. Vítima de doenças pulmonares frequentes, Paulo passava os invernos na Grécia com a sua prima, a grã-duquesa Olga Constantinovna, e a sua família, e foi assim que encontrou a sua noiva. A princesa Alexandra da Grécia, filha de Olga, que se tornou a grã-duquesa Alexandra Georgievna após o seu casamento em Junho de 1889, não era uma desconhecida na Rússia, nem da família imperial devido às visitas da mãe à Rússia e à família do pai na Dinamarca que também a conhecia desde que tinha nascido. Também era ortodoxa, por isso a sua mudança para norte para se casar com Paulo não foi uma grande agitação, apesar de ter sentido a falta do clima grego.


Isabel Feodorovna e Alexandra Georgievna tornaram-se quase irmãs, criando uma relação semelhante aquela que existia entre os maridos desde sempre. O criado-de-quarto de Paulo, Alexei Volkov, descreveu desta forma os primeiros tempos de casamento do patrão: "Os recém-casados mudaram-se para o seu palácio no talude do Neva, atrás da Igreja da Anunciação e de frente para o quartel-general da marinha. A vida familiar deles seguiu tranquila e serena lá. A primeira filha (...) nasceu no palácio e os companheiros mais próximos e adorados do casal eram o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a sua esposa, a grã-duquesa Isabel Feodorovna."


A grã-duquesa Alexandra Georgievna com a sua filha Maria Pavlovna que nasceu no dia 6/18 de Abril de 1890 e foi baptizada um mês depois, tendo a czarina Maria Feodorovna e o grão-duque Sérgio como padrinhos.


Alexandra em 1891 com a sua mãe, a grã-duquesa Olga Constantinovna, a sua avó, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna e a sua filha Maria.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat