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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Off-topic - Excerto de "Queen Victoria's Children" de John Van Der Kiste (Biografia da Rainha Vitória - Parte Dois)

Rainha Vitória no início do seu reinado

As pressões de uma adolescência difícil tinham deixado a sua marca na jovem Rainha Vitória e ensombraram os seus primeiros dois anos de reinado. "Mamã" e filha apareciam juntas em cerimónias de Estado, mas em privado tinham o menor contacto possível. Vitória contava tinha ainda o apoio devoto dos seus confidentes Lehzen e Stockmar, este último tinha-se tornado num emissário regular do rei Leopoldo. Porém, em pouco tempo, a sua relação com o primeiro-ministro, Lord Melbourne, ultrapassou-os em pouco tempo. A vida privada do velho aristocrata cínico, mas charmoso foi trágica e arruinada pelo comportamento selvagem da sua mulher e pela epilepsia do seu único filho. Ambos morreram antes dele. Tanto ele como a jovem rainha tinham falta de afetos e encontraram uma excelente companhia um no outro. Os dois passaram muitas horas felizes a conversar pela noite dentro no Castelo de Windsor. No dia da sua coroação, a 28 de junho de 1838, o seu apoio e encorajamento foram inestimáveis para ela. Esta preocupação foi um sentimento marcadamente oposto ao da duquesa de Kent que insistiu persistentemente que devia seguir antes do primeiro-ministo na procissão da coroação.

Lord Melbourne

Em 1839, a rainha Vitória que ainda não tinha 20 anos, estava a sofrer a uma reação aos seus primeiros dezoito meses de reinado. O seu entusiasmo e dedicação aos seus deveres estavam a ter as suas consequências; e isto, para além da má relação que tinha com asua mãe e com Conroy, fez com que ela cometesse dois erros que iam contra o seu bom senso, um deles com consequências desastrosas.

Melbourne demitiu-se em maio após uma derrota no parlamento e, a rainha, bastante contrariada, chamou o líder dos Conservadores, Sir Robert Peel para formar governo. Ele pediu-lhe educadamente que ela substituísse as damas-de-companhia do seu quarto apoiantes do partido Whig (liberal); furiosa, a rainha recusou-se a fazê-lo. Quando ele respondeu que, infelizmente, nessas condições não poderia assumir o seu cargo, a rainha voltou a chamar Melbourne triunfalmente. A "crise do quarto" foi uma vitória para a rainha, mas acabou por criar a ideia de que a coroa se identificava com um partido.

Sir Robert Peel

Se este tivesse sido o único acidente, a reputação da rainha não teria sido muito danificada. Infelizmente, surgiu ao mesmo tempo que o caso escandaloso de  Lady Flora Hastings. Lady Flora era uma das damas da duquesa de Kent e, como tal, era uma amiga chegada de Conroy e uma grande inimiga de Lezhen. Logo no início do ano, quando regressava a Londres depois de uma viagem à Escócia de comboio com Conroy, ela sentiu-se mal. Começaram a correr rumores de que ela estaria grávida. A rainha e Lezhen estavam prontas para acreditar no pior e Melbourne não fez nada para as desencorajar. Com coragem, Lady Flora submeteu-se a um exame médico feito por médicos reais e que provaram que ela ainda era virgem. Foi-lhe diagnosticado um tumor maligno no estômago e, apesar de a rainha ter feito tudo o que podia pela "pobre Lady Flora", ela morreu em julho. A popularidade da rainha desceu a pico e a carruagem que ela enviou para o funeral foi atingida por pedras atiradas pela multidão em fúria.

Lady Flora Hastings

Depois de um verão carregado de crises, a rainha Vitória ficou exausta por algum tempo. No fim de julho, ela disse a Melbourne de forma petulante que o assunto do seu casamento era detestável para ela e, se pudesse, preferiria não se casar.

Porém, este não era um problema que se podia adiar para sempre. A rainha tinha vinte anos e todos esperavam que ela se casasse e tivesse herdeiros, e ainda mais devido à crise de sucessão da geração anterior. Naquela altura, o seu herdeiro era Ernesto Augusto, o rei de Hanôver. Como duque de Cumberland, ele era o membro menos popular da família. Os rumores de que ele tinha praticado incesto com a sua irmã Sofia e matado o seu criado de quarto eram certamente falsos, já para não dizer injuriosos. Porém, o seu temperamento violento, a sua cara marcada por cicatrizes de batalhas e preferências políticas reacionárias tinham feito os britânicos recear a possibilidade de se submeterem a um reinado de Ernesto Augusto e desconfiavam da sua terra natal.

Ernesto Augusto, rei de Hanôver
Também havia fatores pessoais que tornavam a possibilidade do casamento algo aconselhável. A rainha estava, inevitavelmente, a começar a considerar a companhia de Lord Melbourne aborrecida e a sua falta de compostura, algo ofensiva. Devido à falta companhia de pessoas mais jovens durante a sua infância, como mais tarde a própria viria a admitir, ela "não tinha forma de exteriorizar os meus violentos sentimentos de afeção". A visita de Alexandre, o grão-duque da Rússia a Windsor naquele verão tinha-a encantado e Vitória sentiu bastante a sua falta depois de ele se ir embora. A sua transição repentina do berçário para o trono tinha sido uma alegria ao início, mas a solidão que encontrou na sua nova independência estava a começar a ter efeitos negativos. Todos sairiam a ganhar se a rainha se casasse em breve.

Alexandre II da Rússia

A princesa Vitória tinha vindo ao mundo com o auxílio da parteira Fraulein Charlotte Siebol que abandonou o Palácio de Kensington para viajar para a Alemanha pouco depois do parto da duquesa de Kent. A cunhada da duquesa, Luísa, a duquesa de Saxe-Coburgo Saafeld, estava grávida pela segunda vez. Ela e o duque Ernesto já tinham um filho, também chamado Ernesto, que estava destinado a herdar o ducado do pai. A 26 de agosto de 1819, ela ajudou no parto de um filho, Alberto.

Tal como Vitória, Alberto teve uma infância infeliz. A união dos seus pais estava longe de ser perfeita. Ernesto era dezassete anos mais velho do que a sua mulher e quando se tornou duque em 1826, os dois estavam separados. Ambos encontravam consolo em casos extra-conjugais e divorciaram-se por consentimento mútuo nesse mesmo ano. Luísa ficou bastante perturbada quando se despediu dos filhos que nunca mais voltou a ver e Alberto ainda ficou mais afetado pela situação do que o irmão. Nunca mais esqueceu a sua mãe que se voltou a casar, mas morreu de cancro em 1831. Após a sua morte, o duque Ernesto casou-se com a sua sobrinha, a princesa Maria de Württemberg. Assim, os rapazes ficaram sem mãe durante a maior parte da sua infância e as pessoas que mais os influenciaram enquanto cresciam foram as suas avós e o tutor, Herr Rath Florschutz.

Príncipe Alberto com o seu irmão Ernesto e a mãe, antes da separação

Ernesto e Alberto eram quase inseparáveis. Porém, cresceram com personalidades bastante distintas. Ernesto , mais extrovertido, tinha herdado o comportamento dissoluto e os hábitos perdulários do seu desagradável pai. Alberto, mais sensível, era o completo oposto do irmão, partilhando com ele apenas o gosto por partidas e imitações. Porém, nunca houve nada que destruísse a união fraternal entre eles, apesar de mais tarde Alberto ter ficado chateado com a gratificação e casos extra-conjugais do irmão.

Quase desde o seu nascimento que a família queria que Alberto se casasse com a princesa Vitória de Kent. Quando ele tinha dois anos, a sua avó, a duquesa viúva Augusta de Saxe-Coburgo escreveu uma carta à duquesa de Kent onde dizia que Alberto estava "agarrado à sua prima linda". Não demorou muito até que a duquesa de Kent e o rei Leopoldo se afeiçoassem a este plano, principalmente depois de se tornar evidente que o rei Guilherme e a rainha Adelaide não deixariam herdeiros. O próprio Alberto conhecia o plano desde pequeno e Vitória foi informada antes de se tornar rainha.

Os primos conheceram-se pela primeira vez em maio de 1836 quando o duque Ernesto levou os seus filhos a Inglaterra para uma visita curta. Pareceu logo evidente que Alberto não partilhava o gosto de Vitória pelas horas noturnas tardias. É possível que também tenha sido afetado pelo nervosismo uma vez que ficou doente na véspera do aniversário de Vitória. Alberto conseguiu reunir coragem suficiente para ir a um baile no Palácio de St. James com ela na noite seguinte, mas quase desmaiou e foi enviado para a cama. Apesar de tudo, Alberto causou uma boa impressão a Vitória. Apesar de ela gostar de ambos os irmãos e de achar que ambos eram "tão, tão agradáveis e divertidos e alegres, como os jovens devem ser". A boa aparência de Alberto, o seu talento para a música e para a arte e conversas espirituosas ao pequeno-almoço deram-lhe uma ligeira vantagem em relação ao seu irmão. Quando se foram embora, Vitória escreveu prosaicamente ao rei Leopoldo que Alberto possuía "todas as qualidades que posso desejar para ser perfeitamente feliz".



Retratos de Alberto e Vitória de 1839

O primeiro-ministro Melbourne ficou distintamente pouco entusiasmado com a ideia de um casamento entre Vitória e Alberto e lembrou a rainha da desconfiança dos seus súbditos em relação a estrangeiros. Porém, tinha de concordar que parecia não haver mais ninguém apropriado. Se ela se casasse com um inglês, haveria ciúmes e problemas de precedência. De forma tática, chegaram a acordo de que não haveria necessidade para fazer uma decisão final até dali a pelo menos quatro anos.

Contudo, o rei Leopoldo não estava disposto a adiar o assunto indefinidamente.. Para que o seu plano tivesse alguma réstia de esperança de sobrevivência, teria de ser executado cuidadosamente. Se ele fizesse demasiada pressão, sabia que a antipatia de Vitória em relação ao casamento seria uma barreira impossível de ultrapassar. Se não fizesse nada,  seria bastante injusto para Alberto. O jovem aceitava ser paciente desde que a rainha aceitasse o casamento no final da espera, mas se ela adiasse o assunto por demasiado tempo e o rejeita-se, as suas hipóteses de encontrar uma princesa solteira para casar diminuiriam.

Em julho de 1839,  Vitória confessou ao rei Leopoldo que se sentiria "bastante repugnada" se tivesse de abdicar da sua situação de mulher solteira e acreditava que não havia grande pressão por parte do povo para que ela se casasse. Será que Alberto se tinha apercebido de que não havia qualquer tipo de compromisso entre eles? Apesar das boas opiniões que ela tinha dele, "posso gostar dele como amigo e como primo e como irmão, mas não mais do que isso; e se fosse esse o caso (o que não é provável), quero muito que não me acusem de estar a quebrar uma promessa quando não fiz nenhuma".

Rainha Vitória em jovem

Foi com alguma trepidação que a rainha e o príncipe aguardaram pelo encontro crucial de 10 de outubro de 1839, À medida que a data se aproximava, Vitória ficava cada vez mais nervosa. Quanto a Alberto, este tinha sido avisado da teimosia de Vitória e não gostava de estar na situação de futuro marido à espera de aprovação. Porém, quando se encontraram, Vitória ficou imediatamente abismada com a mudança de Alberto desde o seu último encontro. Ele tinha crescido bastante e estava mais imponente. Apesar de não estar completamente recuperado de uma viagem difícil, radiava com confiança e charme.

"Foi com alguma emoção que observei o Alberto - que está lindo" - escreveu a rainha no seu diário nessa noite. Não falou de Ernesto que o acompanhava. Apesar de o ter mencionado mais tarde quando escreveu "os meus queridos primos", era evidente que só tinha olhos para Alberto. Quando Melbourne elogiou a inteligência de Ernesto, Vitória respondeu que Alberto era muito mais inteligente. Os dois cavalgavam durante o dia e dançavam nos bailes da corte à noite. A 15 de outubro, ela disse timidamente a Alberto que ficaria "demasiado feliz" se ele aceitasse casar com ela. Depois abraçaram-se com afeto. Depois da tensão da semana anterior foi um alívio para ambos quando decidiram o desfecho que as suas famílias desejavam com fervor. Alberto e Ernesto ficaram na Inglaterra durante mais quatro felizes semanas e foram embora no dia 14 de novembro.

Durante os três meses que antecederam o seu casamento, houve bastantes problemas. O rei Leopoldo queria que Alberto recebesse um título inglês, uma vez que pensava que era pouco apropriado que o marido da rainha tivesse um título estrangeiro. Já a rainha, queria que Alberto fosse rei consorte. Graças ao conselho prudente de Melbourne de que não deveriam fazer nada precipitadamente, o assunto foi adiado. A declaração de casamento da rainha, feita a 23 de novembro ao Conselho Privado, quase causou um tumulto. Não se falou da religião do príncipe Alberto e espalhou-se o rumor de que ele era católico. A irritação da rainha com estes dois desentendimentos fastidiosos não se comparou à sua fúria quando o rendimento anual de 50 000 libras normalmente atribuído ao consorte do monarca e proposto pela administração de Melbourne, foi reduzido para 30 000 libras pelo parlamento. Ela sentia que a oposição Tory estava a fazer de Alberto um bode expiatório devido à sua nacionalidade. Se se tivesse casado com o seu primo "odioso", o príncipe Jorge de Cambridge, disse ela friamente, ele talvez tivesse recebido a totalidade do rendimento sem qualquer problema.

Alberto aceitou a sua humilhação com graça. Porém, achou pouco sensato que a sua futura mulher se intrometesse nos seus desejos. Sempre consciente das instruções de Stockmar que diziam que a família real britânica não se devia envolver na política, e ciente dos danos da crise do quarto e do escândalo de Lady Flora Hastings, Alberto queria que o seu pessoal fosse composto por membros de ambos os partidos em igual número e, de forma a atenuar a sua solidão num país novo, pediu que fossem colocados alemães sem afiliações políticas em postos-chave. Instruída por Melbourne e relembrada da "desconfiança para com estrangeiros", a rainha não aceitou esse pedido. Vitória também estava determinada a passar uma lua de mel curta em Windsor e disse a Albert sem rodeios que era a rainha e "podes esquecer o assunto".

Alberto chegou ao Palácio de Buckingham, vindo de Coburgo, a 8 de fevereiro de 1840 e o casamento aconteceu dois dias depois na Capela Real do Palácio de St. James. Durante a cerimónia, os convidados notaram que os olhos da rainha Vitória estavam "bastante inchados devido às lágrimas, mas o seu rosto mostrava felicidade", enquanto que Sua Alteza Real, o Príncipe Alberto parecia estar bastante constrangido, envergonhado e "agitado quando respondia às perguntas".

Vitória e Alberto no dia do casamento
                                                 
Depois da cerimónia e já em Windsor, a rainha reagiu ao seu entusiasmo nervoso e à azafama dos dias anteriores com uma enorme dor de cabeça que a levou a deitar-se no sofá e a impediu de jantar; "mas doente ou não, eu NUNCA NUNCA passei uma noite tão boa!!! O meu QUERIDÍSSIMO QUERIDÍSSIMO QUERIDO Alberto sentou-se num banco para os pés ao meu lado e o seu amor  e afeto excecionais fizeram-me sentir amor e felicidade divinais que jamais pensei que iria sentir!"

Cedo na manhã seguinte, Vitória e Alberto foram dar um passeio no parque e a rainha estava quase sem fôlego enquanto tentava manter o ritmo das passadas longas e energéticas do marido . Ao observá-los, a duquesa de Bedford achou que a rainha estava "bastante apaixonada por ele, mas parece que ele não partilha nem um pouco esses sentimentos". O diarista cínico Charles Greville achou "estranho que uma noite de núpcias seja tão curta" e essa "não é a melhor forma de nos darem um príncipe de Gales".

Rainha Vitória com o seu vestido de noiva

A rainha estava com ideias de esperar bastante tempo por isso, Ela odiava e receava a ideia da gravidez e queria pelo menos um ano de "aproveitamento feliz" com Alberto. Porém, o destino tinha outras ideias. Poucas semanas depois do casamento, Vitória estava enceine. A tragédia da princesa Carlota ainda estava fresca na mente das pessoas e uma visita da rainha Vitória a Claremont pouco tempo depois de ter anunciado a gravidez deu aso a rumores macabros. Rumores esses que diziam que a rainha acreditava que também ia sucumbir ao parto. Dizia-se também que ela estava a mobilar o quarto de Carlota de forma a que estivesse como naquela ocasião melancólica de 1817. Vitória estava consciente do que tinha acontecido à sua prima, mas os seus médicos e Melbourne garantiram-lhe que a princesa falecida tinha sido aconselhada a ter uma dieta demasiado "pobre", feito pouco exercício e submetida a sangramentos desnecessários. A rainha foi informada de que os hanoverianos precisavam de bastante comida e vinho. O seu apetite voraz preservaria com certeza a sua saúde e Alberto ficou ansioso com a vontade exuberante para o exercício e para passeios.

Príncipe Alberto

Tal como os acontecimentos do verão de 1839 tinham tornado a coroa bastante impopular, um episódio em junho de 1840 levou o povo a mudar a opinião da rainha. Ela e Alberto estavam a deixar o Palácio de Buckingham para um passeio de carruagem em Constitution Hill quando se ouviram dois disparos que por pouco não lhes acertaram. O autor dos disparos era um rapaz de dezoito anos com problemas mentais chamado Edward Oxford. O jovem foi detido e internado num asilo. A nação, quase pronta a acreditar que o rei Ernesto Augusto de Hanôver era o eminence grise por detrás desta tentativa de assassinato ignóbil à sua rainha grávida, ficou profundamente grata por ela ter escapado. Porém, naquele dia a rainha aprendeu a lição sombria de que havia perigos maiores do que o parto que podiam levar-lhe a vida. Em julho o parlamento passou uma lei que ditava que Alberto seria regente no caso de a rainha morrer prematuramente.

Tentativa de assassinato da rainha Vitória

Esperava-se que o repouso da rainha viesse em dezembro. Ela estava furiosa com as precauções intermináveis que tinha de ter, ressentia o facto de a sua barriga cada vez maior ser o centro das atenções entre os seus visitantes e queixava-se frequentemente de o seu estado não lhe permitir dançar e cavalgar. Mesmo assim, a atenção que Alberto dava a todas as suas necessidades não merecia censura. Ele estava sempre pronto a levantá-la do sofá e levá-la até à cama, puxar a sua cadeira de rodas de uma divisão para a outra ou escrever as suas cartas e ler-lhe um livro numa sala mais escura quando ela achava que a luz a estava a incomodar.

A 21 de novembro, três semanas antes do previsto, a rainha entrou em trabalho de parto. Alberto, o duque de Kent e os assistentes médicos da rainha estavam todos na mesma sala, enquanto que os conselheiros, incluindo Melbourne, Palmerson e Lord John Rustell estavam numa sala adjacente. A rainha descreveu o parto numa carta a Feodora cerca de três semanas mais tarde: "as últimas dores, que dizem normalmente ser as piores, não me custaram nada, começaram às 12:30 e duraram até ás 13:50 quando a menina apareceu... Não tive dores nem febre".

"Oh, senhora. É uma princesa", anunciou o médico gravemente.
"Não faz mal", respondeu a rainha, "para a próxima é um príncipe". 

Rainha Vitória e príncipe Alberto com 5 dos seus filhos

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Off-topic - Excerto de "Queen Victoria's Children" de John Van Der Kiste (Biografia da Rainha Vitória - Parte Um)

"Os avós da rainha Vitória, o rei Jorge III e a rainha Carlota, tiveram quinze filhos. Destes, doze chegaram à maioridade. As cinco filhas ficaram solteiras ou não tiveram filhos. Dos seus sete irmãos, apenas três tiveram casamentos válidos aos olhos das leis de sucessão, aprovadas pelo rei em 1772, uma salvaguarda contra alianças inadequadas. Entre estes, apenas podiam contar uma neta legítima ou reconhecida oficialmente - a princesa Carlota de Gales, resultado do casamento tumultuoso do príncipe regente (o futuro Jorge IV) com Carolina de Brunsvique.

Jorge III e Carolina de Brunsvique com os 6 filhos mais velhos
Em maio de 1816, Carlota casou-se com o belo e sério Leopoldo de Saxe-Coburgo- Gota Saalfeld. A união foi popular, uma vez que o príncipe Leopoldo representava uma mudança agradável em relação aos tios envelhecidos e devassos da sua esposa. Porém, a sua felicidade estava destinada a ser tragicamente breve. Dezoito meses após o casamento, ela deu à luz um rapaz natimorto e morreu no parto.


Carlota de Gales com o seu marido, Leopoldo
Foram raras as ocasiões que o país se juntou de forma tão unânime na dor por uma morte na realeza. A grande família do rei Jorge III não passava agora de uma sombra cega e demente e parecia que caminhava para a sua extinção. O príncipe regente e a sua esposa não poderiam ter mais filhos e os duques de Iorque (Frederico) e de Cumberland (Ernesto Augusto) tinham casamentos válidos, mas sem filhos. Tentados pela perspetiva de rendimentos parlamentares generosos em troca do cumprimentos dos seus deveres dinásticos, os outros três duques estavam preparados para deixar as suas amantes e procurar esposas adequadas.

Em julho de 1818, Eduardo, o duque de Kent, casou-se com a irmã mais velha de Leopoldo, Vitória, a princesa viúva de Leiningen. Os duques de Clarence (Guilherme) e de Cambridge (Adolfo) também se casaram com princesas alemãs nesse ano e, em 1819, nasceram quatro bebés no seio da família real. Todas as três duquesas e a duquesa de Cumberland deram filhos aos seus maridos nessa primavera. Em março, nasceu a princesa Carlota de Clarence, mas viveu apenas algumas horas. Ao contrário desta, o príncipe Jorge de Cambridge era um bebé saudável que viveu até à idade madura de oitenta e quatro anos. A estes nascimentos, seguiram-se mais dois em maio, O segundo destes nascimentos foi o do príncipe Jorge de Cumberland, uma criança delicada que mais tarde sobreu de cegueira e foi o último rei de Hanôver.

Eduardo, Duque de Kent, o pai da rainha Vitóri
Vitória de Kent, a mãe da rainha Vitória

Três dias antes, a 24 de maio, tinha nascido a princesa Alexandra Vitória de Kent no Palácio de Kensington.

À semelhança da sua prima Carlota, Vitória seria filha única. Os duques de Kent, completamente falidos, passaram o inverno desse ano na vila costeira de Sidmouth em Devon, onde o custo de vida era consideravelmente mais baixo do que em Londres. Com alguma ironia, o duque era cuidadoso em relação à saúde da sua família, mas bastante descuidado com a sua. Uma constipação evoluiu para uma pneumonia pouco depois de ter chegado a Devon. O príncipe, que se vangloriava frequentemente dizendo que viveria mais tempo do que todos os seus irmãos, morreu a 23 de janeiro de 1820 com cinquenta e dois anos. Seis dias depois, o rei Jorge III seguiu-o para a sua morte.

A rainha Vitória em criança
O príncipe regente subiu ao trono como rei Jorge IV. O seu herdeiro era Frederico, o duque de Iorque cuja esposa morreu nesse ano. O segundo na linha de sucessão era Guilherme, o duque de Clarence. Todos pensavam que era apenas uma questão de tempo até que Adelaide, a sua esposa lhe desse um herdeiro, uma vez que ele já era pai de dez filhos saudáveis com a sua amante, a atriz Dorothy Jordan que na altura tinha já falecido. Infelizmente, para os duques de Clarence, nenhum dos seus filhos sobreviveu para além da infância. Assim, em 1825, o Parlamento reconheceu que a princesa Vitória seria certamente a sucessora do duque de Clarence no trono e concedeu um rendimento de 6000 libras anuais à duquesa de Kent para as despesas da filha.

Em 1827, Vitória aproximou-se do trono com a morte do duque de Iorque. Três anos depois, o rei Jorge IV morreu e o duque de Clarence sucedeu-o no trono como rei Guilherme IV.

Guilherme IV, tio de Vitória

A infância de Vitória foi solitária, com poucos companheiros que se aproximassem da sua idade. A sua meia-irmã, a princesa Feodora, doze anos mais velha do que ela, casou-se com o príncipe Ernesto de Holenlohe-Langenburg em 1828 e foi viver para a Alemanha. Depois disso, a única companheira permanente de brincadeira de Vitória era Victoire Conroy, a filha do controlador da duquesa de Kent. Porém, esta amizade foi corrompida pelo comportamento sem escrúpulos de Sir John Conroy. Muitos acreditavam - e a própria princesa Vitória talvez o suspeitasse- que sua lealdade à duquesa era excessivamente familiar. Era pouco provável que os dois fossem amantes, mas o ambicioso Sir John insinuava-se certamente de outras formas. Quando tinha dezasseis anos, Vitória ficou gravemente doente com febre tifóide. Quando ainda convalescia, ele tentou obrigá-la a assinar um documento que o tornaria seu secretário quando ela se tornasse rainha. Horrorizada com esta atitude dele e da sua mãe que se aproveitavam da sua doença para fazer exigências tão autoritárias, ela recusou-se a assinar sem qualquer dúvida. Este episódio causou danos incalculáveis na relação de Vitória com a sua mãe.

Sir John Conroy
A única amiga verdadeira de Vitória enquanto crescia foi Louise Lehzen que se tinha mudado para a Inglaterra para ser governanta de Feodora. Em 1824 foi também nomeada governanta de Vitória e, seis anos mais tarde, tornou-se dama de companhia da Duquesa de Kent. A princesa confiava em Louise e considerava-a uma confidente de confiança, principalmente quando as tentativas de coerção por parte de John Conroy lhe fizeram a vida ainda mais negra. No seu diário de infância - que foi muito provavelmente escrito tendo em consideração que a sua mãe o inspecionava regularmente e, assim, escrito com cuidado - havia mais referências à "querida Lehzen" do que à "querida Mamã".

Louise Lehzen
A única influência masculina permanente na vida de Vitória era a do seu tio Leopoldo. Apesar de se ter casado uma segunda vez (com Luísa, a filha do rei Luís Filipe de França) e de ter sido eleito rei dos belgas em 1831, ele manteve correspondência regular com a sua irmã duas vezes viúva e com a sua jovem sobrinha. Todos os anos escrevia-lhe uma longa carta no seu aniversário, cheia de afeto e de bons conselhos avunculares, ainda que os exprimisse de forma algo afetada. Quando ele visitou a Inglaterra com a rainha Luísa em setembro de 1835, a princesa ficou completamente encantada: "Que felicidade é atirar-me para os braços do meu tio mais querido que sempre foi como um pai para mim e que adoro com tanto carinho".

Leopoldo I da Bélgica, o tio adorado de Vitória
O facto de Vitória não ter conseguido criar uma relação próxima do excêntrico, mas bondoso rei Guilherme e com a rainha Adelaide não era culpa de nenhum deles. A duquesa de Kent e John Conroy evitavam de forma ostentosa a corte o mais que podiam, ao que parece porque não queriam que Vitória se aproximasse de um monarca que tinha tantos filhos ilegítimos. Durante o reinado de Guilherme, John Conroy organizou uma série de viagens não oficiais que tinham como propósito apresentar a princesa aos seus futuros súbditos. Conroy não pediu autorização ao rei Guilherme para fazer isto, o que enfureceu o rei uma vez que parecia que estava a montar uma corte rival. Apesar utilidade que estas viagens tiveram para Vitória, uma vez que a fizeram conhecer o seu país em primeira mão, ela ficou furiosa ao saber o mau estar que tinham causado.

A contenda atingiu o seu auge no verão de 1836. O rei convidou a sua cunhada e a princesa para o aniversário da rainha em Windsor que seria celebrado no dia 13 de agosto e pediu que ficassem como convidadas até ao dia 21 de agosto, o aniversário do rei e para um jantar no dia seguinte. A duquesa ignorou o aniversário da rainha Adelaide e mandou avisar que só chegaria no dia 20 de agosto. O rei ficou furioso com esta descortesia para com a sua esposa e, após um brinde feito à sua saúde durante o seu jantar de aniversário, levantou-se e fez um discurso ressentido onde anunciou que desejava viver mais nove meses para que não houvesse uma regência. Assim, teria a satisfação de "deixar a autoridade real nas mãos daquela jovem (apontando para a sua sobrinha)... e não nas mãos de uma pessoa próxima que está rodeada de conselheiros maldosos e que é ela própria incompetente para agir corretamente no lugar onde seria colocada. Depois de declarar veementemente que a mesma pessoa o tinha insultado de forma contínua e que estava determinado a fazer com que a sua autoridade fosse respeitada no futuro, acabou o discurso num tom mais amigável, porém os estragos estavam feitos. A rainha Adelaide ficou envergonhada, a princesa Vitória alagou-se em lágrimas e a duquesa permaneceu calada e sem expressão. Quando o jantar terminou, a duquesa foi buscar a sua filha e anunciou que as duas iam embora imediatamente.

Vitória aos 17 anos em 1836
Apesar da sua saúde frágil, o desejo do rei foi concedido. Vitória atingiu a maioridade a 24 de maio de 1837 e, assim, pôs-se de parte a hipótese de uma regência. O rei Guilherme ofereceu-lhe um rendimento anual de 10 000 libras e uma residência independente da sua mãe. A duquesa e John Conroy tentaram mais uma vez em desespero criar um período de regência até Vitória fazer 21 anos, alegando que ela era demasiado nova, inexperiente e desequilibrada para reinar. As tentativas para fazer a princesa concordar "voluntariamente" fizeram com que ela deixasse de falar com a sua mãe durante algum tempo. John Conroy e Vitória tentaram, de forma absurda, conseguir o apoio de Leopoldo para os seus planos. Ciente de que estava a ser preparada uma conspiração, ele enviou o seu conselheiro de confiança, o barão Stockmar a Londres. O barão falou com ambas as partes e viu que a princesa estava a ser intimidada. As discussões e conspirações continuaram durante quase um mês e Conroy ainda tentou persuadir alguns membros mais antigos do Parlamento a juntar-se à sua causa. Quase sem exceção, eles aliaram-se a Stockmat e à futura rainha.

A 20 de junho, pouco depois das duas da manhã, o rei Guilherme IV faleceu no Castelo de Windsor. O arcebispo da Cantuária e o lord chamberlein, Lord Conyngham, foram até ao Palácio de Kensignton e exigiram ver "a Rainha". Vitória acordou de sobressalto e vestiu rapidamente uma camisa para receber a notícia.

Vitória recebe a notícia da morte do tio e da sua ascensão ao trono

O livro Queen Victoria's Children de John Van Der Kiste está disponível aqui.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Four Sisters - The Lost Lives of the Grand Duchesses de Helen Rappaport


No dia 27 de Março foi publicado no Reino Unido um novo livro sobre as quatro filhas do czar Nicolau II da Rússia. "Four Sisters" foi escrito por Helen Rappaport, que tinha já escrito sobre este tema no seu livro "Ekaterinburg: The Last Days of the Romanovs".

O livro tem sido bem recebido por críticos e seguidores da família imperial e é o mais vendido na categoria de política russa no site Amazon.co.uk.

Actualmente pode ser adquirido a partir de £9.33 + portes de envio através do seguinte link:http://www.amazon.co.uk/gp/product/0230768172/ref=ox_sc_act_title_1?ie=UTF8&psc=1&smid=A3P5ROKL5A1OLE.

domingo, 16 de março de 2014


"O destino da antiga família imperial foi discutido por volta da mesma altura em que Kerensky os visitou. Um dos primeiros pedidos para a libertação dos Romanov que chegou do estrangeiro foi realizado pelo kaiser Guilherme e da sua esposa, a imperatriz Augusta Vitória. Apesar de a Rússia e a Alemanha serem inimigos, Guilherme ofereceu ao seu primo e à sua família exílio em Berlim. Anos mais tarde, Guilherme disse: ´Ordenei que o meu chanceler tentasse entrar em contacto com o governo de Kerensky através de canais neutros, para o informar de que, se alguém tocasse num cabelo que fosse da família imperial, iria responsabilizá-lo se tivesse essa possibilidade.´

Mas Alexandra nunca conseguiu perdoar os defeitos de Guilherme e nunca conseguiu colocar de lado o ódio que sentia por tudo o que era alemão. Ficou indignada com a proposta, afirmando: ´Depois de tudo o que eles fizeram ao czar, prefiro morrer na Rússia do que ser salva pelos alemães.´ Quando o plano falhou, Guilherme admitiu: ´O sangue do infeliz czar não é da minha responsabilidade. Não está nas minhas mãos.´"

"Imperial Requiem - Four Royal Women, The Fall of the Age of Empires" de Justin C. Vovk

domingo, 6 de outubro de 2013

Carta de Maria Feodorovna ao seu filho Nicolau II



Esta foi a última carta que Nicolau II recebeu da sua mãe durante a sua vida. A carta foi escrita no dia 2 de Novembro de 1917. 

Querido Nicky, 

Acabei de receber a tua carta do dia 27 de Outubro, o que me encheu de alegria. Não consigo encontrar as palavras para expressar os meus sentimentos e agradecer-te com todo o meu coração, meu querido. Sabes que os meus pensamentos e orações nunca te deixam e penso em ti todo todos os dias e todas as noites e ás vezes sinto uma dor tão grande no coração que penso que não vou conseguir aguentar mais. Mas Deus é misericordioso. Ele vai dar-nos força durante este suplício. Graças a Deus que estás bem e que, pelo menos, vocês estão a viver juntos e confortáveis. Já passou um ano desde que tu e o querido Alexei vieram ver-me em Kieff. Quem poderia adivinhar na altura o que o futuro nos reservava, e pelo que teríamos de passar. É inacreditável. Vivo apenas nas minhas memórias do passado feliz e tento o melhor que posso esquecer este pesadelo. O Misha também me escreveu sobre o vosso último encontro na presença de testemunhas e [ilegível] e sobre a vossa partida horrenda e revoltante.

Recebi a tua primeira carta de 19 de Setembro e peço desculpa por não ter podido responder antes, mas a Xénia vai explicar-te o porquê. 

Lamento não te permitirem dar passeios, sei o quanto isso é necessário para ti e para as crianças; é uma crueldade incompreensível! 

Já recuperei bem de uma doença longa e aborrecida e já posso sair outra vez dois meses depois. 

O tempo tem estado muito bom, principalmente nestes últimos dias. Estamos a viver de forma muito modesta e calma e não vemos ninguém, já que não nos é permitido deixar a propriedade, o que é um grande incómodo. 

É uma bênção eu estar com a Xenia, a Olga e os meus netos que jantam comigo à vez todos os dias. O meu neto novo, o Tikhon é uma alegria para todos nós. Ele está cada vez maior e mais cheio e é tão querido, tão encantador e calmo. É um prazer ver a Olga tão feliz e satisfeita com o bebé que ela desejava há tanto tempo. 

Eles vivem muito confortavelmente acima da adega. Ela e a Xenia vêm ver-me todas as manhãs e tomámos o nosso cacau juntas, porque estamos sempre com fome. É tão difícil ter provisões, as coisas de que tenho mais saudades são o pão branco e a manteiga, mas ás vezes algumas pessoas bondosas manda-me um pouco disso: o Papa Felix [Yusupov, sénios] envia maçãs bravas e manteiga e estou-lhe muito grata. 

O príncipe Shervashidze chegou há pouco tempo. É muito agradável tê-lo, visto que ele é uma mais-valia, está sempre bem disposto e é divertido e está tão contente por estar aqui e descansar depois de ter estado em São Petersburgo, onde foi tão horrível. 

Fiquei muito feliz por receber aquelas cartas boas da Alix e dos meus netos, que escrevem todos tão bem. Agradeço e mando beijos para todos. Estamos sempre a pensar e a falar de ti. É tão triste estarmos separados, não podermos ver-nos uns aos outros, não podermos falar. Eu recebo cartas da Tia Alix e do Valdemar [os seus irmãos] de vez em quando, mas demoram sempre tanto a chegar e eu só posso esperar e desejar notícias. 

Compreendo muito bem o quanto deves gostar de voltar a ler as tuas velhas cartas e diários, apesar de um passado feliz despertem uma mágoa profunda no coração. Eu nem sequer tenho esse consolo, porque as minhas foram-me todas retiradas na Primavera quando me revistaram a casa. Todas as tuas cartas, todas as que recebi em Kieff, as cartas das crianças, três diários, etc., etc., e ainda não me devolveram nada, o que é revoltante e qual foi a razão disto, pergunto? 

Hoje é dia 2 de Novembro e é o aniversário do meu querido Misha. Penso que ele ainda está na cidade. Que Deus lhe dê saúde e felicidade. 

O tempo mudou de repente e está a soprar um vento forte e está frio, só estão 3 graus e, apesar de os quartos estarem aquecidos, não estão suficientemente quentes e as minhas mãos estão frias.

O Nikita foi ao K., o dentista [Kastritsky]. Foi através dele que eu soube novidades tuas. Fico feliz por saber que a pobre Alix não tem dores de dentes e que ele já acabou os teus tratamentos. 

Espero que a Isa B. [Buxhoeveden] tenha chegado com segurança e tenha recuperado da operação. Dá os meus cumprimentos a todos e também ao Il. Tatischeff, por favor. 

Que criados estão contigo? Espero que o Teteridtnikoff esteja convosco. Eu só fiquei com o Yaschick e o Poliakoff e não tenho palavras de elogio suficientes para eles, são pessoas tão esplêndidas e de confiança. Eles servem à mesa e conseguem fazê-lo muito bem. O Kukushkin e o Yashchik são grandes amigos e convivem muito. 

No dia 6 de Dezembro todos os meus pensamentos vão estar contigo, meu querido Nicky, e envio-te os meus melhores desejos. Que Deus te abençoe, Te envie força e paz e que não permita que a Rússia esmoreça. Muitos beijos. Que Cristo esteja contigo. Com muito carinho e amor da tua velha, 

Mama



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Mais uma tragédia na família



Os Romanov não foram a única família a sofrer um final trágico entre os descendentes da rainha Vitória. O sobrinho de Alexandra, Jorge Donatus, filho do grão-duque Ernesto Luís, juntamente com a sua filha, também morreram de forma trágica em 1937. (Texto retirado do livro "Young Prince Philip" de Philip Eade): 

"Faltavam quatro dias para a nova data do casamento de Luís [de Hesse-Darmstadt. O casamento já tinha sido adiado anteriormente devido à morte do grão-duque Ernesto Luís] quando o seu irmão, Don [Jorge Donatus], o novo grão-duque e a sua esposa grávida, Cecília, irmã de Filipe [duque de Edimburgo, marido da rainha Isabel II], partiram na sua viagem trágica para Londres. Estavam acompanhados pelos seus dois filhos, Luís e Alexandre, pela dama-de-companhia de Cecília, Alice Hahn, a mãe de Don, que tinha ficado viúva recentemente, e o padrinho do noivo, Joachim von Riesdesel. Luís e a sua noiva esperavam a chegada da família no aeroporto de Croydon. Enquanto andavam de um lado para o outro, ansiosos, receberam a notícia de que o avião estava atrasado. Algum tempo depois, um oficial pediu discretamente a Luís que o acompanhasse a um escritório onde lhe contou o que tinha acontecido. Don, Cecília e os seus filhos deveriam ter ficado com os Mountbatten em Brook House e a filha de Luís Mountbatten, Patricia (actual condessa Mountbatten) lembra-se de "chegar a casa da escola quando vi o jornal a dizer que o avião se tinha despenhado, estava a caminho de casa, convencida de que os ia encontrar lá". O conde Mountbatten tinha mandado dois carros para o aeroporto, que regressavam agora apenas com o casal de noivos "completamente devastados", como recordou mais tarde. "Fomos todos para casa do pai da Peg e tivemos uma reunião de família horrível. A minha mãe disse que o casamento tinha de seguir em frente, não daí a quatro dias com todas as formalidades e publicidade, mas logo no dia seguinte, enquanto ainda estavam todos em estado de choque."

Na sua noite de núpcias, Luís e a esposa atravessaram o canal da mancha até Ostend, com muito mau tempo, para identificarem os restos mortais da família que tinham sido colocados dentro de onze caixões num hospital local e cobertos de flores pelas freiras que lá trabalhavam. No dia seguinte acompanharam os caixões no comboio funerário para Darmstadt. Assim que chegaram lá, adoptaram Joana, a única filha do casal que não estava a bordo. O casal nunca teve filhos."



A princesa Joana de Hesse-Darmstadt era o único membro da família que não estava presente no trágico acidente de avião que vitimou os pais, os irmãos e a avó paterna. Por ser demasiado nova, não tinha viajado com o resto da família e acabou por ser adoptada pelos tios, o príncipe Luís e a sua esposa, Margaret Campbell-Geddes. No entanto, o destino também não a poupou. Menos de dois anos depois do trágico acidente, a menina de dois anos e meio de idade não resistiu a um ataque de meningite e morreu, no dia 14 de Junho de 1939.

Rainha Vitória fala sobre a neta, a Imperatriz Alexandra Feodorovna



"Todos os meus receios sobre o seu futuro casamento se mostram agora de modo muito claro e o meu sangue gela-se quando pensa nela, tão jovem, colocada naquele trono tão inseguro, na sua vida, e acima de tudo no seu marido constantemente ameaçado e que apenas pode estar com ela em raras ocasiões. É uma ansiedade muito grande que se vem acrescentar aos meus últimos anos! Oh, como eu queria não perder a minha doce Alicky!" - Rainha Vitória numa carta dirigida à irmã mais velha de Alexandra, a princesa Vitória de Battenberg (21 de Outubro de 1894)

Relato sobre Maria Alexandrovna




"De toda a família imperial, a pessoa mais compreensiva era sem dúvida a imperatriz Maria Alexandrovna. Era sincera e, quando dizia algo de agradável, não tinha segundas intenções (...) Seguramente não era feliz na sua vida familiar; também não era apreciada pelas damas da corte, que a achavam demasiado severa, e não conseguiam compreender por que razão levara tão a peito as inconsiderações do seu marido." - Príncipe Pedro Alexeyvich Kropotkin (1842-1921)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Nicolau Alexandrovich, Czarevich da Rússia


O grão-duque Nicolau Alexandrovich, o czarevich, era um jovem alto e bonito, embora delicado e de constituição fraca. Tinha herdado o temperamento do pai e a mente interrogativa da mãe. Quando eram crianças, o czarevich e o seu irmão mais novo, Alexandre [futuro czar Alexandre III, criaram o seu mundo de fantasia, 'Mopopolis', retratado nos seus desenhos a tinta e caneta, uma cidade habitada por 'Mopses' ou cães pug. Durante a Guerra da Crimeia, os ingleses passaram, naturalmente, a ser detestados na corte russa, mas os rapazes tiveram a sensatez de não tornar a sua sátira demasiado óbvia e resolveram retratar os seus inimigos simplesmente como bulldogs. Como era herdeiro do trono, Nicolau era por vezes tratado com severidade pelo pai que, surpreendentemente, não foi tão compreensivo com ele como o seu pai tinha sido consigo. Nicolau, um jovem sensível que se parecia muito com o pai durante a adolescência, por vezes era tratado com impaciência por ele por este o considerar um pouco efeminado. Era provável que o czar o quisesse preparar de forma adequada para a vida dura que o esperava, mas se tal era o caso, mostrou-de de forma muito brusca. A sua mãe, que achava que o filho tinha uma inteligência semelhante à sua, dedicou-se tanto às suas necessidades que às vezes quase parecia que se esquecia dos seus outros filhos. Era uma criança avançada e a sua inteligência desenvolveu-se muito depressa, levando-o a fazer perguntas sérias que, ao mesmo tempo, impressionavam e assustavam os seus tutores. O seu governador, o conde Stroganov, referiu mesmo que a sua maturidade de pensamento e expressão quase pareciam pouco saudáveis numa pessoa tão nova.

Nicolau Alexandrovich com a sua mãe, a czarina Maria Alexandrovna
Em Setembro de 1864, o czarevich completou vinte-e-cinco anos de idade. O jovem precoce tornou-se num adulto estudioso com os conhecimentos liberais do pai, grandes interesses artísticos e muita graciosidade. No geral, tinha muito poucas parecenças com o resto dos seus irmãos que eram mais agitados. Uma certa fragilidade no seu físico denunciava a sua saúde delicada. Durante a adolescência, segundo alguns relatos, Nicolau desafiou um dos seus primos, o príncipe Nicolau de Leuchtenberg, para uma luta amigável durante a qual foi atirado ao chão e não se conseguiu mexer durante alguns minutos. Segundo outro relato, o czarevich fracturou a coluna depois de cair do cavalo na escola de cavalaria de Czarskoe-Selo. Qualquer que seja a verdadeira versão da história, estes ferimentos voltariam a atormentá-lo alguns anos depois. 


Nicolau Alexandrovich
No verão, o rei Cristiano IX da Dinamarca recebeu oficialmente uma proposta de casamento em nome do czarevich, para a sua segunda filha solteira, a princesa Dagmar. O rei deu o seu consentimento, colocando a única condição de deixar a sua filha decidir o que queria por si própria depois de o conhecer. O czarevich recebeu uma fotografia dela e passou a trazê-la sempre consigo a partir daí. Apesar de não ser tão bonita como a irmã mais velha, a princesa Alexandra, que se tinha casado com o príncipe de Gales no ano anterior, Dagmar tinha mais personalidade, uma sagacidade mais acentuada e interesses mais variados, bem como o mesmo gosto em termos de estilo e paixão por roupas bonitas. 


Dagmar da Dinamarca, futura czarina Maria Feodorovna da Rússia

Acompanhado do conde Stroganov e uma grande comitiva, o czarevich partiu da Rússia em Junho de 1864 e encontrou-se com a família real dinamarquesa em Fredensborg, onde a princesa brilhou com a frescura dos seus dezasseis anos. Os dois jovens foram pressionados a esperar mais algum tempo e, entretanto, o czarevich partiu para Berlim para assistir a manobras militares com o pai. Na noite anterior sentiu fortes dores nas costas e apesar de se sentir mal insistiu em cumprir os seus compromissos, mas depois de passar onze horas a cavalo, chegou ao fim do dia exausto. Esperando que as dores não significassem nada pior, regressou a Copenhaga para pedir a princesa Dagmar em casamento. Entre grandes festejos familiares, foi anunciado que os dois se casariam na primavera seguinte, depois de Nicolau terminar o seu longo programa de visitas culturais pelo resto da Europa.

Fotografia tirada para celebrar o noivado de Nicolau Alexandrovich e Dagmar da Dinamarca
Em Itália, Nicolau interrompeu o itinerário para visitar a mãe, que tinha trocado o inverno rigoroso de São Petersburgo por um período de férias na Riviera. (...) A dor nas costas tinha voltado em força e o jovem ficou de cama durante várias semanas enquanto recebia tratamento para um abcesso. Oficialmente, o único mal do qual o czarevich padecia era reumatismo e talvez um pouco de malária, mas as dores de cabeça e enjoos persistentes levaram a família a temer o pior. Nicolau estava demasiado fraco para regressar a casa e a havia discordância entre os médicos e especialistas em relação à sua doença começava a causar alarme.


No inicio de 1865, era evidente que o czarevich estava a perder a sua batalha. Alojado na Villa Diesbach, em Nice, foi examinado por dois médicos que não viram nada de perigoso no seu estado de saúde, mas em Março queixou-se que o barulho das ondas na costa não o deixava dormir. Uma vez, quando o mar estava meramente a enrolar-se suavemente na areia, esta sensibilidade extrema aos sons foi vista como um mau sinal. Nicolau foi levado mais para o interior, para a Villa Bermond, mas quando chegou a Páscoa era óbvio que não se ia salvar. Muitos parentes desgostosos, incluindo a princesa Dagmar e membros da família dela, dirigiram-se para o seu leito de morte. A czararina não o deixava por nada e as suas damas-de-companhia estavam tão histéricas que o conde Stroganov ordenou bruscamente que todos aqueles que não se conseguissem controlar deviam sair do quarto imediatamente. Entre elas encontrava-se a princesa Maria Meshchersky que se dizia ter uma relação amorosa com o grão-duque Alexandre [Alexandre III]. Se a senhora tinha ainda esperanças de se tornar esposa do grão-duque ou seguir o mesmo caminho do irmão destituído da czarina, o príncipe Alexandre de Hesse [que se casou com uma plebeia, criando o ramo Battenberg], agora compreendia que, a não ser que os médicos fizessem um milagre, essas esperanças não levariam a nada. Quando o czar chegou à villa, a czarina acordou Nicolau para o avisar. Nicolau beijou-lhe a mão, segurando um dedo de cada vez e perguntou-lhe o que faria ela sem ele. Uma vez que foi a primeira vez que ele falou na sua morte, o pai ajoelhou-se na cama, chorando silenciosamente.


No dia seguinte, Dagmar praticamente não deixou o seu lugar junto ao leito, arranjando as almofadas e acariciando-lhe o cabelo, falando sempre suavemente. (...) Na noite de 24 de Abril, ao mesmo tempo que os marinheiros russos e infantaria e cavalaria francesa organizavam uma vigilia silenciosa no lado de fora da vila, a família, os criados e médicos enchiam o quarto. Um grupo de clérigos cantava rezas para o moribundo à medida que o jovem magro e exausto de vinte-e-um anos se apagava.

John Van Der Kiste - "The Romanovs 1818-1959"

The Life and Times of Lord Mountbatten

Neste vídeo extraordinário, que faz parte de um documentário produzido em 1969 sobre a vida do Lord Luís Mountbatten, sobrinho da czarina Alexandra, o próprio fala dos seus parentes Romanov, incluindo as primas Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, bem como de Alexei, Nicolau e até Isabel Feodorovna. Um verdadeiro tesouro para quem sempre quis ouvir histórias sobre os Romanov da parte de uma pessoa que os conheceu pessoalmente! O vídeo está em inglês, mas farei os possíveis para disponibilizar uma versão legendada!

 
The.Life.and.Times.of.Lord.Mountbatten.02of12... por waja100