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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O outro Nicolau e a outra Alexandra - Nicolau I e Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia) - Segunda Parte

Nicolau I e Alexandra Feodorovna
A ascenção de Nicolau ao trono foi um golpe duro para a família. Alexandra passou o dia em que o marido subiu ao trono a rezar com os filhos. Estava aterrorizada. Quando era criança, tinha visto a sua família a fugir de Berlim por causa dos exércitos de Napoleão e, agora, o seu marido enfrentava homens armados nas ruas da sua capital. As horas de ansiedade, à espera de notícias do marido, deixaram-na com um tique nervoso na cabeça que um grupo de pessoas que visitou a corte vinte anos depois ainda viu. A sua saúde nunca recuperou completamente. O pequeno czarevich também ficou afectado. Os seus tutores repararam num certo nível de timidez que nunca tinha existido e uma tendência para desistir das coisas quando elas se tornavam demasiado complicadas. Alexandre temia o dia em que o trono iria cair nas suas mãos.

O futuro czar Alexandre II
A família precisava de privacidade e sentiam-se mais felizes em Alexandria Peterhof, a propriedade que Alexandra tinha recebido do seu cunhado. Este era o palácio privado deles, "o nosso cantinho favorito neste mundo". Em 1832, tinham sete filhos e Nicolau adorava-os a todos. O czarevich era bonito e alegre. Quando cavalgou com as tropas na coroação do pai, o czar quase rebentou de orgulho. Nicolau adorava o filho, apesar de se preocupar com o facto de ele ser demasiado sonhador e não se entusiasmar muito com o exército. Maria era baixa para a idade, enquanto que Olga já tinha a mesma altura da mãe aos doze anos de idade. A pequena Alexandra era "uma querida" e quando Constantino, o seu segundo filho varão, nasceu, o seu pai chorou de alegria. Disse que Constantino era "pequeno e feio, mas muito invulgar". Depois, tiveram ainda mais dois rapazes, Nicolau e Miguel, que o pai dizia serem "muito simpáticos (...) os meninos dos meus olhos."

Olga e Alexandra Nikolaevna, filhas do meio de Nicolau e Alexandra
Nicolau e Alexandra eram pais excepcionais e não permitiam nenhum tipo de bajulação que complicasse a vida dos filhos. Os jovens Romanov mantinham-se afastados da corte e foram criados de forma simples; até os criados recebiam ordens para não os tratar pelos títulos, mas sim pelo nome próprio e pelo patronímico, como era normal na Rússia. Passavam sempre os seus serões com os pais, ou pelo menos com a mãe, a jogar jogos, a representar em peças de teatro e a tocar música. Uma vez, o embaixador francês perguntou se podia conhecer o czarevich. Esperava ter uma audiencia no Palácio de Inverno e ficou espantado quando foi levado até ao parque em Czarskoe Selo para ver o rapaz a brincar com as irmãs. O czar explicou que temia que apresentar o filho a pessoas importantes num ambiente formal poderia ser uma má influência para ele.

Nicolau I e Alexandra Feodorovna a chegar de carroça a Alexandria Peterhof
Nicolau estava a preparar o czarevich para um futuro em mudança e, apesar de o seu próprio reinado ser repressivo, o czar compreendia os pedidos de reforma e reconhecia que a escravatura era injusta. No entanto, sabia também que era fundamental para a organização do império e não podia ser abolida facilmente. O Conde Kisselev, ministro dos domínios imperiais, recebeu ordens para analisar as medidas que poderiam ser tomadas e chegaram mesmo a haver algumas mudanças tímidas, mas Nicolau nunca conseguiu apoio para a abolição completa. Acreditava na autocracia e via-se como o único defensor do povo. Era ele que tratava até dos pormenores mais mundanos pessoalmente e viajou extensamente por todo o império para ouvir as preocupações individuais dos seus súbditos. Nicolau era severo, mas também conseguia ser gentil: em certa ocasião, saiu da sua carruagem para caminhar numa procissão fúnebre de um homem que não tinha mais ninguém. Entretanto, a vida na corte era uma ronda constante de bailes de máscaras, jantares e entretenimento de todos os tipos. "Gosto que as pessoas se divirtam," contou Nicolau à sua irmã Ana, "assim ficam ocupados e ficam sem tempo para dizerem disparates".

Festa de Natal na corte russa na época de Nicolau I
Assim que a ordem foi restabelecida, Nicolau esforçou-se por reforçar e aumentar as fronteiras do império. Lutou contra os turcos e impôs a sua vontade nos povos do Cáucaso; em 1830, a Polónia revoltou-se e o czar reprimiu as revoltas com uma eficácia sem escrúpulos. Apesar disso, quando os outros países europeus o apelidaram de "novo Átila", Nicolau ficou ofendido. "Este pobre Átila só quer ficar calmamente em casa, feliz na companhia da sua esposa grávida de cinco meses e dos seus filhos; os seus gostos são domésticos; resumidamente, é a pessoa menos hostil e mais pacífica do mundo; - que destino tão estranho!" Os contemporâneos do czar teriam ficado espantados se soubessem que era assim que ele se via. À medida que a Europa sofria uma série de revoltas armadas, a Rússia de Nicolau tornou-se uma fortaleza construída para aguentar as influências ocidentais e na qual o czar surgia como o defensor dos valores tradicionais.

Nicolau I da Rússia
Os historiadores liberais costumam guardar os seus melhores insultos para Nicolau I. Já lhe chamaram cruel, brutal, tirânico e déspota e raramente alguém lhe dá créditos pelos feitos positivos que conseguiu ao longo do seu reinado. Mas ele era mais russo do que qualquer outro czar em mais de um século, e deu resposta ao novo movimento que surgiu no seu país, que tentava compreender o que significava verdadeiramente ser russo. Isto era mais positivo do que simplesmente fechar as fronteiras. Desde o início do seu reinado que Nicolau iniciou um programa de obras públicas e apoiava os artistas que estavam a tentar criar um novo estilo, baseado nos melhores elementos do antigo. Ajudou financeiramente Feodor Solntsev, que viajou por todo o império à procura de exemplos de desenhos tradicionais, e permitiu a publicação das descobertas que ele fez. Na década de 1830, houve um plano ambicioso para restaurar o Kremlin e acrescentar-lhe novos edifícios, para harmonizar as catedrais antigas e os palácios novos. Pouco sobrou do interior do Palácio de Terem, por exemplo. Sempre rigoroso, Nicolau rejeitou catorze esquemas decorativos antes de encontrar um que lhe agradasse.

Todo o trabalho foi feito com seriedade: o czar via o Kremlin como um património nacional que devia ser preservado para o seu povo. Tal como Pedro, o Grande tinha obrigado a Rússia a virar-se para o ocidente, Nicolau estava a tentar fazê-la voltar às suas origens. Redesenhou o aspecto da sua corte, tendo emitido um decreto em 1834 no qual voltava a instaurar vestidos de corte para as senhoras baseados nos trajes tradicionais russos. Este decreto definia o corte, cor e tecido, assim como os ornamentos exactos que as senhoras deveriam usar, dependendo do seu estatuto. Os oficiais do governo teriam de usar sempre uniforme. Com estas medidas, o czar estava a criar um cenário russo impressionante e único para a vida pública na corte.

A corte russa no tempo de Nicolau I
Em privado, Nicolau I também era um construtor ambicioso. Criou casas, pavilhões e capelas no Alexandria Peterhof e os aposentos privados da sua família no Palácio de Inverno foram redecorados no início do seu reinado. Em 1837, grande parte do Palácio de Inverno foi destruído num incêndio. Nicolau coordenou o resgate bem sucedido de muitos tesouros em pessoa enquanto o palácio ardia. Quando terminou, Nicolau declarou que o seu restauro era uma prioridade. Foi também um mecenas generoso, mas era muito exigente com os prazos. Gostava de descobrir novos artistas e não era estranho que um pintor que estivesse a trabalhar calmamente num dos parques imperiais fosse convidado a tomar chá com o czar. Em 1844, Nicolau encomendou um gigantesco programa de reconstrução do Palácio de Gatchina, mas, uma vez que tinha passado a sua infância e juventude nesse palácio, ordenou primeiro que pintassem todas as divisões antes das obras começarem, para guardar um registo visual do passado. Era extremamente emocional em tudo o que estava relacionado com a família, dando instruções para que determinadas divisões fossem mantidas exactamente como estavam. Sob a sua orientação, partes dos palácios maiores tornaram-se museus da família.

Nicolau I com a sua esposa e as filhas mais velhas
Todos os membros da família imperial eram leitores ávidos. A censura do estado era apertada, mas foi durante o reinado de Nicolau I que houve uma avalanche de livros que, actualmente, são considerados clássicos: Pushkin, Dostoevsky, Turgenev, Lermontov e Gogol floresceram nesta época. Todos criticavam o regime nas suas obras e os censores oficiais interferiam com o seu trabalho, mas nunca os impediram de escrever. Nicolau chegou mesmo a estar presente na estreia da peça "O Inspector Geral" de Gogel, no Teatro Alexandrinsky. Parece um paradoxo, mas Nicolau I era, ao mesmo tempo, profundamente repressivo e tolerante. Continuava a ser fiel ao lema que tinha no anel da Triopatia, um anel que usou a vida inteira, "Firmeza e Esperança", a firmeza autocrata que nunca diminuiu e a esperança no progresso e reforma para o futuro.

Nicolau I com Pushkin e a sua esposa Natália
Em 1842, Nicolau e Alexandra comemoraram as suas bodas de prata com um torneio medieval em Czarskoe Selo, no qual participou toda a família. A ideia de cavalheirismo apelava ao lado romântico de Nicolau, que era um grande admirador de Sir Walter Scott. Os romances de Scott eram lidos em voz alta para toda a família com grande frequência. Os dois tinham-se cruzado em 1816, quando Nicolau foi enviado a Inglaterra para estudar o sistema constitucional. Quando o seu filho mais velho chegou à idade adulta, Nicolau voltou a encontrar tempo para viajar, deixando o futuro czar Alexandre II como regente. Visitou novamente a Inglaterra e acompanhou a sua esposa Alexandra em visitas a spas europeus; em 1845 e 1846, os dois passaram algum tempo em Itália.

Nicolau I, Alexandra Feodorovna e os seus filhos nas comemorações das suas Bodas de Prata em 1842
Nesta altura, os dois já eram avós. A sua filha mais velha, Maria, tinha-se casado com o duque Maximiliano de Leuchtenberg e o czarevich tinha-se casado com a princesa Maria de Hesse-Darmstadt, e ambos os casais já tinham filhos. Nicolau e Alexandra adoravam ver a nova geração a crescer, mas também passaram por grandes tristezas. A sua primeira neta, a princesa Alexandra de Leuchtenberg, morreu aos três anos de idade e o czarevich perdeu a sua filha mais velha, a grã-duquesa Alexandra Alexandrovna pouco antes de ela fazer sete anos de idade. Em Janeiro de 1822, a filha mais nova de Nicolau e Alexandra, a grã-duquesa Alexandra Nikolaevna, casou-se com o príncipe Frederico Guilherme de Hesse-Cassel. Tal como a mãe, engravidou poucas semanas depois, mas adoeceu no verão quando estava de férias em Czarskoe Selo e deu à luz prematuramente. Segundo algumas fontes, teve febre escarlate, enquanto que outras dizem ter tido sarampo. Qualquer que tenha sido a doença, tanto ela como o bebé morreram antes do fim do dia. Os pais dela ficaram destroçados. "A nossa dor é para toda a vida", escreveu Nicolau, "é uma ferida aberta que vamos levar connosco para as nossas sepulturas". Depois destes acontecimentos, a família começou a considerar que o nome Alexandra estava amaldiçoado.

A grã-duquesa Alexandra Nikolaevna
A devoção de Nicolau e Alexandra um para o outro nunca esmoreceu. Em finais da década de 1840, a saúde de Alexandra estava cada vez mais fraca e a vida do casal tornou-se mais calma. Lady Bloomfiel, esposa do representante britânico em São Petersburgo, viu-os juntos em várias ocasiões e reparou que o comportamento de Nicolau com a esposa era "comovente e encantador (...) era tão atento e afectuoso, e, ao mesmo tempo, tão respeitador". Com a idade e a experiência, o czar tinha conseguido aprender as boas maneiras impecáveis que a sua mãe tanto tinha desejado quando ele era mais novo, e Lady Bloomfield ficou impressionada com o seu charme, gentileza e beleza que ainda não tinha esmorecido. Achou que a czarina estava "muito magra, mas não tão doente como esperava, e o rosto dela tinha vestígios de grande requinte e beleza. Os seus olhos, que eram azuis, estavam fixos no fundo da cabeça e a sua expressão era mais inteligente do que agradável. A voz dela era suave, mas falava depressa e com decisão". Ficou comovida com a gentileza de Alexandra e surpreendida e agradada por ser recebida nos aposentos privados da família imperial sem cerimónias nem formalidades.

A czarina Alexandra Feodorovna
Mas, fora do refúgio doméstico, o final da década de 1840 foi marcada por um aumento das tensões na Europa. As revoluções de 1848 não chegaram à Rússia, mas Nicolau aumentou o controlo no país e enviou um exército para ajudar o jovem imperador Francisco José na Hungria. A Rússia de Nicolau tinha-se tornado uma força admirável, mas o ajuste de contas estava próximo. Há já várias gerações que os governantes da Rússia ansiavam por anexar os países dos Balcãs que, na altura, se encontravam sob domínio turco. Nicolau esperava estabelecer-se como protector dos súbditos ortodoxos do sultão e, em 1853, os seus exércitos ocuparam as províncias da Moldávia e da Valáquia. Foi uma expansão que o ocidente não podia permitir. A guerra que se seguiu na Crimeia expôs todas as fissuras na armadura do czar e o seu império, que tinha parecido tão forte, não tinha os recursos ou a organização para competir com a aliança ocidental. Deprimido pela fraqueza do seu exército na Crimeia, a saúde de Nicolau começou a sofrer e ele acabaria por morrer no Palácio de Inverno a 18 de Fevereiro de 1855. A causa de morte oficial foi gripe, mas havia quem sugerisse que tinha sido uma discussão que tinha tido com o filho que lhe tinha provocado uma apoplexia. Outros sugeriram que se tratou de suicídio e havia também muitos que afirmavam que o imperador tinha simplesmente morrido de coração partido. Apesar de ter sido um dos governantes mais temidos da Europa, a sua prioridade nunca tinha sido o poder. Tal como disse à irmã, "a única felicidade que existe é uma vida familiar agradável. Tudo o resto não passa de uma ilusão". 

Quadro alegórico de Nicolau I no seu leito de morte com a sua filha Alexandra Nikolaevna e a neta Alexandra Alexandrovna representadas como anjos.
Alexandra viveu durante mais cinco anos. Retirou-se para o Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo, e continuou a organizar jantares enquanto a saúde lhe permitiu. Nunca deixou de se preocupar com a sua família e as suas vidas e avisou o seu filho mais velho dos perigos da reforma. De uma coisa nunca duvidou: ao recordar o dia do seu casamento, escreveu: "com toda a confiança, coloquei a minha vida nas mãos do meu Nicolau e ele nunca quebrou essa confiança".

A czarina Alexandra Feodorovna

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O outro Nicolau e a outra Alexandra - Nicolau I e Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia) - Primeira Parte


"Quando olhamos para trás, é assustador ver como o tempo passa depressa...". A Rússia estava no auge do seu poder quando Nicolau I escreveu estas palavras à sua irmã, ao recordar o dia em que, mais de trinta anos antes, quando tinha partido para a guerra com o irmão, o czar Alexandre I. Na altura, tinha apenas dezassete anos de idade e não fazia ideia que um dia iria suceder ao trono. Era feliz e, embora não o soubesse, estava prestes a conhecer a jovem com quem se viria a casar. Em Berlim, foi a filha do rei da Prússia, Carlota, que recebeu os visitantes. Tinha quinze anos, era alta, bonita e um tanto inocente. Nicolau também era bonito. Tinham os dois terminado a sua educação há pouco tempo e apaixonaram-se loucamente um pelo outro, apesar de as suas famílias insistirem que tinham de esperar um ano antes de sequer ficarem noivos. A derrota de Napoleão e a reorganização da Europa era muito mais importante do que as esperanças de dois adolescentes românticos - apesar de as suas famílias verem que o casamento iria reforçar a aliança política entre os dois países. Passaram três anos até Carlota se converter à Igreja Ortodoxa com o nome de Alexandra Feodorovna, que passaria a utilizar para o resto da vida. No dia em que completou dezanove anos, casou-se com Nicolau na capela do Palácio de Inverno. Corria o ano de 1817, cem anos antes do colapso da dinastia.

Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia)
Nicolau nasceu para ser soldado, e era essa a única vida que queria. Demasiado novo para sentir as tensões que levaram ao assassinato do seu pai, o czar Paulo I, era o produto de uma infância segura numa família extremamente unida. Quando nasceu, no Palácio de Catarina, em Czarskoe Selo, no verão de 1796, os seus irmãos Alexandre e Constantino eram quase adultos. Era mais chegado à sua irmã Ana, que era apenas um ano mais velha do que ele, e ao seu irmão mais novo, Miguel; mais tarde, os três decidiram apelidar-se de a "Triopatia" e passaram a usar anéis especiais gravados com o lema "Firmeza e Esperança". Ofereceram um anel semelhante à sua mãe, a czarina Maria Feodorovna, tornando-a assim um membro do seu circulo.

Ana Pavlovna (futura rainha dos Países Baixos), Nicolau Pavlovich (futuro czar Nicolau I) e Miguel Pavlovich por F. Ferriere em 1806
Maria Feodorovna era mulher forte e foi a sua vontade de ferro que tornou a sua grande família tão unida, sobrepondo-se às suas diferenças de idade e educações distintas. A czarina tinha sido obrigada a entregar os seus filhos mais velhos à sua sogra, a imperatriz Catarina, a Grande, o que serviu para reforçar ainda mais a sua vontade de educar os restantes filhos à sua maneira. Nicolau aprendeu a falar quatro línguas, e estudou os clássicos, economia, direito e ciência política. Tocava flauta e as suas pinturas podiam facilmente ser confundidas com o trabalho de um artista profissional, mas, por muito que a sua mãe o tentasse convencer, nunca o conseguiu tornar tão encantador e educado como queria. Tanto Nicolau como Miguel gostavam mais de paradas militares do que de salões de festas: "os teus irmãos parecem inválidos", queixou-se Maria Feodorovna numa carta à sua filha Ana, "e nunca dançam um passo que seja, escondem-se nos cantos e parecem estar sempre aborrecidos".

A czarina Maria Feodorovna, nascida princesa Sofia Doroteia de Wuttenberg
Alexandra Feodorovna recordava-se da falta de jeito do marido com humor num livro de memórias que escreveu sobre os seus primeiros anos de casamento com Nicolau. Dizia que, em privado, ele era uma pessoa completamente diferente e "tanto ele como eu só estávamos realmente felizes e satisfeitos quando ficávamos sozinhos nos nossos aposentos, comigo sentada no colo dele enquanto ele me cobria de amor e afecto".  A czarina-viúva adorava vê-los juntos: "O Nicky é um marido muito afectuoso. É impossível ser mais cuidadoso, mais atencioso do que ele é com a esposa (...) a esposa dele é encantadora e vive só para ele, adivinhando todos os seus desejos, todos os seus pensamentos; a fazer tudo o que pode para o agradar". Poucas semanas depois do casamento, Alexandra já estava grávida. Desmaiou durante a missa e, depois de a levar para o quarto, Nicolau foi a correr até um jovem pajem e anunciou que ia ser pai. O bebé, um menino, nasceu no Kremlin, o coração histórico da Rússia, rodeado de bons presságios: "na Semana Santa, num lindo dia de primavera, enquanto os sinos ainda tocavam em celebração pela grande festa da Ressurreição. (...) O Nicky beijou-se e desfez-se em lágrimas, e ambos agradecemos a Deus juntos."

Alexandra Feodorovna com os seus dois filhos mais velhos: Maria e Alexandre
Na verdade, o cenário do nascimento do pequeno Alexandre Nikolevich não teve nada de acidental. Tinha sido planeado pela czarina-viúva para chamar a atenção para a importância nacional da jovem família. Todos sabiam que, um dia, o trono iria passar para Nicolau e o nascimento de um filho confirmou a sua importância. Ele e Alexandra eram os únicos que se recusavam a lidar com o inevitável. O casamento de Alexandre I era vazio e as suas duas filhas tinham morrido ainda bebés. Constantino era divorciado. Em 1820, casou-se morganaticamente e disse à mãe que não queria nada a impedir a sucessão de Nicolau ao trono. Ainda assim, Nicolau não queria discutir a sucessão. Alexandre tentou falar sobre o assunto uma noite, depois de um jantar de família, mas Nicolau e Alexandra ficaram tão perturbados que o czar desistiu da ideia. Quando Constantino renunciou formalmente aos seus direitos em 1822, Alexandre manteve o documento em segredo.

Alexandre I
A felicidade do casal era um problema. Tudo o que queriam era estar juntos e aproveitar a sua vida familiar com os filhos. O segundo bebé foi uma menina a quem chamaram Maria; Nicolau rapidamente ultrapassou a sua desilusão inicial e as suas cartas começaram a encher-se de descrições de quanto adorava os seus filhos. A sua mãe concordava. "Fui abraçar os meus queridos netos, que são encantadores," escreveu a czarina-viúva em 1820, sete meses após o nascimento de Maria. "A menina está a ficar muito mais bonita e vai ser tão bonita como a mãe (...) já gosta muito do pai que lhe dá muita atenção e que se diverte muito com ela. Adora-a verdadeiramente. Quanto ao menino, é um anjo e a melhor criança que se possa imaginar".

Maria Nikolaevna
Alguns meses depois de estas palavras serem escritas, Alexandra deu à luz uma bebé que nasceu morta. Foi a sua terceira gravidez em três anos de casamento e a perda da bebé deixou-a profundamente deprimida. Nicolau dedicou toda a sua atenção e carinho à esposa, tendo tratado dela com as suas próprias mãos, embora a sua mãe tenha reparado que ele "distrai-se e esquecesse de manter a abstinência que devia estar a cumprir". Os médicos aconselharam umas férias e Nicolau levou a esposa para a sua terra natal: Berlim. Os dois gostaram tanto das férias que acabaram por regressar à Alemanha no ano seguinte e em 1824, numa altura em que já tinham três filhos para deixar com a czarina-viúva, e memórias dolorosas da perda de mais um bebé. Será que sonhavam em deixar a Rússia para sempre? Alexandre I temia que isso pudesse vir a acontecer, por isso, na primavera de 1825, mandou chamar o irmão e a cunhada, dizendo que precisava da companhia deles. Ofereceu terrenos a Alexandra em Peterhof, a propriedade imperial da qual ela tinha gostado mais quando tinha chegado à Rússia. Algumas semanas depois de receber este presente, teve mais uma filha, a grã-duquesa Alexandra.

A grã-duquesa Alexandra Nikolaevna
Quando Alexandre I pediu ao seu irmão para regressar à Rússia em 1825, estava a perder rapidamente o interesse pela vida. O czar estava cansado, e, por conselho médico, viajou com a esposa, que estava doente, para sul nesse outono, tendo nomeado Nicolau para regente. Ninguém estava à espera de receber a notícia de que Alexandre tinha morrido na distante cidade de Taganrog; foi um choque para toda a família. Nicolau ordenou a guarda imperial a jurar lealdade a Constantino, recusando-se a aceitar a renuncia do irmão ao trono porque nunca ninguém o tinha informado da mesma, nem mostrado os documentos. Em Varsóvia, onde vivia, Constantino jurou lealdade a Nicolau e este impasse durou quase três semanas, durante as quais cada um dos irmãos declarava lealdade ao outro e o grão-duque Miguel tinha de viajar de um lado para o outro entre eles. A situação até poderia ter sido divertida, se não fosse tão perigosa. Quando Nicolau soube que havia uma conspiração no exército, aceitou o inevitável e assumiu o trono a 13 de Dezembro de 1825.

Nicolau I
O ar na cidade estava tenso. Havia grupos de soldados nas ruas a gritar por Constantino. Os seus líderes eram, na sua maioria, jovens de famílias nobres que tinham visto como os seus pares viviam noutros países da Europa e tinham regressado à Rússia convencidos de que era necessária uma reforma liberal. Alguns eram republicanos, mas outros não; não tinham uma liderança coerente e Constantino não tinha qualquer interesse neles, mas, durante algumas horas, o perigo foi intenso. No pátio coberto de neve do Palácio de Inverno, à luz das tochas, Nicolau entregou o seu filho Alexandre à protecção dos Guardas Finlandeses, que lhe eram leais. Quando nasceu o dia, os rebeldes juntaram-se na Praça do Senado. Regimentos inteiros recusaram-se a jurar lealdade ao novo czar: quando o governador de São Petersburgo tentou explicar que Constantino tinha renunciado ao trono, foi morto a tiro. Antes do meio-dia, Nicolau foi até à praça de cavalo e as tropas que lhe eram leais acompanharam-no. Falou aos rebeldes e ofereceu um armistício, mas não conseguiu quaisquer avanços e, à medida que anoitecia, os seus generais pediram-lhe que disparasse sobre a multidão. Nicolau cedeu e a Revolta Dezembrista foi esmagada à força.

A Revolta Dezembrista - soldados reunidos na Praça do Senado em São Petersburgo
Ninguém duvidava da coragem que Nicolau mostrou naquele dia, mas muitos questionaram a sua humanidade. Os soldados comuns que se juntaram à revolta foram perdoados, mas cinco dos seus líderes foram condenados à morte, e quase trezentos foram exilados para a Sibéria. O novo czar tomou medidas firmes para o império, impondo restrições severas ao movimento e pensamento individual. Precisava de assumir o controlo rapidamente e de voltar a restaurar a ordem, mas o fardo pessoal era demasiado. Nicolau era completamente dedicado ao dever, e a sua mãe via com preocupação a saúde do filho, que se foi deteriorando perante o peso das suas novas responsabilidades. "Diz que o reinado só lhe trouxe problemas," escreveu ela, "está sobrecarregado com assuntos do estado, com trabalho. Nunca vai para a cama antes das duas ou três da manhã. Nem sequer tem tempo para jantar descansado. (...) Está mais magro, mais pálido, de uma forma assustadora."

Constantino Pavlovich, irmão mais velho de Nicolau que renunciou ao trono
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

[Off-Topic] D. Pedro V e a família real britânica

A rainha Vitória do Reino Unido (de costas), o infante D. Luís e o rei D. Pedro V de Portugal
D. Pedro V, que reinou em Portugal entre 1853 e 1861, ficou para a história de Portugal como "o Esperançoso" e o "bem-amado". Filho de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, tinha laços familiares muito próximos tanto com a rainha Vitória como com o seu marido, Alberto, príncipe-consorte do Reino Unido, uma vez que o seu pai era filho de Fernando de Saxe-Coburgo, irmão da mãe da rainha Vitória e do pai do príncipe Alberto.

Ainda antes de Pedro nascer, pouco tempo depois do seu casamento com D. Fernando, já a sua mãe, a rainha D. Maria II trocava correspondência com a rainha Vitória, maioritariamente sobre as suas vidas domésticas e, mais raramente, sobre a situação política dos seus países. Quando D. Pedro nasceu, D. Maria II ia mantendo a sua prima por casamento actualizada sobre os desenvolvimentos do seu filho. A rainha Vitória, no entanto, não estava tão convencida como a prima das vantagens de ter filhos, como revela a seguinte passagem do livro "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica:

A rainha D. Maria II com o seu filho, o futuro rei D. Pedro V

D. Maria II achava que os benefícios de ter filhos excediam os custos. Numa das cartas que enviou para Inglaterra declarava (...) 'quando a prima tiver filhos compreenderá melhor o que lhe digo e verá como é doce tratar das crianças, esperando de todo o meu coração que isto vos aconteça em breve'. Mas a rainha Vitória não partilhava destes sentimentos. Quando disse a D. Maria que não só temia os partos, mas desconfiava do prazer de ter crianças, esta ficou tão surpreendida que a admoestou: 'penso que, quando se ama o marido, nós desejamos e amamos ter crianças.' Para a rainha Vitória, o facto de amar o marido não significava que tivesse de aceitar, com deleite, as gravidezes sucessivas. (...) A 22 de Novembro de 1840, tendo-a a rainha Vitória interrogado sobre se ela desejava ter mais filhos, D. Maria II respondia-lhe: "Considero que, quando uma mulher se casa, é para ter filhos e, portanto, é natural que os desejemos e, além disso, amo extraordinariamente as crianças".

D. Maria II fazia a distinção tradicional entre o prazer de ter um filho ou uma filha. Quando Vicky, a filha mais velha da rainha Vitória, nasceu, a monarca portuguesa dizia à prima que era uma pena não ter sido antes um rapaz, coisa, aliás, que não tardaria a suceder, com o nascimento do príncipe Alberto Eduardo, a quem seria posto o petit-nom de Bertie. D. Maria preveniu então a prima da eventualidade de Vicky vir a ter ciúmes do irmão, coisa que ela notara em D. Pedro, aquando do nascimento de Lipipi, o diminutivo que a família passara a usar para designar D. Luís.

D. Maria II de Portugal
D. Maria II acabaria por morrer muito nova, a 15 de Novembro de 1853, ao dar à luz o seu décimo-primeiro e último filho que morreu pouco tempo depois. D. Pedro V tinha apenas dezasseis anos e, como ainda era menor de idade, formou-se uma regência encabeçada pelo seu pai, o rei D. Fernando II.

Antes de subir oficialmente ao trono, a 28 de Maio de 1854, D. Pedro V partiu numa viagem educacional pela Europa e o primeiro destino foi a Inglaterra. Na sua biografia de D. Pedro V, Maria Filomena Mónica descreve esta viagem, recorrendo também a excertos do diário que D. Pedro escreveu na altura:

O rei D. Pedro V

"A 2 de Junho, o [barco] Mindelo aportava a Southampton. Eram 11 horas da noite quando D. Pedro recebeu, a bordo, a visita do embaixador português, Lavradio, bem como de diversas personalidades entre as quais o coronel Wylde (ajudante-de-campo do príncipe Alberto), o qual conhecia bem Portugal, por aqui ter estado durante alguns meses ao serviço da coroa britânica. No dia seguinte, os príncipes foram de comboio para uma estação perto de Londres, onde eram aguardados pelo príncipe Alberto, tendo seguido para o Palácio de Buckingham, onde a rainha Vitória os esperava. (...)

Eis como fica registada a recepção aquando da chegada ao palácio real: "Era meio-dia quando entrámos em Buckingham Palace. A rainha e a duquesa de Kent esperavam-nos na escada e, pouco depois, vieram as princesas Vitória, Alice, Helena e Luísa e os príncipes Alberto e Alfredo." Continuava: "Vimos o jardim que é belo pela disposição mais do que pelas suas qualidades intrínsecas." Ao regressarem do passeio, apareceu um criado, anunciando a chegada do duque de Wellington, o filho do general que lutara contra os franceses em Portugal. A seguir, estando presentes alguns dos príncipes ingleses, foram almoçar."

O príncipe Alberto e a rainha Vitória em 1854, ano em que D. Pedro visitou a Inglaterra
D. Pedro começava uma relação - com o tio Alberto - que se viria a revelar extraordinariamente importante. Nesse primeiro dia, o marido da rainha Vitória mostrou-lhe a sua biblioteca, chamando a atenção para a obra sobre a História Natural das Aves da Austrália, de Gauer, que os dois folhearam com prazer. De tarde, D. Pedro foi visitar  a duquesa de Gloucester [Augusta de Hesse-Cassel, nora do rei Jorge III], a duquesa de Cambridge [Maria do Reino Unido, filha do rei Jorge III], e a duquesa de Kent [mãe da rainha Vitória], após o que o coronel Wylde lhe mostrou alguns quadros pertencentes à coroa britânica. "

Nos dias seguintes, D. Pedro foi visitar outros locais do país.

"Após esta incursão, regressou a Londres, onde o conde de Lavradio o esperava na estação. A 1 de Julho foi passear, a cavalo, com o tio, em Hyde Park e, à noite, ao teatro inglês, onde assistiu a uma peça que não passou à história, após o que se despediu dos membros da família real e dos portugueses residentes em Londres. Eram 6 horas da manhã do dia 3 de Julho quando o Mindelo saiu de Woolwich, a caminho da Bélgica. Passara um mês inteiro em Inglaterra, o país que viria a ocupar o topo das suas preferências."

D. Pedro V
A influência da família real britânica voltaria a revelar-se essencial alguns anos depois, quando D. Pedro V procurava uma esposa. O príncipe Alberto foi uma das pessoas que mais insistiu com o jovem para se casar, como revela Maria Filomena Mónia:

"O príncipe Alberto, para já não mencionar pessoas cuja opinião lhe mereciam menos crédito, chamou-lhe várias vezes a atenção para a necessidade de não adiar o projecto. A 25 de Outubro de 1856, dissera-lhe solenemente: "Falta-te uma rainha que assuma a parte feminina da tarefa". A 30 de Janeiro de 1857, insistia: "O celibato tornar-se-á tanto mais perigoso quanto mais se evidenciarem as diferenças, nos gostos e nas ideias, entre filho e pai. Assim, como actualmente estão as coisas, depressa o centro da família se perderá de vez e, sem este, não é possível manter uma família unida." Acrescentava: "A rainha devia ser jovem, bonita, pura, bem educada e instruída, não ser beata nem mimada" (...)

Em 1857, o rei aceitou o destino que lhe estava destinado. Os soberanos ingleses ofereceram-se para o ajudar na difícil selecção da noiva. As casas reinantes reputadas não libertavam, de bom grado, uma filha a fim de casar com um monarca de um país economicamente atrasado, politicamente instável e geograficamente distante. Uma primeira tentativa, a de Carlota de Saxe-Coburgo, a filha do rei da Bélgica (que viria a desposar Maximiliano, o futuro imperador do México), não resultou. A rainha Vitória e o príncipe Alberto pensaram então em Estefânia, um membro da família real da Prússia. Tinha um bom currículo: era filha do príncipe Carlos António de Hohenzollern-Sigmaringen e da princesa Josefina Frederica, filha do grão-duque de Baden, Carlos Luís Frederico.

A rainha D. Estefânia e D. Pedro V
A 29 de Março de 1857, o príncipe Alberto escrevia ao sobrinho: "Terias a vantagem de ficares com uma princesa católica, oriunda de uma casa protestante e liberal e com sangue completamente novo, não conspurcado com misturas de Bourbons ou Habsburgueses, além de ela ter gozado de uma educação simples, não estragada pelos incensos da Corte." (...) A certa altura, D. Pedro até conseguiu fingir que estava contente, escrevendo a Vicky, a filha mais velha da rainha Vitória: "Talvez já seja tarde, mas nem por isso respondo com um sentimento de gratidão menos sincero à tua amável carta de 5 de Agosto, na qual me envias os teus parabéns pelo pedido da minha noiva." (...)"

Infelizmente, a rainha D. Estefânia acabaria por morrer apenas dezoito meses depois do casamento, a 17 de Julho de 1859, com apenas vinte-e-dois anos de idade, de Difteria. Uma vez que tinham sido eles a escolher a noiva, o príncipe Alberto e a rainha Vitória ficaram muito abalados com a notícia.

A rainha Dona Estefânia
"Os reis ingleses ficaram sinceramente impressionados com a notícia. No próprio dia em que Estefânia morrera, a rainha Vitória escrevia à filha Vicky, a viver na Prússia: "Pedro é um filho nosso. Fomos nós que arranjamos este casamento para ele, fomos nós que encontrámos esta pérola e, agora, tudo desapareceu - nem sequer existe uma criança como herdeira deles. Estou alarmada com o estado de espírito dele. O querido papá está muito deprimido. E toda a gente fala dele com lágrimas nos olhos." Alguns dias passados, a 3 de Agosto de 1859, a rainha contava, ainda a Vicky, ter recebido uma carta comovedora do rei D. Pedro: "Realmente despedaça-nos o coração e faz-nos pensar a razão pela qual acontecem coisas tão horríveis! O seu destino é tão penoso e inquietante. Desejaria fazer qualquer coisa por ele, pobre rapaz, tudo é horrível. Tanto mais que, dentro de poucos anos, o país esperará que case outra vez. Onde encontrar alguém minimamente adequado para suceder áquele anjo?" (...)

Tão triste andava que levou algum tempo antes de responder às cartas que a tia Vitória lhe mandara. Só a 16 de Fevereiro lhe escreveria, começando exactamente por pedir perdão: "Vossa Majestade tentou aliviar os meus sofrimentos. Não penseis contudo que todo este intervalo de tempo tenha sido para mim um tempo de repouso. Nos últimos tempos, assaltaram-me todo o tipo de preocupações, sobretudo políticas, pelo que o meu espirito ainda não saiu da convalescença, sempre sofrendo profundamente, desencorajado pelo espectáculo de tudo o que rodeia, incerto sobre o meu futuro e sobre o que me acontecerá, é-me muito difícil encontrar, na minha força de vontade, a capacidade para executar a minha difícil profissão. O bem, que o tempo acaba por nos trazer, é sempre e infalivelmente destruído pelos assuntos e pelas lembranças constantes do meu passado tão recente e tão feliz. Trata-se de uma luta contínua entre o corpo e o espirito, da qual, se a calma e o repouso me continuarem a ser negados, um terá de sair vencido." Continuava com um lamento: "A Estefânia resumia todas as minhas ambições, ela tinha tudo o que eu amava no mundo e levou tudo isso com ela!" Menos aberto com a tia do que com o tio, voltaria, no entanto, a escrever-lhe a 30 de Janeiro de 1861, pedindo mais uma vez desculpa no atraso, atribuível, como dizia, ao ciclo alternado de actividade intensa e tranquilidade estéril, a que o governo de Loulé o forçava."

D. Pedro V
Tragicamente, D. Pedro V acabaria por morrer apenas dois anos depois da sua esposa, a 11 de Novembro de 1861, de febre tifóide, quando tinha apenas vinte-e-quatro anos de idade. 

"Na família real inglesa, a morte de D. Pedro foi profundamente sentida. A 12 de Novembro, Vitória escrevia ao seu tio Leopoldo o seguinte: "É um acontecimento quase incrível. E uma perda verdadeiramente europeia! Ele estava tão ligado ao meu amado Alberto, e os temperamentos e os gostos de ambos de tal forma se adequavam e ele tinha tal confiança no Alberto..." A 14, o príncipe Alberto escrevia ao seu tutor, Stockmar: "Você conhece o meu amor por Pedro e a forma como, através da troca de ideias, tentámos ambos trabalhar pelo progresso daquele infeliz país [Portugal]", o que, na prática, o tornara quase um co-regente de Portugal. Na véspera, em carta à filha mais velha, Vicky, dizia lamentar a morte de alguém que poderia ter defendido com integridade o principio monárquico, ajudando desta forma "um povo desgraçado". Alguns dias depois, a 16, Vitória dizia a Vicky: "Foi um golpe terrível para nós - e para o querido papá, que nele tinha encontrado alguém totalmente digno dele, enquanto que, por outro lado, infelizmente, não encontrou [esse consolo] junto de quem mais se esperava e de quem tanto se queria [o príncipe de Gales]. Entretanto, anotava no seu diário: "O meu Alberto tinha muito orgulho nele e amava-o como um filho (tal como me sucedia no meu caso) e ele tinha uma confiança total em Alberto e era digno dela."

D. Pedro V
Texto retirado maioritariamente do livro "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica
Para consultar todas as cartas trocadas entre D. Pedro V e o príncipe-consorte Alberto de Inglaterra, existe o livro "Correspondência entre D. Pedro V e o seu tio, o Príncipe Alberto" também compilado por Maria Filomena Mónica e "Cartas de D. Pedro V ao Príncipe Alberto", compilado e traduzido por Rubén Andersen Leitão.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov - Segunda Parte

As famílias reais do Reino Unido e da Rússia em 1910
Em Czarskoe Selo, os dias iam passando e a partida da família continuava a ser adiada. As conversas sobre Inglaterra começaram a desaparecer aos poucos.

Será que a presença de Nicolau em Inglaterra teria colocado o trono de Jorge em perigo? Olhando para trás, tendo em conta a forma como os eventos se desenrolaram, essa hipótese parece extremamente improvável. Era verdade que a Grã-Bretanha não tinha ficado imune às greves e motins que tinham rebentado por toda a Europa desde a Revolução Russa. Pequenos problemas levavam a greves repentinas. Em 1918, 12.000 trabalhadores de uma fábrica de aviões em Conventry abandonaram os seus postos de trabalho porque tinham ouvido rumores falsos de que seriam obrigados a juntar-se ao exército. Além disso, a Inglaterra, tal como o resto da Europa, tinha a sua quota-parte de pessoas que apregoava uma retórica de mudança, revolução e até uma república. Uma semana depois de o Ministério dos Negócios Estrangeiros retirar o convite ao czar, H. G. Wells escreveu no The Times que a Grã-Bretanha se devia livrar das "amarras antigas do trono e do ceptro", e propôs a criação de sociedades republicanas por todo o país. (Wells tinha já escrito um artigo célebre no qual descreveu o circulo de amigos de Jorge V como "uma corte de extraterrestres e sem inspiração", ao que o rei deu a sua única resposta bem-humorada da qual há conhecimento: "posso não ter grande inspiração, mas raios me partam se sou um extraterrestre"). No entanto, não havia, da parte da população, uma resposta relevante ao republicanismo revolucionário - nada, por exemplo, à escala das centenas de clubes republicanos que surgiram ao longo da década de 1870. De todas as populações civis envolvidas na guerra, os britânicos foram os que menos sofreram em termos de necessidades e mortes - as mortes de civis na Alemanha foram muito superiores do que as da Grã-Bretanha  - e eram os que estavam mais afastados dos campos de batalha. LLoyd George lidou com a agitação que encontrou de forma muito mais eficaz do que qualquer outro estadista na Europa. Apesar de o seu governo ser dominado pelos Conservadores, a grande popularidade que tinha e o seu historial de melhoramentos na vida social do país deram-lhe credibilidade junto dos grevistas, ao mesmo tempo que os seus instintos políticos o levaram a conseguir acordos com os revoltosos, ao contrário do que aconteceu noutros países, onde a solução encontrada foi uma forte e violenta repressão. Enquanto fazia tudo isto, dizia ao país que estava a defender a Liberdade - da forma como esta era vista no sistema britânico - e a destruir a casta militar alemã e a opressão que esta exercia sobre o povo alemão.

O rei Jorge V com membros da alta aristocracia
Se Lloyd George e outros políticos achassem mesmo que trazer o ex-czar para a Inglaterra fosse uma ameaça para a coroa e para a estrutura constitucional da Grã-Bretanha - algo que nenhum deles queria, então nunca teriam sequer aceite o pedido de asilo em primeiro lugar. Foi outra grande ironia que Jorge nunca compreendeu: Lloyd George, o homem que tinha ideais políticos completamente opostos aos dele, foi o homem que manteve o seu trono em segurança. Seria também o homem que iria encobrir o envolvimento de Jorge na rejeição dos Romanov, omitindo por completo o papel que teve no seu livro de memórias, intitulado "War Memoirs", e assumindo por completo a culpa que havia a assumir - apesar de ter alegado falsamente que a Grã-Bretanha nunca tinha retirado o convite, e ter dito, de forma mais verdadeira, que não havia garantias de que o governo provisório tivesse a capacidade de retirar o czar da Rússia. Buchanan também seria culpado por os britânicos não terem conseguido levar o plano adiante; passaria o resto da vida a tentar exonerar-se sem sucesso - também assumiu que a fonte da decisão para retirar o convite tinha sido LLoyd George.

Nicolau II (sentado) com a sua tia Alexandra do Reino Unido (sentada, ao fundo), a sua mãe, Maria Feodorovna (sentada,em frente), o seu primo, Jorge V (em pé) e a avó de ambos, a rainha Lusa da Dinamarca (em pé).
A verdade era que Jorge tinha-se tornado imensamente sensível às críticas dirigidas tanto a si como à monarquia - nesse aspecto estava, na altura, muito mais informado e atento à opinião pública do que qualquer dos seus primos. Qualquer sussurro deixava-o incomodado e profundamente deprimido. Um sinal claro da ansiedade que sentia ficaria para a História alguns meses depois, quando, em Julho de 1917, ficou de tal forma incomodado com algumas insinuações da parte da opinião pública de que a família real não era completamente leal à causa da guerra por terem o apelido alemão de Saxe-Coburgo-Gota, que decidiu mudá-lo para "Windsor". Jorge não estava errado ao assumir que a vinda do seu primo seria muito mal vista num país cujo o governo justificava a guerra como uma luta pela liberdade contra a autocracia. No entanto, é extremamente improvável que tal decisão lhe tivesse custado o trono. Entrou em pânico e colocou as suas preocupações acima das suas relações familiares, que sempre tinha defendido como essenciais, e acima do primo com quem dizia preocupar-se tanto. Foi o golpe final ao culto da família que a sua avó, a rainha Vitória, tinha defendido com toda a força. Foi também uma decisão que revelou uma monarquia ciente da necessidade de se vender aos seus súbditos para sobreviver.

A rainha Alexandra do Reino Unido, Jorge V, a grã-duquesa Xenia Alexandrovna, o príncipe Valdemar da Dinamarca, a princesa Thyra da Dinamarca, o príncipe Jorge da Grécia e Dinamarca, a princesa Maria da Grécia e da Dinamarca e o czar Nicolau II, na Dinamarca, em finais da década de 1880
A 16 de Julho de 1918, o dia em que o czar e a sua família foram assassinados, Jorge V foi assistir a um treino de balões da RAF em Roehampton. A notícia da morte do antigo czar foi dada oficialmente três dias depois. A 25 de Julho, Jorge decretou um mês de luto na corte e escreveu no seu diário que, na companhia da sua esposa Maria tinha estado presente "numa missa na igreja russa em Welbeck street, em memória do querido Nicky que, temo, foi morto a tiro o mês passado pelos bolcheviques. Adorava o Nicky, que era o homem mais gentil que conheci, um verdadeiro cavalheiro que amava o seu país e o seu povo". Três dias depois, escreveu que o vice-cônsul da Grã-Bretanha em Moscovo, Robert Bruce Lockhart, tinha reportado que "o querido Nicky" tinha sido morto a tiro pelo Soviete local de Ecaterimburgo. "Não foi nada mais que um homicídio brutal". Em finais de Agosto, escreveu: "soube da Rússia que há grandes probabilidades de que a Alicky, as quatro filhas e o menino tenham sido assassinados ao mesmo tempo que o Nicky. É demasiado horrível e mostra os demónios que esses bolcheviques são. Talvez tenha sido o melhor para a pobre Alicky. Mas para aquelas pobres crianças inocentes!".

Olga, Anastásia, Alexei, Tatiana e Alexandra, no Palácio de Alexandre, no Outono de 1915
Parece que Jorge e Stamfordham concordaram tacticamente numa espécie de amnésia intencional. Também não demoraram a culpar o governo por não ter feito nada. No dia em que se realizou a missa fúnebre em honra de Nicolau, Stamfordham escreveu a Lord Esher, em tom ofendido:
Alguma vez terá havido um homicídio tão cruel e será que alguma vez este país mostrou uma indiferença de tal forma caluniosa a uma tragédia desta magnitude? O que significa tudo isto? Tanto quanto saiba, o primeiro-ministro nem sequer se fez representar por ninguém. Onde está a nossa compaixão, gratidão, decência comum nacional? Por que motivo é que o kaiser não fez da libertação do czar e da sua família uma condição no tratado de paz de Brest-Litovsk?
Maria com o pai, Nicolau II

Esta carta é um quanto dissimulada, uma vez que apenas três dias antes da missa, Stamfordham tinha dito a Balfour que Jorge não deveria estar presente, uma vez que temia irritar a opinião pública.

O filho mais velho de Jorge, o duque de Windsor, disse que o assassinato dos Romanov abalou profundamente a "confiança que [o pai] tinha na decência humana. Havia uma ligação muito verdadeira entre ele e o primo Nicky". O duque de Windsor afirmou que o seu pai "tinha planeado ir salvar o czar pessoalmente com um navio cruzador britânico, mas o plano acabou por ser bloqueado de alguma forma. De qualquer das formas, o meu pai ficou profundamente magoado por os britânicos não terem levantado uma mão para salvar o seu primo Nicky". Até ao fim da vida, o rei Jorge V costumava dizer "aqueles políticos! Se fosse um deles, tinham agido a tempo!".

Eduardo (futuro rei Eduardo VII e duque de Windsor), Nicolau II, Alexei e Jorge V em 1910

Texto retirado do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter


Reacção do rei Jorge V à morte dos Romanov, retratada na mini-série "The Lost Prince"

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov - Primeira Parte

Jorge V e Nicolau II
"Chegaram más notícias da Rússia," escreveu o rei Jorge V do Reino Unido no seu diário a 13 de Março de 1917, dois dias antes de o seu primo direito, o czar Nicolau II da Rússia, ter abdicado do trono, dando início à Revolução Russa, "praticamente que rebentou uma revolução em Petrogrado e alguns dos regimentos de guardas fizeram motins e mataram os seus oficiais. Este levantamento é contra o governo, não contra a guerra". A 15 de Março, já tinha recebido mais informações: "temo que a responsável por tudo isto seja a Alicky e o Nicky foi fraco (...) estou em desespero".

Era quase o único que se sentia daquela forma. Por todas as ruas do império, desde Moscovo até Tiflis, o fim da autocracia foi celebrado foi sinos, canções, vivas e bandeira. Os símbolos do poder imperial, as insígnias e estátuas, foram arrancados de edifícios e pedestais. Em França e na Grã-Bretanha, a queda do czar foi recebida com alívio. Os excessos do regime tinham-se tornado embaraçosos e havia a esperança de que, com uma democracia, a Rússia tivesse menos vontade de fazer acordos com a Alemanha. Os EUA, que tinham acabado de entrar na guerra, reconheceram o novo governo com entusiasmo logo uma semana depois da abdicação. Lloyd George [primeiro-ministro do Reino Unido], que se estava a esforçar por combater o cansaço da guerra com a ideia de que os sacrifícios da Entente eram a favor da grande causa da Liberdade e da Democracia, enviou um telegrama a dar os parabéns pela revolução, "a melhor coisa que o povo russo fez até agora na defesa da causa pela qual os Aliados estão a lutar". Demonstrava "a verdade fundamental de que esta guerra é, no fundo, uma luta pelo governo do povo, tanto como o é pela liberdade. Mostra que, ao longo da guerra, o princípio da liberdade, que é a única garantia de paz no mundo, já conquistou uma vitória arrebatadora". 

Lloyd George
Jorge V odiou o telegrama e não conseguiu compreender que este tinha sido escrito tanto para consumo interno como para o novo governo russo (que, como se viria a constatar, incluía um número significativo de novos membros que eram muito mais favoráveis às tradições políticas britânicas do que qualquer pessoa do regime czarista). Stamfordham [secretário particular do rei] recebeu instruções para se queixar que o telegrama era "um pouco forte", principalmente tendo em conta que vinha de um governo monárquico. Lloyd George recordou o secretário do rei que a própria constituição britânica tinha surgido graças a uma revolução - a revolução sem sangue de 1688.

Jorge decidiu então enviar a sua própria mensagem de apoio a Nicolau: "os eventos da semana passada deixaram-me profundamente perturbado. Estou sempre a pensar em ti e serei sempre um verdadeiro e dedicado amigo tal como sabes que já fui no passado". O ministro dos negócios estrangeiros do governo provisório, Pavel Miliukov, um antigo membro da Duma que reverenciava Sir Edward Grey [ministro dos negócios estrangeiros do Reino Unido entre 1905 e 1916] e admirava as tradições liberais da Grã-Bretanha, disse a Buchanan [embaixador do Reino Unido na Rússia] que a carta não podia ser entregue ao destinatário. O novo Soviete começava a mostrar uma vontade preocupante de executar o czar. O clima político em Petrogrado era de tal forma instável que o telegrama de Jorge apenas serviria para piorar a situação. A única solução que Miliukov via era retirar o czar da Rússia o mais rapidamente possível. Quando, a 21 de Março, Buchanan avisou que "qualquer violência exercida sobre o imperador e a sua família teria um efeito deplorável e chocaria a opinião publica neste país", Miliukov perguntou-lhe se a Grã-Bretanha estaria disposta a dar asilo aos Romanov. Quando reportou o pedido do ministro dos negócios estrangeiros, Buchanan acrescentou a sua opinião de que o pedido deveria concedido.

Sir George Buchanan, embaixador da Grã-Bretanha na Rússia
Nesse mesmo dia, o antigo imperador e a família foram colocados em prisão domiciliária. Os soldados tinham chegado a Czarskoe Selo uma semana antes, tinham cercado o palácio e cortado o fornecimento de água. Alexandra não soube nada de Nicolau durante três dias. Alexei estava com sarampo e em grande sofrimento. A czarina quase desmaiou quando soube da abdicação, depois reagiu com o seu fatalismo característico: "é o melhor. É a vontade de Deus. Deus vai garantir que a Rússia fica a salvo. É só isso que interessa". O governo provisório disse aos seus prisioneiros que aquela medida era apenas uma precaução para os manter em segurança. Disseram-lhes que o plano era levá-los até à fronteira marítima da Finlândia, que ficava a apenas algumas horas de distância, e colocá-los a bordo de um navio britânico, onde viajariam até à Inglaterra. Nicolau, que recebeu permissão para deixar Stavka antes de regressar a Czarskoe Selo, disse ao representante militar britânico que tinha a esperança de se retirar para a Crimeia, mas que, "se isso não for possível, prefiro ir para a Inglaterra do que para qualquer outro sítio".

Nicolau, Alexandra e as filhas Anastásia, Olga e Maria por volta de 1916-17
Lloyd George não gostava muito da ideia de dar abrigo ao autocrata de todas as Rússias que tinha perdido todo o crédito, mas, quando pediu a opinião do antigo conselheiro do rei Eduardo VII, Sir Charles Hardinge, e a Stamfordham, concordou que "a proposta (...) não pode ser recusada". Stamfordham acrescentou que Buchanan devia "dar a entender" que o governo russo deveria atribuir um rendimento ao ex-czar para ele viver. Quando Lloyd George sugeriu (sem dúvida de forma provocatória) que o rei [Jorge V] podia emprestar "uma das suas casas", o ministro respondeu rispidamente que o rei "não tem casas, excepto Balmoral", que não tinha quaisquer condições. 


Lloyd George (esq.) com o rei Jorge V e o futuro rei Eduardo VIII
Nicolau chegou a Czarskoe Selo nesse mesmo dia, fazendo o seu caminho da desgraça por entre as divisões cheias de soldados curiosos que, agora, não tinham qualquer motivo para se colocar em formação ou fazer a saudação. Quando chegou aos aposentos privados da família, perdeu a compostura e começou a chorar. Um cortesão disse que ele parecia "um velho". Quando tentou sair para ir dar uma volta a pé, foi cercado por seis soldados que o mandaram afastar-se com a ponta das suas espingardas. "Não pode ir para aí, Gospodin Polkovnik [Sr. Coronel]", disseram eles. "Afaste-se quando o mandam, Gospodin Polkovnik". Nicolau deixou-se ficar, pequeno, em silêncio e sem qualquer expressão no rosto. Mais tarde, nessa mesma noite, chegaram três carros armados cheios de soldados demasiado entusiasmados de Petrogrado que anunciaram que iam levar o ex-czar para a fortaleza de São Pedro e São Paulo - outro sinal que mostrava como o controlo que o governo provisório tinha sobre os soldados era ténue. Eventualmente, conseguiram convencer os soldados a ir embora, com a condição de que poderiam ver o czar. Pouco depois da meia-noite, outro grupo de soldados assaltou a campa de Rasputine no parque imperial, exumaram o corpo e queimaram-no.


Nicolau II no verão de 1917, no Palácio de Alexandre
Miliukov garantiu a Buchanan que o governo russo iria pagar o exílio do czar, mas pediu-lhe que não revelasse que o pedido de santuário tinha vindo da parte do governo, uma vez que temia enfurecer a opinião pública e o Soviete de Petrogrado. Parecia claro que levar a família às escondidas para a Finlândia não seria tão simples como parecia. Entretanto passou uma semana. A Inglaterra e Jorge ocupavam claramente os pensamentos da família imperial. Nicolau escreveu no seu diário que estava a planear começar a escolher as coisas que levaria consigo para Inglaterra, Alexandra começou a falar constantemente das memórias que tinha de Osborne e os seus filhos começaram a perguntar aos tutores como seria a sua vida em Inglaterra.

Tatiana e Anastásia com soldados no verão de 1917
Em Londres, Jorge começou a ter sérias dúvidas se seria boa ideia trazer o seu primo para Inglaterra. A 30 de Março, Stamfordham escreveu ao antigo primeiro-ministro, Arthur Balfour, que Lloyd George tinha escolhido para ministro dos negócios estrangeiros:
"O rei tem pensado muito na proposta do governo para que o imperador e a família venham para Inglaterra. Como, sem dúvida, sabe, o rei tem uma amizade pessoal muito profunda com o imperador e, por isso, teria todo o prazer em fazer qualquer coisa para o ajudar nesta crise. No entanto, Sua Majestade não consegue evitar certas dúvidas, não só no que diz respeito aos perigos da viagem, mas também, de um modo mais geral, em termos de conveniência, se seria aconselhável a família real passar a residir neste país".
Balfour enviou uma resposta sem compromissos. Miliukov tinha acabado de enviar outro telegrama a pedir que o czar deixasse a Rússia de uma vez e o antigo primeiro-ministro era da opinião que "embora os ministros de Sua Majestade compreendam as dificuldades aludidas na sua carta (...) são da opinião que, a não ser que haja uma mudança de posição, neste momento já não é possível retirar o convite que foi enviado, e, por isso, esperam que o rei concorde com o convite original, que foi enviado seguindo o conselho dos ministros de Sua Majestade".

A 3 de Abril, duas das damas-de-companhia de Alexandra, Lili Dehn e a odiada Anna Vyrubova, foram presas e levadas para Petrogrado para serem interrogadas. O casal imperial recebeu também ordens para viver em separado enquanto a questão da traição de Alexandra era investigada. 


Alexandra com a sua dama-de-companhia Lili Dehn e a filha Tatiana
A 6 de Abril, Stamfordham escreveu a Balfour a insistir para que o convite fosse retirado:
"A cada dia que passa, o rei preocupa-se cada vez mais com a questão da vinda do imperador e da imperatriz para este país. Sua Majestade recebe cartas de pessoas de todas as classes sociais, pessoas que lhe são ou não conhecidas, nas quais lhe dizem que o assunto está a ser muito discutido, não só nos clubes, mas também pelos trabalhadores, e que os membros do partido trabalhista na Câmara dos Comuns estão-se a mostrar adversos à proposta (...) tenho a certeza que sabe como tudo isto será estranho para a nossa Família Real, que tem relações de parentesco tão próximas tanto com o imperador como com a imperatriz (...) o rei quer que lhe pergunte se, depois de se reunir com o primeiro-ministro, não devermos contactar Sir George Buchanan, no sentido de pedir ao governo russo que arranje outro local para estabelecer a futura residência de Suas Majestades Imperiais?"
Algumas horas depois, enviou outra carta: 
"O rei pede-lhe que faça ver ao primeiro-ministro que, tendo em conta tudo aquilo que ele tem ouvido e aquilo que lê na imprensa, o público iria ressentir fortemente a vinda para este país do ex-imperador e imperatriz e, sem dúvida alguma, iria comprometer a posição do rei e da rainha, de quem, de um modo geral, as pessoas já acham que veio o convite. (...) Buchanan tem de receber instruções para dizer a Miliukov que a oposição à vinda do imperador e da imperatriz para este país é tão forte que temos de retirar o consentimento que foi dado à proposta do governo russo inicialmente".
O rei Jorge V, acompanhado da mãe, a rainha Alexandra, a tia, a imperatriz Maria Feodorovna, e a esposa, a rainha Mary do Reino Unido
A 10 de Abril, Stamfordham encurralou LLoyd George em Downing Street para "lhe transmitir a opinião do rei de que o imperador e a imperatriz da Rússia não deveriam vir para este país e que (...) seria muito injusto para o rei se Suas Majestades Imperiais viessem para aqui quando o sentimento popular contra eles é tão pronunciado". Depois voltou a queixar-se a Balfour, dizendo-lhe que tinha visto um telegrama de Buchanan que "evidentemente achou que a vinda do imperador e da imperatriz estava garantida e que era apenas uma questão de tempo". O rei era da opinião que Buchanan já deveria ter retirado o convite.  

Os argumentos de Stamfordham tiveram efeito no governo. LLoyd George sabia que proteger os Romanov não seria bem visto na Grã-Bretanha e não queria fazer nada que afastasse o governo russo que ia ficando cada vez mais instável. Temia que acabassem por sair da guerra de repente, deixando a frente ocidental vulnerável a um ataque alemão em larga escala. Balfour achava que o rei estava "numa posição complicada". Ninguém iria acreditar que o convite não tinha sido feito pela corte. Talvez fosse melhor enviar os Romanov para o sul da França? O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado: "o governo de Sua Majestade não irá insistir na oferta de hospitalidade que colocou anteriormente à família imperial". Balfour enviou um telegrama a Buchanan e disse-lhe para não falar mais no convite. O embaixador obedeceu com era seu dever. Miliukov já não referia o assunto há alguns dias, parecia óbvio que a questão se estava a tornar numa batata quente para o governo russo e, obviamente, se houvesse "algum perigo de criar um movimento anti-monárquico", então a Inglaterra não era o melhor lugar para colocar o czar e era melhor pedir a opinião dos franceses. Mas, em casa, segundo a sua filha, era óbvio que o embaixador estava profundamente perturbado.

Anastásia e Nicolau rodeados de soldados no parque de Alexandre no verão de 1917
Texto retirado do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter