Java

Mostrar mensagens com a etiqueta catarina mikhailovna. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta catarina mikhailovna. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Helena Pavlovna: Um Sacrifício Inútil? - Segunda Parte

Helena Pavlovna
A grã-duquesa Helena estava a criar um salão no Palácio de Mikhail em São Petersburgo e nos palácios de verão do marido, semelhante aos que tinha conhecido em Paris na sua juventude, atraindo para junto de si as pessoas mais criativas e interessantes da Rússia. Ela era uma das senhoras com a posição mais elevada no país e a sociedade não gostava do facto de o dinheiro e a posição não serem critérios importantes para entrar no circulo da grã-duquesa. Apenas eram convidadas as pessoas mais inteligentes, artistas e músicos e a censura rígida importa pelo seu cunhado Nicolau I também não tinha permissão para entrar na sua porta. Gogol, Pushkin e Turgenev foram alguns dos escritores apoiados por Helena e sabiam que podiam expressar qualquer ideia na casa dela sem medo de represálias e com uma audiência atenta e ansiosa por ouvi-los.

Helena Pavlovna com a sua filha mais velha, Maria
À medida que a confiança de Helena foi aumentando, foi-se dedicando cada vez mais às pessoas que precisavam de ajuda. Tornou-se uma grande amiga dos dois filhos mais velhos do czar, Alexandre e Constantino, e apresentou-lhes novas ideias que eles nunca poderiam ouvir em casa. Quando a princesa Maria de Hesse-Darmstadt, a noiva do czarevich Alexandre Nikolaevich, chegou à Rússia muito tímida, infeliz e com apenas quinze anos, Helena, que compreendia perfeitamente o que significava ser uma estranha na corte, tornou-se rapidamente sua amiga. Helena tinha um carinho especial pelo segundo filho do czar, o grão-duque Constantino Nikolaevich e, quando chegou a altura de ele se casar, foi ela que sugeriu a princesa Alexandra de Saxe-Altemburgo, uma prima sua do lado da mãe, para sua noiva. Os dois acabariam mesmo por se casar e a princesa Alexandra adoptou o nome de grã-duquesa Alexandra Iosifovna quando se converteu à Igreja Ortodoxa.

Helena Pavlovna
Mas, apesar de estar a ganhar cada vez mais confiança, Helena também sofreu muitas tristezas durante estes anos. No início de 1844, a sua filha Isabel Mikhailovna casou-se com o enteado da sua irmã Paulina, o duque Adolfo de Nassau. Isabel morreu um ano depois, depois de dar à luz um bebé que também não sobreviveu. No ano seguinte, o estado de saúde da sua filha mais velha também começou a deteriorar-se. A grã-duquesa Maria Mikhailovna nunca tinha tido uma constituição forte. Estava em Viena quando chegou o seu fim e parece que o pai estava com ela, uma vez que foi ele que deu a notícia à família. Nas cartas que o grão-duque trocou com a família, apenas de fala da dor que ele sentia por ter perdido duas das suas filhas. Não existe qualquer referência a Helena. Este facto pode reflectir apenas o antigo laço que existia dentro da "Triopatia" ou pode mostrar grandes divisões dentro da família de Miguel. No verão de 1849, o grão-duque Miguel estava a participar em manobras do exército em Varsóvia quando sofreu uma apoplexia. Morreu na Polónia alguns meses depois e, mais uma vez, nem a grã-duquesa Ana nem o czar Nicolau I fizeram qualquer referência à sua cunhada.

A grã-duquesa Maria Mikhailovna
Independentemente do que tivesse sentido com a morte do marido, o estatuto de viúva deu mais independência a Helena. Deixou de comemorar a Páscoa na corte e passou a preferir estar no seu próprio palácio com a sua única filha ainda viva, a grã-duquesa Catarina Mikhailovna. A partir desse momento, passou a lidar com a família imperial nos seus próprios termos. Catarina casou-se com o duque Jorge de Mecklemburgo-Schwerin em 1851, mas ele gostava da Rússia e não se importava que a sua esposa passasse grande parte do ano com a mãe. A família rodeava-se de pessoas interessantes. em 1848, o músico Anton Rubinstein foi a São Petersburgo e ficou alojado no Palácio de Mikhail. Com a sua ajuda, Helena criou o que se viria a tornar, no futuro, o Conservatório de São Petersburgo. Cinco anos depois, convidou a princesa Kurakin para ser sua dama-de-companhia. A princesa tinha passado catorze anos fora da Rússia, tinha assistido à Revolução de 1848 em Paris e trazia consigo novas ideias para a casa.


Helena Pavlovna
A educação das mulheres era um dos maiores interesses de Helena que costumava perguntar aos filhos da princesa Kurakin sobre os seus estudos em Paris. Enviou também a antiga governanta da sua filha, Mademoiselle Troubat a França para que ela observasse como era a educação no país e para reportar os desenvolvimentos que tinha visto. Helena sonhava em melhorar os padrões de educação de todas as mulheres russas, um sonho que partilhava com a jovem czarevna Maria Alexandrovna. A sociedade não via com bons olhos a amizade entre a grã-duquesa e a nova geração de Romanovs: ela gostava demasiado de reforma e as suas ambições iam muito além das salas de aula.


Helena Pavlovna
Sob a protecção de Helena, os intelectuais russos tinham a liberdade de expressar o seu descontentamento cada vez maior com o sistema de propriedade fundiária que fazia com que um homem se tornasse propriedade de outro. O trabalho controverso de Samarin sobre a abolição da servidão foi lido e discutido na sala-de-visitas do Palácio de Mikhail, e Helena ficou de tal forma comovida que pediu permissão ao czar para libertar os servos que tinha herdado do marido. Nicolau I recusou. Mesmo assim, Helena começou a gerir as propriedades com linhas de orientação mais humanitárias que horrorizaram o governador provincial, que se queixou que se iria perder toda a disciplina.


Este tipo de preocupações ficou para trás quando rebentou a Guerra da Crimeia. Helena não se juntou ao coro de vozes que criticavam o czar e colocou de lado o amor que sentia pela França. Organizou uma sociedade de recolha de fundos privada para ajudar os feridos e criou uma ordem de enfermeiras, apesar das fortes criticas por parte da hierarquia militar. O czar confiou nela e deu-lhe o que ela queria, tendo concordado com o pedido dela para a criação de uma comissão no exército para Pirogov, um dos mais respeitados cirurgiões da época. A ordem de enfermeiras de Helena tornou-se a precursora da Cruz Vermelha na Rússia, e o seu interesse pela área médica e cientifica aumentou.


Com a morte de Nicolau I, o novo reinado deu-lhe a oportunidade de levar a cabo mudanças políticas efectivas. Finalmente conseguiu libertar os servos nas suas propriedades de Poltava e os seus salões passaram a dedicar-se completamente à causa da abolição. A grã-duquesa conhecia Alexandre II desde que ele era apenas uma criança e agora encorajava-o nos seus planos para a reforma do país apoiada também pelo grão-duque Constantino Nikolaevich e pela sua amiga, a nova czarina Maria Alexandrovna. Os quatro faziam uma equipa extraordinária. Sozinho, Alexandre poderia nunca ter tido a força para levar a cabo as políticas mais exigentes, mas quando os ministros conservadores de Alexandre estavam prestes a vencê-lo, Helena apresentou o sobrinho de Kisselev, Nikolai Milutin, a Maria Alexandrovna e conseguiu colocá-lo no comité que estava a trabalhar na libertação. Com Milutin e Constantino a seu lado, Alexandre conseguiu levar a reforma até ao fim. A abolição da servidão, que se tornou lei a 3 de Março de 1861, foi a grande feito do reinado de Alexandre II, mas é possível que ele nunca o tivesse conseguido sem a ajuda do irmão, da esposa e da tia. A oposição era feroz. Helena dava de tal forma importância à sua amizade com Milutin que as pessoas que estavam dispostas a tudo para travar a emancipação tentaram destruí-la, espalhando rumores que os dois partilhavam mais do que amizade e interesse por política. Helena ignorou-os.

Constantino Nikolaevich
O mundo que Helena criou depois da sua experiência de casamento horrível era um mundo de mulheres. A sua vida era dedicada à sua filha e às suas criadas. Interessava-se sinceramente pelas suas vidas e ideias e era sempre gentil com os seus filhos. A sua mão direita era a sua dama-de-companhia, a baronesa Editha von Rahden, que partilhava as suas preocupações, a mantinha informada e tratava da correspondência. A baronesa era encantadora, entusiasmada, inteligente e muito gentil. Tinha tempo para todos, embora a sociedade a olhasse um pouco de lado por levar a etiqueta demasiado a sério. Dizia-se que as vénias dela eram mais fundas do que as de qualquer outra pessoa. Os homens só podiam entrar neste circulo encantador se fossem convidados. Helena mantinha uma certa distância à sua volta que desencorajava informalidades. No seu diário, Kisselev descreveu-a como "uma mulher de grande inteligência e com um coração de ouro. Não dava a sua amizade facilmente, mas, quando o fazia, era inabalável como uma rocha (...) nunca faz conversa de circunstância, só tem conversas profundas. Todos os que a conhecem fica admirado com a vastidão da sua sabedoria".

Helena Pavlovna
O salão no Palácio de Mikhailov era o local mais procurado na época e ainda não era possível comprar a entrada, algo que não era bem visto. As noites de quinta-feira eram dedicadas a encontros entre artistas e cientistas; noutros dias organizavam-se jogos de debates ou festas, e havia sempre música. Ocasionalmente, Helena encomendava traduções de livros. Alexandre II não perdeu uma única leitura das memórias da baronesa Oberkirchen, que tinha acompanhado os seus avós a Versalhes na época de Maria Antonieta. Constantino Nikolaevich também aparecia com frequência. Havia ainda muito que não tinham perdoado Helena e Constantino pelo papel que tinham desempenhado na libertação dos servos e começaram a espalhar rumores de que os dois tinham planos para roubar o trono a Alexandre. Em tempos mais dourados, os rumores eram ignorados, mas deixaram sempre uma sombra sobre tia e sobrinho que nunca desapareceu completamente.

Alexandre II
Na primavera de 1862, Helena encontrou uma nova função para o Palácio de Mikhail. Os revolucionários tinham incendiado vastas zonas da cidade, tendo causado dezenas de mortos, feridos e desalojados. A princesa transformou metade do palácio numa cantina e outras pessoas seguiram-lhe o exemplo. Era típico de Helena ter uma abordagem prática quando ocorriam tragédias nacionais, e também quando havia tragédias mais particulares.Quando uma das damas da sua filha, uma jovem princesa Kurakin, entrou em depressão devido à morte do irmão, Helena colocou-a à frente de lar para senhoras idosas que ela tinha acabado de abrir. Depois, trabalhou ao lado da jovem, ajudou-a a lidar com os problemas do dia-a-dia, e a aprender mais sobre ela própria no processo. Também oferecia a sua ajuda sem problema a pessoas que não conhecia: sem publicidade nem alarido, pagou pensões a vários artistas e músicos em quem reparava, para que eles pudessem continuar o seu trabalho.


Catarina Mikhailovna, filha de Helena Pavlovna, com o seu marido, Jorge de Mecklemburgo-Strelitz com os seus dois filhos mais velhos: Helena e Jorge
À medida que o tempo ia passando, Helena começou a passar cada vez mais tempo a viajar pela Europa, e, em 1863, encontrou um novo interesse. Durante uma visita à sua irmã Paulina, conheceu a princesa Isabel de Wied, a neta por afinidade da sua irmã, que na altura tinha dezanove anos de idade. Isabel era uma jovem que tinha os horizontes mais largos do que outras da sua idade: era inteligente e artística, profundamente emocional e extremamente ligada à sua casa. Helena perguntou se podia levar a princesa consigo nas suas viagens, e a família dela ficou encantada. Nesse outono, Helena viajou com ela até ao Lago Lemano e as duas ficaram alojadas no Hotel Beaurivage em Ouchy. Isabel ficou eternamente grata pela simpatia da grã-duquesa. "Gosto cada vez mais da minha tia", escreveu ela à sua mãe. "Fico feliz por poder estar ao pé dela e, quando ela sai, estou sempre a pensar nela".

Isabel de Wied
Juntas, continuaram a viagem até São Petersburgo para o inverno. A família imperial recebeu-a com alegria e Helena certificou-se de que a sua protegida aproveitava bem o tempo. "O dia dela está preenchido com música, leitura, estudo de russo e com o tempo que ela passa comigo", a grã-duquesa contou à princesa de Wied, "Também a tenho incentivado a ter sempre um bom livro à mão. Para aumentar o interesse dela e incentivá-la a trabalhar sozinha, aconselhei-a a transcrever passagens e a comentá-las e depois enviá-las para ti. Quer estejamos aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, não nos podemos esquecer que vamos deteriorando se não tentarmos fugir da frivolidade que afecta este mundo através do pensamento e da leitura". Isabel teve aulas de piano com Anton Rubinstein e Clara Schumann. Às segundas-feiras à noite, ia à opera com Helena, às quintas-feiras lia-se Shakespeare e os jantares dançantes concluíam a semana. O palácio enchia-se de música maravilhosa. Depois, quando Isabel adoeceu, Helena cuidou dela, com a ajuda da sua filha Catarina e da baronesa Rahden. O príncipe de Wied morreu enquanto Isabel estava doente, mas ela decidiu ficar na Rússia até ao verão seguinte, quando Helena a levou de volta para casa.

Isabel de Wied
Durante os três anos seguintes, Isabel acompanhou a sua tia-avó sempre que ela viajou pela Europa. Quer a grã-duquesa esteve a jogar jogos com o general Moltke em Ragaz, a organizar encontros intelectuais em Carlsbad ou a visitar a Grande Exposição em Paris, Isabel estava sempre ao seu lado. Foi em Ragaz, em 1866, que a jovem princesa ficou a saber que estavam a decorrer negociações para o seu casamento com o príncipe Carlos de Hohenzollern-Sigmaringen, que, um dia, se tornaria rei da Roménia e seu marido.

Isabel de Wied, Carlos da Roménia e a sua única filha, Maria
Os últimos anos de Helena foram ocupados com a sua filha, os seus três netos de Mecklemburgo e os seus interesses. A sua ordem de enfermeiras estava a florescer e ela já tinha aberto um hospital, mas mesmo assim sentia que não era suficiente- Sonhava com a criação de uma instituição médica maior e fez planos para isso. Embora não tenha vivido para ver esses planos concretizarem-se, o Instituto da Grã-Duquesa Helena Pavlovna formou alguns dos melhores médicos da Rússia e manteve o seu nome vivo até à Revolução Russa. Helena evoluiu muito desde a jovem infeliz de dezassete anos que tinha perdido o gosto de viver. Alguns dizem que ela era convencida, mas são poucos. Tornou-se importante para o seu país graças, em grande parte, aos seus próprios esforços e as agonias do passado dissiparam-se, tornando-se apenas em histórias que contava à lareira para encorajar as jovens mais novas quando as suas vidas pareciam vazias e sem esperança.

Helena Pavlovna
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Helena Pavlovna: Um Sacrifício Inútil? - Primeira Parte

Helena Pavlovna, nascida princesa Carlota de Wuttemberg
Um dia, nos primeiros anos do século XIX, estava uma jovem sentada à janela no Palácio de Inverno. Entre lágrimas, olhava as águas cinzentas e agitadas do rio Neva e o que mais queria era não sentir nada. A grã-duquesa Helena Pavlovna tinha dezassete anos, estava presa num casamento com um homem que não mostrava qualquer sinal de afecto ou até interesse nela, e os anos pareciam infinitos, sem esperança e vazios. O czar entrou na divisão onde ela estava, mas a grã-duquesa desviou o olhar. Alexandre I não precisou de perguntar o que se passava; sentou-se ao lado de Helena e começou a contar-lhe um pouco da história da sua vida, dos seus próprios problemas, esperanças e medos. "Não somos donos de nós mesmos", disse ele, "não passamos de ferramentas nas mãos de Deus, destinados a cumprir a vontade Dele; somos o meio que Ele escolheu. A nossa felicidade resume-se a seguir o Seu chamamento, só assim podemos praticar o bem". Foi um conselho pouco reconfortante, mas Helena ficou comovida com a bondade dele e iria recordar este episódio como o ponto de viragem na sua vida. Na verdade, as coisas iriam piorar muito mais antes de ela conseguir sentir alguma melhora.

Helena Pavlovna
Para casar com um membro da família Romanov, Helena tinha deixado tudo para trás, incluindo o seu nome. Dois anos antes desta conversa com o czar, era simplesmente a princesa Carlota de Wuttemberg, e vivia com o pai e a irmã em Paris. As duas princesas viviam de forma muito modesta, sendo responsáveis por costurar as suas próprias roupas, e estudavam num instituto. Foi lá que conheceram Miss Walter, uma parente do conhecido paleontologista e anatomista Georges Cuvier. Carlota e a irmã passaram muitos serões em casa de Cuvier, na companhia do seu pai, o príncipe Paulo, e estudaram sob a orientação deste grande homem, ao mesmo tempo que ouviam as conversas intelectuais que se trocavam à mesa dele. Foi para conseguir este tipo de vida intelectual que Paulo tinha deixado a sua cidade natal de Estugarda em 1815, tendo-se mudado para Paris com as suas filhas mais novas porque achava que a vida na capital francesa era mais apelativa.

Paulo de Wuttemberg, pai de Helena
Em casa, em Wuttemberg, tinha deixado a sua esposa e dois filhos, além de um legado amargo. A família Wuttemberg não apoiava a sua decisão de se mudar para Paris. Deram-lhe ordens para regressar a casa para que as suas filhas pudessem ser educadas de forma mais adequada às suas posições, mas o príncipe desafiou-os. Os Romanov estavam convencidos de que a infância e adolescência de Helena tinham sido infelizes. Os únicos pormenores sobre estes anos da sua vida vêm das histórias que ela contou mais tarde às suas criadas, mas, aí, não há sinais de infelicidade. É possível que só se lembrasse daquilo que queria. Helena contou-lhes histórias da sua vida em Paris e sobre os seus estudos com Cuvier, falou-lhes também do seu pai, que recordava com carinho, mas nunca mencionou a sua mãe nem Estugarda. A princesa Isabel Kurakin, cuja mãe era uma das damas-de-companhia da grã-duquesa, achava até que Helena tinha perdido a mãe muito nova quando, na verdade, a sua mãe só morreu quando ela tinha mais de quarenta anos. É provável que o grande casamento de Helena com um grão-duque russo tenha sido a forma que a família real de Wuttemberg encontrou para recuperar a sua autoridade.

Carlota de Saxe-Hildburghausen, mãe de Helena Pavlovna
Helena conheceu o marido no verão de 1822, mas o noivado já tinha sido arranjado vários meses antes do encontro. O noivo era o grão-duque Miguel Pavlovich, o irmão mais novo do czar Alexandre I, e o seu único interesse era o exército. Os homens comuns no exército viam-no como um disciplinário exigente, até brutal, mas as pessoas que o conheciam verdadeiramente gostavam dele pela sua boa-disposição e generosidade e toda a família o adorava. Pouco antes deste encontro, Miguel nunca tinha mostrado grande interesse em casar-se, e a única preocupação da sua mãe tinha sido a falta de princesas adequadas para o filho. Aparentemente, nunca se lembrou de Carlota, o que era estranho, uma vez que ela era também uma princesa de Wuttemberg e o príncipe Paulo era seu sobrinho e, além de ter nascido em São Petersburgo, tinha recebido o nome em homenagem ao seu marido, o czar Paulo I.

O grão-duque Miguel Pavlovich
No entanto, depois de o noivado ser confirmado, começaram a chegar relatos encorajadores sobre a noiva a São Petersburgo. Diziam que Carlota era excepcional, muito madura para os seus quinze anos de idade, e, embora não fosse propriamente bonita, tinha um rosto doce e expressivo. A princesa viajou para norte em Agosto de 1823 e Miguel foi ter com ela à fronteira de cavalo. Ficou impressionado com a postura e aparente confiança dela e impressionado quando a ouviu cumprimentar os oficiais em russo. Na festa de recepção que foi dada em sua honra, Carlota encantou os duzentos convidados quando falou com cada um deles pessoalmente. Disse ao historiador Nikolai Karamzin que tinha lido o seu volume mais recente em russo e, quando foi apresentada aos generais, o seu tema de conversa mudou para batalhas e estratégia. Os ensinamentos de Cuvier tinham-lhe dado um nível de cultura e inteligência que ninguém estava à espera de encontrar numa jovem de dezasseis anos. Uma princesa a entrar na casa do seu novo marido devia ser doce, infantil e inocente, branda o suficiente para se poder adaptar aos hábitos da família e do país. Esta princesa já tinha uma personalidade própria muito forte.

Retratos do grão-duque Miguel Pavlovich, da sua mãe, a czarina Maria Feodorovna e da sua esposa, a grã-duquesa Helena Pavlovna
À medida que as semanas foram passando, foram aumentando os elogios às qualidades invulgares de Carlota. Sabia conduzir bem as cerimónias da corte, dançava de forma muito bonita, o seu feitio era adequadamente reservado. Era tudo uma fachada: em privado, os seus períodos estavam atrasados e sofria fortes dores de estômago; quando participou pela primeira vez numa missa ortodoxa, ficou pálida, a suar e quase desmaiou, mas esforçou-se por aguentar até ao fim. Os sinais de perigo já existiam: Maria Feodorovna reparou que o filho não dava atenção nem era carinhoso com a esposa, mas tentou ignorar o problema o mais possível, por acreditar que ninguém poderia ser infeliz com o seu Miguel. Houve apenas uma pessoa na família que viu a situação com clareza. O grão-duque Constantino Pavlovich conhecia bem o irmão e o resumo que deu da situação era assustador: "O casamento", escreveu ele, "é um acessório que ele podia ter dispensado sem grande problema".

Constantino Pavlovich
Antes de Carlota viajar até São Petersburgo, Constantino tinha tentado convencer Miguel a romper o noivado. Também tinha falado com a mãe e com uma das irmãs, mas ninguém lhe quis dar ouvidos. O assunto começou a avançar demasiado. Carlota converteu-se à Igreja Ortodoxa a 17 de Dezembro de 1823 e adoptou o nome de Helena Pavlovna: o seu nome de baptismo nunca mais voltaria a ser utilizado. O seu noivado foi celebrado oficialmente no dia seguinte e a princesa usou um vestido de veludo azul com uma cauda comprida, bordada com rosas e folhas prateadas, e um diadema de esmeraldas. Estava magnifica. A 20 de Fevereiro de 1824, Helena e Miguel casaram-se numa capela temporária que tinha sido erguida na sala de recepção do czar. Alexandre estava com dores na perna, mas a família nunca considerou sequer a hipótese de realizar o casamento sem ele.

Helena Pavlovna
Quinze dias depois, já havia problemas no casamento. Miguel dizia estar feliz, mas não fazia ideia do que era preciso fazer para manter um casamento. "Apesar do facto de até poder amar a esposa", escreveu Constantino à sua irmã Ana, "continua a tratá-la com frieza e indiferença. Não consigo perceber se o faz por ser uma situação nova, por timidez ou por qualquer outro motivo". Constantino gostava de Helena. Via que, atrás das suas conversas inteligentes e divertidas, ela era uma pessoa muito sensível, e tentou mudar a atitude do irmão, mas sem sucesso. Em Abril, o grão-duque Nicolau (futuro czar Nicolau I) escreveu que Miguel se estava "a esforçar muito para ter filhos, mas parece que não tem conseguido". Mais optimista do que o irmão mais velho, Nicolau nunca viu a tempestade que se escondia por baixo da superfície.

Miguel Pavlovich
Helena deu à luz a primeira filha, a grã-duquesa Maria Mikhailovna, em Março do ano seguinte. Poucos meses depois, já estava grávida novamente. A czarina-viúva, que ainda queria acreditar que tudo correria pelo melhor, elogiou a disciplina da sua nora: "ela organiza o tempo que tem muito bem. Passa as manhãs inteiras a estudar, apesar de ter náuseas e vómitos". As mortes de Alexandre I e da sua esposa nesse inverno fizeram com que Helena perdesse os seus amigos mais chegados na família imperial. Com a chegada da primavera, foi enviada para Moscovo, para dar à luz mais uma menina a quem chamou Isabel, em honra do czarina que tinha morrido alguns meses antes. Juntou-se uma multidão no Kremlin para celebrar a ocasião e todos cantaram um Te Deum, mas, afastada das comemorações, Helena sofreu de febre do leite e de dores pós-parto durante várias semanas. Na mesma altura, havia relatos de que, na mesma altura, Miguel estava muito bem disposto e cheio de trabalho.

Helena Pavlovna
No início do ano seguinte, Helena estava grávida novamente e, mais uma vez, a sofrer. A sua primeira filha começava a mostrar os primeiros sintomas de tuberculose e os médicos davam-lhe poucas hipóteses de sobreviver. A sua terceira filha, Catarina, nasceu em São Petersburgo no verão de 1827, e, desta vez, Helena não conseguiu recuperar dos efeitos do parto. Física e psicologicamente, já não tinha mais forças. O seu comportamento começou a ser cada vez mais criticado e, finalmente, a grã-duquesa atingiu o seu limite. Decidiu que o seu casamento já não tinha salvação, mas, quando pediu ajuda à sua família paterna, eles fecharam-lhe as portas. A mãe, o tio (o rei de Wuttemberg), a avó, até o pai em Paris, recusaram-se a ajudá-la. O casamento, apesar de horrível, continuava a ser um casamento. A família imperial permitiu apenas uma separação temporária. Enquanto Miguel partiu com o exército para lutar numa das guerras intermináveis da Rússia contra a Turquia, Helena viajou para sul, para um spa em Ems, deixando as suas filhas com a czarina-viúva.

Isabel, Maria e Catarina Mikhailovna, filhas de Miguel Pavlovich e Helena Pavlovna
A caminho do spa, Helena fez uma paragem no palácio de Constantino Pavlovich em Varsóvia e o grão-duque ficou chocado com o estado dela e zangado por ninguém ter prestado atenção aos seus avisos. Escreveu numa carta à irmã que "temos de concordar que esta jovem e encantadora mulher foi sacrificada de forma gratuita e inútil. A sua posição é assustadora (...) e o pior de tudo é que ninguém se quer colocar no lugar dela para a poderem compreender. A minha esposa e eu fizemos os possíveis para a tentar animar, que estava muito baixa". A grã-duquesa Ana Pavlovna concordou: "Também sinto que ela é uma pessoa nobre - completamente sacrificada - que, na minha opinião, só padece destes pequenos defeitos de que é acusada porque foi provocada ou está magoada por causa desta sucessão de dificuldades sem fim que não consegue aceitar porque é demasiado alegre e demasiado nova para isso." Ambos os irmãos esperavam que, agora que Helena tinha deixado a sua posição mais clara, que Miguel a respeitasse mais e que começasse a dar valor à sua vida como casal. Esta parecia ser a sua única oportunidade.

Ana Pavlovna da Rússia, rainha dos Países Baixos
Helena ficou afastada da Rússia durante pelo menos um ano. A czarina-viúva morreu e, no seu testamento, deixou uma ajuda para que a sua nora pudesse adaptar-se melhor à vida na corte russa, tendo-lhe deixado a administração de duas instituições caritativas. Havia alguma preocupação com a forma como Miguel Pavlovich iria gerir as suas finanças, por isso a sua mãe decidiu proteger o dinheiro, colocando uma boa parte dele num banco, ao qual Miguel não tinha acesso. O casal tinha trocado cartas durante o seu período de separação, e tinham conseguido chegar a uma espécie de acordo de paz: Helena regressou à Rússia e, no início de 1830, sofreu um aborto. Teve mais duas filhas, Alexandra e Ana, mas ambas morreram muito novas. Na primavera de 1835, Miguel e Helena levaram as filhas para um spa na Boémia, mas o casal não estavam habituados a estar juntos. Depois disso, Miguel começou a passar cada vez mais tempo em viagens pela Europa, enquanto que Helena começou a construir a sua própria vida em São Petersburgo, uma vida na qual não havia espaço para Miguel.

Miguel Pavlovich

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat