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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Locais - A Casa Ipatiev


Quando foi decidido prender a família Romanov em Ekaterinburgo, uma cidade mineira no centro da Sibéria, os bolcheviques escolheram uma casa localizada no centro histórico da cidade na Rua Voznessenki para ser usada como prisão.
O nome da casa vem do nome do seu proprietário, Nikolai Ipatiev. Este homem viveu com a sua família no primeiro andar da casa e usou os quartos subterrâneos como escritórios para o seu negócio de metalúrgica.  Era uma casa espaçosa (18 por 31 metros quadrados) e moderna com electricidade, telefone e até uma casa-de-banho com lavatório (muito raro na altura). A casa tinha também um terraço e um pequeno jardim com algumas árvores e arbustos.

A vedação de madeira da casa Ipatiev

A casa foi construída em 1897 por um homem chamado Andrei Redikortsev, que era um engenheiro nas minas de ferro. Mas Andrei estava envolvido em casos de corrupção e foi obrigado a vendê-la a outro homem, IG Charaviev. Este homem também trabalhava no negócio mineiro, mas nas minas de prata no Oeste dos Montes Urais. Em 1908, Charaviev vendeua casa a Nikolai Ipatiev por 6000 rublos.

Dez anos depois, no dia 27 de Abril, os bolcheviques ordenaram a Nikolai que abandonasse a sua casa dentro de dois dias depois de guardar todos os seus bens num pequeno quarto fechado no andar de baixo, mesmo ao lado da cave

a casa Ipatiev  na  cidade de Ekaterinburgo

A família imperial viveu na casa desde Abril até Julho, sob condições lastimáveis onde faltavam a privacidade e o respeito. Todos os dias tinham apenas uma hora para abandonar o seu interior e passear pelo jardim.

o jardim da casa Ipatiev

Na  casa as quatro Grã-Duquesas partilhavam um quarto enquanto que os seus pais e Alexis se reuniam noutro. Quase todos os dias os bolcheviques surpreendiam a família e os poucos acompanhantes que restavam com inspecções surpresa.


patamar superior

A família foi assassinada na cave da casa na madrugada do dia 18 de Julho de 1918. Nas suas paredes, um dos carrascos escreveu:

"E na mesma noite, Belsaczar foi morto pelos seus próprios escravos"

Trata-se de uma referência ao último rei da Babilónia, Belsazar, onde foi acrescentada deliberadamente a palavra "czar.

cave da Casa Ipatiev após o assassinato

Outras imagens da casa:


sala de desenho

sala de jantar

quarto das Grã-Duquesas

quarto de Nicolau, Alexandra e Alexis

detalhe da parede do quarto do czar

Após a morte dos Romanov a casa teve muitos usos.
Logo em 1923, as fotografias da casa foram espalhadas pela imprensa Sovietica como “o último palácio do último czar”. Em 1927, a casa foi introduzida num ramo do Museu da Revolução dos Montes Urais. Depois disso tornou-se numa escola de agricultura para, em 1938, se transformar num museu Anti-religioso. Durante este período era costume os membros do partido comunista que visitavam a casa tirar fotografias junto da parede danificada pelos assassinatos do czar e da família na cave. Em 1946 tornou-se a sede do Partido Comunista local. Em 1974 foi oficialmente registada como “Monumento Histórico da Revolução”, no entanto, para embaraço do governo, a casa estava a tornar-se um popular local de peregrinação para aqueles que queriam honrar a memória da família imperial.


Em 1978, à medida que o 60º aniversário da execução da família se aproximava, o Politiburo decidiu tomar medidas, declarando que a casa não tinha “importância histórica suficiente” e ordenou a sua demolição. Esta tarefa passou para as mãos de Boris Iéltsin, responsável pelo partido local que demoliu a casa em Julho de 1977. Mais tarde ele escreveu nas suas memórias publicadas em 1990 que, “mais cedo ou mais tarde todos estaremos envergonhados com este exemplo de barbaridade”. Mas apesar desta acção, os peregrinos continuavam a chegar ao local, muitas vezes em segredo, a meio da noite. Muitos deixavam as suas lembranças no local vazio.


Após a queda da União Soviética foi erguida uma cruz no local onde se encontrava a cave, de forma a não esquecer as atrocidades lá cometidas. No momento em que esta cruz foi colocada, existem relatos de que, no meio do dia cinzento e cheio de nuvens, um raio de sol a iluminou durante 40 minutos apesar de o dia continuar escuro.

Mais tarde seria construída a Igreja do Sangue Derramado de Todos os Santos perto do local para que todos pudessem prestar a devida homenagem aos Romanov.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Locais - Palácio de Alexandre


O Palácio de Alexandre é lembrado principalmente por ter sido a residência favorita de Nicolau II e da sua família. O palácio situa-se no Parque de Alexandre, em Czarskoe Selo, a 26 quilómetros de distância de São Petersburgo.


O Palácio de Alexandre foi mandado construir por Catarina, a Grande, para o seu neto, o futuro czar Alexandre I. Ela começou a planear o edifício quando ele era bastante novo e tinha a intenção de o oferecer quando ele se tornasse adulto. Ela gostava de discutir ideias sobre o palácio com o jovem Alexandre e convidava-o a fazer esboços com as suas próprias ideias.

O arquitecto escolhido para o palácio foi Giacomo Quarenghi que nasceu em Bergamo, Itália em 1744 e morreu em São Petersburgo em 1817. Desde que o arquitecto chegou à Rússia que a Czarina Catarina o contratou e financiou muitas das suas obras durante o seu reinado. Ele era um dos seus arquitectos favoritos. Ele era um mestre de desenho e produzia planos de sépia esplêndidos para o palácio que ainda existem hoje.

quarto de Alexis

Originalmente, o Palácio de Alexandre, foi planeado para ser construído em São Petersburgo. Os primeiros esboços mostravam claramente a intenção de uma obra urbana, com um maior ornamento na fachada e um complexo planeamento do interior. A certa altura, Catarina decidiu construi-lo em Czarskoe Selo e simplificou o plano.

quarto de brincar das crianças

Catarina seleccionou um local perto da sua própria residência, o Palácio de Catarina, para iniciar a construção. Este local era uma colina baixa do outro lado do parque do Palácio. Mudar a localização do palácio da cidade para Czarskoe Selo, significou muitas mudanças na estrutura original. Em São Petersburgo, o palácio tinha sido pensado como uma residência permanente para todo o ano, enquanto que em Czarskoe Selo foi construído para ser um palácio de Verão, apenas para ser habitado alguns meses. Estas circunstâncias reduziram a necessidade de investir em interiores demasiado caros ou em exteriores elaborados para impressionar o público. Os planos para o palácio foram também adaptados para se inserirem na atmosfera mais calma de uma residência de Verão.


Seguindo as práticas da altura, em 1792, a Corte Imperial colocou anúncios nos jornais de São Petersburgo para que os construtores privados começassem a lançar as suas propostas para construir o palácio. A empresa seleccionada foi colocada sob supervisão do arquitecto russo, Nilov, que tinha a tarefa de dar vida aos desenhos de Quarenghi.

sala de estudo das grã-duquesas

A construção do palácio apresentou alguns desafios relacionados com o local. Os rios subterrâneos faziam com que o edifício mudasse de posição à medida que era construído. Ao longo do tempo este problema causou vários buracos e rachas no Hall semi-circular que podem ainda ser vistas hoje. Os construtores fizeram uma série de mudanças instantâneas no projecto original para que este se adaptasse aos desafios do local. Foi construído um grande terraço do lado de fora da entrada para o jardim do edifício para reforçar os arcos dos corredores centrais. Os atrasos e os custos cada vez mais excessivos foram retirados dos possíveis lucros, por isso todos estavam ansiosos para acabar a construção do palácio o mais rapidamente possível.

quarto de Olga e Tatiana


As bases do palácio são de pedra, mas, de resto, quase todo o edifício é construído de tijolo. Foram precisos milhões de tijolos para construir o Palácio de Alexandre e foram todos feitos na zona de Czarskoe Selo usando argila do local. Isto foi algo que preocupou Catarina. Ela deu ordens especificas para que se protegessem as florestas locais, com medo de que os construtores destruíssem as árvores à volta da cidade e estragar assim as suas vistas
casa de banho do czar

O orçamento inicial para a construção do edifício não incluía dinheiro para a decoração interior. A firma que construiu o palácio não tinha responsabilidade nos interiores e esta tarefa foi dada a uma equipa de decoração internacional que incluía Britânicos, Russos e Italianos. No entanto, à medida que a construção avançava, Catarina viu-se com alguns problemas em termos de orçamento e continuou a deixar a questão dos interiores para segundo plano. Isto não foi visto como um problema sério, pois a Imperatriz achou que Alexandre poderia fazer o que quisesse com os interiores conforme o seu próprio gosto.

quarto de bordar

Alguma mobília para o palácio foi encomendada, mas a maioria foi levada de outros palácios. Por exemplo, um grande número de ornamentos foi trazido do já velho Palácio de Tauride. Catarina ofereceu também outros itens das suas próprias residências.

quarto imperial

No princípio, o exterior do palácio foi deixado exposto com tijolo. Levou muitos anos para que os tijolos secassem e finalmente se pudesse estucar e pintar as paredes com segurança. O “novo palácio”, como era chamado na altura, foi completado e apresentado a Alexandre em Junho de 1796. Ele a sua esposa mudaram-se para a nova casa no dia 12 de Junho de 1796. A construção tinha durado quase quatro anos. Catarina deu as boas-vindas ao neto de 16 anos e à sua esposa, Isabel de Baden, nos degraus do palácio com pão e sal, prendas tradicionais para a bênção de uma nova casa. Alexandre teve pouco tempo para desfrutar do palácio antes da morte da avó em Novembro desse mesmo ano. Isto significou uma mudança de circunstâncias, pois Alexandre estaria agora sob controlo do seu pai, o novo Imperador Paulo I.


dois pormenores do escritório de Nicolau II

Durante o reinado de Paulo I, deram-se os últimos retoques na pintura do palácio. Desde o princípio que foi planeado pintar o edifício de amarelo e branco, mas a cor original era mais profunda do que a que se vê hoje em dia.

Paulo não era muito popular entre a sociedade e foi assassinado no Castelo Mikhailovski em São Petersburgo. Alguns dizem que Alexandre esteve envolvido no assassinato, uma vez que assim sucederia mais depressa o seu pai. Durante o seu reinado, Alexandre preferiu viver no Palácio de Catarina quando estava em Czarskoe Selo, o que não significa que tivesse ignorado o Palácio de Alexandre, que necessitava de grandes quantidades de dinheiro para se manter. Em 1809, tiveram de se dispensar 600,000 rublos para reparações no edifício.

sala de estar particular

Alexandre e a sua esposa não tiveram filhos, por isso ele decidiu nomear o seu irmão, o futuro Nicolau I, para o suceder. Ofereceu-lhe o Palácio de Alexandre e começou a tradição de fazer dele o Palácio de Verão de Czarskoe Selo.
sala lilás

O palácio mantém uma marca indiscutível de Nicolau I e dos seus tempos. Nicolau tinha uma grande família que crescia rapidamente. Embora ele tenha a reputação de ser um Czar duro, quando estava longe dos deveres do reino, ele era um homem de família sentimental. O Palácio de Alexandre era a sua residência favorita e ele dedicou muito tempo a melhorar o edifício. Muitas das mudanças foram feitas de modo a reflectir a vontade de Nicolau em transformar aquele palácio num local mais confortável para todo o ano e não apenas durante o Verão. Por exemplo, mandou construir cozinhas especiais dentro do palácio para poder ter os seus pratos favoritos quando quisesse. Ele próprio gostava de cozinhar. Também foi o próprio Imperador que plantou vários canteiros de flores e tomou todas as decisões sobre a decoração dos interiores.

Nicolau escolheu o Palácio de Alexandre para alguns dos mais importantes acontecimentos do seu reinado como a primeira transmissão telegráfica na Rússia.

sala de recepção do czar

Tal como o seu irmão mais velho, Nicolau ofereceu o Palácio de Alexandre ao seu filho e herdeiro, o futuro Czar Alexandre II, quando este se casou. Isto levou a uma remodelação e actualização completa do palácio. Avanços técnicos como na iluminação, aquecimento e cozinhas, significaram mudanças que iam muito além de simples tecidos, mobílias e carpetes novas. O palácio foi completamente modernizado para acompanhar as mudanças do mundo em meados de 1840. Mais tarde, depois de Alexandre se tornar Czar e arranjar uma amante, a sua esposa, a Princesa Maria Alexandrovna, decidiu viver no Palácio durante todo o ano. Isto deu vários problemas devido ao facto de este ter sido construído como uma residência de Verão. Não existiam as janelas de vidro duplo nem os soalhos reforçados necessários para manter o edifício quente durante os rigorosos Invernos russos, por isso foram instalados novos sistemas de aquecimento nas áreas ocupadas pela Czarina.

o palácio nos tempos de Alexandre II

Novamente quando o Czarevich e future Czar Alexandre III se casou com a sua esposa Maria, foi-lhes oferecido o Palácio de Alexandre. A sua mãe continuou a viver lá e o uso de Alexandre do palácio foi limitado até à morte dela. Em 1874, uma parte do palácio foi remodelada para a lua-de-mel da única filha de Alexandre II, Maria, que se casou com Alfredo, filho da Rainha Vitória.

escritório de Alexandre III

A esposa de Alexandre III, Maria Feodorovna, adorava o Palácio de Alexandre. Ela preveria as festas e elegância de Czarskoe Selo à austeridade do local preferido do seu marido, Gatchina. Dois dos filhos de Maria e Alexandre, o futuro czar Nicolau II e o seu irmão Jorge, nasceram no palácio. Quando cresceram, os dois rapazes continuaram a ter as suas próprias áreas no palácio e utilizavam-nas sempre que estavam em Czarskoe Selo.

quarto de Maria Feodorovna

Quando Nicolau subiu ao trono em 1894, ele e a sua nova mulher Alexandra decidiram tornar o Palácio de Alexandre na sua residência principal. Como resultado, Nicolau II e a sua esposa fizeram as mudanças mais significativas no edifício desde o reinado de Catarina, a Grande. Foram feitas extensivas renovações ao edifício e instalados novos sistemas como electricidade, telefones, canalização, elevadores e saneamento. Uma área do palácio foi reconstruída com o objectivo de o tornar mais doméstico e luxuoso. O principal objectivo de Nicolau e Alexandra foi tornar o palácio numa casa de família confortável e elegante.

Mais tarde foram também feitas mudanças com a construção de interiores de estilo “Art Nouveau” e quartos agradáveis para os filhos do Czar.

sala de estudo de Alexis

Na altura da Revolução Russa e exílio da família Romanov na Sibéria, decidiu-se transformar o palácio num museu que documentava a vida dos Romanov no Palácio de Alexandre desde o século XIX. Naturalmente, o que estava em destaque era o reinado de Nicolau II. Pouco depois da saída dos Romanov para Tobolsk em Agosto de 1917, partes do Palácio foram abertas ao público pelo seu responsável, Lukomskii. Depois do assassinato da família, alguns dos bens pessoais que tinham sido levados para a Sibéria, foram devolvidos.

visita ao Palácio de Alexandre durante os anos 20

O museu no Palácio de Alexandre mostrava os interiores da forma mais rigorosa possível aquilo que tinham sido deixados em 1917. Parecia que o Czar e a família tinham acabado de sair e podiam regressar a qualquer momento. A tragédia da história e a intimidade dos seus quartos privados criou uma impressão poderosa naqueles que os visitavam, o que acabou por fazer com que a simpatia para com os Romanov crescesse, o que chocava com os ideais do Governo Marxista-Leninista. Em 1919, pouco depois de o Exercito Vermelho sair vencedor da Guerra Civil, uma parte do palácio foi transformada numa colónia para crianças, mas esta experiência revelou-se desastrosa e esses quartos foram devolvidos ao museu. A restauração extensiva impediu que estes quartos fossem novamente abertos ao público. Em meados dos anos 20, os quartos históricos de Nicolau e Alexandra no Palácio de Inverno, que faziam parte de um outro museu construído aí, foram fechados e a sua mobília destruída. Alguns itens foram transferidos para o Palácio de Alexandre onde se misturaram com outras colecções.

pormenor da escadaria do Palácio de Alexandre

O museu do Palácio de Alexandre provou ser um dos museus mais populares da Rússia e uma paragem obrigatória para todos os estrangeiros que visitassem o novo estado Soviético. Infelizmente o governo tinha uma atitude indiferente e quase hostil em relação ao “Museu Romanov”. Os oficiais começaram a roubar objectos e mobília do palácio para vender a estrangeiros e para seu próprio uso. Mais tarde a polícia secreta exigiu o uso de uma parte do palácio como o seu “resort” particular. Para se prepararem para a transição, estas alas foram esvaziadas e os seus tesouros vendidos a estrangeiros na Rússia e por uma empresa chamada Hammer, nos Estados Unidos.

lago do Palácio de Alexandre

Ao longo dos anos 30, foram surgindo tratados do governo para fechar o resto do museu e vender os seus tesouros. De alguma forma, os trabalhadores do museu e o público conseguiram convencer o governo a não seguir em frente com esta ideia e o museu continuou a funcionar até aos inícios da Segunda Guerra Mundial.
Quando Hitler declarou Guerra à União Soviética em 1941, o Director do Museu do Palácio de Alexandre, A. M. Kuchumov, recebeu ordens para evacuar cerca de 300 objectos do palácio para os proteger do avanço das tropas alemãs. Isto foi uma pequena selecção de uma colecção de milhares. Freneticamente e com grande coragem, os trabalhadores do museu conseguiram empacotar e esconder do perigo uma parte significante da colecção do museu. Infelizmente, milhares de peças dos preciosos tesouros de extraordinário valor histórico foram deixadas para trás.

pormenor de um ovo Ferbegé representando o Palácio de Gatchina

Quando os alemães ocuparam a cidade, saquearam imediatamente os palácios. Aquilo que não deitaram fora para transformar em balas e armas, levaram para a Alemanha e Espanha onde muitos dos objectos dos palácios permanecem até hoje. O Palácio de Alexandre foi convertido num hospital de SS e era fortemente protegido pelas tropas alemãs. Nos jardins do palácio foi erguido um monumento de homenagem aos SS e um cemitério decorado com símbolos Nazis. Durante a guerra o palácio foi danificado por ataques aéreos e vandalização alemã e dos seus aliados espanhóis.

danos na fachada do palácio

Mesmo assim, tendo em conta tudo pelo que passou durante a ocupação alemã e espanhola, o palácio manteve-se em pé pela dedicação dos seus trabalhadores que, logo após o final da guerra, voltaram e fizeram os possíveis para o transformar naquilo que fora. Nos anos 50, era o palácio melhor preservado dos subúrbios e foi escolhido como local de acolho das obras de arte chegadas da Sibéria para Leninegrado. Foram feitos ambiciosos planos de restauração do palácio para recuperar o esplendor que tinha antes da guerra. Nesta altura, o governo, talvez o próprio Estaline, tomou uma decisão critica em relação ao futuro do museu – não se tornaria num museu Romanov. O palácio deveria ser esvaziado e restaurado como um palácio genérico do século XIX. Qualquer restauração que apresentasse a vida privada do czar e da sua família estava proibida. Esta restauração começou e os interiores que tinham sobrevivido à ocupação alemã foram brutalmente despidos e destruídos. Antes de este trabalho estar completo, Estaline mudou de ideias e tomou outra decisão e decidiu que o edifício não se tornaria num museu de nenhum tipo e seria entregue à Marinha que o poderia usar como entendesse.


A colecção única e de valor incalculável do palácio foi separada por vários museus. Algumas peças foram para Povlovsk, outras para o Palácio de Catarina, para o Hermitrage e outros locais. A maioria dos itens pessoais associados ao czar e à sua família foram simplesmente fechados e escondidos num armazém desconhecido.
No final dos anos 80, Suzanne Massie e Bob Atchison, com a bênção do antigo director do museu do Palácio de Alexandre, A. M. Kuchmov, que tinha feito da restauração do palácio o seu objectivo da vida, pediram à imprensa e à cidade de Leninegrado para a reabertura do Museu do Palácio de Alexandre. Este intenso e exaustivo esforço provou ter sucesso e uma decisão do governo foi feita para restabelecer o museu. O único pedido foi para uma relocalização com sucesso da marinha que ocupava o edifício.
Até hoje é possível visitar o museu em Czarskoe Selo e passear pelos jardins outrora foram ocupados pela última família imperial russa.

Nicolau II - A biografia (1ª parte)

Nicolau Alexandrovich Romanov nasceu a 18 de Maio de 1868 e foi o último czar da Rússia, rei da Polónia e grão-duque da Finlândia. O seu título oficial era Nicolau II, imperador e autocrata de Todas as Rússias e, hoje em dia, é um dos santos da Igreja Ortodoxa.

Nicolau II
Nicolau II governou desde 1894 até à sua abdicação em 1917. Provou ser incapaz de governar um país em tumulto político e de comandar o seu exército durante a Primeira Guerra Mundial. O seu reinado terminou com a Revolução Russa de 1917 durante a qual ele e a sua família foram presos, primeiro no Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo, depois na mansão do  governador em Tobolsk na Sibéra e, finalmente, na casa Ipatiev em Ecaterinburgo onde a família acabaria por ser executada pelos bolcheviques na noite de 16 para 17 de Julho de 1918. Durante o seu reinado, Nicolau recebeu o cognome de Nicolau, o Sangrento devido aos trágicos acontecimentos durante a sua coroação, ao episódio do Domingo Sangrento e a subsequente repressão do seu governo ao movimento socialista. É também conhecido por ocupar o terceiro lugar na lista de pessoas mais ricas da História com uma fortuna avaliada em 253.5 mil milhões de dólares .


Nicolau nasceu em Czarskoye Selo, o primeiro filho do Imperador Alexandre III e da sua esposa Maria Feodorovna, Princesa Dagmar da Dinamarca. Os seus avós paternos eram Alexandre II da Rússia e a sua primeira esposa Maria Alexandrovna, Princesa de Hesse-Darmstadt. Os seus avós maternos eram Cristiano IX da Dinamarca e Luísa de Hesse-Cassel.
Nicolau II, foto tirada durante a sua infancia 

Desde sempre uma criança sensível, Nicolau sentia receio da força e estatura do seu pai, Alexandre III, apesar de o adorar e falar dele com saudade em cartas e diários depois da sua morte. Apesar de tudo era mais próximo da sua mãe. Nicolau tinha três irmãos: Alexandre (1869-1870), Jorge (1871-1899) e Miguel (1878-1918) e duas irmãs: Xenia (1875-1960) e Olga (1882-1960).

Nicolau II (2º da esquerda) com o pai, a mãe e os irmãos
Nicolau tornou-se czarevich inesperadamente no dia 1 de Março de 1881 quando o seu avô foi assassinado num atentado bombista em São Petersburgo, sendo sucedido por Alexandre III. Nicolau tinha 12 anos e entrou na sala do Palácio de Inverno onde o seu avô pálido estava deitado à espera da morte e o seu pai ordenou-lhe que se sentasse na ponta da cama a observá-lo. A sua mãe, que tinha estado a patinar no gelo, chegou ainda com os patins calçados, movimentando-se com dificuldade. O seu pai ficou paralisado do lado de fora da janela, a tremer nervosamente até o médico anunciar a morte do czar libertador.

Nicolau (à frente) com três dos seus primos britânicos, as princesas Vitória e Luísa e o príncipe Alberto Vitor.

Muito se tem escrito sobre o luxo e opulência da vida dos Romanov. De facto, a corte era deslumbrante, mas o esplendor não chegava aos aposentos das crianças. No Palácio de Inverno, em Czarskoe Selo, Gatchina e Peterhof, foi possível visitar esta área até 1922 e constatou-se que as crianças dormiam em camas amovíveis com almofadas duras e colchões finos. O chão era coberto com uma carpete modesta e não existiam cadeiras nem sofás, sendo que a única mobília da divisão eram alguns bancos, pequenas mesas e estantes onde se guardavam livros e brinquedos.

O único pormenor rico era apenas visível numa das paredes onde estava pendurada uma imagem da Virgem de Kasam rodeada de pérolas e pedras preciosas. A comida era muito simples e, desde os dias de Maria Alexandrovna, esposa de Alexandre II, os costumes ingleses foram introduzidos: papas de aveia para o pequeno-almoço, banhos frios e muito ar fresco. Ao almoço, Nicolau e os irmãos juntavam-se aos seus pais na refeição onde havia mais fartura, no entanto, as crianças eram as últimas a ser servidas depois de todos os convidados presentes e ainda tinham de sair da mesa assim que o seu pai se levantasse, o que acabava por fazer com que ficassem com fome.
 
Nicolau (no centro) com a sua mãe Maria, o tio Valdemar da Dinamarca, a tia Olga, rainha da Grécia, o irmão Miguel, o irmão Jorge e a prima Alexandra da Grécia
Um dia, durante uma das longas celebrações pascais que a família tinha de frequentar, um Nicolau esfomeado aproveitou um crucifixo que trazia ao pescoço desde o nascimento que tinha uma amostra de cera dentro. “O Nicky estava com tanta fome que abriu a cruz e comeu tudo o que estava lá dentro, incluindo a relíquia que estava escondida na cera”, recordou a sua irmã Olga.

Nicolau passou a maior parte da sua infância no Palácio de Gatchina, cerca de 64 quilómetros a oeste de São Petersburgo, perto de Czarskoe Selo. Gatchina tinha 900 divisões e era o palácio preferido de Alexandre III que possuía ainda palácios em Peterhof, Czarskoe Selo, Anitchkov, Moscovo e em Livadia, na Crimeia.

O czarevitch foi educado por tutores. Havia tutores de línguas, de geografia e ainda um tutor de dança que usava luvas brancas e exigia que uma grande jarra de flores estivesse sempre presente quando ele tocava piano. De todos os tutores, o mais importante foi Constantino Petrovich Pobesdonostsev, um filósofo.

Nicolau (1º da direita) com os irmãos Jorge, Xenia e Miguel
Em vários aspectos, a educação de Nicolau foi excelente. Tinha uma memória extraordinária, o que o tornava um excelente aluno em História, falava Francês, alemão, e o seu inglês era de tal forma perfeita que poderia ter enganado qualquer professor de Oxford e fazê-lo acreditar que era inglês. Era um bom cavaleiro, dançarino e excelente com armas. Desde cedo foi ensinado a manter um diário e, ao estilo de infindáveis príncipes e cavalheiros da época, registava fielmente, dia após dia, o estado do tempo, o número de pássaros que tinha morto e os nomes daqueles que o acompanhavam em passeios e jantares.


Nicolau, na sua juventude
Em Maio de 1890, alguns dias antes de completar 22 anos, Nicolau escreveu no seu diário: “Hoje terminei definitivamente a minha educação.” A maioria do tempo de Nicolau era passado sem fazer nada de importante. A função principal do czarevich, assim que terminava a sua educação e chegava à idade adulta, era esperar o mais discretamente possível pela sua vez para subir ao trono. Em 1890, Alexandre III tinha apenas 45 anos e esperava-se que continuasse a ocupar o seu lugar por mais 20 ou 30  anos, por isso, apesar de duvidar da capacidade do filho em assumir as suas responsabilidades, não fez grande coisa para o preparar. Nicolau aceitou alegremente o papel de “playboy” para o qual tinha sido designado. Por vezes o seu pai obrigava-o a assistir a reuniões do Concelho Imperial, mas os seus olhos estavam presos no relógio e, na primeira oportunidade, fugia.

Nicolau II
Tratado de “Nicky” pela sua família e amigos mais próximos, o czarevich apaixonou-se pela princesa Alix de Hesse-Darmstadt, neta da rainha Vitória de Inglaterra, em 1884, durante o casamento do tio de Nicolau, Sérgio Alexandrovich, com a irmã de Alix, Isabel. Ele tinha 16 anos e ela apenas 12. Os dois voltariam a encontrar-se em 1889, quando ele tinha 21 e ela 17. Ele levou-a a patinar no gelo e os dois encontraram-se em vários bailes e jantares. Depois de ela deixar São Petersburgo, ele afirmou que, se Alix o rejeitasse, ele nunca se casaria. Os seus pais, no entanto, não aprovavam este romance, na esperança de cimentar a nova aliança entre a Rússia e a França casando o seu filho com a princesa Helena, filha do conde Filipe da Casa de Orléans.

Nicolau e Alexandra em 1894
Como czarevich, Nicolau viajou bastante. Durante uma viagem ao Império do Japão, sofreu uma tentativa de assassinato falhada com um sabre, que lhe deixou uma cicatriz na testa. A reacção rápida do seu primo, o príncipe Jorge da Grécia e da Dinamarca, que evitou um segundo golpe com a sua bengala, salvou-lhe a vida. O motivo para esta tentativa de matar o herdeiro ao trono russo, foi o facto de o homem se sentir ofendido por um estrangeiro estar a visitar um templo sagrado que nunca antes tinha aceitado a entrada de alguém de outra religião. O incidente teve um efeito histórico infeliz em Nicolau que passou a odiar o Japão e acabaria por entrar em guerra com o país entre 1904-1905.

Nicolau II com o seu irmão Jorge Alexandrovich e o primo, o príncipe Jorge da Grécia e Dinamarca, durante a sua digressão pelos países orientais de 1890-91
Nicolau ficou noivo de Alix de Hesse em Abril de 1894. Inicialmente teve alguns problemas para a convencer a tornar-se sua noiva, uma vez que uma imperatriz da Rússia tinha de se converter à Igreja Ortodoxa Russa, e Alix era luterana. Eventualmente, no entanto, a paixão de Alix por Nicolau venceu e o noivado tornou-se oficial a 8 de Abril de 1894. Alix converteu-se em Novembro desse mesmo ano e mudou de nome para Alexandra Fedorovna.

Ao longo de 1894, a saúde de Alexandre III foi-se deteriorando inesperadamente. Esperando viver mais 20 ou 30 anos, Alexandre não deu a educação política que pretendia ao seu filho, o que resultou no fraco interesse de Nicolau pelos assuntos imperiais. Apesar de ser uma criança educada e encantadora, sempre mostrou falta de interesse ou curiosidade nas lições dos tutores. Mesmo quando Alexandre tentou introduzir o filho nos assuntos do Estado, Nicolau perdeu o interesse depois de passar vinte minutos nas sessões do conselho e saiu para ir ter com os seus amigos aos cafés. Alexandre morreu aos 49 anos em 1894 devido a uma doença de rins. Nicolau sentiu-se tão pouco preparado para os seus deveres que terá perguntado ao seu primo o que iria acontecer consigo e com a Rússia agora que chegara a sua vez de governar. Apesar de tudo, decidiu manter a política conservadora do seu pai.

A coroação de Nicolau II e Alexandra Feodorovna em 1896

O casamento de Nicolau e Alexandra, planeado para a Primavera seguinte, foi antecipado por insistência de Nicolau. Sufocado pelo peso do seu novo cargo, o czar não tinha intenções de permitir que a única pessoa que lhe dava confiança o abandonasse. O casamento foi celebrado no dia 26 de Novembro de 1894. Alexandra usou o vestido tradicional das noivas Romanov e Nicolau levou o seu uniforme. Poucos minutos antes da 1 da tarde, os dois tornaram-se marido e mulher numa união que se manteria forte até à morte de ambos.

Alexandra

Apesar de uma visita ao Reino Unido antes da sua coroação onde observou a Câmara dos Comuns em debate e pareceu bastante impressionado pela forma como funcionava a Democracia, Nicolau virou as costas a qualquer ideia de partilhar o seu poder com algum órgão do género na Rússia. Pouco depois de subir ao trono, um grupo de camponeses e trabalhadores de vários pontos do país foram até ao Palácio de Inverno pedir algumas reformas constitucionais. Apesar de os seus pedidos lhe terem sido entregues por escrito, Nicolau limitou-se a juntá-los aos muitos papéis da secretária, furioso pela sua ousadia e ignorando os conselhos da família para lhes prestar a devida atenção: “… chegou-me aos ouvidos que durante os últimos meses, se têm ouvido vozes daqueles que têm o sonho sem sentido de que os zemstvos (concelhos do povo) seriam chamados para participar na governação do país. Quero que todos saibam que vou dedicar toda a minha força para manter, para o bem da nação, o principio de autocracia tão forte como o meu pai o deixou.” Estas palavras deixaram perplexos todos quantos as ouviram e resultaram na destruição da popularidade do novo czar e da esperança de uma mudança pacífica na Rússia.

Apesar destas palavras fortes, Nicolau era tímido na presença de membros mais velhos da sua família. O seu cunhado, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, escreveu mais tarde que, “Nicolau II passou os seus primeiros 10 anos de reinado sentado atrás de uma grande secretária no Palácio e a ouvir com pouca atenção o discurso bem ensaiado dos seus tios violentos. Atreveu-se a ficar sozinho com eles… Eles queriam sempre alguma coisa.”

Nicolau e Alexandra com outros membros da família Romanov

O choque entre a Rússia e o Japão foi quase inevitável no inicio do século XX. A Rússia tinha-se expandido para o Oriente e as suas pretensões territoriais colidiam com as pretensões japonesas na China. A Guerra começou em 1904 com um ataque surpresa à frota russa no Porto Artur, que incapacitou a marinha russa no Oriente. A frota báltica tentou fazer a travessia marítima para ajudar na batalha, no entanto, depois de vários percalços no caminho, foi aniquilada pelos japoneses na batalha do estreito de Tsushima. Em terra, as tropas russas estavam desprovidas de mantimentos devido a uma avaria na linha férrea trans-siberiana. A guerra terminou com a derrota da Rússia após a queda do Porto Artur em 1905.


Ataque ao Porto Artur

A posição de Nicolau na Guerra foi algo que enforeceu muitos. Pouco antes do ataque japonês ao Porto Artur, Nicolau manteve firmemente a sua crença de que não haveria guerra. Sentia que havia um poder divino a governar e proteger a Rússia e que impediria qualquer tipo de guerra com o Japão. Apesar das muitas derrotas, Nicolau continuou a acreditar numa vitória. Muitas pessoas viram a confiança e teimosia do czar como um sinal de indiferença, achando-o impenetrável. À media que a Rússia continuava a ser derrotada, as vozes pedindo paz começavam a aumentar. A própria mãe do czar, bem como o seu primo Guilherme II, pediram a Nicolau que abrisse negociações de paz, mas apesar de todos os esforços, este continuou a sua estratégia. Apenas quando a frota russa foi totalmente eliminada a 28 de Março, Nicolau decidiu dar inicio ao processo de paz.

Como resultado, o orgulho russo ficou severamente afectado e a popularidade de Nicolau II sofreu mais um grave golpe com várias greves e manifestações que assolaram o país entre 1905 e 1906. Durante a época de tumulto, o tio do czar, o grão-Duque Sérgio, foi morto por uma bomba quando saía do Kremlin.


Grão-Duque Sergei Alexandrovich

No dia de Epifania, a 19 de Janeiro de 1905, decorreu a tradicional Bênção das Águas em frente do Palácio de Inverno. Como era hábito, foi construído um pódio para o czar, alguns membros da corte e do clérigo enquanto que outros membros da família real assistiam à cerimónia das janelas do palácio. A cerimónia começou com uma saudação de canhão que acabou por aterrar perto do czar e feriu um polícia. Mais tarde outras balas de canhão acabariam por ferir um Administrador e partir várias janelas do palácio (uma delas quase vitimou a mãe e a irmã de Nicolau, Olga que estavam a poucos metros de distância de uma das janelas). Apesar de tudo, o Imperador manteve a mesma postura desde o inicio da cerimónia. Quando finalmente chegou ao palácio disse à sua irmã Olga: “Eu sabia que alguém me estava a tentar matar e limitei-me a fazer o sinal da cruz. O que mais podia fazer?”. A grã-duquesa comentou mais tarde que, “era típico do Nicky. Ele não sabia o que significava ter medo. Por outro lado, parecia que ele sempre tinha aceitado que acabaria por perder a vida.”

No dia 21 de Janeiro de 1905, um padre chamado George Gapon informou o governo de uma marcha que se realizaria no dia seguinte e perguntou se o czar estaria presente para receber uma petição. Os ministros reuniram-se apressadamente para ponderar sobre o assunto. Nunca se pensou que o czar, que estava em Czarskoe Selo e não tinha sido informado de nenhuma marcha nem petição, iria realmente receber Gapon. A sugestão de que outro membro da família imperial deveria receber a petição foi também rejeitada. Por fim, informado de que tinha poucos meios para travar a marcha e prender Gapon, o novo ministro do interior e os seus colegas não pensaram em mais nada senão chamar tropas adicionais à cidade e esperar que nada se descontrolasse.


Domingo Sangrento

Nessa noite, Nicolau soube pela primeira vez por esse ministro o que iria acontecer no dia seguinte e escreveu no seu diário, “As tropas foram trazidas de fora da cidade para apoiar as locais. Até agora os trabalhadores têm-se mantido calmos. Em estimativa são cerca de 120,000. A chefiar a sua união está uma espécie de padre socialista chamado Gapon. O Mirsky (ministro do interior) veio encontrar-se comigo esta noite para me apresentar o seu relatório sobre as medidas a ser tomadas.”

No dia seguinte aconteceria o trágico “Domingo Sangrento” onde milhares de manifestantes foram mortos pelas tropas do czar que guardavam o Palácio de Inverno.

Em Czarskoe Selo, Nicolau ficou chocado quando soube o que tinha acontecido e escreveu no seu diário, “Um dia doloroso. Desordens sérias aconteceram em São Petersburgo quando os trabalhadores tentaram entrar no Palácio de Inverno. As tropas foram forçadas a disparar em várias partes da cidade e há muitos feridos e mortos. Senhor, quão doloroso e triste isto é.


O “Domingo Sangrento” tornou-se num ponto de viragem na História Russa. Abalou irremediavelmente a antiga crença de que o povo e czar eram um só. Enquanto as balas faziam ricochete nos seus ícones, retratos e bandeiras de Nicolau II, as pessoas gritavam que o czar não as iria ajudar. Fora da Rússia, mo futuro Primeiro-Ministro trabalhista britânico, Ramsay MacDonald atacou o czar, chamando-o de “criatura coberta de sangue” e “assassino banal”.


Domingo Sangrento

A grã-duquesa Olga Alexandrovna descreveu o que aconteceu nesse dia com o seu irmão, “O Nicky recebeu o relatório político alguns dias antes. Naquele Domingo ele telefonou à minha mãe e disse-lhe que ambas tínhamos de abandonar Gatchina depressa. Ele e a Alicky (Alexandra) foram para Czarskoe Selo. Que me lembre o meu tio Vladimir e o meu tio Nicolau eram os únicos membros da família que restavam em São Petersburgo, mas talvez houvesse outros. Na altura senti que todas as medidas tomadas estavam completamente erradas. Os ministros do Nicky e o Chefe da Polícia fizeram tudo à maneira deles. A minha mãe e eu queríamos ficar em São Petersburgo e enfrentar a multidão. Tenho a certeza de que, pelos modos grotescos de alguns dos trabalhadores, a presença do Nicky teria acalmado os ânimos. Eles teriam entregue a sua petição e voltado para casa, mas aquele acontecimento quase Epitáfio deixou todos os guardas em estado de pânico. Estavam sempre a dizer ao Nicky que ele não tinha o direito de correr tamanho risco, que o país merecia que ele saísse da capital, que mesmo com as melhores medidas de protecção haveria sempre perigo. A minha mãe e eu fizemos os possíveis para o convencer de que os conselhos dos ministros estavam errados, mas o Nicky preferiu segui-los e foi o primeiro a arrepender-se quando soube as trágicas consequências.”

Domingo Sangrento
Sob pressão depois da chamada Revolução Russa de 1905, Nicolau II concordou em formar uma espécie de parlamento, a Duma, que inicialmente se pensava ser apenas um órgão de conselho. A irmã do czar escreveu: “Todos estavam deprimidos em Czarskoe Selo. Eu não percebia nada de política, apenas senti que tudo estava a correr mal no país e com todos nós. A constituição de Outubro não parecia satisfazer ninguém. Fui com a minha mãe à primeira Duma. Lembro-me do grande número de deputados, muitos deles camponeses e operários. Os camponeses pareciam zangados, mas os operários eram ainda piores: olhavam-nos como se nos odiassem. Lembro-me da agonia nos olhos da Alexandra.” O Ministro da Corte, o conde Fredericks, comentou, “Os deputados dão a impressão de ser um grupo de criminosos que está apenas à espera de um sinal para se atirarem aos ministros e cortar-lhes a garganta. Nunca mais me vou juntar a estas pessoas.” A mãe do czar reparou no “ódio incompreensível”.

Nicolau II a discursar na primeira sessão da Duma. À esquerda é possível ver vários membros da família Romanov, incluindo a imperatriz Alexandra, a imperatriz-viúva Maria Feodorovna com as filhas Xenia e Olga, a grã-duquesa Maria Vladimirovna entre outras
No manifesto de Outubro, o czar anunciou que seriam introduzidas liberdades cívicas,  que iria providenciar grande participação nas discussões da Duma e dar-lhe  poderes legislativos. Contudo, determinado a preservar a “autocracia” mesmo durante um contexto de reforma, restringiu a autoridade da Duma em muitos sentidos.

A relação de Nicolau com a Duma não era boa. A primeira Duma entrou quase imediatamente em confronto com ele, exigindo sufrágio universal, reformas laborais radicais, a libertação de todos os prisioneiros políticos e o despedimento dos ministros nomeados pelo czar por ministros escolhidos pela própria Duma. Apesar de inicialmente Nicolau ter uma boa relação com o seu Primeiro-Ministro, Sergei Witte, Alexandra não confiava nele (por este ter ordenado uma investigação a Rasputine), e, à medida que a situação política se deteriorava, Nicolau decidiu dissolver a Duma.

A Duma estava cheia de radicais, muitos dos quais queriam mudar profundamente a legislação que abolia o direito a propriedade privada entre outras medidas. Witte, incapaz de resolver os problemas e de liderar uma reforma na Rússia e na monarquia, escreveu ao czar no dia 14 de Abril de 1906, demitindo-se do seu posto (outros dizem que este foi forçado a demitir-se pelo Imperador).

Sergei Witte

Uma segunda Duma reuniu-se pela primeira vez em Fevereiro de 1907. Os partidos de esquerda, incluindo os Sociais Democratas e os Socialistas Revolucionários que tinham boicotado a primeira Duma, tinham ganho 200 lugares na segunda, mais de um terço de todos os participantes. Novamente Nicolau esperou impacientemente para se livrar deles. Em duas cartas que escreveu à sua mãe, confessou o seu ressentimento, “Uma comitiva grotesca está a chegar da Inglaterra para se encontrar com os membros liberais da Duma. O tio Bertie [Eduardo VII do Reino Unido] pediu desculpa, mas não podia fazer nada para impedir a vinda deles. A sua famosa “liberdade”, claro. Imagino como ficariam ofendidos se enviássemos uma comitiva à Irlanda para lhes desejar sucesso na luta contra o governo.” Um pouco mais tarde, Nicolau escreveu, “Ficaríamos todos satisfeitos se tudo o que é dito na Duma não saísse das suas paredes. No entanto cada palavra lá proferida aparece em todos os jornais que todos lêem avidamente no dia seguinte. Em muitos lugares a população está a agitar-se novamente. Começaram a falar novamente sobre terra e estão à espera para ver o que a Duma vai dizer sobre esta questão. Estou a receber telegramas de todo o lado, a pedir-me que a dissolva, mas é demasiado cedo para isso. Temos de esperar que eles façam algo estúpido ou maléfico e depois – bam! E eles desaparecem!”

Nicolau II (dir.) com o seu tio, o rei Eduardo VII do Reino Unido, e o primo, o futuro rei Jorge V.

Depois da dissolução da segunda Duma em circunstâncias semelhantes, o novo Primeiro-Ministro, Pyotr Stolypin (que Witte descreveu como “reaccionário), mudou as leis eleitorais de forma a permitir que futuras Dumas fossem mais conservadoras e dominadas pelo partido conservador-liberal de Alexander Guchkov.

Stolypin, um brilhante político, tinha planos ambiciosos de reforma. Estes incluíam disponibilizar empréstimos para classes inferiores de modo a permitir que estes comprassem terra e, assim, criar uma classe camponesa leal à coroa.

Pyotr Stolypin