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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

8 Curiosidades sobre Catarina, a Grande


Catarina II da Rússia (1729-1796) foi uma das governantes mais improváveis da História. Depois de se casar e entrar para a família Romanov na Rússia, viu-se no centro de um golpe de estado para retirar o seu marido do trono e coloca-la a ela no seu lugar. As conquistas conseguidas durante o seu reinado, que durou trinta-e-quatro anos, são muitas vezes ofuscadas pela sua vida pessoal que é vista como uma das mais escandalosas da sua e de outras épocas. No entanto, por detrás dos rumores e dos mexericos, encontra-se uma das governantes mais astutas e capazes da longa e turbulenta História da Rússia. Agora, 250 anos depois de ter subido ao trono a 9 de Julho de 1762, fique a saber algumas curiosidades sobre Catarina, a Grande.


1. O nome de Catarina, a Grande não era Catarina e ela nem sequer era russa.

A mulher que ficaria para a História como Catarina, a Grande, a mulher que durante mais tempo governou na Rússia, era na verdade a filha mais velha de um príncipe prussiano que estava na miséria. Nascida em 1729, Sofia de Anhalt-Zerbst recebeu várias propostas de casamento graças às origens nobres da sua mãe. Em 1744, quando tinha quinze anos de idade, Sofia recebeu um convite da czarina Isabel, filha do czar Pedro, o Grande da Rússia, que tinha subido ao trono três anos antes graças a um golpe de estado, para a visitar na Rússia. Isabel, que era solteira e não tinha filhos, tinha escolhido o seu sobrinho Pedro como herdeiro e estava agora à procura de uma noiva para ele. Sofia, que recebeu uma educação excelente da sua mãe e estava ansiosa por agradar os seus anfitriões, causou imediatamente um grande impacto em Isabel, mas não no seu futuro marido. O casamento realizou-se a 21 de Agosto de 1745 e a noiva teve de se converter à Igreja Ortodoxa Russa, mudando de nome para Ekaterina, ou Catarina.

Catarina com o seu marido, o futuro czar Pedro III
2. É provável que o filho mais velho – e herdeiro – de Catarina fosse ilegítimo

Catarina e o seu novo marido tiveram um casamento conturbado desde o início. Apesar de a jovem princesa prussiana ter sido importada para dar à luz um herdeiro, passaram oito anos sem que o casal tivesse filhos. Alguns historiadores acreditam que Pedro não conseguiu consumar o casamento enquanto outros defendem que era infértil. Profundamente infelizes na sua vida conjugal, Pedro e Catarina começaram a ter casos amorosos com outras pessoas, ela com Sergei Saltykov, um oficial do exército russo. Quando Catarina deu à luz um filho, Paulo, em 1754, surgiram rumores de que o pai da criança era Saltykov e não Pedro. Nas suas memórias, Catarina deu crédito a este rumor, chegando mesmo a afirmar que a imperatriz Isabel a tinha ajudado a encontrar-se com Saltykov. Embora hoje em dia os historiadores sejam da opinião que as afirmações de Catarina tinham como único objectivo descredibilizar Pedro e que ele era realmente o pai biológico de Paulo, existem poucas dúvidas relativamente aos restantes três filhos de Catarina: acredita-se que nenhum deles era filho de Pedro.


3. Catarina chegou ao poder num golpe de estado sem derramamento de sangue que, mais tarde, se tornou mortal

Isabel morreu em Janeiro de 1762 e o seu sobrinho sucedeu-a como Pedro III, tendo Catarina como consorte. Ansioso por deixar a sua marca na nação, terminou imediatamente a guerra que a Rússia estava a travar contra a Prússia, uma decisão que foi muito mal recebida pela classe militar do país. O seu plano de implementar um programa de reformas internas liberais que tinha como objectivo melhorar a qualidade de vida das classes mais baixas da Rússia também prejudicava membros da baixa nobreza. À medida que as tensões iam aumentando, surgiu o plano de tirar Pedro do poder. Quando a conspiração foi descoberta em Julho de 1762, Catarina movimentou-se rapidamente, conquistando o apoio do regimento militar mais poderoso do país que conseguiu fazer com que o seu marido fosse preso. A 9 de Julho, apenas seis meses depois de se tornar czar, Pedro abdicou e Catarina foi proclamada governante única. No entanto, aquele que tinha sido um golpe de estado sem derramamento de sangue não demorou a causar vítimas. A 17 de Julho, Pedro foi assassinado por Alexei Orlov, irmão do amante de Catarina, Gregory. Apesar de não existirem provas de que Catarina soubesse do assassinato antes deste acontecer, o acontecimento ensombrou o início do seu reinado.


4. Catarina enfrentou mais de doze revoltas durante o seu reinado.

Entre as muitas revoltas que ameaçaram o reinado de Catarina, a mais perigosa foi a que sucedeu em 1773, quando um grupo de cossacos e camponeses armados liderados por Emelyan Pugachev se revoltaram contra as condições sociais e económicas difíceis que viviam a classe mais pobre da sociedade russa, os servos. Tal como aconteceu com muitas das outras revoltas que Catarina enfrentou, a Revolta de Pugachev questionou a validade do seu reinado. Pugachev, um antigo oficial do exército, dizia ser o deposto Pedro III, que todos acreditavam estar morto, e, por isso, era ele o herdeiro legítimo do trono. Um ano depois de dar início à sua campanha, Pugachev já tinha conseguido juntar milhares de apoiantes e conquistado uma parque significativa do território, incluindo a cidade de Kazan. Inicialmente, Catarina preocupou-se com a revolta, mas não demorou a responder com força. Enfrentados pelo grande exército da Rússia, os apoiantes de Pugachev acabariam por abandoná-lo e ele acabaria preso e executado em público em Janeiro de 1775.


5. Ser amante de Catarina dava grandes lucros.

É conhecida a fama de Catarina ser fiel aos seus amantes, tanto durante a sua relação como depois de esta terminar. Normalmente, Catarina terminava as suas relações nos melhores termos com os seus parceiros, dando-lhes títulos, terras, palácios e até pessoas – chegou a presentear um antigo amante com mais de 1000 servos, ou escravos. Mas talvez aquele que mais lucrou tenha sido Estanislau Poniatowski, um dos seus primeiros amantes e pai de um dos seus filhos. Membro da nobreza polaca, Poniatowski envolveu-se com Catarina (que ainda não tinha chegado ao trono) quando foi enviado para a embaixada britânica em São Petersburgo. Mesmo quando um escândalo provocado em parte pela sua relação o obrigou a deixar a corte russa, os dois continuaram próximos. Em 1763, muito depois do final da sua relação e um ano depois de Catarina chegar ao trono, a imperatriz apoiou Poniatowski financeira e militarmente no seu esforço para se tornar rei da Polónia, o que acabaria por acontecer. No entanto, assim que chegou ao trono, o novo rei, que Catarina e outros achava que seria um mero fantoche para servir os interesses da Rússia, deu início a uma série de reformas para fortalecer a independência do seu país. Aquela que foi outrora uma ligação forte entre dois antigos amantes não demorou a azedar e Catarina obrigou Estanislau a abdicar, sendo a Rússia o país que mais forçou a dissolução da recém-criada República das Duas Nações.



6. Catarina via-se como uma governante iluminada

O reinado de Catarina ficou marcado pela sua vasta expansão territorial, algo que contribuiu muito para os cofres da Rússia, mas que aliviou pouco o sofrimento do seu povo. Até as suas tentativas para implementar reformas governamentais eram muitas vezes vetadas pela vasta aristocracia russa. No entanto, Catarina considerava-se uma das governantes mais iluminadas da Europa e muitos historiadores concordam. Escreveu vários livros, panfletos e materiais educativos que tinham como objectivo melhorar o sistema educativo na Rússia. Apoiava as artes, tendo mantido durante toda a vida correspondência com Voltaire e outros filósofos proeminentes da época e criou uma das colecções mais impressionantes de arte do mundo no Palácio de Inverno, em São Petersburgo (agora inserida no famoso Museu Hermitrage) e até tentou compor uma ópera. 



7. Ao contrário do mito popular, Catarina teve uma morte bastante normal e nada de especial aconteceu.

Tendo em conta a reputação chocante da imperatriz, talvez não seja de admirar que houvesse sempre rumores sobre ela, mesmo depois de morta. Quando morreu a 17 de Novembro de 1796, os seus inimigos na corte começaram imediatamente a espalhar vários rumores sobre os últimos dias da imperatriz. Alguns diziam que a governante toda poderosa tinha morrido na casa-de-banho. Outros levaram os rumores ainda mais longe e criaram um mito que ainda se prolonga até aos dias de hoje: que Catarina, cuja vida luxuriosa era um segredo aberto, tinha morrido enquanto praticava relações sexuais com um animal que muitos acreditam ter sido um cavalo. Obviamente este rumor não tem qualquer fundo de verdade. Apesar de os seus inimigos terem esperado por um fim escandaloso, a verdade é que Catarina simplesmente sofreu uma apoplexia e morreu calmamente na sua cama no dia seguinte.

Catarina, a Grande com a sua nora Maria Feodorovna e o filho, o futuro czar Paulo I
8. O filho mais velho de Catarina teve o mesmo destino macabro que o pai.

Era conhecida a relação conturbada de Catarina com o seu filho mais velho, Paulo. O menino tinha sido retirado à mãe pouco depois de nascer e foi criado em grande parte pela antiga czarina Isabel e uma série de tutores. Depois de ter subido ao trono, Catarina, temendo que o seu filho se vingasse dela pela deposição e morte do seu pai, manteve-o afastado dos assuntos de estado, o que o tornou ainda mais isolado. A relação entre eles era tão má que, às vezes, Paulo se mostrava convencido de que a sua mãe o planeava matar. Embora Catarina nunca tivesse tido tais planos, era verdade que temia que Paulo se tornasse um governante incompetente e procurou outras alternativas para a linha de sucessão. Tal como a imperatriz Isabel tinha feito antes de si, Catarina controlou a educação dos filhos mais velhos de Paulo e havia vários rumores que diziam que era sua intenção nomear os seus netos herdeiros, passando Paulo à frente na sucessão. De facto, acredita-se que Catarina pretendia tornar esta decisão oficial em finais de 1796, mas morreu antes de o fazer. Temendo que o testamento da mãe incluísse clausulas para tornar esse plano possível, Paulo confiscou o documento antes deste se tornar público. Alexandre, o filho mais velho de Paulo, sabia dos planos da avó, mas cedeu à pressão e não enfrentou o seu pai. Paulo tornou-se czar, mas não demorou a tornar-se tão imprevisível e pouco popular como a sua mãe tinha temido. Após cinco anos de reinado, acabaria por ser assassinado e o seu filho, Alexandre, de vinte-e-três anos, subiu ao trono como Alexandre I. 

Tradução do artigo "8 Things You Didn't Know About Catherine the Great", escrito por Barbara Maranzani para o site do Canal História e publicado a 9 de Julho de 2012.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Morte de Maria Alexandrovna e o Segundo Casamento de Alexandre II

Alexandre II, Maria Alexandrovna e três dos seus filhos
Em Maio era costume a corte imperial mudar-se para Gatchina para assistir às manobras de verão ao mesmo tempo que o czarevich, o grão-duque Vladimir e as suas respectivas famílias partiam para as suas residências de verão. Embora estivesse a perder as suas forças, a czarina [Maria Alexandrovna] queria ir passar o verão a Gatchina e os médicos concordaram que ela o devia fazer se assim o entendesse. Tinha passado o outono e o inverno em Cannes e sentia-se bem o suficiente para viajar. Em Maio, a sua filha Maria foi avisada que já não restava muito tempo de vida à mãe, por isso decidiu viajar até à Rússia, para estar com ela. A duquesa de Edimburgo estava tão desencantada com a vida em Inglaterra sob a vigilância matriarcal da sua sogra, a rainha Vitória, que estava desejosa por arranjar alguma desculpa para poder regressar a casa. Apesar disso, ficou chocada quando descobriu que Catarina Dolgorouky, a amante do pai, e os seus filhos se tinham instalado em aposentos no Palácio de Inverno que ficavam directamente acima dos aposentos da sua mãe e teve uma discussão séria com o seu pai. Abalado por perder a sua última aliada na família, o czar partiu apressadamente para Gatchina antes dela para poder assistir às manobras militares. No entanto, a discussão com a filha pesou-lhe na consciência, já que regressava todas as manhãs a São Petersburgo para saber da saúde da esposa.

Alexandre II com a sua filha, a duquesa de Edimburgo
No entanto, no dia 3 de Junho de 1880, os sofrimentos da czarina Maria Alexandrovna terminaram quando ela morreu em paz enquanto dormia. No dia do funeral, que se realizou na catedral da Fortaleza de Pedro e Paulo, o czar carregou o caixão com a ajuda dos filhos desde a catedral até à sua sepultura, embora os seus filhos talvez considerassem com alguma amargura que Alexandre tinha contribuído para a sua morte. Uma vez que ainda era apenas uma dama-de-companhia, Catarina Dolgorouky não foi obrigada a estar presente.

A czarina Maria Alexandrovna nos seus últimos anos de vida
O viúvo passou então a estar livre para oficializar a sua relação com a mulher que já considerava ser a sua "verdadeira esposa perante Deus". Um mês após a morte de Maria Alexandrovna, apanhou o seu camareiro, o conde Adlerberg, quando o informou de que tencionava casar-se com a princesa Dolgorouky daí a uma semana numa divisão escondida do Palácio de Isabel em Czarskoe Selo, no mais profundo dos segredos. Alderberg questionou se não seria mais prudente esperar até que o herdeiro do trono e a sua esposa, que, na altura, estavam no estrangeiro, regressassem, mas o czar insistiu que não havia tempo a perder. De qualquer das formas, o conde já devia saber qual era a opinião do seu filho relativamente ao assunto. A Igreja Ortodoxa exigia no mínimo um período de luto de quarenta dias para viúvos. Segundo Alexandre, todos os dias havia o risco de ele vir a sofrer um atentado terrorista que o mataria e, por isso, "estava preocupado em garantir o futuro do ser que tinha vivido só para mim ao longo dos últimos quarenta anos", assim como o dos seus filhos com ela.


Catarina Dolgorukov
A 6/18 de Julho, os dois casaram-se num dos apartamentos do palácio em Czarskoe-Selo. Os únicos que os ajudaram a preparar-se foram o padre, um diácono e um corista. O czar vestiu o seu uniforme azul de hussardo da guarda e a princesa levou o seu casaco de dia beije preferido. Foi montado um pequeno altar com uma mesa com uma cruz em cima, o evangelho, duas lanternas, os anéis nupciais e as coroas. Quando o casal chegou, começou a cerimónia com dois ajudantes-de-campo a segurar as coroas matrimoniais por cima das cabeças do noivo e da noiva que estavam ajoelhados. Os preparativos para a cerimónia secreta tinham sido realizados com tal secretismo que não só não havia convidados nem tinham sido chamados os representantes de outras potências estrangeiras, como nem sequer tinham sido avisados os oficiais do governo, funcionários do palácio nem criados, excepto os que organizaram a cerimónia. No dia do casamento, o czar deu à sua nova esposa o título de Sua Alteza Sereníssima, a princesa Youriecsky e os seus filhos foram legitimados através de uma ukaze imperial. Quando o czarevich e a sua esposa regressaram da Dinamarca, o czar convocou-os à sua presença e comunicou-lhes a notícia, pedindo-lhes para a tratarem sempre bem. Alguns dias depois, Alexandre II chamou Loris-Melikov e pediu-lhe para o aconselhar relativamente ao título da sua esposa. Este admitiu que, embora não existe qualquer precedente de um czar que se tivesse casado uma segunda vez e tivesse coroado a sua segunda esposa imperatriz (Pedro, o Grande tinha-se divorciado da sua primeira esposa e ambas tinham sido coroadas imperatrizes), esses precedentes poderiam ser sempre criados por um autocrata.

Alexandre II
A decisão do czar foi condenada por todas as cortes europeias, apesar de a maior parte mostrar um certo nível de compreensão pela atitude. Em Berlim, a princesa-herdeira Vitória considerou que "penso que a pressa incrível com que o imperador se casou enquanto a corte estava ainda de luto pela pobre imperatriz poderá ser atribuída e, até certo ponto, justificada pela sua vontade de cumprir o dever de um homem honrado perante uma senhora e os seus filhos que ele tinha colocado numa situação muito dolorosa". Embora fosse quase impossível não sentir algum ressentimento pela falta de respeito demonstrada à memória da falecida imperatriz, "e por muito que os filhos tenham ficado magoados com o segundo casamento do pai, penso que é preferível que assim seja do que se tivessem continuado a sentir-se envergonhados da vida que ele vivia".

Vitória, princesa-herdeira da Alemanha
Os grão-duques mão podiam fazer nada relativamente à ordem do czar para que eles e as suas esposas jantassem com ele e com a sua nova esposa, mas as grã-duquesas nunca deixaram de tratá-la de forma fria e chamávam-na "aquela aventureira manipuladora". Na posição de filho mais velho da czarina e sendo aquele que mais ressentia a atitude do pai, o czarevich mostrava-se particularmente insensível. Pelo bem das boas maneiras, tal como os irmãos faziam, estava preparada para ser civilizada, mas não cortês perante a sua madrasta. No entanto, quando ela não estava presente, não hesitava em denunciar "a intrusa" que achava "manipuladora e imatura". Com trinta-e-três anos de idade, ela era apenas dois anos mais nova do que ele. Até chegou a considerar mudar-se com a esposa e os filhos para a Dinamarca, apesar de o momento de subir ao trono poder chegar a qualquer altura e isso não passar de uma ameaça sem conteúdo.

O czarevich Alexandre, futuro Alexandre III
Catarina não era tratada oficialmente como "Sua Majestade", mas o czar planeava coroá-la sua consorte numa data futura. Existe a teoria de que Loris-Melikov tinha sugerido que o casamento deveria ser anunciado publicamente, que ela deveria ser declarada imperatriz e que se deveria enfatizar o facto de, pela primeira vez na história da casa imperial, havia uma imperatriz que era realmente russa. Ao mesmo tempo, uma zemsky sobor, ou seja uma assembleia de delegados dos zemstvos, deveria ser convocada para colocar o regime czarista numa nova base constitucional e nacional. Alguns temiam que, se tal tivesse sido feito, teria surgido um movimento a favor de substituir o czarevich Alexandre por Jorge Alexandrovich Yourievsky, filho mais velho de Catarina e do czar. Embora Loris-Melikov pudesse considerar essa ideia viável, seria pouco provável. De qualquer das formas, o czar deixou claro em privado que, independentemente da relação que tinha com o seu filho, Alexandre era e continuaria a ser o seu herdeiro.


Jorge Alexandrovich Yourievsky, filho do czar Alexandre II e da sua segunda esposa, Catarina
Dentro da família, apenas os grão-duques Constantino e Miguel continuaram a apoiar completamente o irmão e a sua nova cunhada. Antes de levarem as suas esposas e filhos a São Petersburgo para os conhecerem, avisaram-nos de forma firme que tinham de estar preparados para conhecer a sua nova imperatriz, ignorando os protestos das suas esposas de que "ela" não era nenhuma imperatriz e relembrando-as que, como súbditos do czar, não tinham direito de criticar as suas decisões. A princesa seria coroada imperatriz assim que o período de luto pela "tia Maria" terminasse e, até lá, devia ser tratada como tal. Todos os filhos do grão-duque Miguel aceitaram o assunto sem problemas, apesar de ter terminado abruptamente a conversa quando um deles, o grão-duque Sérgio Mikhailovich, começou a fazer perguntas embaraçosas relativamente às origens da sua nova prima.

Grão-duque Miguel Mikhailovich
Alguns ministros, principalmente Loris-Melikov, aceitaram o casamento como algo perfeitamente razoável e procuraram sempre obter a amizade e apoio da princesa Yourievsky. O czar encontrou conforto na companhia da sua segunda família e, depois de passar uma hora com o seu filho mais velho do segundo casamento, Jorge (ou 'Gogo'), de oito anos, parecia estar sempre de bom-humor.

Catarina com os seus dois filhos mais velhos, Jorge e Olga
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, sobrinho do czar, descreveu uma refeição em família na qual o czar, já com mais de sessenta anos, se comportou como um jovem de dezoito apaixonado, sussurrando palavras de encorajamento à sua esposa, perguntando-lhe se ela queria vinho, concordando com tudo o que ela dizia e satisfeito pelos membros mais jovens à mesa a terem aceitado. No fim do jantar, a governanta trouxe os seus filhos para a sala e o czar sentou Jorge no seu joelho. "Diz-nos, Gogo, qual é o teu nome completo?" ao que a criança de oito anos respondeu com orgulho: "Sou o príncipe Jorge Alexandrovich Yourievsky" enquanto brincava com as patilhas do pai com as suas mãozinhas. "Ficámos todos muito contentes por o ter na nossa presença, príncipe Yourievsky. Já agora, gostavas de ser grão-duque?" Quando ouviu esta pergunta, a princesa Youriesky corou profundamente. Foi uma manifestação de afecto paternal que o resto da família achou um quanto nauseabunda, principalmente a grã-duquesa Olga Feodrovna, esposa do grão-duque Miguel, que disse irritada ao marido que nunca na vida iria reconhecer aquela "aventureira calculista" que tinha separado a família e estava a "conspirar para arruinar o império".

Texto retirado do livro "The Romanovs: 1818-1959" de John van der Kiste

terça-feira, 11 de agosto de 2015

"Histórias de Amor da Realeza" de Gill Paul publicado em Portugal

     

Recentemente a editora Text Ed. publicou em Portugal o livro "Histórias de Amor da Realeza" de Gill Paul (Título original: Royal Love Stories: The tales behind the real-life romances of Europe's kings and queens).

Este livro inclui dois capítulos dedicados aos Romanov. O primeiro à imperatriz Catarina, a Grande e Potemkin e o outro ao czar Nicolau II e à imperatriz Alexandra Feodorvna.

Está à venda em grande parte das livrarias e espaços comerciais assim como nos principais sites de venda de livros como a Wook e a FNAC. O preço recomendado é de €14,90.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Terceira Parte


Um dos primeiros rebeldes da família foi o grão-duque Nicolau Constantinovich (em cima com os pais, o grão-duque Constantino Nikolaevich e a grã-duquesa Alexandra Iosifovna). Ignorando as tentativas da mãe de lhe arranjar uma noiva adequada, Nicolau gastou a sua fortuna nas suas amantes e na sua colecção de arte. Em 1874 já andava a roubar à própria família: quando se soube do que tinha feito, foi declarado louco, perdeu o seu título e foi colocado sob vigia, mas, para onde quer que fosse, arranjava problemas. Em 1874 e em 1876, uma mulher que não devia sequer ter-se aproximado dele ficou grávida com o seu filho. Em 1878, casou-se com outra mulher em segredo e sempre defendeu que devia haver uma revolução. Em termos oficiais, deixou de existir e, no verão de 1881, o czar Alexandre III enviou-o para o exílio e Tashkent. En 1895, apesar de ainda viver com a sua primeira esposa, casou-se com uma jovem de dezasseis anos cometendo uma bigamia que foi rapidamente anulada. Quando o visitou em 1904, a sua irmã Olga disse: "perdeu completamente qualquer sentido de moral entre o que pode ser feito e o que pode ser exigido". Mas havia outro lado em Nicolau. Interessou-se verdadeiramente pela Ásia Central e organizou expedições cientificas, publicando depois as suas descobertas. Em Tashkent lançou sistemas de irrigação e outros projectos benéficos. Recebeu bem a revolução e, quando morreu de infecção pulmonar em Abril de 1918, os bolcheviques da sua zona organizaram um grande funeral em sua honra na Catedral de Tashkent.


O grão-duque Miguel Mikhailovich chegou à idade adulta com muita vontade de se casar. Pediu a princesa Irene de Hesse-Darmstadt em casamento e 1886 e a princesa Luísa de Gales em 1887, achando que estava profundamente apaixonado em ambos os casos. No entanto, ambas recusaram o seu pedido. Em finais de 1887, apaixonou-se pela condessa Ignatiev, filha de um ministro do governo. O amor era correspondido, mas, depois de muita deliberação, o czar recusou ceder permissão para o casamento. Profundamente triste com a situação, Miguel iniciou uma viagem pela Europa e foi nessa altura que se apaixonou por Sofia, condessa de Merenberg (acima, ao centro). Casou-se com ela antes de alguém o conseguir impedir, uma acção que lhe custou o título e uma sentença de exílio perpétuo. A fotografia acima mostra o grão-duque com Sofia e a segunda filha do casal, Nádia, em 1896.


Quatro anos depois da morte da sua primeira esposa, o grão-duque Paulo Alexandrovich começou a ter um caso amoroso com Olga von Pistolkors, esposa do ajudante-de-campo do seu irmão, o grão-duque Vladimir. Quando ela deu à luz um filho de ambos e o czar se recusou a permitir o divórcio a Olga a não ser que o tio prometesse não se casar com ela, Paulo prometeu que não o faria, mas tinha todas as intenções de não cumprir o que tinha dito. Fugiu da Rússia, deixando os seus dois filhos legítimos para trás e casou-se em Itália. Por causa deste acto, foi banido da Rússia e os seus filhos foram colocados à guarda do irmão dele, o grão-duque Sérgio. Paulo tornou-se pai de uma segunda família. Na fotografia acima, tirada em 1906, Paulo surge no centro, com a sua filha Irina do lado direito, a esposa Olga logo a seguir com Natália ao colo e Vladimir na ponta. As outras pessoas são a mãe, irmã e filhas de Olga.


Em 1896, na coroação de Nicolau II, o grão-duque Cyrill Vladimirovich apaixonou-se pela sua prima Vitória Melita, segunda filha da grã-duquesa Maria Alexandrovna. O facto de ser sua prima direita seria suficiente para dificultar qualquer plano de casamento, mas a situação era ainda pior; ela era casada com o grão-duque Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt. Mas o casamento em Hesse já não estava a atravessar uma boa fase e acabou em divórcio em 1901. Segundo Cyril, Vitória tomou essa decisão porque o amava. Ao longo dos anos seguintes, os dois viveram juntos quando podiam, apesar de os pedidos de Cyril para se casar serem sempre negados. O seu comportamento causou muito desconforto na família e os pais de Cyril fizeram os possíveis para acabar com a relação. A sua mãe até lhe pediu para ficar com Vitória como amante e encontrar outra princesa para se casar, pelo bem da sua posição. No outono de 1905, os dois casaram em segredo na Baviera. Quando Cyrill apareceu na Rússia, à espera de ser perdoado, o czar retirou-lhe os títulos e rendimentos e enviou-o para o exílio.


Cyrill e Vitória Melita mudaram-se para uma casa ao lado do palácio da mãe de Vitória Melita em Coburgo, onde nasceu a sua primeira filha, Maria, em Fevereiro de 1907. Nicolau II foi cedendo aos poucos, graças à pressão dos pais de Cyrill, e reconheceu o casamento pouco depois do nascimento de Maria, dando títulos adequados à mãe e à criança. Em 1908, permitiu que Cyrill regressasse à Rússia para assistir ao funeral do seu tio, o grão-duque Alexei Alexandrovich, e devolveu-lhe o seu título na marinha. Acabaria por ser este perdão que iria causar ressentimento entre o resto da família, mais ainda do que o castigo inicial. Em 1910, Cyril regressou à Rússia com a esposa e as duas filhas - a princesa Kira nasceu em 1909 - e a família estabeleceu-se em São Petersburgo. A fotografia acima foi tirada em Coburgo e mostra Cyrill a segurar a sua filha mais velha, Maria.


Nenhum dos irmãos de Cyrill estava disposto a cumprir as regras. Boris nunca se casou e tornou-se um conhecido playboy. No verão de 1901, os irmãos do grão-duque André Vladmirovich (acima) apresentaram-no à bailarina Mathilde Kschessinskaya que descreveu o momento da seguinte forma: "Ele era muito bonito e também muito tímido, o que não estragava as coisas de todo, bem pelo contrário! Durante o jantar, ele derrubou um copo de vinho acidentalmente e o conteúdo acabou por me sujar o vestido. Mas não fiquei nada zangada. Senti que era um bom presságio (...) A partir daquele momento, o meu coração transbordou com uma emoção que já não sentia há muito tempo". Desde o casamento e ascensão ao trono de Nicolau II que Mathilde vivia sob a protecção do seu primo, o grão-duque Sérgio Mikhailovich. A sociedade achava que os dois eram amantes, mas, nas suas memórias a bailarina diz apenas que tinha por ele um grande afecto e amizade. Quando descreveu o nascimento do seu filho no verão de 1902, na datcha que Sérgio lhe tinha comprado, Mathilde escreveu: "ele sabia perfeitamente que não era o pai da criança, mas amava-me e... perdoou-me tudo."


Matilde com o seu filho Vladimir, conhecido por "Vova". A relação entre Mathilde e André continuou, para grande irritação da grã-duquesa Maria Vladimirovna. O grão-duque Sérgio Mikhailovich também continuou a estar muito presente na vida dos dois.


Para Nicolau II, a desobediência mais dolorosa foi o casamento às escondidas do seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel Alexandrovich (em cima). Miguel foi o herdeiro ao trono entre 1899 e 1904 e a saúde frágil do czarevich Alexei significava que esse posto lhe podia ser entregue novamente a qualquer momento. Não havia casamento mais vital para a continuidade da dinastia Romanov, mas, infelizmente, Migue apaixonava-se com demasiada facilidade. Em 1902, foi a irmã mais nova de Vitória Melita, a princesa Beatriz, que lhe chamou a atenção e ela também se apaixonou por ele. Os dois começaram a trocar correspondência, mas, em 1903, quando se levantou a hipótese de um casamento, o czar disse ao seu irmão que tal não seria possível, uma vez que Beatriz era sua prima direita. Miguel tentou romper o noivado, mas a sua atitude foi muito mal vista pela família dela, levando a uma zanga que durou até 1905. Mas, nessa altura, o grão-duque estava novamente apaixonado. Desta vez tratava-se de uma dama-de-companhia chamada Alexandra Kossikovskaya. Em 1906, Miguel pediu permissão para casar com ela. O seu irmão recusou e a mãe de ambos, Maria Feodorovna, fez com que a rapariga fosse discretamente enviada para longe do filho. Em 1907, Miguel planeou duas fugas para se casar com ela, mas ambas falharam.


Antes do final de 1907, surgiu uma terceira mulher na vida de Miguel. Natália Sheremetyevskaya era casada com um oficial do regimento do grão-duque, Vladimir Wulfert, que era já o seu segundo marido. Para ela, seduzir o grão-duque Miguel não passava de um jogo: seria possível conquistar o irmão do czar? Era possível e ela conseguiu. A relação tornou-se mais séria quando Wulfert a descobriu. Era um homem violento e, por isso, Miguel foi enviado para outro regimento, mas recusou-se a deixar Natália e o seu caso amoroso tornou-se um pesadelo para a corte. Em Julho de 1910, Natália deu à luz o filho de Miguel. No outono de 1912, com o czarevich à beira da morte, Miguel quebrou a promessa que tinha feito ao irmão e casou-se com Natália em segredo, em Viena. Foi muito honesto relativamente aos motivos que o levaram a tomar esta decisão: "Poderia nunca ter tomado esta medida se não fosse pela doença do pequeno Alexei e a ideia de que, como herdeiro do trono, poderia ser separado da Natália. Mas agora isso já não pode acontecer." Foi a razão mais cruel que poderia ter escolhido. Nicolau enviou-o para o exílio: a fotografia acima foi tirada durante esse período, em Inglaterra.

terça-feira, 10 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Segunda Parte


O irmão de Anastásia Mikhailovna, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, com a grã-duquesa Xenia Alexandrovna. Este foi o primeiro casamento entre membros da família Romanov e apenas pôde ser celebrado porque os dois eram primos em segundo grau. Alexandre e Xenia conheceram-se porque faziam parte do mesmo grupo de primos e amigos que cresceu junto na década de 1880. Os dois começaram por ser amigos, apesar de ele ser mais velho nove anos do que a sua futura noiva e os seus sentimentos começaram a desenvolver-se quando Xenia estava a meio dos seus anos de adolescente. Alexandre III e Maria Feodorovna não estavam muito convencidos desta união, em parte porque Xenia era ainda muito nova e em parte porque não sabiam se podiam confiar no carácter de Alexandre. Mas a persistência acabaria por ser compensada e, em 1894, após a intervenção do grão-duque Miguel Nikolaevich, pai de Alexandre, o noivado foi anunciado. Mas mesmo assim houve percalços. A czarina não gostava da arrogância e falta de educação de Alexandre ao mesmo tempo que este se queixava que teria de esperar demasiado tempo entre o noivado e o casamento. A cerimónia celebrou-se em Peterhof a 6 de Agosto de 1894.


Alexandre e Xenia com a sua primeira filha, a princesa Irina Alexandrovna, por volta de 1896. Apesar de terem tido mais seis filhos, todos rapazes, a atracção romântica entre o casal não durou muito. O grão-duque não estava satisfeito com o rumo dos acontecimentos na Rússia e começou a ficar cada vez mais frustrado com a vida na corte. Ao fim de cerca de doze anos de casamento, tanto ele como Xenia começaram a passar longos períodos de tempo fora da Rússia. Ambos tiveram amantes com o total conhecimento do outro. No caso de Alexandre tratou-se de uma mulher identificada apenas como "Maria Ivanovna"; no caso de Xenia foi um inglês chamado Fane que ainda trocava correspondência com ela durante a Primeira Guerra Mundial. Apesar de tudo, Xenis e Alexandre continuaram casados em nome e estão enterrados ao lado um do outro.


A grã-duquesa Helena Vladimirovna com o seu noivo, o príncipe Max de Baden. O príncipe Max era neto da grã-duquesa Maria Nikolaevna da Rússia, duquesa de Leuchtenberg. Era um jovem atraente e rico e, por isso, não faltavam mães da realeza desejosas por ver as suas filhas casadas com ele. Em 1898, parecia que a grã-duquesa Maria Vladimirovna tinha ganho o grande prémio quando Max ficou noivo da sua filha Helena. Foram publicados os anúncios e tiradas as fotografias, mas o príncipe mudou de ideias. Os Vladimirovich ficaram furiosos e começaram a espalhar-se rumores de que Maria Vladimirovna estava a ficar desesperada para casar a sua filha. Em 1900, o nome de Helena foi sugerido para uma possível união com o rei da Bulgária, que tinha ficado viúvo pouco tempo antes. Nesse mesmo ano, o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, terceiro filho da rainha Olga da Grécia, pediu Helena em casamento, mas Maria Pavlovna repreendeu a filha por encorajar um homem sem perspectivas nem fortuna. Estava mais virada para o príncipe Alberto, futuro rei da Bélgica, mas ele recusou todos os seus convites para visitar a Rússia e acabaria por anunciar o seu noivado com a princesa Isabel da Baviera pouco tempo depois.

Helena Vladimirovna e Nicolau da Grécia e Dinamarca
Em Junho de 1902, Maria Pavlovna admitiu a derrota e deu permissão à filha para aceita o pedido de casamento do príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca. A tia dele, a czarina Maria Feodorovna, tinha as suas dúvidas: "A forma como foram criados e como vêm a coisas são tão diferentes e divergentes. Será necessária muita paciência de ambos os lados. É verdade que ela tem um tom brusco e arrogante que pode chocar as pessoas". Mas a rainha Olga, que estava afastada da velha rivalidade que sempre tinha colocado as duas Marias em campos opostos, tinha mais esperança na união e acabaria por ter razão. A ideia de superioridade que a mãe de Helena lhe tinha transmitido causou sempre problemas na família, mas eles dois, Helena e Nicolau foram sempre felizes e tiveram um longo casamento do qual resultaram três filhas.


A grã-duquesa Olga Alexandrovna com o seu marido, o duque Pedro de Oldemburgo, pouco depois do seu noivado na primavera de 1901. Quando era já idosa e estava a viver no Canadá, Olga recordou o seu primeiro casamento como uma fachada vazia. Sentia que tinha sido enganada ao aceitar a proposta de Pedro e o seu biografo, Ian Vorres, concluiu que a mãe dela teria arranjado a união para manter a sua filha por perto. No entanto, não foi esse o caso. Os documentos da época mostram que Maria Feodorovna ficou admirada e divertida com o facto de Olga ter aceite a proposta. Era um par improvável: Pedro tinha trinta-e-dois anos, enquanto Olga tinha apenas dezoito. O duque era tão adoentado e cansado como Olga era robusta e energética. Mas ela aceitou o pedido e, durante os primeiros anos de casamento, pelo menos ele estava muito apaixonado: "Minha queria e doce Olga (...) sinto muito a tua falta e a nossa casa parece morta sem ti. Fui até ao teu quarto e fiquei a pensar nos tempos que passamos aqui juntos e vieram-me as lágrimas aos olhos." Fazes-me feliz  porque sei que és feliz. Abraço-te com amor". O homem frio e desinteressado descrito nos relatos mais conhecidos não teria encontrado palavras para exprimir estes sentimentos. Talvez o problema fosse o facto de haver poucos sentimentos. Por razões ainda não completamente apuradas, o casamento desfez-se e Olga, ao recordá-lo da perspectiva de um segundo casamento feliz, apenas o conseguia recordar como uma falha.


Outro noivado recordado de uma perspectiva retorcida foi o da grã-duquesa Maria Pavlovna Júnior com o príncipe Guilherme da Suécia, arranjado pela tia de Maria, a grã-duquesa Isabel Feodorovna em 1907. Mais tarde, Maria culpou Isabel pela sua "pressa em casar-me e a total ausência de consideração pelo lado sentimental de tal pacto", embora admitisse ao mesmo tempo que gostou da atenção que recebeu na altura. "Ela era cheia de vida e muito alegre", recordou outra tia, a grã-duquesa Maria Georgievna, "mas tinha uma inclinação obstinada e egoísta que faziam com que fosse bastante difícil lidar com ela". Maria Pavlovna não falou nas memórias do desejo que tinha de fugir da disciplina da infância: "Depois vamos poder viajar juntos", escreveu Maria a Guilherme durante o seu noivado, "e viver como queremos. Estou ansiosa como começar uma vida maravilhosa - uma vida cheia de amor e felicidade, como disseste nas tuas últimas cartas."


Cinco gerações, com Maria Pavlovna, atrás, a segurar uma fotografia da sua falecida mãe, a grã-duquesa Alexandra Georgievna. A sua avó, a rainha Olga da Grécia, surge na direita, a sua bisavó, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna, está à direita e o bebé é o filho de Maria, o príncipe Lennart da Suécia, nascido em Estocolmo a 8 de Maio de 1909. Maria acabaria por não encontrar a felicidade que esperava na Suécia. Sendo um oficial da marinha no activo, Guilherme passava muito tempo fora e a vida na corte tinha tantas limitações como aquela que tinha deixado na Rússia. Maria sentia-se frustrada e sozinha. Ficou tão doente que, em 1913, a sua família tomou a iniciativa de a levar de volta para a Rússia e dar início às negociações para o divórcio. Maria abandonou o filho que seria criado na Suécia pelo pai.


Em Maio de 1911, a princesa Tatiana Constantinovna ficou noiva do príncipe Constantino Bagration-Mukhransky. Esta união foi um sinal de que os tempos estavam a mudar. Com tantos membros da família a chegar à idade de casar, havia poucas hipóteses de encontrar parceiros do mesmo estatuto social. Além do mais, a maioria dos jovens Romanov queria ficar na Rússia. Por isso, Nicolau II deu o seu consentimento para o casamento de Tatiana e, em Agosto de 1911, formalizou uma nova lei que limitava a regra do mesmo estatuto social aos grão-duques e grã-duquesas que fossem filhos e netos de czares pela linha masculina. Os membros mais antigos da família olharam para esta nova lei com desconfiança. "Sabias que a filha do tio Kostia [Constantino Constantinovich] está noiva de um príncipe Bagration do Cáucaso?" escreveu a grã-duquesa Maria Alexandrovna à sua filha. "É o primeiro casamento morganático de uma mulher na nossa família. Ela estava ansiosa e a sofrer por causa deste amor morganático e agora foi sancionado. É um precedente perigoso para a nossa família e o início de uma nova era social." O casamento, que na verdade não era morganático, celebrou-se a 6 de Setembro  em Pavlovsk.


A princesa Irina Alexandrovna, única filha do grão-duque Alexandre Mikhailovich e da grã-duquesa Xenia Alexandrovna, e o príncipe Félix Yussupov. Irina foi o segundo membro da família imperial a beneficiar da alteração da lei do casamento. O príncipe Félix Yussupov, conde Sumarakov-Elston, era o único filho ainda vivo de um dos casais mais ricos da Rússia - dizia-se que eram até mais ricos que o czar - mas não era um príncipe real. Irina aceitou a sua proposta de casamento em inícios de 1913 e os seus pais deram o seu consentimento em principio, mas não se fez qualquer anúncio.  A família tinha muitas dúvidas acerca desta união, uma vez que Félix tinha má reputação. O anúncio foi adiado o mais possível para que houvesse tempo de avaliar atempadamente o carácter do noivo.


Nessa primavera, surgiu um segundo candidato à mão de Irina. O grão-duque Dmitri Pavlovich (acima) disse a Félix que estava apaixonado por Irina e pretendia pedi-la em casamento. Passou a aproveitar todos os momentos que tinha para estar com ela encorajado, pelo menos assim acreditava a mãe de Félix, a princesa Zinaida Yusupova, pela avó de Irina, a czarina Maria Feodorovna. Numa carta ao filho datada de 10 de Junho de 1913, a princesa Zinaida disse-lhe: "Meu querido menino (...) a mãe dela não nega que a avó é a favor do Dmitri, mas diz que, por ela, não teria nada contra ti se for isso que a Irina quiser". E foi isso mesmo que aconteceu. A decisão de Irina já estava tomada e, em Setembro, o noivado foi anunciado. Os dois casaram-se no Palácio de Anichkov, casa da avó de Irina.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 9 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Primeira Parte

O príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca com a sua esposa, a grã-duquesa Helena Vladimirovna no dia do seu casamento
Quando terminava a educação dos membros da família imperial, chegava a altura do casamento. Os estatutos impostos pelo czar Paulo I faziam com que os seus descendentes fossem obrigados a contrair matrimónio com parceiros do mesmo estatuto social, o que limitava a sua escolha a membros de famílias reinantes da Europa. Também havia considerações sociais a ter em conta: a Igreja Ortodoxa Russa proibia o casamento entre primos direitos, uma prática comum noutras casas reais, e, até 1874, as princesas estrangeiras que se casavam com homens da família Romanov eram obrigadas a converter-se à religião ortodoxa. Esta regra continuou a ser aplicada à esposa do herdeiro ao trono.

Gravura do casamento do futuro czar Alexandre III com Maria Feodorovna
Por outro lado, as grã-duquesas russas nunca se converteram a outra religião. Permaneceram ortodoxas, independentemente do noivo escolhido e, até aos dias de hoje, ainda sobrevivem igrejas russas por toda a Europa mandadas construir pelas filhas e netas de czares que se foram espalhando pelas famílias reais do continente. Era raro ver uma noiva Romanov que se adaptasse bem ao seu país de acolhimento. Rodeadas por culturas completamente diferentes daquela onde tinham nascido, quase todas elas acabariam por permanecer profundamente ligadas à Rússia e com saudades do seu país natal.

Para os seus irmãos, as coisas eram ainda mais complicadas. Os jovens Romanov não eram protegidos da sociedade e era quase inevitável que as suas primeiras paixões surgissem por alguma dama-de-companhia ou dançarina, o que tornava difícil a sua adaptação a uma casamento "adequado" e, à medida que a família foi crescendo, foi-se tornando cada vez mais difícil encontrar princesas pela Europa. Esse foi o maior problema da família imperial à medida que atravessava os seus últimos anos de existência e o número de membros da família que se foi casando abaixo da sua posição foi aumentando com o passar dos anos.

O grão-duque Paulo Alxandrovich com a sua segunda esposa, a aristocrata Olga Karnovitsch , depois princesa Paley
A grã-duquesa Maria Alexandrovna era particularmente afeiçoada ao seu pai, o czar Alexandre II da Rússia: "Perdemos a nossa filha mais velha e queríamos tanto ter outra que, quando ela nasceu, foi uma alegria. (...) Quando ela tinha aulas, as nossas horas não coincidiam e era raro ela poder fazer-me companhia nas minhas caminhadas, mas aos Domingos tinha-a só para mim e iamos sempre caminhar juntos (...) ontem, quando chegou à hora em que costumávamos fazer isso, não pude evitar e tive de lhe enviar um telegrama a dizer-lhe que estava a pensar nela e nas nossas caminhadas". Quando Maria e o príncipe Alfredo do Reino Unido começaram a apaixonar-se, ambos os seus pais mostraram alguma preocupação. As relações diplomáticas entre a Rússia e Grã-Bretanha estavam cortadas, mas o casal estava decidido e a cerimónia acabaria mesmo por celebrar-se na Grande Capela do Palácio de Inverno em Janeiro de 1872. Maria Alexandrovna teve muitas dificuldades para se adaptar à corte britânica e apenas acabaria por se sentir realmente à-vontade quando o seu marido se tornou duque de Saxe-Coburgo-Gota.

A grã-duquesa Maria Alexandrovna e o seu marido, o príncipe Alfredo do Reino Unido


Maria Alexandrovna mostra o seu filho mais velho, o príncipe Alfredo. A fotografia foi tirada na Rússia, por volta de 1875.


















As filhas mais velhas de Maria Alexandrovna: Maria, futura rainha da Roménia, e Vitória Melita, futura grã-duquesa de Hesse e grã-duquesa da Rússia. Ambos os seus casamentos seriam fonte de desentendimentos na Rússia.









A grã-duquesa Olga Constantinovna (em baixo, com a mãe) ficou noiva do rei Jorge I da Grécia no início de 1867, quando tinha apenas quinze anos de idade. Diz-se que o seu encontro em casa dos pais dela foi acidental, mas parece mais provável que a irmã dele, a futura czarina Maria Feodorovna, teve alguma influência para que ele acontecesse. É sabido que persuadiu os pais de Olga, que não estavam muito convencidos do sucesso da união, a dar o seu consentimento. "Onde é que foste aprender a ser tão casamenteira, minha marota?" perguntou o pai dela, o rei Cristiano IX da Dinamarca, "Deves ter tido muito trabalho a convencer o teu tio e a tua tia que, antes, estavam decididamente contra uma união deste tipo". Olga casou-se no Palácio de Inverno em Outubro e partiu para a Grécia pouco tempo depois, quando era ainda pouco mais do que uma criança. Levou consigo as suas bonecas e brinquedos favoritos que lhe serviram de conforto quando a experiência se tornou demasiado esmagadora. Acabaria por se adaptar relativamente bem ao seu novo país e tornou-se uma rainha bastante popular, mas o seu coração foi sempre russo. 


Olga Constantinovna e Alexandra Iosifovna
A rainha Olga com os seus filhos mais velhos, Constantino, herdeiro do trono grego, (à direita, sentado) e Jorge. Constantino nasceu em Agosto de 1868, antes de a sua mãe chegar aos dezassete anos de idade, e o seu nome foi escolhido por uma multidão que o entoou por baixo da varanda do palácio na noite do seu nascimento. Foi uma reviravolta curiosa: o primeiro Constantino da família imperial russa, o grão-duque Constantino Pavlovich, tinha recebido esse nome porque a sua avó, a czarina Catarina, a Grande, desejava criá-lo para que ele subisse um dia ao trono grego que era na altura ocupado pelo imperador otomano. Agora, quase um século depois, um dos seus descendentes, ainda para mais um com o mesmo nome, estava em linha directa para herdar o trono.

Olga Constantinovna com os seus dois filhos mais velhos
O rei Jorge e a rainha Olga em 1881 (abaixo). O rei e a rainha visitavam a Rússia e a Dinamarca, país natal do rei, com muita frequência. Na Dinamarca também se encontravam quase todos os outonos com Maria Feodorovna, Alexandre III e a sua família. Ambas as famílias foram sempre muito chegadas.

Jorge e Olga em 1881
A grã-duquesa Vladimir, Maria Pavlovna, com o seu irmão, o grão-duque hereditário Frederico Francisco de Mecklenburg-Schwerin em 1878 (abaixo). Maria Pavlovna também recorreu à sua posição de mulher casada para ajudar a arranjar o casamento dos seus irmãos solteiros. Apesar de ter uma personalidade gentil e quase santa, Frederico Francisco era o que precisava mais de ajuda. Sofria de uma forma grave de asma assim como ataques espaçados de uma doença de pele pouco atraente. Maria Feodorovna deixou-nos uma descrição bastante gráfica: "sofre de uma doença asquerosa, uma erupção cutânea que lhe afecta todo o pescoço e as orelhas de tal forma que ele teve de usar uma espécie de manto a semana inteira para não se ver. É uma tragédia para ele, coitado. É quase errado que ele se case". Mas Maria Pavlovna tinha quase tanto jeito como a cunhada para que as coisas acontecessem à sua maneira e reparou que uma prima do marido, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna de dezassete anos, poderia ser uma boa noiva para o irmão. Frederico Francisco fez uma visita a São Petersburgo e sentiu-se tão atraído por Anastásia que tomou imediatamente a iniciativa de escrever uma carta à mãe da sua futura esposa. "Pode imaginar como fiquei nervosa", escreveu Maria Pavlovna ao seu pai, "porque o futuro do meu irmão e o bem-estar do nosso amado estado de Mecklenburg-Schwerin depende disto."

Maria Pavlovna com o irmão, Frederico Francisco
Anastásia Mikhailovna em 1879 (abaixo), num retracto que faz justiça à descrição que Maria Feodorovna deixou dela no seu dia de casamento: "tão doce, delicada como uma rosa, bonita como uma fada". De forma característica, a futura czarina descreveu o noivo de forma perversa: "parecia alguém que tinha despertado do mundo dos mortos ou alguém que se esqueceram de enterrar". Mas Anastásia acabaria mesmo por o amar já que, de acordo com vários relatos, ele era uma pessoa muito amável - "o homem mais querido à face da Terra", segundo dizia a princesa de Pless. Foi com o estado de Mecklenburg-Schwerin que Anastásia teve problemas. Antes de se casar, a grã-duquesa esforçou-se verdadeiramente por estudar o estado que a ia receber, mas acabou por nunca se conseguir adaptar a ele. Detestava aquele lugar e os seus súbditos acabariam por sentir o mesmo em relação a ela. Não demorou muito até que Anastásia e Frederico compreendessem que apenas poderiam ser felizes como um casal longe do estado que ele estava destinado a reinar.

Anastásia Mikhailovna em 1879
Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat