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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Princesa Vitória da Prússia no casamento do irmão Alfredo com a grã-duquesa Maria Alexandrovna

Vitória da Prússia (esq.) com o irmão Alfredo e a irmã Helena do Reino Unido
A rainha Vitória não era a única que acreditava na eficácia política das amizades e casamentos entre monarcas - uma falácia típica do século XIX com a qual até Bismark concordava. Nesse sentido, Alix [Alexandra da Dinamarca] e a sua irmã Dagmar, esposas dos herdeiros dos tronos do Reino Unido e da Rússia, respectivamente, tinham promovido uma união entre o irmão de Vicky [Vitória da Prússia], Alfredo, e a filha do czar Alexandre II, a grã-duquesa Maria. A rainha opôs-se veemente ao casamento, em parte por motivos religiosos (os Romanov eram ortodoxos), mas principalmente porque o czar não saltou logo de alegria quando lhe foi dada a oportunidade de casar a sua única filha com o segundo filho da rainha Vitória.

A rainha Vitória
A princesa-herdeira da Alemanha [Vicky] tinha opiniões distintas sobre a escolha do irmão. Por um lado, não confiava na família real russa, mas, por outro, tinha ficado impressionada com a grã-duquesa Maria nas poucas vezes que as duas tinham estado juntas. Maria era o tipo de jovem de que Vicky gostava - muito inteligente e relativamente simples. Não era remotamente bonita, mas Vicky esforçou-se por encontrar aspectos positivos nela - um rosto pálido, uma boa testa, um feitio simples e sincero, e uma fortuna que seria muito útil para o ducado de Coburgo, que Alfredo iria herdar após a morte do seu tio, o duque Ernesto, que não tinha descendentes. Affie [Alfredo do Reino Unido] já tinha vinte-e-oito anos, à época uma idade já muito avançada para se casar e começar uma família.

O príncipe Alfredo e a grã-duquesa Maria
Vicky decidiu estar presente no casamento do irmão. A rainha Vitória não ficou muito contente com a notícia. "Espero que o frio de São Petersburgo não seja demasiado para ti," escreveu ela. "Tenho pena de não estar presente pela primeira vez no casamento de um dos meus filhos, mas, ao mesmo tempo, agora não gosto nada de ver casamentos e acho-os tristes e dolorosos".

Vitória, Princesa Real com a mãe, a rainha Vitória
O casamento da filha do czar com o filho da rainha Vitória realizou-se a 23 de Janeiro de 1874, no esplendor do Palácio de Inverno. Foi celebrado em duas partes, para satisfazer a noiva ortodoxa e o noivo anglicano. A cerimónia russa foi, de longe, a mais pitoresca, com a noiva e o noivo a circular pelo altar da capela imperial com velas acesas nas mãos. Alguns dias depois, os convidados viajaram para Moscovo, onde se realizaram mais almoços e jantares e bailes, incluindo uma festa dada em honra do casal uma semana depois do casamento.

Caricatura de Maria vestida de noiva, feita por um jornal inglês
Foi um casamento luxuoso, mesmo para os padrões reais. Augusta Stanley, esposa do capelão que oficializou a cerimónia anglicana, escreveu para casa a dizer que, apesar de ter pedido diamantes emprestados a toda a gente que conhecia antes de partir de Inglaterra, ficou muito aquém do desejado quando comparada com as grã-duquesas russas russas que estavam "literalmente cobertas deles - nos cintos, bordas dos vestidos, saias, corpetes, cabeças - pedras gigantescas - e esmeraldas, e ainda outras pedras preciosas." Outra dama inglesa, no entanto, queixou-se da falta de higiene destas senhoras cobertas de jóias, a quem acusou de cheirarem tão mal como os camponeses que as serviam.

A grã-duquesa Maria com o marido Alfredo e três dos seus cinco filhos
Vicky passou menos tempo no palácio do czar do que as outras senhoras. Preferia estar no exterior, a ver e a explorar este novo mundo exótico, que descreveu numa carta dirigida à sua mãe Vitória quando regressou a casa:

"Não há nada que se compare a Moscovo como uma visão - nunca vi nenhuma imagem semelhante (...) a grandeza daquelas 300 igrejas com as suas cúpulas douradas, verdes e azuis, as paredes imponentes da fortaleza com as suas lindas torres pequeninas, com tectos envidraçados verdes e as suas estranhas colunas, algumas bizantinas, outras normandas e outras ainda mouras - tudo isto coberto de uma bela neve brilhante e com corvos negros a circular a floresta de torres e colinas imponentes foi simplesmente magnífico. 
Fiquei contente por ter ido à Rússia, apesar de ficar muito agradecida por não ser russa e não precisar de passar lá os meus dias (...) parece-me que por toda a Rússia paira uma melancolia monótona, pesada e silenciosa muito deprimente para o espírito!  Não falo de Petersburgo como aquelas pessoas que a visitam numa onda viva de entusiasmo e frivolidade e que podiam fazer as mesmas coisas em Paris ou em Viena, sem tirarem algum tempo para (...) reflectir além dos salões brilhantes e do luxo exagerado dos palácios e da extravagância frenética de uma corte tão grande."

Vitória com o vestido da corte prussiana
Este laço matrimonial entre a Inglaterra e a Rússia não resultou em mais nada além de algumas semanas de comemorações reais caras. O casamento do príncipe Alfredo do Reino Unido e a grã-duquesa Maria da Rússia, que parecia prometedor no início de 1874 não foi feliz. Nem conseguiu, como muitos esperavam, melhorar as relações diplomáticas entre os seus países. Foi, na verdade, pouco mais do que uma irrelevância política - uma união que não alterou em nada o equilíbrio entre potências tão cuidadosamente delineado por Bismark.

Vitória da Prussia (sentada, à direita) com a sua cunhada, Maria Alexandrovna (em pé, à esquerda da rainha), três das filhas dela, as princesas Maria (futura rainha da Roménia), Alexandra e Vitória Melita, a sua mãe, a rainha Vitória, a sua filha Vitória (Moretta) e a sua irmã Beatriz.
Texto retirado do livro "An Uncommon Woman - The Empress Frederick" de Hannah Pakula

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

As visitas da imperatriz Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia) à Prússia

A imperatriz Alexandra Feodorovna, nascida Carlota da Prússia
No início de cada Verão, os parentes russos dos Hohenzollern faziam a sua peregrinação anual à Prússia, inundando Berlim e Potsdam com "uma cheia" de grã-duquesas russas e os seus empregados. Além das implicações políticas destas visitas, Vicky [Vitória, Pincesa Real do Reino Unido, filha da rainha Vitória e casada com o futuro kaiser Frederico III da Alemanha] andava sempre ocupada de um lado para o outro, entre Berlim e Potsdam, em paradas, lanches, jantares, bailes e recepções que, muitas vezes, a obrigavam a mudar de roupa seis vezes por dia. Até Fritz [futuro kaiser Frederico III] se queixava que as suas tias o obrigavam a ele, à esposa e a toda a corte prussiana a correr de um lado para o outro como se fossem "empregados". Vicky, cujos dias começavam quase sempre às 7 da manhã, hora em que apanhava o comboio para Potsdam, e acabavam muito depois da meia-noite, quando tinha finalmente permissão para sair das soirées nocturnas, andava a sofrer de dores de cabeça, pés inchados e ressentimento.

Vitória, Princesa Real do Reino Unido, pouco depois da sua chegada à Prússia
No Verão de 1859, Vicky foi a única responsável pelas honras sociais a prestar aos Romanov, uma vez que Augusta [de Saxe-Weimar, sua sogra] se encontrava em Weimar, de visita à sua mãe, a grã-duquesa Maria Pavolovna da Rússia, que estava muito doente e prestes a falecer. Durante a sua visita, as senhoras russas tentaram convencer o seu sogro a não declarar guerra contra Napoleão III. Embora nem a irmã de Guilherme [futuro Guilherme I da Alemanha], Carlota, nem a sua cunhada pró-russa, a rainha Isabel [esposa do rei Frederico Guilherme IV da Prússia] tivessem conseguido convencer Guilherme a mudar de opinião, Vicky nunca mais conseguiu voltar a confiar nos parentes russos do marido.

Maria Pavlovna da Rússia, mãe da futura imperatriz Augusta da Alemanha e cunhada da imperatriz Alexandra Feodorovna
Em 1860, a viagem anual da imperatriz-viúva Alexandra da Rússia para assinalar o aniversário da morte do seu pai, o rei Frederico Guilherme IV da Prússia, coincidiu com as últimas semanas da segunda gravidez de Vicky. Com tudo pronto para o nascimento da bebé, Vicky teve ainda de lidar com os russos que apareceram em Potsdam um mês antes da data prevista para o parto. Embora lhe tivessem sido oferecidos aposentos em outros dois palácios, um dos quais tinha sido recentemente restaurado e redecorado para ela, a imperatriz Alexandra (viúva do czar Nicolau I), insistiu em ficar no Neues Palais, ocupando os aposentos que ficavam mesmo por baixo dos de Vicky.

Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia)
De todos os visitantes russos, a imperatriz-viúva era a mais venerável. Alta, magra e erecta, a antiga czarina de sessenta-e-um anos andava, de dia, sempre vestida de petro com um lenço de renda preto no cabelo e, à noite, vestia-se de branco e cobria-se com cascatas de pérolas. No Verão anterior, a imperatriz-viúva tinha mostrado a sua colecção de jóias a Vicky, uma colecção pela qual os Romanov eram muito conhecidos. "As tuas são mais bonitas", Vicky tinha garantido numa carta à mãe. "As dela são coisas enormes e de uma variedade tal que quase parece magia - safiras, esmeraldas, pérolas, rubis, etc., mas a qualidade não é muito boa - excepto os diamantes que são magníficos."

Alexandra Feodorovna, vestida de luto
A imperatriz-viúva viajava sempre com "um grande número de criados" que incluía quatro damas-de-companhia (que usavam vestidos negros de caxemira), que, por sua vez, possuíam várias criadas cada uma. Os criados russos dormiam sempre no chão, e era considerado necessário retirar toda a mobília dos quartos e redecorá-los após cada visita imperial.

Alexandra Feodorovna nos seus últimos anos de vida
"O barulho mesmo debaixo de mim não tem fim e não é nada agradável," queixou-se Vicky à mãe. "O que mais se ouve é o barulho de portas a bater e passos no chão que está sem carpetes - depois também se ouve os criados russos a conversar e a fumar (...) Ela sabe quanto tempo falta para me deitar [entrar em trabalho de parto] e onde ficam os meus aposentos, porque esteve aqui o ano passado. (...) É difícil não pensar que esta atitude não é a mais considerável, viver com uma multidão de gente na nossa casa. (...) Enfin, não me incomodo muito com isto, mas tenho pena dos nossos criados quando estes russos sujos estão cá."
Vicky
O pior de tudo era que o quarto onde os russos estavam a pensar reunir-se para chorar o aniversário da morte de Frederico Guilherme III era a sala-de-estar privada de Vicky, de onde se tinha retirado toda a mobília e cujas paredes tinham sido cobertas de papel-crepe negro. Um aspecto deprimente que durou toda a visita.

O Neues Palais em Potsdam, onde Vicky vivia e a imperatriz Alexandra ficou hospedada em 1860
O momento de irritação final aconteceu quando Vicky recebeu um convite formal da parte da rainha Isabel [da Baviera, esposa de Frederico Guilherme IV] para estar presente no Neues Palai no dia sete de Julho, data em que se assinalava a morte de Frederico Guilherme III. "Acho que se pode considerar um abuso ser convidada a estar presente na minha própria sala (...)", escreveu Vicky à mãe. Para mostrar o seu desagrado, Vicky enviou convites da sua parte a todos os que tinham sido convidados pela rainha para a cerimónia "para que pelo menos saibam quem é a dona da casa!" - e depois recusou estar presente. Acabou por ser uma boa decisão, uma vez que a tia mais conservadora de Fritz, a princesa Alexandrina da Prússia, tinha anunciado que nunca iria pôr os pés no Neues Palais enquanto a liberal Vicky lá estivesse. Furiosa, a princesa escreveu à mãe: "Pode ficar com a grande satisfação de lá ir no dia 7, já que eu não vou lá estar para a irritar com a minha presença."

Alexandra Feodorovna
Texto retirado do livro "An Uncommon Woman - The Empress Frederick" de Hannah Pakula

Notas:

A imperatriz Alexandra Feodorovna nasceu a 13 de Julho de 1798 como princesa Carlota da Prússia. Era filha do rei Frederico Guilherme III da Prússia e da princesa Luísa de Mecklenburg-Strelitz, o que a tornava irmã do rei Frederico Guilherme IV da Prússia e do primeiro imperador da Alemanha unida, Guilherme I da Alemanha. Casou-se em 1817 com o czar Nicolau I da Rússia de quem teve dez filhos, incluindo o czar Alexandre II. Morreu poucos meses depois da visita descrita acima, no dia 1 de Novembro de 1860.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Morte de Maria Alexandrovna e o Segundo Casamento de Alexandre II

Alexandre II, Maria Alexandrovna e três dos seus filhos
Em Maio era costume a corte imperial mudar-se para Gatchina para assistir às manobras de verão ao mesmo tempo que o czarevich, o grão-duque Vladimir e as suas respectivas famílias partiam para as suas residências de verão. Embora estivesse a perder as suas forças, a czarina [Maria Alexandrovna] queria ir passar o verão a Gatchina e os médicos concordaram que ela o devia fazer se assim o entendesse. Tinha passado o outono e o inverno em Cannes e sentia-se bem o suficiente para viajar. Em Maio, a sua filha Maria foi avisada que já não restava muito tempo de vida à mãe, por isso decidiu viajar até à Rússia, para estar com ela. A duquesa de Edimburgo estava tão desencantada com a vida em Inglaterra sob a vigilância matriarcal da sua sogra, a rainha Vitória, que estava desejosa por arranjar alguma desculpa para poder regressar a casa. Apesar disso, ficou chocada quando descobriu que Catarina Dolgorouky, a amante do pai, e os seus filhos se tinham instalado em aposentos no Palácio de Inverno que ficavam directamente acima dos aposentos da sua mãe e teve uma discussão séria com o seu pai. Abalado por perder a sua última aliada na família, o czar partiu apressadamente para Gatchina antes dela para poder assistir às manobras militares. No entanto, a discussão com a filha pesou-lhe na consciência, já que regressava todas as manhãs a São Petersburgo para saber da saúde da esposa.

Alexandre II com a sua filha, a duquesa de Edimburgo
No entanto, no dia 3 de Junho de 1880, os sofrimentos da czarina Maria Alexandrovna terminaram quando ela morreu em paz enquanto dormia. No dia do funeral, que se realizou na catedral da Fortaleza de Pedro e Paulo, o czar carregou o caixão com a ajuda dos filhos desde a catedral até à sua sepultura, embora os seus filhos talvez considerassem com alguma amargura que Alexandre tinha contribuído para a sua morte. Uma vez que ainda era apenas uma dama-de-companhia, Catarina Dolgorouky não foi obrigada a estar presente.

A czarina Maria Alexandrovna nos seus últimos anos de vida
O viúvo passou então a estar livre para oficializar a sua relação com a mulher que já considerava ser a sua "verdadeira esposa perante Deus". Um mês após a morte de Maria Alexandrovna, apanhou o seu camareiro, o conde Adlerberg, quando o informou de que tencionava casar-se com a princesa Dolgorouky daí a uma semana numa divisão escondida do Palácio de Isabel em Czarskoe Selo, no mais profundo dos segredos. Alderberg questionou se não seria mais prudente esperar até que o herdeiro do trono e a sua esposa, que, na altura, estavam no estrangeiro, regressassem, mas o czar insistiu que não havia tempo a perder. De qualquer das formas, o conde já devia saber qual era a opinião do seu filho relativamente ao assunto. A Igreja Ortodoxa exigia no mínimo um período de luto de quarenta dias para viúvos. Segundo Alexandre, todos os dias havia o risco de ele vir a sofrer um atentado terrorista que o mataria e, por isso, "estava preocupado em garantir o futuro do ser que tinha vivido só para mim ao longo dos últimos quarenta anos", assim como o dos seus filhos com ela.


Catarina Dolgorukov
A 6/18 de Julho, os dois casaram-se num dos apartamentos do palácio em Czarskoe-Selo. Os únicos que os ajudaram a preparar-se foram o padre, um diácono e um corista. O czar vestiu o seu uniforme azul de hussardo da guarda e a princesa levou o seu casaco de dia beije preferido. Foi montado um pequeno altar com uma mesa com uma cruz em cima, o evangelho, duas lanternas, os anéis nupciais e as coroas. Quando o casal chegou, começou a cerimónia com dois ajudantes-de-campo a segurar as coroas matrimoniais por cima das cabeças do noivo e da noiva que estavam ajoelhados. Os preparativos para a cerimónia secreta tinham sido realizados com tal secretismo que não só não havia convidados nem tinham sido chamados os representantes de outras potências estrangeiras, como nem sequer tinham sido avisados os oficiais do governo, funcionários do palácio nem criados, excepto os que organizaram a cerimónia. No dia do casamento, o czar deu à sua nova esposa o título de Sua Alteza Sereníssima, a princesa Youriecsky e os seus filhos foram legitimados através de uma ukaze imperial. Quando o czarevich e a sua esposa regressaram da Dinamarca, o czar convocou-os à sua presença e comunicou-lhes a notícia, pedindo-lhes para a tratarem sempre bem. Alguns dias depois, Alexandre II chamou Loris-Melikov e pediu-lhe para o aconselhar relativamente ao título da sua esposa. Este admitiu que, embora não existe qualquer precedente de um czar que se tivesse casado uma segunda vez e tivesse coroado a sua segunda esposa imperatriz (Pedro, o Grande tinha-se divorciado da sua primeira esposa e ambas tinham sido coroadas imperatrizes), esses precedentes poderiam ser sempre criados por um autocrata.

Alexandre II
A decisão do czar foi condenada por todas as cortes europeias, apesar de a maior parte mostrar um certo nível de compreensão pela atitude. Em Berlim, a princesa-herdeira Vitória considerou que "penso que a pressa incrível com que o imperador se casou enquanto a corte estava ainda de luto pela pobre imperatriz poderá ser atribuída e, até certo ponto, justificada pela sua vontade de cumprir o dever de um homem honrado perante uma senhora e os seus filhos que ele tinha colocado numa situação muito dolorosa". Embora fosse quase impossível não sentir algum ressentimento pela falta de respeito demonstrada à memória da falecida imperatriz, "e por muito que os filhos tenham ficado magoados com o segundo casamento do pai, penso que é preferível que assim seja do que se tivessem continuado a sentir-se envergonhados da vida que ele vivia".

Vitória, princesa-herdeira da Alemanha
Os grão-duques mão podiam fazer nada relativamente à ordem do czar para que eles e as suas esposas jantassem com ele e com a sua nova esposa, mas as grã-duquesas nunca deixaram de tratá-la de forma fria e chamávam-na "aquela aventureira manipuladora". Na posição de filho mais velho da czarina e sendo aquele que mais ressentia a atitude do pai, o czarevich mostrava-se particularmente insensível. Pelo bem das boas maneiras, tal como os irmãos faziam, estava preparada para ser civilizada, mas não cortês perante a sua madrasta. No entanto, quando ela não estava presente, não hesitava em denunciar "a intrusa" que achava "manipuladora e imatura". Com trinta-e-três anos de idade, ela era apenas dois anos mais nova do que ele. Até chegou a considerar mudar-se com a esposa e os filhos para a Dinamarca, apesar de o momento de subir ao trono poder chegar a qualquer altura e isso não passar de uma ameaça sem conteúdo.

O czarevich Alexandre, futuro Alexandre III
Catarina não era tratada oficialmente como "Sua Majestade", mas o czar planeava coroá-la sua consorte numa data futura. Existe a teoria de que Loris-Melikov tinha sugerido que o casamento deveria ser anunciado publicamente, que ela deveria ser declarada imperatriz e que se deveria enfatizar o facto de, pela primeira vez na história da casa imperial, havia uma imperatriz que era realmente russa. Ao mesmo tempo, uma zemsky sobor, ou seja uma assembleia de delegados dos zemstvos, deveria ser convocada para colocar o regime czarista numa nova base constitucional e nacional. Alguns temiam que, se tal tivesse sido feito, teria surgido um movimento a favor de substituir o czarevich Alexandre por Jorge Alexandrovich Yourievsky, filho mais velho de Catarina e do czar. Embora Loris-Melikov pudesse considerar essa ideia viável, seria pouco provável. De qualquer das formas, o czar deixou claro em privado que, independentemente da relação que tinha com o seu filho, Alexandre era e continuaria a ser o seu herdeiro.


Jorge Alexandrovich Yourievsky, filho do czar Alexandre II e da sua segunda esposa, Catarina
Dentro da família, apenas os grão-duques Constantino e Miguel continuaram a apoiar completamente o irmão e a sua nova cunhada. Antes de levarem as suas esposas e filhos a São Petersburgo para os conhecerem, avisaram-nos de forma firme que tinham de estar preparados para conhecer a sua nova imperatriz, ignorando os protestos das suas esposas de que "ela" não era nenhuma imperatriz e relembrando-as que, como súbditos do czar, não tinham direito de criticar as suas decisões. A princesa seria coroada imperatriz assim que o período de luto pela "tia Maria" terminasse e, até lá, devia ser tratada como tal. Todos os filhos do grão-duque Miguel aceitaram o assunto sem problemas, apesar de ter terminado abruptamente a conversa quando um deles, o grão-duque Sérgio Mikhailovich, começou a fazer perguntas embaraçosas relativamente às origens da sua nova prima.

Grão-duque Miguel Mikhailovich
Alguns ministros, principalmente Loris-Melikov, aceitaram o casamento como algo perfeitamente razoável e procuraram sempre obter a amizade e apoio da princesa Yourievsky. O czar encontrou conforto na companhia da sua segunda família e, depois de passar uma hora com o seu filho mais velho do segundo casamento, Jorge (ou 'Gogo'), de oito anos, parecia estar sempre de bom-humor.

Catarina com os seus dois filhos mais velhos, Jorge e Olga
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, sobrinho do czar, descreveu uma refeição em família na qual o czar, já com mais de sessenta anos, se comportou como um jovem de dezoito apaixonado, sussurrando palavras de encorajamento à sua esposa, perguntando-lhe se ela queria vinho, concordando com tudo o que ela dizia e satisfeito pelos membros mais jovens à mesa a terem aceitado. No fim do jantar, a governanta trouxe os seus filhos para a sala e o czar sentou Jorge no seu joelho. "Diz-nos, Gogo, qual é o teu nome completo?" ao que a criança de oito anos respondeu com orgulho: "Sou o príncipe Jorge Alexandrovich Yourievsky" enquanto brincava com as patilhas do pai com as suas mãozinhas. "Ficámos todos muito contentes por o ter na nossa presença, príncipe Yourievsky. Já agora, gostavas de ser grão-duque?" Quando ouviu esta pergunta, a princesa Youriesky corou profundamente. Foi uma manifestação de afecto paternal que o resto da família achou um quanto nauseabunda, principalmente a grã-duquesa Olga Feodrovna, esposa do grão-duque Miguel, que disse irritada ao marido que nunca na vida iria reconhecer aquela "aventureira calculista" que tinha separado a família e estava a "conspirar para arruinar o império".

Texto retirado do livro "The Romanovs: 1818-1959" de John van der Kiste