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terça-feira, 4 de julho de 2017

Um Czar em Guerra - A Guerra Russo-Turca de 1877-78

Alexandre II
A 23 de Dezembro de 1877, Alexandre II entrou triunfalmente em São Petersburgo. Após vários meses de derrotas e desilusões, os seus exércitos conseguiram derrotar os turcos na Bulgária e na Arménia e pareciam estar mais perto do que nunca de conseguir cumprir o sonho de dar liberdade a todos os povos cristãos dos Balcãs e, talvez até o sonho ainda mais antigo de expandir a influência russa até Constantinopla. A família imperial e os oficiais mais importantes da corte e do governo deram-lhe as boas vindas na praça ao largo da Estação de Nicolau e as ruas estavam cheias com milhares de pessoas que o aplaudiam e se juntavam às comemorações. Chamavam-lhe "Duas Vezes Libertador", primeiro dos servos e, agora, dos Balcãs, e, em alguns momentos, a sua carruagem quase não conseguia avançar devido ao entusiasmo da multidão. Poucos dos que estavam presentes conseguiram chegar perto o suficiente para ver o efeito que a guerra tinha tido no "Czar Libertador", mas uma testemunha reparou com horror que "os seus músculos estavam relaxados, os seus olhos apáticos, a sua figura desleixada, todo o seu corpo tão magro que parecia não ter carne nos ossos. Tinham bastado alguns meses para ele envelhecer completamente". Assim que as comemorações oficiais terminaram, Alexandre escondeu-se no único lugar no mundo onde se sentia à vontade: a cada no Cais Inglês que tinha alugado em 1874 para a sua amante Catarina.

Alexandre II (sentado) com o príncipe Suvorov, o príncipe Carlos da Roménia e o grão-duque Nicolau Nikolaevich na vila de Pordim na Bulgária em 1877
Tinham passado três anos desde que a repressão exercida pelos turcos sobre os Balcãs tinha começado a alarmar os governos europeus. Um motim em Nevesinye, perto de Mostar, na Herzogovina, foi reprimido com grande crueldade. A instabilidade começava também a espalhar-se pela Sérvia e pela Bulgária, e as histórias sobre as atrocidades cometidas pelos turcos multiplicavam-se. Era difícil ignorar o que estava a acontecer, mas as grandes potências tinham os seus próprios planos contraditórios para os Balcãs e não parecia provável que fossem agir em conjunto. A Áustria queria aumentar o seu próprio império, ao mesmo tempo que a Grã-Bretanha queria proteger o seu status quo e evitar o risco de aumentar a influência russa na região. Já há vários anos que os pan-eslavistas russos tentavam fortalecer os laços dos Balcãs com a Igreja Ortodoxa e alguns intelectuais russos defendiam que deveria haver uma guerra de libertação na região.


Quadro a representar o Massacre de Batak, na Bulgária, um dos acontecimentos que levaria mais tarde ao rebentar da Guerra Russo-Turca de 1877-78
Em Janeiro de 1876, as grandes potências enviaram um protesto oficial à Turquia, que não teve qualquer efeito. Milhares de voluntários russos viajaram para sul e surgiu até o falso rumor de que um dos filhos do czar, o grão-duque Vladimir Alexandrovich, tinha oferecido os seus serviços ao príncipe da Sérvia. À medida que a crise se aprofundava e o movimento a favor da guerra ganhava expressão na Rússia, Alexandre II viajou por toda a Europa para defender a paz. Falou com o seu tio, o kaiser Guilherme I da Alemanha e com Bismark, o chanceler da Alemanha, e apelou também à ajuda da rainha Vitória através da sua filha Alice, que contou à mãe que o czar falou na necessidade de preservar a paz com lágrimas dos olhos. Depois, Alexandre tentou convocar uma conferência europeia. Em Julho, os turcos massacraram os habitantes de Batak, na Belgária, depois de estes terem prometido livre passagem em troca da sua rendição. A luta intensificou-se e Alexandre foi para casa.
Alexandre II
O czar não estava com vontade de entrar em guerra. Tinha testemunhado os danos que o conflito na Crimeia tinha causado no seu país e sabia que a Rússia não estava em condições de enfrentar outra guerra. As reformas que ele tinha tentado levar a cabo nas forças armadas ainda não tinham tido tempo de surtir efeito, mas dentro do país, a vontade de ir para a guerra era tal que ninguém queria dar ouvidos ao czar. Apesar de tal estar banido oficialmente, realizam-se apelos e recrutamentos para a guerra nos Balcãs por todo o império e até a própria família do czar estava profundamente empenhada na causa. Quando chegou a casa, Alexandre encontrou Maria Alexandrovna a financiar e equipar comboios hospitalares, incentivada pelo seu confessor, o padre Bajanov. A czarina estava firme no seu entusiasmo pela guerra e, após vários anos a trabalharem juntos, Alexandre e a sua esposa viram-se em lados opostos. Os seus irmãos e filhos também estavam ansiosos por se juntarem à luta e o czarevich Alexandre estava a dar permissão aos soldados do seu regimento para se juntarem para a guerra nos Balcãs. Os governos europeus não acreditavam que o governante autocrático de todas as Rússias tivesse tão pouco controlo e duvidavam da sinceridade dele. O stress desta época fez com que o asma de que Alexandre sofrera toda a vida piorasse e sentia-se magoado com os ataques de que era alvo na imprensa internacional. Colocou toda a sua esperança numa conferência de paz que estava planeada para Dezembro, mas Lord Beaconsfield, o primeiro-ministro britânico, piorou a atmosfera com um discurso sobre a inviolabilidade das possessões turcas que causou grande indignação na Rússia. Havia o perigo muito real de que, caso Alexandre não levasse o seu país para a guerra, o país iria para guerra sem ele, por isso, mesmo perante as acusações de duplicidade vindas do estrangeiro, Alexandre ordenou uma mobilização parcial.

Maria Alexandrovna
Em Março de 1877, as Grandes Potências ordenaram que a Turquia reduzisse a força dos seus exércitos e que prometesse reformas. A Turquia recusou. Alexandre partiu do Palácio de Inverno e caminhou sozinho até à Catedral de Kazan para rezar. A sua decisão estava tomada: a 12 de Abril, a Rússia declarou guerra à Turquia e, entre cenas de júbilo generalizado, as tropas receberam ordens para marchar para sul. Alexandre seguiu com elas, apesar de ter entregue o comando supremo dos exércitos ao seu irmão, o grão-duque Nicolau Nikolaevich. O seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel Nikolaevich, que comandava o exército do Cáucaso, iria abrir uma segunda frente de combate a ocidente do Mar Negro. Houve apenas uma pessoa que apoiou o czar sem rodeios: Alexandre escreveu a Catarina "compreendes melhor do que ninguém aquilo que sinto no começo de uma guerra que queria e esperava tanto evitar (...) É um pesadelo". O discurso que fez ao exército foi igualmente fatalista e honesto: "lamento profundamente ter de vos enviar nesta missão. Como devem saber, tentei continuamente evitá-la até a última réstia de esperança ter desaparecido. Agora, só posso desejar-vos sucesso".

Alexandre II
As chuvas fortes impediram a marcha do exército pelos planaltos da Valáquia e aumentaram de tal forma o caudal do rio Danúbio, a fronteira entre a Roménia e a Bulgária, que foi impossível passá-lo durante várias semanas. Alexandre viajou para sul com os seus filhos, Alexandre, Vladimir e Sérgio. O seu quarto filho, Alexei, estava a comandar uma companhia naval no Danúbio e os seus sobrinhos Nicolau Nikolaevich Júnior, que se tornaria comandante supremo dos exércitos russos em 1914, e Sérgio de Leuchtenberg também estavam a combater no exército russo. Outro sobrinho, o príncipe Alexandre de Battenberg, tinha recebido permissão especial para deixar o seu regimento em Berlim e juntar-se ao pessoal do czar. Recebeu a Cruz de Vladimir pelo papel que desempenhou na passagem do rio Danúbio, que foi conseguida a 27 de Junho com grande custo. A czarina tinha oferecido cinco comboios-hospital luxuosos com 600 camas, mas, nos primeiros dias da guerra, registaram-se milhares de mortes e feridos todos os dias que tinham se ser retirados do campo de batalha em carrinhos de mão, nas carroças das armas ou em carros de bois.

Caravanas de transporte de feridos russos durante a Guerra Russo-Turca
Alexandre escolheu como quartel-general a cidade de Sysov, na Bulgária, ao mesmo tempo que os engenheiros russos se apressavam por construir pontes permanentes ao longo do rio. O czarevich recebeu o comando do XII e XIII Corpos do exército, com ordens para aguentar uma linha de oitenta quilómetros ao longo do rio Lom, para proteger o flanco esquerdo do exército e ameaçar as forças turcas em Rustchuk, Shumla, Varna e Silistra. O futuro czar Alexandre III não era nenhum génio militar, mas segurou a sua posição com grande coragem contra um exército muito mais forte e ganhou um horror à guerra que iria durar o resto da sua vida. Todos os dias, escrevia cartas à sua esposa, Maria Feodorovna, que estava ocupada com trabalho caritativo em São Petersburgo para ajudar as famílias dos soldados feridos. Chegou mesmo a correr o rumor na cidade que a futura czarina se disfarçou de enfermeira para ir visitar o marido à frente de batalha.

O futuro czar Alexandre III e a sua esposa Maria Feodorovna
O czar também escrevia cartas todos os dias, mas não para a esposa. A czarina Maria Alexandrovna apoiava a guerra de tal forma que Alexandre sentia que não podia ser sincero com ela e guardava apenas para a sua amante Catarina os seus verdadeiros sentimentos sobre o que estava a acontecer e a sua ansiedade perante a atitude demonstrada pelas potências estrangeiras, principalmente por parte da Grã-Bretanha. Sentia-se humilhado por a sua saúde não lhe permitir lutar e trabalhava durante várias horas por dia, gastas principalmente em visitas aos hospitais de campanha para ver os soldados feridos. Sofria de insónimas e a sua asma piorou. O Dr. Botkin pediu-lhe que regressasse para norte, mas ele recusou.

Alexandre II
Inicialmente, o exército teve êxito, capturando as cidades de Tyvorno e Plevna, no entanto, a pressão da guerra não demorou a revelar fraquezas graves no alto comando. Depois de ter consigo atravessar para a Bulgária de forma épica através da passagem de Khainkioy e de ter conquistado Shipka com sucesso, a divisão do general Hourko foi obrigada a bater em retirada porque ninguém lhes enviou reforços. Tyvorno tinha grande importância simbólica, uma vez que era a antiga capital da Bulgária, mas os comandantes russos não conseguiram compreender a importância estratégica de Plevna, que ficava num cruzamento vital. Deixada sem uma defesa eficaz, a cidade voltou a cair em mãos turcas pouco tempo depois, e, após uma série de reviravoltas, Alexandre teve de mudar o seu quartel-general para Gorny Studen, a oeste de Tyvorno.

Tropas russas a marchar perante o czar Alexandre II e o grão-duque Nicolau Nikolaevich em Ploesti, 30 de Junho de 1877
No calor insuportável do verão, com mantimentos inadequados e, muitas vezes, inexistentes, Alexandre continuou a trabalhar sem parar. Um velho opositor das suas políticas, o príncipe Cherkassky, visitou Gorny Studen em Julho na categoria de comandante da Cruz Vermelha Russa, que tinha sido criada recentemente pela czarina Maria Alexandrovna, e ficou preocupado com a incompetência do pessoal, mas deixou muitos elogios a Alexandre: "neste vortéx", escreveu ele, "não posso deixar de admirar o imperador, que mantém a calma, apesar da sua agonia mental profunda. É a única pessoa por aqui que parece capaz de avaliar o que está mesmo a acontecer. Quando o vemos, cansado e doente como está, a visitar hospitais, a querer saber sobre os interesses e as necessidades dos homens, a comportar-se com a dignidade de um soberano e a compaixão de um amigo (...) é impossível não o amar como um homem."

Médicos e enfermeiros da Cruz Vermelha Russa num hospital de campo durante a Guerra Russo-Turca
Apercebendo-se tarde demais de que precisavam de Plevna, os russos tentaram voltar a conquistar a cidade, mas o primeiro assalto, realizado a 20 de Julho, resultou em milhares de vítimas. Os atacantes estavam em menor número numa proporção de 3 para 1 e, se os turcos tivessem continuado a sua retirada atá ao fim, as esperanças da Rússia poderiam ter acabado nesse mesmo dia. Dez dias depois, tentaram um segundo assalto que também falhou. Gorny Studen já não estava a salvo e o quartel-general de Alexandre teve de ser deslocado novamente. Os seus filhos pediram-lhe em vão que deixasse a Bulgária. A leste, o exército do grão-duque Miguel Nikolaevich foi dizimado pelos turcos em Kizil Tépé: era quase impossível que a moral esteve mais baixa e Alexandre foi obrigado a pedir ajuda ao príncipe Carlos da Roménia, que contribuiu com um exército de 50.000 homens e 180 armas. O czar também voltou a chamar o general Totleben, que tinha ganho fama graças à defesa de Sevastopol durante a Guerra da Crimeia. Em inícios de Setembro, foi levado a cabo um terceiro assalto a Plevna que também falhou e resultou na morte de 25.000 pessoas. Os romenos lutaram com grande bravura e firmeza, o que conquistou a admiração de todos, mas um oficial inglês deixou uma descrição do estado caótico em que se encontrava o exército russo: "a negligência e falta de organização (para os feridos) é assombrosa. Um dia, em Plevna, três mil soldados russos, feridos na cabeça, braços e peito, tiveram de marchar vinte milhas para a retaguarda, uma vez que só havia carros de bois para aqueles que não se aguentavam de pé!". "Deus nos ajude a acabar com esta guerra", escreveu Alexandre à sua amante Catarina, "desonra a Rússia e a Cristandade. É esta a angústia do meu coração e ninguém a compreende melhor do que tu, meu tesouro e minha vida".

A batalha em Plevna
Na Rússia, a moral também estava em baixo. As pessoas tinham imaginado uma guerra vitoriosa rápida, com muito brilho e glória e não estavam preparadas para o que estava a acontecer. Os grão-duques eram criticados, o czar foi acusado de cobardia por não participar nas batalhas e de negligência por não regressar a São Petersburgo - alguém tinha de arcar com as culpas de toda a miséria. Houve quem defendesse a criação de uma Assembleia Nacional e a actividade revolucionária era abundante. A 13 de Setembro, realizou-se um concílio de guerra no quartel-general. Temendo que, com a chegada do inverno, houve uma falha geral na entrega de mantimentos, o grão-duque Nicolau Nikolaevich era da opinião de que o exército devia bater em retirada pelo Danúbio até chegar à segurança da Roménia e os seus comandantes concordaram. Apenas Milutin, o ministro da guerra, se manifestou contra a ideia, afirmando que a Rússia não se podia dar ao luxo de abandonar uma posição que já tinha custado a vida a 60.000 pessoas: Plevna comandava a estrada para sul, por isso era necessário conquistar Plevna. Rompeu uma violenta discussão até que o czar se levantou. "Não haverá retirada, cavalheiros", afirmou e, depois, saiu da sala na companhia de Milutin e Totleben.

O grão-duque Nicolau Nikolaevich Sr.
Alexandre tinha assumido o controlo e os efeitos da sua decisão foram abrangentes. Totleben passou a comandar o cerco de Plevna e recusou-se a desperdiçar mais vidas num ataque frontal, decidindo, em vez disso, concentrar-se em cortar todas as vidas de fornecimento de mantimentos à cidade. Quando chegou o inverno, o Dr. Botkin voltou a pedir para Alexandre regressar a casa, uma vez que a sua asma, insónias e o stress da campanha tinham piorado consideravelmente. Alexandre contou a Catarina que "todas estas visões fazem sangrar o meu coração e é difícil para mim aguentar as lágrimas". No entanto, estava determinado a ficar até que Plevna caísse.

Alexandre II
 A 24 de Outubro, o seu sobrinho, o príncipe Sérgio de Leuchtenberg, morreu em combate. Sérgio pertencia ao XII Corpo do czarevich, que tinha recebido ordens para avançar na direcção de Basarbowa e Iovan-Tschiflik depois de pequenos grupos de combate terem conseguido fazer os turcos recuar nessa região. Em Basarbowa, os combates intensificaram-se: Sérgio estava a liderar um grupo de reconhecimento quando uma bala turca o atingiu na têmpora e o matou. Tinha vinte-e-seis anos de idade. Longe, em Berlim, a princesa-herdeira da Prússia lamentou a sua morte, apesar de acrescentar que o príncipe "era o mais rebelde que se pode imaginar". No entanto, quem o conhecia melhor tinha uma opinião mais gentil. Sérgio era um jovem culto e inteligente que tinha passado grandes períodos de tempo a viver na Itália. Doze anos antes, em Florença, tinha sido ele o maior conforto que o seu primo, o czarevich Nicolau, tinha tido quando estava a morrer, uma vez que Sérgio o confortava com descrições das maravilhas da cidade que conhecia tão bem. Uma amiga dele, a princesa Kurakin, tinha-se encontrado com ele na casa da irmã antes de ele partir para a frente de combate: "era um europeu ocidental de gema" recordou ela, "um artista, elegante e inteligente. Adorava a Itália, a casa das artes, a ciência e a cultura, mas disse-me que não tinha qualquer compaixão pelos búlgaros, sérvios e outros eslavos". A guerra tinha matado um dos seus poucos opositores.

O príncipe Sérgio de Leuchtenberg, filho da grã-duquesa Maria Nikolaevna e sobrinho do czar Alexandre II.
A primeira oportunidade surgiu a leste em Novembro, quando o general Loris Melikov, o chefe do pessoal do grão-duque Miguel Nikolaevich, conquistou a cidade de Kars. Plevna caiu a 10 de Dezembro, após algumas horas de combate, quando os turcos tentaram quebrar as linhas russas uma última vez. Alexandre esteve presente numa missa de acção de graças na cidade capturada antes de regressar a São Petersburgo, tal como tinha prometido. Chegou ás 10 da manhã do dia 23 de Dezembro e foi recebido por multidões em júbilo.

Depois da conquista de Plevna, a resistência turca esmoreceu. Ao mesmo tempo que Alexandre entrava em São Petersburgo, a divisão do general Hourko repetia a sua travessia dos Balcãs. Desta vez, conquistou Shipka e avançou na direcção de Sofia. Algumas semanas depois, o general Skobelev, cunhado do príncipe Eugénio de Leuchtenberg, irmão mais velho de Sérgio, conquistou Adrianpole sem disparar um único tiro e, em Fevereiro, foram assinadas as tréguas e começaram as negociações para um tratado de paz. O Tratado de San Stefano criou uma grande Bulgária autónoma - na verdade, autónoma só em nome, uma vez que, na verdade, se encontrava sob controlo russo - e deu a independência à Roménia, Sérvia e Montenegro, assim como o pagamento de indemnizações e território à Rússia. No entanto, as clausulas do tratado eram pouco generosas para o príncipe da Roménia, cujo exército tinha dado um apoio essencial quando a Rússia estava no seu ponto mais baixo.

Negociações do Tratado de San Stefano
As Grandes Potências ficaram alarmadas e decidiram que a Rússia não devia beneficiar tanto. Os países dos Balcãs também ficaram alarmados, uma vez que agora o caminho estava aberto para a cidade de Constantinopla. Alexandre considerou a hipótese de ordenar a conquista da cidade, mas depois esmoreceu. As suas tropas estavam a sofrer de tifo e já não havia dinheiro para pagar uma guerra prolongada. Os britânicos enviaram uma força naval para o Mar Negro para o desencorajar ainda mais. A princesa Maria de Battenberg descreveu a ansiedade que sentiu nas semanas que se seguiram, uma vez que o seu irmão Alexandre fazia parte do exército de Alexandre e um outro irmão, Luís, pertencia à Marinha Britânica e estava a bordo de um dos navios que tinha sido enviado para o Mar Negro.

As famílias reais de Battenberg e Hesse-Darmstadt em Osborn, Inglaterra. A princesa Maria de Battenberg encontra-se de pé, no extremo esquerdo da fotografia, ao lado do seu irmão, o príncipe Alexandre de Battenberg, depois príncipe da Bulgária. Na fotografia também se encontram os seus pais Alexandre e Júlia, os restantes irmãos (Henrique e Luís) e as suas respectivas famílias, incluindo a princesa Beatriz do Reino Unido, as princesas Irena, Alix e Vitória de Hesse-Darmstadt, o príncipe Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt e o grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt.
O czar não teve outra escolha senão voltar atrás, mas o seu país nunca conseguiu perdoá-lo. Os termos do Tratado de San Stefano foram alterados por um congresso internacional em Berlim, no qual as outras potências intervieram para ficarem com a sua parte dos despojos. Mesmo assim, a Rússia conseguiu libertar os Balcãs do domínio turco e estabelecer o novo estado da Bulgária. No aniversário de Alexandre II em 1879, o seu sobrinho, o príncipe Alexandre de Battenberg tornou-se no primeiro príncipe reinante da Bulgária.

Alexandre de Battenberg, sobrinho de Alexandre II e primeiro príncipe reinante da Bulgária.
No entanto, dentro da Rússia, as consequências da guerra foram tão más quanto o czar tinha previsto. Os termos do novo acordo foram muito mal recebidos, havia grande instabilidade e os grupos terroristas começaram a surgir a um ritmo nunca antes visto. Multiplicavam-se os assassinatos políticos e foram os heróis da guerra (Hourko, Totleben e Loris Melikov) que receberam a responsabilidade de controlar a situação. Incentivado por Loris Melikov e pelo grão-duque Constantino Nikolaevich, Alexandre deu início a um novo programa para levar a cabo uma reforma constitucional, a única forma que o governo via para acalmar os distúrbios a longo prazo. No entanto, em privado, Alexandre estava doente, desiludido e muito cansado. Agora, estava completamente dependente a nível emocional de Catarina Dolgorukaya e chocou profundamente a sua família, a corte e toda a Europa quando a convidou a ela e aos filhos a viver no Palácio de Inverno, para os poder ver com mais frequência enquanto a sua esposa definhava nos seus aposentos, que ficavam imediatamente abaixo dos da amante do marido e da família. Alexandre passaria o resto da sua vida a viver numa espécie de exílio, tanto em público como em privado.

Alexandre II com a sua amante, Catarina, e dois dos seus filhos.
No entanto, ninguém sabe ao certo qual era a opinião de Maria relativamente à amante do marido e à sua segunda família, depois de o segredo se tornar ainda mais exposto. Em Julho de 1878, Maria Alexandrovna sofreu uma crise grave na sua doença e parecia estar prestes a morrer, mas recebeu e ficou na companhia do marido, partilhando com ele as suas preocupações do dia-a-dia, como sempre tinha feito. A ideia de que o seu casamento só existia em nome depois do caso amoroso de Alexandre com Catarina não passa de um palpite, e a verdade podia ter sido bastante diferente. Vera Borovikova, a criada que cuidava dos filhos de Catarina, descreveu uma ocasião durante estes últimos anos da vida da imperatriz, quando Georgi e Catarina (filhos de Alexandre e Catarina) visitaram o Palácio de Inverno. O próprio czar levou-os até ao quarto da imperatriz e apresentou-lhes a sua esposa como "tia" Maria. Depois, a imperatriz abençoou as crianças e tanto ela como o marido ficaram em lágrimas.

Maria Alexandrovna
Há profundezas em todas as relações que o mundo exterior simplesmente não consegue compreender. Até ao fim, quando Maria estava prestes a morrer, Alexandre nunca se esqueceu de tudo o que os dois partilharam nem o que significavam um para o outro. Em Fevereiro de 1880, quando uma bomba terrorista destruiu a sala-de-jantar do Palácio de Inverno, onde Alexandre II estava prestes a jantar, num ataque que matou muitos soldados que se encontravam no andar de baixo, Maria tinha acabado de regressar de Cannes, naquela que provavelmente era a pior altura do ano para quem sofria de tuberculose. O primeiro impulso de Alexandre foi correr até ao quarto dela para garantir que ela estava bem. Quando a encontrou ainda a dormir, sentou-se do lado de fora da porta para que pudesse ser o primeiro a contar-lhe o que tinha acontecido e reconforta-la. Durante catorze anos, o czar Alexandre II tentou ser o marido de duas mulheres e o pai de duas famílias, sem magoar ninguém. Mas esse era um desafio demasiado exigente, até para um czar.

Alexandre II lamenta a morte da esposa Maria Alexandrovna numa gravura da época.

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um Conto de Duas Mulheres: as esposas de Alexandre II - Segunda Parte

Maria Alexandrovna e Alexandre II
Quando a diversão acabou, Maria estava demasiado doente para regressar à Rússia com o marido e teve de ser levada numa maca até à estação, para ir passar o inverno a Nice. Ainda ninguém podia adivinhar, mas seria o inverno mais triste das suas vidas, dominado pela doença do czarevich Nicolau Alexandrovich. Quando ele morreu, a família regressou a Heiligenberg, onde os seus dias passaram de forma calma e solene. Um dia, a princesa Maria de Battenberg encontrou o seu primo Alexandre, o novo czarevich, a chorar no sofá da sala porque não conseguia aceitar a mudança no seu futuro - uma cena que se repetiria vinte-e-nove anos depois, quando o seu filho Nicolau também teve de lidar com a herança súbita de governar a Rússia. Maria Alexandrovna também estava desfeita, tanto física como psicologicamente, e o seu sobrinho Luís (futuro grão-duque de Hesse) temia que ela não teria força para sobreviver à morte do filho. Só o seu pai, o príncipe Carlos de Hesse, conseguiu consolá-la. Também ele tinha acabado de perder a sua única filha (a princesa Ana de Hesse-Darmstadt), por isso compreendia melhor do que ninguém o que a sua irmã estava a sentir, e os dois partilharam histórias sobre os seus filhos juntos. "Ontem a tia Maria falou durante muito tempo sobre o filho, sobre a sua educação e muitas outras coisas", escreveu a princesa Alice à sua mãe. "O Nix era a vida dela, ela trabalhava e vivia para ele, para o transformar num grande homem, sabendo do papel que ele teria no futuro".
O príncipe Carlos de Hesse-Darmstadt com a sua esposa, a princesa Isabel da Prússia, e dois dos seus filhos, o príncipe Luís de Hesse-Darmstadt (futuro grão-duque de Hesse e pai da czarina Alexandra Feodorovna) e a princesa Ana de Hesse-Darmstadt.
Esse futuro tinha desaparecido. Maria passou a dedicar-se aos seus filhos mais novos e às suas causas mais queridas tanto quanto podia. Em Abril de 1866, Maria e Alexandre comemoram as suas bodas de prata. Havia rumores de que, a esta altura, Alexandre já tinha tido vários casos amorosos com outras mulheres, mas, apesar disso, os dois continuavam a ser um casal apaixonado, apesar de estarem sobre cada vez mais pressão. Em meados da década de 1860, os terroristas ameaçavam cada vez mais a vida do czar e, com cada nova tentativa de assassinato, Maria ficava mais transtornada.

Maria Alexandrovna e Alexandre II com dois dos seus filhos mais novos: o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a grã-duquesa Maria Alexandrovna
Os ecos da antiga vida familiar eram mais palpáveis quando o casal estava longe da Rússia. Em 1868, Maria e Alexandre regressaram a Heiligenberg com Maria, Sérgio e Paulo. A sua visita era muito aguardada pelos habitantes locais, uma vez que a czarina tinha fama de ser generosa com os seus antigos conterrâneos. Os aldeões montaram um arco do triunfo e, na manhã de 24 de Outubro, uma procissão de bagagens e empregados subiu a colina até ao palácio. Nessa noite, o príncipe Alexandre de Battenberg e a sua família foram até à estação de comboio para receber os seus convidados. Havia uma nova sala de espera e quarenta carruagens alinhadas à espera deles, mas apesar de todas as formalidades da realeza, a família imperial estava tão entusiasmada como qualquer família tradicional, e, à medida que o comboio entrava na estação, os russos tinham as cabeças fora das janelas. "A czarina chorou de alegria e o czar foi muito cordial; atrás deles vinham a Maria, o Sérgio e o Paulo, as damas-de-companhia, e todo o pessoal da corte. Depois todos ocuparam os seus lugares nas carruagens que estavam à espera e partimos. Fizemos uma paragem junto do arco do triunfo, onde se cantou o hino da Rússia e os aldeões atiraram flores".

A família imperial em Heiligenberg
Não houve um único momento triste durante estas férias e os dias iam-se sucedendo, cada um mais agitado do que o anterior. Até Maria se sentia bem o suficiente para se juntar à diversão. A sua sobrinha recordou uma noite particularmente feliz, na qual a família passou o serão junta do lado de fora da casa. "Estava muito escuro e estávamos todos assustados, principalmente os meninos, que davam os gritinhos mais altos que já ouvi. Começaram a inventar histórias sobre as ruínas que ficavam próximas, diziam que estavam a ver um 'Pirenpinker', uma figura branca colossal que era iluminada misteriosamente pela lua e nos fazia saltar de medo. Sempre que se falava de um fantasma, todos começávamos a gritar (...) depois começaram a aparecer todo o tipo de fantasmas: uma freira vestida de branco atrás de um limoeiro (era a czarina); o czar também nos assustou várias vezes quando ficou muito quieto num dos cantos das ruínas, com a roupa clara iluminada de forma muito estratégica pela lua, parecia mesmo um fantasma (...) ficámos nas ruínas até às dez da noite". 

Maria Alexandrovna
O dia do aniversário do czar amanheceu com bom tempo, o que foi uma sorte, uma vez ue tinha sido erguida uma tenda especial no terraço do palácio para receber todos os convidados que tinham aparecido para a missa ortodoxa dada em sua honra. Os cossacos fizeram a guarda e foi uma grande ocasião, mas, assim que os visitantes se foram embora, a família passou a controlar o dia e deu um concerto especial, no qual todos participaram. A festa acabou com uma sessão de fogo de artifício e, quando chegou a altura de os russos se irem embora uma semana depois, houve um mar de lágrimas. "Parecia ser particularmente difícil para o czar despedir-se destas colinas pacíficas, onde passava dias tão tranquilos em segurança. Ficou tão comovido (...)", reparou a sua sobrinha. Haveria mais reuniões de família em Heiligenberg em 1871, 74, 75 e 76, mas, à medida que as crianças foram crescendo e seguindo as suas próprias vidas, as coisas nunca mais voltaram a ser como antes.

Maria Alexandrovna com os seus filhos Paulo e Sérgio
Havia outro motivo pelo qual as coisas nunca mais voltariam a ser como antes. Durante uma festa de família em 1876, a princesa Maria de Battenberg ficou surpreendida quando ouviu alguém comentar que tinha visto o czar a passear num vale com uma jovem mulher e um menino. Só quando os visitantes se foram embora é que a mãe de Maria lhe contou aquilo que toda a cidade de São Petersburgo já sabia há nove anos: o czar Alexandre II tinha uma amante. Apesar de continuar a viver e viajar com a esposa, e de continuar a ser carinhoso com ela, havia outra mulher nas sombras, um segredo que era do conhecimento geral.

Catarina Dolgorukaya e Alexandre II
A história do romance é simples e até previsível. Quando a saúde de Maria Alexandrovna começou a piorar e ela deixou de conseguir estar presente em todos os seus compromissos, Alexandre começou a substituí-la em alguns deles. Um desses compromissos foi uma visita ao Instituto Smolny, que era patrocinado pelas czarinas desde que foi fundado por Catarina, a Grande. O Instituto Smolny dava educação às filhas da nobreza e, entre as suas alunas em inícios da década de 1860, encontravam-se duas irmãs, as princesas Catarina e Maria Dolgorukaya, cujo pai tinha morrido e deixado apenas dívidas aos seus filhos. Por causa disso, as suas duas filhas e quatro filhos foram colocados sob protecção imperial. Quando Alexandre viu Catarina pela primeira vez, lembrou-se imediatamente de um outro encontro no outono de 1857 (outras fontes apontam para 1859), quando ficou hospedado na casa do pai dela perto de Poltava, no sul da Rússia. Nessa altura, Catarina era apenas uma menina traquina. Agora, tinha catorze ou quinze anos, era muito bonita e sentia-se profundamente infeliz. Era uma menina do campo que sempre tinha sido livre e o Instituto Smolny, com os seus uniformes e regras exigentes, parecia uma prisão.

Catarina Dolgorukaya 
Parecia que a história se estava a repetir. Em Darmstadt, em 1839, Alexandre também se tinha apaixonado por uma bonita jovem de catorze anos que parecia infeliz e fora do seu elemento. Agora começava a sentir o mesmo por outra adolescente infeliz. Tal como Maria, Catarina era séria e reservada. As primeiras fotografias que existem dela mostram que, com esta idade, era até parecida com a czarina, e a combinação de juventude, beleza e infelicidade era algo ao qual Alexandre não conseguia resistir. A certa altura, a fraca saúde de Maria fez com que as relações físicas entre o casal se tornassem difíceis (ou até impossíveis), e Alexandre era um homem que precisava de amor físico. As suas visitas ao Instituto Smolny passaram a ser cada vez mais frequentes e o czar parecia dar mais atenção às duas irmãs do que a qualquer outra aluna. Quando fez dezassete anos de idade, Catarina deixou o instituto e foi viver com o irmão e com a esposa dele numa casa na cidade. Cruzava-se frequentemente com Alexandre em bailes e recepções e, certo dia, quando estava a passear pelo Jardim de Verão em São Petersburgo, o czar juntou-se a ela e a uma criada. Na primeira oportunidade, Alexandre ficou a sós com ela e confessou que a amava, mas Catarina limitou-se a fazer uma vénia e a afastar-se.

Catarina
O impasse durou um ano. Catarina não tinha nascido para se tornar numa amante. A sua linhagem era mais antiga e orgulhosa do que a do própria Alexandre, e não fazia parte da sua personalidade apaixonar-se facilmente. Os dois não voltaram a estar sozinhos até Julho de 1866, quando ela se encontrou com ele no Pavilhão Belvedere, em Peterhof. Diz-se que foi a tentativa de assassinato que o czar tinha sofrido às mãos de Dmitri Karakozov que finalmente a convenceu a submeter-se a ele. Tal como Maria, também ela temia pela vida dele. Nesse dia, os dois fizeram amor em Belvedere e Alexandre prometeu-lhe que um dia se casaria com ela se pudesse. Chamava-lhe a sua "esposa perante Deus" e os seus encontros continuaram em segredo até ao início de 1867, quando a sua cunhada descobriu o que estava a acontecer. Chocada, insistiu em levá-la consigo para Itália e nem Catarina nem o czar protestaram. A sua estadia em Itália durou cinco meses, mas ela continuou a trocar cartas cheias de paixão com Alexandre. Em Junho de 1867, o czar pediu-lhe para ela se encontrar com ele em Paris e, depois, os dois seguiram viagem juntos até São Petersburgo. Em 1869, o czar deu-lhe uma casa na Millionnaya, uma das ruas mais exclusivas da cidade, e perto do Palácio de Inverno. Foi a primeira das muitas casas que os dois partilharam.

Catarina
Oficialmente, o caso amoroso não era discutido, mas era quase impossível mantê-lo em segredo. A infidelidade fazia parte da mitologia dos czares; a sociedade tinha a certeza que todos os czares tinham tido casos amorosos, quer isso fosse verdade ou não, mas havia um sentimento de traição relativamente a este caso em particular. Não havia rumores interessantes sobre ele. Catarina nunca tentou obter qualquer vantagem do facto de o czar estar apaixonado por ela. Nunca fez favores aos amigos. Na verdade, tinha até muito poucos. Afastou-se por completo da sociedade e refugiou-se na pequena ilha da vida doméstica que tinha criado com o seu amante. Parecia até que o czar estava a levar o caso muito mais a sério do que seria conveniente. Alguns dos seus encontros aconteciam no próprio Palácio de Inverno: o seu primeiro filho, Georgi, nasceu lá em 1872, tendo até direito à presença de um médico imperial durante o parto. Desafiando ainda mais as convenções, o czar nunca procurou um marido de fachada para a sua amante, para dar um apelido à criança. Georgi e os seus cuidadores mudaram-se para aposentos na casa de um dos amigos de Alexandre, o General Ryleev para que, pelo menos a nível oficial, fosse possível manter a aparência de que Catarina era uma senhora solteira e virgem. Quando o bebé tinha dezoito meses de idade, nasceu uma segunda filha, Olga, que se juntou à casa secreta. Todos os dias, às três da tarde, quando o czar estava em São Petersburgo, ia visitar Catarina e os seus filhos. Quando estava na sua companhia, Alexandre voltou a descobrir a felicidade sem problemas que tinha sentido nos primeiros anos de casamento com Maria, quando os seus filhos ainda eram pequenos. Adorava a sua segunda família, mas, para Catarina, esta deve ter sido uma existência estranha. Toda a sua felicidade se centrava naquelas horas fugidas, e não podia ser vista com os filhos a não ser nesses momentos.

Alexandre, Catarina e os seus dois filhos mais velhos, Georgi e Olga
As cartas privadas trocadas entre os dois amantes mostram que a princesa podia ser difícil e que, muitas vezes, sentia ciúmes, algo que, provavelmente, seria inevitável tendo em conta as restrições que a relação impunha na sua vida. Mas Alexandre estava demasiado apaixonado para se importar, e confiava nela o suficiente para lhe falar sobre as preocupações da sua posição. Gradualmente, Catarina tornou-se uma fonte de apoio, dando continuidade ao trabalho que a sua esposa, agora profundamente doente com tuberculose, já não lhe podia dar. Catarina não era tão inteligente como Maria, nem tão bem educada: limitava-se a ouvir e a dar o apoio sem críticas de uma amante. A sua presença foi-se tornando cada vez mais importante para o czar, mas os benefícios para o czar tiveram um grande custo. Maria sabia da relação e estava consciente de que todos à sua volta estavam à espera para ver qual seria a sua reacção, mas ela não mostrou nenhuma. Continuou com os seus deveres e com o seu casamento, tanto quanto a sua saúde permitia, com uma dignidade silenciosa, guardando a sua dor para si.

Maria Alexandrovna a tomar chá no Palácio de Alexandre nos seus últimos anos de vida
Eram as necessidades das outras pessoas que lhe ocupavam o pensamento. Em 1875, o príncipe de Montenegro pediu-lhe para cuidar de duas das suas filhas e Maria arranjou-lhes um lugar no Instituto Smolny. Quando soube que a mais nova, Militsa, estava doente com tifo, foi visitá-la imediatamente e mandou chamar os melhores médicos da cidade. Ficou ao lado da jovem ao longo de toda a sua doença e enviava mensagens ao pai dela todos os dias. Muitas vezes era a sua própria doença que a forçava a deixar a Rússia, mas ninguém a criticava por passar longos períodos de tempo no estrangeiro. A sua filha Maria casou-se com o príncipe Alfredo do Reino Unido, filho da rainha Vitória, em inícios de 1874, e, em Dezembro do ano seguinte, Maria viajou até Inglaterra para o baptizado do seu neto, o príncipe Alfredo de Edimburgo. "Achei-a muito feminina (...) e muito gentil e simpática", escreveu a rainha Vitória à sua filha mais velha. "Ficámos logo à vontade uma com a outra, mas ela tem uma expressão muito triste e parece ser muito delicada. Acho que nos vamos dar muito bem. Coitada, tenho muita pena dela".

Maria com o seu neto, o príncipe Alfredo de Edimburgo em 1875
Todas as cortes europeias sentiam pena de Maria Alexandrovna, por vezes com um certo tom condescendente. Todos falavam sobre o escândalo. Alguns condenavam-na por ficar ao lado do czar. Maria recusava-se a mostrar qualquer reacção, e passou a dedicar todo o seu tempo aos filhos, à sua religião e às suas obras. À medida que a década de 1870 chegava ao fim, os eventos políticos pressionaram ainda mais o seu casamento, que já estava com problemas suficientes. Pela primeira vez, Alexandre II e Maria Alexandrovna, que tinham começado a sua união de forma tão harmoniosa e que sobreviveram a tantos problemas, ficaram em lados opostos quando rebentou a Guerra Russo-Turca de 1877-78. Mas apesar de a guerra ter prejudicado a sua relação, não teve força suficiente para os separar. O seu casamento tinha um sentimento inabalável, tal como os eventos dos seus últimos anos de vida iriam mostrar.

Maria Alexandrovna e Alexandre II com alguns dos seus filhos

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Um Conto de Duas Mulheres: as esposas de Alexandre II - Primeira Parte

Maria Alexandrovna e Alexandre II
Na década de 1890, o último czar da Rússia e a sua esposa contrataram uma ama irlandesa para as suas filhas. Margaretta Eagar tinha um fascínio pelo sobrenatural e acreditava que o espírito da czarina Maria Alexandrovna assombrava o Palácio de Inverno. Assim que encostou a cabeça na almofada naquela noite, ouviu a voz de uma mulher, a chorar amargamente e queixar-se da infidelidade do marido. A czarina Alexandra disse-lhe que a cama onde ela dormia tinha sido a mesma onde a czarina Maria Alexandrovna tinha morrido e relacionou a história que a ama lhe contou com a avó do seu marido. Em várias ocasiões, a grã-duquesa Olga Nikolaevna, que tinha apenas três anos de idade na altura, disse à senhora Eagar que tinha visto uma senhora velha vestida de azul no seu quarto. A ama nunca viu nada. Depois, um dia, quando as duas passeavam pela Rotunda do primeiro andar do palácio, a criança apontou para um retrato de Maria Alexandrovna e disse que era aquela a senhora que tinha visto. Estas histórias demonstram que a ideia da infelicidade de Maria Alexandrovna já estava encrostada na memória da corte russa, que nunca a aceitou completamente no seu tempo.

Olga Nikolaevna
A vida de Maria Alexandrovna começou cedo a ser infeliz. A czarina tinha onze anos de idade quando a mãe morreu, passando a ser a única mulher na família, à excepção da sua cunhada que tinha acabado de chegar à corte de Hesse. Maria era uma jovem tímida, inteligente e baixa que levava a vida muito a sério: uma coisa tão simples como furar as orelhas deu-lhe pesadelos durante várias semanas e a operação teve de ser adiada até que ela ganhasse coragem para a enfrentar. Maria era muito chegada à mãe e corria o rumor (que era aceite pela maioria das pessoas) de que a grão-duque de Hesse não era o seu pai biológico. Esta história já foi contada tantas vezes que os factos e a ficção se cruzam inevitavelmente. Os seus pais, o príncipe Luís de Hesse e a princesa Guilhermina de Baden, eram primos direitos que se tinham casado em Karlsruhe em 1804, durante um pequeno período de paz das Guerras Napoleónicas. Guilhermina era uma jovem bonita e encantadora de quinze anos de idade, enquanto que Luís tinha vinte-e-seis e era tão tímido e reservado que a maioria das pessoas sentia que não conseguia comunicar com ele. Os primeiros anos do casamento desenrolaram-se num cenário de guerra: o seu primeiro filho, um rapaz, nasceu seis meses depois da Batalha de Austerlitz. Seguiram-se mais dois rapazes, um dos quais nasceu morto, e depois houve um período de onze anos em que o casal não teve filhos, até ao nascimento da princesa Isabel. Depois dela, Guilhermina deu à luz mais uma menina que nasceu morta. No ano seguinte, em 1823, Guilhermina teve outro filho: Alexandre. Maria era a mais nova e nasceu em Darmstadt a 8 de Agosto de 1824, tendo recebido os nomes de Maximiliana Guilhermina Augusta Sofia Maria.

Guilhermina de Baden, mãe de Maria Alexandrovna
A diferença de idades e personalidades seria suficiente para explicar os problemas no casamento de Guilhermina. Mas, além disso, durante cinco dos onze anos em que não tiveram filhos, Luís passava longos períodos de tempo longe de casa a liderar as tropas de Hesse no campo de batalha. Foi também devido a essas ausências que surgiu o rumor de que os três filhos mais novos de Guilhermina: Isabel, Alexandre e Maria, não eram filhos de Luís, mas sim do camareiro da corte, o barão Augustus Senarclens von Grancy. A ideia persiste até aos dias de hoje e, muitas vezes, é vista como um facto: muitos também acreditaram nela na altura, embora parece pouco provável que o pai de Luís, o grão-duque Luís I de Hesse, permitisse que a sua nora tivesse um caso aberto durante tanto tempo com um membro da corte sem que este perdesse o seu lugar, o que nunca aconteceu. Oficialmente, não havia dúvidas de que os três eram todos descendentes da família de Hesse-Darmstadt: os seus nomes aparecem nos volumes da época do Almanaque de Gota e, quando Alexandre nasceu, o seu tio, o czar Alexandre I da Rússia, foi um dos padrinhos, um sinal de aceitação ao mais alto nível.

Luís II de Hesse-Darmstadt, pai de Maria Alexandrovna
Isabel morreu de escarlatina em Lausana em 1826, quando tinha cinco anos de idade. Foi sepultada no mausoléu da família Hesse, em Rosenhoe, Darmstadt, e toda a família fez luto, mas os rumores conseguem persistir mesmo perante as provas mais convincentes. É possível que Luís tenha sabido dos rumores e que se tenha, ele próprio, questionado sobre a verdadeira origem das crianças. Por isso, ou por qualquer outro motivo, parece ter havido realmente um curto período de afastamento entre ele e Guilhermina. A czarina-viúva, Maria Feodorovna referiu esse facto numa carta dirigida à sua filha em 1827, mas disse também estar do lado de Guilhermina. Em 1828, a corte de Hesse (ou, segundo algumas pessoas, a própria Guilhermina) comprou a propriedade de Heiligenberg e Guilhermina mudou-se para lá com Alexandre e Maria. O escândalo ganhou asas e todas as cortes europeias ficaram intrigadas, mesmo apesar de, no ano seguinte, Guilhermina e Luís terem celebrado as suas Bodas de Prata em aparente harmonia.

Maria Alexandrovna na sua adolescência
Mas, verdadeiros ou falsos, os rumores espalharam-se, deixando um rasto de miséria. Maria passou grande parte da sua infância em Heiligenberg e, quando a sua mãe morreu de tuberculose em 1836, a jovem sentiu-se dolorosamente só. Não estava habituada à corte do pai e as pessoas que tinham espalhado boatos contra a sua mãe também foram desagradáveis com ela. Adorava os seus irmãos mais velhos, mas eles já eram adultos com família e o seu único companheiro na família era Alexandre. Os dois irmãos foram criados juntos, mas, na década de 1830, Alexandre passou a ser considerado demasiado velho para partilhar a sala de aula com uma menina. Por isso, após a morte da mãe, Maria passou a ser educada e cuidada por uma dama-de-companhia chamada Mademoiselle von Grancy, irmã do barão que diziam ser o seu pai biológico, e continuou a passar grande parte do seu tempo em Heiligenberg, onde se sentia mais à vontade.

Maria Alexandrovna
Quando o czarevich Alexandre fez a sua paragem não programada em Darmstadt em Março de 1839, ficou sensibilizado com esta jovem triste de catorze anos, que estava a usar as pérolas da mãe. Sem querer, Maria tinha chamado a atenção de um dos prémios mais prestigiantes da Europa - para tristeza de muitas princesas mais velhas - e as más línguas dispararam. Os velhos escândalos foram ressuscitados, principalmente em Berlim, onde os Hohenzollern tinham velhos ressentimentos contra a família de Hesse e nunca perdiam uma oportunidade para os criticar, e é provável que a czarina Alexandra, a mãe do czarevich, que era também uma Hohenzollern, tivesse o mesmo preconceito. O czar sabia as histórias que se contavam sobre as origens de Maria, mas tinha uma visão muito realista das mesmas. O embaixador da Áustria em São Petersburgo informou o seu país natal em Abril de que Nicolau I "sabe bem o que se diz sobre o nascimento dela mas (...) se o grão-duque de Darmstadt optou por ignorar as histórias, ele também não encontra obstáculos de momento. Apesar de só ter passado um dia em Darmstadt, o filho dele sente-se muito atraído pela princesa por ela não ser muito bem tratada, e o imperador compreende o motivo pelo qual esse facto pode ter aumentado o interesse que o filho já tinha nela; disse também que sentiria o mesmo se estivesse no lugar do filho".

Alexandre II
Maria sentia-se impressionada e aterrorizada com a viragem dos acontecimentos. Gostava de Alexandre o suficiente para aceitar o pedido de casamento dele, mas se Darmstadt já parecia grande para ela, como é que conseguiria lidar com São Petersburgo? Em Junho de 1840 encontrou-se pela primeira vez com Nicolau I e Alexandra Feodorovna em Frankfurt e, dois meses depois, viajou com eles para a Rússia, onde, durante um ano, iria aprender russo e preparar-se para se converter à Igreja Ortodoxa Russa. Tinha dezasseis anos quando teve de fazer tudo isto. Reconhecendo a timidez da jovem, o czar convidou o irmão dela para a acompanhar, o que acabava por ser uma certa tradição na família. Vários anos antes, uma tia-avó de Maria e Alexandre, a princesa Guilhermina de Hesse, tinha também viajado para a Rússia como noiva e também foi acompanhada pelo irmão. A mademoiselle von Grancy também foi para a Rússia com Maria.

Guilhermina de Hesse-Darmstadt, tia-avó de Maria e Alexandre e primeira esposa de Paulo I
Os primeiros meses foram um tormento. Maria tinha saudades de casa e estava desorientada com a nova corte. Anos mais tarde, contou a uma dama-de-companhia que teve de esconder as lágrimas tantas vezes que até descobriu uma técnica para isso: abria uma janela, colocava a cabeça de fora e deixava que o ar gélido do inverno russo lhe tirasse a vermelhidão dos olhos. Tão tímida como o pai, sentia-se demasiado tensa para causar uma boa impressão na corte, onde ser social era extremamente importante. Felizmente, encontrou uma aliada compreensiva na tia do marido, a grã-duquesa Helena Pavlovna, e as duas ficariam amigas para o resto da vida. Apesar de terem uma diferença de idades de dezassete anos, as duas tinham personalidades muito semelhantes e a mesma atitude perante a vida.

Maria Alexandrovna
Mas, pelo por um lado, Maria teve muito mais sorte do que a sua nova amiga. O czarevich era tudo o que ela podia desejar num marido e, depois do casamento, Maria e Alexandre tornaram-se companheiros além de amantes. A jovem aprendeu russo extremamente depressa - algumas pessoas diziam que tinha aprendido a língua tão depressa como a imperatriz Catarina, a Grande - e partilhava com o marido o sonho de levar a cabo reformas palpáveis no país. Era inteligente e instrospectiva, e Alexandre confiava nas suas decisões. Juntos, criaram o seu próprio círculo de amigos e, tal como Alexandre precisava de Maria para o seu trabalho, Maria precisava dele para a orientar na sociedade, e dar-lhe confiança. O historiador russo Tatichev descreveu estes primeiros anos como "anos de felicidade sem problemas para a família (...) havia convívios quase todos os dias na jovem corte (...) lia-se em voz alta, toca-se música, jogava-se às cartas (...) o anfitrião e a anfitriã encantavam todos com as suas personalidades".

Maria Alexandrovna e Alexandre II nos seus aposentos privados
O jovem casal recebeu apartamentos no bloco sudeste do Palácio de Inverno e outros aposentos na asa Zuboc do Palácio de Catarina em Czarskoe Selo; foi lá que nasceu a sua primeira filha, Alexandra, em 1842. A família cresceu depressa. Para assinalar cada um dos nascimentos, Alexandre e Maria plantavam um carvalho no seu jardim privado em Czarskoe Selo, onde mandaram colocar  brinquedos, baloiços e escorregas para as crianças. Um par de mastros de um navio tornaram-se um local de escalada para os rapazes que também tinham uma linha férrea em miniatura, uma quinta e uma horta. Maria importou lírios do vale e prímulas da sua terra natal na Alemanha e tratava deles com cuidado. Dentro de casa, tocava piano com os filhos, tecia tapetes e até se dedicava à decoração de interiores. Pensa-se que um tecto no Palácio de Inverno que está coberto de flores azuis claras e folhagem verde foi obra sua.


Maria Alexandrovna com o seu filho mais velho, Nicolau
Foi a época mais feliz das suas vidas, mas mesmo assim foi marcada por problemas. Maria dava muita importância ao facto de ter o seu irmão por perto. O príncipe Alexandre tinha-se tornado num homem alto, bonito e inteligente; dava-se bem com o czarevich e a sua irmã venerava-o. O príncipe prestou um bom serviço militar no exército russo na campanha do Cáucaso. Costumava dizer à irmã que "é muito importante para um soldado enfrentar a morte tantas vezes. Uma pessoa sente que tem mais direito de usar o uniforme". Com a amizade do czar e uma carreira brilhante à sua frente, chegou-se até a falar numa possível união entre Alexandre e a grã-duquesa Catarina Mikhailovna, filha da grã-duquesa Helena Pavlovna, mas todos os planos caíram por terra quando ele se apaixonou por uma das damas-de-companhia da irmã, Julie Hauke. Nicolau I não lhe deu permissão para continuar a viver na Rússia caso se casasse morganaticamente, por isso, em 1851, Alexandre demitiu-se da sua comissão e foi-se embora. Eventualmente, acabaria por se mudar para Helligenberg com a sua esposa Julie, que se tornou princesa de Battenberg, mas Maria sentiu muito a sua falta.

Julie Hauke e Alexandre de Hesse-Darmstadt, príncipes de Battenberg
Houve também outros desgostos. A morte da pequena Alexandra Alexandrovna em 1849 não se tornou tão pública como a do seu irmão Nicolau alguns anos mais tarde, mas foi um golpe devastador para os pais. Vinte-e-quatro anos depois, quando Maria estava de visita à esposa do seu sobrinho, a princesa Alice do Reino Unido, que tinha acabado de perder o seu filho Frederico, a sua dor ainda era bem visível: "a tia Maria mostrou grande compaixão, foi muito maternal e carinhosa; fiquei muito comovida", contou Alice à sua mãe, a rainha Vitória. "Nestes momentos mostra-se particularmente doce e feminina e também ama os filhos com grande ternura. Chorou muito e contou-me da morte triste da filhinha mais velha dela (...)"

Maria Alexandrovna e Alice do Reino Unido
A resposta de Maria perante a dor foi isolar-se e procurar consolo na religião que fora forçada a adoptar quando se casara. Não fazia parte da sua personalidade converter-se apenas como formalidade: Maria aceitou a fé ortodoxa com todo o seu coração e com uma intensidade que confundia muitos que tinham nascido ortodoxos. Além da religião, Maria tinha também um fascínio cada vez maior pelo país que a tinha recebido e pela sua cultura. É irónico o facto de terem sido Maria e a sua sobrinha-neta, a imperatriz Alexandra Feodorovna, as duas czarinas estrangeiras que mais amaram a Rússia quando se casaram, e as que mais foram rejeitadas pela sociedade. No entanto, dentro da família, as coisas eram diferentes, pelo menos para Maria. Depois de Alexandre subir ao trono, começou a convocar toda a sua família para uma refeição no palácio todos os domingos, o que acabou por se tornar numa tradição. O objectivo inicial tinha sido o de mostrar à sua família o lado gentil e amistoso da sua esposa. No entanto, fora do circulo familiar, as pessoas achavam que Maria era demasiado séria e confundiam a ser reserva, achando-a fria e distante. Nunca foi muito popular.

Maria Alexandrovna
No entanto, continuava a ser czarina e podia pelo menos ajudar o marido com o programa de reformas que os dois já discutiam há anos. Uma testemunha descreveu a sua coroação na Catedral da Assunção em Moscovo a 26 de Agosto de 1856. Alexandre tomou a coroa e colocou-a na cabeça e, depois, "foi a vez da imperatriz Maria Alexanrovna que se ajoelhou perante o imperador. Este retirou a sua coroa e tocou com ela levemente na cabeça de Maria; depois colocou a coroa mais pequena na cabeça da esposa e colocou-lhe a capa e a corrente de diamante da Ordem de São André nos ombros." Os dois desceram a Grande Escadaria do Kremlin, e "não há descrição que faça justiça à solenidade daquele momento quando, rodeados pelos monumentos da Rússia Antiga (...) aquelas duas cabeças, com as suas coroas a reflectir os raios de sol como um símbolo externo e visível da sua grandeza, se curvaram perante o amor e confiança do estado. O canhão disparou e já não era possível ouvir o som dos sinos com o clamor da multidão".

Maria Alexandrovna na coroação do marido
O fim da servidão e outros abusos eram causas partilhadas pelo casal, mas, com o apoio da grã-duquesa Helena Pavlovna, Maria também utilizou a sua posição como czarina para desenvolver um programa de reformas seu. Interessava-se particularmente pelas causas das mulheres, principalmente pela sua educação e saúde, e teve um papel activo na criação de muitas escolas para meninas. Também se interessava pelos serviços médicos e, inspirada pelo trabalho que a grã-duquesa Helena tinha começado durante a Guerra da Crimeia, em 1877, Maria fundou a Cruz Vermelha da Rússia com o mote "A força não está no poder, mas sim no amor".

Maria Alexandrovna
Mas isso seria apenas muitos anos depois, e, à medida que o novo czar e czarina se preparava para enfrentar os seus novos deveres públicos, surgiu uma nova ansiedade na sua vida pessoal. À medida que a década de 1850 se aproximava do fim, a saúde de Maria começou a deteriorar-se. Tal como a mãe, também ela sofria de tuberculose, uma doença que, aos doze anos de idade, quase a tinha matado. O efeito do clima húmido e frio de São Petersburgo juntamente com as suas muitas gravidezes seguidas enfraqueceram-lhe o corpo. Era cada vez mais frequente estar demasiado doente para aparecer em público, e estava a perder cada vez mais peso. Alexandre preocupava-se com ela e consultou vários médicos. Nove meses depois da coroação, em Maio de 1857, Maria deu à luz o seu sétimo filho, o grão-duque Sérgio Alexandrovich. O czar escreveu ao seu irmão Constantino, pouco depois do nascimento: "a Maria recuperou completamente, graças a Deus, mas os médicos vão mandá-la para Kissingen, e penso que vou com ela". 

Maria com a sua filha Maria, o filho Sérgio e uma das suas amas
Esta foi a primeira de muitas viagens a spas europeus, que pouco fizeram para ajudar a travar o lento declínio da saúde da czarina, mas pelo menos deram-lhe a oportunidade de voltar a ver o seu país natal. A 28 de Junho desse ano, Maria e Alexandre partiram na companhia dos seus três filhos mais novos. Primeiro visitaram Darmstadt, depois Wildbad e Kissingen; em Bad Bruckenau, foi com grande alegria que Maria se reencontrou com o seu adorado irmão Alexandre e com a família dele. A filha mais velha do príncipe Alexandre, a princesa Maria de Battenberg, que na altura tinha cinco anos de idade, contou mais tarde à sua neta que tinha vagas memórias de "um hotel ou kurhaus; e do rosto sério e gentil de uma mulher majestosa que todos tratavam por 'Majestade'".

Maria Alexandrovna
Esta foi só a primeira de uma série de reuniões familiares nas quais era possível ver o lado mais alegre da czarina, e os registos fotográficos que sobreviveram dos encontros em Heiligenberg têm grande valor porque mostram uma Maria Alexandrovna muito diferente da figura trágica que é recordada na Rússia. Em Julho de 1864, quase quatro anos depois do nascimento do grão-duque Paulo Alexandrovich, o seu filho mais novo, os médicos voltaram a aconselhar uma viagem à Alemanha, para fazer um tratamento com águas termais em Schwalbach. O jovem e excêntrico rei da Baviera também estava lá e gostou tanto de Maria que resolveu enviar-lhe ramos de flores todos os dias. A 23 de Agosto, no meio de uma tempestade, o seu comboio chegou à estação de Bickenbach, perto de Heiligenberg, e a czarina saiu na companhia dos seus três filhos mais novos e de treze carruagens de empregados e bagagem. Os donos da casa que alugaram em Heiligenberg ficaram apertados numa das alas para poder dar espaço à visitante real e a maioria dos empregados teve de dormir em Jugenheim, uma aldeia próxima. Uma semana depois, chegou o czar com os seus filhos Alexandre e Vladimir. Três dias depois, o príncipe Luís de Hesse, a sua esposa Alice e a sua filha Vitória juntaram-se a eles, e o grupo ficou completo quando o czarevich Nicolau chegou na companhia do seu irmão Alexei. Nicolau tinha acabado de ficar noivo da princesa Dagmar da Dinamarca e a sua chegada foi motivo para fazer uma comemoração.

Maria Alexandrovna, Alexandre II, Sérgio e Maria (centro) numa das reuniões de família na Alemanha
O noivado de Nicolau e Dagmar não foi o único motivo para comemorações. O aniversário do czar, a 11 de Setembro, foi também celebrado com uma missa ortodoxa, um jantar e jogos. No dia seguinte, as crianças da família Battenberg decidiram mostrar aos primos um dos locais mais bonitos da zona. Partiram todos montados em burros, mas, a meio da viagem, caiu um aguaceiro que os obrigou a procurar refúgio na cabana de um habitante local, que lhes deu comida, café e roupas secas. "O czar, a czarina e o resto do grupo já estavam na mesa quando regressámos, e todos se fartaram de rir quando nos vieram receber no pátio. Foi uma festa maravilhosa". As férias acabaram em grande quando ambas as famílias decidiram comemorar os bons tempos que tinham passado. "Antes do pequeno-almoço, fomos até à grande bétula que fica na estrada a caminho de Felsenberg para a rebaptizarmos com o nome 'Bétula do Czar'". Foi colocada uma tabuleta branca no tronco da árvore onde estava escrito: "Bétula do Czar, 14 de Setembro de 1864". "Demos as mãos e dançámos à volta da árvore três vezes. Depois regressámos a casa para beber café".

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat