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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov - Primeira Parte

Jorge V e Nicolau II
"Chegaram más notícias da Rússia," escreveu o rei Jorge V do Reino Unido no seu diário a 13 de Março de 1917, dois dias antes de o seu primo direito, o czar Nicolau II da Rússia, ter abdicado do trono, dando início à Revolução Russa, "praticamente que rebentou uma revolução em Petrogrado e alguns dos regimentos de guardas fizeram motins e mataram os seus oficiais. Este levantamento é contra o governo, não contra a guerra". A 15 de Março, já tinha recebido mais informações: "temo que a responsável por tudo isto seja a Alicky e o Nicky foi fraco (...) estou em desespero".

Era quase o único que se sentia daquela forma. Por todas as ruas do império, desde Moscovo até Tiflis, o fim da autocracia foi celebrado foi sinos, canções, vivas e bandeira. Os símbolos do poder imperial, as insígnias e estátuas, foram arrancados de edifícios e pedestais. Em França e na Grã-Bretanha, a queda do czar foi recebida com alívio. Os excessos do regime tinham-se tornado embaraçosos e havia a esperança de que, com uma democracia, a Rússia tivesse menos vontade de fazer acordos com a Alemanha. Os EUA, que tinham acabado de entrar na guerra, reconheceram o novo governo com entusiasmo logo uma semana depois da abdicação. Lloyd George [primeiro-ministro do Reino Unido], que se estava a esforçar por combater o cansaço da guerra com a ideia de que os sacrifícios da Entente eram a favor da grande causa da Liberdade e da Democracia, enviou um telegrama a dar os parabéns pela revolução, "a melhor coisa que o povo russo fez até agora na defesa da causa pela qual os Aliados estão a lutar". Demonstrava "a verdade fundamental de que esta guerra é, no fundo, uma luta pelo governo do povo, tanto como o é pela liberdade. Mostra que, ao longo da guerra, o princípio da liberdade, que é a única garantia de paz no mundo, já conquistou uma vitória arrebatadora". 

Lloyd George
Jorge V odiou o telegrama e não conseguiu compreender que este tinha sido escrito tanto para consumo interno como para o novo governo russo (que, como se viria a constatar, incluía um número significativo de novos membros que eram muito mais favoráveis às tradições políticas britânicas do que qualquer pessoa do regime czarista). Stamfordham [secretário particular do rei] recebeu instruções para se queixar que o telegrama era "um pouco forte", principalmente tendo em conta que vinha de um governo monárquico. Lloyd George recordou o secretário do rei que a própria constituição britânica tinha surgido graças a uma revolução - a revolução sem sangue de 1688.

Jorge decidiu então enviar a sua própria mensagem de apoio a Nicolau: "os eventos da semana passada deixaram-me profundamente perturbado. Estou sempre a pensar em ti e serei sempre um verdadeiro e dedicado amigo tal como sabes que já fui no passado". O ministro dos negócios estrangeiros do governo provisório, Pavel Miliukov, um antigo membro da Duma que reverenciava Sir Edward Grey [ministro dos negócios estrangeiros do Reino Unido entre 1905 e 1916] e admirava as tradições liberais da Grã-Bretanha, disse a Buchanan [embaixador do Reino Unido na Rússia] que a carta não podia ser entregue ao destinatário. O novo Soviete começava a mostrar uma vontade preocupante de executar o czar. O clima político em Petrogrado era de tal forma instável que o telegrama de Jorge apenas serviria para piorar a situação. A única solução que Miliukov via era retirar o czar da Rússia o mais rapidamente possível. Quando, a 21 de Março, Buchanan avisou que "qualquer violência exercida sobre o imperador e a sua família teria um efeito deplorável e chocaria a opinião publica neste país", Miliukov perguntou-lhe se a Grã-Bretanha estaria disposta a dar asilo aos Romanov. Quando reportou o pedido do ministro dos negócios estrangeiros, Buchanan acrescentou a sua opinião de que o pedido deveria concedido.

Sir George Buchanan, embaixador da Grã-Bretanha na Rússia
Nesse mesmo dia, o antigo imperador e a família foram colocados em prisão domiciliária. Os soldados tinham chegado a Czarskoe Selo uma semana antes, tinham cercado o palácio e cortado o fornecimento de água. Alexandra não soube nada de Nicolau durante três dias. Alexei estava com sarampo e em grande sofrimento. A czarina quase desmaiou quando soube da abdicação, depois reagiu com o seu fatalismo característico: "é o melhor. É a vontade de Deus. Deus vai garantir que a Rússia fica a salvo. É só isso que interessa". O governo provisório disse aos seus prisioneiros que aquela medida era apenas uma precaução para os manter em segurança. Disseram-lhes que o plano era levá-los até à fronteira marítima da Finlândia, que ficava a apenas algumas horas de distância, e colocá-los a bordo de um navio britânico, onde viajariam até à Inglaterra. Nicolau, que recebeu permissão para deixar Stavka antes de regressar a Czarskoe Selo, disse ao representante militar britânico que tinha a esperança de se retirar para a Crimeia, mas que, "se isso não for possível, prefiro ir para a Inglaterra do que para qualquer outro sítio".

Nicolau, Alexandra e as filhas Anastásia, Olga e Maria por volta de 1916-17
Lloyd George não gostava muito da ideia de dar abrigo ao autocrata de todas as Rússias que tinha perdido todo o crédito, mas, quando pediu a opinião do antigo conselheiro do rei Eduardo VII, Sir Charles Hardinge, e a Stamfordham, concordou que "a proposta (...) não pode ser recusada". Stamfordham acrescentou que Buchanan devia "dar a entender" que o governo russo deveria atribuir um rendimento ao ex-czar para ele viver. Quando Lloyd George sugeriu (sem dúvida de forma provocatória) que o rei [Jorge V] podia emprestar "uma das suas casas", o ministro respondeu rispidamente que o rei "não tem casas, excepto Balmoral", que não tinha quaisquer condições. 


Lloyd George (esq.) com o rei Jorge V e o futuro rei Eduardo VIII
Nicolau chegou a Czarskoe Selo nesse mesmo dia, fazendo o seu caminho da desgraça por entre as divisões cheias de soldados curiosos que, agora, não tinham qualquer motivo para se colocar em formação ou fazer a saudação. Quando chegou aos aposentos privados da família, perdeu a compostura e começou a chorar. Um cortesão disse que ele parecia "um velho". Quando tentou sair para ir dar uma volta a pé, foi cercado por seis soldados que o mandaram afastar-se com a ponta das suas espingardas. "Não pode ir para aí, Gospodin Polkovnik [Sr. Coronel]", disseram eles. "Afaste-se quando o mandam, Gospodin Polkovnik". Nicolau deixou-se ficar, pequeno, em silêncio e sem qualquer expressão no rosto. Mais tarde, nessa mesma noite, chegaram três carros armados cheios de soldados demasiado entusiasmados de Petrogrado que anunciaram que iam levar o ex-czar para a fortaleza de São Pedro e São Paulo - outro sinal que mostrava como o controlo que o governo provisório tinha sobre os soldados era ténue. Eventualmente, conseguiram convencer os soldados a ir embora, com a condição de que poderiam ver o czar. Pouco depois da meia-noite, outro grupo de soldados assaltou a campa de Rasputine no parque imperial, exumaram o corpo e queimaram-no.


Nicolau II no verão de 1917, no Palácio de Alexandre
Miliukov garantiu a Buchanan que o governo russo iria pagar o exílio do czar, mas pediu-lhe que não revelasse que o pedido de santuário tinha vindo da parte do governo, uma vez que temia enfurecer a opinião pública e o Soviete de Petrogrado. Parecia claro que levar a família às escondidas para a Finlândia não seria tão simples como parecia. Entretanto passou uma semana. A Inglaterra e Jorge ocupavam claramente os pensamentos da família imperial. Nicolau escreveu no seu diário que estava a planear começar a escolher as coisas que levaria consigo para Inglaterra, Alexandra começou a falar constantemente das memórias que tinha de Osborne e os seus filhos começaram a perguntar aos tutores como seria a sua vida em Inglaterra.

Tatiana e Anastásia com soldados no verão de 1917
Em Londres, Jorge começou a ter sérias dúvidas se seria boa ideia trazer o seu primo para Inglaterra. A 30 de Março, Stamfordham escreveu ao antigo primeiro-ministro, Arthur Balfour, que Lloyd George tinha escolhido para ministro dos negócios estrangeiros:
"O rei tem pensado muito na proposta do governo para que o imperador e a família venham para Inglaterra. Como, sem dúvida, sabe, o rei tem uma amizade pessoal muito profunda com o imperador e, por isso, teria todo o prazer em fazer qualquer coisa para o ajudar nesta crise. No entanto, Sua Majestade não consegue evitar certas dúvidas, não só no que diz respeito aos perigos da viagem, mas também, de um modo mais geral, em termos de conveniência, se seria aconselhável a família real passar a residir neste país".
Balfour enviou uma resposta sem compromissos. Miliukov tinha acabado de enviar outro telegrama a pedir que o czar deixasse a Rússia de uma vez e o antigo primeiro-ministro era da opinião que "embora os ministros de Sua Majestade compreendam as dificuldades aludidas na sua carta (...) são da opinião que, a não ser que haja uma mudança de posição, neste momento já não é possível retirar o convite que foi enviado, e, por isso, esperam que o rei concorde com o convite original, que foi enviado seguindo o conselho dos ministros de Sua Majestade".

A 3 de Abril, duas das damas-de-companhia de Alexandra, Lili Dehn e a odiada Anna Vyrubova, foram presas e levadas para Petrogrado para serem interrogadas. O casal imperial recebeu também ordens para viver em separado enquanto a questão da traição de Alexandra era investigada. 


Alexandra com a sua dama-de-companhia Lili Dehn e a filha Tatiana
A 6 de Abril, Stamfordham escreveu a Balfour a insistir para que o convite fosse retirado:
"A cada dia que passa, o rei preocupa-se cada vez mais com a questão da vinda do imperador e da imperatriz para este país. Sua Majestade recebe cartas de pessoas de todas as classes sociais, pessoas que lhe são ou não conhecidas, nas quais lhe dizem que o assunto está a ser muito discutido, não só nos clubes, mas também pelos trabalhadores, e que os membros do partido trabalhista na Câmara dos Comuns estão-se a mostrar adversos à proposta (...) tenho a certeza que sabe como tudo isto será estranho para a nossa Família Real, que tem relações de parentesco tão próximas tanto com o imperador como com a imperatriz (...) o rei quer que lhe pergunte se, depois de se reunir com o primeiro-ministro, não devermos contactar Sir George Buchanan, no sentido de pedir ao governo russo que arranje outro local para estabelecer a futura residência de Suas Majestades Imperiais?"
Algumas horas depois, enviou outra carta: 
"O rei pede-lhe que faça ver ao primeiro-ministro que, tendo em conta tudo aquilo que ele tem ouvido e aquilo que lê na imprensa, o público iria ressentir fortemente a vinda para este país do ex-imperador e imperatriz e, sem dúvida alguma, iria comprometer a posição do rei e da rainha, de quem, de um modo geral, as pessoas já acham que veio o convite. (...) Buchanan tem de receber instruções para dizer a Miliukov que a oposição à vinda do imperador e da imperatriz para este país é tão forte que temos de retirar o consentimento que foi dado à proposta do governo russo inicialmente".
O rei Jorge V, acompanhado da mãe, a rainha Alexandra, a tia, a imperatriz Maria Feodorovna, e a esposa, a rainha Mary do Reino Unido
A 10 de Abril, Stamfordham encurralou LLoyd George em Downing Street para "lhe transmitir a opinião do rei de que o imperador e a imperatriz da Rússia não deveriam vir para este país e que (...) seria muito injusto para o rei se Suas Majestades Imperiais viessem para aqui quando o sentimento popular contra eles é tão pronunciado". Depois voltou a queixar-se a Balfour, dizendo-lhe que tinha visto um telegrama de Buchanan que "evidentemente achou que a vinda do imperador e da imperatriz estava garantida e que era apenas uma questão de tempo". O rei era da opinião que Buchanan já deveria ter retirado o convite.  

Os argumentos de Stamfordham tiveram efeito no governo. LLoyd George sabia que proteger os Romanov não seria bem visto na Grã-Bretanha e não queria fazer nada que afastasse o governo russo que ia ficando cada vez mais instável. Temia que acabassem por sair da guerra de repente, deixando a frente ocidental vulnerável a um ataque alemão em larga escala. Balfour achava que o rei estava "numa posição complicada". Ninguém iria acreditar que o convite não tinha sido feito pela corte. Talvez fosse melhor enviar os Romanov para o sul da França? O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado: "o governo de Sua Majestade não irá insistir na oferta de hospitalidade que colocou anteriormente à família imperial". Balfour enviou um telegrama a Buchanan e disse-lhe para não falar mais no convite. O embaixador obedeceu com era seu dever. Miliukov já não referia o assunto há alguns dias, parecia óbvio que a questão se estava a tornar numa batata quente para o governo russo e, obviamente, se houvesse "algum perigo de criar um movimento anti-monárquico", então a Inglaterra não era o melhor lugar para colocar o czar e era melhor pedir a opinião dos franceses. Mas, em casa, segundo a sua filha, era óbvio que o embaixador estava profundamente perturbado.

Anastásia e Nicolau rodeados de soldados no parque de Alexandre no verão de 1917
Texto retirado do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A Imperatriz Alexandra por Lili Dehn



A imperatriz levantava-se cedo. Tinha seis criadas para a vestir, entre as quais a chefe, Madeleine Zanoty, uma italiana cuja família servia os Hesse já há muito tempo. Louise Toutelberg, conhecida por “Toutel”, a segunda na hierarquia, vinha do Bâltico e havia mais quatro. As criadas trabalhavam três dias, mas nenhuma delas alguma vez viu a imperatriz nua ou no banho. Levantava-se e ia tomar banho sem assistência, vestindo depois o seu robe de seda japonesa por cima da roupa interior quando estava pronta para arranjar o cabelo. A imperatriz era extraordinariamente simples na forma como se vestia, uma característica visivelmente vitoriana, e o seu quarto estava decorado ao estilo de Windsor e do Palácio de Buckingham de 1840. Não gostava de nada transparente nem teatral nem na roupa interior nem nas camisas de dormir. A sua roupa interior era feita do melhor linho, com lindos bordados, mas tirando isso era muito simples. O seu cabelo ruivo alourado nunca via ferros de encaracolar e normalmente estava sempre arranjado de forma muito simples, excepto quando participava em funções de estado.  


Alexandra na Finlândia

O quarto do imperador e da imperatriz era grande e tinha duas grandes janelas com vista para o jardim. Ficava no andar de baixo devido aos problemas de coração da imperatriz que tinha grande dificuldade em subir escadas. Havia um elevador no corredor que ligava o andar de baixo aos aposentos das crianças, mas durante a Revolução a água foi cortada e ele deixou de funcionar. Apesar de tudo a imperatriz insistia em subir e descer as escadas constantemente para tratar das grã-duquesas e eu acompanhava-a sempre, ajudando-a em cada degrau. Vinham-me lágrimas aos olhos quando via como ela estava doente, mas determinada a não perder uma única oportunidade de estar com os seus adorados filhos.


Alexandra com as filhas

Havia uma grande cama dupla feita de madeira perto das janelas entre as quais ficava o toucador da imperatriz. Do lado direita da cama havia uma pequena porta na parede que dava para uma capela minúscula iluminada por candeeiros suspensos onde a imperatriz se fechava muitas vezes a rezar. A capela tinha uma mesa, um genuflexório no qual se encontravam uma bíblia e um ícone de Cristo. Esse ícone foi-me depois oferecido por Sua Majestade em memória dos tempos que passamos juntas em Czarskoe Selo e é um dos bens mais valiosos que tenho hoje.



Alexandra e Nicolau

A mobília no quarto imperial estava coberta por mantos floridos e a alcatifa era de uma cor simples. O quarto de vestir do imperador encontrava-se separado do quarto de dormir pelo corredor e, do lado oposto, ficava o quarto de vestir da imperatriz e a casa de banho. Ora aqui estão as suas faladas extravagâncias! A casa de banho estava longe de ser luxuosa, tinha uma banheira antiquada em tijoleira negra e o gosto vitoriano da imperatriz pela arrumação fazia com que insistisse em ver a banheira coberta durante o dia com uma manta de cretone. Havia uma lareira no quarto de vestir e as criadas esperavam no quarto adjacente até que a imperatriz as chamasse. Os vestidos da imperatriz eram guardados lá e noutro quarto cheio de grandes armários que ficava a meio caminho para os aposentos das crianças e era utilizado sobretudo pelas criadas para passar a ferro e remendar as roupas de Sua Majestade.
Alexandra Feodorovna
A imperatriz preferia sapatos longos e pontiagudos com o tacão muito baixo. Normalmente usava sapatos de camurça, bronze ou brancos, nunca de cetim. “Não aguento sapatos de cetim, preocupam-me”, costumava dizer. Os seus vestidos, excepto aqueles que usava em cerimónias públicas, eram muito simples: gostava de blusas e saias e era viciada em vestidos de chá. O seu estilo era tão refinado como o da rainha Maria de Inglaterra; tal como ela não gostava de modas exageradas e não esquecerei com facilidade de quando ela não gostou de me ver a usar uma saia hobble:
- Gosta mesmo dessa saia, Lili? – perguntou a imperatriz.
- Bem… Madame, - respondi eu sem saber o que havia de dizer – c’est la mode.
- Não cumpre função nenhuma de uma saia – respondeu ela. – Agora, Lili, prove-me que é confortável: corra, Lili, corra, e deixe-me ver a que velocidade corta mato com isso.
Escusado será dizer que nunca mais voltei a usar uma saia hobble.

Fotografia de noivado de Nicolau e Alexandra
A imperatriz já foi acusada de ter uma demência por pedras preciosas. Nunca vi nenhum indício disso; é verdade que tinha a sua quota-parte de jóias magníficas, mas a maior parte pertencia à coroa e estavam em sua posse apenas porque era a imperatriz. Gostava de anéis e de pulseiras e usava sempre um anel com uma pérola enorme e uma cruz com jóias. Alguns escritores dizem que esta cruz era decorada com esmeraldas, mas não concordo. Tenho a certeza que as pedras preciosas eram safiras e como a via todos os dias tenho quase a certeza que estou correcta. A imperatriz tinha mãos macias e bem formadas, mas nunca tinha as unhas pintadas, já que o imperador detestava unhas demasiado arranjadas.

O boudoir da Imperatriz, conhecido como “Le Cabinet Mauve de l’Imperatrice” era uma sala maravilhosa onde o amor da imperatriz por todos os tons de malva era bem visível. Na primavera e no inverno, o ar era perfumado por grandes quantidades de lilás e lírios do vale que chegavam todos os dias da Riviera. As paredes estavam cobertas de fotografias, incluindo um retrato da falecida mãe da imperatriz, a princesa Alice de Inglaterra, grã-duquesa de Hesse-Darmstadt, que estava entre um quadro da Anunciação e outro de Santa Cecília.


A mobília era malva e branca, em estilo Heppelwait e era fácil encontrar muitos “cantinhos acolhedores”. Havia uma grande mesa onde se encontravam várias fotografias da família, com especial destaque para uma da rainha Vitória que ocupava um lugar de honra.

Alexandra no seu boudoir
A outra sala-de-estar privada era muito maior, decorada e estofada em tons de verde e a imperatriz tinha construído num canto uma espécie de escadaria com pequenos degraus e uma varanda que estava sempre cheia de violetas na primavera. Nesta sala havia fotografias dela e do imperador e algumas miniaturas maravilhosas das grã-duquesas pintadas por Kaulbach. A da Maria era particularmente bonita.

 
Havia livros por todo o lado; a imperatriz era uma leitora ávida, mas dedicava-se acima de tudo a literatura formal e sabia a bíblia de uma ponta à outra. A biblioteca ficava ao lado da sala-de-estar verde e era aí que todos os livros e revistas novos eram colocados em cima de uma mesa redonda e eram constantemente reorganizados pela data de publicação.
Alexandra com a filha Anastásia

A Imperatriz gostava muito de escrever cartas e fazia-o sempre que lhe apetecia. A sua mesa de escrever estava na sala ao lado do seu quarto, mas via-a muitas vezes a escrever cartas num bloco apoiado no seu colo e usava sempre uma caneta-tinteiro. Antes da guerra escrevia todos os dias a uma grande amiga que tinha deixado na Alemanha e lia-me sempre as cartas que essa senhora lhe enviava. Os seus artigos de papelaria, como tudo o resto, eram simples, mas tinham sempre o selo imperial.
A propósito do seu gosto por lilás e lírios do vale, posso também referir que a imperatriz adorava todo o tipo de flores, principalmente lilás, magnólias, glicínia, rododendros, frísias e violetas. Um amor por flores costuma ser sempre acompanhado por um amor por perfumes e a imperatriz não fugia à regra. Normalmente usava o “Rosa Branca” de Atkinson que era, como ela dizia, um perfume “limpo” e “infinitamente doce”. A sua eau-de-toilette preferida era Verveine.



Quando conheci a Imperatriz ela não fumava, mas durante a Revolução começou a fazê-lo. Penso que seria porque era a única coisa que a acalmava.
A imperatriz sempre teve um diário, mas acabou por me calhar a mim queimar todos os seus diários, bem como os da princesa Sofia Orbeliani e da Anna Vyrubova. Depois tive também de queimar todas as cartas que o imperador lhe tinha enviado desde o noivado até aos primeiros dias da Revolução.

Um Dia Na Vida da Família Imperial - Lili Dehn

Às nove da manhã a imperatriz tomava o pequeno-almoço com o imperador; era uma refeição simples à inglesa e depois do pequeno-almoço subia ao andar superior para ver as crianças. Depois chegava a Anna Vyrubova e, se havia reuniões extremamente importantes, normalmente aconteciam de manhã, mas, se a imperatriz estivesse “livre” ia inspeccionar o seu colégio de enfermeiras domésticas que se regia inteiramente por linhas inglesas. Acreditava piamente na qualidade das enfermeiras que recebiam um treino inglês, especialmente para crianças e empenhava-se extensivamente no trabalho e organização desta instituição.

Alexandra com um bebé, provavelmente Alexei

O almoço era à uma hora à semana e ao meio dia e meia aos Domingos, mas quando a imperatriz se sentia indisposta, o que acontecia com frequência, comia no seu boudoir ou apenas na companhia do czarevich. Depois do almoço a imperatriz ia dar uma volta a pé ou passeava numa carruagem aberta. O chá era tomado às cinco da tarde, mas por vezes recebia pessoas entre o almoço e o chá.

Nicolau, Alexandra, Olga e Anastásia com Vitória Melita

A família encontrava-se à hora do chá que era uma ocasião bastante familiar, e o jantar que era servido às oito, era uma ocasião bastante móvel no sentido literal da palavra. O imperador não gostava de comer só numa sala em específico, por isso a mesa era sempre levada para a sala que ele preferisse nessa noite. Depois de jantar (e esta era sempre uma refeição muito simples), a família passava o resto do serão junta e as grã-duquesas, que gostavam muito de puzzles, passavam quase sempre esta altura a trabalhar neles. Por vezes o imperador lia em voz alta para as filhas e para a esposa. Era a vida familiar de uma família unida, mas uma vida que o resto do mundo não estava disposto a aceitar. De facto, um escritor russo não hesitou em afirmar abertamente que “teria sido melhor para a Rússia se a imperatriz tivesse sucumbido a todas as fragilidades atribuídas a Catarina II.” É irónico pensar nesta opinião quando uma pessoa se lembra como os jornais e o publico em geral criticaram a sua associação com Rasputine. Mas se ela tivesse sido como Catarina II, é possível que essa “fragilidade” pudesse ter sido considerada “melhor para a Rússia!”
Nicolau II com os filhos e um oficial