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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Anastásia Nikolaevna por Helen Rappaport

Anastásia Nikolaevna, por volta de 1912
Logo aos quatro anos de idade, Anastásia era "uma macaquinha muito vigorosa, sem medo de nada". De todos os filhos do casal imperial, Nastasya ou Nastya, como lhe chamavam, era a que tinha um aspecto menos russo. Tinha cabelo louro escuro como Olga e tinha herdado os olhos azuis do pai, mas as suas feições assemelhavam-se muito à família da sua mãe, os Hesse-Darmstadt. 


Anastásia com a mãe em 1913

Também não era tímida como as irmãs. Na verdade, era muito frontal, até com os adultos. Podia ser a mais nova das quatro irmãs, mas era sempre a que chamava mais a atenção. Tinha o dom do humor e "sabia como pôr um sorriso na cara de qualquer pessoa". Certo dia, pouco depois do nascimento de Alexei, Margaretta Eager apanhou Anastásia a comer ervilhas com as mãos: "Repreendi-a, dizendo-lhe muito séria que nem o bebé comia ervilhas com as mãos, ao que ela respondeu: 'come sim, até as come com os pés!'". 

Anastásia, por volta de 1906.

Anastásia recusava-se a fazer qualquer coisa à qual fosse obrigada; se lhe dissessem para não subir para cima das coisas, era precisamente isso que fazia. Quando lhe disseram para não comer as maçãs colhidas no pomar e que seriam servidas assadas ao jantar, a grã-duquesa empanturrou-se delas de propósito. Quando foi reprimida, sem mostrar qualquer sinal de arrependimento, disse a Margaretta Eager em forma de provocação: "Não sabe como aquela maçã que comi no jardim me soube bem!". Foi preciso proibi-la de ir ao pomar durante uma semana para que Anastásia prometesse finalmente que não voltaria a roubar maçãs.

Anastásia e Alexei por volta de 1906

Com Anastásia, tudo era uma batalha. Era uma aluna impossível, distraída, negligente, sempre desejosa por sair da cadeira e fazer outra coisa que não a obrigasse a ficar quieta. No entanto, apesar de não ser uma intelectual, tinha um dom instintivo para lidar com pessoas. Quando era castigada por mau-comportamento, dava sempre a volta por cima: "podia sentar-se e avaliar as consequências de qualquer coisa que iria fazer e aceitar o castigo como um soldado", como Margaretta Eager recordou. Mas esse facto nunca a impediu de ser a maior encorajadora de maus comportamentos e conseguia escapar de mais castigos do que qualquer uma das irmãs. Em certas ocasiões, à medida que foi crescendo, chegou mesmo a tornar-se bruta e até vingativa quando brincava com outras crianças. Arranhava-as e puxava-lhes o cabelo, o que levava os seus primos a acusá-la de ser "desagradável, ao ponto de ser má" quando as coisas não corriam à sua maneira.

Anastásia em Darmstadt

segunda-feira, 31 de março de 2014

Four Sisters - The Lost Lives of the Grand Duchesses de Helen Rappaport


No dia 27 de Março foi publicado no Reino Unido um novo livro sobre as quatro filhas do czar Nicolau II da Rússia. "Four Sisters" foi escrito por Helen Rappaport, que tinha já escrito sobre este tema no seu livro "Ekaterinburg: The Last Days of the Romanovs".

O livro tem sido bem recebido por críticos e seguidores da família imperial e é o mais vendido na categoria de política russa no site Amazon.co.uk.

Actualmente pode ser adquirido a partir de £9.33 + portes de envio através do seguinte link:http://www.amazon.co.uk/gp/product/0230768172/ref=ox_sc_act_title_1?ie=UTF8&psc=1&smid=A3P5ROKL5A1OLE.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

The Life and Times of Lord Mountbatten

Neste vídeo extraordinário, que faz parte de um documentário produzido em 1969 sobre a vida do Lord Luís Mountbatten, sobrinho da czarina Alexandra, o próprio fala dos seus parentes Romanov, incluindo as primas Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, bem como de Alexei, Nicolau e até Isabel Feodorovna. Um verdadeiro tesouro para quem sempre quis ouvir histórias sobre os Romanov da parte de uma pessoa que os conheceu pessoalmente! O vídeo está em inglês, mas farei os possíveis para disponibilizar uma versão legendada!

 
The.Life.and.Times.of.Lord.Mountbatten.02of12... por waja100

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Nota Yurovsky (1922) - Primeira Parte

Yakov Yurovsky

Nos primeiros dias de Julho de 1918, recebi uma ordem da parte dos deputados dos Urais do Comité Executivo de trabalhadores, camponeses e soldados soviéticos que me elevaram à posição de Comandante da chamada Casa do Propósito Especial, na qual se encontravam o czar Nicolau II, a sua família e alguns criados chegados a eles.

Entre 7 e 8 de Julho, parti, juntamente com o presidente do Comité Executivo Regional dos Soviéticos dos Urais, o camarada Beloboridov, para a Casa do Propósito Especial, onde substituí o antigo comandante, o camarada Avdeyev. Deve dizer-se que o camarada Avdeyev, assim como o seu assistente, o camarada Ukraintzev, cuidaram dos seus deveres de maneira descuidada no que diz respeito à guarda do czar que, na opinião deles, devia ter sido liquidado imediatamente. Esta atitude reflectiu-se irremediavelmente na moral dos antigos trabalhadores da Fábrica Zlokazovky que se tinham tornado guardas da casa, assim como dos soldados do Exército Vermelho da Fábrica Syseretsky. Já há algum tempo que os trabalhadores diziam que Nicolau e a sua família deviam ter sido mortos para não gastarem o dinheiro das pessoas a manter guardas e tudo o mais. Contudo, nesta altura, o Comité Central ainda não tinha tomado nenhuma decisão definitiva sobre esta questão e era necessário tomar medidas para que os guardas tivessem o mais alto nível de conduta possível. Deve dizer-se que nem o aparelho de comunicação que nos ligava ao regimento soviético e secções da guarda exterior, nem as metralhadoras que tinham sido arranjadas em vários locais funcionavam correctamente. Esta situação forçou-me a contratar alguns camaradas experientes que conhecia da Comissão Extraordinária regional onde tinha sido colega e membro. Desta forma, organizei a guarda interna, contratei novos metralhadores  um dos quais me recordo em particular: o camarada Tzsalms. Neste momento não me recordo dos apelidos de outros camaradas. Deve dizer-se que, em caso de incêndio, não se tomariam quaisquer precauções. Havia equipamento de fogos, havia um poço ao qual se poderia ir buscar água e organizei pessoalmente tudo o que fosse necessário em caso de incêndio. À medida que fui conhecendo os prisioneiros, reparei que estes ainda possuíam bens preciosos, nomeadamente nas mãos de Nicolau, bem como nas da sua família e criados – o cozinheiro Kharitonov, o criado de quarto Trupp e também no Dr. Botkin e na dama-de-companhia, Demidova. Entre os prisioneiros também havia um rapaz chamado Sednev, que servia o Alexei. Os bens de Nicolau estavam guardados em vários locais, dentro de casa e na zona do armazém. Propus organizar uma busca, mas o Comité Executivo não me deu autorização para tal.


A Casa Ipatiev
Deve compreender-se que esta busca não foi considerada necessária uma vez que, por esta altura, tinham acabado de descobrir um esquema que permitia a troca de cartas entre Nicolau e o mundo exterior. No entanto considerei que deixá-los ficar com os seus valores nesta altura poderia não ser seguro tendo em conta o facto de que tal poderia tentar alguns dos guardas, decidi, por minha própria conta e risco, retirar-lhes os bens valiosos que possuíam. Para tal, convidei o assistente do comandante, o camarada Nikulin para me acompanhar e pedi-lhe que documentasse estes bens. Nicolau e os filhos não mostraram descontentamento. O czar só pediu para deixarmos Alexei ficar com o relógio, uma vez que sem ele ficaria aborrecido. Contudo, Alexandra Feodorovna mostrou-se descontente e expressou-se em voz alta quando tentei retirar-lhe a pulseira de ouro do pulso, que se estendia por todo o seu braço e não podia retirar-se sem a ajuda de uma ferramenta. A mulher anunciou que usava aquela pulseira há vinte anos e que agora invadiam a sua privacidade para a tirar. Tendo em conta que as suas filhas possuíam pulseiras iguais, e que não pareciam particularmente valiosas, deixei-as ficar com elas. Depois de documentar estes objectos, pedi a caixa de jóias que Nicolau me entregou para colocar lá dentro todos os objectos. Selei-a com o selo de comandante e entreguei-a a Nicolau para que a guardasse. Quando os visitei para a inspecção, Nicolau entregou-me a caixa de jóias e disse-me: “A sua caixa de jóias está intacta.”


Nicolau e Alexandra na varanda da Casa do Governador em Tobolsk
Quanto a rações, inicialmente, a família recebia uma ração do soviete. Estas refeições estavam longe de ser luxuosas, mas decidimos impedir que chegassem refeições do exterior e estas começaram a ser preparadas na cozinha. Além disso, consegui descobrir que o mosteiro local conseguia entregar tortas coalhadas, manteiga, ovos e coisas parecidas à família. Decidi permitir que tal acontecesse, mas fiquei muito surpreendido por serem permitidas tais liberdades. Mais tarde descobri que o Comandante Avdeyev tinha permitido que tal acontecesse, mas que não permitia que grande parte chegasse à família, ficando com as ofertas para si e para os camaradas. Decidi que tudo o que chegasse para a família lhes devia ser entregue. Foi só no segundo ou no terceiro dia que descobri que as entregas tinham sido autorizadas pelo camarada Avdeyev. Decidi proibir todas as entregas, deixando entrar apenas leite. O Dr. Botkin disse-me que “só depois de ter nomeado nos últimos dois dias temos recebido tudo o que o mosteiro entregava e de repente não podemos receber nada outra vez, as crianças precisam de ser nutrridas, mas a nutrição é tão insuficiente que ficamos muito felizes por receber as entregas do mosteiro”. Contudo, recusei-me a entregar fosse o que fosse, a não ser o leite e decidi que essas entregas deviam ser distribuídas pela população de Ecaterimburgo, uma vez que todas elas eram produzidas na cidade. Pensei que, já que os meus prisioneiros não faziam nada, deviam dar-se por satisfeitos com a mesma ração que todos os cidadãos recebiam. Por esta razão, o cozinheiro Kharitonov anunciou-me que não conseguia preparar nada com meio quarteirão de carne, ao que lhe respondi que eles se deviam habituar a viver sem regalias. Tinham de aprender a sobreviver, como se estivessem presos.

Fosse difícil ou não, Kharitonov teve de começar a usar medidas e pesos exactos para que a quantidade chegasse para cada dia. Disse-lhe que não lhes seria fornecido mais nada caso acabassem com o que tinham antes do previsto.

Maria e Anastásia durante o exílio no Palácio de Alexandre
O quarto no qual se encontravam Alexandra Feodorovna e o herdeiro tinha janelas com saída para o quintal cuja vista da rua estava barricada com cercas de madeira. Alexandra dava-se ao luxo de espreitar pela janela com frequência e de se aproximar dela. No entanto, uma vez, Alexandra deu-se ao luxo de se aproximar demasiado dela. A sentinela ameaçou bater-lhe com uma baioneta, pelo que ela veio queixar-se a mim. Disse-lhe que não tinha permissão para espreitar pelas janelas.

Três ou quatro dias antes da execução, foi instalado um painel de ferro na janela de Alexandra Feodorovna. Por causa disso, o Dr. Botkin anunciou que seria bom se fossem instalados painéis em todas as outras janelas. O horário interior era o seguinte: de manhã levantavam-se todos antes das 10. Ás 10 aparecia eu para inspeccionar a aparência de todos os prisioneiros. Alexandra Feodorovna manifestou o seu descontentamento em relação a esta prática, uma vez que não estava habituada a levantar-se tão cedo. Depois disse que a podia inspeccionar enquanto ela estivesse na cama, ao que ela declarou que não estava habituada a receber ninguém na sua cama. Declarei que isso não me fazia diferença, que faria a inspecção da forma que ela preferisse, mas teria de a fazer todos os dias. A Tatiana, a Olga ou a Maria (mais a Tatiana) pediam-me muitas vezes se podiam ir dar um passeio. Era raro ver Alexandra Feodorovna a caminhar. Quando ela saía de casa para tal, levava sempre um pára-sol e um chapéu. Os restantes costumavam caminhar sempre com as cabeças descobertas. Nicolau passeava à vez com cada uma das suas filhas. Nesta altura o Alexei entretinha-se com armas de brincar e com o rapaz Sednev.

Maria, Olga, Alexandra, Tatiana e Anastásia durante a Primeira Guerra Mundial
Enquanto estava a reparar o poço, Nicolau veio ter comigo e fez um comentário qualquer, mas eu fiz os possíveis para não desenvolver a conversa. Uma vez enquanto passeava, a Olga conversou com um dos oficiais e perguntou-lhe onde tinha prestado serviço durante a guerra. Ele respondeu que tinha prestado serviço num dos regimentos de granadeiros, no qual, durante uma revista militar, tinha visto as filhas do czar. Olga virou-se para Nicolau e exclamou: “Papá, este é um dos nossos granadeiros!”. Nicolau aproximou-se dele e disse: “Saudações!”, esperando, evidentemente, ouvir a resposta militar normal de “Desejo-lhe saúde!”, mas tudo o que ouviu foi um simples “olá”. Muito depois disso, um oficial camarada disse que não tinha tido oportunidade de falar porque eu me aproximei e a conversa terminou.


Tanto quanto pude notar, a família tinha um estilo de vida típico da classe média: de manhã bebiam chá, depois ocupavam-se com algum trabalho – cozer, remendar, bordar. Os mais inteligentes de todos eram a Tatiana, a segunda filha e a Olga, que se parecia muito com a irmã, incluindo nas expressões faciais. A Maria não era parecida com as duas irmãs mais velhas. É um pouco reticente e considerada como uma filha adoptiva. Anastásia, a mais nova, era corada e tinha um rosto bastante bonito. Alexei estava constantemente doente com uma doença que herdou da família, passava grande parte do tempo na cama e por isso tinha de ser levado ao colo para fora. Uma vez perguntei ao Dr. Botkin qual era a doença dele e ele respondeu-me que não se sentia à-vontade para me dizer uma vez que se tratava de um segredo da família, por isso não voltei a perguntar. Alexandra Feodorovna esforçava-se por ter um porte real, tentando relembrar-nos de quem era. Quanto a Nicolau, parecia que pertencia a uma família normal, onde a mulher era mais forte do que o marido. Ela pressionava-o muito. Na situação em que convivi com eles, pareciam uma família calma, governado pelo punho de ferro da mulher. Nicolau, com o seu rosto abatido, parecia muito normal, simples, quase que podia dizer que parecia um soldado camponês.


Olga, Tatiana, Anastásia e Maria no exílio no Palácio de Alexandre, 1917


Além de Alexandra Feodorovna, não se notavam sinais de arrogância em mais ninguém. Se esta não fosse a família imperial detestada, que bebia tanto sangue do povo, podia dizer-se que eram pessoas simples e não arrogantes. As raparigas, por exemplo, iam para a cozinha, ajudavam a cozinhar, tratavam das limpezas ou jogavam às cartas. Todos vestiam roupas simples, não havia nada elaborado. Nicolau comportava-se de forma honesta, “democrática” e, apesar de termos descoberto mais tarde que possuía vários pares de botas novos, só calçava botas remendadas. Um dos seus únicos prazeres era tomar banho várias vezes por dia. Contudo, proibi-os de o fazerem porque havia pouca água. Se uma pessoa considerasse esta família de forma objectiva, podia dizer-se que eram completamente inofensivos.

O pequeno Sednev tinha-se habituado tanto à família que já nem parecia um criado a servir o herdeiro do trono russo. Alexandra Feodorovna queixava-se muitas vezes do barulho que faziam com o cão que tinham, mas ele não deixava esta actividade de que gostava tanto, apesar de a incomodar. Trupp e Kharitonov eram leais como cães para os seus mestres.

O Dr. Botkin com os seus dois filhos
O Dr. Botkin era um amigo leal da família. Sempre que a família tinha alguma necessidade, ele desempenhava o papel de suplicante. Era leal à família de corpo e alma e preocupava-se juntamente com a família Romanov com as dificuldades das suas vidas. Toda a gente sabe que Nicolau e a sua família eram muito religiosos. Perguntaram-me se seria possível participarem numa liturgia. Convidei um padre e um diácono. Quando estavam no quarto do comandante a vestir-se, avisei-os de que podiam realizar a liturgia da forma que deveriam, seguindo os seus rituais, mas não podiam ter qualquer tipo de conversa com a família. O diácono afirmou: “isto já nos aconteceu antes e não servimos indivíduos tão importantes. Uma pessoa pode ficar confusa e pode haver escândalo, mas neste caso vamos espalhar o incenso com prazer pelas suas almas bondosas”. O Obednya foi servido. Nicolau e Alexnadra Feodorovna rezaram ferventemente.

Quando iniciei as minhas funções já se colocava a questão sobre a liquidação da família Romanov, uma vez que os checoslovacos e os cossacos já estavam próximos dos Montes Urais e aproximavam-se cada vez mais rapidamente de Ecaterimburgo. Afinal de contas, Nicolau tinha algum contacto com o exterior.

Tendo esta situação ameaçadora em vista, o assunto foi acelerado.

Fiquei encarregue desta situação, mas a liquidação estava nas mãos de outro camarada.

Anastásia, Maria e Tatiana numa janela em Tobolsk
A 16 de Julho de 1918, perto das duas da tarde, o camarada Filipp chegou à casa e apresentou-me a solução do Comité Executivo para executar Nicolau e foi nesta altura que alertei para o facto de que o jovem Sednev devieria ser retirado do local.

Durante essa noite chegaria um camarada que diria a palavra-passe “limpador-de-chaminés” e seria a ele que os corpos deveriam ser entregues, já que seria ele o responsável pelo enterro e por acabar com o trabalho. Chamei o jovem Sednev e disse-lhe que no dia anterior o seu tio Sednev, que tinha sido preso, tinha fugido, mas tinha já sido capturado novamente e desejava vê-lo. Por isso mandei-o ter com o tio. O rapaz ficou muito contente por poder regressar à sua terra-natal. A família Romanov começou a ficar inquieta. Como sempre, o Dr. Botkin veio ter comigo e perguntou-me para onde tínhamos mandado o rapaz. Disse-lhe o que tinha dito ao rapaz, mas mesmo assim ele continuava a parecer preocupado. Mais tarde foi a Tatiana que veio ter comigo, mas acalmei-a, dizendo-lhe que o rapaz tinha ido visitar o tio, mas que regressaria em breve. Convoquei o chefe do departamento, o camarada Pavel Medvedev da Fábrica Syseretsky e outros, e disse-lhes que, caso acontecesse algo fora do normal, teriam de esperar até receber um sinal especial que combinamos no momento. Depois de ter chamado os guardas interiores que tinham sido seleccionados para a execução de Nicolau e da sua família, distribuí tarefas e informeu quem deveria matar quem. Entreguei-lhes revólveres com o sistema “Nagan”. Quando os papéis estavam distribuídos, os oficiais pediram-me que os poupasse da responsabilidade de matar as jovens, uma vez que não seriam capazes de o fazer. Depois decidi que o melhor seria mesmo poupar completamente estes camaradas da execução, uma vez não eram capazes de cumprir os seus deveres pela revolução no momento mais crucial. Depois de ter cumprido todos os deveres, esperamos pelo “limpa-chaminés”. Contudo ele não chegou nem à meia-noite nem à uma da manhã e o tempo começava a esgotar-se. Finalmente, à uma e meia da manhã bateu à porta. O “limpa-chaminés” tinha chegado. Fui até aos aposentos dos prisioneiros e acordei o Dr. Botkin, dizendo-lhe que todos se tinham de vestir o mais depressa possível uma vez que estavam a haver distúrbios na cidade e tinha de os transferir para um lugar mais seguro. Não queria apressá-los, por isso dei-lhes a oportunidade de se vestirem. Às duas da manhã, transferi os guardas para os andares mais baixos. Disse-lhes para se colocarem na ordem combinada. Conduzi a família para a cave sozinho. Nicolau levava Alexei nos braços. O resto levava consigo algumas almofadas nas mãos, outros levavam outras coisas. Finalmente chegamos ao andar mais baixo e dirigimo-nos para uma divisão que tinha sido preparada anteriormente. Alexandra Feodorovna pediu uma cadeira e Nicolau pediu outra para Alexei.


Ordenei que trouxessem as cadeiras. Alexandra Feodorovna sentou-se e o Alexei também. Sugeri que todos se levantassem, o que fizeram, ocupando toda a parede de trás e uma das paredes de lado. A divisão era muito pequena. Nicolau estava levantado de costas para mim. Então anunciei: “O Comité Executivo dos Trabalhadores, Camponeses e Soldados Soviéticos dos Montes Urais tomou a decisão de vos executar.” Nicolau virou-se para mim e perguntou: “O quê, o quê?” Repeti a sentença e dei imediatamente a ordem para disparar. Fui o primeiro e matei Nicolau imediatamente. Os disparos prolongaram-se durante muito tempo e, apesar das minhas esperanças de que a parede de madeira não levasse as balas a fazer ricochete, estas começaram a ir para todo o lado. Não consegui ordenar aos soldados que parassem de disparar durante muito tempo, o que fez com que as coisas se descontrolassem. Mas quando consegui fazê-los parar finalmente, percebi que muitos deles ainda estavam vivos.

Por exemplo, o Dr. Botkin estava deitado sobre o cotovelo do seu braço direito, como se estivesse numa pose relaxada, mas um tiro de revólver eliminou-o imediatamente. O Alexei, a Tatiana, a Anastásia e a Olga também ainda estavam vivos, assim com a Demidova. O camarada Ermakov queria acabar o trabalho com uma baioneta. Contudo, tal não era possível. A razão pela qual foi tão difícil matá-los tornou-se clara mais tarde. As filhas do czar tinham uma armadura de diamantes cozida nos seus corpetes. Fui forçado a matar um de cada vez. Infelizmente os valores que os executados traziam chamaram a atenção de alguns guardas vermelhos que se encontravam presentes e decidiram roubá-los. Propus que se acabasse com o saque aos cadáveres e pedi ao camarada Medvedev que verificasse se não tinham sido roubados valores da mala. Decidi juntar tudo que se encontrava no local imediatamente.

Pedi ao Nikulin que vigiasse a estrada quando os cadáveres fossem carregados e também deixei outro soldado na cave para vigiar os que ainda se encontravam lá. Depois de carregar os cadáveres chamei os participantes e exigi que devolvessem imediatamente tudo o que tinham roubado senão seriam castigados. Um a um, os soldados começaram a devolver o que tinham. No final descobrimos que havia dois ou três homens fracos. Apesar do facto de ter a inclinação de entregar o resto do trabalho ao camarada Ermakov, temi que ele não conseguisse cumpri-lo da forma mais correcta e decidi ir eu mesmo. Deixei o Nikulin para trás. Ordenei-lhe que não mudasse a guarda que estava de vigia para que parecesse que estava tudo normal.

Esboço para um quadro da família Romanov realizado pouco depois do nascimento de Anastásia
Nota: Ao todo existem 6 notas escritas por Yurovsky sobre o assassinato dos Romanov, cada uma com detalhes contraditórios.



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um Dia Na Vida da Família Imperial - Lili Dehn

Às nove da manhã a imperatriz tomava o pequeno-almoço com o imperador; era uma refeição simples à inglesa e depois do pequeno-almoço subia ao andar superior para ver as crianças. Depois chegava a Anna Vyrubova e, se havia reuniões extremamente importantes, normalmente aconteciam de manhã, mas, se a imperatriz estivesse “livre” ia inspeccionar o seu colégio de enfermeiras domésticas que se regia inteiramente por linhas inglesas. Acreditava piamente na qualidade das enfermeiras que recebiam um treino inglês, especialmente para crianças e empenhava-se extensivamente no trabalho e organização desta instituição.

Alexandra com um bebé, provavelmente Alexei

O almoço era à uma hora à semana e ao meio dia e meia aos Domingos, mas quando a imperatriz se sentia indisposta, o que acontecia com frequência, comia no seu boudoir ou apenas na companhia do czarevich. Depois do almoço a imperatriz ia dar uma volta a pé ou passeava numa carruagem aberta. O chá era tomado às cinco da tarde, mas por vezes recebia pessoas entre o almoço e o chá.

Nicolau, Alexandra, Olga e Anastásia com Vitória Melita

A família encontrava-se à hora do chá que era uma ocasião bastante familiar, e o jantar que era servido às oito, era uma ocasião bastante móvel no sentido literal da palavra. O imperador não gostava de comer só numa sala em específico, por isso a mesa era sempre levada para a sala que ele preferisse nessa noite. Depois de jantar (e esta era sempre uma refeição muito simples), a família passava o resto do serão junta e as grã-duquesas, que gostavam muito de puzzles, passavam quase sempre esta altura a trabalhar neles. Por vezes o imperador lia em voz alta para as filhas e para a esposa. Era a vida familiar de uma família unida, mas uma vida que o resto do mundo não estava disposto a aceitar. De facto, um escritor russo não hesitou em afirmar abertamente que “teria sido melhor para a Rússia se a imperatriz tivesse sucumbido a todas as fragilidades atribuídas a Catarina II.” É irónico pensar nesta opinião quando uma pessoa se lembra como os jornais e o publico em geral criticaram a sua associação com Rasputine. Mas se ela tivesse sido como Catarina II, é possível que essa “fragilidade” pudesse ter sido considerada “melhor para a Rússia!”
Nicolau II com os filhos e um oficial


domingo, 17 de julho de 2011

A Morte dos Romanov - 17 de Julho de 1918


Na noite de 16 de Julho, entre as sete e as oito da noite, quando o meu turno tinha acabado de começar, o comandante Yurovsky (chefe do esquadrão de execução) ordenou-me que fosse buscar os revolveres Nagan aos guardas e que os levasse até ele. Recolhi doze revolveres dos sentinelas e de outros guardas e levei-os ao escritório do comandante.

O Yurovsky disse-me, "Temos de os matar hoje à noite, por isso avisa os guardas para não se assustarem se ouvirem tiros". Percebi então que o Yurovsky tinha todas as intenções de matar a família inteira do czar, bem como o médico e os criados que estavam com eles, mas não lhe perguntei onde nem quem tinha tomado essa decisão. Cerca das dez da noite, seguindo a ordem de Yurovsky, informei os guardas para não se assustarem caso ouvissem disparos.

Cerca da meia-noite, o Yurovsky acordou a família do czar. Não sei se lhes disse a razão pela qual tinham sido acordados ou para onde seriam levados, mas tenho a certeza que foi o Yurovsky que entrou no quarto ocupado pela família do czar. Cerca de uma hora depois, a família inteira, o médico, a criada da czarina e os criados do czar levantaram-se, lavaram-se e vestiram-se.

Pouco antes de o Yurovsky ir acordar a família, dois membros da Comissão Extraordinária (do Soviete de Ekaterinburg) chegaram à Casa Ipatiev. Pouco depois da uma da manhã, o czar, a czarina, as suas quatro filhas, a criada, o médico, o cozinheiro e os criados saíram dos seus quartos. O czar levava o filho nos braços. O imperador e o herdeira estavam vestidos de uniforme e levavam capas. A imperatriz, as suas filhas e os outros siguiam-nos. O Yurovsky, o seu assistente e os outros dois que mencionei em cima, membros da Comissão Extraordinária acompanharam-nos. Eu também estava presente.

Enquanto estive presente, nenhum membro da família do czar fez perguntas. Não choraram nem se lamentaram. Depois de descer as escadas da Casa Ipatiev para o primeiro andar, fomos para o quintal e, daí, entramos na segunda porta (do lado do portão), chegando à cave da casa. Quando chegamos à sala, adjunta à dispensa e com uma porta fechada atrás, o Yurovsky ordenou que se trouxessem cadeiras e o seu assistente trouxe três cadeiras. Uma delas foi dada ao imperador, uma à imperatriz e a terceira ao herdeiro.

A imperatriz sentou-se perto da parede, junto à janela, perto do pilar negro do arco. Atrás delas estavam três das suas filhas. Conhecia bem as caras delas porque as via todos os dias quando elas iam passear pelo jardim, mas não sabia como se chamavam. O herdeiro e o imperador sentaram-se lado a lado, quase a meio da sala. O doutor Botkin estava atrás do herdeiro. A criada, uma mulher muito alta, estava à esquerda da porta que dava para a dispensa, ao seu lado estava a filha mais nova do czar (Anastásia). Os outros dois estavam encostados à parede, à esquerda da porta de entrada para a sala.

A criada levava uma almofada. As filhas do czar também tinham almofadas pequenas com elas. Uma delas foi colocada na cadeira da imperatriz e outra na do herdeiro. Parecia que adivinhavam o seu destino, mas nenhum deles falou. Neste momento entraram onze homens na sala: O Yurovsky, o assistente, dois membros da Comissão Extraordinária e quatro operativos da Cheka (polícia secreta).

O Yurovsky ordenou-me que saísse, dizendo: "Vai até à rua, vê se está lá alguém e espera para ver se se conseguem ouvir os tiros." Saí para o quintal, que era protegido por uma vedação, mas antes de chegar à rua ouvi disparos. Regressei imediatamente à casa, só tinham passado dois ou três minutos, e quando entrei na sala onde a execução tinha acontecido vi que todos os membros da família do czar estavam deitados no chão, gravemente feridos ou mortos. O sangue corria como um riacho. O médico, a criada e os dois serventes também tinham sido atingidos. Quando entrei o herdeiro ainda estava vivo e gemia um pouco. O Yurovsky foi até ele e disparou mais dois ou três tiros contra ele. Depois o herdeiro ficou quieto.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Notícias - Exposição com os Brinquedos das Crianças Romanov no Palácio de Alexandre (São Petersburgo)


Quase cem anos depois de os Romanov deixarem o Palácio de Alexandre, os seus antigos quartos estão abertos ao público desde o dia 2 de Junho para uma exposição única sobre a infância dos filhos de Alexandre II e Nicolau II, os principais habitantes deste palácio em Czarskoe Selo. Quem a visita pode ver brinquedos, fotografias, roupa e outros objectos.

Tenda, canoa, cão e outros brinquedos do czarevich Aleksei Nikolaevich
Brinquedos das quatro grã-duquesas
Vestidos e fotografias das grã-duquesas
Para mais informações e horários de visita clique aqui.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A Abdicação de Nicolau II - Anna Vyrubova (2ª parte)

Anna Vyrubova quando tinha sarampo
Naquela hora de agonia suprema não se disse uma única palavra sobre a perda do trono. O coração de Alexandra Feodorovna estava com o marido, os seus únicos medos eram que ele pudesse estar em perigo ou que o seu filho lhes fosse retirado. Começou imediatamente a enviar telegramas frenéticos ao imperador, implorando-lhe que voltasse para casa o mais depressa possível. Com a crueldade refinada que lhe era característica, o governo provisório devolveu os telegramas à imperatriz, escrevendo a lápis azul: "Morada da pessoa mencionada desconhecida." 

Nem esta insolênsia nem os seus medos quebraram a coragem sublime da imperatriz. Quando na manhã seguinte ela entrou no meu quarto e viu a minha cara lavada em lágrimas por já saber o que tinha acontecido, a única emoção que lhe li no rosto foi uma certa irritação por terem sido outros lábios a darem-me a notícia. "Eles deviam saber que preferia ser eu a dar a notícia," disse. Só quando deixou as suas rondas pelos quartos e ficou sozinha é que deixou a angustia surgir. "A mamã chorou muito," contou-me a pequena Maria. "Eu também chorei, mas só o que não consegui aguentar, para bem da mamã." Nunca na minha vida, de certeza, vou contemplar tanta força de espírito como a que foi mostrada naqueles dias de tragédia e desastre pela imperatriz e pelos seus filhos. Nem uma palavra de amargura ou ressentimento saiu dos seus lábios. "Sabes, Anna," disse-me a imperatriz gentilmente, "está tudo acabado para a nossa Rússia. Mas não devemos culpar o povo ou os soldados pelo que aconteceu." Sabíamos bem que ombros carregavam o peso dessa responsabilidade.

Maria Nikolaevna
Nesta altura, a Olga e o Alexei já estavam muito melhores, mas a Tatiana e a Anastásia ainda estavam muito doentes e a Maria estava a entrar na fase mais grave da doença. A imperatriz com o seu uniforme do hospital movia-se incansavelmente de quarto para quarto. Estávamos praticamente sozinhos no palácio. Nem os meus pais me podiam visitar por estarem presos em São Petersburgo.
Os dias passavam e continuávamos sem saber nada do imperador. A paciência da imperatriz estava quase a esgotar-se quando uma jovem, esposa de um oficial obscuro, que se atirou aos pés da imperatriz e implorou para ter a permissão de cumprir a dificil tarefa de levar uma até ao imperador.  A imperatriz aceitou a oferta muito agradecida e uma hora depois a corajosa mulher estava a caminho de Mogilov.  Como conseguiu chegar ao quartel-general, como passou o cordão de segurança de soldados e finalmente conseguiu entregar a carta ao imperador prisioneiro, nunca soubemos, mas demos-lhe todo o mérito por o ter conseguido.

Olga, Tatiana e Alexandra durante a Primeira Guerra Mundial
O palácio estava agora cheio de soldados revolucionários, bastante bêbados com a sua nova liberdade. As suas botas pesadas faziam barulho pelos quartos e corredores e grupos de homens sujos e de barbas por fazer estavam sempre a tentar entrar nos quartos das crianças, gritavam com vozes roucas: "Mostrem-nos o Alexei!" Pois era o herdeiro que lhes interessava acima de tudo e despertava a curiosidade da multidão. Entretanto, por detrás das portas fechadas e esperando ansiosamente a chegada do imperador, a imperatriz e os poucos que ainda lhe eram leais estavam a preparar-se para uma possível visita de Kerensky queimando cartas e diários, registos pessoais íntimos, demasiado preciosos para caírem nas mãos do inimigo.

Alexei Nikolaevich

terça-feira, 15 de março de 2011

A Abdicação de Nicolau II - Anna Vyrubova (1ª parte)

Nicolau II em 1900
Na manhã seguinte, fui para a porta e vi o carro do imperador desaparecer dos terrenos do palácio, a imperatriz e os filhos foram com ele até à estação. Como era normal nestas ocasiões, houve uma mostra de bandeiras dos guardas que se posicionavam para o saudar e o dobrar dos sinos das igrejas a despedirem-se. Tudo parecia igual, no entanto, as bandeiras, os soldados e o dobrar dos sinos estavam a acelerar o czar de todas as Rússias para a sua ruína. 

Senti-me doente nessa manhã, doente mental e fisicamente, contudo cumpri o meu dever e fui para o meu hospital onde um soldado por quem me interessei especialmente, ia ser operado e, temendo-a, implorou-me que estivesse presente. Enquanto lhe estavam a administrar a anestesia, fiquei ao lado do pobre homem, segurando-lhe a mão, mas ao mesmo tempo percebi que estava a ficar com febre e que a minha dor de cabeça estava a aumentar insuportavelmente. Quando regressei ao palácio deitei-me no meu quarto, depois de ter escrito uma nota à imperatriz onde dizia que não estaria presente para tomar chá. Uma hora depois chegou a Tatiana, complacente como sempre, mas preocupada porque tanto a Olga como o Alexei estavam de cama com temperaturas altas e os médicos achavam que eles podiam ter sarampo.

Uma semana ou duas antes, alguns cadetes da escola militar tinham passado a tarde a brincar com o Alexei e um destes rapazes tinha tosse e o rosto tão corado que a imperatriz tinha chamado a atenção de M. Gilliard para a criança, temendo que esta estivesse doente. No dia seguinte soubemos que ele tinha sarampo, mas como as nossas cabeças estavam tão preocupadas com outras coisas, nenhum de nós pensou muito no perigo de contaminação. Quanto a mim, mesmo depois da Tatiana me dizer que a Olga e o Alexei poderiam estar a sofrer a doença, não me ocorreu nem uma vez que iria ficar doente. A minha temperatura continuou a subir e a minha dor de cabeça a aumentar. Fiquei de cama durante o dia seguinte, até à hora de jantar quando a Mme. Dehn veio ter comigo e fiz um esforço inútil para me levantar e vestir. A Mme. Dehn obrigou-me a deitar outra vez e, olhando para mim cuidadosamente, disse: "Está com muito mau aspecto. Acho que vai ter de ser vista pelo médico." No instante seguinte, assim me pareceu, o médico estava no meu quarto e ouvi-o dizer: "Sarampo. Um caso grave." Depois adormeci ou desmaiei.

Anna Vyrubova com a imperatriz Alexandra
Nesse mesmo dia a Tatiana ficou doente e agora a imperatriz tinha quatro pessoas nas mãos. Vestiu o seu uniforme de enfermeira e passou todos os dias seguintes entre os quartos das crianças e o meu. Quase inconsciente, sentia-a, agradecida, as suas mãos hábeis a arranjar-me as almofadas, a acariciar-me a testa a ferver e a colocar-me medicamentos e bebidas frescas nos lábios. Ouvi vagamente que a Maria a Anastásia tinham começado a tossir, mas esta notícia preocupou-me apenas como um sonho passageiro. Estava consciente da presença da minha mãe, do meu pai e da minha irmã mais nova e, ainda dentro de uma espécie de pesadelo, percebi que eles e a imperatriz falavam em murmúrios agitados de revoltas e desordem em São Petersburgo. Mas não sei nada sobre os primeiros dias da Revolução, das greves em São Petersburgo e Moscovo, das revoltas e das manifestações e da hesitação das milícias meio-disciplinadas em restaurar a ordem, excepto sobre o que depois me aconteceu a mim. Contudo sei que a imperatriz da Rússia estava completamente calma e corajosa e que a minha irmã, depois de testemunhar as cenas selvagens de São Petersburgo, tinha dito à imperatriz que o fim estava próximo. A imperatriz acalmou-a com palavras de confiança.


Alexandra e Anna Vyrubova
Foi o devoto grão-duque Paulo, como a imperatriz depois me contou, quem lhe deu as primeiras impressões oficiais sobre o que se estava a passar e fê-la compreender que a maior das calamidades entre todas as tragédias, uma revolução política a meio de uma guerra mundial, estava a acontecer. Até nessa altura, ela não perdeu nenhuma da sua maravilhosa coragem. Não queria chamar os ministros ou os embaixadores da Aliança para a proteger a ela ou aos filhos. Com dignidade, sem vacilar, assistiu a cada dia à covarde fuga de homens que tinham vivido na Corte durante vários anos e que tinham desfrutado da confiança e amizade da família imperial. Um a um, eles foram desaparecendo, o General Racine, o conde Apraxin, oficiais e homens do corpo de segurança, criados dos mais antigos e confiáveis, sempre com desculpas suaves de quem apenas se queria salvar a si mesmo. 

Alexandra em 1916
 Uma noite chegou o barulho de revoltas e de metralhadoras que pareciam estar cada vez mais próximas do palácio. Eram cerca das onze da noite e a imperatriz estava a descansar na ponta da minha cama. Levantando-se rapido e colocando um xaile em volta dos ombros, ela foi buscar a Maria, a única dos seus filhos que estava saudável, e saiu do palácio para o ar frio para enfrentar o que a ameaçava. A guarda naval e os cossacos Konvoi ainda estavam em dever apesar de até eles se estarem a preparar para desertar. É bem possível que eles tivessem ido embora naquela noite se não fosse pela aparição da imperatriz e da sua filha. Elas foram de guarda em guarda, a imperatriz com o seu ar imperial e a Maria com coragem, e deram palavras de encorajamento, fé pura e simples e confiança, enfrentando a fúria mortal deles. Não foi preciso mais nada para que os homens permanecessem nos seus postos durante aquela noite horrível e impediu que os manifestantes atacassem o palácio. No dia seguinte os guardas desapareceram. Os guardas navais, liderados pelo grão-duque Cyril Vladimirovich, marcharam com bandeiras vermelhas para a Duma e apresentaram-se a Rodzianko como alegres revolucionários. Os mesmos homens que na noite anterior tinham louvado a imperatriz com as saudações tradicionais de "Saúde e vida longa a Vossa Majestade!"

Maria Nikolaevna
Agora não havia praticamente ninguém dentro ou fora do palácio para defender a família imperial no caso de a multidão decidir atacar. Mesmo assim a imperatriz permaneceu calma, dizendo apenas que esperava que nenhum sangue tivesse de ser derramado para a proteger. Um telegrama do imperador revelou que ele já sabia da crise e por isso implorava que a imperatriz e os filhos se juntassem a ele no quartel-geral. No mesmo momento chegou uma mensagem espantosa de Rodzianko, agora chefe do Governo Provisório, a avisar a imperatriz de que ela e a sua família tinham de deixar o palácio de uma vez. A sua resposta para ambas as mensagens foi a de que não podia sair porque todos os seus filhos estavam gravemente doentes. A resposta de Rodzianko a este apelo desesperado de uma mãe foi: "Quando a casa estiver a arder, é altura de deitar tudo fora." A imperatriz consultou médicos e enfermeiras desesperadamente. As crianças podiam ir para outro sitio? E a Anna? O que poderia fazer se o governo se revelasse impiedoso?

Anastásia, Tatiana e Maria durante a Primeira Guerra Mundial
A este dilema da mãe, acrescentou-se a terrível notícia da abdicação. Não pude estar com ela nesta hora de dor, nem sequer a vi até á manhã seguinte. Foram os meus pais que me deram a notícia, mas estava demasiado doente para a compreender. A Mme. Dehn, que estava com a imperatriz na noite em que o grão-duque Paulo chegou com a fatal notícia, descreveu a cena quando a imperatriz, de coração partido, deixou o grão-duque e regressou ao seu quarto. 

"A cara dela estava distorcida com a agonia, os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Mancava em vez de andar e eu suportei-a até ela conseguir chegar à secretária que ficava entre as janelas. Encostou-se fortemente contra ela e, segurando as minhas mãos nas suas, disse tristemente: 'Abdique'. 

Mal podia acreditar nos meus ouvidos. Esperei pelas suas próximas palavras. Mal as consegui ouvir. Finalmente [ainda a falar francês porque a Mme. Dehn não falava inglês] disse: 'Pobrezinho - sozinho ali e a sofrer - Meu Deus! O que ele deve ter sofrido!'

Fotografia de noivado de Nicolau e Alexandra

segunda-feira, 7 de março de 2011

"The House of Special Purpose" - John Boyn

Rússia, 1915: Aos 16 anos, Georgy Daniilovich Jachmeven coloca-se em frente de uma bala destinada a um membro respeitado da Família Imperial Russa e é proclamado um herói. Antes do final da semana, a sua vida como filho de um camponês muda dramaticamente quando é levado até São Petersburgo para assumir o seu novo cargo como guarda-costas de Aleksei Romanov, o único filho do czar Nicolau II e da imperatriz Alexandra.

Sessenta e seis anos depois, quando visita a sua esposa Zoya que está a morrer num hospital londrino, as memórias da vida que os dois partilharam juntos começam a encher-lhe a mente. O seu casamento, embora feliz, foi marcado pela tragédia, perda de entes queridos e experiencias no exílio que nenhum consegue esquecer.

“The House of Special Purpose” é um romance sobre um jovem inexperiente atirado para o centro de um império moribundo. Conhecedor dos segredos de Nicolau e Alexandra, das maquinações de Rasputine e dos eventos que levaram ao colapso final da autocracia, é também uma história de amor que atravessa mais de meio século, de um marido que não consegue viver no presente e uma mulher que não se consegue reconsiliar com o passado.

Em parte uma história de amor, em parte um épico histórico, em parte uma tragédia, este romance avança desde São Petersburgo revolucionária até Paris após a Primeira Guerra Mundial e desde Londres durante o Blitz até à costa oriental da Finlândia durante os anos 1980 antes de regressar a uma capa de hospital calma onde a história de Georgy e Zoya é finalmente resolvida de forma trágica.

John Boyne
Este romance foi escrito pelo mesmo autor de "O Rapaz do Pijama às Riscas" e por isso teve bastante sucesso entre leitores fora do circulo Romanov. Tem recebido criticas mistas desde o seu lançamento por parte da comunidade Romanov, principalmente porque a história é bastante similar à de Kitchen Boy e tantos outros romances do género que saem com muita frequência nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas aparte disso tem sido bastante bem recebido.

Está disponível em Portugal, em algumas lojas da Fnac, a 10 euros e em inglês.