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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Regência de Alexandra Feodorovna em 1915-17

Alexandra Feodorovna no Palácio de Alexandre, no outono de 1916
Durante a Primeira Guerra Mundial, Nicolau II poderia ter assumido o papel de líder civil, coordenando o governo, garantindo que o exército estava bem equipado, fazendo os possíveis para garantir que os feridos eram tratados, os refugiados apoiados, e que o país continuava a funcionar. No entanto, Nicolau, tal como Guilherme II na Alemanha, sentia um grande fascínio pelo lado romântico do exército, tinha má opinião da administração civil e sentia-se demasiado sobrecarregado com as falhas no governo para saber sequer por onde devia começar. (...)

A sua solução para a crise foi assumir o comando supremo do exército em Setembro de 1915. Num momento de optimismo exacerbado, Nicolau tinha-se convencido de que essa seria a decisão que iria remediar todos os problemas da Rússia: se fosse ele a assumir o comando, Deus salvaria a Rússia e os camponeses que prestavam serviço no exército iriam lutar com ainda mais vontade. Nicolau adorava a ideia de lutar ao lado dos seus soldados e de fugir às intrigas e cabalas e "pouco interesse pessoal" que havia em São Petersburgo - que tinha sido rebatizada de Petrogrado para a afastar das suas origens alemãs. "Na frente de batalha," confidenciou o czar a Pierre Gilliard, tutor do seu filho, "só se pensa numa coisa: na determinação de vencer."

Nicolau II durante a Primeira Guerra Mundial
Já há vários meses que Alexandra tentava convencer o marido a tomar esta decisão, afirmando que ele era o salvador da Rússia e que Deus o iria proteger. Era uma ideia tão má que, quando Nicolau a anunciou ao seu Conselho de Ministros, todos ficaram em silêncio. "É tão horrível," escreveu Sazonov [Sergei Sazonov, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia entre 1910 e 1916], "que a minha cabeça está um caos". Outro ministro afirmou secamente que esta decisão "reflecte completamente as suas crenças espirituais e a forma mística como vê o seu chamamento imperial". Depois de vários anos de lutas internas, o Conselho de Ministro tomou a decisão nunca antes vista de se unir para escrever uma carta em conjunto ao czar onde lhe pediam para não seguir em frente com aquela decisão. Até Goremykin [Ivan Goremykin, primeiro-ministro da Rússia em 1906 e, mais tarde, entre 1914 e 1916], que concordava sempre com o czar, assinou a carta. Até a mãe e a irmã de Nicolau [Olga Alexandrovna] acharam que seria uma catástrofe. Apesar de todos os pedidos, o czar decidiu avançar com a sua decisão de qualquer das formas. Sem qualquer experiência em estratégia ou em batalhas, não demorou muito até todos no quartel-general passarem a ver Nicolau como alguém irrelevante. A decisão teve o resultado já esperado de fazer com que ele fosse mais culpado do que nunca pelos desastres militares que se iam sucedendo.

Nicolau II
Quando Nicolau deixou São Petersburgo e o governo civil, Alexandra sentiu-se na obrigação de ocupar o seu lugar. Deixou a sua cama de inválida e decidiu dar à Rússia aquilo que acreditava ser uma grande lição em autocracia. Começou a dispensar ministros a uma velocidade estonteante logo quatro dias depois da partida de Nicolau. Todos à sua volta percebiam que, para ela, a política era "um assunto de sentimentos e personalidades". O esforço que o governo estava a fazer para sobreviver durante a guerra foi substituído por uma luta pessoal entre aqueles que Alexandra considerava estarem a seu favor e aqueles que achava estarem contra ela. Os ministros que tinham pedido ao czar para não se tornar comandante supremo do exército foram sistematicamente descredibilizados e dispensados. Qualquer pessoa que sugerisse algum tipo de colaboração com a Duma era dispensada. Qualquer pessoa de quem ela não gostasse, se tivesse oposto a alguma das suas decisões ou criticasse Rasputine - a quem a imperatriz procurava cada vez mais para obter conselhos políticos e que, tal como Pierre Gilliard observou, se limitava a confirmar aquilo que ela queria ouvir - era dispensada. Até o velho Goremykin perdeu as boas graças da imperatriz.

Nicolau e Alexandra
As cartas que escrevia a Nicolau - ainda em inglês - estavam cheias de referências ao "Nosso Amigo" e de pedidos para a remoção de ministros. "Quem me dera poder enforcar o Rodzianko [presidente da Duma]", escreveu ela, "é um homem horrível e insolente". Também o incentivava a ser assertivo e autocrático. Entretanto, em São Petersburgo, ia mudando de ministros a uma velocidade quase cómica, nomeando e dispensando quatro primeiros-ministros - cada um deles mais conservador e menos eficaz do que o anterior - num período de dezasseis meses, tentando desesperadamente encontrar aquele ministro "leal", o homem que odiasse suficientemente a Duma e que respeitasse suficientemente Rasputine. O primeiro-ministro de quem mais gostou foi Protopopov, um antigo representante da Duma que se tinha tornado admirador de Rasputine e que quase todos achavam ter algum tipo de problema mental, enquanto que outros eram da opinião que era completamente louco. A imperatriz promoveu-o, apesar de reconhecer que ele era "extremamente nervoso e muitas vezes perde a linha de raciocínio", só porque "ouvia" Rasputine e, segundo ela, "tem uma grande devoção por nós!". Segundo relatos da época, é possível que, a esta altura, Protopopov sofresse de sífilis terciária em estado avançado.

Alexandre Protopopov
Pierre Gilliard, que simpatizava completamente com a agonia que Alexandra sentia devido à doença do filho, temia que ela estivesse a enlouquecer: "muitas vezes passava por períodos de êxtase místico nos quais perdia por completo a noção da realidade". Entretanto, a visão obsessivamente polarizada que a imperatriz tinha do mundo levou-a a favorecer Rasputine em público, ao mesmo tempo que ignorava a forma cada vez mais aberta com que ele se aproveitava da sua posição privilegiada. Havia figuras que serviam na corte há vários anos, como Mossolov [chanceler da corte russa entre 1900 e 1916), que viam como o governo se tornava cada vez mais caótico sem poder fazer nada para o impedir. As nomeações e sinecuras eram cada vez mais preenchidas pelos amigos e clientes de Rasputine e parecia não haver nada a fazer senão aceitar o que estava a acontecer. O governo, que já estava em dificuldades, tornou-se ainda mais ineficaz, ridículo e corrupto. Em comparação, a Duma e o movimento dos Zemstvo pareciam cada vez mais eficazes e apelativos. Juntamente com o facto de Nicolau ter assumido o comando do exército, o efeito deste período na reputação do casal imperial foi devastador.

Alexandra Feodorovna
Já há muitos anos que as classes altas da Rússia não gostavam de Alexandra, mas, depois de assumir o governo, não demorou muito até começar a ser odiada veemente. Nicolau dava a impressão de ser um homem falhado e fraco. Ao ressentimento sentido pelas exigências da guerra, começaram a juntar-se as histórias de corrupção, caos e até de traição que se desenrolavam nas posições mais importantes do governo. Tendo em conta os desastres que se iam sucedendo na frente de batalha e a aparente indiferença e incapacidade do governo para resolver os problemas mais básicos, não é de admirar que os rumores relativos à suposta simpatia de Alexandra pelos alemães e à sua relação bizarra com Rasputine se tenham começado a espalhar além da elite e chegado ao resto do país e ao exército que estava cada mais insatisfeito. Em 1916, muitos acreditavam que Rasputine e os seus comparsas eram agentes alemães que tinham como objectivo entregar a Rússia à Alemanha e que a imperatriz de origem alemã estava a trabalhar com eles.

Alexandra Feodorvna
A relação entre Nicolau e Alexandra e a família (tanto a mais próxima, na Rússia, como os parentes mais afastados em Inglaterra e na Alemanha) começou também a ser afectada devido às más políticas e suspeitas da guerra. A correspondência entre Nicolau II e o seu primo direito, o rei Jorge V do Reino Unido, que sempre tinha sido cordial, começou a encher-se de coisas por dizer e explicações não requisitadas. "Tenho estado muito ocupado com algumas mudanças de ministros, das quais deves ter ouvido falar," escreveu Nicolau depois de a Rússia ter batido em retirada várias vezes em meados de 1915. "Relativamente à retirada na Galicia (...) teve de ser feita para salvar o nosso exército - única e exclusivamente devido à falta de munições e espingardas. E este motivo é muito doloroso. Mas o meu país compreendeu-o bem e todos estão a trabalhar para colmatar as necessidades do exército com energia redobrada (...) falta pouco para se completar um ano desde que esta guerra terrível rebentou e só Deus sabe quanto tempo poderá durar - mas vamos lutar até ao fim!". A resposta de Jorge pegou noutra crítica implícita: "posso garantir-te que aqui na Inglaterra estamos a fazer todos os possíveis para produzir as munições e armas necessárias e estamos a enviar tropas dos nossos novos exércitos para a frente de batalha o mais rapidamente possível". Entretanto, Minny [Maria Feodorovna, mãe do czar), cuja relação com Alexandra se tinha deteriorado gravemente desde que a imperatriz começou a dispensar ministros, - "está a arruinar-se a ela e à dinastia", disse a Kokovtsov - contava histórias dos seus excessos à irmã, a rainha-mãe de Inglaterra. "Tenho a certeza que se acha a imperatriz Catarina deles," escreveu a rainha Alexandra ao seu filho Jorge- A opinião que a família real britânica tinha de Alexandra piorava cada vez mais.


Nicolau II (dir.) com o primo Jorge (esq.) e o tio, o rei Eduardo VII de Inglaterra (centro).
Até Sir George Buchanan [embaixador do Reino Unido na Rússia] começou a acreditar nos rumores de que Alexandra tinha simpatias alemãs. Estava convencido de que a imperatriz estava a afastar os políticos moderados favoráveis à Inglaterra como Sazonov, que foi dispensado em 1915, para os substituir por conservadores favoráveis à Alemanha que queriam afastar a Rússia da Entente. O embaixador questionou-se se ela estaria a conspirar contra a aliança, mas, no final, decidiu que a imperatriz não passava de um fantoche de Rasputine. No entanto, Buchanan estava completamente errado. O casal imperial estava completamente dedicado à guerra. Era o seu país que se começava a revoltar contra ela. Nicolau não conseguia sequer pensar em mais derrotas para a Rússia. Alexandra tinha renunciado o seu país-natal que, segundo contou a Pierre Gilliard, se tinha tornado "um país que não conheço e que nunca conheci". Segundo o embaixador francês, a imperatriz apresentava-se como um mulher inglesa "tanto no seu aspecto exterior, na sua pose, como numa certa inflexibilidade e puritanismo". Ninguém acompanhava os acontecimentos do exército britânico com mais devoção. Quando o seu irmão, Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt, tentou entrar em contacto com ela através de um antigo empregado que vivia na Áustria, Alexandra recusou-se a fazê-lo.

Alexandra e Ernesto Luís
Texto retirado em parte do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter

terça-feira, 3 de março de 2015

A Importância de um Herdeiro (Segunda Parte)

Alexandra e Alexei
Tal como a rainha Vitória, a reacção natural de Alexandra foi a de proteger demasiado o seu filho. Na família da sua prima, a rainha Vitória Eugénia de Espanha, quando os dois filhos que sofriam de hemofilia (o príncipe das Astúrias, Afonso, e o irmão, o infante Gonçalo), iam brincar, vestiam-se com fatos acolchoados e as árvores eram protegidas com almofadas. A solução de Alexandra foi a de contratar dois marinheiros para vigiar o filho de perto de forma a poder segurá-lo antes de ele cair ou bater contra alguma coisa. No entanto, tal como Gilliard disse à imperatriz, esse tipo de protecção poderia entorpecer o espírito e criar ema mentalidade dependente, deformada e incapacitada. Alexandra respondeu de forma galante, permitindo que os dois guardiões se afastassem para deixar o filho cometer os seus próprios erros, tomar as suas próprias decisões e - se assim fosse necessário - cair e magoar-se. Mas foi ela que aceitou o risco desta decisão e que se sentia responsável quando havia acidentes.

Alexei, no mar, com as suas irmãs Maria e Anastásia e um dos marinheiros encarregue da sua protecção.
Para uma mãe, é uma tarefa difícil manter o equilíbrio entre o nível de protecção adequado e uma vida normal. Só é possível ter tempo de descanso quando a criança está a dormir. O fardo da imperatriz assemelhava-se à fadiga das batalhas; após longos períodos de alerta constante, as suas emoções ficavam esgotadas. Este sentimento era partilhado por muitos soldados em guerras e, quando tal acontecia, estes eram retirados da frente de batalha para descansar. No entanto, para a mãe de um filho com hemofilia, não há descanso possível. A batalha arrasta-se para sempre e todos os locais são um campo de batalha.

Alexandra e Alexei
A hemofilia causa grande solidão a uma mulher. Inicialmente, quando nasce um filho hemofílico, a reacção materna mais característica é a decisão de lutar vigorosamente contra a doença: de alguma forma, em algum lugar, tem de haver um especialista que possa declarar que houve um erro ou que se está prestes a descobrir uma cura. Um a um, são consultados todos os especialistas. Um a um, todos vão abanando tristemente a cabeça. A segurança emocional que os médicos normalmente transmitem desaparece. A mãe compreende que está sozinha.

Alexandra
Quando descobre e aceita esta realidade, começa a preferir que as coisas assim sejam. O mundo normal, que continua as suas rotinas, parece frio e insensível. Já que o mundo normal não a pode ajudar nem compreende a situação, a mãe prefere afastar-se dele. A família torna-se o se refugio. Com eles não é necessário esconder a tristezas, não se fazem preguntas, não há fingimentos. Este mundo interior torna-se a sua realidade. E foi isso que aconteceu com Alexandra no seu pequeno mundo de Czarskoe Selo. Alexandra, que tentava controlar os ataques de ansiedade e frustração que a atingiam com frequência, procurou respostas na igreja. A Igreja Ortodoxa Russa é profundamente emocional na qual se dá grande ênfase à ideia de que a fé e as preces têm um forte poder curativo. Assim que compreendeu que os médicos nada podiam fazer para ajudar o filho, virou-se para Deus à procura do milagre que a ciência lhe negava. "Deus é justo," declarou Alexandra e mergulhou numa série de novas tentativas para conquistar a Sua misericórdia através de preces fervorosas.

Alexandra
Rezava durante horas, numa pequena divisão no seu quarto ou na capela do palácio, uma câmara escura  com tapeçarias de seda. Para ter mais privacidade, construiu uma pquena capela na cripta da Feodorovski Sobor, uma igreja no parque imperial que era utilizada por criados e soldados da guarda pessoal do czar. Aí, sozinha no chão de pedra, iluminada apenas pela luz dos candeeiros a óleo, implorava pela saúde do filho.

Alexandra
Em períodos nos quais Alexei estava bem, Alexandra atrevia-se a sonhar. "Deus ouviu-me," dizia ela. Mesmo à medida que os anos iam passando e as hemorragias se iam seguindo umas atrás das outras, Alexandra recusava-se a acreditar que Deus a tinha abandonado. Em vez disso, decidiu que ela é que se tinha de esforçar para demonstrar que merecia um milagre. Sabia que a doença tinha sido transmitida ao filho através do seu corpo e, por isso, sofria com a sua culpa. Dizia a si mesma que, como era óbvio, se tinha sido o instrumento da tortura do filho, também se podia tornar no instrumento da sua salvação. Deus tinha rejeitado as suas preces; por isso, tinha de encontrar alguém mais próximo de Deus para interceder a seu favor. Quando Gregório Rasputine, o camponês siberiano, que diziam ter poderes milagrosos de cura através da fé, chegou a São Petersburgo, Alexandra acreditou que ele era a resposta às suas preces.

Gregório Rasputine
Para as jovens mães com filhos hemofílicos, rodeadas de medos corrosivos e ignorância, a esperança é escassa e a ajuda incerta. O maior apoio que podem ter neste tormento solitário é o amor e a compreensão do marido. Nesse aspecto, o contributo de Nicolau foi admirável. Nunca houve um homem mais gentil ou que mostrasse mais compaixão à sua esposa ou que passasse mais tempo com o filho sofredor. Por muito que se possam criticar as suas decisões como monarca, o seu papel como pai e marido era algo completamente aparte e ele desempenhou-o com uma nobreza de espírito inigualável. 

Nicolau, Alexandra e Alexei

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Filme - Rasputin (2013)


Este filme pouco conhecido foi uma produção conjunta entre a França e a Rússia. Falado em russo, é mais uma versão cinematográfica da vida de Rasputine que, como não podia deixar de ser, inclui várias dramatizações da vida da última família imperial russa. O filme destaca-se principalmente por dois grandes nomes do cinema francês que participaram neste projecto: Gérard Depardieu no papel de Rasputine e Fanny Ardant no papel de Alexandra.

É também de destacar o facto de muitas das cenas terem sido filmadas no Palácio de Alexandre e outros locais frequentados pela família imperial que são retratados de forma extremamente fiel.

O filme é falado em russo. 

Imagens do Filme:



O grão-duque Nicolau Nikolaevich


O escritório de Nicolau II no Palácio de Alexandre




Nicolau II e Maria Feodorovna



Anna Vyrubova

Felix Yussupov

Irina Alexandrovna

Dmitri Pavlovich

Yakov Yurovsky


Filme completo:


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Último Inverno em Czarskoe Selo - Robert K. Massie (Parte 3)


A morte de Rasputine foi um acto monárquico. Foi planeada por um grão-duque, um príncipe e um deputado de direita com o objectivo de purificar o trono e recuperar o prestígio da dinastia. Foi também uma forma de eliminar a própria imperatriz dos assuntos do governo, já que os conspiradores acreditavam que era Rasputine o poder que a incitava. O czar, pensavam eles, ficaria então livre para escolher ministros e seguir uma política que salvasse a monarquia e a Rússia. Era esta a esperança de muitos membros da família imperial, que na sua maioria, não gostou da forma como o monge foi assassinado, mas ficou aliviada por o ver morto.

Rasputine
O facto de o czar ter castigado o grão-duque Dmitri e o príncipe Félix Yussupov, ainda que de forma bastante branda, foi uma desilusão. A família assinou uma carta em conjunto dirigida a Nicolau onde pediam para que Dmitri fosse perdoado e a formação de um governo responsável. Nicolau, que estava já ofendido com o facto de membros da sua família estarem envolvidos no assassinato, ficou ainda mais indignado com a carta: “Não me permito que ninguém me dê conselhos”, respondeu ele furioso. “Um assassinato é sempre um assassinato. De qualquer forma sei que a consciência de muitos que assinaram esta carta não está leve.” Alguns dias depois, quando soube que um dos grão-duques que tinha assinado a carta, o liberal Nicolau Mikhailovich, andava por todos os clubes sociais que frequentava em Petrogrado a criticar abertamente o governo, o czar ordenou-lhe que deixasse a capital e se refugiasse numa das suas propriedades no campo.

Dmitri Pavlovich, um dos assassinos de Rasputine
Longe de apaziguar a separação que havia entre a família Romanov, o assassinato serviu apenas para a aumentar ainda mais. A imperatriz-viúva estava profundamente alarmada: “Uma pessoa devia (…) perdoar”, escreveu Maria Feodorovna a partir de Kiev. “Tenho a certeza que sabes o quanto a tua resposta brusca ofendeu a família, atirando-lhes para cima uma acusação horrível e completamente injustificada. Espero que alivies o fardo do pobre Dmitri e não o deixes na Pérsia (…) O pobre tio Paulo [pai de Dmitri] escreveu-me em desespero por nem sequer ter tido a oportunidade de se despedir (…) Este comportamento nem parece teu (…) preocupa-me muito.”

Maria Feodorovna
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, cunhado e primo do czar, deixou apressadamente a sua casa em Kiev para se dirigir a Czarskoe Selo com o objectivo de pedir a Nicolau que retirasse a imperatriz do governo e que deixasse a Duma governar de forma eficiente. Este era o “Sandro” da juventude de Nicolau, o seu alegre companheiro nos jantares com Kschessinska, o marido da sua irmã Xenia e sogro do príncipe Félix Yussupov. Alexandro encontrou a imperatriz deitada na cama, vestida com uma camisa-de-noite branca bordada a renda. Apesar de o czar estar presente, sentado numa cadeira ao lado da cama de casal, a fumar calmamente, o grão-duque foi directo ao assunto: “A forma como interferes nos assuntos de estado está a prejudicar (…) o prestígio do Nicky. Tenho sido sempre um amigo fiel, Alix, há vinte-e-quatro anos (…) e como teu amigo tenho de te dizer que todas as classes da nossa população se opõem às tuas políticas. Tens uma bela família, com filhos, porque é que não podes deixar os assuntos de estado para o teu marido, Alix? Por favor!”

Quando a imperatriz respondeu, dizendo que era impossível um autocrata partilhar os seus poderes com um parlamento, o grão-duque disse: “Estás muito enganada, Alix. O teu marido deixou de ser um autocrata no dia 17 de Outubro de 1905.”

Alexandre Mikhailovich
O encontro acabou mal, com o grão-duque Alexandre a gritar enfurecido: “Lembra-te que eu fiquei calado trinta meses, Alix! Durante trinta meses nunca disse (…) uma palavra sobre os assuntos vergonhosos do nosso governo, ou melhor, do teu governo. Estou a ver que estás disposta a perecer e que o teu marido concorda contigo, mas então e nós? (…) Não tens o direito de arrastar os teus parentes contigo para o precipício!” Nesta altura, Nicolau interrompeu-o calmamente e levou o primo para fora do quarto. Mais tarde, já em Kiev, Alexandre escreveu: “Uma pessoa não pode governar um país sem ouvir a voz do povo (…) Por mais estranho que possa parecer, é o governo que está a preparar a revolução (…) o governo está a fazer os possíveis para aumentar o número de descontentes e está a conseguir fazê-lo de forma admirável. Estamos a assistir a um espectáculo sem precedentes no qual a revolução parte de cima e não debaixo.”

Alexandre Mikhailovich
Um ramo da família imperial, os Vladimirovich, não se contentavam com cartas, e falavam abertamente de uma revolução no palácio que iria substituir os seus primos à força. A grã-duquesa Maria Pavlovna e os grão-duques Kyril, Boris e André – a viúva e os filhos do tio mais velho do czar, o grão-duque Vladimir - tinham ressentimentos muito enraizados no passado. O próprio Vladimir, um homem duro e ambicioso, sempre teve inveja do seu irmão mais velho, Alexandre III, e digeriu muito mal a ascensão ao trono do seu brando sobrinho. Um anglófobo convicto, Vladimir ficou furioso quando Nicolau escolheu uma consorte que, apesar de ter nascido em Darmstadt, era neta da rainha Vitória. Maria Pavlovna, que também era alemã, era a terceira grande senhora do Império Russo, aparecendo logo depois das duas imperatrizes. Socialmente, Maria era tudo o que Alexandra não era. Energética, ponderada, inteligente, instruída, dedicada aos boatos e intrigas e abertamente ambiciosa pelo futuro dos seus três filhos, transformou o seu grandioso palácio no Neva numa corte brilhante, que ofuscava facilmente a de Czarskoe Selo. Nas conversas animadas que dominavam os seus jantares e festas, criticas e escorno ao casal imperial eram temas frequentes. A grã-duquesa nunca se esquecia que depois do czarevich, que estava doente, e do irmão do czar, que estava casado com uma plebeia, o próximo na linha de sucessão era o seu filho Kyril.

Helena Vladimirovna, André Vladimirovich, Boris Vladimirovich, Kiril Vladimirovich e Vitória Melita
Além do mais, cada um dos seus filhos tinha as suas razões para manterem relações complicadas com o czar e a imperatriz. Kyril estava casado com a ex-mulher do irmão de Alexandra, o grão-duque Ernesto de Hesse. André tinha como amante a bailarina Mathilde Kschessinska, que tinha tido uma relação com Nicolau antes de ele se casar. Boris, o filho do meio de Vladimir, tinha pedido Olga, a filha mais velha do czar, em casamento. A imperatriz, numa carta ao marido, expressou alguma da repulsa que sentia por Boris: “A sua esposa seria arrastada para um cenário horrível (…) intrigas sem fim, maneiras e conversas levianas (…) um homem meio-gasto, blasé (…) de trinta e oito anos para uma menina pura e jovem dezoito anos mais nova do que ele, a viver numa casa na qual tantas mulheres já “partilharam” a sua vida! Uma menina inexperiente iria sofrer muito com um marido em quarta ou quinta mão ou mais!” Como a proposta de casamento tinha sido feita não só em nome de Boris, mas também em nome da sua mãe, Alexandra passou a ter grande ressentimento por Maria Pavlovna.

Boris Vladimirovich
Rodzianko sentiu o gosto desta amargura e da conspiração crescente quando, em Janeiro de 1917, foi convidado com urgência a almoçar no Palácio de Vladimir. Depois do almoço, escreveu ele, a grã-duquesa “começou a falar do estado do país no geral, da incompetência do governo, de Protopopov e da imperatriz. Fez referência ao nome desta última e começou a ficar cada vez mais entusiasmada, falando da sua influência nefasta e na interferência que tinha em tudo e disse que estava a destruir o país, que era a causa do perigo que ameaçava o imperador e o resto da família imperial, que estas condições já não eram toleráveis, que algo tinha de mudar, algo tinha de ser feito, retirado, destruído…”

Desejando compreender melhor o que ela queria dizer, Rodzianko perguntou: “O que quer dizer com ‘removido’?”

“A Duma tem de fazer alguma coisa. Ela tem de ser aniquilada.”

“Quem?”

“A imperatriz.”

“Vossa Alteza”, disse Rodzianko, “permita-me que finja que esta conversa nunca aconteceu, porque se a senhora se está a dirigir a mim na qualidade de presidente da Duma, o meu juramento de lealdade obriga-me a que vá falar imediatamente com Sua Mjestade Imperial para o informar de que a grã-duquesa Maria Pavlovna me acabou de dizer que a imperatriz deve ser aniquilada.”

Maria Pavlovna
Durante várias semanas, o golpe dos grão-duques foi o assunto mais falado em Petrogrado. Toda a gente sabia os seus detalhes: quatro regimentos da guarda imperial iriam entrar em Czarskoe Selo de noite e capturar a família imperial. A imperatriz seria presa num convento – o método russo clássico para se livrar de imperatrizes indesejadas – e o czar seria forçado a abdicar a favor do seu filho, tendo o grão-duque Nicolau como regente. Ninguém, nem sequer a polícia secreta que tinha reunido todos os pormenores, levou os grão-duques a sério. “Ontem à noite”, escreveu Paléologue a 9 de Janeiro, “o príncipe Gabriel Constantinovich organizou um jantar em honra da sua amante que já foi actriz. Entre os convidados encontravam-se o grão-duque Boris (…), alguns oficiais e um esquadrão de cortesãos elegantes. Durante a refeição só se falou da conspiração – dos regimentos da guarda imperial nos quais se pode confiar, no momento mais favorável para a revolta, etc. E tudo isto aconteceu enquanto os criados de movimentavam de um lado para o outro, prostitutas a olhar e a ouvir, ciganos a cantar e todos os convidados a beber Moet e Chandon brut imperial que era servido com abundância.”

Nicolau e Alexei nas celebrações do centenário da Dinastia Romanov

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Reacção do Grão-duque Paulo Alexandrovich à morte de Rasputine


O Grão-duque Paulo Alexandrovich, era o filho mais novo do czar Alexandre II e, por isso, tio de Nicolau II, o único que ainda vivia durante a Primeira Guerra Mundial. Depois de ficar viúvo da Princesa Alexandra da Grécia e da Dinamarca, de quem teve 2 filhos, conheceu uma plebéia divorciada que, mais tarde, se tornaria na Princesa Olga Paley. Os dois fugiram da Rússia pouco depois do nascimento do seu primeiro filho em comum e casaram-se em segredo, na Itália, em 1902, o que fez com que Paulo perdesse os seus títulos e postos militares. Com Olga teve 3 filhos. Acabaria por receber perdão imperial em 1912, regressando ao seu país natal, onde passou a viver permanentemente na Primavera de 1914. Dmitri Pavlovich, filho do seu primeiro casamento, foi um dos acusados do assassinato de Rasputine.

Este relato foi escrito por Maurice Paléologue, embaixador francês na Rússia.


Terça-feira, 23 de Janeiro de 1917

Jantei em Czarskoe Selo com a família do Grão-duque Paulo Alexandrovich.

Quando nos levantamos da mesa, o Grão-duque levou-me para uma sala distante para que pudessemos ter uma conversa de homem para homem. Confiou-me todas as suas dores e ansiedades.

“O Imperador está mais na mão da Imperatriz do que nunca. Ela conseguiu convencê-lo de que os movimentos hostis que têm surgido contra ela – e que estão a começar a virar-se contra ele, infelizmente – não são nada mais do que uma conspiração dos Grão-duques e uma revolta de salas-de-estar. Isto só pode acabar em tragédia. Sabe qual é a minha crença na monarquia, e para mim o Imperador representa tudo o que é sagrado. Deve-se ter apercebido que sofro com tudo o que está a acontecer e pelo que está para vir.”

Pela sua emoção e pelo tom das suas palavras pude ver que ele está muito preocupado com o seu filho Dmitri que se tinha envolvido no drama. Proceguiu, impulsivamente:

“Não é terrível que, por toda a Rússia, estejam a acender velas junto ao ícone de São Dmitri e o meu filho esteja a ser chamado do libertino da Rússia?”

A noção de que o filho dele poderia ser proclamado czar a qualquer altura não parece ter-lhe subido à cabeça. Ele é o que sempre foi, o paradigma da liberdade e da boa-educação.

Depois contou-me que quando ouviu em Mohilev sobre o assassinato de Rasputine, regressou imediatamente a Czarskoe Selo.

Quando chegou à estação ao final do dia 31 de Dezembro, tinha a Princesa Paley à espera dele na estação e foi ela que lhe disse que o Dmitri tinha sido preso no seu palácio em Petrogrado. Ele pediu imediatamente uma reunião com o Imperador, que consentiu em recebê-lo às onze nessa mesma noite, mas “apenas por cinco minutos,” uma vez que tinha muito para fazer.

Quando foi arrastado apressadamente para o gabinete do seu sobrinho, o Grão-duque Paulo protestou vivamente contra a prisão do seu filho:

“Ninguém tem o direito de prender um Grão-duque sem um mandato formal teu. Por favor liberta-o… certamente não tens medo que ele fuja, pois não?”

O Imperador fugiu a respostas concretas e pôs um ponto final na conversa.

Na manhã seguinte, o Grão-duque Paulo foi a Petrogrado para ver o seu filho. Perguntou-lhe:

“Mataste o Rasputine?”

“Não.”

“Estás pronto para jurar isso sob o ícone sagrado da virgem e uma fotografia da tua mãe?”

“Sim.”

O Grão-duque Paulo entregou-lhe depois o ícone da virgem e uma fotografia da falecida Grã-duquesa Alexandra:

“Agora: jura que não mataste o Rasputine.”

“Juro.”

Enquanto me contava este episódio, o Grão-duque foi verdadeiramente nobre, sincero e digno. Terminou com estas palavras:

“Não sei mais nada sobre a tragédia. Não quis saber mais nada.”

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Livro - A Filha de Rasputine

Quem matou Rasputine? Que segredos foram enterrados com ele? A História dos últimos dias de Rasputine contados pela filha mais velha.
Depois de a fúria da Revolução Russa ter "varrido" Nicolau e Alexandra do trono da Rússia Imperial, foi criada uma comissão especial para investigar as "forças obscuras" que causaram a queda dos Romanov. A atenção centrou-se em Grigori Rasputine que, referenciado como "santo" e com poderes "sobrenaturais", esteve sempre muito perto do trono.
A comissão interroga então Maria, a mais velha dos filhos de Rasputine, que relata os dias de uma Rússia em tumulto, onde a poderosa influência de seu pai, preocupante para muitos, constitui uma verdadeira ameaça à sua vida. Enquanto crescem as conspirações contra ele, Maria debate-se com a verdadeira natureza de Rasputine - os seus desenfreados apetites carnais, as relações misteriosas com a imperatriz e os rumores de envolvimento em cultos religiosos secretos.
A Filha de Rasputine trata-se, no fundo, de um romance onde Maria revela como tentou (em vão) salvar o pai, quem realmente o matou e, sobretudo, os segredos perversos escondidos pelos assassinos.



Curiosidade: A rapariga que se encontra na capa do livro não a filha de Rasputine, Maria, mas sim a segunda filha mais velha de Nicolau II, Tatiana Nikolaevna. O autor do livro, Robert Alexander processou a editora para que a capa fosse mudada, mas acabou por perder.


A filha de Rasputine (esquerda) com Anna Anderson nos anos 60


O livro está disponível no Webbom por 16,50 euros.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Filme - "Rasputin - Dark Servant of Destiny" (1996)

Na Rússia do século XX, o Czar Nicolau II e a sua esposa Alexandra têm o seu único filho e herdeiro ao trono a sofrer de Hemofilia. Quando a medicina convencional falha para o ajudar, Alexandra procura um tratamento sagrado.
 O Padre Gregório Rasputine, um camponês necessitado que afirma ter tido uma visão da Virgem Maria que lhe disse para ajudar o Czar, consegue ligações ao Palácio. Apesar de Nicolau e do médico da corte serem sépticos quanto aos alegados  poderes curativos de Rasputine, o jovem Alexis rapidamente cria laços com o charlatão/profeta, por isso ele permanece na Corte Imperial. Mas o comportamento inapropriado de Rasputine associado às longas noites de bebida e mulheres enfurecem a aristocracia e pressiona ainda mais a já tensa relação de Nicolau com os seus súbditos. Com a semente da revolução a respirar, torna-se cada vez mais aparente que um mau final espera a Família Imperial.

O filme que valeu um Emmy a Alan Rickman e que mostra, talvez, o papel mais másculo do Ian McKellen...


Imagens:















Com:

Alan Rickman - Rasputine
Greta Scacchi - Alexandra
Ian Mckellen - Nicolau II
Freddie Findlay - Alexis
David Warner - Dr. Botkin
John Wood - Stolypin
James Frain - Principe Felix Yusupov
Yelena Malashevskaya - Olga
Natasha Reshetnikova - Tatiana
Zsofia Ivony - Maria
Patricia Kovács - Anastasia

O filme está disponivel para download no site Frozen Tears e, embora não seja tão bom nem tão fiel como "Nicolau e Alexandra" e outros filmes do mesmo calibre, não deixa de ser bom entretenimento!