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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Peterhof e Baptizado da Grã-Duquesa Maria

Alexandra, Maria, Nicolau, Tatiana e Olga
A cerca de seis ou oito quilómetros de Peterhoff encontra-se a Subswina Datcha (a minha villa), uma pequena casa rococó mobilada no estilo do Primeiro Império. Só a mobília daria uma fortuna muito considerável se fosse vendida em Londres. É muito bonita. Há muitos quadros valiosos e porcelanas do mais bonito possível, incluindo grandes jarras da bela porcelana de Dresden. A casa é rodeada por parques e jardins cheios de árvores e bem tratados, entre os quais se incluía um belo jardim de rosas. Foi construída por ordem do czar Nicolau I e foi lá dado um baile em honra do décimo-primeiro aniversário do seu filho. Os convidados dançaram na grande ponte de madeira que se ergue sobre a estrada.

Uma das coisas que as crianças mais gostavam de fazer era ir lá passar a tarde e tomar chá, principalmente durante a época do feno, quando escorregavam pelos montes de feno e corriam para cima e para baixo nas encostas cobertas de relva. Outra coisa de que gostavam muito era visitar a quinta, ver as vacas a ser ordenhadas, alimentar as galinhas, recolher os ovos e encher cestos de maçãs. Há dois anos atrás, a esposa do agricultor, uma mulher muito simpática, estava a criar quatro gatinhos cuja mãe tinha sido morta. Quando as pequenas grã-duquesas passavam por lá de manhã nos seus póneis ou de bicicleta, os gatinhos eram sempre trazidos cá para fora e quatro biberões eram entregues, um para cada criança. Com um gatinho numa mão e o biberão na outra, as meninas iam dar uma volta pelo quintal enquanto os alimentavam.

Olga, Tatiana, Maria e Anastásia em Peterhof
Quando a grã-duquesa Maria era bebé, fomos passar um dia a Robshai. Estavam a haver manobras militares na altura e nas quais participaram o imperador e a imperatriz e, um dia, entramos numa carruagem puxada por quatro cavalos lado-a-lado e, duas horas depois, chegamos a Robshai. O palácio era grande, mas pouco ocupado e tinha jardins bonitos. Algum tempo depois, passamos alguns dias em Krasnow Selo, onde também decorriam manobras militares. Krasnoe Selo significa “cidade bonita”, um termo impróprio, se alguma vez tal existiu. A cidade é uma colecção miserável de cabanas de madeira sujas, cada uma delas erguendo-se um pouco antes da estrada e com uma poça de água parada antes delas. Não havia sinais de um jardim, nem sequer de uma couve à vista. Há um pequeno parque bonito com várias sorveiras e era lá que costumávamos caminhar todas as manhãs.

Quando a Maria tinha duas semanas de idade, foi baptizada na igreja do Grande Palácio em Peterhoff. A cerimónia, que foi muito imponente, durou duas horas ou mais. A imperatriz tinha feito preparativos para que eu entrasse na igreja por uma porta particular e para regressar pela mesma. Portanto, no dia marcado, metida dentro de um vestido branco de seda, ocupei o meu lugar na carruagem e fui levada para a igreja. O cossaco que estava de guarda não estava a permitir a passagem da carruagem. Eu não falava russo e pensava que talvez recebesse permissão para entrar a pé. Por isso saí da carruagem. Mas não! O homem baixou a baioneta e bloqueou-me o caminho. Ali estava eu, no meu vestido branco, no meio da estrada, com uma multidão a olhar para mim. Não sabia o caminho por outra porta, mas finalmente vi um oficial que conhecia do palácio. Fui até ele, falei em francês e contei-lhe o meu dilema. O oficial foi extremamente simpático e passamos pelos guardas até entrar na igreja onde os padres e bispos já estavam reunidos. Estavam ocupados a escovar os longos cabelos. Um deles veio ter comigo e numa maravilhosa mistura de línguas perguntou-me a que temperatura deveria estar a água. Respondi-lhe em francês e inglês, mas não pareceu que ele tivesse percebido. Depois mostrei-lhe o número de graus com os meus dedos e um grupo de padres interessados e entusiasmados começaram a preparar a pia para a criança. Pouco depois começaram a entrar os convidados: embaixadores e as suas esposas, todos com os vestidos das suas cortes. Uma mulher chinesa pequena parecia muito simpática e inteligente. Tinha um quimono de seda azul vestido e um chapéu redondo pequeno na cabeça, uma flor vermelha em cada orelha e uma branca em cima delas. A igreja católica foi representada por um cardial com o seu chapéu vermelho e batina, e o chefe da Igreja Luterana na Rússia também estava presente, vestindo uma batina preta com rendas branca. Os polacos são maioritariamente católicos e os finlandeses luteranos ou da igreja reformadora. Também estavam presentes membros de várias cortes. A imperatriz-viúva e a imperatriz tinham quinhentas damas que pertenciam à corte – “Demoiselles d’honneur”, como eram chamadas. Estas damas vestiam-se todas de forma semelhante nestas ocasiões, com mantos de veludo vermelho bordados a ouro com anáguas de cetim branco. As senhoras mais velhas, “Les dames de la cour”, levavam vestidos verde-escuros bordados a ouro.

Alexandra Feodorovna com o vestido da corte
Quando estavam todos reunidos, a pequena heroína foi levada para a igreja pela princesa Galitzin, a senhora mais antiga da corte. A princesa levava uma almofada de pano de ouro, na qual repousava a pequena Maria Nikolaevna, na glória plena do seu vestido de renda cor-de-rosa e com um pequeno chapéu na cabeça à sua medida. O imperador, a imperatriz-viúva, os outros padrinhos e todos os grão-duques e duquesas e membros da realeza estrangeira surgiram a seguir. Segundo a lei da Igreja Ortodoxa Russa, os pais não podem ficar na igreja durante o baptismo, por isso o imperador, depois de receber os parabéns dos seus parentes, retirou-se da igreja, voltando depois para a Confirmação e para entregar a Ordem de Santa Ana à sua pequena filha. A bebé foi depois despida até ficar só de camisa interior, a mesma que o imperador tinha usado no seu baptismo. Infelizmente a mesma foi roubada da igreja nesse mesmo dia e nunca mais voltou a aparecer. Depois a bebé foi mergulhada três vezes na pia, o seu cabelo foi cortado em quatro sítios em forma de cruz. O que foi cortada foi enrolado em cera e atirado para a pia. Segundo a superstição russa, o bem ou o mal do futuro da criança depende se o cabelo flutuar ou se afunda. O cabelo da pequena Maria comportou-se de forma ortodoxa e afundaram todos imediatamente, por isso não há necessidade de nos preocuparmos com o seu futuro. A criança foi depois levada para trás de um painel onde foi vestida com roupas novas de prata e a missa continuou. Depois foi levada novamente para a igreja e ungida com óleo. O seu rosto, olhos, ouvidos, mãos e pés foram tocados com uma escova fina mergulhada em óleo. A seguir foi levada pela imperatriz-viúva para dar três voltas à igreja, apoiada em cada lado pelos seus padrinhos. Dois pajens seguravam o manto da imperatriz. O imperador, que tinha voltado a entrar na igreja depois de a cerimónia acabar, chegou-se à frente e investiu-lhe a Ordem com diamantes e depois a procissão retirou-se pela mesma ordem em que tinha entrado na igreja. A bebé foi levada para a igreja numa carruagem dourada de vidro puxada por seis cavalos brancos como a neve, cada um deles conduzido por um cavalariço vestido numa libré branca e escarlate com uma peruca, e foi escoltada por um guarda dos Cossacos. 

Maria com a mãe, Alexandra
Quando quis regressar pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo, os soldados não me deixaram passar e fui obrigada a regressar para a igreja. Não podia ficar lá, por isso fui pelo caminho pelo qual tinha passado a procissão, pelas grandes salas de estado e tive a sorte de encontrar alguém do palácio. Expliquei o meu dilema e fui entregue aos cuidados de uma senhora idosa respeitável que depois vim a descobrir tratar-se de uma das criadas do palácio e o meu guia disse-me que ia fazer um telefonema para me arranjar uma carruagem. Contudo, a carruagem não chegou e regressar a pé estava fora de questão porque, por um lado, a distância era muita e não sabia falar russo suficiente para perguntar o caminho a um polícia. Cerca das três e meia da tarde, a mulher foi procurar alguém que me pudesse ajudar. Pouco depois regressou com um homem que me disse: “Eu não falar inglês, eu falar alemão”. Expliquei-lhe que não sabia falar nem russo nem alemão. No entanto, problema da língua não preocupou o bom samaritano que chamou uma izvochik, o nome pelo qual são chamadas as carruagens na Rússia, colocou-me dentro dela e mandou-me para o sítio que pensava ser a minha casa. Fui levada primeiro para o palácio da imperatriz-viúva por erro e quando consegui finalmente regressar a casa, tinha estado desaparecida durante várias horas e sentia-me muito cansada e cheia de fome.

Margaret Eager com as quatro grã-duquesas
Na manhã seguinte chegou a notícia de que o czarevich Jorge Alexandrovich tinha morrido. Este pobre jovem sofria de tuberculose há muitos anos. Tinha vivido no Egipto durante algum tempo e tinha também experimentado muitos outros climas, mas só sentiu que conseguia respirar em Abbas Turman, no Cáucaso. A sua vida lá foi solitária e triste. A sua mãe e as suas irmãs, as grã-duquesas Xenia e Olga, bem como os seus sobrinhos da primeira costumavam visitá-lo todos os anos depois da Páscoa e ficavam até o tempo ficar demasiado quente para elas, uma vez que o clima é quente e a viagem longa e difícil, principalmente para crianças. Nesse ano, devido ao nascimento da pequena Maria, a viagem tinha sido adiada para um pouco mais tarde do que o costume e o pobre grão-duque esperava a chegada delas impacientemente. Numa carta escrita pouco antes da sua morte, ele disse que tinha saudades de ouvir o som da voz de uma mulher, o toque da mão de uma mulher e implorou que a sua mãe fosse ter com ele o mais depressa possível depois do baptismo. Ficou também muito desiludido pela Maria não ter sido um rapaz, pois sentia que o fardo da sua responsabilidade era quase intolerável.

Por erro, o imperador tinha-o nomeado czarevich em vez de herdeiro-aparente. Na Rússia este título nunca pode ser retirado, excepto quando aquele que o tem se torna imperador. Após a sua morte, o imperador nomeou o seu irmão mais novo, Miguel, herdeiro-aparente que tem usado este título com muita dignidade e honra, mas ficou muito feliz quando deixou de o ter após o nascimento do pequeno herdeiro, o grão-duque Alexei a 12 de Agosto de 1904.

O grão-duque Jorge Alexandrovich
Na manhã a seguir ao baptismo, o czarevich Jorge tinha-se levantado mais cedo do que o costume. Sentia-se melhor e mais animado e, apesar dos avisos do seu criado particular, decidiu dar uma volta de bicicleta. Desceu uma encosta e, quando chegou ao fundo, caiu de repente da bicicleta. Uma velha camponesa que estava a caminho da casa dele para lhe levar leite, acompanhada do seu neto, foram as únicas testemunhas do acidente. A mulher correu para o ajudar e viu que tinha sangue a escorrer-lhe da boca. Mandou o neto à casa dele para ir buscar ajuda e estava sentada no chão com a cabeça do jovem grão-duque no colo, mas poucos minutos depois ele morreu. Foi assim, ao lado da estrada, com os cuidados de uma velha camponesa, que morreu o herdeiro do trono russo. Cumpriu o ditado sobre os Romanov, que nenhum deles vai morrer deitado numa cama. Até onde sei, apenas o czar Nicolau I foi o único a conseguir esse feito. Morreu de pneumonia alguns dias após a queda de Sevastopol. Apesar de Alexandre III ter tido também uma morte natural, estava sentado numa cadeira na varanda quando tal aconteceu.

Jorge Alexandrovich
Foi construída uma igreja no local onde Jorge Alexandrovich faleceu. A imperatriz-viúva e a família viajaram para a Crimeia para acompanhar o seu corpo que foi levado para São Petersburgo para repousar na igreja da Fortaleza de Pedro e Paulo. A sua sepultura é cuidada por mãos carinhosas, com flores e plantas frescas sempre por perto e todos os anos se celebra uma missa em sua honra. Esta missa vai continuar a celebrar-se enquanto houver membros da família vivos, uma vez que este é um costume da igreja russa. Diz-se que o grão-duque Jorge se casou com a rapariga do telégrafo. Esta história é completamente infundada. O grão-duque vivia sozinho na sua casa no Cáucaso com os seus criados e a única excepção dava-se quando era visitado pela mãe e pela família.

Alguns dias depois do funeral, o encouraçado Alexandre III foi baptizado. O imperador, a imperatriz, a imperatriz-viúva e outros membros da família estiveram presentes na cerimónia. Segundo a tradição russa, todos se vestiram de luto branco, uma vez que ninguém participa numa cerimónia na Rússia vestido de peto. Começou uma tempestade súbita e um raio atingiu o navio, ferindo sete ou oito pessoas. O navio tinha o nome do marido da imperatriz-viúva que ficou muito perturbada com este acontecimento e disse que o navio se afundaria na sua primeira missão. 

Maria Feodorovna
Texto retirado do livro "Six Years at the Russian Court" de Margaret Eager.






terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Nascimento da Grã-Duquesa Maria - Margaret Eager

Olga Nikolaevna com a tia Olga Alexandrovna em 1899

Um dia, na altura da Páscoa, fomos dar um passeio pela avenida de Nevski e a pequena grã-duquesa Olga não se estava a portar bem. Eu tentava falar com ela, tentando fazer com que se sentasse quieta quando, inesperadamente, ela me obedeceu, colocando as mãos muito educadamente no colo. Alguns segundos depois perguntou-me: “Viu aquele polícia?”. Respondi-lhe que isso não era nada de extraordinário e que o polícia não lhe ia fazer nada. Ela respondeu: “mas este estava a escrever alguma coisa, tive medo que estivesse a escrever que tinha visto a Olga e que ela se estava a portar muito mal.” Expliquei-lhe que isso era muito improvável e ela relembrou-me, de forma bastante indignada, que um dia, algum tempo antes, tinha visto uma mulher bêbada a ser presa na rua e que me tinha pedido para ir dizer ao polícia para não a magoar, e eu tinha-me “recusado a interferir e dito que a mulher se tinha portado muito mal e que o polícia tinha toda a razão por a estar a levar” . Nesta altura expliquei-lhe que uma pessoa tinha de ser bastante crescida e portar-se muito mal antes de a polícia levar alguém para a prisão. Quando voltamos a casa, ela perguntou a toda a gente se algum polícia tinha passado pelo palácio e perguntado por ela enquanto estivemos fora. Quando foi visitar os pais nessa tarde, contou tudo o que tinha acontecido ao pai, dizendo-lhe que eu lhe tinha dito que era bastante provável viver uma vida inteira sem ir para a prisão. Depois perguntou ao pai se ele alguma vez tinha estado preso e o imperador respondeu que nunca se tinha portado mal o suficiente para ir para a prisão, ao que ela respondeu: “Ah, então também te deves ter portado muito bem”. 

Olga em 1899
Ficamos cerca de dois dias em São Petersburgo e depois regressamos a Czarskoe Selo. A primavera chega tão rapidamente na Rússia que quando regressamos, as paisagens já estavam verdes e magníficas, os pássaros já estavam a cantar e tudo estava lindo com a chegada da primavera.

A esposa do czar Alexandre II adorava primaveras. Importava-as da Alemanha e plantava-as no parque de Czarskoe Selo. Deram-se muito bem e agora qualquer as encontra até em Peterhoff, que fica cerca de cinquenta quilómetros de São Petersburgo.

Maria Alexandrovna
Ficamos em Czarskoe Selo até ao início de Maio, quando nos mudamos para Peterhoff, a residência de verão no Golfo da Finlândia. Lá existem várias residências imperiais e o grande palácio é usado para cerimónias de estado. O parque é limitado pelo calmo Báltico de um lado. No horizonte vê-se a cidade de Kronstadt, rodeada pelos seus fortes. Há uma pequena igreja inglesa onde vive um capelão durante o verão que trabalha com os marinheiros. Kronstadt é o segundo lugar mais seguro do mundo e, até muito recentemente, era considerado impenetrável por causa do gelo. Contudo, a quebra do gelo mudou tudo. O lugar mais seguro do mundo é, claro, Gilbraltar.

As pequenas grã-duquesas começaram a ir regularmente à igreja desde bebés. Foi durante este ano que a grã-duquesa Olga começou a compreender o que lá se dizia. Chegou a casa um dia e disse-me: “o padre rezou pela mamã e pelo papá, pela Tatiana e por mim, pelos soldados, pelos marinheiros, os pobres doentes, as maçãs e as pêras e por Madame G.” Contestei quando falou desta última e ela respondeu-me: “Mas eu ouvi-o dizer ‘Maria Feodorovna’!” Então disse-lhe que se calhar se estava a referir à avó dela, mas ela protestou: “Não! A avó chama-se Amama [avó em dinamarquês], ou Sua Majestade, mas não se chama Maria Feodorovna.” Disse-lhe: “Também se chama Maria Feodorovna”, mas ela não aceitou: “ninguém tem mais de dois nomes e tenho a certeza que a Madame G. ia ficar muito contente se soubesse que os padres rezam sempre por ela na igreja.”

Olga Nikolaevna com a avó Maria Feodorovna
Foi em Peterhoff, durante o quente mês de Junho, que nasceu a pequena grã-duquesa Maria. Penso muitas vezes que ela já nasceu boa, com o mínimo sinal do pecado original. O grão-duque Vladimir costumava chamar-lhe “o bebé amigável”, por ela ser tão boa e estar sempre a sorrir e alegre. É uma criança muito bonita e amorosa, com grandes olhos azuis-escuros e as sobrancelhas negras da família Romanov. Há pouco tempo, um cavalheiro ao falar dela disse que tinha o rosto de um anjo de Botticelli. Mas por muito boa e gentil que seja, também é muito humana, como as seguintes histórias vão mostrar. Um dia, quando ela ainda era muito pequena, estava no boudoir da imperatriz onde o imperador e a imperatriz estavam a tomar chá. A imperatriz tinha umas wafers pequenas com sabor a baunilha que se chamavam Biblichen, das quais as crianças gostavam muito, mas não tinham permissão para pedir nada enquanto estivessem na mesa. A imperatriz mandou-me chamar e quando cheguei a pequena Maria estava de pé, no meio da sala, com os olhos lavados em lágrimas e a engolir alguma coisa apressadamente. “Pronto! Comi tudo!”, disse ela, “Agora já não as podem comer!” Fiquei muito admirada e sugeri logo que se mandasse a criança para cama de castigo. A imperatriz disse: “Muito bem, leve-a”, mas o imperador interrompeu-a e pediu que a deixássemos ficar, dizendo: “Já estava com medo que lhe começassem a crescer as asas, ainda bem que ela é só uma criança humana.” Servia muitas vezes de exemplo para as suas irmãs mais velhas que declararam que ela era uma meia-irmã. Disse-lhes em vão que, nos contos de fadas, eram as irmãs mais velhas que eram as meias-irmãs e que a terceira é que era a irmã verdadeira. Elas não me ouviam e excluíam-na de todas as suas brincadeiras. Disse-lhes que ela não ia aguentar aquele comportamento para sempre e que, um dia, elas seriam castigadas. Um dia, as duas mais velhas fizeram uma casa com cadeiras numa ponta do berçário e não deixaram entrar a pobre Maria, dizendo-lhe que ela podia fazer de mordomo, mas que, para isso, tinha de ficar do lado de fora. Fiz outra casa do outro lado e ela brincou lá. De repente, a Maria correu para o outro lado do quarto, foi até à casa das irmãs, deu um estalo na cara a cada uma delas e foi para o quarto ao lado, voltando vestida com o manto de uma boneca e um chapéu e as mãos cheias de brinquedos pequenos. “Não vou ser o mordomo, vou ser a tia boa e gentil que dá brinquedos!”, disse ela. Depois distribuiu os brinquedos, beijou as suas “sobrinhas” e sentou-se. As irmãs dela olharam uma para a outra envergonhadas e depois a Tatiana disse: “Fomos tão más para a pobre Maria e ela não resistiu a bater-nos.” Aprenderam a lição e a partir daí passaram a dar-lhe os direitos de família que ela merecia.

Maria Nikolaevna
Desde muito cedo que o amor pelo pai era muito visível. Quando ainda mal conseguia andar, a Maria tentava sempre fugir do berçário para ir ter com o papá e sempre que o via no jardim ou no parque, chamava-o. Se ele a ouvisse ou visse, esperava sempre por ela para a poder levar um pouco ao colo.

Quando ele esteve doente na Crimeia, sofreu muito por não o poder ver. Tinha de trancar a porta do berçário, senão ela fugia para o corredor e incomodava-o com os seus esforços para chegar até ele. Todas as noites, depois do chá, sentava-se no chão, mesmo encostada à porta do berçário, a ouvir os sons que podiam vir do quarto. Se ouvisse a voz dele por acaso, esticava os braços e começava a chamar pelo pai e a sua alegria quando o pôde ver foi enorme. Quando a imperatriz foi visitar as crianças na primeira noite depois de ter sido diagnosticada a febre tifóide, estava a usar um broche que tinha um retracto em miniatura do imperador. No meio de lágrimas e soluços, a pequena Maria reparou nele. Subiu para o colo da mãe e cobriu a fotografia de beijos, recusando-se a ir para a cama durante todas as noites em que a doença durou sem beijar esta miniatura.

Maria Nikolaevna com a mãe Alexandra
Texto retirado do livro "Six Years at the Russian Court" de Margaret Eager


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Viagem à Dinamarca e à Alemanha (1899) - Margaret Eager

Famílias reais russa e dinamarquesa em 1899
No outono desse ano (1899), fomos ao estrangeiro. Em Peterhoff entramos a bordo de um pequeno iate chamado Alexandra que nos levou até Kronstadt onde nos mudamos para o Standard. O Padre João de Kronstadt veio a bordo e abençoou o imperador, a imperatriz e as crianças; também me abençoou a mim.

Começamos a nossa viagem em Kronstadt no belo iate Standard que é tão grande como a linha costeira e leva quinhentos homens a bordo. Fomos sempre seguidos por outro iate, o Polar Star, para protecção. Foi nesse barco que o imperador fez a sua viagem educativa pelo mundo inteiro quando era czarevich.


Nicolau e Tatiana com Miss Eager a bordo do iate Standard
Tinham sido dadas ordens para o navio andar a meio gás em caso de nevoeiro que é muito comum no Báltico. O nevoeiro chegou e o Standard reduziu a velocidade, mas o Polar Star não, por isso acabou por nos ultrapassar e já estava a alguns nós de distância quando se percebeu o que tinha acontecido. Houve grande confusão a bordo de ambos os barcos e mudaram ambos um pouco a sua direcção. O Polar Star passou tão perto de nós que quase podemos apertar as mãos de quem estava a bordo dele. O resto da nossa viagem seguiu sem incidentes.

Quando chegamos a Copenhaga fomos recebidos pelo velho rei da Dinamarca, pelo príncipe de Gales (futuro rei Eduardo VII), pela princesa Vitória (do Reino Unido), pelo rei da Grécia e por muitos outros membros da realeza, e fomos de carro até ao Castelo de Bernstorff que ficava perto de Copenhaga. É uma residência muito pequena e havia tanta gente que chegava a ser desconfortável. Tem um pequeno parque e um jardim de rosas que a falecida rainha plantou.

Nicolau II  na companhia dos seus irmãos Miguel e Olga, do cunhado Alexandre, da prima Vitória do Reino Unido e dos primos Aage, Axel, Eric, Viggo e Cecília, filhos do príncipe Valdemar da Dinamarca
A princesa Vitória gostou muito das suas pequenas primas e elas, por seu lado, também mostraram muito afecto pela “Tia Toria”, como lhe chamavam. De facto, as três meninas foram o centro das atenções da família. A princesa de Gales ficou instalada num quarto ao lado do meu.

Ficamos cerca de dezasseis dias na Dinamarca, depois fomos para Kiel para visitar a irmã da imperatriz, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Naquela altura ela tinha dois filhos. Kiel é uma cidade bastante suja e muito movimentada, com um porto próspero; apesar de tudo tem lojas muito boas. Se alguém perguntar a um habitante de Kiel o que se pode comprar de recordação, ele sugere sempre peixe fumado. O peixe é muito valorizado por toda a Alemanha.

A princesa Vitória do Reino Unido com a princesa Cecília da Dinamarca
Ficamos dois dias em Kiel e depois fomos de comboio para Darmstadt, ou melhor, para Wolfsgarten. (…) Fomos recebidos na estação pelo grão-duque e grã-duquesa de Hesse e pela filha deles, a pequena princesa Ella, bem como pela irmã da grã-duquesa, a princesa-herdeira da Roménia que é uma mulher muito bonita. A princesa Ella tinha quatro anos na altura e era uma criança doce e bonita com grandes olhos cinza-esverdeados e uma grande quantidade de cabelo negro. Era muito parecida com a mãe, não só no rosto, mas também na forma como se movimentava. Gostava muito das suas primas e colocou alguns dos seus brinquedos na sala para que elas pudessem brincar e não demorou para que ficassem grandes amigas. A princesa queria muito ter um irmão e implorou com muita veemência para que a deixassem adoptar a grã-duquesa Tatiana. Disse que não íamos sentir tanta falta dela como da Olga ou da bebé (Maria) e chegou à conclusão de que Miss W. (a ama de Isabel) podia muito facilmente cuidar de mais uma criança. Nesse dia seguiu com muita atenção e olhos bem abertos a forma como eu tratava da bebé e perguntou à tia se não se importava de a deixar em Darmstadt e, claro, a imperatriz disse que não podia fazer isso. Depois tentou a via diplomática, assegurando a toda a gente que a Maria era uma bebé muito feia e que ficaríamos melhor sem aquela menina pateta. Quando pensou que tinha conseguido cumprir o seu objectivo, disse-me que a bebé era tão horrível que eu até a devia deitar fora!

A princesa Isabel de Hesse com a prima Olga, o pai Ernesto Luís, o tio Nicolau II e o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca
Passamos seis ou sete semanas muito felizes em Wolfgarten onde podemos usufruir de prazeres muito simples como chás ciganos. Fomos duas vezes a Darmstadt, tomamos chá no palácio e fomos às compras com as crianças. Darmstadt é uma cidade bem construída, com ruas largas e limpas e boas lojas. Levamos as crianças a uma loja de brinquedos e dissemos que elas podiam escolher o que quisessem para si e um presente para os seus familiares. A Olga escolheu o brinquedo mais pequeno que encontrou e agradeceu educadamente. Os funcionários da loja tentaram em vão mostrar-lhe brinquedos melhores, mas ela respondia sempre: “Não, obrigada, não quero isso.” Levei-a para um canto e perguntei-lhe porque é que ela não queria levar mais nada. Disse-lhe que as pessoas iam ficar tristes se ela não levasse mais nada e que não podia sair da loja sem escolher outras coisas. Então respondeu-me: “Mas de certeza que os brinquedos mais bonitos já são de outras meninas e ia ser muito mau se elas chegassem a casa e vissem que nós os tínhamos levado enquanto elas estavam a passear.” Expliquei-lhe como funcionava a loja e tanto ela como a Tatiana levaram um grande monte de brinquedos para casa.

Olga e Tatiana em Darmstadt em 1899
Foi com muita pena que deixamos Darmstadt. A caminho da Polónia, fizemos uma paragem em Potsdam para visitar o imperador e a imperatriz da Alemanha. Quando chegamos, havia tropas alinhadas na estação e foi o próprio imperador que nos veio receber. Uma banda tocou o hino nacional russo e os dois imperadores caminharam lado a lado enquanto inspeccionavam os regimentos que estavam presentes. O czar deu apertos de mão e felicitou os oficiais. O imperador e a imperatriz foram até ao palácio para almoçar, mas eu fiquei com as crianças no comboio até chegar uma carruagem que nos levou para lá já depois da refeição.

Nicolau com o kaiser Guilherme II em 1899
O imperador da Alemanha é exactamente igual ao que vemos nas fotografias e a esposa é uma mulher bonita e saudável. Nesta ocasião estava vestida de forma simples, com um vestido verde. Ambos adoraram as grã-duquesas e repararam principalmente nas roupas delas que tinham sido compradas em Londres de propósito para a visita. As meninas tinham vestido casacos creme de seda com chapéus a condizer. Debaixo tinham vestidos creme com faixas de seda cor-de-rosa.  A pequena princesa, única menina nascida do casal, levou-nos para o andar de cima e pareceu-me uma criança muito doce e bem-educada. Os quartos das crianças tinham todos papel de parede verde marinho e prateado e eram todos muito bonitos. Foi lá que tomamos chá com a princesa e o príncipe mais novo. Não havia criados na sala e foi próprio príncipe que distribuiu o pão e a manteiga por todos. Quando terminamos o chá, eles levaram a Olga para andar numa pequena carruagem puxada por um pónei vigiada pela ama inglesa que também levou consigo a Tatiana e andaram todos pelos conhecidos jardins de Sans Souci. Depois voltamos ao comboio e pusemos as crianças na cama. Cerca das dez da noite chegaram o imperador e a imperatriz. A banda tocou e começamos a viagem para a Polónia.

Vitória Luísa, filha do kaiser Guilherme II

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Biografia - Jorge Alexandrovich

O Grão-Duque Jorge Alexandrovich nasceu no dia 9 de Maio de 1871 em Czarskoe Selo e era o terceiro filho de Alexandre III e da sua esposa, a Imperatriz Maria da Rússia. Foi chamado de Jorge em honra do seu tio e irmão mais novo da sua mãe, o rei Jorge I da Grécia. Quando nasceu o seu pai, como filho mais velho de Alexandre II, era o Czarevich da Rússia. A seguir ao seu irmão mais velho, o Grão-Duque Nicolau, o recém-nascido Jorge era o terceiro em linha de sucessão ao trono, uma vez que um outro irmão chamado Alexandre tinha morrido antes do seu nascimento com poucos meses de idade. Entre as sua família tinha a alcunha de “salgueiro”.

Jorge com poucos meses de idade entre a sua mãe e o irmão mais velho

Quando era uma criança, Jorge era mais forte e saudável do que o seu irmão Nicolau e podia ser descrito como o típico Romanov. Jorge era alto, ao contrário do seu irmão, bonito e muito divertido. Tinha tendência para se meter em problemas e ser malcomportado, mas como a sua mãe gostava demasiado dele, livrava-se dos castigos facilmente. Tal como os seus irmãos, ele foi criado à maneira inglesa. Dormiam em camas amovíveis e levantavam-se às 6 da manhã para tomar banhos de água fria, sendo que apenas em raras ocasiões tinham autorização para tomar banhos com água quente na casa de banho da mãe. O pequeno-almoço consistia normalmente de papas de aveia e pão preto. Ao almoço eram servidos bolos de carne ou bife grelhado com ervilhas e batatas assadas r ao lanche tinham pão com manteiga ou geleia. Bolos só se serviam em ocasiões muito especiais.

Nicolau e Jorge partilhavam uma sala de estar, uma sala de jantar, um quarto de brincar e um quarto de dormir, todos mobilados de forma muito simples. A mãe de Jorge ensinou-lhe que a vida familiar era muito importante. Devido ao casamento feliz dos seus pais, ele foi criado numa atmosfera de amor e segurança que faltava em muitas casas reais. No dia 27 de Maio de 1883, os pais de Jorge foram coroados numa cerimónia magnífica na Catedral Uspensky no Kremlin de Moscovo. Os novos imperadores receberam uma homenagem por parte da família imperial incluindo dos seus filhos Nicolau e Jorge, ambos de uniforme. Foi uma grande ocasião na vida do jovem Grão-Duque. A maior parte do tempo a família vivia na segurança e conforto do Palácio de Gatchina.

Nicolau e Jorge (à direita)

Jorge era considerado o mais inteligente de todas as crianças imperiais. Também era muito social, ao contrário do seu irmão. Jorge e Nicolau partilhavam os mesmos tutores, mas estudavam em salas diferentes. Mais tarde frequentaram o curso na Academia Naval Russa. Ambos os irmãos falavam e escreviam Inglês na perfeição e gostavam bastante de desporto, particularmente de caça e pesca. Também falavam fluentemente Francês e um pouco de Alemão e Dinamarquês. Jorge dava sinais de uma grande carreira na Marinha antes de adoecer com tuberculose em 1890.

Jorge (em cima) com os irmãos Miguel, Xenia e Nicolau

O Imperador e a Imperatriz decidiram enviar Nicolau e Jorge numa viagem de 9 meses pelo mundo em 1890. Jorge iria como cadete naval e Nicolau para completar a sua educação vendo algo diferente por todo o mundo. Maria Feodorovna esperava que o sol quente e os ares marítimos fizessem bem à saúde do seu filho. Eles deixaram Gatchina no dia 4 de Novembro de 1890. A Imperatriz nunca se tinha separado dos filhos por tanto tempo dos seus filhos e sentiu imensas saudades deles. “Não podes imaginar como é triste e difícil estar aqui sem ti, meu anjo, e como dói pensar nesta longa separação”, escreveu ela numa carta a Jorge.

Jorge com os pais

Os seus dois irmãos foram até à Grécia num navio de Guerra para se juntarem aos seus primos que incluíam o Príncipe Jorge da Grécia, conhecido como o “Jorge Grego”.A partir daí eles viajaram até ao Egipto. Quando chegaram a Bombaim na Índia, Nicolau enviou um telegrama à sua mãe onde dizia que Jorge não tinha saído do navio porque tinha problemas na perna. Apesar de garantir aos pais que estava perfeitamente bem, eles foram subitamente informados de que ele tinha febre alta e ia regressar a casa. A Imperatriz ficou alarmada. “Não consegues imaginar a angústia que tenho passado nestes últimos dias”, escreveu ela. “Apesar de todas as análises… tenho de levar as coisas com calma, e convencer-me a mim própria que é apenas uma simples e horrível malária e que vai passar com uma mudança de ares.” Jorge, na verdade, sofria de bronquite aguda e foi enviado para Atenas onde foi examinado por médios reais. A Imperatriz ficou nervosa por ambos os filhos: Jorge porque sentiu bem o seu desapontamento e Nicolau que estava agora sem a companhia do irmão.

Em Novembro de 1894, Alexandre III morreu subitamente e Nicolau subiu ao trono. Na altura, Nicolau não tinha filhos, por isso, de acordo com as leis de sucessão russas, Jorge tornou-se Czarevitch e estava em primeiro lugar para a sucessão ao trono.
A fraca saúde de Jorge forçou-o a mudar-se para Borjomi, na Geórgia. Foi-lhe impossível regressar a São Petersburgo para o funeral do pai, Alexandre III, uma vez que os médicos o proibiram. Nicolau escreveu ao seu irmão, “Rezo constantemente a Deus para que te envie uma recuperação rápida e completa, bem como conforto para ti, porque é muito mais difícil estar sozinho depois de tão grande desgosto do que estar, como nós, juntos!” Jorge também faltou aos baptizados das suas sobrinhas Olga e Tatiana. Pouco depois do nascimento da terceira filha de Nicolau, Maria, em Junho de 1899, Jorge escreveu ao seu irmão mais velho, “Estou terrivelmente triste por não ter conseguido ainda ver e conhecer as tuas filhas, mas o que posso fazer? Significa que não é destino, mas sim a vontade de Deus.”

As visitas da sua mãe à Geórgia eram muito agradáveis. Em 1895, Jorge e Maria Feodorovna visitaram a Dinamarca, uma vez que já não viam os seus parentes dinamarqueses há mais de 4 anos. Foi uma visita triste, uma vez que foi a primeira sem o antigo Czar. Depois, subitamente, a sua saúde piorou. “Ontem, no jardim, ele expectorou com algum sangue… isso assustou-me mais do que consigo dizer – a surpresa de o ver foi um verdadeiro choque, porque ele tinha estado tão bem ultimamente. Estou bastante desesperada por isto ter acontecido aqui.”
Como resultado, Jorge foi proibido de fumar e obrigado a ficar na cama até estar em condições para o seu regresso à Geórgia. Quando escreveu novamente a Nicolau, Jorge contou-lhe sobre a sua viagem à Dinamarca, “Claro que foi bom ver a família ao fim de 4 anos, mas não me fez nada bem, uma vez que perdi 2 quilos e meio que tinha conseguido ganhar com muita dificuldade em Maio e Junho. Também já não consigo respirar muito bem. Por isso são estes os resultados da minha viagem. Muito irritante.”

Jorge morreu subitamente no dia 9 de Agosto de 1899, aos 28 anos. Ele tinha saído na sua mota e, algumas horas depois, quando não regressou, os seus empregados preocupados foram à sua procura. Quando o encontraram era tarde demais. Uma camponesa tinha-o encontrado desmaiado numa vala na estrada com sangue a sair-lhe da boca enquanto lutava por respirar. Ela segurou-o nos seus braços até que ele morreu. A notícia chegou a Nicolau por telegrama e foi ele que teve a difícil tarefa de contar à sua mãe. Ela entrou num estado de verdadeira histeria. Durante muito tempo ela acreditou que o seu estado de saúde estava a melhorar a morte do filho foi um choque terrível.


A sua família ficou completamente devastada. Nicolau ficou particularmente afectado, uma fez que se tratava do seu irmão mais novo e companheiro de juventude. O Grão-Duque Constantino Constantinovich escreveu, “Todos estavam afectados por esta notícia triste e repentina”. A Rainha Vitória escreveu a Nicolau II, “Aceita a expressão dos meus mais sinceros pêsames no meu deste tempo de tristeza, pois eu sei bem a ligação que tinhas com o pequeno Jorge, cuja vida foi tão triste e só.” Em resposta, Maria Feodorovna disse, “Muito obrigada pela vossa sincera simpatia neste momento terrível. O meu pobre e querido filho morreu bastante só. Estou de coração partido.

Jorge (em pé à direita) com os irmãos

No dia 14 de Agosto de 1899, o corpo de Jorge foi enterrado na Catedral da Fortaleza Pedro e Paulo em São Petersburgo, perto do local onde se encontrava o seu pai Alexandre III. Durante o funeral, a sua mãe não verteu uma única lágrima, mas manteve uma expressão de sofrimento profundo. Quando o caixão estava a ser baixado para o seu tumulo, Maria Feodorovna ficou ao lado da sua filha Xenia, agarrando-lhe o braço e, subitamente, olhando para ela com os olhos muito abertos, disse alto o suficiente para que todos a pudessem ouvir: “Vamos para casa. Já não aguento mais!” e saiu rapidamente. Ninguém chegou a ter tempo para deitar flores para o túmulo. Na carruagem ela chorou bastante, apertando o chapéu de Jorge que tinha tirado do caixão contra o peito.

Jorge (primeiro da direita) com o irmão Nicolau e a irmã Xenia

Nicolau II sempre recordou Jorge e o seu sentido de humor. Quando Jorge contava uma anedota, Nicolau escrevia as melhores em pedaços de papel e guardava-os numa caixa. Anos após a morte do seu irmão mais novo, não era raro ouvir o Czar a rir-se sozinho no seu escritório, ao rever a caixa de anedotas. Quando o irmão mais novo de Jorge, Miguel, teve o seu primeiro filho em 1910 deu-lhe o seu nome. No entanto este Jorge também morreria novo em 1931 depois de um acidente de carro quando tinha 20 anos.

Jorge (em baixo) com Nicolau

Décadas mais tarde, o seu corpo foi exumado para que se pudesse extrair uma amostra de AND que seria comparada com os restos mortais encontrados em Ekaterinburgo em 1991 para comprovar se estes pertenciam ao seu irmão Nicolau e restante família. O resultado mostrou uma compatibilidade exacta. Mesmo depois da morte, Jorge provou ser uma grande ajuda para o seu irmão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Biografia - Maria Nikolaevna


Maria Nikolaevna Romanova foi a terceira filha de Nicolau II e Alexandra Feodorovna, nascida a 26 de Junho de 1899, no Palácio de Petehof. Desde 1991 que se questiona se ela terá sobrevivido ao massacre que vitimou toda a sua família na noite de 17 de Julho de 1918, uma vez que alguns cientistas russos defenderam que era o seu corpo (e não o de Anastásia ) que faltava quando os corpos dos Romanov foram encontrados.


Maria nos braços da mãe com poucos meses de idade

Quando Maria nasceu, o seu pai, o czar Nicolau II, escreveu no seu diário:

Um dia feliz: o Senhor enviou-nos uma terceira filha – Maria, que nasceu em segurança às 12:10! A Alix mal dormiu durante a noite, e de manhã as dores aumentaram. Graças a Deus que tudo acabou depressa! A minha querida sentiu-se bem durante todo o dia e alimentou ela própria a bebé… a tarde foi maravilhosa.”


Embora fosse bem recebida pela sua família, o nascimento de Maria acabou por se tornar também numa desilusão, uma vez que era a terceira rapariga que nascia e não o tão desejado herdeiro, tal como a sua tia Xenia escreveu no seu diário:

Que alegria que tudo tenha acabado bem, e a ansiedade da espera tenha, finalmente, acabado! Mas foi uma desilusão não ser um filho. Coitada da Alix! Nós, claro, estamos encantados de qualquer maneira – quer seja um filho ou uma filha!

Maria com as irmãs em 1901

Os seus contemporâneos descreveram Maria como uma bonita e sedutora menina, bem constituída, com cabelo castanho claro e grandes olhos azuis que eram conhecidos na família como "as safiras da Maria". O seu tutor francês, Pierre Gilliard , disse que Maria era alta, bonita , com bochechas rosadas. Tatiana Botkina achava que a expressão dos olhos de Maria era "calma e gentil". Quando era criança era comparada aos anjos de Botticelli. O Grande Duque Vladimir Alexandrovich apelidou-a de "o bebé amável " devido à sua simpatia.

Maria em 1902

Quando aprendeu a andar, a pequena Maria escapou da sua banheira e começou a correr pelo corredor do palácio nua, enquanto a sua ama, Margaretta Eagar , que adorava politica, estava a discutir o caso de Dreyfus com um amigo. "Felizmente eu tinha acabado de chegar, peguei nela e levei-a de volta para a Miss Eagar que ainda estava a falar sobre Dreyfus," recordou a sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna da Rússia.


As suas irmãs mais velhas não gostavam de a incluir nas suas brincadeiras, chegando mesmo a chamá-la "meia-irmã" por ser tão boa e nunca se meter em confusões, recordou Margaretta Eagar nas suas memórias. Contudo, em certas ocasiões, a menina querida podia tornar-se bastante malévola. Uma vez Maria roubou algumas bolachas da mesa de chá da mãe. Como castigo pelo seu comportamento surpreendente, a ama e Alexandra sugeriram enviá-la para a cama sem comer, contudo Nicolau não concordou. "Sempre tive medo das asas que lhe estavam a crescer. Estou satisfeito por ver que ela é apenas humana." disse ele.

Olga e  Tatiana "brincam" com a irmã

Maria tinha uma admiração especial pelo seu pai e era frequente fugir do quarto de brincar para "ir ter com o papá". Quando ele ficou doente com Febre tifóide na Crimeia, em 1901, a pequena grã-duquesa ficou desgostosa e tentava todas as oportunidades para fugir do quarto-de-brincar para ir ter com Nicolau II. Eventualmente a sua governanta teve de passar a fechar a porta à chave para que ela não fugisse, mas mesmo assim, sempre que ouvia algum som saído do quarto do doente, esticava os braços e começava a chamar pelo pai. Na primeira noite após ter sido feito o diagnóstico ao czar, a czarina foi ter com as suas filhas e, por acaso, estava a usar uma miniatura de São Nicolau ao pescoço. As pequenas crianças desde cedo tinham começado a sua educação religiosa e aquele era o santo da família. Além do mais, Maria sabia que ele partilhava o nome com o seu pai. Entre soluços e lágrimas, Maria trepou o joelho da sua mãe e cobriu a miniatura de beijos. A partir de então não houve nenhuma noite durante a sua doença em que ela fosse para a cama sem a beijar.

Maria com o pai em 1901

Maria e a sua irmã mais nova, Anastasia, eram conhecidas na família pelo "Par Pequeno" por serem as irmãs mais novas. Tal como as irmãs mais velhas, Olga e Tatiana, as duas partilhavam o quarto e passavam grande parte do tempo juntas.

Maria e Anastasia eram vestidas de forma semelhante em ocasiões especiais quando usavam variações do mesmo vestido. Maria era muitas vezes dominada pela sua entusiástica e energética irmã mais nova. Quando Anastasia fazia rasteiras a pessoas que passavam por elas, troçava de outros ou tinha um ataque de raiva, Maria tentava sempre pedir desculpa, apesar de nunca ter conseguido parar a irmã mais nova.

Maria e Anastásia
Maria tinha gostos simples e era tão bondosa que, às vezes, as irmãs aproveitavam-se disso e chamavam-na de "chorona baixinha e gorda". Em 1910, a sua irmã Olga de catorza anos convenceu Maria de dez a escrever uma carta à sua mãe onde lhe pedia que desse a Olga um quarto só para ela e que ela devia ter autorização para usar os seus vestidos. Mais tarde Maria tentou convencer a mãe de que a carta tinha sido ideia sua. A amiga da mãe, Lili Dehn, disse que ela não era tão espevitada como as irmãs, mas que tinha a sua própria opinião.


Maria e Tatiana em 1907

A sua ama relembrou uma história que mostra a bondade quase inocente da pequena Maria:

Quando regressamos a Czarskoe Selo, a Imperatriz mostrou sintomas de tosse compulsiva. A tosse espalhou-se rapidamente às suas quatro filhas. A ama russa e eu também a apanhámos. Eu tinha dito às crianças para que tivessem muito cuidado para não tossir para cima de ninguém, ou então essa pessoa poderia contrair a doença. Elas foram muito obedientes. Um dia a pequena grã-duquesa Anastasia estava a tossir e espirrar muito, quando a grã-duquesa Maria foi ter com ela e, pondo a sua cara perto da dela, disse-lhe, 'Bebé, querida, tosse para cima de mim.' Espantada com esta atitude, perguntei-lhe o que queria ela dizer e a criança disse, 'Tenho tanta pena de ver a minha irmã mais nova tão doente. Pensei que se pudesse ficar com tosse ela pudesse melhorar.'

Maria com o pai em 1910

Quando Maria tinha oito anos, teve o seu primeiro contacto com a morte quando a sua prima Isabel de Hesse não resistir a um ataque de febre tifóide quando se encontrava de férias com os Romanov na Polónia. Maria falava pouco desse episódio, mas, numa ocasião mostrou lidar bem com o assunto:

Um dia a Maria estava a ver uma imagem de Nydia, a rapariga cega de Pompeia e perguntou-me por que razão era ela cega. Eu respondi que Deus, às vezes, põe as pessoas cegas e ninguém sabe porquê. Então ela disse, 'Eu conheço alguém que sabe.' Eu disse, 'Não, querida, acho que não. Ninguém sabe.' 'A prima Ella (Isabel de Hesse) sabe,' respondeu ela, 'ela está no céu a falar com Deus e Ele está-lhe a dizer como é que Ele o fez e porquê.'”


Maria tinha talento para desenhar e fazer caricaturas e usava sempre a mão esquerda, mas, no geral, não se interessava pela escola. Era muito forte e, às vezes, divertia-se a montrar como conseguia levantar os seus tutores do chão. Apesar de ser quase sempre simpática e gentil, havia alturas em que ela se tornava teimosa e, ocasionalmente, preguiçosa. A sua mãe queixou-se numa carta de que Maria estava "de mau humor" e estava "sempre a gritar" com as pessoas que a irritavam. Normalmente este mau humor coincidia com o seu período menstrual que era conhecido pela czarina e pelas filhas como "uma visita da Madame Becker".

Maria a desenhar por volta de 1910
A jovem Maria tinha inúmeras paixonetas por jovens soldados com quem se encontrava no palácio e durante as férias de família. Ela adorava crianças e, se não fosse uma grã-duquesa, o seu maior sonho era casar-se com um soldado russo e ter uma grande família. Segundo Margaretta Eagar, a sua paixão por soldados começou desde muito cedo:

"Um dia a pequena grã-duquesa Maria estava a olhar pela janela para um regimento de soldados que marchavam por perto e exclamou: 'Adoro estes soldados queridos; Quem me dera poder beijá-los a todos!' Eu disse: 'Maria, as meninas bem comportadas não beijam soldados.' Alguns dias mais tarde, houve uma festa para crianças e os filhos do grão-duque Constantino estavam entre os convidados. Um deles tinha já doze anos, tinha entrado para os cadetes e veio com o seu uniforme. Ele queria cumprimentar a pequena prima com um beijo, mas ela cobriu a boca com a mão e afastou-se e disse com grande dignidade: 'Vai-te embora soldado! Eu não beijo soldados.' O rapaz ficou satisfeito por ser confundido com um soldado de verdade."



As cartas de Alexandra revelavam que a filha do meio da família, sentia-se, por vezes, insegura e excluída pelas suas irmãs mais velhas e temia que não fosse tão amada pelos pais como as outras. Alexandra assegurou-lhe de que todos a adoravam tanto como adoravam as irmãs e o irmão Alexis. Com onze anos há relatos de que Maria desenvolveu uma dolorosa paixão por um jovem que tinha conhecido.

"Tenta não deixar os teus pensamentos prenderem-se nele,  foi isso o que o Nosso Amigo (Rasputin) disse," escreveu-lhe Alexandra no dia 6 de Dezembro de 1910. A sua mãe aconselhou-a a manter os seus sentimentos escondidos porque outras pessoas podiam dizer coisas pouco simpáticas sobre a sua paixoneta. "Não devemos deixar os outros ver o que sentimos por dentro, quando eles sabem que não é considerado próprio. Eu sei que ele gosta de ti como uma irmã e ajudar-te-ia a não te importares demais, porque ele sabe que tu, uma pequena grã-duquesa, não lhe deves dar grande importância.


Maria com um grupo de soldados
Maria e as suas três irmãs eram, tal como a sua mãe, potenciais portadoras do gene da hemofilia. Um dos irmãos e dois sobrinhos de Alexandra, tal como dos seus tios maternos e muitos outros membros da sua família, eram já hemofílicos antes de a doença ser diagnosticada a Alexis, irmão mais novo de Maria. Ela própria teve uma grave hemorragia em Dezembro de 1914 durante uma operação para remover as amígdalas, de acordo com a sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna da Rússia, que foi entrevistada mais tarde na sua vida. O médico que fez a cirurgia ficou tão enervado que teve de receber ordens para continuar por parte da mãe de Maria, Alexandra. Olga Alexandrovna acreditava que todas as quatro sobrinhas sangravam mais do que o normal e que eram portadoras do mesmo gene de hemofilia que a mãe.

Maria com o irmão Alexis em 1916
Por serem demasiado novas para serem enfermeiras quando começou a Primeira Guerra Mundial, Maria e Anastasia limitaram-se a visitar soldados feridos no hospital onde trabalhavam as irmãs e a mãe. As duas adolescentes jogavam xadrez e bilhar com os soldados e tentavam animá-los. Um soldado ferido chamado Dmitri assinou o bloco de notas de Maria tratando-a pela sua alcunha.

Maria e Anastásia com um grupo de soldados em 1915

Durante a guerra, Maria e Anastasia também visitavam a escola de enfermagem e ajudavam a cuidar das crianças. Quando queriam fazer uma pausa durante a guerra, Maria, as irmãs e a mãe visitavam às vezes o pai e o irmão Alexis quando eles estavam no quartel general em Mogilev. Durante estas visitas, Maria começou a sentir-se atraída por Nikolai Dmitrievich Demenkov, um oficial do quartel general. Quando voltavam a Tsarskoye Selo era frequente que ela pedisse ao pai para mandar cumprimentos seus a Demenkov e até chegava a assinar as cartas que enviava ao czar como "Senhora Demenkov".

 
Maria em 1914

A Revolução rebentou em São Petersburgo na Primavera de 1917. No pico do caos, as irmãs de Maria e irmão Alexis adoeceram com sarampo. A czarina hesitou em enviar os filhos para a sua residência segura em Gatchina, mesmo tendo sido aconselhada para o fazer. Maria foi a última dos cinco irmãos a adoecer e, enquanto esteve saudável, era a maior fonte de apoio da sua mãe. Maria foi rezar com os soldados que ainda se mantinham leais ao czar, com a mãe na noite de 13 de Março de 1917. Pouco depois, a adolescente de 17 anos adoeceu com sarampo ao qual se seguiu uma violenta pneumonia. Ao longo dos dias o seu estado de saúde complicou-se mais do que o esperado e chegou a ser necessário a ajuda artificial para respirar por ter os pulmões bloqueados. Durante a sua doença, Maria costumava ter pesadelos onde soldados desconhecidos matavam a sua mãe. Foi devido ao seu grave estado de saúde que o Governo Provisório não insistiu para que, pelo menos os filhos, abandonassem rapidamente o país.

Maria a recuperar da sua doença com o pai na primavera de 1917
O seu médico chegou mesmo a afirmar que não havia esperança de que a terceira grã-duquesa conseguisse sobreviver mais uma noite e pediu à dama-de-companhia da czarina que a preparasse para a morte da filha, mas esta recusou-se afirmando que Alexandra tinha já muito com que se preocupar depois da abdicação do czar e sabia perfeitamente da gravidade do estado de saúde da filha. Eventualmente, contra todas as probabilidades, Maria conseguiu passar a noite e começou a recuperar nos dias que se seguiram. Foi apenas quando estava quase completamente recuperada que recebeu a notícia da abdicação do pai. Nesta altura, o Governo Provisório começava já a perder a sua influência para os bolcheviques e era tarde demais para a família deixar o país.
Maria na primavera de 1917
A família foi capturada e presa, primeiro na sua casa em Czarskoe Selo e mais tarde em residenciais de Tobolsk e Ecaterimburgo, na Sibéria. Maria tentou ser amável com os guardas em ambos os locais e aprendeu depressa os seus nomes e detalhes sobre as suas mulheres e filhos. Inconsciente do perigo a que estava sujeita, comentou em Tobolsk de que seria feliz se vivesse lá para sempre se a deixassem passear pelo jardim sem ser acompanhada pelos guardas continuamente. Maria e a irmã Anastasia queimaram as suas cartas e diários em Abril de 1918 por temerem que as suas coisas fossem revistadas.

Maria  com  Anastasia  e  Tatiana  em  Tobolsk  (1917)

A czarina Alexandra escolheu Maria para a acompanhar a si e a Nicolau II quando receberam ordens para serem transferidos para Ekaterinburgo e a família ficou separada durante um mês em Abril de 1918. De acordo com Sophie Buxhoevden, uma empregada que acompanhou a família, Maria tinha crescido muito durante os meses em que esteve presa com a família e a czarina sentia que podia confiar na sua terceira filha para a ajudar, uma vez que já não podia contar com a deprimida Olga nem com Anastasia que continuava a ser uma criança. Tatiana ficou para tomar conta do irmão Alexis.

Nas cartas que enviou às irmãs nesta nova fase, Maria descreveu a sua preocupação para com as novas restrições a que a família foi sujeita. Ela e os pais foram revistados pelos guardas da Casa Ipatiev e avisados de que novas inspecções iriam surgir enquanto lá estivessem. Foi também construída uma vedação que limitava a vista para a rua. "Que complicado é tudo agora," escreveu ela no dia 2 de Maio de 1918. "Vivemos tão pacificamente durante 8 meses e agora começou tudo de novo."

Maria (2ª da  direita)  e  os  irmãos  após   perderem  o  cabelo  após  ganharem  sarampo

Maria ocupou o tempo tentando fazer novas amizades com os guardas da "Casa Para Fins Especiais". Mostrou-lhes fotografias do seu álbum e conversou com eles sobre as suas famílias e as suas próprias esperanças para a nova vida em Inglaterra se fosse libertada. Alexander Strkotin, um dos guardas, recordou com apreço a sua beleza vigorosa e disse que ela nunca mostrou nenhum ar de grandeza.

Um antigo sentinela recordou que Maria era frequentemente levada pela sua mãe com "murmúrios severos e zangados", aparentemente por ser demasiado simpática com os guardas. Strekotin escreveu que as suas conversas começavam sempre com uma das raparigas a dizer: "Estamos tão aborrecidas! Em Tobolsk tinhamos sempre alguma coisa para fazer. Já sei! Tentem adivinhar o nome deste cão!" As adolescentes passavam pelos sentinelas a sussurrar e a  rir de uma forma que eles consideravam "sedutora".


Maria por volta de 1915
Quando um dia um dos guardas contou uma anedota obscena às filhas do czar, deixando Tatiana bastante perturbada, Maria olhou-o nos olhos e disse, "Não se sentem envergonhados quando usam essas palavras obsenas? Não imaginam que podem ofender uma mulher bem nascida com elas e pô-la contra vocês? Tenham mais respeito e então nós podemos dar-nos todos bem." Ivan Kleschev, um guarda de vinte-e-um anos, declarou que tinha intenções de casar com uma das grã-duquesas e, se os pais dela recusassem, ele a salvaria da Casa Ipatiev.

Ilustração da chegada de Maria com os pais a Ecaterimburgo

Ivan Skorokhodov, um outro guarda da casa, conseguiu trazer um bolo de aniversário para comemorar os dezanove anos de Maria no dia 26 de Junho de 1918. Maria afastou-se com ele do grupo para um momento privado e foram descobertos por dois dos seus superiores que resolveram fazer uma inspecção surpresa à família. Skorokhodov foi removido da sua posição pouco depois e por manter amizade com uma prisioneira. Nas suas memórias, vários guardas afirmaram que tanto a czarina como a sua irmã Olga pareceram zangadas com Maria nos dias que se seguiram ao incidente e Olga evitava mesmo a sua companhia.


Maria em 1915

Na noite de 17 de Julho de 1918, toda a família foi executada na cave da Casa Ipatiev, no entanto o que verdadeiramente terá acontecido a Maria e à sua irmã Anastasia permaneceu um dos maiores mistérios do século XX que muitos consideram estar ainda por desvendar.

Maria  e  Anastásia  em 1912

De acordo com o relato de um dos assassinos, Maria terá conseguido fugir e chegou até a um armazém onde bateu à porta, desesperada, pedindo ajuda. Mais tarde terá sido atingida por um tiro do Comissário Peter Emakov, que também a terá tentado esfaquear com a baioneta da arma e depois lhe deu um tiro na cabeça, mas pode ter falhado o alvo. Também se diz que ela poderá ter desmaiado e que conseguiu permanecer viva até que os corpos foram inspeccionados para que se tivesse a certeza de que toda a família estava morta. Maria terá gritado, o que fez com que fosse esfaqueada novamente. Quando a nova tentativa também falhou, diz-se que Emakov a terá agredido até ela se calar. Até hoje, mesmo tendo-se encontrado todos os corpos a sua causa de morte continua a ser desconhecida.

Maria a segurar um animal em 1916
A suspeita de que Maria teria sobrevivido ao massacre voltou a ser considerada quando os corpos da família e empregados que os acompanhavam foram descobertos e analisados em 1991. Logo no dia em que se procedeu à abertura da sepultura, se chegou à conclusão de que faltavam dois corpos.

Após a análise dos corpos com a mais alta tecnologia da altura houve um dilema entre a equipa de cientistas americana e a russa, uma vez que os primeiros afirmavam que os corpos que faltavam eram os de Alexis e Anastasia e os outros diziam ter a certeza de que se tratava de Alexis e Maria.

Maria  em 1913

O assunto da possível sobrevivência de Maria é mesmo retratado de uma forma fantasiada no livro "The Kitchen Boy - Os últimos dias dos Romanov " de Robert Alexander que conta a história de um suposto ajudante de cozinha que viveu com a família real os dias de exílio na Casa Ipatiev e acaba por salvar a grã-duquesa .

Anastasia, Alexis, Alexandra e Maria em 1910

No dia 23 de Agosto de 2007, um arqueólogo russo anunciou que tinha descoberto partes de dois esqueletos queimados perto do local onde foram encontrados os restantes Romanov. Após 8 meses de exames intensivos complicados por diversas vezes devido ao avançado estado de deterioração dos restos mortais, no dia 30 de Abril de 2008, foi anunciado durante uma conferência de imprensa que os corpos pertenciam a Alexis e Maria, parecendo terminar assim um dos maiores mistérios do século XX.

Maria e Alexei em 1916
Os preparativos para o enterro de Maria e Alexei foram interrompidos quando a Igreja Ortodoxa Russa, apoiada por uma das actuais representantes da família Romanov, a grã-duquesa Maria Vladimirovna, levantou dúvidas relativamente à autenticidade tanto dos restos mortais encontrados em 2007 como os que tinham sido já enterrados em 1998. De modo a terminar com qualquer dúvida relativamente à identidade dos corpos, em Setembro de 2015, um grupo de trabalho liderado pelo antigo presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, procedeu à exumação dos corpos enterrados na Fortaleza Pedro e Paulo desde 1998, assim como de outros membros da família Romanov, nomeadamente o czar Alexandre III. O objectivo é recorrer às mais recentes inovações na área da ciência forense para confirmar, sem margem para dúvida, de que os corpos pertencem aos Romanov e poder assim dar seguimento ao enterro de Maria e Alexei.



Maria foi assasinada na noite de 17 de Julho de 1918, menos de um mês depois de completar 19 anos