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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Lembra-te de Coburgo - O Noivado de Nicolau e Alexandra

Membros de várias famílias reais europeias reunidos em Coburgo para o casamento de Ernesto Luís de Hesse com a princesa Vitória Melita, Coburgo, Abril de 1894
O czarevich Nicolau Alexandrovich chegou à maioridade a 6/18 de Maio de 1884, o dia em que completou dezasseis anos de idade e prestou o seu Juramento de Lealdade com grande pompa e circunstância no Palácio de Inverno. "O czarevich vestiu o uniforme azul dos Cossacos da guarda, uma vez que é o seu comandante," escreveu o The Graphic, "tinha um aspecto muito jovem e pequeno para ser o protagonista de uma cerimónia tão grandiosa, mas possui também um rosto alegre e inteligente, e é muito parecido com a mãe. Como na família Romanov, a maioria das pessoas é alta e imponente, a sua estatura baixa parece excepcional. Na igreja, ele caminhou sozinho e com coragem pelo altar e, com a mão direita pousada em cima da Bíblia encrostada de jóias, e da cruz de ouro, repetiu em voz audível e firme, o juramento que o padre lhe ia comunicando e que começava da seguinte forma: 'Em nome de Deus, todo poderoso, e pela a sua santa palavra, juro e prometo servir Sua Majestade Imperial, o meu gracioso pai, bem e de forma sincera', e terminava com: 'o meu coração está em tuas mãos, Senhor, Amén'".

Nicolau II enquanto czarevich
Apenas algumas semanas depois da cerimónia, Nicolau conheceu a jovem com quem se viria a casar. A princesa Alice de Hesse tinha doze anos de idade, e estava na Rússia para assistir ao casamento da sua irmã, Isabel, com o tio de Nicolau, o grão-duque Sérgio Alexandrovich. Alice e Nicolau gostaram imediatamente um do outro e a sua atracção inocente acabaria por florescer para algo mais sério quando a princesa voltou a visitar o país em 1889, altura em que Nicolau decidiu que queria casar com ela e discutiu essa possibilidade com o pai. A sua mãe teria preferido que ele se casasse com uma princesa francesa, mas Nicolau não queria sequer ouvir falar no assunto. Quando viram a determinação do filho, ambos os pais acabaram por ceder e dar a sua bênção a Nicolau. No entanto, com o passar dos meses e dos anos, continuava a haver um obstáculo ao seu casamento. Na primavera de 1894, chegou o momento crítico quando o jovem casal teria de decidir o seu destino, de uma forma ou outra.

Alice em 1885, um ano depois de conhecer Nicolau.
O ano de 1894 começou calmamente na família imperial, sem nenhum sinal de que haveria mudanças nos meses próximos. Alexandre III sentia-se doente, mas ninguém estava demasiado preocupado e as comemorações do Ano Novo continuaram como de costume. O czarevich foi beber com o seu tio Vladimir uma noite em Janeiro e, algumas semanas depois, divertiu-se numa das famosas festas da grã-duquesa Maria Pavlovna que duravam toda a noite. É possível que os Vladimirovich soubessem da infelicidade que o seu sobrinho sentia na sua vida privada. Já há quase cinco anos que ele tentava convencer a princesa Alice de Hesse a casar com ele, mas ela não se sentia preparada para se converter à religião Ortodoxa. No caso da esposa de Nicolau, uma futura czarina, não havia espaço para o tipo de excepções que Alexandre II tinha concedido no seu tempo: a czarina tinha de ser ortodoxa. Nicolau sabia que Alice o amava, mas também que ela tinha prometido ao pai que nunca se iria converter a outra religião, e, quando ele morreu na primavera de 1892, levou consigo toda a possibilidade de discutir o assunto ou de mudar de opinião. Para Alice, o assunto trazia uma onda de emoções dolorosas que ela preferia evitar completamente. Em Junho de 1893, decidiu não estar presente no casamento do seu primo, o duque de Iorque [o futuro rei Jorge V] porque sabia que Nicolau estaria lá. Em Novembro desse ano, enviou-lhe uma carta com a sua recusa final, mas Nicolau não estava pronto para desistir e continuava a esperar a oportunidade de se encontrar com ela para discutir o assunto pessoalmente. O casamento do irmão de Alexandra, Ernesto, estava marcado para Abril de 1894, em Coburgo, e era impossível ela não estar presente.

Alice com o seu pai, o grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt.
À medida que o dia do casamento se aproximava, Coburgo estava em modo festivo. As ruas vibravam com as cores dos estandartes, bandeiras e coroas de flores, além de dois arcos triunfais que foram construídos no caminho entre a estação e o Schloss Platz, à medida que a pequena cidade se preparava para receber uma festa familiar a grande escala. O casamento da segunda filha do duque Alfredo de Saxe-Coburgo-Gota com o seu primo, o jovem grão-duque Ernesto Luís de Hesse, iria juntar primos, tios e tias da realeza de toda a Europa.

Vitória Melita e Ernesto Luís no dia do seu casamento
De Darmstadt, partiram o noivo, o seu tio Guilherme de Hesse, e Alix: as suas três irmãs mais velhas Vitória, Ella e Irene já estavam todas casadas e iriam juntar-se ao resto da família em Coburgo, assim como os seus maridos, que eram todos parentes do casal directamente e por casamento. O kaiser Guilherme II também partiu de Berlim, juntamente com a sua mãe, a imperatriz-viúva Vitória, a sua irmã Carlota e o marido dela, o duque Bernardo de Saxe-Meiningen (a filha deles, Feodora, era uma das damas-de-honor), o irmão dele, Henrique, marido da princesa Irene de Hesse, a sua prima Maria Luísa e o marido dela, Humberto de Anhalt. A maioria dos convidados iria ficar hospedada no Schloss Ehrenburg, o palácio principal da cidade, onde se iria realizar o casamento.

A família de Hesse-Darmstadt por volta de 1887 (sentados estão a princesa Irene de Hesse-Darmstadt, a grã-duquesa Isabel Feodorovna, a princesa Alice de Battenberg, a princesa Vitória de Battenbergo grão-duque Sérgio Alexandrovich e o grão-duque Luís IV de Hesse. Em pé, o príncipe Ernesto Luís, o príncipe Luís de Battenberg e a princesa Alice de Hesse-Darmstadt).
A 16 de Abril, chegaram os convidados russos. A mãe da noiva era a grã-duquesa Maria Alexandrovna, filha do czar Alexandre II, o que, por si só, já teria sido o suficiente para ter um grande número de convidados Romanov presentes na cerimónia. Oficialmente, o grupo que esteve em Cobrugo era composto pelo grão-duque Vladimir Alexandrovich, a sua esposa Maria Pavlovna, o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a sua esposa Isabel, e o grão-duque Paulo Alexandrovich. Não se esperava que o czarevich estivesse presente e ele chegou mesmo a duvidar se deveria ir. No dia marcado para a sua partida, a irmã dele, a grã-duquesa Xenia Alexandrovna, recebeu uma carta de Alice onde ela mais uma vez salientava que nunca se iria converter à Igreja Ortodoxa e onde pedia que a deixassem em paz. A carta foi um golpe terrível para Nicolau, mas a sua mãe insistiu para que ele fosse na mesma e que aproveitasse aquela última oportunidade. Já há vários anos que também Sérgio e Isabel o encorajam, assim como Vladimir e Maria, e a sua mãe também o aconselhou a tentar colocar a velha avó de Alice, a rainha Vitória, do seu lado. O grupo viajou de comboio em três vagões-cama e atravessou a fronteira com a Alemanha nessa mesma noite. Foram recebidos na estação de Coburgo pelo duque e pela duquesa de Saxe-Coburgo-Gota e por três dos seus filhos: Maria (a futura rainha da Roménia), Vitória Melita e Alfredo, que estavam acompanhados também de Ernesto Luís e Alice. Quando os cumprimentos foram todos trocados, o grupo seguiu viagem para o Palais Edinburg, a residência oficial dos duques, onde se realizou um jantar em família e assistiram a uma operetta.

Nicolau e Alexandra em Coburgo por volta de 1900. Com eles estão os grão-duques André, Cyrill e Boris Vladimirovich, assim como o grão-duque Ernesto Luís, a princesa Vitória Melita e o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca.
Na manhã seguinte, Nicolau teve a conversa com Alix pela qual ansiava e que temia. Ela não estava à espera de o ver chegar à estação com os tios e tias e o seu primeiro instinto tinha sido fugir, mas a grã-duquesa Isabel reagiu rapidamente e convenceu-os a encontrarem-se. Durante duas horas, a família deixou Nicolau e Alix sozinhos nos aposentos de Isabel, mas foi um encontro pouco satisfatório e cheio de lágrimas. "Ela esteve sempre a chorar", escreveu Nicolau à mãe, "e só sussurrava de vez em quando que não podia". Depois do almoço, Nicolau saiu com o grão-duque Sérgio e a grã-duquesa Isabel e, mais tarde, foi dar uma caminhada com o grão-duque Vladimir. À medida que toda a vila de Coburgo se preparava para receber a convidada mais importante de todas, a cabeça do czarevich estava ocupada apenas pelo seu futuro e, embora tenha descrito o momento em que deixou Alix como "mais calmo", no seu diário, é provável que se sentisse desapontado e sem saber o que deveria fazer a seguir.


Alix de Hesse-Darmstadt
Às 16:30, a rainha Vitória chegou de Itália acompanhada do príncipe e da princesa Henrique de Battenberg [a sua filha mais nova, Beatriz, e o marido]. À medida que o comboio abrandava na estação, as nuvens dissiparam-se e a velha senhora lembrou-se imediatamente do momento em que o seu falecido marido, o príncipe Alberto, a tinha levado pela primeira vez a Coburgo, quarenta anos antes. Agora o duque de Coburgo era o filho deles e ela estava prestes a assistir ao casamento de dois dos seus netos que o seu marido nunca tinha conhecido. Foi o duque Alfredo que a recebeu na estação, na companhia da sua esposa e dos seus filhos, incluindo a noiva. O kaiser tinha dado ordens para que um esquadrão do 1.º Corpo de Guardas Dragões da Prússia fosse a guarda-de-honra da rainha, e senhoras vestidas de branco encheram a carruagem de flores à medida que ela passava pelas ruas da vila. À chegada, a rainha teve direito a receber as boas-vindas do presidente da câmara e a uma marcha militar em frente ao Palais Edinburg antes de chegar ao Schloss, onde já se encontravam os convidados prontos para receber a rainha. Nicolau também estava lá, vestido no seu uniforme, e os dois foram apresentados, mas ainda não era a altura ideal para terem uma conversa privada. No entanto, de qualquer forma, a ideia que a mãe dele tinha de que a rainha Vitória o poderia ajudar, estava um quanto desajustada. Por muito que ela gostasse de Nicolau como pessoa, a rainha Vitória tinha muitas dúvidas relativamente a casamentos russos e era sempre contra eles.

Alix (segunda da esquerda) com a avó Vitória, o primo Eduardo Vítor, a tia Beatriz e a irmã Irene.
Na manhã seguinte, Nicolau foi dar uma caminhada de manhã cedo com o grão-duque Vladimir pelo caminho que levava até ao museu de armaduras do Veste, o antigo castelo onde Martinho Lutero tinha procurado abrigo dos seus inimigos. Estava a preparar-se para outro encontro com Alix depois do pequeno-almoço. Ainda marcado pelo encontro do dia anterior, tentou falar o menos possível do assunto de casamento, apesar de lhe ter entregue uma carta da mãe, que tinha a esperança de poder influenciá-la de alguma forma. Alix também estava a ser cada vez mais pressionada pelos membros da sua família. O seu irmão encorajou-a a encontrar-se em privado com Maria Pavlovna, e tanto ele como os outros deram tantas garantias a Nicolau que o jovem apaixonado e desapontado começou a sentir que algo iria correr mal.


Nicolau II
A tarde trouxe o alívio que estava a fazer tanta falta, quando os convidados viajaram até Rosenau, nos arredores da vila, para passar uma tarde relaxante que acabou com um chá. "Divertimo-nos muito quando conseguimos finalmente convencer o lacaio-chefe a cantar duas ou três canções", escreveu Nicolau, "começou a cantar na torre e acabou atrás dos arbustos". O kaiser chegou nessa noite e ficou hospedado em aposentos no Palais Edinburg. Esteve acordado até altas horas da noite a conversar com Nicolau e revelou que também apoiava completamente o plano do casamento e sugeriu que a situação se podia tornar mais fácil para Alix se os russos permitissem uma versão mais suave da fórmula de renúncia arcaica à qual ela se teria de submeter caso decidisse converter-se.

Nicolau II e Guilherme II
A manhã do casamento estava calma e cinzenta, mas os céus não demoraram a abrir e as ruas encheram-se de pessoas, ansiosas por ver a família ducal e a realeza a sair dos palácios que rodeavam a vila até ao Schloss Ehrenburg. Depois da longa conversa que teve com Guilherme na noite anterior, Nicolau chegou atrasado ao pequeno-almoço e teve de ir a pé e sozinho até ao Schloss Ehrenburg, furando entre as multidões que enchiam as ruas. Ás onze da manhã, os noivos fizeram os seus votos civis numa cerimónia discreta realizada no quarto da avó. É provável que a rainha tenha ficado emocionada quando viu Vitória Melita a usar o mesmo véu que a sua filha Alice tinha usado mais de trinta anos antes. Entretanto, os convidados que não faziam parte da realeza e a guarda de honra prussiana iam ocupando os seus lugares na capela, que estava decorada com coroas de galhos de abetos verdes e flores brancas. Pouco depois do meio-dia, a banda que estava instalada no quintal começou a tocar o hino nacional da Alemanha. A música assinalou o início da procissão real, liderada pelo kaiser e pela duquesa de Saxe-Coburgo. Quando estavam todos nos seus lugares, o duque Alfredo levou a sua filha pelo altar da capela juntamente com as suas duas damas-de-honor: a sua irmã Beatriz, que no dia seguinte fazia dez anos de idade, e a princesa Feodora de Saxe-Meiningen, sobrinha do kaiser, de treze anos de idade. Havia cinco clérigos na capela, mas a maior parte da cerimónia foi celebrada pelo capelão da corte de Darmstadt, o Dr. Müller. Os convidados reparam que ele se emocionou com a ocasião e a sua voz estava muito afectada quando deu as bênçãos.



Vitória Melita e Ernesto Luís
Depois da missa, os convidados seguiram para um pequeno-almoço de casamento que se realizou na sala do trono, e às 15:30, a paciência da multidão que esperava desde manhã foi recompensada quando uma carruagem decorada com flores apareceu na Schloss Platz, pronta para levar o jovem casal até à estação. Um grupo da realeza feliz e relaxado despediu-se deles, a rir e a dar vivas entre chuvas de arroz, e ninguém se opôs aos pedidos dos fotógrafos locais para fotografias. Até o príncipe de Gales [futuro rei Eduardo VII] se colocou em fila com os irmãos para ser fotografado. Ernesto Luís levou a sua nova grã-duquesa para casa, em Darmstadt, onde os dois entraram de forma triunfal na manhã seguinte, viajando numa carruagem aberta pelas ruas da cidade, decoradas com bandeiras e coroas de flores. As comemorações continuaram lá durante vários dias. Era a primeira vez que Darmstadt via comemorações daquele calibre desde a morte da princesa Alice, dezasseis anos antes, e o futuro parecia brilhante para o casal.

A rainha Vitória com alguns dos seus filhos (Vitória, imperatriz-viúva da Alemanha, o príncipe Artur, o príncipe Alfredo e o príncipe de Gales) e o neto, o kaiser Guilherme II da Alemanha, no casamento de Vitória Melita e Ernesto Luís.
Em Coburgo, a festa da família também continuava, e a tensão estava a aumentar para o czarevich. Ao longo de toda a missa, não tinha conseguido deixar de pensar em Alix, que estava sentado duas filas atrás dele, perto do altar. A tensão emocional em casamentos era sempre grande, no entanto, para Nicolau, que andava entre a esperança e o desespero, o sermão do Dr. Müller "foi directo ao meu problema. Naquele momento, quis, mais do que tudo, conseguir ver o que vai na alma da Alix". É provável que não se tenha apercebido de que era aquele mesmo clérigo, o capelão da família de Alix, que a tinha convencido várias vezes de que mudar de religião era um pecado. Nessa tarde, Nicolau e o seu tio, o grão-duque Vladimir, deram um passeio a pé até ao Veste e passaram muito tempo a explorar a sala das armas. Houve um pequeno jantar de família no Palais Edinburg e, depois, os dois foram ao teatro a pé, a correr para tentar fugir à chuva que tinha começado a cair.

Alix, Vladimir Alexandrovich, Maria Pavlovna e Nicolau II
Na manhã seguinte, dia 20 de Abril, os pesos pesados foram tentar convencer Alix. O kaiser, seu primo, teve uma conversa em privado com ela antes de a acompanhar até ao Palais Edinburg para se encontrar com a grã-duquesa Maria Pavlovna. Seria difícil imaginar uma situação mais icónica do que esta: a imperatriz-viúva da Alemanha, Vitória, estava muito divertida com o papel que o seu filho, o kaiser, estava a ter no assunto, uma vez que, poucos anos antes, tinha visto a conversão da sua irmã, a princesa Sofia, à Igreja Ortodoxa Grega como um pecado mortal. Maria Pavlovna também se tinha gabado abertamente do facto de se ter recusado a converter quando se casou com um Romanov. Mas nenhum deles tinha a capacidade de se rir das suas próprias inconsistências: neste caso a única coisa que queriam era ficar com a melhor imagem possível junto do jovem que, um dia, iria governar a Rússia, e da sua futura esposa, e essa era a única coisa que conseguiam ver. Às dez da manhã, o kaiser deixou Alix com Maria e, pouco depois, as duas mulheres juntaram-se ao resto do grupo russo: depois, todos se retiraram para uma sala ao lado, deixando Nicolau e Alix sozinhos. Finalmente, Alix cedeu e aceitou a proposta de Nicolau.

Alix e Nicolau no dia do seu noivado, em Coburgo.
A tensão dos dias anteriores evaporou-se imediatamente. "Para mim, o mundo inteiro mudou", escreveu Nicolau "a natureza, a humanidade, tudo. E tudo parece ser bom e cheio de amor e felicidade. Nem sequer conseguia escrever, as minhas mãos tremiam tanto". Todos os pormenores desse dia ficaram para sempre gravados nas suas memórias, e foram recordados várias vezes ao longo dos anos:

"Sabes que guardei o vestido de princesa cinzento que usei naquela manhã?"

"Tanto quanto me lembro, houve um concerto em Coburgo nessa noite e havia uma banda da Baviera a tocar. O pobre tio Alfredo estava tão cansado à hora do jantar que estava sempre a deixar cair a bengala com um grande estrondo. Lembras-te?"

"Ainda sinto o tecido do teu fato cinzento, o cheiro dele quando estávamos sentados naquela janela no castelo em Coburgo. Lembro-me de tudo muito nitidamente. Daqueles doces beijos com os quais tinha sonhado durante tantos e tantos anos e que pensei que nunca conseguiria ter".

"Lembra-te de Coburgo e de tudo o que passámos".

 
Fotografia de noivado de Nicolau e Alix
Havia uma pessoa que não fazia ideia de que tudo isto estava a acontecer e, caso Alix quisesse realmente recusar o pedido de Nicolau, poderia ter recorrido directamente a ela para pedir ajuda: a sua avó, a rainha Vitória. A velha rainha tinha feito todos os possíveis para encontrar um marido inglês ou alemão para a sua neta e ficou admirada quando a grã-duquesa Isabel a foi visitar ao seu quarto pouco depois do pequeno-almoço e lhe deu a notícia do noivado. Ainda com lágrimas de felicidade no rosto, Isabel abriu a porta e deixou entrar o casal feliz. No entanto, apesar das suas reservas, a rainha aceitou o que tinha acontecido e ficou bastante comovida com a atitude de Nicolau e a sua alegria óbvia. Um grupo de jornalistas interceptou o kaiser quando ele passava pela Schloss Platz a caminho de uma visita ao duque e à duquesa de Saxe-Coburgo-Gota e também ele "parecia rebentar de felicidade" quando lhes deu a notícia. Quando acabou o encontro com a rainha, o jovem casal regressou ao Palais Edinburg para um almoço de família e uma missa de acção de graças celebrada na capela privada da duquesa de Saxe-Coburgo-Gota, que tinha mantido a sua religião ortodoxa depois de se casar com o príncipe Alfredo.

Nicolau e Alix
Os acontecimentos daquela manhã devem ter ofuscado por completo as restantes comemorações do dia. A princesa Beatriz de Saxe-Coburgo-Gota fazia dez anos de idade e tinha sido organizado um baile no Rosenau para essa tarde, no qual estiveram presentes quase todos os convidados. Nicolau esteve presente, embora tenha preferido trocar as danças por um passeio a sós com Alix pelos jardins. Foram chamados fotógrafos para registar o noivado, e tiraram algumas das fotografias mais conhecidas tanto do casal a sós como com o restante grupo.

A princesa Beatriz de Saxe-Coburgo-Gota.
A partir de então, os dias passaram a correr, numa roda viva de jantares, concertos,  passeios e, no caso de Nicolau e Alexandra, uma montanha de telegramas para responder. O kaiser partiu no dia do noivado, mas sem antes tirar uma série de fotografias de grupo no jardim do Palais Edinburg, com a mãe e a avó no centro. Quando estava em Coburgo, os pensamentos da rainha nunca se desviavam muito do príncipe Alberto e ela tinha tirado algum tempo para visitar os locais que ele lhe tinha apresentado muitos anos antes. Antes de o grupo se separar, também deu um jantar e o concerto para as três gerações dos seus descentes, a maioria dos quais nunca tinha conhecido Alberto. No dia 22, houve mais uma celebração em família: era o dia do nome do grão-duque Vladimir e os russos deram-lhe presentes de manhã, antes de ele e a sua esposa partirem para São Petersburgo, levando consigo, com muito orgulho, cartas da parte de Nicolau e Alix para o czar e para a czarina.

A conhecida fotografia da rainha Vitória e da sua família tirada no dia de noivado de Nicolau e Alexandra.
Na Rússia, a notícia do noivado foi recebida com alegria e com um grande sentimento de alívio. "Não há palavras para descrever o prazer e grande alegria com os quais recebi a notícia!", escreveu a czarina ao seu filho, "Quase desmaiei de alegria! (...) Tínhamos esperado com um sentimento tão grande de desespero quando foste para aí que tinha o coração a sangrar quando te vi partir, e os meus pensamentos e orações nunca te abandonaram". O czar também lhe escreveu alguns dias depois: "tenho de admitir que não acreditei que este desfecho fosse possível e tinha a certeza que a tentativa ia falhar por completo, mas o Senhor guiou-te, deu-te força e abençoou-te, e agradeço-Lhe muito pela sua misericórdia. Quem me dera que tivesses visto a alegria e júbilo com que todos receberam a notícia". O seu primo, o grão-duque Constantino, esteve na missa do Domingo de Ramos em Gatchina a 11/22 de Abril e escreveu no seu diário: "Já não via a imperatriz tão radiante há muito tempo. O noivado do Nicky foi uma alegria para todos os russos que já há muito que esperavam que ele assentasse na vida de casado". Estavam todos ansiosos por voltar a ver o czarevich e dar-lhe os parabéns em pessoa, mas, ao contrário dos tios, ele não ia regressar directamente para a Rússia.

Alexandre III, Maria Feodorovna e Xenia
Após as emoções daqueles dias, Alix estava ansiosa por voltar a ver o irmão e voltar para casa, por isso, às 16:30 de dia 22 de Abril, apanhou o comboio para Darmstadt na companhia de Nicolau, das irmãs e dos cunhados, o grão-duque Sérgio e o príncipe Luís de Battenberg. "Fomos recebidos de forma trinfal", escreveu Nicolau "a Ducky [Vitória Melita] e o Ernie foram os nossos anfitriões pela primeira vez. Havia uma guarda de honra, um escolta, iluminações e multidões de pessoas. Comemos a ceia assim que chegámos ao palácio, porque estávamos cheios de fome". A estadia em Darmstadt foi curta. Na manhã seguinte, a família tomou o pequeno-almoço junta e Alix e Nicolau passaram mais algum tempo a responder a telegramas. Visitaram o mausoléu da família no Rosenhöhe, onde estavam sepultados os pais de Alix, e, depois do almoço, houve mais uma sessão fotográfica antes de apanharem novamente o comboio para Coburgo.

Nicolau e Alexandra com a família em Damstadt, Abril de 1894
O casal só passou mais uma semana juntos, rodeado pela família. Inicialmente, o tempo esteve bom e os dois puderam passear, andar a cavalo, visitar o Rosenau e encontrar-se em privado com a rainha. No caso de Nicolau, também houve as missas e cerimónias tradicionais da Páscoa ortodoxa. A sua tia deu-lhe autorização para sair do palácio e ficar numa residência mais pequena e mais perto de Alix, e os dois viram-se tantas vezes quanto foi possível. Além da sua felicidade, Nicolau também falou sobre um novo sentimento no seu diário: "é tão estranho poder passear de carruagem e a pé sozinho com ela, sem me sentir envergonhado de todo, como se isso não tivesse nada de anormal". No entanto, tudo tem um fim. A rainha Vitória partiu para Inglaterra a 28 de Abril, às seis da tarde, e, a 2 de Maio, chegou o dia de Nicolau e Alix se separarem. Ela deixou Coburgo pouco depois do meio-dia, para regressar a Damstadt, e, depois, para ir até Inglaterra, a convite da avó. Ele passou mais algumas horas com a família, antes de apanhar o comboio das nove para a Rússia, sendo o último convidado do casamento a partir. Partiram os dois, cada um com as suas memórias, esperanças e planos, mas uma coisa era certa: iriam lembrar-se de Coburgo durante muito tempo.

Nicolau e Alexandra
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Chalotte Zeepvat

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