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terça-feira, 11 de julho de 2017

O Almirante General - Grão-Duque Constantino Nikolaevich - Segunda Parte


Na posição de vice-rei, o grão-duque tinha feito todos os possíveis para agradar aos polacos, mas o que eles queriam realmente era autonomia e não reformas e tiveram a oportunidade de colocar em marcha os seus planos bem formulados para um levantamento quando Constantino implementou um imposto para o recrutamento militar em 1863. O motim que se seguiu colocou um ponto final abrupto no governo de Constantino, que foi obrigado a regressar a São Petersburgo com a família e a voltar ao trabalho de reforma na marinha russa, principalmente na necessidade de possuir uma frota no Mar Negro. A abolição dos castigos corporais em Abril de 1863 tinha facilitado o seu trabalho, e os relatórios oficiais do Ministério da Marinha começaram a registar casos de oficiais disciplinados e dispensados por crueldade nos postos mais baixos. Em reconhecimento pelos vários serviços que tinha prestado ao país, Alexandre II elevou a posição de Constantino para presidente do Consílio de Estado.

Constantino Nikolaevich
Em meados da década de 1860, os seus filhos estavam a crescer. Em 1867, Olga ficou noiva do rei Jorge da Grécia, cuja irmã, a princesa Dagmar, se tinha casado com o czarevich Alexandre Alexandrovich no ano anterior, tornando-se a czarevna Maria Feodorovna. Maria esforçou-se ao máximo para conseguir assegurar o noivado do irmão, mesmo sabendo que os Constantinovich estavam contra ele: de alguma forma, a jovem conseguiu fazê-los reconsiderar o assunto. A sua hesitação era compreensível. Olga tinha apenas quinze anos de idade, ainda era uma criança, e o casamento realizou-se algumas semanas depois de ela completar dezasseis anos. A jovem partiu para a Grécia com todas as suas bonecas e brinquedos e considerou a sua chegada a Atenas avassaladora. Até a língua era estranha. Antes de uma recepção, Olga desapareceu e, depois de uma longa busca pelo palácio, os criados encontraram-na a chorar debaixo das escadas, enquanto se abraçava a um dos seus ursos-de-peluche favoritos. Com o passar do tempo, Olga acabaria por se habituar à sua nova vida, mas nunca perdeu o seu amor pela Rússia e regressava sempre que podia. Em Julho de 1868, nasceu o seu primeiro filho e ela deu-lhe o nome de Constantino, em homenagem ao pai.

Constantino e Alexandra com a sua filha Olga
Constantino e Alexandra deveriam ter conseguido entrar na nova fase das suas vidas como avós com alegria, mas o início de uma nova geração da família coincidiu com uma crise na sua. Por volta de 1866, no ano em que Alexandre II começou a sua relação com Catarina Dolgorukaya, Constantino começou a seduzir uma jovem bailarina da Conservatória de São Petersburgo. Anna Kousnetsova era vinte anos mais nova do que ele e resistiu aos seus avanços durante vários anos, mas Constantino sabia como conseguir aquilo que queria. Em 1873, Anna deu à luz o seu primeiro filho, a quem chamou Sergei. Iriam seguir-se mais quatro e o grão-duque mantinha uma casa independente para a sua amante e filhos dentro da propriedade de Pavlovsk e na Crimeia. Corriam até rumores de que ele tinha pedido autorização ao czar para se divorciar da sua esposa, mas que ele tinha recusado.

Anna Kousnetsova, amante de Constantino
Para Alexandra, este foi um golpe amargo. Tinha sido feliz com Constantino e era uma mulher orgulhosa. A partir do momento em que soube do caso do marido, começou a ter cada vez mais cuidado com a sua aparência. Havia um tom de desafio e até um pouco de tristeza quando começou a comparar-se insistentemente com a imperatriz da Áustria, que, na altura, tinha a reputação de ser a mulher mais bela da Europa: muitos enviados estrangeiros ficavam sem palavras quando ela o fazia, com medo de a ofender com uma resposta sincera. Há rumores de que, nos seus últimos anos de vida, Alexandra usava corpetes e sapatos na cama para manter a sua cintura fina e os seus pés pequenos. Ao contrário de Maria Alexandrovna, não estava preparada para amar de forma calada e sacrificada: quando foi confrontada com a traição de Constantino, afastou-se dele e da corte, refugiando-se na companhia dos seus filhos mais novos.

Alexandra Iosifovna
Alexandra estava a preparar-se para viajar para o casamento da sua filha mais nova, Vera, em 1874, quando descobriu que faltavam três diamantes valiosos de um ícone que lhe tinha sido oferecido pelo seu sogro, o czar Nicolau I, e que ela tinha no quarto. Um outro ícone estava danificado. Alexandra mostrou o que tinha acontecido a Constantino e foi chamada a polícia enquanto ela partiu para Estugarda, onde Vera, de vinte anos, se ia casar com um primo afastado, o duque Guilherme Eugénio de Wuttenberg. Dois dias depois, os diamantes foram encontrados na posse do capitão Varpakhovsky, ajudante-de-campo do grão-duque Nicolau Constantinovich. O chefe da polícia, o conde Schouvalov, informou Constantino de que o ladrão era o seu filho.

Alexandra Iosifovna com o seu filho Nicolau e a filha Olga
Vinte anos de adoração dos pais tinham transformado Nicolau Constantinovich no pior tipo de príncipe aristocrata possível. Atraente, culto e inteligente, gostava de se fazer passar por revolucionário liberal, mas, na verdade, não queria saber de ninguém a não ser ele próprio. Contava muitas vezes histórias sobre a severidade sem sentido, quase brutalidade, com a qual tinha sido criado, mas todos os que o tinham visto crescer lembravam-se de um adolescente mimado fora do controlo de todos, que era capaz de fazer a vida negra a qualquer tutor de quem não gostasse. Não respeitava os padrões normais do comportamento: quando tinha dezasseis anos, Marie von Keller viu-o a torturar um cordeiro que tinha atado a uma árvore, e a rir-se quando ele morreu. O sexo tornou-se uma obsessão e a tentativa da sua mãe de o tentar acalmar através de um casamento com a filha da sua irmã, a princesa Frederica de Hanôver, falhou porque Nicolau já estava envolvido com várias amantes. Agora, quando foi interrogado pelo seu pai e pelo conde Schouvalov, Nicolau não mostrou medo nem arrependimento. Acabou por se descobrir que aquele roubo tinha sido apenas mais um entre muitos e ambos os homens ficaram chocados com a atitude dele. Com a bênção do czar, Nicolau foi declarado louco e colocado sob vigilância médica. A nível privado, tal como Constantino escreveu no seu diário: "para castigar o Nikola, vamos fechá-lo numa cela sob vigilância apertada, e as suas medalhas e epaulettes vão ser retiradas. Apenas nós sabemos disto, e não o público".


O grão-duque Nicolau Constantinovich

Mas mesmo na prisão, Nicolau continuava a causar problemas. Enviado inicialmente para Oreanda na Crimeira, onde a vigilância não era tão apertada quanto o seu pai tinha esperado. Uma jovem, Alexandra Demidov-Abaza, teve acesso ao grão-duque e, quando escreveu ao czar a afirmar que estava grávida e a pedir o reconhecimento legal do seu filho, Nicolau foi enviado para a Ucrânia, depois de volta para a Crimeia, sendo sempre seguido pela sua amante. Quando a encontraram, Nicolau foi enviado novamente para outro local, mas, em Setembro de 1876, descobriram novamente a sua amante a viver nos seus aposentos e, desta vez, estava grávida novamente. O general responsável por vigiar o grão.duque pediu a demissão e, em Maio de 1877, o conde Rostovtsev chegou para o substituir, levando Nicolau para um novo local de exílio em Orenburg. Nicolau nunca mais voltou a ver Alexandra nem os seus filhos.



Nicolau Constantinovich
Em Orenburg, Nicolau começou a mostrar um lado diferente da sua personalidade. Interessou-se profundamente pela Ásia Central e passou várias horas a ler e a pesquisar seriamente sobre o assunto. No outono de 1878, organizou a primeira de várias expedições de investigação e, depois, escreveu artigos para jornais científicos. A sua grande paixão tornou-se o melhoramento da vida no Turquestão, principalmente através da introdução de sistemas de irrigação funcionais, mas isso não significou que as suas outras paixões tivessem ficado para segundo plano. O czar ficou exasperado quando soube que, a 15 de Fevereiro de 1878, Nicolau se tinha casado em segredo com Nadejda Dreyer, filha do chefe de polícia local. Para o fazer, tinha utilizado o nome de Coronel Volinsky, o seu herói da infância. Nicolau tentava passar a imagem de que era um revolucionário e que as pessoas se iriam revoltar e reunir à volta dela: não é de admirar que o seu pai e o tio tenham perdido a paciência e parece ter sido por esta altura que o seu nome foi removido das listas públicas da família imperial. Oficialmente, o grão-duque Nicolau Constantinovich deixou de existir.

Nicolau com a sua mãe, Alexandra, e a irmã Vera.
No entanto, em privado, como não podia deixar de ser, continuou a ser um problema com o qual a família tinha de lidar. Os responsáveis pela sua guarda, envergonhados, tentaram atirar as culpas uns para os outros, mas no outono de 1880, a vida em Orenburg tinha-se tornado insuportável. Nicolau recusou-se a receber mais ordens do conde Rostovtsev e um representante enviado pelo czar mostrou alguma compreensão pela sua posição. Em Novembro, foi enviado para uma pequena propriedade perto de São Petersburgo e a vigilância à sua volta foi relaxada.

Nicolau Constantinovich
Em inícios de Fevereiro de 1879, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna estava a caminhar numa galeria em Pavlovsk quando viu uma aparição aterrorizante: uma dama vestida de branco a flutuar na direcção dela. A grã-duquesa acreditou que se tratava de um mau-presságio e os seus medos foram confirmados no dia seguinte quando o seu filho mais novo, Viacheslav, adoeceu. Acabaria por morrer em menos de uma semana. Agora, Alexandra estava mais só do que nunca, e via com tristeza e raiva a forma como o marido e o irmão se dedicavam cada vez às suas amantes. Ficou zangada com Constantino por este apoiar o caso amoroso do czar com Catarina e furiosa quando o seu filho ilegítimo, Georgi, recebeu uma casa temporária em Pavlovsk, no verão de 1872. A 22 de Maio/3 de Junho de 1880, a czarina Maria Alexandrovna morreu sozinha no seu quarto do Palácio de Inverno. O czar viúvo tomou medidas quase imediatas para cumprir a promessa que tinha feito a Catarina de se casar com ela. O czar explicou à sua irmã Olga, rainha de Wuttenberg, a sua decisão: "Nunca me teria casado antes de fazer um ano de luto se não fosse pelos tempos perigosos em que vivemos. (...) A Catarina Dolgorukova preferiu recusar todos os prazeres e alegrias da sociedade que dizem tanto a uma jovem da idade dela, para dedicar a vida dela a amar-me a cuidar de mim. Por isso, terá todo o direito ao meu amor, carinho e gratidão". Alexandre esperava que a sua família o compreendesse e aceitasse, mas a maioria, principalmente as mulheres, ficou horrorizada. Alexandra Iosifovna recusou-se a sequer conhecer Catarina, desafiando assim uma ordem imperial. Constantino tentou conversar com ela, mas de nada lhe valeu e Alexandra só acabaria por ceder à última da hora porque uma das filhas de Catarina adoeceu e, na altura, a situação parecia grave. No entanto, apesar de tudo, manteve-se sempre fiel à memória da czarina, que tinha sido sua amiga.

Alexandra Iosifovna com a sua filha Olga.
Não teria de aguentar a situação durante muito tempo. Pouco depois do meio-dia de domingo, dia 1/13 de Março de 1881, Alexandre II saiu do Palácio de Inverno para participar numa parada militar que se realizava todas as semanas na Escola de Cavalaria de Mikhailovsky, ignorando as ameaças terroristas que agora faziam parte da sua vida. Respondia-lhes com a mesma coragem resoluta que tinha mostrado perante o seu neto Nicolau na Capela Gótica em Peterhof. Além disso, nesta ocasião, o seu sobrinho Dmitri Constantinovich, iria cavalgar ao seu lado como ajudante-de-campo pela primeira vez, e a última coisa que Alexandre queria era desiludi-lo ao cancelar a parada. Quando terminou, o czar foi visitar a sua prima, a grã-duquesa Catarina Mikhailovna, no Palácio de Mikhail. Estava já de regresso a casa quando duas explosões ensurdecedoras abalaram a cidade. No silêncio que se seguiu, uma multidão abalada e assustada reuniu-se à volta do Palácio de Inverno para saber o que tinha acontecido. O czar tinha sido atingido com uma bomba de fabrico manual no cruzamento do Canal de Catarina e, apesar de o seu irmão Miguel ter corrido para o seu lado para o ajudar, e de o czar ter sido transportado ainda com vida para o Palácio de Inverno, os seus ferimentos eram muito graves. Acabaria por morrer poucas horas depois e esta tragédia dividiu profundamente a sua família.

Alexandre II no seu leito de morte, rodeado da família.
No seu último ano de reinado, Alexandre tinha dado início aos procedimentos necessários para começar as discussões que iriam levar a uma reforma constitucional. Constantino era um dos principais impulsionadores e, na categoria de Presidente do Conselho de Estado, ajudou a preparar a proposta para a criação de uma assembleia eleita limitada que Alexandre iria aprovar precisamente no dia em que morreu. Para Constantino e os seus colegas reformadores, a esperança acabou poucos meses depois da ascensão do novo czar. Inicialmente, parecia que Alexandre III poderia dar continuidade às políticas do pai, mas, atrás das costas deles, dava ouvidos ao conservadorismo do seu antigo tutor e redigiu um manifesto no qual acabou com todas as esperanças de conseguir reformas. Quando os reformadores o ouviram, não tiveram outra escolha senão demitir-se. Para Constantino, o dilema era tanto pessoal como político, uma vez que o novo czar era o "Sasha-Patas-de-Urso", o sobrinho de quem ele não gostava e que tinha humilhado. Aquele incidente distante na Polónia deve ter sido apenas um entre muitos e Alexandre III deixou bem claro que o seu tio já não era bem-vindo na corte. Foi gentil com Alexandra, mas recusou os pedidos que ela lhe fez para perdoar o seu filho Nicolau, uma vez que era da opinião de que também não podia confiar no primo. A sua vigilância foi novamente reforçada e Nicolau foi transferido para Pavlovsk, antes de ser finalmente condenado ao exílio no interior do império, em Tashkent. O desdém que Alexandre sentia pelo grão-duque Constantino e pelo seu filho foi notado e fez com que se espelhasse pelas cortes europeias o rumor de que Constantino estaria envolvido no assassinato do seu irmão.

Constantino Nikolaevich
Sem mais nada para fazer, o grão-duque retirou-se para Pavlovsk. Os seus problemas de xadrez foram publicados em jornais internacionais, mas isso nunca poderia substituir a posição que ele tinha ocupado no centro dos assuntos de estado. Em 1883, visitou a sua filha Olga e a família dela na Grécia e estava ansioso pela visita deles à Rússia: adorava os seus netos gregos e costumava diverti-los pregando partidas a criados distraídos. Alguns já estavam tão habituados aos truques do grão-duque que deixaram de reagir, mas Constantino ficava exultante se os conseguisse fazer dar um salto ou gritar, um sinal do seu aborrecimento e do agravamento do seu mau-feitio.

Constantino Nikolaevich
Constantino sofreu uma pequena apoplexia no casamento da sua neta, a princesa Alexandra da Grécia, com o seu sobrinho, o grão-duque Paulo Alexandrovich, no verão de 1889 e, um segundo ataque pouco tempo depois, deixo-o paralisado da cintura para baixo e sem a capacidade de falar. As suas tentativas para comunicar traduziam-se numa série de barulhos incompreensíveis. Agora dependente do cuidado de outros, o grão-duque passou a ser da responsabilidade da sua esposa, que aproveitou esta época para se vingar de certa forma da sua infidelidade. Anna Kousnetsova e os seus filhos ainda viviam numa casa perto do palácio, que Constantino lhes tinha oferecido, mas Alexandra Iosifovna certificava-se de que os seus criados nunca o lavavam até lá e ele não podia ir sozinho. O seu neto, o príncipe Cristóvão da Grécia, testemunhou as consequências de uma das tentativas que o grão-duque fez para os ir visitar: depois de ser trazido para casa por um dos criados que sabia que já não seguiam as suas ordens, Constantino agarrou a sua esposa pelos cabelos e começou a bater-lhe com a bengala até surgir alguém para os separar. Deve ter sido uma situação miserável para ambos.

Alexandra Iosifovna
Em Janeiro de 1892, o grão-duque Constantino Nikolaevich morreu em Pavlovsk. Nos seus últimos anos de vida, tinha-se tornado numa figura misteriosa, suspeito do envolvimento em todo o tipo de conspirações dos quais nunca se teria aproximado ao longo de toda a sua vida, uma vez que, apesar de ser um homem difícil, e muitas vezes desagradável, tinha-se esforçado sem pausas para ajudar o seu irmão e o seu país. No entanto, poucas pessoas se lembram do seu contributo.


Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O Almirante General - Grão-Duque Constantino Nikolaevich - Primeira Parte

Grão-duque Constantino Nikolaevich da Rússia
A bomba no Palácio de Inverno foi apenas o início de muitas tentativas de assassinato e despertou os rumores mais inimagináveis. Murmurava-se em São Petersburgo que o grão-duque Constantino Nikolaevich estava a conspirar contra o trono do irmão e as más-línguas viam a sua mão em todos os atentados que eram feitos contra a vida de Alexandre. Nove anos mais novo do que o czar, Constantino conseguia ver apenas que havia a necessidade de fazer mudanças na Rússia, nunca pensava nas dificuldades, e incentivou o irmão com toda a confiança. Tinha uma forte veia de arrogância: a sua personalidade podia ser abrasiva e muitos desejavam a sua queda, mas, quando essa queda chegou, foi provocada pelo próprio Constantino e não pelos rumores. Deixou para trás uma família muito amada e unida que sempre foi leal à coroa... e uma ovelha muito negra.

O grão-duque Constantino Nikolaevich por Pyotr Fyodorovich Sokolov
"Podes imaginar a nossa alegria! Correu tudo muito bem e foi bastante rápido. Estou mais feliz do que eu mesmo consigo acreditar e agradeço a Deus com toda a minha alma". O czar Nicolau I adorava todos os seus filhos, mas, depois de nove anos a ter só filhas, ficou exultante quando a sua esposa deu à luz um segundo filho, em Setembro de 1827. O pequeno príncipe tinha apenas alguns meses de vida quando o seu pai o descreveu numa carta dirigida à sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, na Holanda, como "um rapaz grande, gordo e bonito, tão rápido e pesado que não consigo pegar nele: parece pertencer realmente à família, uma vez que a única coisa que ouve com prazer são os tambores". Quando tinha cinco anos de idade, Constantino tinha-se tornado demasiado obstinado e difícil para a sua governanta, por isso o seu pai decidiu contratar um tutor masculino. Foi o primeiro sinal da personalidade que iria tornar-se a sua característica menos atraente ao longo da sua vida.

Constantino com o seu pai, Nicolau I
O czar queria que, um dia, Constantino se torna-se almirante-general da Frota Russa, e escolheu um tutor com esse objectivo em mente. Frederick Lütke tinha circum-navegado o planeta aos vinte anos de idade e ensinou ao rapaz as ciências navais, enchendo-lhe a cabeça das suas histórias sobre a vida no mar. No hall do Palácio de Inverno, que na altura era uma espécie de sala de jogos para os filhos mais novos do czar, havia um navio feito à escala que era grande o suficiente para que os três rapazes subissem os mastros e aprendessem os fundamentos da navegação em terra firme. O jovem Constantino nunca se podia esquecer do seu destino e olhava ansiosamente para o futuro: "as horas do meu primeiro encontro com o rapaz passaram a correr," recordou Lütke, "com histórias sobre o Vesúvio, em Roma, e viagens marítimas. Senti imediatamente que a minha missão iria dar frutos."

Constantino Nikolaevich
No entanto, por muito ansioso que Constantino estivesse, o seu verdadeiro treino naval apenas iria começar aos doze anos de idade e, antes disso, o jovem grão-duque tinha de aprender outras coisas. Os seus pais e tutores criaram um programa de estudos muito menos académico do que o horário que Zhukovsky tinha criado para o czarevich. Só tinha três horas de aulas por dia e o resto do seu tempo era dedicado a caminhadas, exercícios e à música, uma vez que Constantino também aprendeu a tocar piano e violoncelo. Também começou a aprender francês e alemão, além de russo e inglês, que tinha começado a aprender ainda no berçário, e Constantino desenvolveu um grande gosto pela leitura. Lütke também estava decidido a ensinar o seu aluno aspectos sobre o mundo real que ficava além dos muros do palácio. Professor e aluno criaram uma amizade que iria durar o resto das suas vidas, mas, à medida que foi crescendo, Constantino passou a encontrar um ambiente mais estimulante a nível intelectual na casa da sua tia, a grã-duquesa Helena Pavlovna. Foi ela quem encorajou o seu gosto pela literatura e pela música, apresentando-lhe os melhores trabalhos que estavam a ser publicados na época. Também foi ela que lhe mostrou os mais recentes desenvolvimentos nas ciências e encorajou o idealismo político que iria caracterizar a sua vida.

Constantino Nikolaevich
Constantino vivia a alta velocidade. Antes de completar vinte-e-um anos de idade, ficou noivo da princesa Alexandra de Saxe-Altemburgo. Dizia-se que ela tão parecida com uma das irmãs de Constantino, a grã-duquesa Alexandra Nikolaevna, que tinha morrido alguns anos antes ao dar à luz, que a mãe dele começou a chorar quando a viu pela primeira vez. A princesa de Saxe-Altemburgo esteve em São Petersburgo para assistir à cerimónia de maioridade de Constantino, quando ele fez o juramento de lealdade ao seu pai e irmão mais velho, uma prática que tinha sido introduzida pelo seu pai para garantir que a ordem de sucessão nunca mais seria desafiada. O futuro czar Alexandre II foi o primeiro a fazer o juramento em 1834, quando tinha dezasseis anos de idade. Agora, no inverno de 1847, o czar conduziu o seu segundo filho à capela do Palácio de Inverno e "depois de fazer o sinal da cruz e de beijar a Bíblia, Constantino leu o juramento numa voz clara, com a mão levantada. Parecia estar muito impressionado, e, assim que acabou de ler o juramento, recebeu a bênção e um abraço do pai e da mãe, que estavam muito emocionados. Depois, abraçou os irmãos, as irmãs e a sua noiva". Depois, todos os presentes foram em procissão até ao Salão de São Jorge, onde o grão-duque voltou a repetir o juramento em frente de alguns oficiais e representantes do exército escolhidos a dedo.

Constantino Nikolaevich
Em Setembro de 1848, nove meses depois da sua cerimónia de maioridade, Constantino casou-se com Alexandra. A princesa juntou-se à família imperial como grã-duquesa Alexandra Iosifovna e, um ano depois, após a morte do grão-duque Miguel Pavlovich, marido da grã-duquesa Helena Pavlovna, o jovem casal herdou o Palácio de Pavlovsk, uma das propriedades mais bonitas dos Romanov. A maior parte da sua vida conjunta seria passada entre os palácios de Pavlovsk e de Mármore na cidade de São Petersburgo e o Palácio de Strelna, perto de Peterhof.

A grã-duquesa Alexandra Iosifovna
Alexandra Iosifovna era uma princesa até à ponta dos pés, com um sentido de dignidade nato e um respeito profundo pelos valores tradicionais. Nos seus últimos anos de vida, divertia-se quando ouvia as conversas das suas netas e damas-de-companhia sobre os seus pretendentes e contava sempre como os tempos tinham mudado. Recordava que, quando a sua irmã, a princesa Maria, tinha ficado noiva do príncipe-herdeiro de Hanôver, apenas o tinha visto uma vez e que, quando ele chegou ao palácio do pai dela para o anúncio oficial, a sua mãe mandou todas as quatro irmãs ao encontro dele vestidas com vestidos cor-de-rosa muito parecidos e com rosas no cabelo. O príncipe, que era praticamente cego, olhava para cada uma delas à vez, muito confuso. A noiva ficou muito envergonhada por não ser reconhecida e quase começou a chorar. Alexandra, que na altura tinha apenas doze anos, ajudou o seu futuro cunhado, dizendo-lhe em modo trocista: "Não sou eu!", mas foi preciso que um ajudante-de-campo empurrasse o príncipe na direcção de Maria para ele a encontrar. "Depois, deu-lhe um ramo de flores de modo cerimonial para as mãos e agradeceu-lhe a honra que lhe dava (...). A minha irmã fez uma vénia e eles ficaram noivos. Era assim que se fazia a corte no meu tempo", contava ela a rir-se.

Alexandra Iosifovna (em pé, à direita) com os pais, a princesa Amélia de Wüttenberg e José, Duque de Saxe-Altemburgo. No quadro encontra-se a sua irmã mais velha, Maria que, por sua vez, está a olhar para um outro retrato do seu marido, o futuro rei Jorge V de Hanôver. À esquerda de Alexandra está outra das suas irmãs mais velhas, a princesa Isabel de Saxe-Altemburgo, depois duquesa de Oldemburgo. 
No entanto, a corte dela foi mais elaborada: não havia dúvidas de que ela e Constantino tinham muitas coisas em comum e o casamento começou com muita felicidade. O seu primeiro filho, Nicolau, nasceu em São Petersburgo em 1859, sendo seguido, dezanove meses depois, de uma filha, Olga. Constantino era um pai carinhoso e o seu diário e cartas dirigidas ao seu irmão mais velho são testemunhos da harmonia pessoal dos seus primeiros anos de casado. Era raro os dois irmãos referirem as esposas sem usarem frases como "o teu anjo", ou, quando falavam dos filhos, sem referirem como eram crianças doces, gentis ou bonitas, adjectivos que ecoavam o afecto e orgulho que tinham nas suas famílias. Ambos os homens se envolviam completamente nos pormenores dos partos e dos cuidados para com as suas crianças, assuntos que a maioria dos homens da sua geração preferiam delegar às mulheres e criados. "Estou a escrever-te algumas palavras, meu querido Sasha", escreveu Constantino a partir de Strelna, no verão de 1858, pouco depois do nascimento do seu segundo filho, "para te contar que tudo aqui está a correr muito bem, graças a Deus. Hoje é o terceiro dia. O leite da minha esposa está a começar a aparecer, e os peitos dela estão cheios e inchados, o que lhe causa muito desconforto, mas, graças a Deus, ainda não há nenhum sintoma de febre. Infelizmente, as insónias que a afectaram há algum tempo voltaram. O pequeno Kostya [grão-duque Constantino Constantinovich] também está muito bem e fica deitado ao lado da mãe, na cama, o dia todo. A nossa mamã é inestimável, está connosco todos os dias e fica contente por poder ficar durante muito tempo. Ontem jantou comigo".

Constantino Nikolaevich com dois dos seus filhos.
Em Novembro de 1859, Nicolau adoeceu e os seus pais ficaram transtornados com preocupação. "O nosso pobre Nikola não está bem", escreveu Constantino no seu diário no quarto dia da doença, "a febre ainda não desceu, ele está a ficar mais fraco e os médicos começam a temer que seja tifo, apesar de não se atreverem a dizê-lo abertamente. Estamos muito preocupados. A nossa esperança está em Deus". Constantino e Alexandra passaram essa noite junto do filho, fizeram o mesmo no dia seguinte e ficaram encantados quando a criança começou a melhorar nessa noite. Os dois adoravam Nicolau, se calhar até demais, como os eventos futuros viriam a mostrar".
Constantino Nikolaevich com os seus filhos
No início do reinado do irmão, o que mais ocupava o tempo de Constantino eram os planos para uma reforma na marinha. Foi uma época durante a qual o grão-duque colocou os seus conhecimentos completamente à prova. Em 1857, as visitas que fez a Inglaterra e a França mostraram-lhe como deveria ser uma marinha moderna, mas tudo o que ele tinha eram 200 navios mal equipados, uma burocracia mal preparada que obstruía todos os seus movimentos, e praticamente nenhum financiamento. Constantino queria que o país tivesse os seus próprios estaleiros para que a marinha se libertasse da sua dependência de encomendas ao estrangeiro, mas era uma luta difícil. "Quero construtores de navios e marinheiros, não multidões de escrituários", dizia ele. Também explicou a um amigo quais eram as suas ambições a longo prazo: "estou prestes a criar um Marinha. Não temos nenhuma e temos de o fazer. O nosso primeiro dever é trabalhar no duro e não esperar grandes resultados (...) não devemos trabalhar para a nossa época, mas sim para o futuro". Nada parecia capaz de o parar, nem sequer as obrigações às quais o país se encontrava sujeito devido à Guerra da Crimeia e que proibiam a Rússia de colocar uma frota naval no Mar Negro.

Constantino Nikolaevich com o uniforme da marinha.
O grão-duque era energético e determinado, e, além de promover os seus planos para a marinha, também estava envolvido nas reformas dos colégios navais e militares, numa investigação rigorosa da corrupção no exército, e na revisão das leis intransigentes de censura do país. Patrocinava expedições para explorar e mapear zonas remotas do império. Era a arma secreta do czar. Abrupto e temperamental, odiava profundamente qualquer pessoa que se opunha às suas ideias, mas conseguia lidar mais eficazmente com os problemas que assombravam o seu irmão mais sensível. A emancipação dos servos, a reforma mais importante de todas, não era uma política popular. Quando o comité nomeado para a organizar colocava exigências e se mostrava inabalável, Alexandre chamava Constantino. O seu feitio fez com que ganhasse inimigos, mas ele insistiu nas suas ideias, apesar de essa atitude acabar por se tornar num pesadelo para ele. Depois de doze meses tempestuosos, Constantino perdeu a paciência e partiu num cruzeiro para o estrangeiro "desanimado e frustrado com tudo o que era dito sobre ele na Rússia". Regressou à sua posição quase um ano depois. Quando a emancipação entrou finalmente em vigor em 1861, Alexandre II agradeceu publicamente ao irmão o contributo que tinha feito.

Constantino Nikolaevich
Nesse mesmo ano, em 1861, alguns eventos trouxeram mudanças significativas à vida do grão-duque e da sua família. O sector russo da Polónia, repartida por vários países desde o século anterior, estava a passar por distúrbios e tinha sido imposta a lei marcial. O antigo vice-rei, que tinha implorado para ser libertado do seu cargo, tinha acabado por morrer de falha cardíaca.  À medida que a agitação aumentava, Alexandre achou que precisava de um vice-rei em quem pudesse confiar realmente e decidiu nomear Constantino. O grão-duque chegou a Varsóvia em inícios de 1862 e foi quase imediatamente alvejado no ombro por um aprendiz de alfaiate. O czar voltou a chamá-lo para casa, para o grão-duque recusou-se a ir e a sua esposa e família decidiram apoiá-lo e ficar com ele. Assim que pôde, Constantino apareceu em público e pediu o fim da violência.

Constantino Nikolaevich
O grão-duque sentia compaixão pelos polacos e, ignorando os conselhos dos generais nomeados pelo irmão, acabou com a lei marcial e deu início a um programa de liberalização. O polaco voltou novamente a ser a língua oficial do país, Constantino nomeou polacos para cargos administrativos e reuniu uma corte de polacos e russos de renome à sua volta. Muitos anos depois, a condessa Marie Kleinmichel, filha do conde von Keller, um dos ministros nomeados por Constantino, ainda recordava aquele período glorioso da sua vida.

Constantino Nikolaevich
Ainda criança na altura, Marie era muitas vezes convidada para brincar com os filhos do grão-duque. A sua filha mais velha, Olga, tinha-se tornado numa menina gentil e tímida, que se desfazia em lágrimas muito facilmente. A filha mais nova, Vera, passava longos períodos de tempo na Alemanha com a sua tia, a grã-duquesa Olga Nikolaevna, que não tinha filhos. Com doze anos de idade, Marie era, em idade, mais próxima do filho mais velho, Nicolau, que era já moreno, atraente e, em todos os aspectos, o filho favorito dos pais, ofuscando completamente os seus irmãos mais novos, Constantino, de quatro anos, e Dmitri, que era ainda bebé. Tanto Nicolau como Marie estavam, na altura, obcecados com o livro "A Casa de Gelo", que descrevia as lutas do herói Artemi Volinsky contra o malvado estadista Biron, durante o reinado da czarina Anna Ivanovna, no século XVIII. O jovem sonhava ser Volinsky e imaginava grandes aventuras, nas quais ele é que era o herói. Tinha herdado o idealismo do pai, mas também o seu orgulho e temperamento imprevisível.

Constantino e Alexandra com o seu filho mais velho, Nicolau.
Em Julho de 1862, a grã-duquesa Alexandra deu à luz o sexto filho do casal no Palácio de Lazienki em Varsóvia. Para elogiar os polacos, o casal decidiu chamá-lo Vacslav, mas a escolha foi infeliz. Os russos na corte em São Petersburgo insistiam em utilizar a forma russa do nome, Viacheslav, o que causou muitas querelas e situações desagradáveis desnecessariamente. Apesar de tudo, o bebé Vacslav, ou Viacheslav, foi baptizado em grande estilo. O seu tio, o grão-duque Miguel Nikolaevich e a esposa dele, assim como uma das filhas da grã-duquesa Maria Nikolaevna, duquesa de Leuchtenberg, viajaram até Varsóvia com as suas comitivas, e o czar mandou o seu segundo filho, o grão-duque Alexandre Alexandrovich, para segurar o bebé na pia. Com dezassete anos de idade, Alexandre era alto, pesado e desajeitado. Ao contrário do seu irmão mais velho, o czarevich, faltavam-lhe as boas maneiras e era, muitas vezes, tempestuoso nos momento errados, deitava mobílias ao chão e mostrava não se sentir confortável em ocasiões formais. Os seus primos até lhe chamavam "Sasha Patas-de-Urso".

Alexandra Feodorovna com o seu filho mais novo, Vacslav.
Durante a semana de festividades que assinalou o baptizado, os observadores mais atentos poderiam ter reparado que havia problemas no horizonte. O grão-duque Constantino não era um homem tolerante. Conhecia os filhos do irmão desde que eles tinham nascido e tinha uma relação particularmente próxima com o czarevich Nicolau. Quando o seu sobrinho mais velho começou a mostrar um interesse sério por música, Constantino registou esse facto com muito orgulho no seu diário e assistiu ao seu progresso com muita satisfação. No entanto, nunca tinha conseguido sentir o mesmo nível de afecto por Alexandre e ficou transtornado com o fraco desempenho que o jovem mostrou em Varsóvia. Durante um jantar formal, Alexandre deixou cair um decantador de vinho tinto, o que levou Constantino a comentar: "Vejam só o porco que nos mandaram de São Petersburgo". Alexandre não disse nada, mas lançou um olhar furioso ao tio e nunca lhe perdoaria a humilhação.

Alexandre Alexandrovich (futuro czar Alexandre III) com a sua prima, a princesa Eugénia de Leuchtenberg.
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

terça-feira, 4 de julho de 2017

Um Czar em Guerra - A Guerra Russo-Turca de 1877-78

Alexandre II
A 23 de Dezembro de 1877, Alexandre II entrou triunfalmente em São Petersburgo. Após vários meses de derrotas e desilusões, os seus exércitos conseguiram derrotar os turcos na Bulgária e na Arménia e pareciam estar mais perto do que nunca de conseguir cumprir o sonho de dar liberdade a todos os povos cristãos dos Balcãs e, talvez até o sonho ainda mais antigo de expandir a influência russa até Constantinopla. A família imperial e os oficiais mais importantes da corte e do governo deram-lhe as boas vindas na praça ao largo da Estação de Nicolau e as ruas estavam cheias com milhares de pessoas que o aplaudiam e se juntavam às comemorações. Chamavam-lhe "Duas Vezes Libertador", primeiro dos servos e, agora, dos Balcãs, e, em alguns momentos, a sua carruagem quase não conseguia avançar devido ao entusiasmo da multidão. Poucos dos que estavam presentes conseguiram chegar perto o suficiente para ver o efeito que a guerra tinha tido no "Czar Libertador", mas uma testemunha reparou com horror que "os seus músculos estavam relaxados, os seus olhos apáticos, a sua figura desleixada, todo o seu corpo tão magro que parecia não ter carne nos ossos. Tinham bastado alguns meses para ele envelhecer completamente". Assim que as comemorações oficiais terminaram, Alexandre escondeu-se no único lugar no mundo onde se sentia à vontade: a cada no Cais Inglês que tinha alugado em 1874 para a sua amante Catarina.

Alexandre II (sentado) com o príncipe Suvorov, o príncipe Carlos da Roménia e o grão-duque Nicolau Nikolaevich na vila de Pordim na Bulgária em 1877
Tinham passado três anos desde que a repressão exercida pelos turcos sobre os Balcãs tinha começado a alarmar os governos europeus. Um motim em Nevesinye, perto de Mostar, na Herzogovina, foi reprimido com grande crueldade. A instabilidade começava também a espalhar-se pela Sérvia e pela Bulgária, e as histórias sobre as atrocidades cometidas pelos turcos multiplicavam-se. Era difícil ignorar o que estava a acontecer, mas as grandes potências tinham os seus próprios planos contraditórios para os Balcãs e não parecia provável que fossem agir em conjunto. A Áustria queria aumentar o seu próprio império, ao mesmo tempo que a Grã-Bretanha queria proteger o seu status quo e evitar o risco de aumentar a influência russa na região. Já há vários anos que os pan-eslavistas russos tentavam fortalecer os laços dos Balcãs com a Igreja Ortodoxa e alguns intelectuais russos defendiam que deveria haver uma guerra de libertação na região.


Quadro a representar o Massacre de Batak, na Bulgária, um dos acontecimentos que levaria mais tarde ao rebentar da Guerra Russo-Turca de 1877-78
Em Janeiro de 1876, as grandes potências enviaram um protesto oficial à Turquia, que não teve qualquer efeito. Milhares de voluntários russos viajaram para sul e surgiu até o falso rumor de que um dos filhos do czar, o grão-duque Vladimir Alexandrovich, tinha oferecido os seus serviços ao príncipe da Sérvia. À medida que a crise se aprofundava e o movimento a favor da guerra ganhava expressão na Rússia, Alexandre II viajou por toda a Europa para defender a paz. Falou com o seu tio, o kaiser Guilherme I da Alemanha e com Bismark, o chanceler da Alemanha, e apelou também à ajuda da rainha Vitória através da sua filha Alice, que contou à mãe que o czar falou na necessidade de preservar a paz com lágrimas dos olhos. Depois, Alexandre tentou convocar uma conferência europeia. Em Julho, os turcos massacraram os habitantes de Batak, na Belgária, depois de estes terem prometido livre passagem em troca da sua rendição. A luta intensificou-se e Alexandre foi para casa.
Alexandre II
O czar não estava com vontade de entrar em guerra. Tinha testemunhado os danos que o conflito na Crimeia tinha causado no seu país e sabia que a Rússia não estava em condições de enfrentar outra guerra. As reformas que ele tinha tentado levar a cabo nas forças armadas ainda não tinham tido tempo de surtir efeito, mas dentro do país, a vontade de ir para a guerra era tal que ninguém queria dar ouvidos ao czar. Apesar de tal estar banido oficialmente, realizam-se apelos e recrutamentos para a guerra nos Balcãs por todo o império e até a própria família do czar estava profundamente empenhada na causa. Quando chegou a casa, Alexandre encontrou Maria Alexandrovna a financiar e equipar comboios hospitalares, incentivada pelo seu confessor, o padre Bajanov. A czarina estava firme no seu entusiasmo pela guerra e, após vários anos a trabalharem juntos, Alexandre e a sua esposa viram-se em lados opostos. Os seus irmãos e filhos também estavam ansiosos por se juntarem à luta e o czarevich Alexandre estava a dar permissão aos soldados do seu regimento para se juntarem para a guerra nos Balcãs. Os governos europeus não acreditavam que o governante autocrático de todas as Rússias tivesse tão pouco controlo e duvidavam da sinceridade dele. O stress desta época fez com que o asma de que Alexandre sofrera toda a vida piorasse e sentia-se magoado com os ataques de que era alvo na imprensa internacional. Colocou toda a sua esperança numa conferência de paz que estava planeada para Dezembro, mas Lord Beaconsfield, o primeiro-ministro britânico, piorou a atmosfera com um discurso sobre a inviolabilidade das possessões turcas que causou grande indignação na Rússia. Havia o perigo muito real de que, caso Alexandre não levasse o seu país para a guerra, o país iria para guerra sem ele, por isso, mesmo perante as acusações de duplicidade vindas do estrangeiro, Alexandre ordenou uma mobilização parcial.

Maria Alexandrovna
Em Março de 1877, as Grandes Potências ordenaram que a Turquia reduzisse a força dos seus exércitos e que prometesse reformas. A Turquia recusou. Alexandre partiu do Palácio de Inverno e caminhou sozinho até à Catedral de Kazan para rezar. A sua decisão estava tomada: a 12 de Abril, a Rússia declarou guerra à Turquia e, entre cenas de júbilo generalizado, as tropas receberam ordens para marchar para sul. Alexandre seguiu com elas, apesar de ter entregue o comando supremo dos exércitos ao seu irmão, o grão-duque Nicolau Nikolaevich. O seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel Nikolaevich, que comandava o exército do Cáucaso, iria abrir uma segunda frente de combate a ocidente do Mar Negro. Houve apenas uma pessoa que apoiou o czar sem rodeios: Alexandre escreveu a Catarina "compreendes melhor do que ninguém aquilo que sinto no começo de uma guerra que queria e esperava tanto evitar (...) É um pesadelo". O discurso que fez ao exército foi igualmente fatalista e honesto: "lamento profundamente ter de vos enviar nesta missão. Como devem saber, tentei continuamente evitá-la até a última réstia de esperança ter desaparecido. Agora, só posso desejar-vos sucesso".

Alexandre II
As chuvas fortes impediram a marcha do exército pelos planaltos da Valáquia e aumentaram de tal forma o caudal do rio Danúbio, a fronteira entre a Roménia e a Bulgária, que foi impossível passá-lo durante várias semanas. Alexandre viajou para sul com os seus filhos, Alexandre, Vladimir e Sérgio. O seu quarto filho, Alexei, estava a comandar uma companhia naval no Danúbio e os seus sobrinhos Nicolau Nikolaevich Júnior, que se tornaria comandante supremo dos exércitos russos em 1914, e Sérgio de Leuchtenberg também estavam a combater no exército russo. Outro sobrinho, o príncipe Alexandre de Battenberg, tinha recebido permissão especial para deixar o seu regimento em Berlim e juntar-se ao pessoal do czar. Recebeu a Cruz de Vladimir pelo papel que desempenhou na passagem do rio Danúbio, que foi conseguida a 27 de Junho com grande custo. A czarina tinha oferecido cinco comboios-hospital luxuosos com 600 camas, mas, nos primeiros dias da guerra, registaram-se milhares de mortes e feridos todos os dias que tinham se ser retirados do campo de batalha em carrinhos de mão, nas carroças das armas ou em carros de bois.

Caravanas de transporte de feridos russos durante a Guerra Russo-Turca
Alexandre escolheu como quartel-general a cidade de Sysov, na Bulgária, ao mesmo tempo que os engenheiros russos se apressavam por construir pontes permanentes ao longo do rio. O czarevich recebeu o comando do XII e XIII Corpos do exército, com ordens para aguentar uma linha de oitenta quilómetros ao longo do rio Lom, para proteger o flanco esquerdo do exército e ameaçar as forças turcas em Rustchuk, Shumla, Varna e Silistra. O futuro czar Alexandre III não era nenhum génio militar, mas segurou a sua posição com grande coragem contra um exército muito mais forte e ganhou um horror à guerra que iria durar o resto da sua vida. Todos os dias, escrevia cartas à sua esposa, Maria Feodorovna, que estava ocupada com trabalho caritativo em São Petersburgo para ajudar as famílias dos soldados feridos. Chegou mesmo a correr o rumor na cidade que a futura czarina se disfarçou de enfermeira para ir visitar o marido à frente de batalha.

O futuro czar Alexandre III e a sua esposa Maria Feodorovna
O czar também escrevia cartas todos os dias, mas não para a esposa. A czarina Maria Alexandrovna apoiava a guerra de tal forma que Alexandre sentia que não podia ser sincero com ela e guardava apenas para a sua amante Catarina os seus verdadeiros sentimentos sobre o que estava a acontecer e a sua ansiedade perante a atitude demonstrada pelas potências estrangeiras, principalmente por parte da Grã-Bretanha. Sentia-se humilhado por a sua saúde não lhe permitir lutar e trabalhava durante várias horas por dia, gastas principalmente em visitas aos hospitais de campanha para ver os soldados feridos. Sofria de insónimas e a sua asma piorou. O Dr. Botkin pediu-lhe que regressasse para norte, mas ele recusou.

Alexandre II
Inicialmente, o exército teve êxito, capturando as cidades de Tyvorno e Plevna, no entanto, a pressão da guerra não demorou a revelar fraquezas graves no alto comando. Depois de ter consigo atravessar para a Bulgária de forma épica através da passagem de Khainkioy e de ter conquistado Shipka com sucesso, a divisão do general Hourko foi obrigada a bater em retirada porque ninguém lhes enviou reforços. Tyvorno tinha grande importância simbólica, uma vez que era a antiga capital da Bulgária, mas os comandantes russos não conseguiram compreender a importância estratégica de Plevna, que ficava num cruzamento vital. Deixada sem uma defesa eficaz, a cidade voltou a cair em mãos turcas pouco tempo depois, e, após uma série de reviravoltas, Alexandre teve de mudar o seu quartel-general para Gorny Studen, a oeste de Tyvorno.

Tropas russas a marchar perante o czar Alexandre II e o grão-duque Nicolau Nikolaevich em Ploesti, 30 de Junho de 1877
No calor insuportável do verão, com mantimentos inadequados e, muitas vezes, inexistentes, Alexandre continuou a trabalhar sem parar. Um velho opositor das suas políticas, o príncipe Cherkassky, visitou Gorny Studen em Julho na categoria de comandante da Cruz Vermelha Russa, que tinha sido criada recentemente pela czarina Maria Alexandrovna, e ficou preocupado com a incompetência do pessoal, mas deixou muitos elogios a Alexandre: "neste vortéx", escreveu ele, "não posso deixar de admirar o imperador, que mantém a calma, apesar da sua agonia mental profunda. É a única pessoa por aqui que parece capaz de avaliar o que está mesmo a acontecer. Quando o vemos, cansado e doente como está, a visitar hospitais, a querer saber sobre os interesses e as necessidades dos homens, a comportar-se com a dignidade de um soberano e a compaixão de um amigo (...) é impossível não o amar como um homem."

Médicos e enfermeiros da Cruz Vermelha Russa num hospital de campo durante a Guerra Russo-Turca
Apercebendo-se tarde demais de que precisavam de Plevna, os russos tentaram voltar a conquistar a cidade, mas o primeiro assalto, realizado a 20 de Julho, resultou em milhares de vítimas. Os atacantes estavam em menor número numa proporção de 3 para 1 e, se os turcos tivessem continuado a sua retirada atá ao fim, as esperanças da Rússia poderiam ter acabado nesse mesmo dia. Dez dias depois, tentaram um segundo assalto que também falhou. Gorny Studen já não estava a salvo e o quartel-general de Alexandre teve de ser deslocado novamente. Os seus filhos pediram-lhe em vão que deixasse a Bulgária. A leste, o exército do grão-duque Miguel Nikolaevich foi dizimado pelos turcos em Kizil Tépé: era quase impossível que a moral esteve mais baixa e Alexandre foi obrigado a pedir ajuda ao príncipe Carlos da Roménia, que contribuiu com um exército de 50.000 homens e 180 armas. O czar também voltou a chamar o general Totleben, que tinha ganho fama graças à defesa de Sevastopol durante a Guerra da Crimeia. Em inícios de Setembro, foi levado a cabo um terceiro assalto a Plevna que também falhou e resultou na morte de 25.000 pessoas. Os romenos lutaram com grande bravura e firmeza, o que conquistou a admiração de todos, mas um oficial inglês deixou uma descrição do estado caótico em que se encontrava o exército russo: "a negligência e falta de organização (para os feridos) é assombrosa. Um dia, em Plevna, três mil soldados russos, feridos na cabeça, braços e peito, tiveram de marchar vinte milhas para a retaguarda, uma vez que só havia carros de bois para aqueles que não se aguentavam de pé!". "Deus nos ajude a acabar com esta guerra", escreveu Alexandre à sua amante Catarina, "desonra a Rússia e a Cristandade. É esta a angústia do meu coração e ninguém a compreende melhor do que tu, meu tesouro e minha vida".

A batalha em Plevna
Na Rússia, a moral também estava em baixo. As pessoas tinham imaginado uma guerra vitoriosa rápida, com muito brilho e glória e não estavam preparadas para o que estava a acontecer. Os grão-duques eram criticados, o czar foi acusado de cobardia por não participar nas batalhas e de negligência por não regressar a São Petersburgo - alguém tinha de arcar com as culpas de toda a miséria. Houve quem defendesse a criação de uma Assembleia Nacional e a actividade revolucionária era abundante. A 13 de Setembro, realizou-se um concílio de guerra no quartel-general. Temendo que, com a chegada do inverno, houve uma falha geral na entrega de mantimentos, o grão-duque Nicolau Nikolaevich era da opinião de que o exército devia bater em retirada pelo Danúbio até chegar à segurança da Roménia e os seus comandantes concordaram. Apenas Milutin, o ministro da guerra, se manifestou contra a ideia, afirmando que a Rússia não se podia dar ao luxo de abandonar uma posição que já tinha custado a vida a 60.000 pessoas: Plevna comandava a estrada para sul, por isso era necessário conquistar Plevna. Rompeu uma violenta discussão até que o czar se levantou. "Não haverá retirada, cavalheiros", afirmou e, depois, saiu da sala na companhia de Milutin e Totleben.

O grão-duque Nicolau Nikolaevich Sr.
Alexandre tinha assumido o controlo e os efeitos da sua decisão foram abrangentes. Totleben passou a comandar o cerco de Plevna e recusou-se a desperdiçar mais vidas num ataque frontal, decidindo, em vez disso, concentrar-se em cortar todas as vidas de fornecimento de mantimentos à cidade. Quando chegou o inverno, o Dr. Botkin voltou a pedir para Alexandre regressar a casa, uma vez que a sua asma, insónias e o stress da campanha tinham piorado consideravelmente. Alexandre contou a Catarina que "todas estas visões fazem sangrar o meu coração e é difícil para mim aguentar as lágrimas". No entanto, estava determinado a ficar até que Plevna caísse.

Alexandre II
 A 24 de Outubro, o seu sobrinho, o príncipe Sérgio de Leuchtenberg, morreu em combate. Sérgio pertencia ao XII Corpo do czarevich, que tinha recebido ordens para avançar na direcção de Basarbowa e Iovan-Tschiflik depois de pequenos grupos de combate terem conseguido fazer os turcos recuar nessa região. Em Basarbowa, os combates intensificaram-se: Sérgio estava a liderar um grupo de reconhecimento quando uma bala turca o atingiu na têmpora e o matou. Tinha vinte-e-seis anos de idade. Longe, em Berlim, a princesa-herdeira da Prússia lamentou a sua morte, apesar de acrescentar que o príncipe "era o mais rebelde que se pode imaginar". No entanto, quem o conhecia melhor tinha uma opinião mais gentil. Sérgio era um jovem culto e inteligente que tinha passado grandes períodos de tempo a viver na Itália. Doze anos antes, em Florença, tinha sido ele o maior conforto que o seu primo, o czarevich Nicolau, tinha tido quando estava a morrer, uma vez que Sérgio o confortava com descrições das maravilhas da cidade que conhecia tão bem. Uma amiga dele, a princesa Kurakin, tinha-se encontrado com ele na casa da irmã antes de ele partir para a frente de combate: "era um europeu ocidental de gema" recordou ela, "um artista, elegante e inteligente. Adorava a Itália, a casa das artes, a ciência e a cultura, mas disse-me que não tinha qualquer compaixão pelos búlgaros, sérvios e outros eslavos". A guerra tinha matado um dos seus poucos opositores.

O príncipe Sérgio de Leuchtenberg, filho da grã-duquesa Maria Nikolaevna e sobrinho do czar Alexandre II.
A primeira oportunidade surgiu a leste em Novembro, quando o general Loris Melikov, o chefe do pessoal do grão-duque Miguel Nikolaevich, conquistou a cidade de Kars. Plevna caiu a 10 de Dezembro, após algumas horas de combate, quando os turcos tentaram quebrar as linhas russas uma última vez. Alexandre esteve presente numa missa de acção de graças na cidade capturada antes de regressar a São Petersburgo, tal como tinha prometido. Chegou ás 10 da manhã do dia 23 de Dezembro e foi recebido por multidões em júbilo.

Depois da conquista de Plevna, a resistência turca esmoreceu. Ao mesmo tempo que Alexandre entrava em São Petersburgo, a divisão do general Hourko repetia a sua travessia dos Balcãs. Desta vez, conquistou Shipka e avançou na direcção de Sofia. Algumas semanas depois, o general Skobelev, cunhado do príncipe Eugénio de Leuchtenberg, irmão mais velho de Sérgio, conquistou Adrianpole sem disparar um único tiro e, em Fevereiro, foram assinadas as tréguas e começaram as negociações para um tratado de paz. O Tratado de San Stefano criou uma grande Bulgária autónoma - na verdade, autónoma só em nome, uma vez que, na verdade, se encontrava sob controlo russo - e deu a independência à Roménia, Sérvia e Montenegro, assim como o pagamento de indemnizações e território à Rússia. No entanto, as clausulas do tratado eram pouco generosas para o príncipe da Roménia, cujo exército tinha dado um apoio essencial quando a Rússia estava no seu ponto mais baixo.

Negociações do Tratado de San Stefano
As Grandes Potências ficaram alarmadas e decidiram que a Rússia não devia beneficiar tanto. Os países dos Balcãs também ficaram alarmados, uma vez que agora o caminho estava aberto para a cidade de Constantinopla. Alexandre considerou a hipótese de ordenar a conquista da cidade, mas depois esmoreceu. As suas tropas estavam a sofrer de tifo e já não havia dinheiro para pagar uma guerra prolongada. Os britânicos enviaram uma força naval para o Mar Negro para o desencorajar ainda mais. A princesa Maria de Battenberg descreveu a ansiedade que sentiu nas semanas que se seguiram, uma vez que o seu irmão Alexandre fazia parte do exército de Alexandre e um outro irmão, Luís, pertencia à Marinha Britânica e estava a bordo de um dos navios que tinha sido enviado para o Mar Negro.

As famílias reais de Battenberg e Hesse-Darmstadt em Osborn, Inglaterra. A princesa Maria de Battenberg encontra-se de pé, no extremo esquerdo da fotografia, ao lado do seu irmão, o príncipe Alexandre de Battenberg, depois príncipe da Bulgária. Na fotografia também se encontram os seus pais Alexandre e Júlia, os restantes irmãos (Henrique e Luís) e as suas respectivas famílias, incluindo a princesa Beatriz do Reino Unido, as princesas Irena, Alix e Vitória de Hesse-Darmstadt, o príncipe Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt e o grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt.
O czar não teve outra escolha senão voltar atrás, mas o seu país nunca conseguiu perdoá-lo. Os termos do Tratado de San Stefano foram alterados por um congresso internacional em Berlim, no qual as outras potências intervieram para ficarem com a sua parte dos despojos. Mesmo assim, a Rússia conseguiu libertar os Balcãs do domínio turco e estabelecer o novo estado da Bulgária. No aniversário de Alexandre II em 1879, o seu sobrinho, o príncipe Alexandre de Battenberg tornou-se no primeiro príncipe reinante da Bulgária.

Alexandre de Battenberg, sobrinho de Alexandre II e primeiro príncipe reinante da Bulgária.
No entanto, dentro da Rússia, as consequências da guerra foram tão más quanto o czar tinha previsto. Os termos do novo acordo foram muito mal recebidos, havia grande instabilidade e os grupos terroristas começaram a surgir a um ritmo nunca antes visto. Multiplicavam-se os assassinatos políticos e foram os heróis da guerra (Hourko, Totleben e Loris Melikov) que receberam a responsabilidade de controlar a situação. Incentivado por Loris Melikov e pelo grão-duque Constantino Nikolaevich, Alexandre deu início a um novo programa para levar a cabo uma reforma constitucional, a única forma que o governo via para acalmar os distúrbios a longo prazo. No entanto, em privado, Alexandre estava doente, desiludido e muito cansado. Agora, estava completamente dependente a nível emocional de Catarina Dolgorukaya e chocou profundamente a sua família, a corte e toda a Europa quando a convidou a ela e aos filhos a viver no Palácio de Inverno, para os poder ver com mais frequência enquanto a sua esposa definhava nos seus aposentos, que ficavam imediatamente abaixo dos da amante do marido e da família. Alexandre passaria o resto da sua vida a viver numa espécie de exílio, tanto em público como em privado.

Alexandre II com a sua amante, Catarina, e dois dos seus filhos.
No entanto, ninguém sabe ao certo qual era a opinião de Maria relativamente à amante do marido e à sua segunda família, depois de o segredo se tornar ainda mais exposto. Em Julho de 1878, Maria Alexandrovna sofreu uma crise grave na sua doença e parecia estar prestes a morrer, mas recebeu e ficou na companhia do marido, partilhando com ele as suas preocupações do dia-a-dia, como sempre tinha feito. A ideia de que o seu casamento só existia em nome depois do caso amoroso de Alexandre com Catarina não passa de um palpite, e a verdade podia ter sido bastante diferente. Vera Borovikova, a criada que cuidava dos filhos de Catarina, descreveu uma ocasião durante estes últimos anos da vida da imperatriz, quando Georgi e Catarina (filhos de Alexandre e Catarina) visitaram o Palácio de Inverno. O próprio czar levou-os até ao quarto da imperatriz e apresentou-lhes a sua esposa como "tia" Maria. Depois, a imperatriz abençoou as crianças e tanto ela como o marido ficaram em lágrimas.

Maria Alexandrovna
Há profundezas em todas as relações que o mundo exterior simplesmente não consegue compreender. Até ao fim, quando Maria estava prestes a morrer, Alexandre nunca se esqueceu de tudo o que os dois partilharam nem o que significavam um para o outro. Em Fevereiro de 1880, quando uma bomba terrorista destruiu a sala-de-jantar do Palácio de Inverno, onde Alexandre II estava prestes a jantar, num ataque que matou muitos soldados que se encontravam no andar de baixo, Maria tinha acabado de regressar de Cannes, naquela que provavelmente era a pior altura do ano para quem sofria de tuberculose. O primeiro impulso de Alexandre foi correr até ao quarto dela para garantir que ela estava bem. Quando a encontrou ainda a dormir, sentou-se do lado de fora da porta para que pudesse ser o primeiro a contar-lhe o que tinha acontecido e reconforta-la. Durante catorze anos, o czar Alexandre II tentou ser o marido de duas mulheres e o pai de duas famílias, sem magoar ninguém. Mas esse era um desafio demasiado exigente, até para um czar.

Alexandre II lamenta a morte da esposa Maria Alexandrovna numa gravura da época.

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat