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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Atrás da Imperatriz - A Grã-Duquesa Maria Pavlovna - Primeira Parte

A família imperial russa em 1892

No início do século XIX, a Rússia não estava habituada a ter uma família real. Paulo foi o primeiro czar desde do século XVII a ter uma grande família e foi ele que definiu os Estatutos da Família que estabeleceram a ordem de sucessão, a religião e os casamentos dos seus descentes, algo que lhes viria a causar muita mágoa no futuro. A Revolta Dezembrista colocou os estatutos à prova pela primeira vez: depois de suceder ao trono de uma forma incerta, Nicolau I estava determinado a unir os seus filhos como se se tratassem de uma unidade disciplinada ao serviço da coroa. Um a um, à medida que foram chegando à idade adulta, os seus filhos foram chamados para prestar o Juramento de Lealdade, anunciando a sua fidelidade ao czar perante representantes do governo, da igreja e do exército - e cada um deles proferiu as palavras com sentimento. Nicolau criou uma família unida, impondo a sua autoridade. Alexandre II fortaleceu os laços entre si e os seus irmãos instituindo reuniões de família regulares que, aos poucos, foram atraindo uma nova geração para a "firma". Também fez questão de ter uma boa relação com os filhos dos seus irmãos. No entanto, as mulheres que entravam na família por casamento eram mais difíceis de dominar: o caso amoroso e o segundo casamento de Alexandre fizeram com que todas elas se afastassem e não temos forma de saber como seria a relação da família caso o czar não tivesse sido assassinado tão pouco tempo depois do casamento. No entanto, essa morte trouxe uma mudança ainda mais importante. Pela primeira vez, havia uma geração mais velha de príncipes Romanov, comprometidos por juramento a ser leais ao seu jovem sobrinho. Foi durante o reinado de Alexandre III que começaram a surgir as primeiras fissuras na unidade familiar que tinha sido criada pelo seu avô. A forma como tratou o grão-duque Constantino Nikolaevich mostrou a falta de confiança que tinha nos tios e, pior ainda, com o passar do tempo, também a sua relação com o seu irmão Vladimir começou a ser questionada. Vladimir era esperto e ambicioso e alguns diziam mesmo que tinha sido o filho favorito do seu pai. Logo desde a sua infância que a família sentia que Vladimir estava destinado a grandes feitos: o potencial para surgirem ciúmes e ressentimentos sempre esteve presente, mas só floresceu verdadeiramente quando ele se casou com uma princesa com um nível de ambição parecido com o dele. Ao recordar de forma incrível a corte de São Petersburgo, a rainha Maria da Roménia descreveu com as seguintes palavras o motivo pelo qual a sua tia 'Miechen', a grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia, era inesquecível:

A grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia
"Logo atrás da imperatriz [Maria Feodorovna] vinha a tia Miechen, mais deslumbrante do que um pôr-do-sol, com um vestido laranja bordado a ouro. Sempre que se mexia, as pérolas em forma de pêra no seu diadema balançavam graciosamente para trás e para a frente. Não era magra o suficiente para as linhas clássicas dos vestidos, mas veste as roupas melhor do que qualquer outra mulher presente. Os ombros dela eram sublimes e brancos como creme. Tinha um ar de inteligência que mais ninguém conseguia mostrar".

A grã-duquesa Maria Pavlovna (dir.) com a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna na coroação de Nicolau II em 1896.
As palavras mais reveladoras nesta descrição são "atrás da imperatriz". Foi essa a posição que Maria ocupou e ressentiu durante grande parte da sua vida adulta. Algumas pessoas parecem nascer para ocupar uma posição mais importante do que aquela que o destino reserva para elas. Quando sentem esta limitação, os resultados podem ser desastrosos. A grã-duquesa Maria Pavlovna era uma dessas pessoas. Determinada, inteligente e imperial, teria sido uma imperatriz impressionante. Não foi feita para ser a esposa do segundo filho.

Maria Pavlovna com o marido, o grão-duque Vladimir Alexandrovich e os seus quatro filhos: Cyrill, Boris, André e Helena.
"Miechen" nasceu como duquesa Maria de Mecklemburgo-Schwerin, na primavera de 1854. Nasceu em Ludwigslust, uma residência de campo que ficava a sul da capital do grão-ducado. O ducado era um local calmo e rural que ficava na costa norte da Alemanha. Anos mais tarde, uma das cunhadas de Maria, a rainha Guilhermina dos Países Baixos [casada com o seu meio-irmão Henrique de Mecklemburgo-Schwerin], descreveu o território da seguinte forma: "com pouca gente, cheio de colinas e lagos, campos de milho e florestas". O ducado de Mecklemburgo-Schwerin que Guilhermina conheceu era hostil para com os seus vizinhos prussianos, mas, durante a infância de Maria, foi precisamente a influência prussiana que a dominou, algo que não é de admirar, tendo em conta que o verdadeiro poder em Schwerin estava nas mãos da formidável grã-duquesa viúva Alexandrina, irmã do rei da Prússia. Alexandrina dominava o seu filho, o grão-duque Frederico Francisco II, e deu estabilidade à sua neta, que teve uma infância cheia de tragédias. As duas tinham muitas parecenças. Alexandrina era uma mulher orgulhosa, abençoada com uma confiança absoluta em si mesma e na verdade das suas opiniões. Conseguia ser encantadora, mas, se alguém se metia no seu caminho, era absolutamente cruel.

Alexandrina da Prússia, avó paterna de Maria Pavlovna.
Maria foi a primeira filha do grão-duque. Antes, ele e a sua esposa, a princesa Augusta Reuss-Kostritz, tinham tido dois filhos: Frederico Francisco e Paulo Frederico e, depois de Maria, tiveram ainda mais dois rapazes, um dos quais morreu ainda pequeno. Maria perdeu a mãe quando tinha apenas sete anos de idade. As más-línguas disseram que o grão-duque recuperou da sua dor incrivelmente depressa e. pouco depois, já estava à procura de uma nova esposa. Durante algum tempo, parecia que os seus filhos teriam como madrasta a princesa Maria de Cambridge, que, mais tarde, se tornaria duquesa de Teck, mas nada aconteceu. Depois, em Maio de 1864, dois dias antes de a sua filha completar dez anos de idade, o grão-duque casou-se com a princesa Ana de Hesse-Darmstadt, sobrinha da czarina Maria Alexandrovna [e tia da futura imperatriz Alexandra Feodorovna].

Frederico Francisco II, pai de Maria Pavlovna, com a sua segunda esposa, a princesa Ana de Hesse-Darmstadt.
Tal como Maria, Ana era a única filha no meio de uma família de rapazes. Todos a adoravam, mas a princesa teve pouco tempo para causar impacto na sua nova família, uma vez que morreu ao dar à luz onze meses depois do casamento e seriam precisos mais quatro anos até o grão-duque conseguir encontrar uma nova mãe para os seus filhos. Durante esses anos, muito aconteceu na Alemanha. Enquanto a maioria dos príncipes alemães apoiou a Prússia com grande relutância durante a Guerra Austro-Prussiana de 1866, ou recusaram dar o seu apoio de todo, Frederico Francisco era um fervoroso apoiante de uma Alemanha unida sob a liderança da Prússia. Esta atitude causou ressentimento entre os seus vizinhos, mas ficar do lado vencedor fez com que Frederico preservasse o seu ducado e deu à sua família uma nova confiança e posição. No verão de 1868, o grão-duque casou-se pela terceira vez, desta vez com a princesa Maria de Schwarzburg-Rudolstadt, que era apenas quatro anos mais velha do que a sua filha.

Maria de Schwarzburg-Rudolstadt, a segunda madrasta de Maria Pavlovna.
A nova grã-duquesa era gentil e descontraída. Sem o orgulho e auto-estima da sua sogra, os seus gostos eram simples e impunha poucas regras na sua casa. Não existem registos do que ela pensava dos seus enteados nem do que eles pensavam dela, mas foi a sua chegada à família que quase decidiu o futuro de Maria. Em inícios de 1871, a princesa-herdeira da Prússia visitou Schwerin e reparou que estavam a decorrer negociações entre as famílias de Mecklemburgo e Schwarzburg. A 27 de Maio escreveu à rainha Vitória: "De certeza que já ouviste dizer que a Maria de Schwerin está noiva daquele idiota do Jorge de Schwarzburg (...) já foi anunciado oficialmente e foi tudo por cabeça dela. Ele parece-se mais com um ganso do que nunca". O "grande ganso" era o príncipe reinante de Schwarzburg-Rudolstadt, um primo em segundo grau da madrasta de Maria. Ele tinha trinta-e-três anos e Maria tinha acabado de fazer dezassete.

Maria Pavlovna em 1865
Os eventos que se seguiram ao longo dos anos seguintes colocaram Maria nas bocas de toda a realeza europeia. A ideia de se casar com Jorge de Schwarzburg tinha sido dela, mas, poucas semanas depois, foi também ela que decidiu romper o noivado depois de ter surgido uma oportunidade melhor. O grão-duque Vladimir Alexandrovich, terceiro filho do czar da Rússia, tinha vinte-e-quatro anos de idade, era culto, inteligente e possuía uma grande fortuna. O seu gosto exagerado pelas coisas boas da vida tinham prejudicado a cintura do grão-duque, mas ele continuava a ser atraente e, em Junho, fez uma visita à Alemanha com a sua família. Maria ficou impressionada e o pobre Jorge de Schwarzburg acabaria por ficar solteiro o resto da vida.

Maria Pavlovna em 1872
A grã-duquesa viúva pode ter tido alguma influência nesta mudança de opinião: se a princesa-herdeira da Prússia tivesse razão, Jorge não era um grande partido. Alexandrina tinha grandes ambições para a sua família e sentia uma simpatia profunda pela Rússia e tia-avó de Vladimir [a sua irmã mais velha, Alexandra Feodorovna, nascida Carlota da Prússia, era esposa do czar Nicolau I]. No entanto, romper um noivado era um passo perigoso. Toda a gente ficou a saber que Maria estava interessada em Vladimir, no entanto o anúncio do noivado tardava em chegar.

Vladimir Alexandrovich
Quando chegou o ano novo, a jovem duquesa foi considerada novamente "disponível". Em Janeiro de 1872, a rainha Vitória estava preocupada com essa ideia, uma vez que o seu filho favorito, o príncipe Artur, estava prestes a viajar até à Alemanha para conhecer princesas adequadas para se casar. Estaria em segurança? A rainha deu instruções muito claras ao seu tutor. Segundo ela, dizia-se que Maria "era muito bonito, mas também uma grande coquette que deitou fora a oportunidade de se casar com um príncipe de quem estava noiva para tentar conseguir um grão-duque russo. É bem possível que tente apanhar o príncipe Artur, mas não deve ser considerada". Chegou a primavera e depois o verão e mesmo assim o noivado com Vladimir ainda não era oficial, apesar de ele também estar interessado em casar-se com ela. Em Novembro, a princesa Alice contou à rainha Vitória o motivo: "a imperatriz da Rússia acabou de me escrever a informar-me que o noivado com a Maria de Mecklemburgo é completamente impossível uma vez que ela não quer mudar de religião. Espero que todas as outras princesas alemãs lhe sigam o exemplo".

Maria Pavlovna com a sua irmã mais nova, Ana, que morreu antes de chegar à idade adulta.
A determinação que se iria destacar em Maria muitos anos depois já se começava a notar. Depois de ter desistido da possibilidade de se tornar numa princesa reinante, ainda que de um principado menor, para ficar com Vladimir, agora mostrava que apenas o iria fazer se a união fosse realizada segundo os seus próprios termos. Teve de esperar quase dois anos: 1873 chegou e passou e parecia cada vez mais impossível chegar a um acordo. No entanto, com o chegar de uma nova primavera, os muros começaram finalmente a ruir. Alexandre II escreveu ao grão-duque Frederico Francisco a dar a sua permissão para que Maria se casasse com o seu filho. Depois de abrir uma excepção aos rigorosos estatutos da família Romanov, o czar deu também permissão para que Maria mantivesse a sua religião luterana sem que Vladimir perdesse os seus direitos de sucessão ao trono. (Actualmente, alguns membros da família Romanov contestam esta versão dos acontecimentos e afirmam que os seus parentes mais velhos lhes contaram que Vladimir assinou um documento secreto de renuncia ao trono para se poder casar com Maria. No entanto, nunca surgiu nenhuma prova de que tal tivesse mesmo acontecido). O noivado foi anunciado em 1874 e foi muito bem recebido na Alemanha, onde a atitude forte de Maria foi vista como uma grande vitória. As filhas mais velhas da rainha Vitória concordavam com essa opinião, mas mostravam também uma certa cautela. Alice tinha discutido o assunto com a mãe de Vladimir e tinha a certeza que a czarina tinha cedido à ideia do noivado contrariada. A princesa-herdeira previu que a situação iria acabar em conflito: "Não acho que o casamento da Maria de Schwerin com o Vladimir tenha grandes hipóteses de ser feliz", escreveu ela, "e ser de outra religião num país tão preconceitoso vai, sem dúvida, dificultar-lhe muito a vida". 

Fotografia do noivado entre Maria e Vladimir
É possível que o próprio czar tivesse as suas dúvidas. A sua decisão não foi popular dentro da família nem na sociedade. Ninguém queria que os seus adorados costumes e tradições fossem contrariados por uma jovem estrangeira. Vladimir e Maria casaram-se no Palácio de Inverno em Agosto e, provavelmente, não foi por acaso que a cerimónia se realizou no pico do verão. O embaixador britânico na Rússia, Lord Augustus Loftus, escreveu que "nesta época do ano, a cidade está praticamente deserta e, por isso, só vieram [ao casamento] aqueles que eram obrigados". A irmã de Vladimir, a grã-duquesa Maria Alexandrovna, tinha-se casado com o príncipe Alfredo do Reino Unido sete meses antes e Lord Augustus comparou as duas cerimónias de forma bastante desfavorável. Até a cerimónia protestante, pela qual Maria tanto tinha lutado, "pareceu muito aborrecida, quando comparada com a magnifica missa russa. Felizmente, não durou muito tempo".

A grã-duquesa Maria Pavlovna pouco depois da sua chegada à Rússia.
No entanto, apesar de tudo, o embaixador mostrou grande admiração pelo mais recente membro da família imperial. "A jovem grã-duquesa é uma personagem superior. Não é muito bonita, mas é extremamente intelectual e com um porte gracioso e digno. No Te Deum pelo aniversário do imperador, permaneceu sempre erecta enquanto todos os outros se ajoelhavam e faziam o sinal da cruz. Aqui é uma surpresa uma princesa estrangeira casar-se com um grão-duque e manter a sua religião, mas é um processo ao qual se terão de habituar, senão, em breve, não haverá esposas para os grão-duques russos".

Maria Pavlovna
Maria tinha chegado a São Petersburgo com a determinação de enfrentar a hostilidade de frente e com a cabeça erguida. Havia um tom de desafio até no patronímico que escolheu: "Pavlovna" era uma homenagem não só ao seu avô, o grão-duque Paulo Frederico de Mecklemburgo-Schwerin, mas também ao avô dele, o czar Paulo I da Rússia. O nome era uma lembrança constante de que Maria era também uma descente directa dos governantes mais poderosos da Rússia. A grã-duquesa considerava-se igual em estatuto ao marido e o resto da família costumava até dizer que ela era uma eslava mais autêntica do que eles, devido às origens eslavas da sua família. Segundo um amigo, o príncipe von Bulow, Maria achava piada ao antigo rumor de que o seu marido, os irmãos e a irmã dele não eram, na verdade, descendentes do grão-duque de Hesse-Darmstadt, mas sim de um dos seus oficiais da corte.

Vladimir Alexandrovich e Maria Pavlovna
No entanto, o casamento em si valeu a pena toda a luta. Quando era solteiro, Vladimir tinha fama de playboy, mas a sua personalidade e a de Maria eram muito semelhantes e o escândalo nunca tocou a sua relação. Eram felizes e, inicialmente, Maria adoptou com prazer o estilo de vida sumptuoso do marido: Vladimir foi o primeiro grão-duque a levar a sua esposa directamente para um palácio construído de propósito para ela. Na barragem do Neva, o local mais prestigiante de São Petersburgo, tinha mandado construir o Palácio de Vladimir, o edifício novo mais luxuoso da capital, com todas as funcionalidades mais recentes, decorado em grande. Poucas semanas depois de se instalar, Maria tinha já encomendado novas fardas de verão vermelhas para os criados.

Maria Pavlovna
No Natal, o casal encontrava-se em Czarskoe Selo, onde ficou durante algum tempo antes de regressar à cidade para uma ronda de festas que lhes ocupou o ano até à Quaresma. Nessa altura, Maria começou a sentir os sintomas da sua primeira gravidez e, em Julho, a sua avó viajou até São Petersburgo para assistir ao parto. O bebé, um rapaz, nasceu de boa saúde em Czarskoe Selo em finais de Agosto e recebeu o nome de Alexandre em honra do seu avô, o czar. Embora muitos membros da família continuassem a tratar Maria friamente, o seu sogro sempre a tratou com grande carinho e ela nunca o esqueceria.

Maria com o seu filho Kyrill
Em Outubro de 1876, Maria deu à luz o seu segundo filho, Kyrill, no entanto, pouco tempo depois, seguiu-se uma tragédia: o pequeno Alexandre morreu em Março de 1877. Como forma de a compensar, discretamente, o czar Alexandre II nomeou-a chefe do 37.º Regimento de Infantaria. Maria sabia cavalgar muito bem e gostou da oportunidade de participar na inspecção das tropas com o marido. Antes do final do ano, deu à luz o seu terceiro filho, Boris, e dois anos depois, um quarto filho, André. A sua única filha, Helena, nasceu em 1882. Os seus quatro filhos eram crianças bonitas e os pais sentiam-se imensamente orgulhosos deles. A cada dois ou três anos, costumavam levá-los até Schwerin. Kyrill recordou mais tarde uma ocasião na qual a grã-duquesa Alexandrina se vestiu de gala, sem esquecer as suas ordens e medalhas, para jantar com as crianças no berçário, tratando-o a ele e aos irmãos como se fossem monarcas estrangeiros numa visita de estado. Maria fortaleceu os laços entre as duas famílias quando apresentou o seu irmão mais velho, Frederico Francisco, a uma das primas de Vladimir, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna. Os dois casaram-se em 1879.

Maria Pavlovna com o seu irmão Frederico Francisco.

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Este Castelo Sombrio - Gatchina

O Palácio de Gatchina na actualidade (fonte)
Alexandre III ficou profundamente afectado com o assassinato do seu pai e acreditava que tinham sido as tentativas do último czar para reformar o governo do país que tinham provocado a onda perigosa de instabilidade. O caminho que o novo czar queria seguir não incluía concessões aos seus adversários: preferia governar numa posição de força, tal como o seu avô, o czar Nicolau I tinha feito. Vários anos depois, os liberais russos no exílio iriam culpar a mudança de direcção política de Alexandre III pela revolução, no entanto, havia outros que viam o seu reinado como uma época dourada. Durante o seu reino, o império esteve em paz, se não com o mundo exterior, pelo menos dentro das suas fronteiras. Alexandre sabia o que queria mas era, ao mesmo tempo, um homem de paradoxos: não se sentia confortável na sociedade desde criança, no entanto era capaz de presidir as ocasiões formais mais brilhantes, era um homem que conseguia dobrar uma barra de ferro com as próprias mãos, mas, ao mesmo tempo, conseguia ter o bom gosto e o requinte para mandar fazer as criações Fabergé mais delicadas. Nunca quis ser czar. No fundo, não havia nada que lhe desse mais prazer do que passear pelo campo com os filhos, e, de todos os palácios ligados à família imperial na Rússia, aquele que mais tem a sua marca é o Palácio de Gatchina, aquele que escolheu como residência oficial, uma vez que também Gatchina era um local de paradoxos.

Alexandre III, Maria Feodorovna e quatro dos seus filhos no Palácio de Gatchina.
"Quase consigo ver Gatchina a esta altura. Mando-te um beijo carinhoso. O teu, Misha". Em Setembro de 1913, o grão-duque Miguel Alexandrovich, filho mais novo do czar Alexandre III, estava no topo da Torre Eiffel e escreveu estas palavras num postal dirigido à mulher que amava. Para se casar com Natália Sheremetevskaya, teve de aceitar o exílio e, apesar de haver humor na mensagem, também havia tristeza. Miguel sentia a falta de Gatchina, onde tinha conhecido Natália e onde, quando era criança, tinha acompanhado o pai em passeios pelo parque coberto de neve. Gatchina era a casa dele e, em cinco gerações da família, poucos tiveram a oportunidade de conhecer e amar tanto este palácio como ele. Alguns odiavam Gatchina e outros até o temiam. Ao longo da sua história com mais de trezentos anos, o palácio ganhou uma série de contrastes, de tal forma que há até quem diga que a cor das suas pedras muda ao longo do dia, conforme a luz disponível.

O grão-duque Miguel Alexandrovich com a sua esposa Natália.
Era precisamente o contraste que o criador de Gatchina, Gregório Orlov, um dos amantes de Catarina, a Grande, tinha em mente. Queria um edifício com fachadas austeras, mas que escondesse um interior rico e czarina encontrou um arquitecto para dar vida às suas ideias. A casa original tinha dois andares e consistia em dois quadrados idênticos, um de cada lado que se uniam em galerias semicirculares. O efeito geral era uma mistura entre um castelo e um quartel militar. Por trás do edifício havia dois lagos, e a paisagem do parque que o rodeava foi cuidadosamente planeada. Quando Orlov morreu, a czarina comprou a propriedade aos seus herdeiros e ofereceu-a ao seu filho Paulo, para comemorar o nascimento da primeira filha dele. O grão-duque Paulo odiava a mãe, mas recebeu o presente de bom grado, e sua personalidade tornou-se indissociável da história de Gatchina.


O Palácio de Gatchina na época de Paulo I, em 1798.
Paulo tinha vinte-e-nove anos de idade quando recebeu a propriedade. Ressentido por ter sido excluído do governo, decidiu transformar Gatchina no seu pequeno reino, desenvolvendo uma corte rival à da mãe e impondo um sistema de disciplina militar rígida. Tinha um exército de dois mil homens vestidos com uniformes em estilo prussiano e levantava-se de madrugada para vigiar os seus exercícios militares. As pessoas queixavam-se que tudo isto era demasiado estrangeiro, diziam que Gatchina era uma Potsdam russa e, com o passar dos anos, a obsessão de Paulo continuou a aumentar. Não confiava em ninguém e tinha um forte dispositivo de segurança à sua volta, mas nem toda a sua influência foi má. Na pequena vila de Gatchina, onde viviam os criados da propriedade e as famílias dos soldados, o grão-duque construiu uma igreja para católicos e luteranos, assim como um hospital, uma escola e um orfanato. Construiu fábricas e oficinas, controlava o preço das rendas e tentou até providenciar uma espécie de organização para ajudar os mais pobres.

Estátua do czar Paulo I em Gatchina
Gradualmente, nas mãos de Paulo, a casa original foi sendo aumentada substancialmente. Paulo contratou o arquitecto Brenna para fechar as galerias semicirculares e construir um andar superior em cada uma das alas de serviço, colocando uma capela por cima das cozinhas e transformando os antigos estábulos em aposentos, com uma biblioteca, um teatro e uma sala de armas. Até aos dias de hoje, essa sala ainda é chamada do Arsenal ou Praça do Arsenal. Quando Paulo sucedeu ao trono em 1796, Gatchina voltou a ganhar uma importância especial, tornando-se a residência imperial e as suas mobílias foram melhoradas para se ajustarem ao novo estatuto. Foram também acrescentadas divisões para assuntos de estado e trazidas obras de arte da colecção do Hermitage para decorar as paredes. Foram também criados novos jardins mais formais e iniciou-se um grande projecto para gravar todos os cantos do palácio e dos seus quatro parques em aguarelas. Foi a última vez que iria florir nesse século. Em 1801, Paulo foi assassinado, alguns diziam com a ajuda do filho, e Gatchina ficou para a sua viúva.

O Palácio de Gatchina na década de 1840
Durante os quarenta anos seguintes, a história ignorou Gatchina. Maria Feodorovna visitava o palácio ocasionalmente, mas preferia Pavlovsk. Tentou despertar o interesse dos filhos mais velhos por Gatchina, mas ambos estavam demasiado concentrados em resistir a tudo o que os fizesse lembrar do pai. A mãe deles ia observando-os com preocupação e, no inverno de 1810, em sinal de protesto pela vida que eles levavam na cidade, decidiu levar os seus dois filhos mais novos, Nicolau e Miguel, até Gatchina, para que eles pudessem concluir a sua educação longe das distracções e tentações de São Petersburgo. Na altura, Nicolau tinha catorze anos e Miguel doze, e acabariam por ficar a odiar o palácio, por o associarem aos três anos mais aborrecidos das suas vidas.

O grão-duque Miguel Alexandrovich, com a sua esposa Helena Pavlovna, a czarina Alexandra Feodorovna e o czar Nicolau I
No entanto, quando eram mais velhos, as coisas mudaram. Todos os outonos, a família juntava-se em Gatchina para festas de caça e a esposa de Nicolau, Alexandra Feodorovna, que tinha achado o palácio sombrio da primeira vez que o viu, acabaria por escrever numa carta que gostava muito "desta casa de campo e da vida activa que aqui vivemos. Estávamos felizes, faladores, fomos agradáveis, cada um à sua maneira, e partimos muito satisfeitos uns com os outros". À noite, a família juntava-se para ler os romances de Sir Walter Scott e Fenimore Cooper. O salão da Praça do Arsenal tinha um palco para a família fazer peças de teatro e brincar às charadas, um escorrega que era grande o suficiente para os adultos brincarem, e outros jogos para jogar dentro de portas. Alexandra falou também da "libertação da rigidez que lá há quando comparado com outros palácios (...) os jogos tornavam tudo mais alegre. Foi lá que experimentei pela primeira vez deslizar em pé pela colina de uma montanha".

A czarina Alexandra Feodorovna
Em 1828, a czarina-viúva Maria Feodorovna morreu, deixando Gatchina a Nicolau I. Ao longo de vinte-e-sete anos, Maria tinha sempre viajado com relíquias do seu marido assassinado para onde quer que fosse: o uniforme e roupa interior de Paulo, a sua espada, a sua bengala e a cama onde dormia na noite em que foi assassinado, foram colocados nos seus aposentos em Gatchina. Com o passar do tempo, esta espécie de museu deu um certo fascínio aos aposentos e corredores do bloco central, e as pessoas começaram a acreditar que Paulo tinha sido assassinado lá. No entanto, Nicolau I sentia apenas a ternura de um filho para com os seus pais e decidiu preservar os seus aposentos como uma espécie de museu da família. Até a cama onde a sua mãe morreu foi transferida do Palácio de Inverno para Gatchina.

Galeria Gótica no Palácio de Gatchina
Se os aposentos antigos não eram para ser utilizados, então era necessário reconstruir outros novos para a família imperial e a sua comitiva. Nicolau ordenou que os quadrados fossem completamente reconstruídos, mas, antes, contratou um jovem artista, Konstantin Ukhtomsky, para fazer pinturas das suas divisões favoritas antes de elas desaparecerem. A partir desse momento, o andar superior do quadrado da cozinha teria aposentos para a comitiva, empregados e convidados, assim como uma capela, enquanto que o centro da vida em Gatchina mudou para o Arsenal. O casal imperial, o czarevich e a sua esposa tinham os seus aposentos no andar de baixo enquanto que os restantes grão-duques, grã-duquesas e senhoras que ocupavam as posições mais importantes da comitiva, ficavam alojados no andar de cima. Havia um "entresol" entre ambos os andares, onde ficavam alojados os empregados. O salão foi completamente redecorado e foi acrescentado um barco de baloiço aos jogos que já havia. As obras de arte foram levadas para o Hermitage para serem limpas e restauradas e, a 1 de Agosto de 1851, o Palácio de Gatchina voltou a abrir em grande. No ponto mais alto das comemorações, Nicolau I revelou uma nova estátua do seu pai, na praça do palácio.

O Arsenal de Gatchina durante a época de Alexandre II
Duas vezes por ano, na primavera e em Outubro, a corte viajava até Gatchina e, durante algumas semanas, o palácio voltava à vida. Os convidados vinham para relaxar, mas a presença do czar garantia uma onda constante de ministros, embaixadores e oficiais, assim como a família imperial que era numerosa e alegre. Havia jogos e charadas no Arsenal, noites musicais, passeios de carruagem, piqueniques e caçadas nas quais até as senhoras participavam. Era tudo diversão, mas alguns membros da comitiva não conseguiam perceber o encanto de Gatchina. Anna Tiutcheva, uma dama-de-companhia, descreveu a sua reacção quando chegou ao palácio:

Anna Tiutcheva
"Estou em Gatchina pela primeira vez e já estou a achar a experiência difícil de suportar neste palácio vasto, com as suas escadarias e corredores sem fim. O palácio é composto por dois blocos habitacionais enormes, unidos por um edifício semi-circular (...) vivo no bloco direito e, por isso, tenho de passar pelos salões do edifício central três ou quatro vezes por dia para chegar ao Arsenal, onde todos os ocupantes devem tomar o pequeno-almoço, jantar e tomar chá. Muitas vezes atravesso estes salões à noite, apenas com a luz fraca de uma lamparina trémula, passo pelo quarto do imperador Paulo e pelo trono com o seu tecido gasto. Confesso que o meu coração bate acelerado e que começo a andar mais depressa, sempre com medo que a figura sinistra do imperador Paulo surja de repente dos cantos escuros (...).

No parque, perto do lago, vê-se uma caverna, fechada com um portão de ferro. Dizem que se trata da saída para os túneis subterrâneos que o imperador tinha construído por baixo dos seus aposentos. Foi uma precaução inútil, uma vez que não o salvaram da morte que ele tanto temia, e, segundo percebo, bem merecia. Todas estas memórias tornam a estadia em Gatchina muito sombria e desagradável. Não percebo porque escolhem Gatchina quando se querem divertir (...) o parque é enorme. No verão até pode ser bonito, mas agora não passa de campo desfolhado e outonal, com ramos negros e secos, e o chão pantanoso, cheio de poças, que lhe dá uma imagem melancólica".

Parte do parque em Gatchina
Claramente, alguém tinha enchido a cabeça de Anna com histórias de terror, mas a sua primeira visita também aconteceu numa altura sensível. Longe, na Crimeia, as forças inimigas estavam a cercar Sevastopol e não era possível sentir grande alegria nos jogos em Gatchina nesse outono.

Quando Nicolau I morreu, Gatchina passou para o seu filho mais velho, na condição de que o palácio, o parque e as organizações caritativas na aldeia próxima deveriam ser mantidos como estavam. Alexandre II acrescentou alguns dos aposentos dos pais ao museu e mudou a cabana imperial de Peterhof para Gatchina. De resto, permaneceu tudo igual ao tempo do seu pai. Alexandre II encomendou a realização de mais uma série de quadros para registar os interiores do palácio e o parque. O artista, Eduard Petrovich Hau, recebeu aposentos privados no quadrado das cozinhas e criou uma série de cinquenta-e-oito pinturas ao longo de oito anos.

A Sala do Trono de Paulo I por Hau.
O assassinato de 1881 mudou o destino de Gatchina de forma tão decisiva como tinha acontecido oitenta anos antes. Após o assassinato de Alexandre II, o seu filho aceitou o conselho dado pelo general Loris Melikov e mudou-se para longe da cidade, escolhendo Gatchina como sua residência oficial. Foi tudo feito à pressa: a nova czarina, Maria Feodorovna, contou aos pais que não tinha havido tempo para preparar Gatchina e que os aposentos estavam ainda cheios de trabalhadores. O inverno ia a meio e o palácio era frio e vazio. Para piorar ainda mais a situação, na pressa de abandonar a cidade, o casal imperial tinha sido obrigado a deixar os seus filhos mais novos para trás: o bebé, Miguel, apanhou uma constipação e não pôde sair de casa durante algumas semanas. Maria sentia falta dos seus aposentos acolhedores e confortáveis no Palácio de Anichkov e confessou se desfazia em lágrimas muitas vezes. No entanto, acrescentou também que o marido estava feliz por estar longe da cidade e que também ela estava a começar a encontrar conforto na sua nova casa, e a gostar da paz que tão rara tinha sido na sua vida na Rússia. Gatchina tornava-se novamente no centro do império russo, vigiado de forma tão apertada como no tempo de Paulo I. Era preciso ter passaportes especiais para entrar na aldeia onde os Couraceiros Azuis e o Regimento Combinado, os guarda-costas pessoais do czar, construíram o seu quartel-general. Com o passar do tempo, os soldados fizeram amizade com a família imperial e os filhos do czar gostavam de fugir até ao quartel para ouvir os soldados cantar e, talvez, serem atirados ao ar por um par de braços fortes.

Alexandre III, Maria Feodorovna e os seus filhos em Gatchina.
Alexandre III impôs controlos rigorosos ao país, mas essa era a única semelhança que tinha com o seu bisavô, o czar Paulo I. A nível pessoal, Alexandre era extremamente humilde, e detestava todo o tipo de cerimonial. Optou por viver nos aposentos de abóbada baixa do "entresol", que costumavam estar reservados aos criados. Levantava-se cedo, vestia-se, fazia o seu próprio café e sentava-se a trabalhar até a sua mulher estar pronta para o pequeno-almoço. Quando não tinham convidados, os membros da família optavam por jantar juntos no andar de baixo numa sala que, anteriormente, tinha sido a casa-de-banho da avó do czar, Alexandra Feodorovna. A banheira tinha sido enchida com azáleas e colocada no jardim.

Alexandre III e Miguel Alexandrovich em Gatchina
Além de ser o centro do governo, Gatchina era também uma casa de família. Alexandre guardava boas memórias da sua infância e, no escritório, escondia uma colecção de animais em miniatura feitos de vidro e desenhos de "Mopsopolis", o mundo de fantasia que tinha criado juntamente com o seu irmão Nicolau no pico da Guerra da Crimeia. Eram criaturas estranhas para um homem alto e forte, mas Alexandre adorava partilhá-las com os filhos. Sentia-se mais à vontade com os membros mais novos da família. Em certa ocasião, levou os seus filhos numa expedição ao parque de veados de Gatchina para ir buscar dois burros para acrescentar à já extensa colecção de animais de estimação. Com o passar dos anos, a família juntou animais, um papagaio, um corvo albino, uma lebre e uma cria de lobo.

Olga Alexandrovna e Miguel Alexandrovich em Gatchina
Olga, a filha mais nova, recordou a magia especial que sentia quando ia passear com o pai e com Miguel, o irmão que tinha a idade mais aproximada da sua: "Caminhávamos até ao parque dos veados, só nós os três, como os três ursos do conto de fadas. O meu pai levava sempre uma pá grande , o Miguel levava outra mais pequena e eu tinha uma muito mais pequena do as deles só para mim. Cada um de nós também levava um machado, uma lanterna e uma maçã. Se estivéssemos no inverno, ele ensináva-nos a limpar a neve para criar um caminho e como cortar uma árvore morta. Ensinou-me a mim e ao Miguel a fazer uma fogueira. No fim, assávamos as maçãs, apagávamos a fogueira e, com a ajuda das lanternas, lá encontrávamos o caminho para casa. No verão, ensinava-nos a distinguir os animais uns dos outros, Queria que soubéssemos ler o livro da natureza tão bem quanto ele". Olga e Miguel eram os verdadeiros filhos de Gatchina e as suas memórias estavam repletas de alegria. Uma vez, fugiram para um telhado a meio da noite para ver o parque à luz da lua. Nem o fantasma de Paulo I os assustava: na verdade, Olga queria até vê-lo, mas nunca conseguiu.

Alexandre III com os filhos Miguel e Olga.
Era uma existência estranha, algures entre a simplicidade e o esplendor. Eram crianças do campo que dormiam em camas amovíveis em quartos decorados com a mobília mais simples possível e, no entanto, os seus tutores usavam casacos de cerimónia. Olga tinha os aposentos mais sumptuosos da família porque a ama dela, Mrs. Franklin, achava que o "entresol" apertado e abafado prejudicava demasiado a saúde da criança. A sua comitiva de amas estava instalada nos aposentos do andar superior, por cima do Arsenal, onde havia tapeçarias com imagens de cenas das Bíblia penduradas nas paredes. As crianças brincavam às escondidas na galeria chinesa, onde havia vasos de valor incalculável grandes o suficiente para elas se puderem esconder. Aos domingos, Miguel e Olga podiam convidar os seus amigos para brincar nos salões estatais. Os seus brinquedos eram também saídos dos sonhos de qualquer outra criança da época: um dos mais populares em Gatchina era uma linha de comboio eléctrica em miniatura, que tinha sido presenteada por uma empresa de construção. "As carruagens e as carrinhas eram cópias exactas de outras que existiam mesmo e os motores conseguiam atingir velocidades de oito e dez quilómetros por hora. As linhas estavam equipadas com estações, túneis e pontes, que deixavam qualquer criança encantada".

Alexandre III com a sua filha Olga
O encanto terminou cedo demais. Num dia, na primavera de 1894, Olga estava a caminhar com o pai no parque em Gatchina quando se apercebeu que ele estava doente. O czar acabaria por morrer antes do final do ano. O palácio passou para a sua viúva, que deu ordens para que não se voltasse a mudar nada nos seus aposentos, nem sequer o seu lenço. Maria Feodorovna continuou a utilizar Gatchina, mas nunca tinha gostado tanto da vida no campo como Alexandre e preferia passar mais tempo na cidade. O seu filho, Nicolau II, continuou a visitar a cabana de caça no inverno e, nos primeiros anos após a morte do pai, visitava o palácio com frequência na companhia da esposa quando a sua mãe se encontrava lá.

Olga Alexandrovna e Miguel na Galeria Chinesa em Gatchina
As tensões começaram a aumentar de forma quase imperceptível entre as cortes da czarina-viúva e da jovem czarina Alexandra. Uma dama-de-honra de Czarskoe Selo descreveu a sua primeira visita a Gatchina com a jovem czarina que se realizou numa noite, em finais de 1894. Sophie Buxhoeveden achou a atmosfera tão opressiva quanto Anna Tiutcheva a descrevera cinquenta anos antes. A sala-de-estar para onde foi levada parecia "a fantasia de um decorador profundamente deprimido" e as damas-de-companhia mais velhas bombardearam-na com perguntas, condenando a forma como as coisas eram feitas na corte mais jovem. Sophie sentia-se cada vez mais desconfortável e, no andar de cima, a sua senhora não se estava a sair melhor com a czarina-viúva. Alexandra Feodorovna tinha até dificuldade em respirar quando estava nos aposentos abafados e demasiado aquecidos da sua sogra e estava tão ansiosa quanto Sophie para ir embora.

Maria Feodorovna com a neta Olga Nikolaevna nos braços, a grão-duquesa Olga Alexandrovna, Alexandra Feodorovna e, de pé, a grã-duquesa Xenia Alexandrovna com a filha Irina e o irmão, Nicolau II.
No entanto, a noite acabaria de forma divertida: Alexandra aceitou de bom grande o convite do grão-duque Miguel para ir dar um passeio de trenó ao luar pelo parque coberto de neve. No momento em que Alexandra e Sophie começavam a relaxar e a desfrutar da paisagem encantada, o trenó derrapou e as duas foram atiradas para fora dele. Havia neve suficiente para amparar a queda e, depois de horas de tensão, a jovem czarina não conseguia parar de rir. "O que é que as velhotas não diriam se tivessem visto esta cena?" disse ela. "É melhor nunca saberem que aconteceu: não iriam encontrar palavras para descrever o horror". Ajudei-a a levantar-se e tiramos a neve das capas uma da outra com os nossos lenços. Depois voltámos para o trenó".

Miguel Alexandrovich com a cunhada Alexandra Feodorovna e o irmão Nicolau II.
Durante aquela época, Gatchina perdeu um pouco a sua vida, mas, no Natal, a czarina-viúva e os seus filhos mais novos organizavam festas no Salão de Banquetes para os oficiais da guarda. Durante muitos anos, as famílias dos oficiais guardaram com carinho os doces embrulhados em papel dourado e os presentes que a própria Maria Feodorovna lhes entregava em mãos. No entanto, quem passava mais tempo no palácio era Miguel. Era comandante dos Couraceiros Azuis, um dos regimentos de Gatchine, e foi nessa capacidade que conheceu a sua futura esposa, Natália, que, na altura era casada com um dos oficiais e foi convidada para uma recepção no palácio. No entanto, essa não seria a única história de amor que começou em Gatchina. Miguel era um das poucas pessoas que sabia que, em 1903, a sua irmã mais nova, Olga, que sentia profundamente infeliz com o seu casamento, tinha conhecido e se tinha apaixonado por Nikolai Kulikovsky, outro oficial do seu regimento. Foi um segredo que se manteve durante treze anos.

Miguel Alexandrovich com a sua futura esposa, Natália Brassova e Olga Alexandrovna com o seu futuro marido, Nikolai Kulikovsky.
Depois de serem enviados para o exílio por terem casado sem autorização do czar, em 1914, com o rebentar da Primeira Guerra Mundial, Miguel e Natália receberam permissão para regressar à Rússia. Miguel passava muito tempo longe, na frente de batalha, mas a sua esposa estabeleceu-se na aldeia de Gatchina e abriu um hospital militar. Nunca seria aceite na família do marido, mas tinha pouco tempo para eles. Uma pessoa sociável por natureza, Natália continuou a organizar festas em Gatchina, mesmo depois da Revolução de Fevereiro e Miguel não interferia nas suas vontades, apesar de não partilhar o mesmo prazer pela vida social. Um amigo descreveu mais tarde uma noite durante a qual ele e Miguel evitaram a companhia que se encontrava no palácio: "ele [Miguel] não queria nenhuma luz, apesar de ter escurecido cedo e estarmos a olhar um para o outro no crepúsculo. Deitado num sofá, a tremer por causa da febre, o Miguel falou numa voz triste sobre como era difícil viver com as lamentações, maldade e enganos dos homens e disse que Deus estava longe (...) Estava com medo do futuro. Tentei consolá-lo, mas não consegui encontrar palavras que diminuíssem a intensidade da sua dor. A sua voz estava embargada pelas lágrimas. Ficou muito escuro. Quando liguei a luz, fiquei chocado com o desespero puro que se via no seu rosto pálido e tive a sensação clara de que estávamos prestes a sofrer um grande infortúnio".

Miguel com a sua esposa Natália durante a Primeira Guerra Mundial
Infelizmente foi exactamente isso que aconteceu e a história voltou a Gatchina. Nicolau II abdicou do trono a favor do Miguel e, durante algumas horas, o palácio foi a residência do último czar. Mais tarde, Kerensky mudou-se para o Palácio de Gatchina numa última tentativa para salvar o seu governo. Quando uma multidão de bolcheviques se aproximava do palácio, Kerensky fugiu pelo parque: algumas relatos dizem que terá utilizado o túnel que tinha assustado Anna Tiutcheva muitos anos antes. Miguel e Natália ficaram na aldeia de Gatchina durante a primavera de 1918, até Miguel ser exilado e, mais tarde, assassinado em Perm, nos Montes Urais. Natália e a família fugiram para ocidente, e palácio ficou abandonado com as suas memórias.

Miguel Alexandrovich
Actualmente, o Palácio de Gatchina está a ser restaurado, depois vários anos de negligência. O edifício sofreu alguns danos na altura da Revolução e alguns objectos valiosos foram roubados e vandalizados enquanto que outros se perderam nos leilões de arte soviéticos da década de 1920, mas fotografias tiradas em 1940 mostram os aposentos de Miguel no Arsenal tão cheios de pessoas e de vida como se o dono tivesse saído rapidamente e pudesse voltar a qualquer momento. Quem quisesse visitar as salas de estado, os aposentos do czar Paulo, onde o seu fantasma costumava passear, e os aposentos da família no Arsenal só tinha de pagar alguns kopecks. Foi a Segunda Guerra Mundial que quase destruiu tudo: quando os alemães bateram em retirada em 19414, deixaram uma concha queimada e vazia e os tesouros que tinham sido salvos foram levados para outros locais. A aldeia de Gatchina foi uma zona militar fechada até 1977, ano em que se deu início ao restauro, recorrendo aos quadros de Ukhtomsky e Hau como referência.

O Palácio de Gatchina após a Segunda Guerra Mundial
O trabalho é lento, mas a habilidade dos restauradores é incrível e, um dia, todo o palácio irá voltar à vida. Talvez até os seus fantasmas regressem. Havia algumas pessoas que odiavam Gatchina, mas outros pertenciam ao palácio. Exilado em Perm na primavera de 1918, o grão-duque Miguel escreveu: "é horrível não estar no nosso querido palácio de Gatchina nesta altura do ano. Costumava passar lá todas as primaveras e tenho muitas memórias perfeitas e felizes de infância passadas lá e também de anos posteriores. Parece que lá é sempre primavera".

Parque do Palácio de Gatchina em 2009
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

Nota: desde a publicação do livro em 2001, a maioria do Palácio de Gatchina já se encontra restaurado e aberto ao público.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Almirante General - Grão-Duque Constantino Nikolaevich - Segunda Parte


Na posição de vice-rei, o grão-duque tinha feito todos os possíveis para agradar aos polacos, mas o que eles queriam realmente era autonomia e não reformas e tiveram a oportunidade de colocar em marcha os seus planos bem formulados para um levantamento quando Constantino implementou um imposto para o recrutamento militar em 1863. O motim que se seguiu colocou um ponto final abrupto no governo de Constantino, que foi obrigado a regressar a São Petersburgo com a família e a voltar ao trabalho de reforma na marinha russa, principalmente na necessidade de possuir uma frota no Mar Negro. A abolição dos castigos corporais em Abril de 1863 tinha facilitado o seu trabalho, e os relatórios oficiais do Ministério da Marinha começaram a registar casos de oficiais disciplinados e dispensados por crueldade nos postos mais baixos. Em reconhecimento pelos vários serviços que tinha prestado ao país, Alexandre II elevou a posição de Constantino para presidente do Consílio de Estado.

Constantino Nikolaevich
Em meados da década de 1860, os seus filhos estavam a crescer. Em 1867, Olga ficou noiva do rei Jorge da Grécia, cuja irmã, a princesa Dagmar, se tinha casado com o czarevich Alexandre Alexandrovich no ano anterior, tornando-se a czarevna Maria Feodorovna. Maria esforçou-se ao máximo para conseguir assegurar o noivado do irmão, mesmo sabendo que os Constantinovich estavam contra ele: de alguma forma, a jovem conseguiu fazê-los reconsiderar o assunto. A sua hesitação era compreensível. Olga tinha apenas quinze anos de idade, ainda era uma criança, e o casamento realizou-se algumas semanas depois de ela completar dezasseis anos. A jovem partiu para a Grécia com todas as suas bonecas e brinquedos e considerou a sua chegada a Atenas avassaladora. Até a língua era estranha. Antes de uma recepção, Olga desapareceu e, depois de uma longa busca pelo palácio, os criados encontraram-na a chorar debaixo das escadas, enquanto se abraçava a um dos seus ursos-de-peluche favoritos. Com o passar do tempo, Olga acabaria por se habituar à sua nova vida, mas nunca perdeu o seu amor pela Rússia e regressava sempre que podia. Em Julho de 1868, nasceu o seu primeiro filho e ela deu-lhe o nome de Constantino, em homenagem ao pai.

Constantino e Alexandra com a sua filha Olga
Constantino e Alexandra deveriam ter conseguido entrar na nova fase das suas vidas como avós com alegria, mas o início de uma nova geração da família coincidiu com uma crise na sua. Por volta de 1866, no ano em que Alexandre II começou a sua relação com Catarina Dolgorukaya, Constantino começou a seduzir uma jovem bailarina da Conservatória de São Petersburgo. Anna Kousnetsova era vinte anos mais nova do que ele e resistiu aos seus avanços durante vários anos, mas Constantino sabia como conseguir aquilo que queria. Em 1873, Anna deu à luz o seu primeiro filho, a quem chamou Sergei. Iriam seguir-se mais quatro e o grão-duque mantinha uma casa independente para a sua amante e filhos dentro da propriedade de Pavlovsk e na Crimeia. Corriam até rumores de que ele tinha pedido autorização ao czar para se divorciar da sua esposa, mas que ele tinha recusado.

Anna Kousnetsova, amante de Constantino
Para Alexandra, este foi um golpe amargo. Tinha sido feliz com Constantino e era uma mulher orgulhosa. A partir do momento em que soube do caso do marido, começou a ter cada vez mais cuidado com a sua aparência. Havia um tom de desafio e até um pouco de tristeza quando começou a comparar-se insistentemente com a imperatriz da Áustria, que, na altura, tinha a reputação de ser a mulher mais bela da Europa: muitos enviados estrangeiros ficavam sem palavras quando ela o fazia, com medo de a ofender com uma resposta sincera. Há rumores de que, nos seus últimos anos de vida, Alexandra usava corpetes e sapatos na cama para manter a sua cintura fina e os seus pés pequenos. Ao contrário de Maria Alexandrovna, não estava preparada para amar de forma calada e sacrificada: quando foi confrontada com a traição de Constantino, afastou-se dele e da corte, refugiando-se na companhia dos seus filhos mais novos.

Alexandra Iosifovna
Alexandra estava a preparar-se para viajar para o casamento da sua filha mais nova, Vera, em 1874, quando descobriu que faltavam três diamantes valiosos de um ícone que lhe tinha sido oferecido pelo seu sogro, o czar Nicolau I, e que ela tinha no quarto. Um outro ícone estava danificado. Alexandra mostrou o que tinha acontecido a Constantino e foi chamada a polícia enquanto ela partiu para Estugarda, onde Vera, de vinte anos, se ia casar com um primo afastado, o duque Guilherme Eugénio de Wuttenberg. Dois dias depois, os diamantes foram encontrados na posse do capitão Varpakhovsky, ajudante-de-campo do grão-duque Nicolau Constantinovich. O chefe da polícia, o conde Schouvalov, informou Constantino de que o ladrão era o seu filho.

Alexandra Iosifovna com o seu filho Nicolau e a filha Olga
Vinte anos de adoração dos pais tinham transformado Nicolau Constantinovich no pior tipo de príncipe aristocrata possível. Atraente, culto e inteligente, gostava de se fazer passar por revolucionário liberal, mas, na verdade, não queria saber de ninguém a não ser ele próprio. Contava muitas vezes histórias sobre a severidade sem sentido, quase brutalidade, com a qual tinha sido criado, mas todos os que o tinham visto crescer lembravam-se de um adolescente mimado fora do controlo de todos, que era capaz de fazer a vida negra a qualquer tutor de quem não gostasse. Não respeitava os padrões normais do comportamento: quando tinha dezasseis anos, Marie von Keller viu-o a torturar um cordeiro que tinha atado a uma árvore, e a rir-se quando ele morreu. O sexo tornou-se uma obsessão e a tentativa da sua mãe de o tentar acalmar através de um casamento com a filha da sua irmã, a princesa Frederica de Hanôver, falhou porque Nicolau já estava envolvido com várias amantes. Agora, quando foi interrogado pelo seu pai e pelo conde Schouvalov, Nicolau não mostrou medo nem arrependimento. Acabou por se descobrir que aquele roubo tinha sido apenas mais um entre muitos e ambos os homens ficaram chocados com a atitude dele. Com a bênção do czar, Nicolau foi declarado louco e colocado sob vigilância médica. A nível privado, tal como Constantino escreveu no seu diário: "para castigar o Nikola, vamos fechá-lo numa cela sob vigilância apertada, e as suas medalhas e epaulettes vão ser retiradas. Apenas nós sabemos disto, e não o público".


O grão-duque Nicolau Constantinovich

Mas mesmo na prisão, Nicolau continuava a causar problemas. Enviado inicialmente para Oreanda na Crimeira, onde a vigilância não era tão apertada quanto o seu pai tinha esperado. Uma jovem, Alexandra Demidov-Abaza, teve acesso ao grão-duque e, quando escreveu ao czar a afirmar que estava grávida e a pedir o reconhecimento legal do seu filho, Nicolau foi enviado para a Ucrânia, depois de volta para a Crimeia, sendo sempre seguido pela sua amante. Quando a encontraram, Nicolau foi enviado novamente para outro local, mas, em Setembro de 1876, descobriram novamente a sua amante a viver nos seus aposentos e, desta vez, estava grávida novamente. O general responsável por vigiar o grão.duque pediu a demissão e, em Maio de 1877, o conde Rostovtsev chegou para o substituir, levando Nicolau para um novo local de exílio em Orenburg. Nicolau nunca mais voltou a ver Alexandra nem os seus filhos.



Nicolau Constantinovich
Em Orenburg, Nicolau começou a mostrar um lado diferente da sua personalidade. Interessou-se profundamente pela Ásia Central e passou várias horas a ler e a pesquisar seriamente sobre o assunto. No outono de 1878, organizou a primeira de várias expedições de investigação e, depois, escreveu artigos para jornais científicos. A sua grande paixão tornou-se o melhoramento da vida no Turquestão, principalmente através da introdução de sistemas de irrigação funcionais, mas isso não significou que as suas outras paixões tivessem ficado para segundo plano. O czar ficou exasperado quando soube que, a 15 de Fevereiro de 1878, Nicolau se tinha casado em segredo com Nadejda Dreyer, filha do chefe de polícia local. Para o fazer, tinha utilizado o nome de Coronel Volinsky, o seu herói da infância. Nicolau tentava passar a imagem de que era um revolucionário e que as pessoas se iriam revoltar e reunir à volta dela: não é de admirar que o seu pai e o tio tenham perdido a paciência e parece ter sido por esta altura que o seu nome foi removido das listas públicas da família imperial. Oficialmente, o grão-duque Nicolau Constantinovich deixou de existir.

Nicolau com a sua mãe, Alexandra, e a irmã Vera.
No entanto, em privado, como não podia deixar de ser, continuou a ser um problema com o qual a família tinha de lidar. Os responsáveis pela sua guarda, envergonhados, tentaram atirar as culpas uns para os outros, mas no outono de 1880, a vida em Orenburg tinha-se tornado insuportável. Nicolau recusou-se a receber mais ordens do conde Rostovtsev e um representante enviado pelo czar mostrou alguma compreensão pela sua posição. Em Novembro, foi enviado para uma pequena propriedade perto de São Petersburgo e a vigilância à sua volta foi relaxada.

Nicolau Constantinovich
Em inícios de Fevereiro de 1879, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna estava a caminhar numa galeria em Pavlovsk quando viu uma aparição aterrorizante: uma dama vestida de branco a flutuar na direcção dela. A grã-duquesa acreditou que se tratava de um mau-presságio e os seus medos foram confirmados no dia seguinte quando o seu filho mais novo, Viacheslav, adoeceu. Acabaria por morrer em menos de uma semana. Agora, Alexandra estava mais só do que nunca, e via com tristeza e raiva a forma como o marido e o irmão se dedicavam cada vez às suas amantes. Ficou zangada com Constantino por este apoiar o caso amoroso do czar com Catarina e furiosa quando o seu filho ilegítimo, Georgi, recebeu uma casa temporária em Pavlovsk, no verão de 1872. A 22 de Maio/3 de Junho de 1880, a czarina Maria Alexandrovna morreu sozinha no seu quarto do Palácio de Inverno. O czar viúvo tomou medidas quase imediatas para cumprir a promessa que tinha feito a Catarina de se casar com ela. O czar explicou à sua irmã Olga, rainha de Wuttenberg, a sua decisão: "Nunca me teria casado antes de fazer um ano de luto se não fosse pelos tempos perigosos em que vivemos. (...) A Catarina Dolgorukova preferiu recusar todos os prazeres e alegrias da sociedade que dizem tanto a uma jovem da idade dela, para dedicar a vida dela a amar-me a cuidar de mim. Por isso, terá todo o direito ao meu amor, carinho e gratidão". Alexandre esperava que a sua família o compreendesse e aceitasse, mas a maioria, principalmente as mulheres, ficou horrorizada. Alexandra Iosifovna recusou-se a sequer conhecer Catarina, desafiando assim uma ordem imperial. Constantino tentou conversar com ela, mas de nada lhe valeu e Alexandra só acabaria por ceder à última da hora porque uma das filhas de Catarina adoeceu e, na altura, a situação parecia grave. No entanto, apesar de tudo, manteve-se sempre fiel à memória da czarina, que tinha sido sua amiga.

Alexandra Iosifovna com a sua filha Olga.
Não teria de aguentar a situação durante muito tempo. Pouco depois do meio-dia de domingo, dia 1/13 de Março de 1881, Alexandre II saiu do Palácio de Inverno para participar numa parada militar que se realizava todas as semanas na Escola de Cavalaria de Mikhailovsky, ignorando as ameaças terroristas que agora faziam parte da sua vida. Respondia-lhes com a mesma coragem resoluta que tinha mostrado perante o seu neto Nicolau na Capela Gótica em Peterhof. Além disso, nesta ocasião, o seu sobrinho Dmitri Constantinovich, iria cavalgar ao seu lado como ajudante-de-campo pela primeira vez, e a última coisa que Alexandre queria era desiludi-lo ao cancelar a parada. Quando terminou, o czar foi visitar a sua prima, a grã-duquesa Catarina Mikhailovna, no Palácio de Mikhail. Estava já de regresso a casa quando duas explosões ensurdecedoras abalaram a cidade. No silêncio que se seguiu, uma multidão abalada e assustada reuniu-se à volta do Palácio de Inverno para saber o que tinha acontecido. O czar tinha sido atingido com uma bomba de fabrico manual no cruzamento do Canal de Catarina e, apesar de o seu irmão Miguel ter corrido para o seu lado para o ajudar, e de o czar ter sido transportado ainda com vida para o Palácio de Inverno, os seus ferimentos eram muito graves. Acabaria por morrer poucas horas depois e esta tragédia dividiu profundamente a sua família.

Alexandre II no seu leito de morte, rodeado da família.
No seu último ano de reinado, Alexandre tinha dado início aos procedimentos necessários para começar as discussões que iriam levar a uma reforma constitucional. Constantino era um dos principais impulsionadores e, na categoria de Presidente do Conselho de Estado, ajudou a preparar a proposta para a criação de uma assembleia eleita limitada que Alexandre iria aprovar precisamente no dia em que morreu. Para Constantino e os seus colegas reformadores, a esperança acabou poucos meses depois da ascensão do novo czar. Inicialmente, parecia que Alexandre III poderia dar continuidade às políticas do pai, mas, atrás das costas deles, dava ouvidos ao conservadorismo do seu antigo tutor e redigiu um manifesto no qual acabou com todas as esperanças de conseguir reformas. Quando os reformadores o ouviram, não tiveram outra escolha senão demitir-se. Para Constantino, o dilema era tanto pessoal como político, uma vez que o novo czar era o "Sasha-Patas-de-Urso", o sobrinho de quem ele não gostava e que tinha humilhado. Aquele incidente distante na Polónia deve ter sido apenas um entre muitos e Alexandre III deixou bem claro que o seu tio já não era bem-vindo na corte. Foi gentil com Alexandra, mas recusou os pedidos que ela lhe fez para perdoar o seu filho Nicolau, uma vez que era da opinião de que também não podia confiar no primo. A sua vigilância foi novamente reforçada e Nicolau foi transferido para Pavlovsk, antes de ser finalmente condenado ao exílio no interior do império, em Tashkent. O desdém que Alexandre sentia pelo grão-duque Constantino e pelo seu filho foi notado e fez com que se espelhasse pelas cortes europeias o rumor de que Constantino estaria envolvido no assassinato do seu irmão.

Constantino Nikolaevich
Sem mais nada para fazer, o grão-duque retirou-se para Pavlovsk. Os seus problemas de xadrez foram publicados em jornais internacionais, mas isso nunca poderia substituir a posição que ele tinha ocupado no centro dos assuntos de estado. Em 1883, visitou a sua filha Olga e a família dela na Grécia e estava ansioso pela visita deles à Rússia: adorava os seus netos gregos e costumava diverti-los pregando partidas a criados distraídos. Alguns já estavam tão habituados aos truques do grão-duque que deixaram de reagir, mas Constantino ficava exultante se os conseguisse fazer dar um salto ou gritar, um sinal do seu aborrecimento e do agravamento do seu mau-feitio.

Constantino Nikolaevich
Constantino sofreu uma pequena apoplexia no casamento da sua neta, a princesa Alexandra da Grécia, com o seu sobrinho, o grão-duque Paulo Alexandrovich, no verão de 1889 e, um segundo ataque pouco tempo depois, deixo-o paralisado da cintura para baixo e sem a capacidade de falar. As suas tentativas para comunicar traduziam-se numa série de barulhos incompreensíveis. Agora dependente do cuidado de outros, o grão-duque passou a ser da responsabilidade da sua esposa, que aproveitou esta época para se vingar de certa forma da sua infidelidade. Anna Kousnetsova e os seus filhos ainda viviam numa casa perto do palácio, que Constantino lhes tinha oferecido, mas Alexandra Iosifovna certificava-se de que os seus criados nunca o lavavam até lá e ele não podia ir sozinho. O seu neto, o príncipe Cristóvão da Grécia, testemunhou as consequências de uma das tentativas que o grão-duque fez para os ir visitar: depois de ser trazido para casa por um dos criados que sabia que já não seguiam as suas ordens, Constantino agarrou a sua esposa pelos cabelos e começou a bater-lhe com a bengala até surgir alguém para os separar. Deve ter sido uma situação miserável para ambos.

Alexandra Iosifovna
Em Janeiro de 1892, o grão-duque Constantino Nikolaevich morreu em Pavlovsk. Nos seus últimos anos de vida, tinha-se tornado numa figura misteriosa, suspeito do envolvimento em todo o tipo de conspirações dos quais nunca se teria aproximado ao longo de toda a sua vida, uma vez que, apesar de ser um homem difícil, e muitas vezes desagradável, tinha-se esforçado sem pausas para ajudar o seu irmão e o seu país. No entanto, poucas pessoas se lembram do seu contributo.


Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat