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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Lembra-te de Coburgo - O Noivado de Nicolau e Alexandra

Membros de várias famílias reais europeias reunidos em Coburgo para o casamento de Ernesto Luís de Hesse com a princesa Vitória Melita, Coburgo, Abril de 1894
O czarevich Nicolau Alexandrovich chegou à maioridade a 6/18 de Maio de 1884, o dia em que completou dezasseis anos de idade e prestou o seu Juramento de Lealdade com grande pompa e circunstância no Palácio de Inverno. "O czarevich vestiu o uniforme azul dos Cossacos da guarda, uma vez que é o seu comandante," escreveu o The Graphic, "tinha um aspecto muito jovem e pequeno para ser o protagonista de uma cerimónia tão grandiosa, mas possui também um rosto alegre e inteligente, e é muito parecido com a mãe. Como na família Romanov, a maioria das pessoas é alta e imponente, a sua estatura baixa parece excepcional. Na igreja, ele caminhou sozinho e com coragem pelo altar e, com a mão direita pousada em cima da Bíblia encrostada de jóias, e da cruz de ouro, repetiu em voz audível e firme, o juramento que o padre lhe ia comunicando e que começava da seguinte forma: 'Em nome de Deus, todo poderoso, e pela a sua santa palavra, juro e prometo servir Sua Majestade Imperial, o meu gracioso pai, bem e de forma sincera', e terminava com: 'o meu coração está em tuas mãos, Senhor, Amén'".

Nicolau II enquanto czarevich
Apenas algumas semanas depois da cerimónia, Nicolau conheceu a jovem com quem se viria a casar. A princesa Alice de Hesse tinha doze anos de idade, e estava na Rússia para assistir ao casamento da sua irmã, Isabel, com o tio de Nicolau, o grão-duque Sérgio Alexandrovich. Alice e Nicolau gostaram imediatamente um do outro e a sua atracção inocente acabaria por florescer para algo mais sério quando a princesa voltou a visitar o país em 1889, altura em que Nicolau decidiu que queria casar com ela e discutiu essa possibilidade com o pai. A sua mãe teria preferido que ele se casasse com uma princesa francesa, mas Nicolau não queria sequer ouvir falar no assunto. Quando viram a determinação do filho, ambos os pais acabaram por ceder e dar a sua bênção a Nicolau. No entanto, com o passar dos meses e dos anos, continuava a haver um obstáculo ao seu casamento. Na primavera de 1894, chegou o momento crítico quando o jovem casal teria de decidir o seu destino, de uma forma ou outra.

Alice em 1885, um ano depois de conhecer Nicolau.
O ano de 1894 começou calmamente na família imperial, sem nenhum sinal de que haveria mudanças nos meses próximos. Alexandre III sentia-se doente, mas ninguém estava demasiado preocupado e as comemorações do Ano Novo continuaram como de costume. O czarevich foi beber com o seu tio Vladimir uma noite em Janeiro e, algumas semanas depois, divertiu-se numa das famosas festas da grã-duquesa Maria Pavlovna que duravam toda a noite. É possível que os Vladimirovich soubessem da infelicidade que o seu sobrinho sentia na sua vida privada. Já há quase cinco anos que ele tentava convencer a princesa Alice de Hesse a casar com ele, mas ela não se sentia preparada para se converter à religião Ortodoxa. No caso da esposa de Nicolau, uma futura czarina, não havia espaço para o tipo de excepções que Alexandre II tinha concedido no seu tempo: a czarina tinha de ser ortodoxa. Nicolau sabia que Alice o amava, mas também que ela tinha prometido ao pai que nunca se iria converter a outra religião, e, quando ele morreu na primavera de 1892, levou consigo toda a possibilidade de discutir o assunto ou de mudar de opinião. Para Alice, o assunto trazia uma onda de emoções dolorosas que ela preferia evitar completamente. Em Junho de 1893, decidiu não estar presente no casamento do seu primo, o duque de Iorque [o futuro rei Jorge V] porque sabia que Nicolau estaria lá. Em Novembro desse ano, enviou-lhe uma carta com a sua recusa final, mas Nicolau não estava pronto para desistir e continuava a esperar a oportunidade de se encontrar com ela para discutir o assunto pessoalmente. O casamento do irmão de Alexandra, Ernesto, estava marcado para Abril de 1894, em Coburgo, e era impossível ela não estar presente.

Alice com o seu pai, o grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt.
À medida que o dia do casamento se aproximava, Coburgo estava em modo festivo. As ruas vibravam com as cores dos estandartes, bandeiras e coroas de flores, além de dois arcos triunfais que foram construídos no caminho entre a estação e o Schloss Platz, à medida que a pequena cidade se preparava para receber uma festa familiar a grande escala. O casamento da segunda filha do duque Alfredo de Saxe-Coburgo-Gota com o seu primo, o jovem grão-duque Ernesto Luís de Hesse, iria juntar primos, tios e tias da realeza de toda a Europa.

Vitória Melita e Ernesto Luís no dia do seu casamento
De Darmstadt, partiram o noivo, o seu tio Guilherme de Hesse, e Alix: as suas três irmãs mais velhas Vitória, Ella e Irene já estavam todas casadas e iriam juntar-se ao resto da família em Coburgo, assim como os seus maridos, que eram todos parentes do casal directamente e por casamento. O kaiser Guilherme II também partiu de Berlim, juntamente com a sua mãe, a imperatriz-viúva Vitória, a sua irmã Carlota e o marido dela, o duque Bernardo de Saxe-Meiningen (a filha deles, Feodora, era uma das damas-de-honor), o irmão dele, Henrique, marido da princesa Irene de Hesse, a sua prima Maria Luísa e o marido dela, Humberto de Anhalt. A maioria dos convidados iria ficar hospedada no Schloss Ehrenburg, o palácio principal da cidade, onde se iria realizar o casamento.

A família de Hesse-Darmstadt por volta de 1887 (sentados estão a princesa Irene de Hesse-Darmstadt, a grã-duquesa Isabel Feodorovna, a princesa Alice de Battenberg, a princesa Vitória de Battenbergo grão-duque Sérgio Alexandrovich e o grão-duque Luís IV de Hesse. Em pé, o príncipe Ernesto Luís, o príncipe Luís de Battenberg e a princesa Alice de Hesse-Darmstadt).
A 16 de Abril, chegaram os convidados russos. A mãe da noiva era a grã-duquesa Maria Alexandrovna, filha do czar Alexandre II, o que, por si só, já teria sido o suficiente para ter um grande número de convidados Romanov presentes na cerimónia. Oficialmente, o grupo que esteve em Cobrugo era composto pelo grão-duque Vladimir Alexandrovich, a sua esposa Maria Pavlovna, o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a sua esposa Isabel, e o grão-duque Paulo Alexandrovich. Não se esperava que o czarevich estivesse presente e ele chegou mesmo a duvidar se deveria ir. No dia marcado para a sua partida, a irmã dele, a grã-duquesa Xenia Alexandrovna, recebeu uma carta de Alice onde ela mais uma vez salientava que nunca se iria converter à Igreja Ortodoxa e onde pedia que a deixassem em paz. A carta foi um golpe terrível para Nicolau, mas a sua mãe insistiu para que ele fosse na mesma e que aproveitasse aquela última oportunidade. Já há vários anos que também Sérgio e Isabel o encorajam, assim como Vladimir e Maria, e a sua mãe também o aconselhou a tentar colocar a velha avó de Alice, a rainha Vitória, do seu lado. O grupo viajou de comboio em três vagões-cama e atravessou a fronteira com a Alemanha nessa mesma noite. Foram recebidos na estação de Coburgo pelo duque e pela duquesa de Saxe-Coburgo-Gota e por três dos seus filhos: Maria (a futura rainha da Roménia), Vitória Melita e Alfredo, que estavam acompanhados também de Ernesto Luís e Alice. Quando os cumprimentos foram todos trocados, o grupo seguiu viagem para o Palais Edinburg, a residência oficial dos duques, onde se realizou um jantar em família e assistiram a uma operetta.

Nicolau e Alexandra em Coburgo por volta de 1900. Com eles estão os grão-duques André, Cyrill e Boris Vladimirovich, assim como o grão-duque Ernesto Luís, a princesa Vitória Melita e o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca.
Na manhã seguinte, Nicolau teve a conversa com Alix pela qual ansiava e que temia. Ela não estava à espera de o ver chegar à estação com os tios e tias e o seu primeiro instinto tinha sido fugir, mas a grã-duquesa Isabel reagiu rapidamente e convenceu-os a encontrarem-se. Durante duas horas, a família deixou Nicolau e Alix sozinhos nos aposentos de Isabel, mas foi um encontro pouco satisfatório e cheio de lágrimas. "Ela esteve sempre a chorar", escreveu Nicolau à mãe, "e só sussurrava de vez em quando que não podia". Depois do almoço, Nicolau saiu com o grão-duque Sérgio e a grã-duquesa Isabel e, mais tarde, foi dar uma caminhada com o grão-duque Vladimir. À medida que toda a vila de Coburgo se preparava para receber a convidada mais importante de todas, a cabeça do czarevich estava ocupada apenas pelo seu futuro e, embora tenha descrito o momento em que deixou Alix como "mais calmo", no seu diário, é provável que se sentisse desapontado e sem saber o que deveria fazer a seguir.


Alix de Hesse-Darmstadt
Às 16:30, a rainha Vitória chegou de Itália acompanhada do príncipe e da princesa Henrique de Battenberg [a sua filha mais nova, Beatriz, e o marido]. À medida que o comboio abrandava na estação, as nuvens dissiparam-se e a velha senhora lembrou-se imediatamente do momento em que o seu falecido marido, o príncipe Alberto, a tinha levado pela primeira vez a Coburgo, quarenta anos antes. Agora o duque de Coburgo era o filho deles e ela estava prestes a assistir ao casamento de dois dos seus netos que o seu marido nunca tinha conhecido. Foi o duque Alfredo que a recebeu na estação, na companhia da sua esposa e dos seus filhos, incluindo a noiva. O kaiser tinha dado ordens para que um esquadrão do 1.º Corpo de Guardas Dragões da Prússia fosse a guarda-de-honra da rainha, e senhoras vestidas de branco encheram a carruagem de flores à medida que ela passava pelas ruas da vila. À chegada, a rainha teve direito a receber as boas-vindas do presidente da câmara e a uma marcha militar em frente ao Palais Edinburg antes de chegar ao Schloss, onde já se encontravam os convidados prontos para receber a rainha. Nicolau também estava lá, vestido no seu uniforme, e os dois foram apresentados, mas ainda não era a altura ideal para terem uma conversa privada. No entanto, de qualquer forma, a ideia que a mãe dele tinha de que a rainha Vitória o poderia ajudar, estava um quanto desajustada. Por muito que ela gostasse de Nicolau como pessoa, a rainha Vitória tinha muitas dúvidas relativamente a casamentos russos e era sempre contra eles.

Alix (segunda da esquerda) com a avó Vitória, o primo Eduardo Vítor, a tia Beatriz e a irmã Irene.
Na manhã seguinte, Nicolau foi dar uma caminhada de manhã cedo com o grão-duque Vladimir pelo caminho que levava até ao museu de armaduras do Veste, o antigo castelo onde Martinho Lutero tinha procurado abrigo dos seus inimigos. Estava a preparar-se para outro encontro com Alix depois do pequeno-almoço. Ainda marcado pelo encontro do dia anterior, tentou falar o menos possível do assunto de casamento, apesar de lhe ter entregue uma carta da mãe, que tinha a esperança de poder influenciá-la de alguma forma. Alix também estava a ser cada vez mais pressionada pelos membros da sua família. O seu irmão encorajou-a a encontrar-se em privado com Maria Pavlovna, e tanto ele como os outros deram tantas garantias a Nicolau que o jovem apaixonado e desapontado começou a sentir que algo iria correr mal.


Nicolau II
A tarde trouxe o alívio que estava a fazer tanta falta, quando os convidados viajaram até Rosenau, nos arredores da vila, para passar uma tarde relaxante que acabou com um chá. "Divertimo-nos muito quando conseguimos finalmente convencer o lacaio-chefe a cantar duas ou três canções", escreveu Nicolau, "começou a cantar na torre e acabou atrás dos arbustos". O kaiser chegou nessa noite e ficou hospedado em aposentos no Palais Edinburg. Esteve acordado até altas horas da noite a conversar com Nicolau e revelou que também apoiava completamente o plano do casamento e sugeriu que a situação se podia tornar mais fácil para Alix se os russos permitissem uma versão mais suave da fórmula de renúncia arcaica à qual ela se teria de submeter caso decidisse converter-se.

Nicolau II e Guilherme II
A manhã do casamento estava calma e cinzenta, mas os céus não demoraram a abrir e as ruas encheram-se de pessoas, ansiosas por ver a família ducal e a realeza a sair dos palácios que rodeavam a vila até ao Schloss Ehrenburg. Depois da longa conversa que teve com Guilherme na noite anterior, Nicolau chegou atrasado ao pequeno-almoço e teve de ir a pé e sozinho até ao Schloss Ehrenburg, furando entre as multidões que enchiam as ruas. Ás onze da manhã, os noivos fizeram os seus votos civis numa cerimónia discreta realizada no quarto da avó. É provável que a rainha tenha ficado emocionada quando viu Vitória Melita a usar o mesmo véu que a sua filha Alice tinha usado mais de trinta anos antes. Entretanto, os convidados que não faziam parte da realeza e a guarda de honra prussiana iam ocupando os seus lugares na capela, que estava decorada com coroas de galhos de abetos verdes e flores brancas. Pouco depois do meio-dia, a banda que estava instalada no quintal começou a tocar o hino nacional da Alemanha. A música assinalou o início da procissão real, liderada pelo kaiser e pela duquesa de Saxe-Coburgo. Quando estavam todos nos seus lugares, o duque Alfredo levou a sua filha pelo altar da capela juntamente com as suas duas damas-de-honor: a sua irmã Beatriz, que no dia seguinte fazia dez anos de idade, e a princesa Feodora de Saxe-Meiningen, sobrinha do kaiser, de treze anos de idade. Havia cinco clérigos na capela, mas a maior parte da cerimónia foi celebrada pelo capelão da corte de Darmstadt, o Dr. Müller. Os convidados reparam que ele se emocionou com a ocasião e a sua voz estava muito afectada quando deu as bênçãos.



Vitória Melita e Ernesto Luís
Depois da missa, os convidados seguiram para um pequeno-almoço de casamento que se realizou na sala do trono, e às 15:30, a paciência da multidão que esperava desde manhã foi recompensada quando uma carruagem decorada com flores apareceu na Schloss Platz, pronta para levar o jovem casal até à estação. Um grupo da realeza feliz e relaxado despediu-se deles, a rir e a dar vivas entre chuvas de arroz, e ninguém se opôs aos pedidos dos fotógrafos locais para fotografias. Até o príncipe de Gales [futuro rei Eduardo VII] se colocou em fila com os irmãos para ser fotografado. Ernesto Luís levou a sua nova grã-duquesa para casa, em Darmstadt, onde os dois entraram de forma triunfal na manhã seguinte, viajando numa carruagem aberta pelas ruas da cidade, decoradas com bandeiras e coroas de flores. As comemorações continuaram lá durante vários dias. Era a primeira vez que Darmstadt via comemorações daquele calibre desde a morte da princesa Alice, dezasseis anos antes, e o futuro parecia brilhante para o casal.

A rainha Vitória com alguns dos seus filhos (Vitória, imperatriz-viúva da Alemanha, o príncipe Artur, o príncipe Alfredo e o príncipe de Gales) e o neto, o kaiser Guilherme II da Alemanha, no casamento de Vitória Melita e Ernesto Luís.
Em Coburgo, a festa da família também continuava, e a tensão estava a aumentar para o czarevich. Ao longo de toda a missa, não tinha conseguido deixar de pensar em Alix, que estava sentado duas filas atrás dele, perto do altar. A tensão emocional em casamentos era sempre grande, no entanto, para Nicolau, que andava entre a esperança e o desespero, o sermão do Dr. Müller "foi directo ao meu problema. Naquele momento, quis, mais do que tudo, conseguir ver o que vai na alma da Alix". É provável que não se tenha apercebido de que era aquele mesmo clérigo, o capelão da família de Alix, que a tinha convencido várias vezes de que mudar de religião era um pecado. Nessa tarde, Nicolau e o seu tio, o grão-duque Vladimir, deram um passeio a pé até ao Veste e passaram muito tempo a explorar a sala das armas. Houve um pequeno jantar de família no Palais Edinburg e, depois, os dois foram ao teatro a pé, a correr para tentar fugir à chuva que tinha começado a cair.

Alix, Vladimir Alexandrovich, Maria Pavlovna e Nicolau II
Na manhã seguinte, dia 20 de Abril, os pesos pesados foram tentar convencer Alix. O kaiser, seu primo, teve uma conversa em privado com ela antes de a acompanhar até ao Palais Edinburg para se encontrar com a grã-duquesa Maria Pavlovna. Seria difícil imaginar uma situação mais icónica do que esta: a imperatriz-viúva da Alemanha, Vitória, estava muito divertida com o papel que o seu filho, o kaiser, estava a ter no assunto, uma vez que, poucos anos antes, tinha visto a conversão da sua irmã, a princesa Sofia, à Igreja Ortodoxa Grega como um pecado mortal. Maria Pavlovna também se tinha gabado abertamente do facto de se ter recusado a converter quando se casou com um Romanov. Mas nenhum deles tinha a capacidade de se rir das suas próprias inconsistências: neste caso a única coisa que queriam era ficar com a melhor imagem possível junto do jovem que, um dia, iria governar a Rússia, e da sua futura esposa, e essa era a única coisa que conseguiam ver. Às dez da manhã, o kaiser deixou Alix com Maria e, pouco depois, as duas mulheres juntaram-se ao resto do grupo russo: depois, todos se retiraram para uma sala ao lado, deixando Nicolau e Alix sozinhos. Finalmente, Alix cedeu e aceitou a proposta de Nicolau.

Alix e Nicolau no dia do seu noivado, em Coburgo.
A tensão dos dias anteriores evaporou-se imediatamente. "Para mim, o mundo inteiro mudou", escreveu Nicolau "a natureza, a humanidade, tudo. E tudo parece ser bom e cheio de amor e felicidade. Nem sequer conseguia escrever, as minhas mãos tremiam tanto". Todos os pormenores desse dia ficaram para sempre gravados nas suas memórias, e foram recordados várias vezes ao longo dos anos:

"Sabes que guardei o vestido de princesa cinzento que usei naquela manhã?"

"Tanto quanto me lembro, houve um concerto em Coburgo nessa noite e havia uma banda da Baviera a tocar. O pobre tio Alfredo estava tão cansado à hora do jantar que estava sempre a deixar cair a bengala com um grande estrondo. Lembras-te?"

"Ainda sinto o tecido do teu fato cinzento, o cheiro dele quando estávamos sentados naquela janela no castelo em Coburgo. Lembro-me de tudo muito nitidamente. Daqueles doces beijos com os quais tinha sonhado durante tantos e tantos anos e que pensei que nunca conseguiria ter".

"Lembra-te de Coburgo e de tudo o que passámos".

 
Fotografia de noivado de Nicolau e Alix
Havia uma pessoa que não fazia ideia de que tudo isto estava a acontecer e, caso Alix quisesse realmente recusar o pedido de Nicolau, poderia ter recorrido directamente a ela para pedir ajuda: a sua avó, a rainha Vitória. A velha rainha tinha feito todos os possíveis para encontrar um marido inglês ou alemão para a sua neta e ficou admirada quando a grã-duquesa Isabel a foi visitar ao seu quarto pouco depois do pequeno-almoço e lhe deu a notícia do noivado. Ainda com lágrimas de felicidade no rosto, Isabel abriu a porta e deixou entrar o casal feliz. No entanto, apesar das suas reservas, a rainha aceitou o que tinha acontecido e ficou bastante comovida com a atitude de Nicolau e a sua alegria óbvia. Um grupo de jornalistas interceptou o kaiser quando ele passava pela Schloss Platz a caminho de uma visita ao duque e à duquesa de Saxe-Coburgo-Gota e também ele "parecia rebentar de felicidade" quando lhes deu a notícia. Quando acabou o encontro com a rainha, o jovem casal regressou ao Palais Edinburg para um almoço de família e uma missa de acção de graças celebrada na capela privada da duquesa de Saxe-Coburgo-Gota, que tinha mantido a sua religião ortodoxa depois de se casar com o príncipe Alfredo.

Nicolau e Alix
Os acontecimentos daquela manhã devem ter ofuscado por completo as restantes comemorações do dia. A princesa Beatriz de Saxe-Coburgo-Gota fazia dez anos de idade e tinha sido organizado um baile no Rosenau para essa tarde, no qual estiveram presentes quase todos os convidados. Nicolau esteve presente, embora tenha preferido trocar as danças por um passeio a sós com Alix pelos jardins. Foram chamados fotógrafos para registar o noivado, e tiraram algumas das fotografias mais conhecidas tanto do casal a sós como com o restante grupo.

A princesa Beatriz de Saxe-Coburgo-Gota.
A partir de então, os dias passaram a correr, numa roda viva de jantares, concertos,  passeios e, no caso de Nicolau e Alexandra, uma montanha de telegramas para responder. O kaiser partiu no dia do noivado, mas sem antes tirar uma série de fotografias de grupo no jardim do Palais Edinburg, com a mãe e a avó no centro. Quando estava em Coburgo, os pensamentos da rainha nunca se desviavam muito do príncipe Alberto e ela tinha tirado algum tempo para visitar os locais que ele lhe tinha apresentado muitos anos antes. Antes de o grupo se separar, também deu um jantar e o concerto para as três gerações dos seus descentes, a maioria dos quais nunca tinha conhecido Alberto. No dia 22, houve mais uma celebração em família: era o dia do nome do grão-duque Vladimir e os russos deram-lhe presentes de manhã, antes de ele e a sua esposa partirem para São Petersburgo, levando consigo, com muito orgulho, cartas da parte de Nicolau e Alix para o czar e para a czarina.

A conhecida fotografia da rainha Vitória e da sua família tirada no dia de noivado de Nicolau e Alexandra.
Na Rússia, a notícia do noivado foi recebida com alegria e com um grande sentimento de alívio. "Não há palavras para descrever o prazer e grande alegria com os quais recebi a notícia!", escreveu a czarina ao seu filho, "Quase desmaiei de alegria! (...) Tínhamos esperado com um sentimento tão grande de desespero quando foste para aí que tinha o coração a sangrar quando te vi partir, e os meus pensamentos e orações nunca te abandonaram". O czar também lhe escreveu alguns dias depois: "tenho de admitir que não acreditei que este desfecho fosse possível e tinha a certeza que a tentativa ia falhar por completo, mas o Senhor guiou-te, deu-te força e abençoou-te, e agradeço-Lhe muito pela sua misericórdia. Quem me dera que tivesses visto a alegria e júbilo com que todos receberam a notícia". O seu primo, o grão-duque Constantino, esteve na missa do Domingo de Ramos em Gatchina a 11/22 de Abril e escreveu no seu diário: "Já não via a imperatriz tão radiante há muito tempo. O noivado do Nicky foi uma alegria para todos os russos que já há muito que esperavam que ele assentasse na vida de casado". Estavam todos ansiosos por voltar a ver o czarevich e dar-lhe os parabéns em pessoa, mas, ao contrário dos tios, ele não ia regressar directamente para a Rússia.

Alexandre III, Maria Feodorovna e Xenia
Após as emoções daqueles dias, Alix estava ansiosa por voltar a ver o irmão e voltar para casa, por isso, às 16:30 de dia 22 de Abril, apanhou o comboio para Darmstadt na companhia de Nicolau, das irmãs e dos cunhados, o grão-duque Sérgio e o príncipe Luís de Battenberg. "Fomos recebidos de forma trinfal", escreveu Nicolau "a Ducky [Vitória Melita] e o Ernie foram os nossos anfitriões pela primeira vez. Havia uma guarda de honra, um escolta, iluminações e multidões de pessoas. Comemos a ceia assim que chegámos ao palácio, porque estávamos cheios de fome". A estadia em Darmstadt foi curta. Na manhã seguinte, a família tomou o pequeno-almoço junta e Alix e Nicolau passaram mais algum tempo a responder a telegramas. Visitaram o mausoléu da família no Rosenhöhe, onde estavam sepultados os pais de Alix, e, depois do almoço, houve mais uma sessão fotográfica antes de apanharem novamente o comboio para Coburgo.

Nicolau e Alexandra com a família em Damstadt, Abril de 1894
O casal só passou mais uma semana juntos, rodeado pela família. Inicialmente, o tempo esteve bom e os dois puderam passear, andar a cavalo, visitar o Rosenau e encontrar-se em privado com a rainha. No caso de Nicolau, também houve as missas e cerimónias tradicionais da Páscoa ortodoxa. A sua tia deu-lhe autorização para sair do palácio e ficar numa residência mais pequena e mais perto de Alix, e os dois viram-se tantas vezes quanto foi possível. Além da sua felicidade, Nicolau também falou sobre um novo sentimento no seu diário: "é tão estranho poder passear de carruagem e a pé sozinho com ela, sem me sentir envergonhado de todo, como se isso não tivesse nada de anormal". No entanto, tudo tem um fim. A rainha Vitória partiu para Inglaterra a 28 de Abril, às seis da tarde, e, a 2 de Maio, chegou o dia de Nicolau e Alix se separarem. Ela deixou Coburgo pouco depois do meio-dia, para regressar a Damstadt, e, depois, para ir até Inglaterra, a convite da avó. Ele passou mais algumas horas com a família, antes de apanhar o comboio das nove para a Rússia, sendo o último convidado do casamento a partir. Partiram os dois, cada um com as suas memórias, esperanças e planos, mas uma coisa era certa: iriam lembrar-se de Coburgo durante muito tempo.

Nicolau e Alexandra
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Chalotte Zeepvat

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Segunda Parte

Alexandre Alexandrovich
Com alguma relutância, Nicolau I deu autorização ao filho para convalescer em Itália, mas, em finais de Janeiro de 1839, a comitiva já estava novamente em viagem, desta vez pelas cortes da Alemanha. Não era segredo que Alexandre estava à procura de uma esposa. Os seus pais tinham esperança que gostasse da princesa Alexandrina de Baden, mas a jovem de dezoito anos não despertou qualquer sentimento em Alexandre. A partir da corte do pai dela, em Karlsruhe, Alexandre avançou para Heidelberg, mas estava normalmente a sentir-se exausto e, a 12 de Março, o general Kavelin sugeriu uma paragem não-planeada em Darmstadt. Alexandre queria uma noite descansada, mas o grão-duque de Hesse tinha outros planos, convidando o czarevich e a sua comitiva para o teatro e, depois, para jantar. A maioria sentia-se demasiado cansada para ir, mas Alexandre não podia recusar. "Foi só na manhã seguinte", contou Zhukovsky aos pais dele, "que fiquei a saber o que tinha acontecido na noite anterior. Dizer que estava feliz não chega (...). Atingimos o objectivo da nossa viagem".

Darmstadt em 1830
Alexandre ficou paralisado quando viu a filha do grão-duque. Aos catorze anos de idade, Maria de Hesse-Darmstadt ainda era uma criança, mas era alta para a idade e inteligente. Também se sentia sozinha, sentia a falta da mãe que a tinha criado longe da corte e que tinha morrido de tuberculose quando Maria tinha apenas onze anos de idade. Durante um curto período de tempo, quando Maria era mais nova, os seus pais tinham-se separado e havia rumores em todas as cortes da Europa de que o grão-duque não era o seu pai biológico. Nem toda a gente em Darmstadt era simpática para Maria e Alexandre era demasiado sensível para resistir à combinação da sua juventude, beleza e infelicidade. A sua comitiva ficou em Darmstadt durante alguns dias e, quando chegou a altura de partir, Alexandre levou consigo um medalhão com uma madeixa de cabelo de Maria.

Maria de Hesse-Darmstadt
Na noite de 19 de Março, Alexandre chegou a Haia onde iria passar um mês com a sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, princesa de Orange, e a família dela para comemorar a Páscoa e o seu vigésimo-primeiro aniversário. "O Sasha foi encantador no seu uniforme de cossaco, que lhe fica maravilhosamente bem.", escreveu Ana ao seu irmão nessa noite. "O bigode pequenino dele está a crescer e, quanto à aparência, posso dizer-te que o acho um jovem muito bonito". Os dias em Haia eram passados tranquilamente, a fazer visitas e escrever cartas, e, à noite, Alexandre fazia companhia à tia à hora do chá. É possível que lhe tenha falado de Maria, pelo menos é essa a ideia que a grã-duquesa Ana transmite numa outra carta dirigida ao irmão: "tenho a certeza que a diferença de locais e ambiente não o distraíram do objectivo principal que o devia ocupar". Ana ficou encantada com o seu sobrinho: "tem muito tacto, graciosidade e dignidade", escreveu ela, "com uma naturalidade que encanta".

Ana Pavlovna, princesa de Orange
A 20 de Abril, Alexandre deixou Haia e partiu para Inglaterra para mais uma visita de sucesso. A rainha Vitória, que era um ano mais nova do que ele e ainda solteira, achou a naturalidade tão encantadora como a sua tia tinha achado. Alexandre ficou no país um mês e foi recebido com entusiasmo por todo o lado. A 29 de Maio regressou a Haia e, depois, com a autorização dos pais, voltou a Darmstadt onde já tinham começado as negociações preliminares para o seu casamento com Maria.


A rainha Vitória em 1838

Existe uma história contada desde sempre e, por isso, dada como verdadeira, de que o czar Nicolau I estava contra o noivado e manteve a sua posição durante um ano, obrigando o filho a lutar por aquilo que queria. Almedingen descreveu como o czar, furioso, exigiu que Alexandre regressasse à Rússia após a primeira visita a Darmstadt, e escreve que Alexandre voltou para enfrentar a fúria do pai antes de continuar a sua viagem pelas cortes europeias. Apesar de este cenário parecer familiar, não há provas que o sustentem. A comitiva de Alexandre chegou a Darmstadt a 12 de Março e ficou lá durante alguns dias, chegando a Haia no dia 19. Sendo que na altura não tinham um meio de transporte mais rápido do que um cavalo, seria impossível incluir uma visita a São Petersburgo neste período de tempo, mesmo que o czar a tivesse ordenado, e, além disso, não existem sinais de que Nicolau estivesse realmente contra a união: o que o czar queria realmente era ver o filho bem casado. Em Abril, o embaixador austríaco em São Petersburgo reportou que o czar tinha aceite a aliança de Hesse e que a tinha comunicado ao seu próprio governo. Em Maio, Nicolau escreveu ao seu cunhado, o príncipe de Orange, e, ao referir-se ao seu sobrinho, o filho mais velho da sua irmã, acrescentou: "também o meu filho já encontrou o seu amor. Vamos ver o que irá acontecer. Pelo menos até agora, as belas jovens inglesas ainda não conseguiram ultrapassar Darmstadt". Havia apenas um motivo pelo qual Alexandre teria de esperar para o casamento: o facto de Maria ainda não ter sequer quinze anos de idade.

Maria de Hesse-Darmstadt
Após uma breve visita à família de Hesse, Alexandre regressou à Rússia, onde o seu pai o começou a incluir nos assuntos de estado e, à medida que o ano ia passando, o czarevich preparava-se para regressar a Darmstadt. O seu pai era da opinião de que ele não podia tomar uma decisão definitiva enquanto não visse a princesa novamente. O czar e a czarina não iriam tentar influenciar o filho, "mas ficaríamos encantados se a decisão fosse afirmativa". O noivado foi anunciado em Abril. Nicolau I e Alexandra também estavam a viajar pela Europa nessa primavera e deram os parabéns a Alexandre e Maria pessoalmente em Frankfurt, nesse mês de Junho. Em Agosto, algumas semanas depois de Maria completar dezasseis anos de idade, a família viajou em conjunto para a Rússia. A 28 de Abril de 1841, na véspera do dia em que Alexandre completou vinte-e-três anos de idade, os dois casaram-se na capela do Palácio de Inverno.

Maria Alexandrovna e o futuro czar Alexandre II
O casamento trouxe a Alexandre um nível de felicidade pessoal que ele já não sentia desde antes de o seu pai subir ao trono. Alexandre e Maria (agora conhecida como Maria Alexandrovna) eram jovens, interessavam-se por literatura, música e poesia, e a sua corte tornou-se no ponto principal dos seus amigos que partilhavam dos mesmos gostos. A maioria das suas noites eram passadas a dançar, a ouvir música, a ler em voz alta e a trocar ideias. A sua primeira filha, Alexandra, nasceu em Czarskoe Selo no verão de 1842 e um filho, Nicolau, nasceu um ano depois. Com o seu nascimento, a linha de sucessão ficou garantida e os avós ficaram encantados. Depois nasceram Alexandre, Vladimir, Alexei, Maria... Alexandre era um pai dedicado. As paredes do seu escritório em Czarskoe Selo estavam cobertas de retratos da sua esposa e filhos e a sua secretária quase transbordava com miniaturas deles. As crianças brincavam ao lado dele enquanto ele trabalhava. A pequena Alexandra morreu de meningite tuberculosa oito semanas antes de completar sete anos de idade e Alexandre guardou cuidadosamente o seu vestido de seda azul o resto da sua vida. A pequena grã-duquesa tinha um lugar especial no coração do pai. Muitos anos depois da sua morte, quando a sua outra filha, Maria, estava prestes a casar, Alexandre contou a Lady Augusta Stanley sobre a criança que tinha perdido, que "era tão dedicada a ele que costumava pedir para ficar na mesma divisão do pai, mesmo quando ele estava ocupado, e ficava lá durante longas horas, em silêncio, só para poder ver o papá".

Alexandre com os seus dois filhos mais velhos, Alexandra e Nicolau
Mas Alexandre e Maria Alexandrovna partilhavam mais do que os filhos. Alexandre estava já envolvido activamente no governo do seu pai e pedia a opinião da sua esposa para tudo. Levava os papéis de estado para casa e os dois liam e discutiam os mesmos entre si. Alexandre respeitava o bom senso de Maria, assim como o da sua tia Helena Pavlovna, que se tinha tornado na amiga mais chegada de Maria dentro da família imperial. Juntos, o jovem casal lia as obras acabadas de publicar de Turgenev e Gogol, que estavam na mira da censura oficial. Juntos, estudavam os relatórios mais recentes sobre o estado do país, que eram demasiado controversos para mostrar ao czar. Zhukovsky ainda estava por perto e continuava a incentivar Alexandre: "o teu coração deseja sinceramente o maior bem e, um dia, terás grande poder nas tuas mãos (...) mas terás de saber o que fazer (...) assim que souberes que uma medida é boa, a sua aceitação deve ser imediatamente seguida da sua concretização".

Alexandre Alexandrovich
Em 1842, Alexandre liderou um comité que o seu pai tinha convocado para alterar as condições da servidão. Os seus objectivos eram limitados, mas isso não impediu uma tempestade de protestos. Havia interesses ocultos na Rússia que estavam decididos a preservar o sistema tal como ele estava. As acções do comité foram atrasadas pela burocracia. O descontentamento aumentou. Em algumas zonas, a esperança numa reforma foi arrasada e, quando isso aconteceu, os camponeses tornaram-se violentos ou abandonaram as suas terras. Noutros locais também houve violência, mas pelo motivo contrário: os camponeses temiam a mudança. Era um ambiente caótico e desmotivante e a única resposta do czar Nicolau I foi aumentar ainda mais a repressão. Esta atitude prolongou-se ao longo da década de 1840. Com uma censura rigorosa e castigos medievais, Nicolau I tentou proteger a Rússia dos pedidos de mudança que se estavam a espalhar por toda a Europa, mas não havia nada que conseguisse silenciar a fúria no país. No entanto, Alexandre que, na altura, era já uma figura central do governo, não foi culpado por nenhuma destas políticas. Ainda havia uma aura dourada à sua volta.

Nicolau I da Rússia
O reinado de Nicolau aproximava-se do seu doloroso final. A partir de 1852, Alexandre viu o seu pai a entrar em conflito directo contra as grandes potências europeias. Ninguém queria que a Guerra da Crimeia acontecesse. Alexandre, que nunca se sentira como um verdadeiro soldado, detestava a ideia de ir para a guerra e percebeu imediatamente qual seria o resultado daquela em particular, mas não podia opôr-se ao pai. Era praticamente o regente do império, detendo todos os poderes à excepção do poder essencial para decidir a política geral, e Maria partilhava a sua ansiedade, à medida que ia procurando coragem nos evangelhos e nas cartas de Zhukovsky e assistia ao desenrolar dos acontecimentos. Não havia coragem suficiente do lado russo para compensar a falta de organização e de liderança. No início de 1855, Alexandre não aguentava mais e dispensou o comandante-em-chefe, substituindo-o por um homem da sua confiança. Dois dias depois, chegava a notícia de que o czar Nicolau I tinha morrido e que Alexandre se tinha tornado czar da Rússia. Tinha trinta-e-seis anos de idade e herdava um país perto do colapso.

Alexandre (esq) com o pai Nicolau I e o irmão Constantino Nikolaevich (dir).
Neste ponto baixo, havia mais esperança no seu reinado do que nunca. Nos seus primeiros meses de reinado, Alexandre aliviou a censura e levantou as restrições que tinham sido impostas a viagens ao estrangeiro. Mais tarde, iria abolir a pena capital e o castigo por chicotadas. Os responsáveis pela Revolta Dezembrista foram finalmente libertados. Até os maiores inimigos do regime esperavam que Alexandre conseguisse um milagre. Em Inglaterra, um socialista exilado, Alexander Herzen, editor do diário Kolokol (O Sino) fez uma promessa extraordinária. Disse que iria abandonar a oposição "porque tenho em mim a esperança de que o czar fará algo pela Rússia. Majestade, dê liberdade à palavra russa (...) dê-nos liberdade de expressão (...) dê a terra aos camponeses". Foi um momento extraordinário. Tudo parecia possível, e as pombas voavam por toda a Rússia.

Fogo de artíficio na coroação de Alexandre II em 1856
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

[Off-Topic] D. Pedro V e a família real britânica

A rainha Vitória do Reino Unido (de costas), o infante D. Luís e o rei D. Pedro V de Portugal
D. Pedro V, que reinou em Portugal entre 1853 e 1861, ficou para a história de Portugal como "o Esperançoso" e o "bem-amado". Filho de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, tinha laços familiares muito próximos tanto com a rainha Vitória como com o seu marido, Alberto, príncipe-consorte do Reino Unido, uma vez que o seu pai era filho de Fernando de Saxe-Coburgo, irmão da mãe da rainha Vitória e do pai do príncipe Alberto.

Ainda antes de Pedro nascer, pouco tempo depois do seu casamento com D. Fernando, já a sua mãe, a rainha D. Maria II trocava correspondência com a rainha Vitória, maioritariamente sobre as suas vidas domésticas e, mais raramente, sobre a situação política dos seus países. Quando D. Pedro nasceu, D. Maria II ia mantendo a sua prima por casamento actualizada sobre os desenvolvimentos do seu filho. A rainha Vitória, no entanto, não estava tão convencida como a prima das vantagens de ter filhos, como revela a seguinte passagem do livro "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica:

A rainha D. Maria II com o seu filho, o futuro rei D. Pedro V

D. Maria II achava que os benefícios de ter filhos excediam os custos. Numa das cartas que enviou para Inglaterra declarava (...) 'quando a prima tiver filhos compreenderá melhor o que lhe digo e verá como é doce tratar das crianças, esperando de todo o meu coração que isto vos aconteça em breve'. Mas a rainha Vitória não partilhava destes sentimentos. Quando disse a D. Maria que não só temia os partos, mas desconfiava do prazer de ter crianças, esta ficou tão surpreendida que a admoestou: 'penso que, quando se ama o marido, nós desejamos e amamos ter crianças.' Para a rainha Vitória, o facto de amar o marido não significava que tivesse de aceitar, com deleite, as gravidezes sucessivas. (...) A 22 de Novembro de 1840, tendo-a a rainha Vitória interrogado sobre se ela desejava ter mais filhos, D. Maria II respondia-lhe: "Considero que, quando uma mulher se casa, é para ter filhos e, portanto, é natural que os desejemos e, além disso, amo extraordinariamente as crianças".

D. Maria II fazia a distinção tradicional entre o prazer de ter um filho ou uma filha. Quando Vicky, a filha mais velha da rainha Vitória, nasceu, a monarca portuguesa dizia à prima que era uma pena não ter sido antes um rapaz, coisa, aliás, que não tardaria a suceder, com o nascimento do príncipe Alberto Eduardo, a quem seria posto o petit-nom de Bertie. D. Maria preveniu então a prima da eventualidade de Vicky vir a ter ciúmes do irmão, coisa que ela notara em D. Pedro, aquando do nascimento de Lipipi, o diminutivo que a família passara a usar para designar D. Luís.

D. Maria II de Portugal
D. Maria II acabaria por morrer muito nova, a 15 de Novembro de 1853, ao dar à luz o seu décimo-primeiro e último filho que morreu pouco tempo depois. D. Pedro V tinha apenas dezasseis anos e, como ainda era menor de idade, formou-se uma regência encabeçada pelo seu pai, o rei D. Fernando II.

Antes de subir oficialmente ao trono, a 28 de Maio de 1854, D. Pedro V partiu numa viagem educacional pela Europa e o primeiro destino foi a Inglaterra. Na sua biografia de D. Pedro V, Maria Filomena Mónica descreve esta viagem, recorrendo também a excertos do diário que D. Pedro escreveu na altura:

O rei D. Pedro V

"A 2 de Junho, o [barco] Mindelo aportava a Southampton. Eram 11 horas da noite quando D. Pedro recebeu, a bordo, a visita do embaixador português, Lavradio, bem como de diversas personalidades entre as quais o coronel Wylde (ajudante-de-campo do príncipe Alberto), o qual conhecia bem Portugal, por aqui ter estado durante alguns meses ao serviço da coroa britânica. No dia seguinte, os príncipes foram de comboio para uma estação perto de Londres, onde eram aguardados pelo príncipe Alberto, tendo seguido para o Palácio de Buckingham, onde a rainha Vitória os esperava. (...)

Eis como fica registada a recepção aquando da chegada ao palácio real: "Era meio-dia quando entrámos em Buckingham Palace. A rainha e a duquesa de Kent esperavam-nos na escada e, pouco depois, vieram as princesas Vitória, Alice, Helena e Luísa e os príncipes Alberto e Alfredo." Continuava: "Vimos o jardim que é belo pela disposição mais do que pelas suas qualidades intrínsecas." Ao regressarem do passeio, apareceu um criado, anunciando a chegada do duque de Wellington, o filho do general que lutara contra os franceses em Portugal. A seguir, estando presentes alguns dos príncipes ingleses, foram almoçar."

O príncipe Alberto e a rainha Vitória em 1854, ano em que D. Pedro visitou a Inglaterra
D. Pedro começava uma relação - com o tio Alberto - que se viria a revelar extraordinariamente importante. Nesse primeiro dia, o marido da rainha Vitória mostrou-lhe a sua biblioteca, chamando a atenção para a obra sobre a História Natural das Aves da Austrália, de Gauer, que os dois folhearam com prazer. De tarde, D. Pedro foi visitar  a duquesa de Gloucester [Augusta de Hesse-Cassel, nora do rei Jorge III], a duquesa de Cambridge [Maria do Reino Unido, filha do rei Jorge III], e a duquesa de Kent [mãe da rainha Vitória], após o que o coronel Wylde lhe mostrou alguns quadros pertencentes à coroa britânica. "

Nos dias seguintes, D. Pedro foi visitar outros locais do país.

"Após esta incursão, regressou a Londres, onde o conde de Lavradio o esperava na estação. A 1 de Julho foi passear, a cavalo, com o tio, em Hyde Park e, à noite, ao teatro inglês, onde assistiu a uma peça que não passou à história, após o que se despediu dos membros da família real e dos portugueses residentes em Londres. Eram 6 horas da manhã do dia 3 de Julho quando o Mindelo saiu de Woolwich, a caminho da Bélgica. Passara um mês inteiro em Inglaterra, o país que viria a ocupar o topo das suas preferências."

D. Pedro V
A influência da família real britânica voltaria a revelar-se essencial alguns anos depois, quando D. Pedro V procurava uma esposa. O príncipe Alberto foi uma das pessoas que mais insistiu com o jovem para se casar, como revela Maria Filomena Mónia:

"O príncipe Alberto, para já não mencionar pessoas cuja opinião lhe mereciam menos crédito, chamou-lhe várias vezes a atenção para a necessidade de não adiar o projecto. A 25 de Outubro de 1856, dissera-lhe solenemente: "Falta-te uma rainha que assuma a parte feminina da tarefa". A 30 de Janeiro de 1857, insistia: "O celibato tornar-se-á tanto mais perigoso quanto mais se evidenciarem as diferenças, nos gostos e nas ideias, entre filho e pai. Assim, como actualmente estão as coisas, depressa o centro da família se perderá de vez e, sem este, não é possível manter uma família unida." Acrescentava: "A rainha devia ser jovem, bonita, pura, bem educada e instruída, não ser beata nem mimada" (...)

Em 1857, o rei aceitou o destino que lhe estava destinado. Os soberanos ingleses ofereceram-se para o ajudar na difícil selecção da noiva. As casas reinantes reputadas não libertavam, de bom grado, uma filha a fim de casar com um monarca de um país economicamente atrasado, politicamente instável e geograficamente distante. Uma primeira tentativa, a de Carlota de Saxe-Coburgo, a filha do rei da Bélgica (que viria a desposar Maximiliano, o futuro imperador do México), não resultou. A rainha Vitória e o príncipe Alberto pensaram então em Estefânia, um membro da família real da Prússia. Tinha um bom currículo: era filha do príncipe Carlos António de Hohenzollern-Sigmaringen e da princesa Josefina Frederica, filha do grão-duque de Baden, Carlos Luís Frederico.

A rainha D. Estefânia e D. Pedro V
A 29 de Março de 1857, o príncipe Alberto escrevia ao sobrinho: "Terias a vantagem de ficares com uma princesa católica, oriunda de uma casa protestante e liberal e com sangue completamente novo, não conspurcado com misturas de Bourbons ou Habsburgueses, além de ela ter gozado de uma educação simples, não estragada pelos incensos da Corte." (...) A certa altura, D. Pedro até conseguiu fingir que estava contente, escrevendo a Vicky, a filha mais velha da rainha Vitória: "Talvez já seja tarde, mas nem por isso respondo com um sentimento de gratidão menos sincero à tua amável carta de 5 de Agosto, na qual me envias os teus parabéns pelo pedido da minha noiva." (...)"

Infelizmente, a rainha D. Estefânia acabaria por morrer apenas dezoito meses depois do casamento, a 17 de Julho de 1859, com apenas vinte-e-dois anos de idade, de Difteria. Uma vez que tinham sido eles a escolher a noiva, o príncipe Alberto e a rainha Vitória ficaram muito abalados com a notícia.

A rainha Dona Estefânia
"Os reis ingleses ficaram sinceramente impressionados com a notícia. No próprio dia em que Estefânia morrera, a rainha Vitória escrevia à filha Vicky, a viver na Prússia: "Pedro é um filho nosso. Fomos nós que arranjamos este casamento para ele, fomos nós que encontrámos esta pérola e, agora, tudo desapareceu - nem sequer existe uma criança como herdeira deles. Estou alarmada com o estado de espírito dele. O querido papá está muito deprimido. E toda a gente fala dele com lágrimas nos olhos." Alguns dias passados, a 3 de Agosto de 1859, a rainha contava, ainda a Vicky, ter recebido uma carta comovedora do rei D. Pedro: "Realmente despedaça-nos o coração e faz-nos pensar a razão pela qual acontecem coisas tão horríveis! O seu destino é tão penoso e inquietante. Desejaria fazer qualquer coisa por ele, pobre rapaz, tudo é horrível. Tanto mais que, dentro de poucos anos, o país esperará que case outra vez. Onde encontrar alguém minimamente adequado para suceder áquele anjo?" (...)

Tão triste andava que levou algum tempo antes de responder às cartas que a tia Vitória lhe mandara. Só a 16 de Fevereiro lhe escreveria, começando exactamente por pedir perdão: "Vossa Majestade tentou aliviar os meus sofrimentos. Não penseis contudo que todo este intervalo de tempo tenha sido para mim um tempo de repouso. Nos últimos tempos, assaltaram-me todo o tipo de preocupações, sobretudo políticas, pelo que o meu espirito ainda não saiu da convalescença, sempre sofrendo profundamente, desencorajado pelo espectáculo de tudo o que rodeia, incerto sobre o meu futuro e sobre o que me acontecerá, é-me muito difícil encontrar, na minha força de vontade, a capacidade para executar a minha difícil profissão. O bem, que o tempo acaba por nos trazer, é sempre e infalivelmente destruído pelos assuntos e pelas lembranças constantes do meu passado tão recente e tão feliz. Trata-se de uma luta contínua entre o corpo e o espirito, da qual, se a calma e o repouso me continuarem a ser negados, um terá de sair vencido." Continuava com um lamento: "A Estefânia resumia todas as minhas ambições, ela tinha tudo o que eu amava no mundo e levou tudo isso com ela!" Menos aberto com a tia do que com o tio, voltaria, no entanto, a escrever-lhe a 30 de Janeiro de 1861, pedindo mais uma vez desculpa no atraso, atribuível, como dizia, ao ciclo alternado de actividade intensa e tranquilidade estéril, a que o governo de Loulé o forçava."

D. Pedro V
Tragicamente, D. Pedro V acabaria por morrer apenas dois anos depois da sua esposa, a 11 de Novembro de 1861, de febre tifóide, quando tinha apenas vinte-e-quatro anos de idade. 

"Na família real inglesa, a morte de D. Pedro foi profundamente sentida. A 12 de Novembro, Vitória escrevia ao seu tio Leopoldo o seguinte: "É um acontecimento quase incrível. E uma perda verdadeiramente europeia! Ele estava tão ligado ao meu amado Alberto, e os temperamentos e os gostos de ambos de tal forma se adequavam e ele tinha tal confiança no Alberto..." A 14, o príncipe Alberto escrevia ao seu tutor, Stockmar: "Você conhece o meu amor por Pedro e a forma como, através da troca de ideias, tentámos ambos trabalhar pelo progresso daquele infeliz país [Portugal]", o que, na prática, o tornara quase um co-regente de Portugal. Na véspera, em carta à filha mais velha, Vicky, dizia lamentar a morte de alguém que poderia ter defendido com integridade o principio monárquico, ajudando desta forma "um povo desgraçado". Alguns dias depois, a 16, Vitória dizia a Vicky: "Foi um golpe terrível para nós - e para o querido papá, que nele tinha encontrado alguém totalmente digno dele, enquanto que, por outro lado, infelizmente, não encontrou [esse consolo] junto de quem mais se esperava e de quem tanto se queria [o príncipe de Gales]. Entretanto, anotava no seu diário: "O meu Alberto tinha muito orgulho nele e amava-o como um filho (tal como me sucedia no meu caso) e ele tinha uma confiança total em Alberto e era digno dela."

D. Pedro V
Texto retirado maioritariamente do livro "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica
Para consultar todas as cartas trocadas entre D. Pedro V e o príncipe-consorte Alberto de Inglaterra, existe o livro "Correspondência entre D. Pedro V e o seu tio, o Príncipe Alberto" também compilado por Maria Filomena Mónica e "Cartas de D. Pedro V ao Príncipe Alberto", compilado e traduzido por Rubén Andersen Leitão.