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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

[Off-Topic] D. Pedro V e a família real britânica

A rainha Vitória do Reino Unido (de costas), o infante D. Luís e o rei D. Pedro V de Portugal
D. Pedro V, que reinou em Portugal entre 1853 e 1861, ficou para a história de Portugal como "o Esperançoso" e o "bem-amado". Filho de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, tinha laços familiares muito próximos tanto com a rainha Vitória como com o seu marido, Alberto, príncipe-consorte do Reino Unido, uma vez que o seu pai era filho de Fernando de Saxe-Coburgo, irmão da mãe da rainha Vitória e do pai do príncipe Alberto.

Ainda antes de Pedro nascer, pouco tempo depois do seu casamento com D. Fernando, já a sua mãe, a rainha D. Maria II trocava correspondência com a rainha Vitória, maioritariamente sobre as suas vidas domésticas e, mais raramente, sobre a situação política dos seus países. Quando D. Pedro nasceu, D. Maria II ia mantendo a sua prima por casamento actualizada sobre os desenvolvimentos do seu filho. A rainha Vitória, no entanto, não estava tão convencida como a prima das vantagens de ter filhos, como revela a seguinte passagem do livro "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica:

A rainha D. Maria II com o seu filho, o futuro rei D. Pedro V

D. Maria II achava que os benefícios de ter filhos excediam os custos. Numa das cartas que enviou para Inglaterra declarava (...) 'quando a prima tiver filhos compreenderá melhor o que lhe digo e verá como é doce tratar das crianças, esperando de todo o meu coração que isto vos aconteça em breve'. Mas a rainha Vitória não partilhava destes sentimentos. Quando disse a D. Maria que não só temia os partos, mas desconfiava do prazer de ter crianças, esta ficou tão surpreendida que a admoestou: 'penso que, quando se ama o marido, nós desejamos e amamos ter crianças.' Para a rainha Vitória, o facto de amar o marido não significava que tivesse de aceitar, com deleite, as gravidezes sucessivas. (...) A 22 de Novembro de 1840, tendo-a a rainha Vitória interrogado sobre se ela desejava ter mais filhos, D. Maria II respondia-lhe: "Considero que, quando uma mulher se casa, é para ter filhos e, portanto, é natural que os desejemos e, além disso, amo extraordinariamente as crianças".

D. Maria II fazia a distinção tradicional entre o prazer de ter um filho ou uma filha. Quando Vicky, a filha mais velha da rainha Vitória, nasceu, a monarca portuguesa dizia à prima que era uma pena não ter sido antes um rapaz, coisa, aliás, que não tardaria a suceder, com o nascimento do príncipe Alberto Eduardo, a quem seria posto o petit-nom de Bertie. D. Maria preveniu então a prima da eventualidade de Vicky vir a ter ciúmes do irmão, coisa que ela notara em D. Pedro, aquando do nascimento de Lipipi, o diminutivo que a família passara a usar para designar D. Luís.

D. Maria II de Portugal
D. Maria II acabaria por morrer muito nova, a 15 de Novembro de 1853, ao dar à luz o seu décimo-primeiro e último filho que morreu pouco tempo depois. D. Pedro V tinha apenas dezasseis anos e, como ainda era menor de idade, formou-se uma regência encabeçada pelo seu pai, o rei D. Fernando II.

Antes de subir oficialmente ao trono, a 28 de Maio de 1854, D. Pedro V partiu numa viagem educacional pela Europa e o primeiro destino foi a Inglaterra. Na sua biografia de D. Pedro V, Maria Filomena Mónica descreve esta viagem, recorrendo também a excertos do diário que D. Pedro escreveu na altura:

O rei D. Pedro V

"A 2 de Junho, o [barco] Mindelo aportava a Southampton. Eram 11 horas da noite quando D. Pedro recebeu, a bordo, a visita do embaixador português, Lavradio, bem como de diversas personalidades entre as quais o coronel Wylde (ajudante-de-campo do príncipe Alberto), o qual conhecia bem Portugal, por aqui ter estado durante alguns meses ao serviço da coroa britânica. No dia seguinte, os príncipes foram de comboio para uma estação perto de Londres, onde eram aguardados pelo príncipe Alberto, tendo seguido para o Palácio de Buckingham, onde a rainha Vitória os esperava. (...)

Eis como fica registada a recepção aquando da chegada ao palácio real: "Era meio-dia quando entrámos em Buckingham Palace. A rainha e a duquesa de Kent esperavam-nos na escada e, pouco depois, vieram as princesas Vitória, Alice, Helena e Luísa e os príncipes Alberto e Alfredo." Continuava: "Vimos o jardim que é belo pela disposição mais do que pelas suas qualidades intrínsecas." Ao regressarem do passeio, apareceu um criado, anunciando a chegada do duque de Wellington, o filho do general que lutara contra os franceses em Portugal. A seguir, estando presentes alguns dos príncipes ingleses, foram almoçar."

O príncipe Alberto e a rainha Vitória em 1854, ano em que D. Pedro visitou a Inglaterra
D. Pedro começava uma relação - com o tio Alberto - que se viria a revelar extraordinariamente importante. Nesse primeiro dia, o marido da rainha Vitória mostrou-lhe a sua biblioteca, chamando a atenção para a obra sobre a História Natural das Aves da Austrália, de Gauer, que os dois folhearam com prazer. De tarde, D. Pedro foi visitar  a duquesa de Gloucester [Augusta de Hesse-Cassel, nora do rei Jorge III], a duquesa de Cambridge [Maria do Reino Unido, filha do rei Jorge III], e a duquesa de Kent [mãe da rainha Vitória], após o que o coronel Wylde lhe mostrou alguns quadros pertencentes à coroa britânica. "

Nos dias seguintes, D. Pedro foi visitar outros locais do país.

"Após esta incursão, regressou a Londres, onde o conde de Lavradio o esperava na estação. A 1 de Julho foi passear, a cavalo, com o tio, em Hyde Park e, à noite, ao teatro inglês, onde assistiu a uma peça que não passou à história, após o que se despediu dos membros da família real e dos portugueses residentes em Londres. Eram 6 horas da manhã do dia 3 de Julho quando o Mindelo saiu de Woolwich, a caminho da Bélgica. Passara um mês inteiro em Inglaterra, o país que viria a ocupar o topo das suas preferências."

D. Pedro V
A influência da família real britânica voltaria a revelar-se essencial alguns anos depois, quando D. Pedro V procurava uma esposa. O príncipe Alberto foi uma das pessoas que mais insistiu com o jovem para se casar, como revela Maria Filomena Mónia:

"O príncipe Alberto, para já não mencionar pessoas cuja opinião lhe mereciam menos crédito, chamou-lhe várias vezes a atenção para a necessidade de não adiar o projecto. A 25 de Outubro de 1856, dissera-lhe solenemente: "Falta-te uma rainha que assuma a parte feminina da tarefa". A 30 de Janeiro de 1857, insistia: "O celibato tornar-se-á tanto mais perigoso quanto mais se evidenciarem as diferenças, nos gostos e nas ideias, entre filho e pai. Assim, como actualmente estão as coisas, depressa o centro da família se perderá de vez e, sem este, não é possível manter uma família unida." Acrescentava: "A rainha devia ser jovem, bonita, pura, bem educada e instruída, não ser beata nem mimada" (...)

Em 1857, o rei aceitou o destino que lhe estava destinado. Os soberanos ingleses ofereceram-se para o ajudar na difícil selecção da noiva. As casas reinantes reputadas não libertavam, de bom grado, uma filha a fim de casar com um monarca de um país economicamente atrasado, politicamente instável e geograficamente distante. Uma primeira tentativa, a de Carlota de Saxe-Coburgo, a filha do rei da Bélgica (que viria a desposar Maximiliano, o futuro imperador do México), não resultou. A rainha Vitória e o príncipe Alberto pensaram então em Estefânia, um membro da família real da Prússia. Tinha um bom currículo: era filha do príncipe Carlos António de Hohenzollern-Sigmaringen e da princesa Josefina Frederica, filha do grão-duque de Baden, Carlos Luís Frederico.

A rainha D. Estefânia e D. Pedro V
A 29 de Março de 1857, o príncipe Alberto escrevia ao sobrinho: "Terias a vantagem de ficares com uma princesa católica, oriunda de uma casa protestante e liberal e com sangue completamente novo, não conspurcado com misturas de Bourbons ou Habsburgueses, além de ela ter gozado de uma educação simples, não estragada pelos incensos da Corte." (...) A certa altura, D. Pedro até conseguiu fingir que estava contente, escrevendo a Vicky, a filha mais velha da rainha Vitória: "Talvez já seja tarde, mas nem por isso respondo com um sentimento de gratidão menos sincero à tua amável carta de 5 de Agosto, na qual me envias os teus parabéns pelo pedido da minha noiva." (...)"

Infelizmente, a rainha D. Estefânia acabaria por morrer apenas dezoito meses depois do casamento, a 17 de Julho de 1859, com apenas vinte-e-dois anos de idade, de Difteria. Uma vez que tinham sido eles a escolher a noiva, o príncipe Alberto e a rainha Vitória ficaram muito abalados com a notícia.

A rainha Dona Estefânia
"Os reis ingleses ficaram sinceramente impressionados com a notícia. No próprio dia em que Estefânia morrera, a rainha Vitória escrevia à filha Vicky, a viver na Prússia: "Pedro é um filho nosso. Fomos nós que arranjamos este casamento para ele, fomos nós que encontrámos esta pérola e, agora, tudo desapareceu - nem sequer existe uma criança como herdeira deles. Estou alarmada com o estado de espírito dele. O querido papá está muito deprimido. E toda a gente fala dele com lágrimas nos olhos." Alguns dias passados, a 3 de Agosto de 1859, a rainha contava, ainda a Vicky, ter recebido uma carta comovedora do rei D. Pedro: "Realmente despedaça-nos o coração e faz-nos pensar a razão pela qual acontecem coisas tão horríveis! O seu destino é tão penoso e inquietante. Desejaria fazer qualquer coisa por ele, pobre rapaz, tudo é horrível. Tanto mais que, dentro de poucos anos, o país esperará que case outra vez. Onde encontrar alguém minimamente adequado para suceder áquele anjo?" (...)

Tão triste andava que levou algum tempo antes de responder às cartas que a tia Vitória lhe mandara. Só a 16 de Fevereiro lhe escreveria, começando exactamente por pedir perdão: "Vossa Majestade tentou aliviar os meus sofrimentos. Não penseis contudo que todo este intervalo de tempo tenha sido para mim um tempo de repouso. Nos últimos tempos, assaltaram-me todo o tipo de preocupações, sobretudo políticas, pelo que o meu espirito ainda não saiu da convalescença, sempre sofrendo profundamente, desencorajado pelo espectáculo de tudo o que rodeia, incerto sobre o meu futuro e sobre o que me acontecerá, é-me muito difícil encontrar, na minha força de vontade, a capacidade para executar a minha difícil profissão. O bem, que o tempo acaba por nos trazer, é sempre e infalivelmente destruído pelos assuntos e pelas lembranças constantes do meu passado tão recente e tão feliz. Trata-se de uma luta contínua entre o corpo e o espirito, da qual, se a calma e o repouso me continuarem a ser negados, um terá de sair vencido." Continuava com um lamento: "A Estefânia resumia todas as minhas ambições, ela tinha tudo o que eu amava no mundo e levou tudo isso com ela!" Menos aberto com a tia do que com o tio, voltaria, no entanto, a escrever-lhe a 30 de Janeiro de 1861, pedindo mais uma vez desculpa no atraso, atribuível, como dizia, ao ciclo alternado de actividade intensa e tranquilidade estéril, a que o governo de Loulé o forçava."

D. Pedro V
Tragicamente, D. Pedro V acabaria por morrer apenas dois anos depois da sua esposa, a 11 de Novembro de 1861, de febre tifóide, quando tinha apenas vinte-e-quatro anos de idade. 

"Na família real inglesa, a morte de D. Pedro foi profundamente sentida. A 12 de Novembro, Vitória escrevia ao seu tio Leopoldo o seguinte: "É um acontecimento quase incrível. E uma perda verdadeiramente europeia! Ele estava tão ligado ao meu amado Alberto, e os temperamentos e os gostos de ambos de tal forma se adequavam e ele tinha tal confiança no Alberto..." A 14, o príncipe Alberto escrevia ao seu tutor, Stockmar: "Você conhece o meu amor por Pedro e a forma como, através da troca de ideias, tentámos ambos trabalhar pelo progresso daquele infeliz país [Portugal]", o que, na prática, o tornara quase um co-regente de Portugal. Na véspera, em carta à filha mais velha, Vicky, dizia lamentar a morte de alguém que poderia ter defendido com integridade o principio monárquico, ajudando desta forma "um povo desgraçado". Alguns dias depois, a 16, Vitória dizia a Vicky: "Foi um golpe terrível para nós - e para o querido papá, que nele tinha encontrado alguém totalmente digno dele, enquanto que, por outro lado, infelizmente, não encontrou [esse consolo] junto de quem mais se esperava e de quem tanto se queria [o príncipe de Gales]. Entretanto, anotava no seu diário: "O meu Alberto tinha muito orgulho nele e amava-o como um filho (tal como me sucedia no meu caso) e ele tinha uma confiança total em Alberto e era digno dela."

D. Pedro V
Texto retirado maioritariamente do livro "D. Pedro V" de Maria Filomena Mónica
Para consultar todas as cartas trocadas entre D. Pedro V e o príncipe-consorte Alberto de Inglaterra, existe o livro "Correspondência entre D. Pedro V e o seu tio, o Príncipe Alberto" também compilado por Maria Filomena Mónica e "Cartas de D. Pedro V ao Príncipe Alberto", compilado e traduzido por Rubén Andersen Leitão.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Off-topic - Excerto de "Queen Victoria's Children" de John Van Der Kiste (Biografia da Rainha Vitória - Parte Dois)

Rainha Vitória no início do seu reinado

As pressões de uma adolescência difícil tinham deixado a sua marca na jovem Rainha Vitória e ensombraram os seus primeiros dois anos de reinado. "Mamã" e filha apareciam juntas em cerimónias de Estado, mas em privado tinham o menor contacto possível. Vitória contava tinha ainda o apoio devoto dos seus confidentes Lehzen e Stockmar, este último tinha-se tornado num emissário regular do rei Leopoldo. Porém, em pouco tempo, a sua relação com o primeiro-ministro, Lord Melbourne, ultrapassou-os em pouco tempo. A vida privada do velho aristocrata cínico, mas charmoso foi trágica e arruinada pelo comportamento selvagem da sua mulher e pela epilepsia do seu único filho. Ambos morreram antes dele. Tanto ele como a jovem rainha tinham falta de afetos e encontraram uma excelente companhia um no outro. Os dois passaram muitas horas felizes a conversar pela noite dentro no Castelo de Windsor. No dia da sua coroação, a 28 de junho de 1838, o seu apoio e encorajamento foram inestimáveis para ela. Esta preocupação foi um sentimento marcadamente oposto ao da duquesa de Kent que insistiu persistentemente que devia seguir antes do primeiro-ministo na procissão da coroação.

Lord Melbourne

Em 1839, a rainha Vitória que ainda não tinha 20 anos, estava a sofrer a uma reação aos seus primeiros dezoito meses de reinado. O seu entusiasmo e dedicação aos seus deveres estavam a ter as suas consequências; e isto, para além da má relação que tinha com asua mãe e com Conroy, fez com que ela cometesse dois erros que iam contra o seu bom senso, um deles com consequências desastrosas.

Melbourne demitiu-se em maio após uma derrota no parlamento e, a rainha, bastante contrariada, chamou o líder dos Conservadores, Sir Robert Peel para formar governo. Ele pediu-lhe educadamente que ela substituísse as damas-de-companhia do seu quarto apoiantes do partido Whig (liberal); furiosa, a rainha recusou-se a fazê-lo. Quando ele respondeu que, infelizmente, nessas condições não poderia assumir o seu cargo, a rainha voltou a chamar Melbourne triunfalmente. A "crise do quarto" foi uma vitória para a rainha, mas acabou por criar a ideia de que a coroa se identificava com um partido.

Sir Robert Peel

Se este tivesse sido o único acidente, a reputação da rainha não teria sido muito danificada. Infelizmente, surgiu ao mesmo tempo que o caso escandaloso de  Lady Flora Hastings. Lady Flora era uma das damas da duquesa de Kent e, como tal, era uma amiga chegada de Conroy e uma grande inimiga de Lezhen. Logo no início do ano, quando regressava a Londres depois de uma viagem à Escócia de comboio com Conroy, ela sentiu-se mal. Começaram a correr rumores de que ela estaria grávida. A rainha e Lezhen estavam prontas para acreditar no pior e Melbourne não fez nada para as desencorajar. Com coragem, Lady Flora submeteu-se a um exame médico feito por médicos reais e que provaram que ela ainda era virgem. Foi-lhe diagnosticado um tumor maligno no estômago e, apesar de a rainha ter feito tudo o que podia pela "pobre Lady Flora", ela morreu em julho. A popularidade da rainha desceu a pico e a carruagem que ela enviou para o funeral foi atingida por pedras atiradas pela multidão em fúria.

Lady Flora Hastings

Depois de um verão carregado de crises, a rainha Vitória ficou exausta por algum tempo. No fim de julho, ela disse a Melbourne de forma petulante que o assunto do seu casamento era detestável para ela e, se pudesse, preferiria não se casar.

Porém, este não era um problema que se podia adiar para sempre. A rainha tinha vinte anos e todos esperavam que ela se casasse e tivesse herdeiros, e ainda mais devido à crise de sucessão da geração anterior. Naquela altura, o seu herdeiro era Ernesto Augusto, o rei de Hanôver. Como duque de Cumberland, ele era o membro menos popular da família. Os rumores de que ele tinha praticado incesto com a sua irmã Sofia e matado o seu criado de quarto eram certamente falsos, já para não dizer injuriosos. Porém, o seu temperamento violento, a sua cara marcada por cicatrizes de batalhas e preferências políticas reacionárias tinham feito os britânicos recear a possibilidade de se submeterem a um reinado de Ernesto Augusto e desconfiavam da sua terra natal.

Ernesto Augusto, rei de Hanôver
Também havia fatores pessoais que tornavam a possibilidade do casamento algo aconselhável. A rainha estava, inevitavelmente, a começar a considerar a companhia de Lord Melbourne aborrecida e a sua falta de compostura, algo ofensiva. Devido à falta companhia de pessoas mais jovens durante a sua infância, como mais tarde a própria viria a admitir, ela "não tinha forma de exteriorizar os meus violentos sentimentos de afeção". A visita de Alexandre, o grão-duque da Rússia a Windsor naquele verão tinha-a encantado e Vitória sentiu bastante a sua falta depois de ele se ir embora. A sua transição repentina do berçário para o trono tinha sido uma alegria ao início, mas a solidão que encontrou na sua nova independência estava a começar a ter efeitos negativos. Todos sairiam a ganhar se a rainha se casasse em breve.

Alexandre II da Rússia

A princesa Vitória tinha vindo ao mundo com o auxílio da parteira Fraulein Charlotte Siebol que abandonou o Palácio de Kensington para viajar para a Alemanha pouco depois do parto da duquesa de Kent. A cunhada da duquesa, Luísa, a duquesa de Saxe-Coburgo Saafeld, estava grávida pela segunda vez. Ela e o duque Ernesto já tinham um filho, também chamado Ernesto, que estava destinado a herdar o ducado do pai. A 26 de agosto de 1819, ela ajudou no parto de um filho, Alberto.

Tal como Vitória, Alberto teve uma infância infeliz. A união dos seus pais estava longe de ser perfeita. Ernesto era dezassete anos mais velho do que a sua mulher e quando se tornou duque em 1826, os dois estavam separados. Ambos encontravam consolo em casos extra-conjugais e divorciaram-se por consentimento mútuo nesse mesmo ano. Luísa ficou bastante perturbada quando se despediu dos filhos que nunca mais voltou a ver e Alberto ainda ficou mais afetado pela situação do que o irmão. Nunca mais esqueceu a sua mãe que se voltou a casar, mas morreu de cancro em 1831. Após a sua morte, o duque Ernesto casou-se com a sua sobrinha, a princesa Maria de Württemberg. Assim, os rapazes ficaram sem mãe durante a maior parte da sua infância e as pessoas que mais os influenciaram enquanto cresciam foram as suas avós e o tutor, Herr Rath Florschutz.

Príncipe Alberto com o seu irmão Ernesto e a mãe, antes da separação

Ernesto e Alberto eram quase inseparáveis. Porém, cresceram com personalidades bastante distintas. Ernesto , mais extrovertido, tinha herdado o comportamento dissoluto e os hábitos perdulários do seu desagradável pai. Alberto, mais sensível, era o completo oposto do irmão, partilhando com ele apenas o gosto por partidas e imitações. Porém, nunca houve nada que destruísse a união fraternal entre eles, apesar de mais tarde Alberto ter ficado chateado com a gratificação e casos extra-conjugais do irmão.

Quase desde o seu nascimento que a família queria que Alberto se casasse com a princesa Vitória de Kent. Quando ele tinha dois anos, a sua avó, a duquesa viúva Augusta de Saxe-Coburgo escreveu uma carta à duquesa de Kent onde dizia que Alberto estava "agarrado à sua prima linda". Não demorou muito até que a duquesa de Kent e o rei Leopoldo se afeiçoassem a este plano, principalmente depois de se tornar evidente que o rei Guilherme e a rainha Adelaide não deixariam herdeiros. O próprio Alberto conhecia o plano desde pequeno e Vitória foi informada antes de se tornar rainha.

Os primos conheceram-se pela primeira vez em maio de 1836 quando o duque Ernesto levou os seus filhos a Inglaterra para uma visita curta. Pareceu logo evidente que Alberto não partilhava o gosto de Vitória pelas horas noturnas tardias. É possível que também tenha sido afetado pelo nervosismo uma vez que ficou doente na véspera do aniversário de Vitória. Alberto conseguiu reunir coragem suficiente para ir a um baile no Palácio de St. James com ela na noite seguinte, mas quase desmaiou e foi enviado para a cama. Apesar de tudo, Alberto causou uma boa impressão a Vitória. Apesar de ela gostar de ambos os irmãos e de achar que ambos eram "tão, tão agradáveis e divertidos e alegres, como os jovens devem ser". A boa aparência de Alberto, o seu talento para a música e para a arte e conversas espirituosas ao pequeno-almoço deram-lhe uma ligeira vantagem em relação ao seu irmão. Quando se foram embora, Vitória escreveu prosaicamente ao rei Leopoldo que Alberto possuía "todas as qualidades que posso desejar para ser perfeitamente feliz".



Retratos de Alberto e Vitória de 1839

O primeiro-ministro Melbourne ficou distintamente pouco entusiasmado com a ideia de um casamento entre Vitória e Alberto e lembrou a rainha da desconfiança dos seus súbditos em relação a estrangeiros. Porém, tinha de concordar que parecia não haver mais ninguém apropriado. Se ela se casasse com um inglês, haveria ciúmes e problemas de precedência. De forma tática, chegaram a acordo de que não haveria necessidade para fazer uma decisão final até dali a pelo menos quatro anos.

Contudo, o rei Leopoldo não estava disposto a adiar o assunto indefinidamente.. Para que o seu plano tivesse alguma réstia de esperança de sobrevivência, teria de ser executado cuidadosamente. Se ele fizesse demasiada pressão, sabia que a antipatia de Vitória em relação ao casamento seria uma barreira impossível de ultrapassar. Se não fizesse nada,  seria bastante injusto para Alberto. O jovem aceitava ser paciente desde que a rainha aceitasse o casamento no final da espera, mas se ela adiasse o assunto por demasiado tempo e o rejeita-se, as suas hipóteses de encontrar uma princesa solteira para casar diminuiriam.

Em julho de 1839,  Vitória confessou ao rei Leopoldo que se sentiria "bastante repugnada" se tivesse de abdicar da sua situação de mulher solteira e acreditava que não havia grande pressão por parte do povo para que ela se casasse. Será que Alberto se tinha apercebido de que não havia qualquer tipo de compromisso entre eles? Apesar das boas opiniões que ela tinha dele, "posso gostar dele como amigo e como primo e como irmão, mas não mais do que isso; e se fosse esse o caso (o que não é provável), quero muito que não me acusem de estar a quebrar uma promessa quando não fiz nenhuma".

Rainha Vitória em jovem

Foi com alguma trepidação que a rainha e o príncipe aguardaram pelo encontro crucial de 10 de outubro de 1839, À medida que a data se aproximava, Vitória ficava cada vez mais nervosa. Quanto a Alberto, este tinha sido avisado da teimosia de Vitória e não gostava de estar na situação de futuro marido à espera de aprovação. Porém, quando se encontraram, Vitória ficou imediatamente abismada com a mudança de Alberto desde o seu último encontro. Ele tinha crescido bastante e estava mais imponente. Apesar de não estar completamente recuperado de uma viagem difícil, radiava com confiança e charme.

"Foi com alguma emoção que observei o Alberto - que está lindo" - escreveu a rainha no seu diário nessa noite. Não falou de Ernesto que o acompanhava. Apesar de o ter mencionado mais tarde quando escreveu "os meus queridos primos", era evidente que só tinha olhos para Alberto. Quando Melbourne elogiou a inteligência de Ernesto, Vitória respondeu que Alberto era muito mais inteligente. Os dois cavalgavam durante o dia e dançavam nos bailes da corte à noite. A 15 de outubro, ela disse timidamente a Alberto que ficaria "demasiado feliz" se ele aceitasse casar com ela. Depois abraçaram-se com afeto. Depois da tensão da semana anterior foi um alívio para ambos quando decidiram o desfecho que as suas famílias desejavam com fervor. Alberto e Ernesto ficaram na Inglaterra durante mais quatro felizes semanas e foram embora no dia 14 de novembro.

Durante os três meses que antecederam o seu casamento, houve bastantes problemas. O rei Leopoldo queria que Alberto recebesse um título inglês, uma vez que pensava que era pouco apropriado que o marido da rainha tivesse um título estrangeiro. Já a rainha, queria que Alberto fosse rei consorte. Graças ao conselho prudente de Melbourne de que não deveriam fazer nada precipitadamente, o assunto foi adiado. A declaração de casamento da rainha, feita a 23 de novembro ao Conselho Privado, quase causou um tumulto. Não se falou da religião do príncipe Alberto e espalhou-se o rumor de que ele era católico. A irritação da rainha com estes dois desentendimentos fastidiosos não se comparou à sua fúria quando o rendimento anual de 50 000 libras normalmente atribuído ao consorte do monarca e proposto pela administração de Melbourne, foi reduzido para 30 000 libras pelo parlamento. Ela sentia que a oposição Tory estava a fazer de Alberto um bode expiatório devido à sua nacionalidade. Se se tivesse casado com o seu primo "odioso", o príncipe Jorge de Cambridge, disse ela friamente, ele talvez tivesse recebido a totalidade do rendimento sem qualquer problema.

Alberto aceitou a sua humilhação com graça. Porém, achou pouco sensato que a sua futura mulher se intrometesse nos seus desejos. Sempre consciente das instruções de Stockmar que diziam que a família real britânica não se devia envolver na política, e ciente dos danos da crise do quarto e do escândalo de Lady Flora Hastings, Alberto queria que o seu pessoal fosse composto por membros de ambos os partidos em igual número e, de forma a atenuar a sua solidão num país novo, pediu que fossem colocados alemães sem afiliações políticas em postos-chave. Instruída por Melbourne e relembrada da "desconfiança para com estrangeiros", a rainha não aceitou esse pedido. Vitória também estava determinada a passar uma lua de mel curta em Windsor e disse a Albert sem rodeios que era a rainha e "podes esquecer o assunto".

Alberto chegou ao Palácio de Buckingham, vindo de Coburgo, a 8 de fevereiro de 1840 e o casamento aconteceu dois dias depois na Capela Real do Palácio de St. James. Durante a cerimónia, os convidados notaram que os olhos da rainha Vitória estavam "bastante inchados devido às lágrimas, mas o seu rosto mostrava felicidade", enquanto que Sua Alteza Real, o Príncipe Alberto parecia estar bastante constrangido, envergonhado e "agitado quando respondia às perguntas".

Vitória e Alberto no dia do casamento
                                                 
Depois da cerimónia e já em Windsor, a rainha reagiu ao seu entusiasmo nervoso e à azafama dos dias anteriores com uma enorme dor de cabeça que a levou a deitar-se no sofá e a impediu de jantar; "mas doente ou não, eu NUNCA NUNCA passei uma noite tão boa!!! O meu QUERIDÍSSIMO QUERIDÍSSIMO QUERIDO Alberto sentou-se num banco para os pés ao meu lado e o seu amor  e afeto excecionais fizeram-me sentir amor e felicidade divinais que jamais pensei que iria sentir!"

Cedo na manhã seguinte, Vitória e Alberto foram dar um passeio no parque e a rainha estava quase sem fôlego enquanto tentava manter o ritmo das passadas longas e energéticas do marido . Ao observá-los, a duquesa de Bedford achou que a rainha estava "bastante apaixonada por ele, mas parece que ele não partilha nem um pouco esses sentimentos". O diarista cínico Charles Greville achou "estranho que uma noite de núpcias seja tão curta" e essa "não é a melhor forma de nos darem um príncipe de Gales".

Rainha Vitória com o seu vestido de noiva

A rainha estava com ideias de esperar bastante tempo por isso, Ela odiava e receava a ideia da gravidez e queria pelo menos um ano de "aproveitamento feliz" com Alberto. Porém, o destino tinha outras ideias. Poucas semanas depois do casamento, Vitória estava enceine. A tragédia da princesa Carlota ainda estava fresca na mente das pessoas e uma visita da rainha Vitória a Claremont pouco tempo depois de ter anunciado a gravidez deu aso a rumores macabros. Rumores esses que diziam que a rainha acreditava que também ia sucumbir ao parto. Dizia-se também que ela estava a mobilar o quarto de Carlota de forma a que estivesse como naquela ocasião melancólica de 1817. Vitória estava consciente do que tinha acontecido à sua prima, mas os seus médicos e Melbourne garantiram-lhe que a princesa falecida tinha sido aconselhada a ter uma dieta demasiado "pobre", feito pouco exercício e submetida a sangramentos desnecessários. A rainha foi informada de que os hanoverianos precisavam de bastante comida e vinho. O seu apetite voraz preservaria com certeza a sua saúde e Alberto ficou ansioso com a vontade exuberante para o exercício e para passeios.

Príncipe Alberto

Tal como os acontecimentos do verão de 1839 tinham tornado a coroa bastante impopular, um episódio em junho de 1840 levou o povo a mudar a opinião da rainha. Ela e Alberto estavam a deixar o Palácio de Buckingham para um passeio de carruagem em Constitution Hill quando se ouviram dois disparos que por pouco não lhes acertaram. O autor dos disparos era um rapaz de dezoito anos com problemas mentais chamado Edward Oxford. O jovem foi detido e internado num asilo. A nação, quase pronta a acreditar que o rei Ernesto Augusto de Hanôver era o eminence grise por detrás desta tentativa de assassinato ignóbil à sua rainha grávida, ficou profundamente grata por ela ter escapado. Porém, naquele dia a rainha aprendeu a lição sombria de que havia perigos maiores do que o parto que podiam levar-lhe a vida. Em julho o parlamento passou uma lei que ditava que Alberto seria regente no caso de a rainha morrer prematuramente.

Tentativa de assassinato da rainha Vitória

Esperava-se que o repouso da rainha viesse em dezembro. Ela estava furiosa com as precauções intermináveis que tinha de ter, ressentia o facto de a sua barriga cada vez maior ser o centro das atenções entre os seus visitantes e queixava-se frequentemente de o seu estado não lhe permitir dançar e cavalgar. Mesmo assim, a atenção que Alberto dava a todas as suas necessidades não merecia censura. Ele estava sempre pronto a levantá-la do sofá e levá-la até à cama, puxar a sua cadeira de rodas de uma divisão para a outra ou escrever as suas cartas e ler-lhe um livro numa sala mais escura quando ela achava que a luz a estava a incomodar.

A 21 de novembro, três semanas antes do previsto, a rainha entrou em trabalho de parto. Alberto, o duque de Kent e os assistentes médicos da rainha estavam todos na mesma sala, enquanto que os conselheiros, incluindo Melbourne, Palmerson e Lord John Rustell estavam numa sala adjacente. A rainha descreveu o parto numa carta a Feodora cerca de três semanas mais tarde: "as últimas dores, que dizem normalmente ser as piores, não me custaram nada, começaram às 12:30 e duraram até ás 13:50 quando a menina apareceu... Não tive dores nem febre".

"Oh, senhora. É uma princesa", anunciou o médico gravemente.
"Não faz mal", respondeu a rainha, "para a próxima é um príncipe". 

Rainha Vitória e príncipe Alberto com 5 dos seus filhos