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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Este Castelo Sombrio - Gatchina

O Palácio de Gatchina na actualidade (fonte)
Alexandre III ficou profundamente afectado com o assassinato do seu pai e acreditava que tinham sido as tentativas do último czar para reformar o governo do país que tinham provocado a onda perigosa de instabilidade. O caminho que o novo czar queria seguir não incluía concessões aos seus adversários: preferia governar numa posição de força, tal como o seu avô, o czar Nicolau I tinha feito. Vários anos depois, os liberais russos no exílio iriam culpar a mudança de direcção política de Alexandre III pela revolução, no entanto, havia outros que viam o seu reinado como uma época dourada. Durante o seu reino, o império esteve em paz, se não com o mundo exterior, pelo menos dentro das suas fronteiras. Alexandre sabia o que queria mas era, ao mesmo tempo, um homem de paradoxos: não se sentia confortável na sociedade desde criança, no entanto era capaz de presidir as ocasiões formais mais brilhantes, era um homem que conseguia dobrar uma barra de ferro com as próprias mãos, mas, ao mesmo tempo, conseguia ter o bom gosto e o requinte para mandar fazer as criações Fabergé mais delicadas. Nunca quis ser czar. No fundo, não havia nada que lhe desse mais prazer do que passear pelo campo com os filhos, e, de todos os palácios ligados à família imperial na Rússia, aquele que mais tem a sua marca é o Palácio de Gatchina, aquele que escolheu como residência oficial, uma vez que também Gatchina era um local de paradoxos.

Alexandre III, Maria Feodorovna e quatro dos seus filhos no Palácio de Gatchina.
"Quase consigo ver Gatchina a esta altura. Mando-te um beijo carinhoso. O teu, Misha". Em Setembro de 1913, o grão-duque Miguel Alexandrovich, filho mais novo do czar Alexandre III, estava no topo da Torre Eiffel e escreveu estas palavras num postal dirigido à mulher que amava. Para se casar com Natália Sheremetevskaya, teve de aceitar o exílio e, apesar de haver humor na mensagem, também havia tristeza. Miguel sentia a falta de Gatchina, onde tinha conhecido Natália e onde, quando era criança, tinha acompanhado o pai em passeios pelo parque coberto de neve. Gatchina era a casa dele e, em cinco gerações da família, poucos tiveram a oportunidade de conhecer e amar tanto este palácio como ele. Alguns odiavam Gatchina e outros até o temiam. Ao longo da sua história com mais de trezentos anos, o palácio ganhou uma série de contrastes, de tal forma que há até quem diga que a cor das suas pedras muda ao longo do dia, conforme a luz disponível.

O grão-duque Miguel Alexandrovich com a sua esposa Natália.
Era precisamente o contraste que o criador de Gatchina, Gregório Orlov, um dos amantes de Catarina, a Grande, tinha em mente. Queria um edifício com fachadas austeras, mas que escondesse um interior rico e czarina encontrou um arquitecto para dar vida às suas ideias. A casa original tinha dois andares e consistia em dois quadrados idênticos, um de cada lado que se uniam em galerias semicirculares. O efeito geral era uma mistura entre um castelo e um quartel militar. Por trás do edifício havia dois lagos, e a paisagem do parque que o rodeava foi cuidadosamente planeada. Quando Orlov morreu, a czarina comprou a propriedade aos seus herdeiros e ofereceu-a ao seu filho Paulo, para comemorar o nascimento da primeira filha dele. O grão-duque Paulo odiava a mãe, mas recebeu o presente de bom grado, e sua personalidade tornou-se indissociável da história de Gatchina.


O Palácio de Gatchina na época de Paulo I, em 1798.
Paulo tinha vinte-e-nove anos de idade quando recebeu a propriedade. Ressentido por ter sido excluído do governo, decidiu transformar Gatchina no seu pequeno reino, desenvolvendo uma corte rival à da mãe e impondo um sistema de disciplina militar rígida. Tinha um exército de dois mil homens vestidos com uniformes em estilo prussiano e levantava-se de madrugada para vigiar os seus exercícios militares. As pessoas queixavam-se que tudo isto era demasiado estrangeiro, diziam que Gatchina era uma Potsdam russa e, com o passar dos anos, a obsessão de Paulo continuou a aumentar. Não confiava em ninguém e tinha um forte dispositivo de segurança à sua volta, mas nem toda a sua influência foi má. Na pequena vila de Gatchina, onde viviam os criados da propriedade e as famílias dos soldados, o grão-duque construiu uma igreja para católicos e luteranos, assim como um hospital, uma escola e um orfanato. Construiu fábricas e oficinas, controlava o preço das rendas e tentou até providenciar uma espécie de organização para ajudar os mais pobres.

Estátua do czar Paulo I em Gatchina
Gradualmente, nas mãos de Paulo, a casa original foi sendo aumentada substancialmente. Paulo contratou o arquitecto Brenna para fechar as galerias semicirculares e construir um andar superior em cada uma das alas de serviço, colocando uma capela por cima das cozinhas e transformando os antigos estábulos em aposentos, com uma biblioteca, um teatro e uma sala de armas. Até aos dias de hoje, essa sala ainda é chamada do Arsenal ou Praça do Arsenal. Quando Paulo sucedeu ao trono em 1796, Gatchina voltou a ganhar uma importância especial, tornando-se a residência imperial e as suas mobílias foram melhoradas para se ajustarem ao novo estatuto. Foram também acrescentadas divisões para assuntos de estado e trazidas obras de arte da colecção do Hermitage para decorar as paredes. Foram também criados novos jardins mais formais e iniciou-se um grande projecto para gravar todos os cantos do palácio e dos seus quatro parques em aguarelas. Foi a última vez que iria florir nesse século. Em 1801, Paulo foi assassinado, alguns diziam com a ajuda do filho, e Gatchina ficou para a sua viúva.

O Palácio de Gatchina na década de 1840
Durante os quarenta anos seguintes, a história ignorou Gatchina. Maria Feodorovna visitava o palácio ocasionalmente, mas preferia Pavlovsk. Tentou despertar o interesse dos filhos mais velhos por Gatchina, mas ambos estavam demasiado concentrados em resistir a tudo o que os fizesse lembrar do pai. A mãe deles ia observando-os com preocupação e, no inverno de 1810, em sinal de protesto pela vida que eles levavam na cidade, decidiu levar os seus dois filhos mais novos, Nicolau e Miguel, até Gatchina, para que eles pudessem concluir a sua educação longe das distracções e tentações de São Petersburgo. Na altura, Nicolau tinha catorze anos e Miguel doze, e acabariam por ficar a odiar o palácio, por o associarem aos três anos mais aborrecidos das suas vidas.

O grão-duque Miguel Alexandrovich, com a sua esposa Helena Pavlovna, a czarina Alexandra Feodorovna e o czar Nicolau I
No entanto, quando eram mais velhos, as coisas mudaram. Todos os outonos, a família juntava-se em Gatchina para festas de caça e a esposa de Nicolau, Alexandra Feodorovna, que tinha achado o palácio sombrio da primeira vez que o viu, acabaria por escrever numa carta que gostava muito "desta casa de campo e da vida activa que aqui vivemos. Estávamos felizes, faladores, fomos agradáveis, cada um à sua maneira, e partimos muito satisfeitos uns com os outros". À noite, a família juntava-se para ler os romances de Sir Walter Scott e Fenimore Cooper. O salão da Praça do Arsenal tinha um palco para a família fazer peças de teatro e brincar às charadas, um escorrega que era grande o suficiente para os adultos brincarem, e outros jogos para jogar dentro de portas. Alexandra falou também da "libertação da rigidez que lá há quando comparado com outros palácios (...) os jogos tornavam tudo mais alegre. Foi lá que experimentei pela primeira vez deslizar em pé pela colina de uma montanha".

A czarina Alexandra Feodorovna
Em 1828, a czarina-viúva Maria Feodorovna morreu, deixando Gatchina a Nicolau I. Ao longo de vinte-e-sete anos, Maria tinha sempre viajado com relíquias do seu marido assassinado para onde quer que fosse: o uniforme e roupa interior de Paulo, a sua espada, a sua bengala e a cama onde dormia na noite em que foi assassinado, foram colocados nos seus aposentos em Gatchina. Com o passar do tempo, esta espécie de museu deu um certo fascínio aos aposentos e corredores do bloco central, e as pessoas começaram a acreditar que Paulo tinha sido assassinado lá. No entanto, Nicolau I sentia apenas a ternura de um filho para com os seus pais e decidiu preservar os seus aposentos como uma espécie de museu da família. Até a cama onde a sua mãe morreu foi transferida do Palácio de Inverno para Gatchina.

Galeria Gótica no Palácio de Gatchina
Se os aposentos antigos não eram para ser utilizados, então era necessário reconstruir outros novos para a família imperial e a sua comitiva. Nicolau ordenou que os quadrados fossem completamente reconstruídos, mas, antes, contratou um jovem artista, Konstantin Ukhtomsky, para fazer pinturas das suas divisões favoritas antes de elas desaparecerem. A partir desse momento, o andar superior do quadrado da cozinha teria aposentos para a comitiva, empregados e convidados, assim como uma capela, enquanto que o centro da vida em Gatchina mudou para o Arsenal. O casal imperial, o czarevich e a sua esposa tinham os seus aposentos no andar de baixo enquanto que os restantes grão-duques, grã-duquesas e senhoras que ocupavam as posições mais importantes da comitiva, ficavam alojados no andar de cima. Havia um "entresol" entre ambos os andares, onde ficavam alojados os empregados. O salão foi completamente redecorado e foi acrescentado um barco de baloiço aos jogos que já havia. As obras de arte foram levadas para o Hermitage para serem limpas e restauradas e, a 1 de Agosto de 1851, o Palácio de Gatchina voltou a abrir em grande. No ponto mais alto das comemorações, Nicolau I revelou uma nova estátua do seu pai, na praça do palácio.

O Arsenal de Gatchina durante a época de Alexandre II
Duas vezes por ano, na primavera e em Outubro, a corte viajava até Gatchina e, durante algumas semanas, o palácio voltava à vida. Os convidados vinham para relaxar, mas a presença do czar garantia uma onda constante de ministros, embaixadores e oficiais, assim como a família imperial que era numerosa e alegre. Havia jogos e charadas no Arsenal, noites musicais, passeios de carruagem, piqueniques e caçadas nas quais até as senhoras participavam. Era tudo diversão, mas alguns membros da comitiva não conseguiam perceber o encanto de Gatchina. Anna Tiutcheva, uma dama-de-companhia, descreveu a sua reacção quando chegou ao palácio:

Anna Tiutcheva
"Estou em Gatchina pela primeira vez e já estou a achar a experiência difícil de suportar neste palácio vasto, com as suas escadarias e corredores sem fim. O palácio é composto por dois blocos habitacionais enormes, unidos por um edifício semi-circular (...) vivo no bloco direito e, por isso, tenho de passar pelos salões do edifício central três ou quatro vezes por dia para chegar ao Arsenal, onde todos os ocupantes devem tomar o pequeno-almoço, jantar e tomar chá. Muitas vezes atravesso estes salões à noite, apenas com a luz fraca de uma lamparina trémula, passo pelo quarto do imperador Paulo e pelo trono com o seu tecido gasto. Confesso que o meu coração bate acelerado e que começo a andar mais depressa, sempre com medo que a figura sinistra do imperador Paulo surja de repente dos cantos escuros (...).

No parque, perto do lago, vê-se uma caverna, fechada com um portão de ferro. Dizem que se trata da saída para os túneis subterrâneos que o imperador tinha construído por baixo dos seus aposentos. Foi uma precaução inútil, uma vez que não o salvaram da morte que ele tanto temia, e, segundo percebo, bem merecia. Todas estas memórias tornam a estadia em Gatchina muito sombria e desagradável. Não percebo porque escolhem Gatchina quando se querem divertir (...) o parque é enorme. No verão até pode ser bonito, mas agora não passa de campo desfolhado e outonal, com ramos negros e secos, e o chão pantanoso, cheio de poças, que lhe dá uma imagem melancólica".

Parte do parque em Gatchina
Claramente, alguém tinha enchido a cabeça de Anna com histórias de terror, mas a sua primeira visita também aconteceu numa altura sensível. Longe, na Crimeia, as forças inimigas estavam a cercar Sevastopol e não era possível sentir grande alegria nos jogos em Gatchina nesse outono.

Quando Nicolau I morreu, Gatchina passou para o seu filho mais velho, na condição de que o palácio, o parque e as organizações caritativas na aldeia próxima deveriam ser mantidos como estavam. Alexandre II acrescentou alguns dos aposentos dos pais ao museu e mudou a cabana imperial de Peterhof para Gatchina. De resto, permaneceu tudo igual ao tempo do seu pai. Alexandre II encomendou a realização de mais uma série de quadros para registar os interiores do palácio e o parque. O artista, Eduard Petrovich Hau, recebeu aposentos privados no quadrado das cozinhas e criou uma série de cinquenta-e-oito pinturas ao longo de oito anos.

A Sala do Trono de Paulo I por Hau.
O assassinato de 1881 mudou o destino de Gatchina de forma tão decisiva como tinha acontecido oitenta anos antes. Após o assassinato de Alexandre II, o seu filho aceitou o conselho dado pelo general Loris Melikov e mudou-se para longe da cidade, escolhendo Gatchina como sua residência oficial. Foi tudo feito à pressa: a nova czarina, Maria Feodorovna, contou aos pais que não tinha havido tempo para preparar Gatchina e que os aposentos estavam ainda cheios de trabalhadores. O inverno ia a meio e o palácio era frio e vazio. Para piorar ainda mais a situação, na pressa de abandonar a cidade, o casal imperial tinha sido obrigado a deixar os seus filhos mais novos para trás: o bebé, Miguel, apanhou uma constipação e não pôde sair de casa durante algumas semanas. Maria sentia falta dos seus aposentos acolhedores e confortáveis no Palácio de Anichkov e confessou se desfazia em lágrimas muitas vezes. No entanto, acrescentou também que o marido estava feliz por estar longe da cidade e que também ela estava a começar a encontrar conforto na sua nova casa, e a gostar da paz que tão rara tinha sido na sua vida na Rússia. Gatchina tornava-se novamente no centro do império russo, vigiado de forma tão apertada como no tempo de Paulo I. Era preciso ter passaportes especiais para entrar na aldeia onde os Couraceiros Azuis e o Regimento Combinado, os guarda-costas pessoais do czar, construíram o seu quartel-general. Com o passar do tempo, os soldados fizeram amizade com a família imperial e os filhos do czar gostavam de fugir até ao quartel para ouvir os soldados cantar e, talvez, serem atirados ao ar por um par de braços fortes.

Alexandre III, Maria Feodorovna e os seus filhos em Gatchina.
Alexandre III impôs controlos rigorosos ao país, mas essa era a única semelhança que tinha com o seu bisavô, o czar Paulo I. A nível pessoal, Alexandre era extremamente humilde, e detestava todo o tipo de cerimonial. Optou por viver nos aposentos de abóbada baixa do "entresol", que costumavam estar reservados aos criados. Levantava-se cedo, vestia-se, fazia o seu próprio café e sentava-se a trabalhar até a sua mulher estar pronta para o pequeno-almoço. Quando não tinham convidados, os membros da família optavam por jantar juntos no andar de baixo numa sala que, anteriormente, tinha sido a casa-de-banho da avó do czar, Alexandra Feodorovna. A banheira tinha sido enchida com azáleas e colocada no jardim.

Alexandre III e Miguel Alexandrovich em Gatchina
Além de ser o centro do governo, Gatchina era também uma casa de família. Alexandre guardava boas memórias da sua infância e, no escritório, escondia uma colecção de animais em miniatura feitos de vidro e desenhos de "Mopsopolis", o mundo de fantasia que tinha criado juntamente com o seu irmão Nicolau no pico da Guerra da Crimeia. Eram criaturas estranhas para um homem alto e forte, mas Alexandre adorava partilhá-las com os filhos. Sentia-se mais à vontade com os membros mais novos da família. Em certa ocasião, levou os seus filhos numa expedição ao parque de veados de Gatchina para ir buscar dois burros para acrescentar à já extensa colecção de animais de estimação. Com o passar dos anos, a família juntou animais, um papagaio, um corvo albino, uma lebre e uma cria de lobo.

Olga Alexandrovna e Miguel Alexandrovich em Gatchina
Olga, a filha mais nova, recordou a magia especial que sentia quando ia passear com o pai e com Miguel, o irmão que tinha a idade mais aproximada da sua: "Caminhávamos até ao parque dos veados, só nós os três, como os três ursos do conto de fadas. O meu pai levava sempre uma pá grande , o Miguel levava outra mais pequena e eu tinha uma muito mais pequena do as deles só para mim. Cada um de nós também levava um machado, uma lanterna e uma maçã. Se estivéssemos no inverno, ele ensináva-nos a limpar a neve para criar um caminho e como cortar uma árvore morta. Ensinou-me a mim e ao Miguel a fazer uma fogueira. No fim, assávamos as maçãs, apagávamos a fogueira e, com a ajuda das lanternas, lá encontrávamos o caminho para casa. No verão, ensinava-nos a distinguir os animais uns dos outros, Queria que soubéssemos ler o livro da natureza tão bem quanto ele". Olga e Miguel eram os verdadeiros filhos de Gatchina e as suas memórias estavam repletas de alegria. Uma vez, fugiram para um telhado a meio da noite para ver o parque à luz da lua. Nem o fantasma de Paulo I os assustava: na verdade, Olga queria até vê-lo, mas nunca conseguiu.

Alexandre III com os filhos Miguel e Olga.
Era uma existência estranha, algures entre a simplicidade e o esplendor. Eram crianças do campo que dormiam em camas amovíveis em quartos decorados com a mobília mais simples possível e, no entanto, os seus tutores usavam casacos de cerimónia. Olga tinha os aposentos mais sumptuosos da família porque a ama dela, Mrs. Franklin, achava que o "entresol" apertado e abafado prejudicava demasiado a saúde da criança. A sua comitiva de amas estava instalada nos aposentos do andar superior, por cima do Arsenal, onde havia tapeçarias com imagens de cenas das Bíblia penduradas nas paredes. As crianças brincavam às escondidas na galeria chinesa, onde havia vasos de valor incalculável grandes o suficiente para elas se puderem esconder. Aos domingos, Miguel e Olga podiam convidar os seus amigos para brincar nos salões estatais. Os seus brinquedos eram também saídos dos sonhos de qualquer outra criança da época: um dos mais populares em Gatchina era uma linha de comboio eléctrica em miniatura, que tinha sido presenteada por uma empresa de construção. "As carruagens e as carrinhas eram cópias exactas de outras que existiam mesmo e os motores conseguiam atingir velocidades de oito e dez quilómetros por hora. As linhas estavam equipadas com estações, túneis e pontes, que deixavam qualquer criança encantada".

Alexandre III com a sua filha Olga
O encanto terminou cedo demais. Num dia, na primavera de 1894, Olga estava a caminhar com o pai no parque em Gatchina quando se apercebeu que ele estava doente. O czar acabaria por morrer antes do final do ano. O palácio passou para a sua viúva, que deu ordens para que não se voltasse a mudar nada nos seus aposentos, nem sequer o seu lenço. Maria Feodorovna continuou a utilizar Gatchina, mas nunca tinha gostado tanto da vida no campo como Alexandre e preferia passar mais tempo na cidade. O seu filho, Nicolau II, continuou a visitar a cabana de caça no inverno e, nos primeiros anos após a morte do pai, visitava o palácio com frequência na companhia da esposa quando a sua mãe se encontrava lá.

Olga Alexandrovna e Miguel na Galeria Chinesa em Gatchina
As tensões começaram a aumentar de forma quase imperceptível entre as cortes da czarina-viúva e da jovem czarina Alexandra. Uma dama-de-honra de Czarskoe Selo descreveu a sua primeira visita a Gatchina com a jovem czarina que se realizou numa noite, em finais de 1894. Sophie Buxhoeveden achou a atmosfera tão opressiva quanto Anna Tiutcheva a descrevera cinquenta anos antes. A sala-de-estar para onde foi levada parecia "a fantasia de um decorador profundamente deprimido" e as damas-de-companhia mais velhas bombardearam-na com perguntas, condenando a forma como as coisas eram feitas na corte mais jovem. Sophie sentia-se cada vez mais desconfortável e, no andar de cima, a sua senhora não se estava a sair melhor com a czarina-viúva. Alexandra Feodorovna tinha até dificuldade em respirar quando estava nos aposentos abafados e demasiado aquecidos da sua sogra e estava tão ansiosa quanto Sophie para ir embora.

Maria Feodorovna com a neta Olga Nikolaevna nos braços, a grão-duquesa Olga Alexandrovna, Alexandra Feodorovna e, de pé, a grã-duquesa Xenia Alexandrovna com a filha Irina e o irmão, Nicolau II.
No entanto, a noite acabaria de forma divertida: Alexandra aceitou de bom grande o convite do grão-duque Miguel para ir dar um passeio de trenó ao luar pelo parque coberto de neve. No momento em que Alexandra e Sophie começavam a relaxar e a desfrutar da paisagem encantada, o trenó derrapou e as duas foram atiradas para fora dele. Havia neve suficiente para amparar a queda e, depois de horas de tensão, a jovem czarina não conseguia parar de rir. "O que é que as velhotas não diriam se tivessem visto esta cena?" disse ela. "É melhor nunca saberem que aconteceu: não iriam encontrar palavras para descrever o horror". Ajudei-a a levantar-se e tiramos a neve das capas uma da outra com os nossos lenços. Depois voltámos para o trenó".

Miguel Alexandrovich com a cunhada Alexandra Feodorovna e o irmão Nicolau II.
Durante aquela época, Gatchina perdeu um pouco a sua vida, mas, no Natal, a czarina-viúva e os seus filhos mais novos organizavam festas no Salão de Banquetes para os oficiais da guarda. Durante muitos anos, as famílias dos oficiais guardaram com carinho os doces embrulhados em papel dourado e os presentes que a própria Maria Feodorovna lhes entregava em mãos. No entanto, quem passava mais tempo no palácio era Miguel. Era comandante dos Couraceiros Azuis, um dos regimentos de Gatchine, e foi nessa capacidade que conheceu a sua futura esposa, Natália, que, na altura era casada com um dos oficiais e foi convidada para uma recepção no palácio. No entanto, essa não seria a única história de amor que começou em Gatchina. Miguel era um das poucas pessoas que sabia que, em 1903, a sua irmã mais nova, Olga, que sentia profundamente infeliz com o seu casamento, tinha conhecido e se tinha apaixonado por Nikolai Kulikovsky, outro oficial do seu regimento. Foi um segredo que se manteve durante treze anos.

Miguel Alexandrovich com a sua futura esposa, Natália Brassova e Olga Alexandrovna com o seu futuro marido, Nikolai Kulikovsky.
Depois de serem enviados para o exílio por terem casado sem autorização do czar, em 1914, com o rebentar da Primeira Guerra Mundial, Miguel e Natália receberam permissão para regressar à Rússia. Miguel passava muito tempo longe, na frente de batalha, mas a sua esposa estabeleceu-se na aldeia de Gatchina e abriu um hospital militar. Nunca seria aceite na família do marido, mas tinha pouco tempo para eles. Uma pessoa sociável por natureza, Natália continuou a organizar festas em Gatchina, mesmo depois da Revolução de Fevereiro e Miguel não interferia nas suas vontades, apesar de não partilhar o mesmo prazer pela vida social. Um amigo descreveu mais tarde uma noite durante a qual ele e Miguel evitaram a companhia que se encontrava no palácio: "ele [Miguel] não queria nenhuma luz, apesar de ter escurecido cedo e estarmos a olhar um para o outro no crepúsculo. Deitado num sofá, a tremer por causa da febre, o Miguel falou numa voz triste sobre como era difícil viver com as lamentações, maldade e enganos dos homens e disse que Deus estava longe (...) Estava com medo do futuro. Tentei consolá-lo, mas não consegui encontrar palavras que diminuíssem a intensidade da sua dor. A sua voz estava embargada pelas lágrimas. Ficou muito escuro. Quando liguei a luz, fiquei chocado com o desespero puro que se via no seu rosto pálido e tive a sensação clara de que estávamos prestes a sofrer um grande infortúnio".

Miguel com a sua esposa Natália durante a Primeira Guerra Mundial
Infelizmente foi exactamente isso que aconteceu e a história voltou a Gatchina. Nicolau II abdicou do trono a favor do Miguel e, durante algumas horas, o palácio foi a residência do último czar. Mais tarde, Kerensky mudou-se para o Palácio de Gatchina numa última tentativa para salvar o seu governo. Quando uma multidão de bolcheviques se aproximava do palácio, Kerensky fugiu pelo parque: algumas relatos dizem que terá utilizado o túnel que tinha assustado Anna Tiutcheva muitos anos antes. Miguel e Natália ficaram na aldeia de Gatchina durante a primavera de 1918, até Miguel ser exilado e, mais tarde, assassinado em Perm, nos Montes Urais. Natália e a família fugiram para ocidente, e palácio ficou abandonado com as suas memórias.

Miguel Alexandrovich
Actualmente, o Palácio de Gatchina está a ser restaurado, depois vários anos de negligência. O edifício sofreu alguns danos na altura da Revolução e alguns objectos valiosos foram roubados e vandalizados enquanto que outros se perderam nos leilões de arte soviéticos da década de 1920, mas fotografias tiradas em 1940 mostram os aposentos de Miguel no Arsenal tão cheios de pessoas e de vida como se o dono tivesse saído rapidamente e pudesse voltar a qualquer momento. Quem quisesse visitar as salas de estado, os aposentos do czar Paulo, onde o seu fantasma costumava passear, e os aposentos da família no Arsenal só tinha de pagar alguns kopecks. Foi a Segunda Guerra Mundial que quase destruiu tudo: quando os alemães bateram em retirada em 19414, deixaram uma concha queimada e vazia e os tesouros que tinham sido salvos foram levados para outros locais. A aldeia de Gatchina foi uma zona militar fechada até 1977, ano em que se deu início ao restauro, recorrendo aos quadros de Ukhtomsky e Hau como referência.

O Palácio de Gatchina após a Segunda Guerra Mundial
O trabalho é lento, mas a habilidade dos restauradores é incrível e, um dia, todo o palácio irá voltar à vida. Talvez até os seus fantasmas regressem. Havia algumas pessoas que odiavam Gatchina, mas outros pertenciam ao palácio. Exilado em Perm na primavera de 1918, o grão-duque Miguel escreveu: "é horrível não estar no nosso querido palácio de Gatchina nesta altura do ano. Costumava passar lá todas as primaveras e tenho muitas memórias perfeitas e felizes de infância passadas lá e também de anos posteriores. Parece que lá é sempre primavera".

Parque do Palácio de Gatchina em 2009
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

Nota: desde a publicação do livro em 2001, a maioria do Palácio de Gatchina já se encontra restaurado e aberto ao público.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

8 Curiosidades sobre Catarina, a Grande


Catarina II da Rússia (1729-1796) foi uma das governantes mais improváveis da História. Depois de se casar e entrar para a família Romanov na Rússia, viu-se no centro de um golpe de estado para retirar o seu marido do trono e coloca-la a ela no seu lugar. As conquistas conseguidas durante o seu reinado, que durou trinta-e-quatro anos, são muitas vezes ofuscadas pela sua vida pessoal que é vista como uma das mais escandalosas da sua e de outras épocas. No entanto, por detrás dos rumores e dos mexericos, encontra-se uma das governantes mais astutas e capazes da longa e turbulenta História da Rússia. Agora, 250 anos depois de ter subido ao trono a 9 de Julho de 1762, fique a saber algumas curiosidades sobre Catarina, a Grande.


1. O nome de Catarina, a Grande não era Catarina e ela nem sequer era russa.

A mulher que ficaria para a História como Catarina, a Grande, a mulher que durante mais tempo governou na Rússia, era na verdade a filha mais velha de um príncipe prussiano que estava na miséria. Nascida em 1729, Sofia de Anhalt-Zerbst recebeu várias propostas de casamento graças às origens nobres da sua mãe. Em 1744, quando tinha quinze anos de idade, Sofia recebeu um convite da czarina Isabel, filha do czar Pedro, o Grande da Rússia, que tinha subido ao trono três anos antes graças a um golpe de estado, para a visitar na Rússia. Isabel, que era solteira e não tinha filhos, tinha escolhido o seu sobrinho Pedro como herdeiro e estava agora à procura de uma noiva para ele. Sofia, que recebeu uma educação excelente da sua mãe e estava ansiosa por agradar os seus anfitriões, causou imediatamente um grande impacto em Isabel, mas não no seu futuro marido. O casamento realizou-se a 21 de Agosto de 1745 e a noiva teve de se converter à Igreja Ortodoxa Russa, mudando de nome para Ekaterina, ou Catarina.

Catarina com o seu marido, o futuro czar Pedro III
2. É provável que o filho mais velho – e herdeiro – de Catarina fosse ilegítimo

Catarina e o seu novo marido tiveram um casamento conturbado desde o início. Apesar de a jovem princesa prussiana ter sido importada para dar à luz um herdeiro, passaram oito anos sem que o casal tivesse filhos. Alguns historiadores acreditam que Pedro não conseguiu consumar o casamento enquanto outros defendem que era infértil. Profundamente infelizes na sua vida conjugal, Pedro e Catarina começaram a ter casos amorosos com outras pessoas, ela com Sergei Saltykov, um oficial do exército russo. Quando Catarina deu à luz um filho, Paulo, em 1754, surgiram rumores de que o pai da criança era Saltykov e não Pedro. Nas suas memórias, Catarina deu crédito a este rumor, chegando mesmo a afirmar que a imperatriz Isabel a tinha ajudado a encontrar-se com Saltykov. Embora hoje em dia os historiadores sejam da opinião que as afirmações de Catarina tinham como único objectivo descredibilizar Pedro e que ele era realmente o pai biológico de Paulo, existem poucas dúvidas relativamente aos restantes três filhos de Catarina: acredita-se que nenhum deles era filho de Pedro.


3. Catarina chegou ao poder num golpe de estado sem derramamento de sangue que, mais tarde, se tornou mortal

Isabel morreu em Janeiro de 1762 e o seu sobrinho sucedeu-a como Pedro III, tendo Catarina como consorte. Ansioso por deixar a sua marca na nação, terminou imediatamente a guerra que a Rússia estava a travar contra a Prússia, uma decisão que foi muito mal recebida pela classe militar do país. O seu plano de implementar um programa de reformas internas liberais que tinha como objectivo melhorar a qualidade de vida das classes mais baixas da Rússia também prejudicava membros da baixa nobreza. À medida que as tensões iam aumentando, surgiu o plano de tirar Pedro do poder. Quando a conspiração foi descoberta em Julho de 1762, Catarina movimentou-se rapidamente, conquistando o apoio do regimento militar mais poderoso do país que conseguiu fazer com que o seu marido fosse preso. A 9 de Julho, apenas seis meses depois de se tornar czar, Pedro abdicou e Catarina foi proclamada governante única. No entanto, aquele que tinha sido um golpe de estado sem derramamento de sangue não demorou a causar vítimas. A 17 de Julho, Pedro foi assassinado por Alexei Orlov, irmão do amante de Catarina, Gregory. Apesar de não existirem provas de que Catarina soubesse do assassinato antes deste acontecer, o acontecimento ensombrou o início do seu reinado.


4. Catarina enfrentou mais de doze revoltas durante o seu reinado.

Entre as muitas revoltas que ameaçaram o reinado de Catarina, a mais perigosa foi a que sucedeu em 1773, quando um grupo de cossacos e camponeses armados liderados por Emelyan Pugachev se revoltaram contra as condições sociais e económicas difíceis que viviam a classe mais pobre da sociedade russa, os servos. Tal como aconteceu com muitas das outras revoltas que Catarina enfrentou, a Revolta de Pugachev questionou a validade do seu reinado. Pugachev, um antigo oficial do exército, dizia ser o deposto Pedro III, que todos acreditavam estar morto, e, por isso, era ele o herdeiro legítimo do trono. Um ano depois de dar início à sua campanha, Pugachev já tinha conseguido juntar milhares de apoiantes e conquistado uma parque significativa do território, incluindo a cidade de Kazan. Inicialmente, Catarina preocupou-se com a revolta, mas não demorou a responder com força. Enfrentados pelo grande exército da Rússia, os apoiantes de Pugachev acabariam por abandoná-lo e ele acabaria preso e executado em público em Janeiro de 1775.


5. Ser amante de Catarina dava grandes lucros.

É conhecida a fama de Catarina ser fiel aos seus amantes, tanto durante a sua relação como depois de esta terminar. Normalmente, Catarina terminava as suas relações nos melhores termos com os seus parceiros, dando-lhes títulos, terras, palácios e até pessoas – chegou a presentear um antigo amante com mais de 1000 servos, ou escravos. Mas talvez aquele que mais lucrou tenha sido Estanislau Poniatowski, um dos seus primeiros amantes e pai de um dos seus filhos. Membro da nobreza polaca, Poniatowski envolveu-se com Catarina (que ainda não tinha chegado ao trono) quando foi enviado para a embaixada britânica em São Petersburgo. Mesmo quando um escândalo provocado em parte pela sua relação o obrigou a deixar a corte russa, os dois continuaram próximos. Em 1763, muito depois do final da sua relação e um ano depois de Catarina chegar ao trono, a imperatriz apoiou Poniatowski financeira e militarmente no seu esforço para se tornar rei da Polónia, o que acabaria por acontecer. No entanto, assim que chegou ao trono, o novo rei, que Catarina e outros achava que seria um mero fantoche para servir os interesses da Rússia, deu início a uma série de reformas para fortalecer a independência do seu país. Aquela que foi outrora uma ligação forte entre dois antigos amantes não demorou a azedar e Catarina obrigou Estanislau a abdicar, sendo a Rússia o país que mais forçou a dissolução da recém-criada República das Duas Nações.



6. Catarina via-se como uma governante iluminada

O reinado de Catarina ficou marcado pela sua vasta expansão territorial, algo que contribuiu muito para os cofres da Rússia, mas que aliviou pouco o sofrimento do seu povo. Até as suas tentativas para implementar reformas governamentais eram muitas vezes vetadas pela vasta aristocracia russa. No entanto, Catarina considerava-se uma das governantes mais iluminadas da Europa e muitos historiadores concordam. Escreveu vários livros, panfletos e materiais educativos que tinham como objectivo melhorar o sistema educativo na Rússia. Apoiava as artes, tendo mantido durante toda a vida correspondência com Voltaire e outros filósofos proeminentes da época e criou uma das colecções mais impressionantes de arte do mundo no Palácio de Inverno, em São Petersburgo (agora inserida no famoso Museu Hermitrage) e até tentou compor uma ópera. 



7. Ao contrário do mito popular, Catarina teve uma morte bastante normal e nada de especial aconteceu.

Tendo em conta a reputação chocante da imperatriz, talvez não seja de admirar que houvesse sempre rumores sobre ela, mesmo depois de morta. Quando morreu a 17 de Novembro de 1796, os seus inimigos na corte começaram imediatamente a espalhar vários rumores sobre os últimos dias da imperatriz. Alguns diziam que a governante toda poderosa tinha morrido na casa-de-banho. Outros levaram os rumores ainda mais longe e criaram um mito que ainda se prolonga até aos dias de hoje: que Catarina, cuja vida luxuriosa era um segredo aberto, tinha morrido enquanto praticava relações sexuais com um animal que muitos acreditam ter sido um cavalo. Obviamente este rumor não tem qualquer fundo de verdade. Apesar de os seus inimigos terem esperado por um fim escandaloso, a verdade é que Catarina simplesmente sofreu uma apoplexia e morreu calmamente na sua cama no dia seguinte.

Catarina, a Grande com a sua nora Maria Feodorovna e o filho, o futuro czar Paulo I
8. O filho mais velho de Catarina teve o mesmo destino macabro que o pai.

Era conhecida a relação conturbada de Catarina com o seu filho mais velho, Paulo. O menino tinha sido retirado à mãe pouco depois de nascer e foi criado em grande parte pela antiga czarina Isabel e uma série de tutores. Depois de ter subido ao trono, Catarina, temendo que o seu filho se vingasse dela pela deposição e morte do seu pai, manteve-o afastado dos assuntos de estado, o que o tornou ainda mais isolado. A relação entre eles era tão má que, às vezes, Paulo se mostrava convencido de que a sua mãe o planeava matar. Embora Catarina nunca tivesse tido tais planos, era verdade que temia que Paulo se tornasse um governante incompetente e procurou outras alternativas para a linha de sucessão. Tal como a imperatriz Isabel tinha feito antes de si, Catarina controlou a educação dos filhos mais velhos de Paulo e havia vários rumores que diziam que era sua intenção nomear os seus netos herdeiros, passando Paulo à frente na sucessão. De facto, acredita-se que Catarina pretendia tornar esta decisão oficial em finais de 1796, mas morreu antes de o fazer. Temendo que o testamento da mãe incluísse clausulas para tornar esse plano possível, Paulo confiscou o documento antes deste se tornar público. Alexandre, o filho mais velho de Paulo, sabia dos planos da avó, mas cedeu à pressão e não enfrentou o seu pai. Paulo tornou-se czar, mas não demorou a tornar-se tão imprevisível e pouco popular como a sua mãe tinha temido. Após cinco anos de reinado, acabaria por ser assassinado e o seu filho, Alexandre, de vinte-e-três anos, subiu ao trono como Alexandre I. 

Tradução do artigo "8 Things You Didn't Know About Catherine the Great", escrito por Barbara Maranzani para o site do Canal História e publicado a 9 de Julho de 2012.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Czares da Rússia - Catarina, a Grande


Nome: Sofia Frederica de Anhalt-Zerbst-Dornburg (Catarina II da Rússia)
Pais: Cristiano Augusto, Príncipe de Anhalt-Zerbst e Joana Isabel de Holstein-Gottorp.
Nascimento: 2 de Maio de 1729
Reinado: (como consorte) 25 de Dezembro de 1761 - 28 de Junho de 1762
                    (como reinante) 28 de Junho de 1762 - 17 de Novembro de 1796


Cronologia da sua vida:

1743 – Sofia Frederica, na altura com 14 anos, é chamada à Rússia pela Imperatriz Isabel I da Rússia.
1744 – Sofia e a sua mãe, Joana Isabel de Holstein, chegam a Moscovo para conhecer a Imperatriz Isabel no dia 9 de Fevereiro. Pouco depois a jovem princesa de 15 anos converte-se à Religião Ortodoxa e muda de nome para Catarina Alexeievna.
1745 – Catarina casa-se em São Petersburgo com Pedro Feodorovich, Grão-duque de Holstein e herdeiro do trono russo.
1747 – O pai de Catarina, Cristiano Augusto de Anhalt-Zerbst, morre.
1752 – Catarina tem o seu primeiro amante conhecido, Serge Saltykov, um oficial russo.
1754 – Catarina dá à luz o seu primeiro filho, Paulo, future Imperador da Rússia. Muitos acreditam que o seu pai era Serge Saltykov e não Pedro III.
1757 – A Rússia vence a Prússia na Guerra.
1760 – Catarina começa uma relação com um novo amante, Gregório Orlov. No mesmo ano morre a sua mãe.
1761 – A Imperatriz Isabel I da Rússia morre no dia 25 de Dezembro e o marido de Catarina é coroado Czar, passando a ser conhecido por Pedro III da Rússia.
1762 – Pedro III assina um tratado com a Prússia a 24 de Abril, fomentando a fúria entre a Nobreza russa. Catarina, apoiada pela Guarda Imperial, retira Pedro do trono e torna-se Imperatriz da Rússia. Pedro III acaba por morrer enquanto prisioneiro dos Orlovs. Catarina nega qualquer tipo de cumplicidade.


1763 – Catarina confirma o privilégio da Nobreza. Começa a coleccionar Arte proveniente de toda a Europa e expõe-la no novo museu Hermitrage. A Rússia invade a Lituânia.
1764 – O Conde Betskov é contratado para organizar novos planos para a educação de rapazes e raparigas, iniciando a reforma de Catarina para um ensino de estilo europeu na Rússia. Novas escolas e Universidades são abertas durante o seu reinado, incluindo o Instituto Smolny Para Raparigas em São Petersburgo.
1766 – Catarina escreve o “Nakaz” (Instruções) e reforma a administração local criando a posição de gorodskoi golova (Presidente da Câmara). É assinado o Tratado de Amizade com a Inglaterra.
1767 – Influenciada pelo Iluminismo francês, Catarina cria uma comissão para a reforma judicial.
1768 – A Rússia declara guerra à Turquia.


1771 – A Rússia conquista a Crimeia.
1772 – Organizam-se encontros com a Prússia e a Áustria com o objectivo de dividir a Polónia. É assinado o Armistício com a Turquia.
1773 – Catarina persuade o escritor francês Denis Diderot a entrar na Corte Russa. O Cossaco Yemelyan Pugachov lidera uma revolta de camponeses no Rio Volga. Orlov perde a sua influência.
1774 – Potemkin torna-se o novo amante de Catarina. A Imperatriz lidera a criação de um “Magistrat” (concelho municipal) que se torna na Duma da cidade em 1786. A guerra com a Turquia termina com a assinatura do Tratado de Kuchuk Kainardji.
1775 – Julgamento e execução de Pugachev. Catarina reforma as administrações provinciais e urbanas.
1777 – Aliança com a Prússia. Problemas na Crimeia.
1778 – Catarina adquire a biblioteca complete de Voltaire após a morte dele.


1781 – Aliança entre a Rússia e a Áustria.
1783 – Potemkin anexa a Crimeia à Rússia, retirando-a à Turquia.
1787 – Catarina faz uma digressão pela Crimeira. A Turquia declara guerra à Rússia.
1788 – Catarina impõe a anexação da Polónia. Guerra com a Suécia.
1789 – Temendo que a Revolução Francesa se espalhasse à Rússia, Catarina desfaz muitas das suas reformas liberais.


1790 – Paz com a Suécia.
1791 – Morte de Potemkin. Tratado de Jassy, assinado entre a Turquia e a Rússia.
1793 – A Polónia volta a separar-se da Rússia.
1794 – Insurreições na Polónia. Terceira separação da Polónia.
1796 – Catarina morre.



Família

Consorte:

Pedro III da Rússia

A família da mãe de Catarina (ainda conhecida pelo seu nome de nascimento, Sofia) estava intimamente ligada com a família imperial russa. O seu tio materno, Carlos Augusto de Holnstein, tinha sido um dos pretendentes a casar-se com a Imperatriz Isabel I, mas morreu de sarampo antes do casamento acontecer. Durante a sua procura de noivas para o seu sobrinho Pedro, Isabel interessou-se por Sofia e convocou-a a São Petersburgo.


A família deixou Zerbst no dia 10 de Janeiro de 1744. Alguns dias mais tarde, Sofia despediu-se do seu pai em Schwedt, nas margens do rio Oder, e continuou a viagem com a sua mãe. Realizada a meio do Inverno, a viagem foi longa e extenuante. Quando atravessaram a fronteira russa, mãe e filha encontraram trenós, enviados pela Imperatriz Isabel. O resto da viagem foi luxuosa, no entanto, ao chegar triunfantemente a São Petersburgo, foram informadas de que a Corte se encontrava em Moscovo na altura. Por isso, após um breve período de descanso, elas voltaram a fazer-se à estrada, uma vez que queriam chegar à segunda cidade mais importante do Império a tempo do aniversário do Grão-duque Pedro que se realizaria a 10 de Fevereiro. Segundo relatos da época, a Imperatriz gostou imediatamente de Sofia. O Grão-duque ficou contente por vê-las, já que a mãe de Sofia era prima directa do seu pai. A futura noiva notou imediatamente uma certa fragilidade em Pedro, uma analise acertada, visto que ele sofria de todo o tipo de doenças. Ele era atrasado, tanto física como emocionalmente, tendo crescido sem uma mãe presente e um pai que não gostava de passar tempo com ele. Ele era uma criança que nunca tinha conhecido amor ou afecto. Sofia também reparou que ele se ocupava com jogos infantis, que era muito caseiro, mas, acima de tudo, que odiava profundamente o país que estava destinado a reinar. Pedro era um crente firme da fé Luterana e adorava tudo que fosse prussiano. O rei Frederico era o seu herói.


Sofia começou a aprender russo e a estudar a Religião Ortodoxa, o que agradou à Imperatriz Isabel. No dia 28 de Junho, Sofia converteu-se numa grande cerimónia. No dia seguinte aconteceu o noivado e a Princesa Sofia de Anhalt-Zerbst tornou-se na Grã-duquesa Catarina Alexeyevna da Rússia e passou a ser a segunda mulher mais importante do país.

Pouco tempo depois, Pedro contraiu Sarampo e depois começou a mostrar sintomas de Varicela. Foi a própria Imperatriz que cuidou dele durante a doença, que o deixou com o rosto desfigurado e com muito pouco cabelo. Ele sabia como a doença o tinha deixado ainda menos atraente, o que destruiu a pouca confiança que lhe restava. Catarina achava-o uma criatura penosa e olhava para o casamento com muito pouco entusiasmo. Na altura Pedro tinha começado a beber em excesso e o seu comportamento tornou-se cruel. A corte regressou a São Petersburgo e, após vários adiamentos, o casamento aconteceu no dia 21 de Agosto de 1745 na Catedral de Kasan.

Acredita-se que o casamento não terá sido consumado, uma vez que o corpo de Pedro não se tinha desenvolvido devido às suas muitas doenças. Foi nesta altura que Catarina, sentindo-se mais isolada do que nunca, escreveu: “Devia ter amado o meu novo marido, se ele, pelo menos, tivesse sido minimamente amável. Mas nos primeiros dias do meu casamento, fiz algumas refleções cruéis sobre ele. Estou sempre a dizer-me a mim mesma: ‘Se amares este homem, vais ser a criatura mais miserável à face da Terra. Tem cuidado no que toca ao afecto por este homem, pensa em ti, Madame.”

O jovem casal habituou-se um ao outro, mas o casamento foi um erro miserável. A mãe de Catarina acabou por regressar a casa e a futura Imperatriz ocupou-se lendo tudo o que lhe viesse parar às mãos. Acabou por descobrir satisfação quando avançou dos trabalhos de Platão para os de Voltaire. O seu interesse pelo intelectual causou uma separação ainda maior entre ela e o marido, que a começou a evitar. Ele sentia prazer em dizer-lhe o quanto gostava de outras mulheres. Catarina começou a ficar satisfeita com as ocupações infantis dele. Os anos foram passando e não havia nenhum herdeiro à vista, irritando profundamente a Imperatriz que culpava Catarina por não se conseguir tornar atraente aos olhos do marido. O facto de ela ter arranjado um amante, é pouco surpreendente no meio de toda a pressão a que estava sujeita. Menos de dois anos depois, ela finalmente deu à luz um filho, Paulo, que foi imediatamente levado para os aposentos da Imperatriz onde ficaria até à morte dela.


Filhos:

Paulo I da Rússia

Alexei Bobrinsky
Alexei foi o filho nascido da relação de Catarina com o Conde Gregório Orlov, nascido a 11 de Abril de 1762. O seu apelido foi escolhido como uma derivação do nome da casa onde a sua família vivia, Brobrinskoe. Tinha 19 anos quando a Imperatriz lhe revelou que era sua mãe através de uma carta. Casou-se com a Baronesa Ana Doroteia von Ungern-Sternberg de quem teve descendência que sobrevive até hoje. O seu meio-irmão Paulo I criou-o Conde durante o seu curto reinado.

Isabel Grigoryevna Temkina

Isabel foi a filha de Catarina com o Príncipe Potemkin-Tauria. Nasceu em segredo, em Moscovo, durante as comemorações do final da Guerra Russo-Turca, a 13 de Julho de 17775. Foi criada pela irmã do pai, Maria Alexandrovna Samoilova. Casou-se com o Major Ivan Hristoforovicha Kalageorgi, de quem teve 10 filhos. Quando tinha 22 anos de idade, Isabel posou para o artista Vladimir Borovikovsky como Deusa Diana, nua, sendo o quadro vendido por 6 milhões de rublos. Hoje ele pode ser visto na Galeria do Estado Tretyakov.

***


Causa de morte: Catarina, a Grande sofreu um ataque cardiaco no dia 16 de Novembro de 1796 que a deixou inconsciente. Morreu poucas horas depois, sem recuperar os sentidos. Tinha 67 anos.