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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As Primeiras Lições na Corte - Pierre Gilliard

Pierre Gilliard

No dia marcado para a minha primeira lição, uma carruagem real veio para me levar para a Casa de Alexandria, onde o czar e a família estavam a viver. No entanto, apesar do uniforme do cocheiro, do brasão imperial nos painéis e das ordens que tinham sido dadas em relação à minha chegada que, sem dúvida, tinham sido dadas, aprendi rapidamente que entrar na residência de Suas Majestades não era fácil. Mandaram-me parar no portão do parque e houve uma discussão de vários minutos antes de receber permissão para entrar. Quando viramos numa curva, não demorei até ver dois edifícios pequenos de tijolo interligados por uma ponte escondida. Se a carruagem não tivesse sido parada, nunca teria pensado que tinha chegado ao meu destino.


Fui levado para uma sala pequena, mobilada de forma simples em estilo inglês no segundo andar. A porta abriu-se a czarina entrou, segurando as suas filhas Olga e Tatiana pela mão. Depois de fazer alguns elogios, sentou-se na mesa e convidou-me a fazer o mesmo do lado oposto ao dela. As crianças sentaram-se nas outras duas pontas da mesa.


Olga e Tatiana na altura em que começaram a receber lições de francês de Gilliard

A czarina ainda era uma mulher bonita nesta altura. Era alta e magra e tinha um porte soberbo. Mas tudo isto deixou de contar quando a olhei nos olhos, aqueles olhos azuis-acinzentados que falavam e mostravam as emoções de uma alma sensível.

Olga, a grã-duquesa mais velha, era uma menina de dez anos, muito loira e com uns olhos brilhantes e marotos e um nariz ligeiramente retoussé. Examinou-me com um olhar que me pareceu procurar um ponto fraco na minha armadura desde o primeiro momento, mas havia algo de tão puro e honesto na criança que uma pessoa gostava imediatamente dela.

A segunda menina, Tatiana, tinha oito anos e meio. Tinha cabelo castanho-avermelhado e era mais bonita do que a irmã, mas dava a impressão de ser menos transparente, honesta e espontânea. 


A lição começou. Fiquei espantado, até embaraçado, pela simplicidade de uma cena que tinha esperado ser muito diferente. A czarina seguiu tudo o que eu disse muito atentamente. Senti de forma distinta que não estava a dar uma aula, mas sim a ser avaliado. O contraste entre o que tinha antecipado e a realidade deixou-me muito confuso. Para aumentar ainda mais o meu desconforto, tinha a ideia de que as minhas alunas estavam muito mais avançadas do que realmente verifiquei. Tinha escolhido certos exercícios, mas estes acabaram por ser demasiado complicados para elas. A lição que tinha preparado não serviu de nada e tive de improvisar e contar com outros materiais. Finalmente, para grande alívio meu, o relógio bateu as horas e marcou o final do meu sofrimento.

Nas semanas que se seguiram, a czarina esteve sempre presente nas lições das crianças, pelas quais se interessava visivelmente. Muito frequentemente, depois de as suas filhas deixarem a sala, a czarina discutia comigo sobre os melhores métodos de ensinar línguas modernas e ficava sempre espantado pelo bom senso das suas opiniões.

Alexandra
Desses primeiros dias, guardei na memória uma lição que dei um dia ou dois antes do problema do Manifesto de Outubro em 1905 que acabaria na criação da Duma. A czarina estava sentada numa cadeira baixa, perto da janela. Reparei imediatamente que estava distraída e preocupada. Apesar de tudo que podia fazer, o seu rosto traía-a e mostrava uma agitação interior. Esforçava-se obviamente para se concentrar em nós, mas não demorava a mergulhar novamente num estado de melancolia no qual se acabaria por perder. O seu trabalho escorregou-lhe dos dedos para o colo. Tinha as mãos apertadas e o seu olhar, que seguia os seus pensamentos, parecia perdido e indiferente às coisas que aconteciam à sua volta.

Quando a lição acabou, fechei o meu livro e esperei que a czarina se levantasse, um sinal de que me poderia retirar. Desta vez, apesar do silêncio que seguiu o fim da lição, ela estava tão perdida dos seus pensamentos que não se mexeu. Os minutos passavam e as crianças começam a ficar inquietas. Abri o meu livro novamente e continuei a ler. Só um quarto-de-hora depois, quando as grã-duquesas foram ter com a mãe, é que a czarina se apercebeu das horas.

Alexandra
Alguns meses depois, a czarina nomeou uma das damas-de-companhia, a princesa Obolensky, para a substituir durante as minhas lições. Assim acabou o período de uma espécie de avaliação à qual tinha sido submetido. Devo admitir que a mudança foi um alívio. Sentia-me muito mais à vontade com a presença da princesa Obolensky e, além do mais, ela ajudava-me muito. No entanto, desses primeiros meses, preservei uma memória vívida do grande interesse que a czarina, uma mãe com grande sentido de responsabilidade, tinha pela educação dos seus filhos. Em vez da imperatriz fria e altiva de quem ouvi falar tanto, e fiquei espantado por estar na presença de uma mulher completamente dedicada às suas obrigações maternas.

Também foi nesta altura que comecei a aperceber-me de certos sinais de reserva que tantas pessoas tinham levado a mal e lhe tinham valido tantos inimigos, eram na verdade sinais de uma timidez natural e, como tal, uma máscara para esconder a sua sensibilidade.


Alexandra Feodorovna


Vou dar um pormenor que ilustra o interesse da czarina na educação dos seus filhos e a importância que dava a estes mostrarem respeito pelos seus professores mostrando aquele sentido de decoro que é o primeiro elemento das boas maneiras. Enquanto esteve presente nas minhas lições, quando eu entrava na sala, encontrava sempre os livros e os cadernos empilhados de forma organizada nos lugares das minhas alunas na mesa e nunca tive de esperar um momento. O mesmo continuou a acontecer depois. Ao longo do tempo, às minhas primeiras alunas, Olga e Tatiana, juntaram-se a Maria, em 1907, e a Anastásia, em 1909, anos em que, respectivamente, completaram 9 anos de idade.

A saúde da czarina, que tinha já sofrido pela sua ansiedade devido à ameaça que havia sobre o czarevich, foi impedindo-a de seguir a educação das filhas. Na altura não me apercebi qual seria a causa da sua aparente indiferença e senti-me inclinado a censura-la, mas não demorou muito até que os acontecimentos me mostrassem que estava errado.

Alexei e Pierre Gilliard
Texto retirado do livro "Thirteen Years at the Russian Court" de Pierre Gilliard.

terça-feira, 27 de março de 2012

As Crianças Imperiais - Anna Vyrubova

Alexandra Feodorovna com os filhos em Czarskoe Selo

O ano de 1912, apesar de estar destinado a acabar com a doença quase fatal do czarevich, começou de forma feliz para a família imperial. O inverno e a primavera foram pacíficos, o imperador andava ocupado com os habituais assuntos do império, a imperatriz, até onde a saúde lhe permitia, supervisionava a educação dos filhos e todos eles andavam ocupados com os seus livros e tutores. Deve dizer-se que nada foi omitido da educação dos filhos de Nicolau II e da imperatriz Alexandra Feodorovna que não os tornasse russos verdadeiros e leais, e os métodos de ensino aplicados foram cosmopolitas. Tinham tutores franceses, suíços e ingleses, mas todos os seus estudos eram controlados por um russo, o culto senhor Petrov, enquanto que certas disciplinas como física e ciência natural lhes eram ensinadas em regime particular numa escola em Czarskoe Selo. A primeira professora das crianças, de quem elas receberam a sua educação básica, foi a senhora Schneider, que tinha a alcunha de “Trina”, uma nativa dos estados bálticos do império. A senhora Schneider começou a servir a família alguns anos antes do casamento do imperador e da imperatriz, tendo sido responsável por ensinar russo à grã-duquesa Isabel Feodorovna. Depois ensinou russo quando a imperatriz chegou ao país e acabou por ficar na corte como leitora da imperatriz. A “Trina” era uma pessoa bastante difícil em vários aspectos, aproveitando-se da sua posição, mas não havia dúvidas de que era importante e dedicava-se de alma e coração à família. Acompanhou-os para a Sibéria e desapareceu lá com eles.

Anastásia, Maria e Alexei com as primas Olga e Isabel da Grécia em 1912


Talvez o instrutor mais valorizado fosse o senhor Pierre Gilliard, cujo livro “Treze Anos na Corte Russa” foi publicado em várias línguas e foi muito bem recebido. O senhor Gilliard, um cavalheiro suíço de muitos talentos, chegou a Czarskoe Selo para se tornar primeiro professor de francês das pequenas grã-duquesas. Depois também se tornou tutor do czarevich. O senhor Gilliard vivia no palácio e tinha a total confiança e carinho de Suas Majestades. O senhor Gibbs, o professor de inglês, também era um dos seus amigos mais chegados. Ambos estes homens acompanharam a família no exílio e permaneceram fiéis e amigos dedicados até serem expulsos à força pelos bolcheviques.

Pierre Gilliard


No seu livro, o senhor Gilliard recordou que nunca conseguiu ensinar as grã-duquesas a falar francês fluentemente. Tal é verdade porque as línguas usadas pela família eram o inglês e o russo e as crianças nunca se interessaram por outras línguas. A “Trina” devia ter-lhes ensinado a falar alemão, mas teve ainda menos êxito nessa língua do que o senhor Gilliard com o francês. O imperador e a imperatriz falavam quase exclusivamente em inglês, assim como o irmão da imperatriz, o grão-duque de Hesse, e a sua família. Entre si, as crianças falavam russo. Apenas o czarevich, graças à companhia constante do senhor Gilliard, conseguiu dominar o francês.

Alexei com Pierra Gilliard e Mr. Gibbs


Cada pormenor da educação das crianças foi supervisionado pela imperatriz que muitas vezes se sentava com eles na sala-de-aula durante horas. Foi ela quem lhes ensinou a coser e a bordar e a sua melhor aluna era a Tatiana, que tinha um talento extraordinário para todo o tipo de trabalhos manuais. Não só fazia blusas e outras peças de roupa, bordados e croché, como também arranjava o longo cabelo da mãe muitas vezes e ajudava-a a vestir-se tão bem como uma criada profissional. Não que a imperatriz pedisse tantos pormenores na sua roupa como a típica mulher na sua posição. Possuía aquele tipo de modéstia vitoriana que proibia qualquer intromissão à privacidade do seu quarto-de-vestir. Tudo o que as criadas tinham permissão para fazer era arranjar-lhe o cabelo, apertar-lhe as botas, vestir-lhe o vestido e colocar-lhe as jóias. A imperatriz tinha muito gosto na forma como se vestia e escolhia sempre as suas jóias para complementar e não apenas como ornamento do seu vestido. “Só quero rubis hoje,” dizia ela, ou então “pérolas e safiras para este vestido.”

Alexandra


A imperatriz e os seus filhos foram representados como se estivessem sempre rodeados de criados alemães, mas essa acusação é absolutamente falsa. A responsável pelo governo da casa era a senhora Gheringer, uma senhora russa que vinha todos os dias ao palácio, encomendava vestidos, fazia todas as compras necessárias, pagava as contas e executava todos os serviços pedidos pela imperatriz. A criada principal da imperatriz era Madeleine Zanotti, de origem inglesa e italiana que tinha vivido em Inglaterra a vida inteira antes de se mudar para Czarskoe Selo. Era uma mulher de meia-idade, muito inteligente e, como era costume das pessoas na sua posição, tinha tendência a ser tirânica. Madeleine era encarregada de todos os vestidos e jóias da imperatriz e, como já disse anteriormente, criticava muitas vezes os hábitos indolentes da imperatriz em relação, por exemplo, a troca de correspondência entre outras coisas. Uma segunda criada era Tutelberg, ou “Toodles”, uma menina bastante lenta e calada do Báltico. Ela e Madeleine eram grandes inimigas, mas concordavam numa coisa: nenhuma das duas aceitava usar barretes e aventais. A imperatriz aceitou esta exigência de boa vontade e permitiu que as criadas usassem apenas vestidos negros com fitas na cabeça. Havia criadas menos importantes, todas elas russas, e completamente dedicadas à família imperial. Estas raparigas, que usavam os barretes e aventais brancos protocolados, cuidavam dos quartos da imperatriz e das crianças. Quando a revolução rebentou, todas as criadas permaneceram fiéis à família e, uma delas, como irei contar depois, levou a cabo um serviço muito perigoso quando levou cartas escondidas à família na Sibéria. Uma das raparigas, Anna Demidova, foi morta com a família em 1918.

Anna Demidovna


O imperador tinha três criados, um dos quais, Shalferov, que tinha servido o czar Alexandre III, se tornou espião durante a Revolução. Outro, o velho Raziesh, que também tinha sido criado de Alexandre III, morreu ao serviço de Nicolau II, e foi substituído por Chemodurov, um homem honesto e muito leal. O terceiro criado chamava-se Katov. Tal como o nome comprova, todos eles eram russos, assim como os três homens que serviam a imperatriz, Leo e Kondratiev, ambos mortos durante os primeiros dias da Revolução, e Volkov, que acompanhou a família até à Sibéria com a permissão do Governo Provisório.

Nicolau II


As amas das crianças eram russas e a principal chamava-se Marie Vechniakova. Outras de quem me lembro bem eram a Alexandra, a quem chamavam “Shoura” e era uma das favoritas das meninas, Anna e Lisa, raparigas gentis e fiéis que não falavam mais nada além de russo. Havia, claro, centenas de criados e, que eu saiba, a maioria, senão todos, eram russos. O cozinheiro, Cubat, era francês e muito bom naquilo que fazia. Às vezes, quando um prato mais elaborado era preparado, Cubat estava acostumado a apresenta-lo, deixando-se ficar muito hirto na entrada, vestido em linho imaculadamente branco, até que o prato fosse servido. Cubat ficou muito rico ao serviço do czar e actualmente vive uma vida feliz e abastada na sua adorada França. Creio que foi muito leal até ao fim, algo que é mais do que se pode dizer da maioria dos criados. Os filhos deles foram educados às custas do imperador e a maioria, em vez de escolher profissões uteis, preferiu ir para a universidade, onde quase se tornaram revolucionários. Na opinião do meu pai, isto aconteceu devido ao facto de as universidades e liceus russos oferecerem pouco treino prático. Quando se apercebeu disto, a imperatriz abriu uma escola técnica em São Petersburgo para ambos os sexos que recebia estudantes de todo o Império. Nesta escola, os estudantes eram treinados para ensinar vários ofícios e, além desta academia normal, a imperatriz também abriu muitas escolas públicas onde rapazes e raparigas aprendiam as belas artes camponesas de bordar, tinturaria, entalhe e pintura. Estou a dar estes pormenores porque acho que são importantes para desmentir os rumores criados por escritores sensacionalistas que nunca poderiam ter sabido nada da vida privada da família imperial russa, mas que mesmo assim prejudicaram a campanha pela verdade.

Olga e Tatiana


Nenhum destes escritores sensacionalistas sabia ou tentou descobrir como o regime seguido pelas crianças era simples, para não dizer rigoroso. Todas elas, até o delicado czarevich, dormiam em camas-de-campanha armadas sem almofadas e com o menor número possível de cobertores. Tomavam um banho de água fria todas as manhãs e apenas tinham direito a água quente à noite. Devido a esta vida simples, a personalidade das crianças era modesta e natural sem um único vestígio de grandiosidade. Apesar de em 1912 as quatro meninas já estarem quase a chegar à idade adulta (a Olga já tinha dezoito anos e a Tatiana quase dezasseis), os seus pais continuavam a vê-las como crianças. As duas meninas mais velhas eram chamadas “as grandes” e recebiam muitos privilégios de adultos como, por exemplo, a possibilidade de ir a concertos e ao teatro com o imperador. As suas grã-duquesas mais novas e o czarevich eram “os pequeninos” e ainda não tinham saído do quarto-das-crianças.

Maria, Tariana, Olga e Anastásia


Nas sombras do mistério que assombra o destino destas crianças inocentes, é com grande emoção que as recordo, tal como elas pareciam: cheias de vida e de alegria, naqueles dias distantes, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente próximos, antes da Grande Guerra e da queda da Rússia imperial. Das quatro meninas, a Olga e a Maria tinham o aspecto mais russo, mostrando bem as suas origens Romanov. A Olga era, talvez, a mais inteligente de todas, tinha uma mente que compreendia tudo muito depressa e absorvia muito bem tudo o que aprendia quase sem se esforçar ou estudar. As suas características principais, devo dizer, eram uma grande força de vontade e um hábito muito directo de pensamento e acção. Embora estas qualidades sejam admiráveis numa mulher, numa criança podem ser difíceis e a Olga, quando era mais pequena, mostrou-se sempre muito teimosa e até desobediente. Tinham um temperamento quente que aprendeu a controlar cedo e, caso tivesse tido a oportunidade de viver uma vida normal, creio que se teria tornado uma mulher influente e distinta. Era muito bonita, com olhos azuis brilhantes e um rosto encantador que se parecia muito com o pai na delicadeza dos traços, principalmente o seu nariz delicado e ligeiramente pontiagudo.



Olga Nikolaevna


A Maria e a Anastásia também tinham cabelo loiro e eram meninas muito atraentes. A Maria tinha uns olhos esplendidos e umas bochechas rosadas. Tinha tendência a engordar e tinha uns lábios bastante grossos que prejudicavam um pouco a sua beleza. A Maria tinha uma personalidade naturalmente doce e muito gentil. As três tinham um pouco de maria-rapaz. Tinham herdado alguma da brusquidão dos seus antepassados Romanov que se revelava principalmente na sua inclinação para fazerem asneiras. A Anastásia, que era uma criança perspicaz e esperta, era muito dada a brincadeiras, algumas delas demasiado práticas para divertirem outras pessoas. Lembro-me de uma vez que a família estava na sua casa na Polónia durante o inverno e as crianças estavam a divertir-se com uma luta de bolas de neve. O diabrete que às vezes parecia possuir a Anastásia, levou-a a esconder uma pedra dentro de uma bola de neve que atirou directamente contra a cabeça da sua adorada irmã Tatiana. O míssil atingiu a pobre rapariga em cheio na cara com tal força que ela caiu ao chão e perdeu os sentidos. A Anastásia arrependeu-se e ficou triste durante vários dias e este incidente curou-a para sempre de voltar a repetir este tipo de brincadeiras.

Maria e Anastásia


A Tatiana era uma reencarnação quase perfeita da mãe. Mais alta e magra do que as irmãs, tinha traços suaves e refinados e os modos gentis e refinados dos seus antepassados ingleses. Com uma disposição amável e complacente, mostrava tal protecção em relação às irmãs e ao irmão que eles, por brincadeira, a chamavam “a governanta”. De todas, a grã-duquesa Tatiana era a mais popular com as pessoas e suspeito que era a preferida dos pais. Era completamente diferente dos outros, até no aspecto físico, tendo cabelo castanho e olhos cinzento-escuro que, à noite, pareciam negros. De todas as raparigas, a Tatiana era a mais sociável. Gostava da sociedade e desesperava quase pateticamente à procura de amigos. Mas na posição em que estas meninas se encontravam, era difícil encontrar amigos. A imperatriz temia ver as suas filhas na companhia das jovens demasiado sofisticadas da alta sociedade cujas mentes até na sala de aula eram alimentadas pelos rumores maliciosos de uma sociedade decadente. A imperatriz até desencorajava a relação das filhas com os primos e parentes chegados, muitos dos quais tinham começado uma vida depravada muito cedo.

Tatiana com o pai


Não daria a impressão de que estas jovens filhas do imperador e da imperatriz eram forçadas a viver vidas enfadonhas e paradas. Tinham permissão para terem um ou outro oficial preferido com quem podiam dançar, jogar ténis, passear ou andar a cavalo. Estes romances inocentes eram na realidade muito divertidos aos olhos de Suas Majestades que gostavam de gracejar com as filhas sobre qualquer belo oficial que parecia agradar-lhes. A grã-duquesa Olga Alexandrovna, irmã do imperador, simpatizava com o gosto pelo divertimento das sobrinhas e organizava festas e jogos de ténis para as grã-duquesas com frequência sendo os convidados, claro, escolhidos por ela. Tivemos algumas festas deste género em minha casa. Quanto à forma de vestir, um assunto tão importante para as jovens bonitas, as grã-duquesas podiam escolher o que quisessem. A senhora Brisac, uma costureira francesa de renome, fazia os vestidos para a família imperial e, através dela, chegavam ao palácio as últimas modas de Paris. Contudo, as meninas costumavam inclinar-se mais para o estilo simples inglês, principalmente quando tinham eventos públicos. No verão os vestidos eram quase todos brancos. Eram demasiado jovens para usarem jóias, excepto em grandes ocasiões. Cada uma delas recebeu uma pulseira de ouro no seu décimo-segundo aniversário que usavam sempre “para dar sorte”. Já tinha falado anteriormente do costume de oferecer a cada grã-duquesa um colar de pérolas e diamantes quando elas atingiam a maioridade, mas elas apenas o usavam em bailes muito formais.

Maria, Tatiana, Alexei, Anastásia e Olga com oficiais

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Biografia - Pierre Gilliard



Pierre Gilliard (esquerda) com o Czarevich Alexei Nikolaevich

Pierre Gilliard nasceu em 1879 na Suíça. Ficou mais conhecido por ter sido o tutor de francês dos cinco filhos do Czar Nicolau II entre 1905 a 1918. Anos depois do assassinato da Família Imperial pelos bolcheviques, Gilliard escreveu o livro “Thirteen Years at the Russian Court”, relatando as suas memórias do tempo que passou com a família. Neste livro, Gilliard descreve o tormento da Czarina com a Hemofilia do filho e como apenas confiava no monge siberiano Rasputine para o curar.
Nestas memórias, Gilliard conta como chegou à Rússia em 1904 para ser o tutor da família do Duque Jorge de Leuchtenberg, um neto do Czar Nicolau I da Rússia e primo da família Romanov. Ele foi recomendado para tutor de francês para os filhos do Czar e iniciou as suas funções com as duas filhas mais nova, a Grã-duquesa Olga Nikolaevna e a Grã-duquesa Tatiana Nikolaevna, em 1905. Em 1907 iniciou as suas aulas com a Grã-duquesa Maria, em 1909 com a Grã-duquesa Anastásia e, finalmente, em 1912, com o Czarevich Alexei Nikolaevich.

Pierre Gilliard com as Grã-duquesas Olga Nikolaevna e Tatiana Nikolaevna

Gilliard tornou-se muito ligado às crianças e aos seus pais, decidindo acompanhá-los para o exílio de livre vontade após a Revolução Russa de 1917. Acompanhou-os fielmente durante a sua estadia no Palácio de Alexandre e na Casa do Governador em Tobolsk, sendo o principal autor das últimas fotografias da família, tiradas durante os dias de exílio.

Chegados a Ekaterinburgo em Maio de 1918, os bolcheviques impediram-no de se juntar à família devido à sua nacionalidade suíça. Gilliard descreveu a última vez que viu os seus alunos:

“O marinheiro Nagorny, que cuidava do Alexei Nikolaevich, passou pela minha janela carregando o rapaz doente nos braços, atrás dele vinham as Grã-duquesas carregadas com sacos e pequenos pertences. Tentei sair, mas fui brutalmente puxado de volta para a carruagem por uma sentinela. Voltei para a janela. A Tatiana Nikolaevna vinha em último lugar, carregando o seu pequeno cão e esforçando-se por arrastar o seu pesado malão castanho. Estava a chover e eu vi os pés dela enterrarem-se na lama a cada passo. O Nagorny tentou ajudá-la, mas foi brutalmente afastado por um dos comissários."

Pierre Gilliard (ao fundo) com as Grã-duquesas Olga Nikolaevna e Tatiana Nikolaevna e outros empregados em Tobolsk, na Primavera de 1918

Gilliard permaneceu na Sibéria por mais três anos após o assassinato da família, ajudando o investigador do Exército Branco Russo, Nicholas Sokolov, com a investigação. Em 1919, casou-se com Alexandra “Shura” Tegleva, que tinha sido uma das amas da Grã-duquesa Anastásia Nikolevna. Mais tarde tornaria-se professor de Francês na Universidade de Lausenne e foi condecorado com a Honra da Legião Francesa.

Gilliard tornar-se-ia um opositor veemente de Anna Anderson, a mulher que dizia ser a Grã-duquesa Anastásia. A irmã mais nova do Czar Nicolau, a Grã-duquesa Olga Alexandrovna, comentou sobre Gilliard e Anna Anderson:

“É obvio que ela não gosta nada dele e a pequena Anastásia era-lhe devota.”

Uma das últimas fotografias tiradas por Gilliard à família imperial

De acordo com Peter Kurth, um defensor contemporâneo de Anna Anderson, Gilliard não tivera tanta certeza de que ela estava a mentir da primeira vez que a conheceu- Gilliard e a sua esposa Shura foram convidados pela Grã-duquesa Olga Alexandrovna para visitar Anderson no hospital de Berlim em 1925. Peter Kurth alega que Shura terá reparado na mesma deformação nos pés de que sofria a Grã-duquesa Anastásia. O mesmo autor diz que, numa visita posterior, Anderson deitou perfume de um frasco para a mão de Shura e pediu-lhe que ela lhe esfregasse a testa com ele. A antiga ama terá dito que a Grã-duquesa costumava fazer a mesma coisa quando era pequena. Gillard, contudo, ficou céptico quando Anderson não o reconheceu imediatamente e não lhe respondeu às perguntas por ele colocadas.

Gilliard (esquerda) com o Czarevich Alexei Nikolaevich, a Grã-duquesa Olga Nikolaevna e o marinheiro Nagorny em 1913

De acordo com Peter Kurth, a amiga e apoiante de Anna Anderson, Harriet von Rathlef, alegadamente escreveu que tinha visto Gilliard no corredor, agitado e a murmurar em francês, “Meu Deus, que horror! No que se tornou a Grã-duquesa Anastásia? Ela está um caos, um verdadeiro caos! Quero fazer o que puder para ajudar a Grã-duquesa.” Shura chorou quando teve de deixar Anderson, perguntando-se porque gostava tanto da mulher como gostava da Grã-duquesa. De acordo com Peter Kurth, Gilliard disse ao Embaixador Zahle que, “Vamos embora sem conseguir dizer que ela não é a Grã-duquesa Anastásia.”

Gilliard (direita) com o Czarevich Alexei e o Czar Nicolau II na Finlândia

Diz-se que o casal escreveu várias cartas amigáveis a Anna Anderson. Algumas semanas mais tarde, Peter Kurth diz que, depois de conhecer a história da mulher, Gilliard mudou a sua posição.

Gilliard escreveu artigos e um livro intitulado “A Falsa Anastásia” contra ela e chamou-a de “aventureira vulgar” e “actriz de primeiro grau”. Também testemunhou contra ela no julgamento iniciado nos anos 30 para determinar se ela era ou não a Grã-duquesa.

Uma das fotografias mais conhecidas de Gilliard, mostrando as crianças imperiais com a cabeça rapada no Verão de 1917

Gilliard ficou gravemente ferido num acidente de automóvel em 1958 e morreu quatro anos depois devido a complicações derivadas dos mesmos. Está enterrado em Lausanne, na Suíça.

Gilliard com o Czarevich Alexei Nikolaevich durante a Primeira Guerra Mundial

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pretendentes - Alexei Poutziato


Alexei Poutziato foi o primeiro pretendente a um membro da última família imperial de que há registo. Apareceu na cidade de Omsk em 1919 e dizia ser o Czarevich Alexis Nikolaevich, no entanto foi rapidamente desmascarado pelo antigo tutor das crianças, Pierre Gilliard que recordou esta história no seu livro “Le tragique Destin de Nicolas II e de sa famille”:

 “O General D informou-me que queria mostrar-me um “rapaz que dizia ser o Czarevich”. Eu, de facto, já tinha ouvido esse rumor que se espalhou por toda a cidade de Omsk. Dizia-se que estava numa cidade pequena chamada Altai. Tinham-me dito que os habitantes o tinham saudado com entusiasmo, as crianças da escola tinham feito uma recolha de fundos em seu nome, e o governador da estação tinha-lhe oferecido, de joelhos, pão e sal.

Além disto, o Admiral Kolchak tinha recebido um telegrama a pedir-lhe que fosse assistir o pretendente a Czarevich. Eu não dei importância a estas histórias.

A porta da sala seguinte foi aberta um pouco e eu pude observar, sem ser reconhecido, um rapaz mais alto e mais forte do que o Czarevich que parecia ter cerca de 15 ou 16 anos. As únicas semelhanças com Alexis Nikolaevich eram o seu uniforme de marinheiro, a cor do cabelo e a forma como o arranjava.


Alexis em 1917

Contei ao General D as minhas conclusões. O rapaz foi-me apresentado. Fiz-lhe várias perguntas em Francês e ele permaneceu calado. Quando finalmente falou, disse-me que tinha compreendido tudo o que lhe tinha perguntado, mas que tinha as suas próprias razões para falar apenas em Russo. Depois de ter dito isto, comecei a falar com ele nessa língua. Isto também não deu resultado. Depois ele disse que tinha decidido responder apenas ao Admiral Kolchack. Então a entrevista acabou.

Mais tarde o rapaz confessou que era um impostor.

O destino pôs-me no caminho do primeiro de muitos incontáveis pretendentes que, sem dúvida, nos próximos anos vão continuar a ser uma fonte de problemas e agitação entre as massas dos camponeses russos ignorantes e facilmente iludidos.”