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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

As paixões de Olga e Tatiana

Olga, Anastásia, Maria e Tatiana com dois soldados imperiais
O dia 23 de Fevereiro de 1913 foi um dia muito especial para a grã-duquesa Olga Nikolaevna de dezoito anos quando, acompanhada pelo pai, pela mãe e pela sua tia Olga, participou no seu primeiro grande baile público em São Petersburgo, na Assembleia dos Nobres. O czar e a czarina já não estavam presentes num baile desde 1903 e Alexandra estava determinada a participar pela sua filha apesar de ter passado grande parte do dia de cama. Havia planos para Tatiana, a irmã mais nova de Olga, também estar presente, mas estava doente e de cama no Palácio de Inverno. Dois dias depois do baile, os médicos viriam a confirmar que a segunda filha do czar sofria de febre tifóide.

Olga e Tatiana em 1913
Olga estava determinada a não deixar esses contratempos estragar-lhe a noite. Estava linda, "vestida com um vestido cor-de-rosa claro simples de chiffon". Tal como tinha acontecido no baile para comemorar o seu décimo-sexto aniversário em Livadia, Olga "dançou todas as danças e divertiu-se de forma simples e completa como qualquer jovem no seu primeiro baile". O relato de Olga foi bastante mais prosaico: "Dancei muito, foi muito divertido. Estavam lá muitas pessoas, foi muito bonito". A grã-duquesa divertiu-se a dançar a quadrilha e a mazurka com muitos dos seus oficiais preferidos e ficou muito contente com a presença do seu querido amigo Nikolay Sablin, um oficial do Shtandart. Meriel Buchanan, filha do embaixador inglês em São Petersburgo, ficou cativada com a grã-duquesa mais velha nessa noite, "vestida com uma simplicidade clássica" e o seu colar era um simples "colar de pérolas de uma única fila", mas, mesmo assim, era completamente impossível resistir ao seu "nariz perfeito". Olga "tinha charme, uma frescura e um encanto exuberante que a tornavam irresistível". Meriel Buchanan lembra-se de a ver "hirta, nos degraus que levavam da galeria até ao salão de baile, a tentar resolver alegremente uma disputa entre três grão-duques que protestavam todos pelo direito de ter a primeira dança". No entanto, a imagem mereceu alguma reflexão: "ao vê-la, pensei no que lhe reservaria o futuro e qual dos muitos pretendentes que eram mencionados ocasionalmente seria o escolhido para se casar com ela."

Olga em 1913
A questão do futuro casamento de Olga tinha, inevitavelmente, ganho importância durante o ano de comemorações do Tricentenário da dinastia Romanov. Até então, as irmãs imperiais tinham sido um assunto tabu para a imprensa russa, mas depois de serem apresentadas oficialmente em público pela primeira vez, houve maior liberdade em falar sobre elas. A discussão do papel de Olga como filha mais velha tinha surgido nos bastidores uma vez mais depois da crise de sucessão que pairou no ar no Inverno de 1912-13. Quando Alexei esteve às portas da morte em Spala, o irmão mais novo de Nicolau, o grão-duque Miguel, tinha fugido para Viena para se casar em segredo com a sua amante, Natalya Wulfert, uma plebeia divorciada. Sabendo que, se Alexei morresse, e ele se tornasse herdeiro da coroa, Nicolau nunca permitiria este casamento morganático, Miguel tinha esperado que, se se casasse sem o seu irmão saber, o seu acto seria aceite como um 'fait accompli', mas Nicolau ficou furioso. A sua resposta não deixou sombra para dúvidas: exigiu que Miguel renunciasse aos seus direitos de sucessão ou que se divorciasse imediatamente de Natalya para impedir um escândalo. Quando Miguel se recusou a fazê-lo, Nicolau congelou os bens do irmão e expulsou-o da Rússia. Em finais de 1912, foi publicado um manifesto nos jornais russos no qual Miguel era retirado do conselho de regência e os seus comandos e honras imperiais eram retirados. Segundo as leis de sucessão, era o filho mais velho do grão-duque Vladimir Alexandrovich, o grão-duque Kirill Vladimirovich, que se tornaria regente caso Nicolau morresse antes de Alexei cumprir vinte-e-um anos de idade. No entanto, tanto ele como os seus dois irmãos, que levavam todos vidas de moral questionável, eram muito pouco populares na Rússia. Por isso, em vez de seguir o procedimento normal, Nicolau contornou as leis existentes e ordenou ao conde Freedericksz que redigisse um manifesto no qual nomeava Olga como sua regente e Alexandra a sua guardiã enquanto Alexei não chegasse à maioridade. Foi publicado em inícios de 1913, sem passar pela Duma, como era obrigatório. O documento, como seria de esperar, enfureceu a grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior.

Olga e Alexei                  

Da sua posição privilegiada na Embaixada Britânica, Meriel Buchanan percebeu que a família imperial estava a passar por um período complicado naquele ano:

"O casamento do grão-duque Miguel causou grande agitação e dizem que o querido imperador está com o coração partido. Ninguém sabe ao certo o que se passa com o menino e,  se acontecer o pior, a questão da sucessão irá tornar-se séria.  O Kyrill, claro, é o que está mais próximo, mas muitos duvidam que o clã Vladimir terá permissão para suceder, uma vez que a mãe deles não era ortodoxa quando eles nasceram. Se assim for, o Dmitri será o próximo e teria de se casar com uma das filhas do imperador."
Os Vladimirovich: (da esq. para a dir.) o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, o grão-duque Boris, a grã-duquesa Helena, o grão-duque André, a grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior e o grão-duque Kyrill.

Corriam claramente rumores sobre uma união entre Olga e Dmitri. Meriel, que tinha um gosto especial por boatos, achava essa ideia um quanto divertida. Ela própria tinha passado bastante tempo com Dmitri na sociedade de São Petersburgo, na qual toda a gente andava a aprender as danças da moda mais recentes. "Tive uma lição muito exigente com o Dmitri um dia destes," escreveu ela a uma prima. "Seria muito 'chic' se um dia o Dmitri se tornasse imperador de todas as Rússias para eu poder dizer que ele me ensinou a dançar o Bunnyhug, não achas?". No entanto, todas as conversas sobre a possível união desapareceram pouco tempo depois quando Dmitri pediu outra prima sua em casamento, a princesa Irina Alexandrovna, a única filha da grã-duquesa Xenia Alexandrovna. No entanto, o seu pedido acabaria por ser rejeitado e Irina preferiu aceitar a proposta do melhor amigo dele, o príncipe Felix Yussupov. À medida que o ano foi avançando, Nicolau e Dmitri começaram a afastar-se gradualmente, mas o grão-duque manteve o seu posto de ajudante-de-campo do imperador.


Dmitri Pavlovich com a sua prima e apaixonada, a princesa Irina Alexandrovna

Quanto a Olga, os seus pensamentos românticos de adolescente estavam na altura firmemente direccionados para pessoas que ocupavam lugares muito mais inferiores na sociedade, mais especificamente para um oficial chamado Alexander Konstantinovich Shvedov, capitão da escolta do czar. No seu diário, a grã-duquesa referia-se a ele pelo acrónimo AKSH e a presença dele nos chás da sua tia Olga ao Domingo era a altura mais importante da sua parca vida social durante grande parte da primeira metade do ano. Estas ocasiões eram pouco mais do que pequenas reuniões divertidas com um grupo de oficiais favoritos escolhidos a dedo. O pequeno grupo dançava ao som do fonógrafo e jogava jogos infantis como o gato-e-o-rato, a sardinha, as escondidas e à apanhada. As quatro irmãs eram vigiadas muito levianamente pela sua tia, mas os jogos acabavam quase sempre em muitos risos e brincadeiras animadas que colocavam as quatro irmãs em contacto físico próximo com homens com quem, noutras circunstâncias, elas nunca teriam permissão de manter tal grau de intimidade.


Olga com um dos marinheiros do Standard
Era um tipo de brincadeira muito estranho e perverso, mas nem a mãe nem a tia delas via nenhum mal nele. Lá estavam as grã-duquesas imperiais da Rússia, prestes a entrar na idade adulta, a comportar-se como crianças, num tipo de comportamento que fez com que a grã-duquesa Olga se apaixonasse por um jovem que, em quaisquer outras circunstâncias, estaria fora dos seus limites. “Sentei-me com o AKSH o tempo todo e apaixonei-me profundamente por ele”, escreveu ela no seu diário a 10 de Fevereiro. “Deus tenha piedade de nós. Estive com ele o dia todo, na liturgia e à noite. Foi muito bom e divertido. Ele é tão querido.” Durante várias semanas depois desta confissão, o novo padrão da sua vida, além das suas lições, passeios com o papá, fazer companhia à mamã e ouvir o Alexei a rezar à hora de dormir, eram os dias em que, ocasionalmente, podia ir visitar a tia Olga em São Petersburgo para jogar jogos infantis e admirar AKSH, o seu belo cossaco de bigode no seu uniforme cherkeska.

Maria, Anastásia e Olga com alguns soldados numa das festas de Domingo organizadas pela sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna
Tatiana ficou triste por ter de perder grande parte das comemorações do Tricentenário em São Petersburgo, já para não falar das visitas à tia Olga, nas quais ela tinha também os seus oficiais favoritos. Devido à sua doença (que, pouco tempo depois, também transmitiu ao Dr. Botkin e a Trina Schneider), a família foi obrigada a deixar o Palácio de Inverno a 26 de Fevereiro e regressar a Czarskoe Selo; mas antes de o fazer, Tatiana pediu à sua enfermeira, Shura Tegleva para telefonar a Nikolay Rodionov para lhe dizer que ia adorar se alguns dos oficiais passassem pela sua janela no Palácio de Inverno, para que ela os pudesse ver. Rodionov e Nikolay Vasilevich Sablin tiveram todo o prazer em fazê-lo e recordou o resto da vida o momento em que passou pela janela da pobre jovem doente que lhes fez uma vénia com a cabeça.

Tatiana em 1913, já sem cabelo devido à doença que sofreu nesse ano
Quando regressou ao Palácio de Alexandre, Tatiana ficou imediatamente em quarentena das irmãs e esteve muito doente durante mais de um mês. A 5 de Março, o seu lindo cabelo castanho teve de ser cortado e Tatiana teve de usar uma peruca até Dezembro, altura em que o cabelo voltou ao tamanho original. Presa em casa com a sua mãe, uma a tomar conta da outra, só em Abril é que Tatiana se aventurou a sair para a varanda de Alexandra, mas ainda estava a nevar e demasiado frio para sair de casa durante muito tempo. Quando finalmente o tempo melhorou o suficiente para ela poder sair, sentia-se envergonhada por causa da peruca. Um dia, quando estava a jogar um jogo de saltos no parque com Maria Rasputina e alguns jovens oficiais da academia militar Corps de Pages, o cão de Alexei foi atrás dela a ladrar; Tatiana ficou com o pé preso numa corda, caiu e, de repente, a sua peruca estava no chão", recordou Maria. A pobre Tatiana "revelou-nos a nós e aos oficiais envergonhados a parte de cima da cabeça dela, onde algum cabelo começava a nascer". Ficou completamente envergonhada e "tão depressa como caiu, pôs-se de pé, pegou na peruca e correu para trás de umas árvores. Apenas a vimos corar e zangada e ela não voltou a aparecer naquele dia."


Nicolau a ler para Tatiana durante a sua doença em 1913
Durante o inverno de 1913 no Palácio de Alexandre, o diário de Nicolau mostra como ele era um pai dedicado e activo na vida das suas filhas, ocupando um lugar que a sua esposa, que estava sempre doente, não tinha forças para assumir. Independentemente da quantidade de documentos que tivesse em cima da secretária, do número de reuniões com os seus ministros, audiências públicas e revistas militares que ocupavam os seus dias, nesta altura do ano, quando a família se encontrava em Czarskoe Selo, o czar arranjava sempre tempo para estar com os filhos. A História pode condená-lo por ter sido um czar fraco e reaccionário, mas era também, sem sombra de dúvidas, o pai mais exemplar da realeza. Os meses de Janeiro e Fevereiro eram especiais para ele e para as suas filhas, uma vez que era nessa altura que eles passeavam mais juntos e iam ao ballet. Sendo a filha mais velha, Olga (e, quando não estava doente, Tatiana) teve o privilégio de assistir a óperas como Madame Butterfly, Cidade Invisível de Kitezh e Lohengrin de Wagner, um espectáculo que Olga achou particularmente belo e comovente. 



Apesar de tudo, grande parte do tempo que tinham com o pai era passado no parque do Palácio de Alexandre, independentemente do tempo, em caminhadas, a andar de bicicleta, a ajudá-lo a partir o gelo que se formava nos canais, a fazer ski, a deslizar por montes de neve e a brincar com Alexei que, quando estava bem, juntava-se a eles com as suas botas especiais de biqueira de aço. As irmãs adoravam quando tinham o pai só para si; ele caminhava depressa sem nunca se cansar e todas as suas filhas aprenderam a acompanhar o seu ritmo, principalmente Olga e Tatiana que caminhava sempre ao lado dele, uma de cada lado. Maria e Anastásia corriam de um lado para o outro à volta deles, a deslizar no gelo ou a atirar bolas de neve uma à outra. Qualquer pessoa que se cruzasse com o czar e as suas filhas do parque via perfeitamente que ele tinha muito orgulho nas suas meninas. "Ficava contente quando as pessoas as admiravam. Era como se os seus gentis olhos azuis dissessem: 'Vejam só as filhas maravilhosas que eu tenho.'"

Nicolau II com as suas filhas em 1914
Texto retirado do livro "Four Sisters: The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Maria Nikolaevna por Helen Rappaport

Maria com o pai em 1910
A terceira irmã, Maria, era uma criança tímida que, mais tarde, viria a sofrer por estar no meio das suas irmãs mais velhas e dos irmãos mais novos. A sua mãe fez um par com ela e a irmã mais nova, Anastásia, apelidando-as de "o pequeno par", mas, à media que o tempo foi passando, Maria sentia-se por vezes afastada de Anastásia e Alexei - que podem até ser considerados o "pequeno par" mais natural - e que não recebia o amor e afecto que desejava.

Maria em 1910

O seu físico forte fazia com que parecesse bastante deselegante e tinha a reputação de ser desastrada e rude. No entanto, para aqueles que conheciam a família, Maria era de longe a mais bonita com as suas feições rosadas, o seu cabelo castanho volumoso e uma personalidade russa nata que mais nenhuma das irmãs possuía; toda a gente elogiava os seus olhos que brilhavam "como lanternas" e o seu sorriso sincero.

Maria com o irmão, Alexei, e o pai, Nicolau

Maria não era particularmente inteligente, mas tinha muito talento para a pintura e o desenho. Mashka, como as suas irmãs lhe chamavam muitas vezes, era a que menos se deixava afectar pela sua posição. "Apertava a mão a qualquer mordomo ou criado do palácio e trocava beijos com criadas de quarto ou camponesas que conhecia. Se um criado deixasse cair alguma coisa, ela corria logo para a apanhar". 

Maria numa aula de pintura

Uma vez, quando estava a ver um regimento a marchar por baixo da sua janela, no Palácio de Inverno, exclamou: "Oh, como gosto destes soldados tão queridos! Gostava de os beijar a todos!". De todas as irmãs era a mais aberta e sincera e sempre foi muito atenciosa com os pais. Margaretta Eager achava que ela era a filha preferida de Nicolau que se sentia comovido com o seu afecto nato. Em certa ocasião, quando Maria admitiu que tinha roubado um biscoito de um prato à hora do chá, Nicolau ficou aliviado já que "tinha medo das asas que lhe estavam a crescer". Ficou contente por ver que ela "era apenas uma criança humana normal".

Maria, por volta de 1910
Com uma personalidade tão complacente, talvez fosse inevitável que Maria fosse completamente ofuscada pela personalidade dominadora da sua irmã mais nova, Anastásia, já que a grã-duquesa mais nova da família era uma força da natureza cuja presença não deixava ninguém indiferente.

Maria e Anastásia

terça-feira, 27 de março de 2012

As Crianças Imperiais - Anna Vyrubova

Alexandra Feodorovna com os filhos em Czarskoe Selo

O ano de 1912, apesar de estar destinado a acabar com a doença quase fatal do czarevich, começou de forma feliz para a família imperial. O inverno e a primavera foram pacíficos, o imperador andava ocupado com os habituais assuntos do império, a imperatriz, até onde a saúde lhe permitia, supervisionava a educação dos filhos e todos eles andavam ocupados com os seus livros e tutores. Deve dizer-se que nada foi omitido da educação dos filhos de Nicolau II e da imperatriz Alexandra Feodorovna que não os tornasse russos verdadeiros e leais, e os métodos de ensino aplicados foram cosmopolitas. Tinham tutores franceses, suíços e ingleses, mas todos os seus estudos eram controlados por um russo, o culto senhor Petrov, enquanto que certas disciplinas como física e ciência natural lhes eram ensinadas em regime particular numa escola em Czarskoe Selo. A primeira professora das crianças, de quem elas receberam a sua educação básica, foi a senhora Schneider, que tinha a alcunha de “Trina”, uma nativa dos estados bálticos do império. A senhora Schneider começou a servir a família alguns anos antes do casamento do imperador e da imperatriz, tendo sido responsável por ensinar russo à grã-duquesa Isabel Feodorovna. Depois ensinou russo quando a imperatriz chegou ao país e acabou por ficar na corte como leitora da imperatriz. A “Trina” era uma pessoa bastante difícil em vários aspectos, aproveitando-se da sua posição, mas não havia dúvidas de que era importante e dedicava-se de alma e coração à família. Acompanhou-os para a Sibéria e desapareceu lá com eles.

Anastásia, Maria e Alexei com as primas Olga e Isabel da Grécia em 1912


Talvez o instrutor mais valorizado fosse o senhor Pierre Gilliard, cujo livro “Treze Anos na Corte Russa” foi publicado em várias línguas e foi muito bem recebido. O senhor Gilliard, um cavalheiro suíço de muitos talentos, chegou a Czarskoe Selo para se tornar primeiro professor de francês das pequenas grã-duquesas. Depois também se tornou tutor do czarevich. O senhor Gilliard vivia no palácio e tinha a total confiança e carinho de Suas Majestades. O senhor Gibbs, o professor de inglês, também era um dos seus amigos mais chegados. Ambos estes homens acompanharam a família no exílio e permaneceram fiéis e amigos dedicados até serem expulsos à força pelos bolcheviques.

Pierre Gilliard


No seu livro, o senhor Gilliard recordou que nunca conseguiu ensinar as grã-duquesas a falar francês fluentemente. Tal é verdade porque as línguas usadas pela família eram o inglês e o russo e as crianças nunca se interessaram por outras línguas. A “Trina” devia ter-lhes ensinado a falar alemão, mas teve ainda menos êxito nessa língua do que o senhor Gilliard com o francês. O imperador e a imperatriz falavam quase exclusivamente em inglês, assim como o irmão da imperatriz, o grão-duque de Hesse, e a sua família. Entre si, as crianças falavam russo. Apenas o czarevich, graças à companhia constante do senhor Gilliard, conseguiu dominar o francês.

Alexei com Pierra Gilliard e Mr. Gibbs


Cada pormenor da educação das crianças foi supervisionado pela imperatriz que muitas vezes se sentava com eles na sala-de-aula durante horas. Foi ela quem lhes ensinou a coser e a bordar e a sua melhor aluna era a Tatiana, que tinha um talento extraordinário para todo o tipo de trabalhos manuais. Não só fazia blusas e outras peças de roupa, bordados e croché, como também arranjava o longo cabelo da mãe muitas vezes e ajudava-a a vestir-se tão bem como uma criada profissional. Não que a imperatriz pedisse tantos pormenores na sua roupa como a típica mulher na sua posição. Possuía aquele tipo de modéstia vitoriana que proibia qualquer intromissão à privacidade do seu quarto-de-vestir. Tudo o que as criadas tinham permissão para fazer era arranjar-lhe o cabelo, apertar-lhe as botas, vestir-lhe o vestido e colocar-lhe as jóias. A imperatriz tinha muito gosto na forma como se vestia e escolhia sempre as suas jóias para complementar e não apenas como ornamento do seu vestido. “Só quero rubis hoje,” dizia ela, ou então “pérolas e safiras para este vestido.”

Alexandra


A imperatriz e os seus filhos foram representados como se estivessem sempre rodeados de criados alemães, mas essa acusação é absolutamente falsa. A responsável pelo governo da casa era a senhora Gheringer, uma senhora russa que vinha todos os dias ao palácio, encomendava vestidos, fazia todas as compras necessárias, pagava as contas e executava todos os serviços pedidos pela imperatriz. A criada principal da imperatriz era Madeleine Zanotti, de origem inglesa e italiana que tinha vivido em Inglaterra a vida inteira antes de se mudar para Czarskoe Selo. Era uma mulher de meia-idade, muito inteligente e, como era costume das pessoas na sua posição, tinha tendência a ser tirânica. Madeleine era encarregada de todos os vestidos e jóias da imperatriz e, como já disse anteriormente, criticava muitas vezes os hábitos indolentes da imperatriz em relação, por exemplo, a troca de correspondência entre outras coisas. Uma segunda criada era Tutelberg, ou “Toodles”, uma menina bastante lenta e calada do Báltico. Ela e Madeleine eram grandes inimigas, mas concordavam numa coisa: nenhuma das duas aceitava usar barretes e aventais. A imperatriz aceitou esta exigência de boa vontade e permitiu que as criadas usassem apenas vestidos negros com fitas na cabeça. Havia criadas menos importantes, todas elas russas, e completamente dedicadas à família imperial. Estas raparigas, que usavam os barretes e aventais brancos protocolados, cuidavam dos quartos da imperatriz e das crianças. Quando a revolução rebentou, todas as criadas permaneceram fiéis à família e, uma delas, como irei contar depois, levou a cabo um serviço muito perigoso quando levou cartas escondidas à família na Sibéria. Uma das raparigas, Anna Demidova, foi morta com a família em 1918.

Anna Demidovna


O imperador tinha três criados, um dos quais, Shalferov, que tinha servido o czar Alexandre III, se tornou espião durante a Revolução. Outro, o velho Raziesh, que também tinha sido criado de Alexandre III, morreu ao serviço de Nicolau II, e foi substituído por Chemodurov, um homem honesto e muito leal. O terceiro criado chamava-se Katov. Tal como o nome comprova, todos eles eram russos, assim como os três homens que serviam a imperatriz, Leo e Kondratiev, ambos mortos durante os primeiros dias da Revolução, e Volkov, que acompanhou a família até à Sibéria com a permissão do Governo Provisório.

Nicolau II


As amas das crianças eram russas e a principal chamava-se Marie Vechniakova. Outras de quem me lembro bem eram a Alexandra, a quem chamavam “Shoura” e era uma das favoritas das meninas, Anna e Lisa, raparigas gentis e fiéis que não falavam mais nada além de russo. Havia, claro, centenas de criados e, que eu saiba, a maioria, senão todos, eram russos. O cozinheiro, Cubat, era francês e muito bom naquilo que fazia. Às vezes, quando um prato mais elaborado era preparado, Cubat estava acostumado a apresenta-lo, deixando-se ficar muito hirto na entrada, vestido em linho imaculadamente branco, até que o prato fosse servido. Cubat ficou muito rico ao serviço do czar e actualmente vive uma vida feliz e abastada na sua adorada França. Creio que foi muito leal até ao fim, algo que é mais do que se pode dizer da maioria dos criados. Os filhos deles foram educados às custas do imperador e a maioria, em vez de escolher profissões uteis, preferiu ir para a universidade, onde quase se tornaram revolucionários. Na opinião do meu pai, isto aconteceu devido ao facto de as universidades e liceus russos oferecerem pouco treino prático. Quando se apercebeu disto, a imperatriz abriu uma escola técnica em São Petersburgo para ambos os sexos que recebia estudantes de todo o Império. Nesta escola, os estudantes eram treinados para ensinar vários ofícios e, além desta academia normal, a imperatriz também abriu muitas escolas públicas onde rapazes e raparigas aprendiam as belas artes camponesas de bordar, tinturaria, entalhe e pintura. Estou a dar estes pormenores porque acho que são importantes para desmentir os rumores criados por escritores sensacionalistas que nunca poderiam ter sabido nada da vida privada da família imperial russa, mas que mesmo assim prejudicaram a campanha pela verdade.

Olga e Tatiana


Nenhum destes escritores sensacionalistas sabia ou tentou descobrir como o regime seguido pelas crianças era simples, para não dizer rigoroso. Todas elas, até o delicado czarevich, dormiam em camas-de-campanha armadas sem almofadas e com o menor número possível de cobertores. Tomavam um banho de água fria todas as manhãs e apenas tinham direito a água quente à noite. Devido a esta vida simples, a personalidade das crianças era modesta e natural sem um único vestígio de grandiosidade. Apesar de em 1912 as quatro meninas já estarem quase a chegar à idade adulta (a Olga já tinha dezoito anos e a Tatiana quase dezasseis), os seus pais continuavam a vê-las como crianças. As duas meninas mais velhas eram chamadas “as grandes” e recebiam muitos privilégios de adultos como, por exemplo, a possibilidade de ir a concertos e ao teatro com o imperador. As suas grã-duquesas mais novas e o czarevich eram “os pequeninos” e ainda não tinham saído do quarto-das-crianças.

Maria, Tariana, Olga e Anastásia


Nas sombras do mistério que assombra o destino destas crianças inocentes, é com grande emoção que as recordo, tal como elas pareciam: cheias de vida e de alegria, naqueles dias distantes, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente próximos, antes da Grande Guerra e da queda da Rússia imperial. Das quatro meninas, a Olga e a Maria tinham o aspecto mais russo, mostrando bem as suas origens Romanov. A Olga era, talvez, a mais inteligente de todas, tinha uma mente que compreendia tudo muito depressa e absorvia muito bem tudo o que aprendia quase sem se esforçar ou estudar. As suas características principais, devo dizer, eram uma grande força de vontade e um hábito muito directo de pensamento e acção. Embora estas qualidades sejam admiráveis numa mulher, numa criança podem ser difíceis e a Olga, quando era mais pequena, mostrou-se sempre muito teimosa e até desobediente. Tinham um temperamento quente que aprendeu a controlar cedo e, caso tivesse tido a oportunidade de viver uma vida normal, creio que se teria tornado uma mulher influente e distinta. Era muito bonita, com olhos azuis brilhantes e um rosto encantador que se parecia muito com o pai na delicadeza dos traços, principalmente o seu nariz delicado e ligeiramente pontiagudo.



Olga Nikolaevna


A Maria e a Anastásia também tinham cabelo loiro e eram meninas muito atraentes. A Maria tinha uns olhos esplendidos e umas bochechas rosadas. Tinha tendência a engordar e tinha uns lábios bastante grossos que prejudicavam um pouco a sua beleza. A Maria tinha uma personalidade naturalmente doce e muito gentil. As três tinham um pouco de maria-rapaz. Tinham herdado alguma da brusquidão dos seus antepassados Romanov que se revelava principalmente na sua inclinação para fazerem asneiras. A Anastásia, que era uma criança perspicaz e esperta, era muito dada a brincadeiras, algumas delas demasiado práticas para divertirem outras pessoas. Lembro-me de uma vez que a família estava na sua casa na Polónia durante o inverno e as crianças estavam a divertir-se com uma luta de bolas de neve. O diabrete que às vezes parecia possuir a Anastásia, levou-a a esconder uma pedra dentro de uma bola de neve que atirou directamente contra a cabeça da sua adorada irmã Tatiana. O míssil atingiu a pobre rapariga em cheio na cara com tal força que ela caiu ao chão e perdeu os sentidos. A Anastásia arrependeu-se e ficou triste durante vários dias e este incidente curou-a para sempre de voltar a repetir este tipo de brincadeiras.

Maria e Anastásia


A Tatiana era uma reencarnação quase perfeita da mãe. Mais alta e magra do que as irmãs, tinha traços suaves e refinados e os modos gentis e refinados dos seus antepassados ingleses. Com uma disposição amável e complacente, mostrava tal protecção em relação às irmãs e ao irmão que eles, por brincadeira, a chamavam “a governanta”. De todas, a grã-duquesa Tatiana era a mais popular com as pessoas e suspeito que era a preferida dos pais. Era completamente diferente dos outros, até no aspecto físico, tendo cabelo castanho e olhos cinzento-escuro que, à noite, pareciam negros. De todas as raparigas, a Tatiana era a mais sociável. Gostava da sociedade e desesperava quase pateticamente à procura de amigos. Mas na posição em que estas meninas se encontravam, era difícil encontrar amigos. A imperatriz temia ver as suas filhas na companhia das jovens demasiado sofisticadas da alta sociedade cujas mentes até na sala de aula eram alimentadas pelos rumores maliciosos de uma sociedade decadente. A imperatriz até desencorajava a relação das filhas com os primos e parentes chegados, muitos dos quais tinham começado uma vida depravada muito cedo.

Tatiana com o pai


Não daria a impressão de que estas jovens filhas do imperador e da imperatriz eram forçadas a viver vidas enfadonhas e paradas. Tinham permissão para terem um ou outro oficial preferido com quem podiam dançar, jogar ténis, passear ou andar a cavalo. Estes romances inocentes eram na realidade muito divertidos aos olhos de Suas Majestades que gostavam de gracejar com as filhas sobre qualquer belo oficial que parecia agradar-lhes. A grã-duquesa Olga Alexandrovna, irmã do imperador, simpatizava com o gosto pelo divertimento das sobrinhas e organizava festas e jogos de ténis para as grã-duquesas com frequência sendo os convidados, claro, escolhidos por ela. Tivemos algumas festas deste género em minha casa. Quanto à forma de vestir, um assunto tão importante para as jovens bonitas, as grã-duquesas podiam escolher o que quisessem. A senhora Brisac, uma costureira francesa de renome, fazia os vestidos para a família imperial e, através dela, chegavam ao palácio as últimas modas de Paris. Contudo, as meninas costumavam inclinar-se mais para o estilo simples inglês, principalmente quando tinham eventos públicos. No verão os vestidos eram quase todos brancos. Eram demasiado jovens para usarem jóias, excepto em grandes ocasiões. Cada uma delas recebeu uma pulseira de ouro no seu décimo-segundo aniversário que usavam sempre “para dar sorte”. Já tinha falado anteriormente do costume de oferecer a cada grã-duquesa um colar de pérolas e diamantes quando elas atingiam a maioridade, mas elas apenas o usavam em bailes muito formais.

Maria, Tatiana, Alexei, Anastásia e Olga com oficiais