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sábado, 16 de janeiro de 2016

Memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich - A Última Visita ao Palácio de Alexandre

O grão-duque Alexandre Mikhailovich da Rússia (1866-1933)
O ano novo de 1917 começou com grandes mudanças no executivo e ainda mais tristeza. O príncipe Golitzin, recentemente nomeado primeiro-ministro, era uma caricatura da palavra francesa “ramolli”. Não compreendida nada, não sabia nada e só o Nicky e a Alix poderiam explicar porque se lembraram de nomear aquele antigo cortesão sem qualquer experiência administrativa. Juntamente com o ministro do interior, Protopopoff, um cobarde histérico e antigo liberar que se transformou em conservador ortodoxo graças à magia de Rasputine, os dois eram um par extraordinário que assentava que nem uma luva no acto final da Morte da Nação.

O grão-duque Alexandre com a sua esposa, a grã-duquesa Xenia
Em inícios de Fevereiro, recebi ordens da Stavka para estar presente numa conferência em São Petersburgo com os representantes dos governos aliados para discutir as munições que iriamos precisar para os doze meses seguintes. Decidi aproveitar esta oportunidade para me encontrar com a Alix. Em Dezembro, durante a minha última visita à cidade, não a quis incomodar [esta visita do grão-duque realizou-se pouco depois do assassinato de Rasputine], mas, desta vez, sentia-me zangado o suficiente para lhe dizer aquilo que pensava. A esta altura já todos esperávamos que rebentasse uma revolta na capital. Alguns “especialistas” diziam que essa revolta seria iniciada dentro do palácio, o que significava que o czar seria obrigado a abdicar a favor do seu filho Alexei e os poderes da regência seriam entregues a um conselho de pessoas que “compreendiam o povo russo”. Este projecto deixou-me estupefacto. Nunca tinha conhecido ninguém que compreendesse o povo russo. A ideia parecia-me ter origem estrangeira e acabaria por descobrir que tinha surgido da embaixada britânica. Um jovem rico e bem-parecido visitou-me em Kiev pouco tempo depois e falou-me por alto deste plano extraordinário, inventado pelos britânicos. Disse-lhe que tinha escolhido o homem errado para se confessar, uma vez que jamais um grão-duque poderia quebrar o juramento que tinha feito ao imperador. Foi a estupidez dele que o livrou de ser castigado de forma mais severa. Depois da revolução, tornou-se um criado muito estimado do senhor Kerensky e ocupou os cargos de ministro das finanças e ministro dos assuntos estrangeiros.

Alexandra, Xenia e Alexandre por volta de 1912
Assim, cheguei a São Petersburgo, felizmente pela última vez na vida. No dia que tinha sido marcado para a minha conversa com a Alix, chegou uma mensagem de Czarskoe Selo a informar-me de que ela não se sentia bem e que não me podia receber. Escrevi-lhe uma carta pouco simpática onde lhe implorava que me deixasse falar com ela, uma vez que só ia estar na capital alguns dias. Enquanto esperava pela resposta dela, falei com várias pessoas. O meu cunhado, Misha [o grão-duque Miguel Alexandrovich] estava na cidade e sugeriu que devíamos falar com o irmão dele [Nicolau II], um de cada vez, assim que eu conseguisse falar com a Alix. O presidente da Duma, o senhor Rodzianko, um homem gordo e insípido, visitou-me e informou-me de uma série de rumores, teorias e planos anti-dinásticos. A arrogância dele não tinha limites. Juntamente com as suas deficiências mentais, parecia o bobo da corte das comédias medievais. Um mês depois, deu a Cruz de São Jorge a um soldado do Regimento Volinsky que tinha sido o primeiro homem a matar o seu comandante em 1917. Nove meses depois, Rodzianko foi obrigado a fugir de São Petersburgo quando passou a ser perseguido pelos bolcheviques.

O grão-duque Alexandre (esq.) com soldados durante a Primeira Guerra Mundial
Depois recebi um convite da Alix para um lanche em Czarskoe Selo. Ah, aqueles lanches! Tenho a sensação que desperdicei quarenta anos da minha vida naqueles lanches em Czarskoe Selo.

A Alix estava na cama e prometeu receber-me assim que terminássemos a refeição. Na mesa havia oito pessoas: o Nicky, eu, o herdeiro, as quatro grã-duquesas imperais e o ajudante-de-campo Linevich. As meninas estavam vestidas com os seus uniformes da Cruz Vermelha e falaram do trabalho que estavam a fazer no seu hospital. Já não as via desde a primeira semana da guerra e achei que estavam crescidas e muito bonitas. A mais velha, Olga, tinha opiniões muito parecidas com a sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna. A segunda mais velha, Tatiana, era a mais bonita da família. Estavam todas bem-dispostas Não sabiam nada sobre os eventos políticos que estavam a acontecer. Brincaram com o irmão e elogiaram os feitos da sua tia Olga. Foi a última vez que me sentei na mesa deles em Czarskoe Selo e, por isso, foi também a última vez que vi os filhos do czar.

Grão-duque Alexandre Mikhailovich (centro) com o czar Nicolau II e as grã-duquesas Olga Alexandrovna, Xenia Alexandrovna, Tatiana e Olga
Tomámos o café no salão lilás enquanto o Nicly foi até à sala ao lado para avisar a Alix que eu já estava pronto para a ver.

Entrei com cuidado. A Alix estava deitada na cama, vestida com uma camisa de dormir beje e com uma expressão de preocupação no seu belo rosto que parecia anunciar problemas para este intruso indesejado. Estava prestes a ser atacado, o que me deixou triste, uma vez que não vinha como inimigo, mas sim para ajudar. Também não gostei de ver o Nicky sentado ao lado dela na cama, uma vez que, na minha carta, tinha pedido especificamente para falar com ela em privado. Seria embaraçoso avisá-la que estava a arrastar o marido para o abismo com ele presente.

Alexandra Feodorovna
Beijei-lhe a mão e ela tocou ao de leve na minha bochecha com os seus lábios: a saudação mais fria que ela alguma vez me deu desde que nos conhecemos em 1893. Peguei numa cadeira e coloquei-a perto da cama, em frente a uma parede coberta de ícones iluminados por dois círios.

Comecei a apontar para os ícones e a dizer que gostava de falar com ela tão abertamente como se me estivesse a confessar ao meu padre. Dei-lhe uma ideia geral da situação política, hesitei em dizer-lhe que a propaganda revolucionária já tinha penetrado por toda a população e que os liberais e caluniosos estavam a acreditar nela.

Ela interrompeu-me zangada:

Isso não é verdade. A nação continua a ser-lhe leal”, disse, virando-se para o Nicky. “Só a Duma traiçoeira e a sociedade de São Petersburgo é que estão contra ele.

Alexandra e Nicolau em 1917
Admiti que a afirmação dela estava, em parte, correcta.

Alix, não há nada mais perigoso do que uma meia-verdade”, disse-lhe, olhando-a directamente nos olhos. “A nação é leal ao seu czar, mas a nação também está indignada com a influência que aquele homem, o Rasputine, exerceu. Ninguém sabe melhor do que eu o amor e devoção que tens pelo Nickly e, no entanto, tenho de confessar que a tua interferência nos assuntos de estado está a prejudicar tanto o prestígio do Nicky como a concepção que o povo tem do seu czar. Sempre fui um dos teus amigos mais fiéis, Alix, durante vinte-e-quatro anos. Continuo a sê-lo e, como teu amigo, tenho de te avisar que todas as classes estão contra as tuas políticas. Tens uma bela família, porque não te dedicas a assuntos que tragam paz e harmonia? Por favor, Alix, deixa os assuntos de estado para o teu marido.

Ela corou e olhou para o Nicky. Ele não disse nada e continuou a fumar. É triste que, quando falo do comportamento do último czar em momentos de crise, tenha de repetir sempre a mesma frase: “não disse nada e continuou a fumar.” Mas o que posso fazer se, qualquer outra frase não corresponde à verdade?

Nicolau II por volta de 1915
Continuei. Expliquei que, por muito que fosse contra as reformas parlamentares na Rússia, acreditava que conceder um governo aceitável à Duma iria retirar responsabilidades ao Nicky e tornar a tarefa dele mais fácil.

Por favor, Alix, não deixes que a tua sede de vingança supere o teu bom senso. Se houvesse uma mudança radical nas nossas políticas, poderíamos desviar a raiva da população. Não deixes que essa raiva expluda.

A Alix escarniou-me. “Esta conversa é ridícula. O Nicky é um autocrata. Como pode partilhar os seus direitos divinos com um parlamento?

Alexandre Mikhailovich com a sua esposa, Xenia
Estás muito enganada, Alix. O teu marido deixou de ser autocrata no dia 17 de Outubro de 1905. Só nesse dia é que ele podia ter pensado nos direitos divinos dele. Agora é tarde demais. Talvez daqui a dois meses já não reste nada deste nosso país que nos faça lembrar que alguma vez existiram autocratas no trono dos nossos antepassados.”

Ela deu-me uma resposta incoerente e levantou a voz, o que me levou a levantar também a minha. Nessa altura, decidi mudar o tom da conversa.

Lembra-te, Alix, que estive calado durante trinta meses!” Gritei enfurecido. “Durante trinta meses, nunca te disse uma palavra sobre os acontecimentos escandalosos do governo, do teu governo! Estou a ver que estás disposta a morrer e que o teu marido é da mesma opinião, mas então e nós? Temos de sofrer todos por causa da tua teimosia cega? Não, Alix, não tens o direito de arrastar os teus parentes contigo para o precipício! Estás a ser profundamente egoísta!

Alexandra Feodorovna
Recuso-me a continuar com esta discussão," disse ela, friamente. “Estás a exagerar o perigo. Um dia destes, quando não estiveres tão zangado, vais admitir que eu é que tinha razão.”

Levantei-me, beijei-lhe a mão, ela não me cumprimentou, e fui-me embora. Nunca mais a voltei a ver.

Quando passei pelo salão lilás, vi o ajudante-de-campo do czar, o Linevich, a falar com a Olga e a Tatiana. A presença dele, mesmo ao lado do quarto da czarina, surpreendeu-me. A Madame Vyrobovna, a principal confidente da Alix durante os últimos anos do regime, e uma grande admiradora do Rasputine, diz nas suas memórias que “a czarina tinha medo que o grão-duque Alexandre perdesse a compostura e fizesse algum disparate.” Se isso for verdade, então a Alix não tinha mesmo noção do que se passava, o que pode justificar a sua teimosia.

Alexandra, Nicolau e o grão-duque Miguel Alexandrovich
No dia seguinte, o Misha e eu falamos com o czar, o que foi uma perda de tempo tanto para ele como para nós. Eu praticamente não consegui falar. Os nervos e as emoções não me deixaram. “Obrigado, Sandro, pela carta que me enviaste de Kiev.” Foi a única referência que fez às várias páginas que lhe escrevi com conselhos.

Alexandre Mikhailovich
Texto retirado do livro de memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich "Once a Grand Duke".

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

As paixões de Olga e Tatiana

Olga, Anastásia, Maria e Tatiana com dois soldados imperiais
O dia 23 de Fevereiro de 1913 foi um dia muito especial para a grã-duquesa Olga Nikolaevna de dezoito anos quando, acompanhada pelo pai, pela mãe e pela sua tia Olga, participou no seu primeiro grande baile público em São Petersburgo, na Assembleia dos Nobres. O czar e a czarina já não estavam presentes num baile desde 1903 e Alexandra estava determinada a participar pela sua filha apesar de ter passado grande parte do dia de cama. Havia planos para Tatiana, a irmã mais nova de Olga, também estar presente, mas estava doente e de cama no Palácio de Inverno. Dois dias depois do baile, os médicos viriam a confirmar que a segunda filha do czar sofria de febre tifóide.

Olga e Tatiana em 1913
Olga estava determinada a não deixar esses contratempos estragar-lhe a noite. Estava linda, "vestida com um vestido cor-de-rosa claro simples de chiffon". Tal como tinha acontecido no baile para comemorar o seu décimo-sexto aniversário em Livadia, Olga "dançou todas as danças e divertiu-se de forma simples e completa como qualquer jovem no seu primeiro baile". O relato de Olga foi bastante mais prosaico: "Dancei muito, foi muito divertido. Estavam lá muitas pessoas, foi muito bonito". A grã-duquesa divertiu-se a dançar a quadrilha e a mazurka com muitos dos seus oficiais preferidos e ficou muito contente com a presença do seu querido amigo Nikolay Sablin, um oficial do Shtandart. Meriel Buchanan, filha do embaixador inglês em São Petersburgo, ficou cativada com a grã-duquesa mais velha nessa noite, "vestida com uma simplicidade clássica" e o seu colar era um simples "colar de pérolas de uma única fila", mas, mesmo assim, era completamente impossível resistir ao seu "nariz perfeito". Olga "tinha charme, uma frescura e um encanto exuberante que a tornavam irresistível". Meriel Buchanan lembra-se de a ver "hirta, nos degraus que levavam da galeria até ao salão de baile, a tentar resolver alegremente uma disputa entre três grão-duques que protestavam todos pelo direito de ter a primeira dança". No entanto, a imagem mereceu alguma reflexão: "ao vê-la, pensei no que lhe reservaria o futuro e qual dos muitos pretendentes que eram mencionados ocasionalmente seria o escolhido para se casar com ela."

Olga em 1913
A questão do futuro casamento de Olga tinha, inevitavelmente, ganho importância durante o ano de comemorações do Tricentenário da dinastia Romanov. Até então, as irmãs imperiais tinham sido um assunto tabu para a imprensa russa, mas depois de serem apresentadas oficialmente em público pela primeira vez, houve maior liberdade em falar sobre elas. A discussão do papel de Olga como filha mais velha tinha surgido nos bastidores uma vez mais depois da crise de sucessão que pairou no ar no Inverno de 1912-13. Quando Alexei esteve às portas da morte em Spala, o irmão mais novo de Nicolau, o grão-duque Miguel, tinha fugido para Viena para se casar em segredo com a sua amante, Natalya Wulfert, uma plebeia divorciada. Sabendo que, se Alexei morresse, e ele se tornasse herdeiro da coroa, Nicolau nunca permitiria este casamento morganático, Miguel tinha esperado que, se se casasse sem o seu irmão saber, o seu acto seria aceite como um 'fait accompli', mas Nicolau ficou furioso. A sua resposta não deixou sombra para dúvidas: exigiu que Miguel renunciasse aos seus direitos de sucessão ou que se divorciasse imediatamente de Natalya para impedir um escândalo. Quando Miguel se recusou a fazê-lo, Nicolau congelou os bens do irmão e expulsou-o da Rússia. Em finais de 1912, foi publicado um manifesto nos jornais russos no qual Miguel era retirado do conselho de regência e os seus comandos e honras imperiais eram retirados. Segundo as leis de sucessão, era o filho mais velho do grão-duque Vladimir Alexandrovich, o grão-duque Kirill Vladimirovich, que se tornaria regente caso Nicolau morresse antes de Alexei cumprir vinte-e-um anos de idade. No entanto, tanto ele como os seus dois irmãos, que levavam todos vidas de moral questionável, eram muito pouco populares na Rússia. Por isso, em vez de seguir o procedimento normal, Nicolau contornou as leis existentes e ordenou ao conde Freedericksz que redigisse um manifesto no qual nomeava Olga como sua regente e Alexandra a sua guardiã enquanto Alexei não chegasse à maioridade. Foi publicado em inícios de 1913, sem passar pela Duma, como era obrigatório. O documento, como seria de esperar, enfureceu a grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior.

Olga e Alexei                  

Da sua posição privilegiada na Embaixada Britânica, Meriel Buchanan percebeu que a família imperial estava a passar por um período complicado naquele ano:

"O casamento do grão-duque Miguel causou grande agitação e dizem que o querido imperador está com o coração partido. Ninguém sabe ao certo o que se passa com o menino e,  se acontecer o pior, a questão da sucessão irá tornar-se séria.  O Kyrill, claro, é o que está mais próximo, mas muitos duvidam que o clã Vladimir terá permissão para suceder, uma vez que a mãe deles não era ortodoxa quando eles nasceram. Se assim for, o Dmitri será o próximo e teria de se casar com uma das filhas do imperador."
Os Vladimirovich: (da esq. para a dir.) o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, o grão-duque Boris, a grã-duquesa Helena, o grão-duque André, a grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior e o grão-duque Kyrill.

Corriam claramente rumores sobre uma união entre Olga e Dmitri. Meriel, que tinha um gosto especial por boatos, achava essa ideia um quanto divertida. Ela própria tinha passado bastante tempo com Dmitri na sociedade de São Petersburgo, na qual toda a gente andava a aprender as danças da moda mais recentes. "Tive uma lição muito exigente com o Dmitri um dia destes," escreveu ela a uma prima. "Seria muito 'chic' se um dia o Dmitri se tornasse imperador de todas as Rússias para eu poder dizer que ele me ensinou a dançar o Bunnyhug, não achas?". No entanto, todas as conversas sobre a possível união desapareceram pouco tempo depois quando Dmitri pediu outra prima sua em casamento, a princesa Irina Alexandrovna, a única filha da grã-duquesa Xenia Alexandrovna. No entanto, o seu pedido acabaria por ser rejeitado e Irina preferiu aceitar a proposta do melhor amigo dele, o príncipe Felix Yussupov. À medida que o ano foi avançando, Nicolau e Dmitri começaram a afastar-se gradualmente, mas o grão-duque manteve o seu posto de ajudante-de-campo do imperador.


Dmitri Pavlovich com a sua prima e apaixonada, a princesa Irina Alexandrovna

Quanto a Olga, os seus pensamentos românticos de adolescente estavam na altura firmemente direccionados para pessoas que ocupavam lugares muito mais inferiores na sociedade, mais especificamente para um oficial chamado Alexander Konstantinovich Shvedov, capitão da escolta do czar. No seu diário, a grã-duquesa referia-se a ele pelo acrónimo AKSH e a presença dele nos chás da sua tia Olga ao Domingo era a altura mais importante da sua parca vida social durante grande parte da primeira metade do ano. Estas ocasiões eram pouco mais do que pequenas reuniões divertidas com um grupo de oficiais favoritos escolhidos a dedo. O pequeno grupo dançava ao som do fonógrafo e jogava jogos infantis como o gato-e-o-rato, a sardinha, as escondidas e à apanhada. As quatro irmãs eram vigiadas muito levianamente pela sua tia, mas os jogos acabavam quase sempre em muitos risos e brincadeiras animadas que colocavam as quatro irmãs em contacto físico próximo com homens com quem, noutras circunstâncias, elas nunca teriam permissão de manter tal grau de intimidade.


Olga com um dos marinheiros do Standard
Era um tipo de brincadeira muito estranho e perverso, mas nem a mãe nem a tia delas via nenhum mal nele. Lá estavam as grã-duquesas imperiais da Rússia, prestes a entrar na idade adulta, a comportar-se como crianças, num tipo de comportamento que fez com que a grã-duquesa Olga se apaixonasse por um jovem que, em quaisquer outras circunstâncias, estaria fora dos seus limites. “Sentei-me com o AKSH o tempo todo e apaixonei-me profundamente por ele”, escreveu ela no seu diário a 10 de Fevereiro. “Deus tenha piedade de nós. Estive com ele o dia todo, na liturgia e à noite. Foi muito bom e divertido. Ele é tão querido.” Durante várias semanas depois desta confissão, o novo padrão da sua vida, além das suas lições, passeios com o papá, fazer companhia à mamã e ouvir o Alexei a rezar à hora de dormir, eram os dias em que, ocasionalmente, podia ir visitar a tia Olga em São Petersburgo para jogar jogos infantis e admirar AKSH, o seu belo cossaco de bigode no seu uniforme cherkeska.

Maria, Anastásia e Olga com alguns soldados numa das festas de Domingo organizadas pela sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna
Tatiana ficou triste por ter de perder grande parte das comemorações do Tricentenário em São Petersburgo, já para não falar das visitas à tia Olga, nas quais ela tinha também os seus oficiais favoritos. Devido à sua doença (que, pouco tempo depois, também transmitiu ao Dr. Botkin e a Trina Schneider), a família foi obrigada a deixar o Palácio de Inverno a 26 de Fevereiro e regressar a Czarskoe Selo; mas antes de o fazer, Tatiana pediu à sua enfermeira, Shura Tegleva para telefonar a Nikolay Rodionov para lhe dizer que ia adorar se alguns dos oficiais passassem pela sua janela no Palácio de Inverno, para que ela os pudesse ver. Rodionov e Nikolay Vasilevich Sablin tiveram todo o prazer em fazê-lo e recordou o resto da vida o momento em que passou pela janela da pobre jovem doente que lhes fez uma vénia com a cabeça.

Tatiana em 1913, já sem cabelo devido à doença que sofreu nesse ano
Quando regressou ao Palácio de Alexandre, Tatiana ficou imediatamente em quarentena das irmãs e esteve muito doente durante mais de um mês. A 5 de Março, o seu lindo cabelo castanho teve de ser cortado e Tatiana teve de usar uma peruca até Dezembro, altura em que o cabelo voltou ao tamanho original. Presa em casa com a sua mãe, uma a tomar conta da outra, só em Abril é que Tatiana se aventurou a sair para a varanda de Alexandra, mas ainda estava a nevar e demasiado frio para sair de casa durante muito tempo. Quando finalmente o tempo melhorou o suficiente para ela poder sair, sentia-se envergonhada por causa da peruca. Um dia, quando estava a jogar um jogo de saltos no parque com Maria Rasputina e alguns jovens oficiais da academia militar Corps de Pages, o cão de Alexei foi atrás dela a ladrar; Tatiana ficou com o pé preso numa corda, caiu e, de repente, a sua peruca estava no chão", recordou Maria. A pobre Tatiana "revelou-nos a nós e aos oficiais envergonhados a parte de cima da cabeça dela, onde algum cabelo começava a nascer". Ficou completamente envergonhada e "tão depressa como caiu, pôs-se de pé, pegou na peruca e correu para trás de umas árvores. Apenas a vimos corar e zangada e ela não voltou a aparecer naquele dia."


Nicolau a ler para Tatiana durante a sua doença em 1913
Durante o inverno de 1913 no Palácio de Alexandre, o diário de Nicolau mostra como ele era um pai dedicado e activo na vida das suas filhas, ocupando um lugar que a sua esposa, que estava sempre doente, não tinha forças para assumir. Independentemente da quantidade de documentos que tivesse em cima da secretária, do número de reuniões com os seus ministros, audiências públicas e revistas militares que ocupavam os seus dias, nesta altura do ano, quando a família se encontrava em Czarskoe Selo, o czar arranjava sempre tempo para estar com os filhos. A História pode condená-lo por ter sido um czar fraco e reaccionário, mas era também, sem sombra de dúvidas, o pai mais exemplar da realeza. Os meses de Janeiro e Fevereiro eram especiais para ele e para as suas filhas, uma vez que era nessa altura que eles passeavam mais juntos e iam ao ballet. Sendo a filha mais velha, Olga (e, quando não estava doente, Tatiana) teve o privilégio de assistir a óperas como Madame Butterfly, Cidade Invisível de Kitezh e Lohengrin de Wagner, um espectáculo que Olga achou particularmente belo e comovente. 



Apesar de tudo, grande parte do tempo que tinham com o pai era passado no parque do Palácio de Alexandre, independentemente do tempo, em caminhadas, a andar de bicicleta, a ajudá-lo a partir o gelo que se formava nos canais, a fazer ski, a deslizar por montes de neve e a brincar com Alexei que, quando estava bem, juntava-se a eles com as suas botas especiais de biqueira de aço. As irmãs adoravam quando tinham o pai só para si; ele caminhava depressa sem nunca se cansar e todas as suas filhas aprenderam a acompanhar o seu ritmo, principalmente Olga e Tatiana que caminhava sempre ao lado dele, uma de cada lado. Maria e Anastásia corriam de um lado para o outro à volta deles, a deslizar no gelo ou a atirar bolas de neve uma à outra. Qualquer pessoa que se cruzasse com o czar e as suas filhas do parque via perfeitamente que ele tinha muito orgulho nas suas meninas. "Ficava contente quando as pessoas as admiravam. Era como se os seus gentis olhos azuis dissessem: 'Vejam só as filhas maravilhosas que eu tenho.'"

Nicolau II com as suas filhas em 1914
Texto retirado do livro "Four Sisters: The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Tatiana Nikolaevna por Helen Rappaport

Tatiana em 1905
Aos oito anos de idade, Tatiana tinha pele de marfim, era mais delgada, tinha cabelo mais negro e olhos mais acinzentados do que o tom azul marinho das irmãs. Tinha uma beleza cativante, "era uma cópia viva da sua linda mãe", com um olhar naturalmente imperial, realçado pela sua excelente estrutura óssea e olhos 'orientais'. À primeira vista, parecia ser uma menina muito confiante, mas, na verdade, era muito reservada e cautelosa com as suas emoções, tal como a mãe. 

Tatiana, por volta de 1910

Nunca se deixou dominar pelo seu temperamento, como Olga e, ao contrário da irmã mais velha - que teve uma relação volátil com a mãe à medida que foi crescendo - não havia dúvidas de que Tatiana lhe era completamente dedicada; era sempre em ela que Alexandra confiava e se abria. Era sempre a mais educada e atenciosa à mesa e acabaria por se tornar numa organizadora nata com uma mentalidade metódica e uma conduta humilde que as suas irmãs nunca conseguiram igualar. Não é de admirar que as suas irmãs a apelidassem de "a governanta". 

Tatiana com a mãe

Enquanto Olga tinha um ouvido para a música e tocava muito bem piano, Tatiana tinha grande talento para trabalhos com agulhas, como a mãe. Era também muito altruísta e sensível ao que os outros faziam por ela. Quando descobriu que a sua ama e Margaretta Eagar eram pagas pelos seus serviços porque não tinham  dinheiro próprio e precisavam de ter uma profissão para o ganhar, Tatiana dirigiu-se até à cama de Eager na manhã seguinte, enfiou-se debaixo dos cobertores e abraçou-a, dizendo: "Seja como for, não é paga para fazer isto".

Tatiana, a bordo do Standard com um oficial

Texto retirado do livro "Four Sisters - The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Olga Nikolaevna por Helen Rappaport

Olga Nikolaevna, por volta de 1905

Em 1905 e quase a completar dez anos de idade, Olga estava já ciente da sua posição como filha mais velha e adorava dar saudações militares aos soldados que estavam em guarda enquanto ela passava. Até ao nascimento de Alexei, algumas pessoas tinham o hábito de a chamar a sua "pequena imperatriz" e Alexandra acentuou esse facto, pedindo às suas damas-de-companhia que beijassem a mão de Olga em vez de expressarem o seu afecto de formas mais "efusivas". Apesar de, por vezes, ser rude com as irmãs, Olga já mostrava um lado mais sério. Possuía um certo carácter honesto e íntegro que lhe teria sido muito útil se alguma vez tivesse chegado a ser czarina. Desde cedo, Alexandra colocou em Olga um certo nível de responsabilidade que lhe relembrava constantemente em pequenas notas: "A mama dá um beijo muito carinhoso à sua menininha e pede a Deus para que a ajude a ser sempre uma criança cristã bondosa e amorosa. Sê simpática para todos, sê gentil e amorosa e todos vão gostar de ti", escreveu em 1905.

Olga com a mãe, Alexandra.

Margaretta Eagar viu desde cedo que Olga tinha herdado o espírito altruísta da mãe e da avó Alice. Era muito sensível aos problemas dos mais infelizes. Certo dia, quando passeava de carruagem por São Petersburgo, viu um polícia a prender uma mulher por embriaguez e desacatos e implorou a Margaretta que a soltassem. Quando viu os camponeses pobres a cair de joelhos na berma da estrada na Polónia enquanto a família imperial passava, também ficou perturbada e pediu a Margaretta que lhes dissesse para 'não fazer aquilo'. Pouco depois do Natal certo ano, quando estava a passear pela cidade, viu uma menina a chorar na estrada. 'Veja,' exclamou ela, muito exaltada, 'o Pai Natal não devia saber onde ela morava' e atirou imediatamente a sua boneca que tinha consigo pela carruagem fora, gritando: 'Não chores, menina, toma uma boneca'".

Olga, por volta de 1904,1905

Olga era curiosa e tinha muitas perguntas. Uma vez, quando uma ama a repreendeu por estar mal-disposta, dizendo que ela 'tinha saído da cama com o pé errado', na manhã seguinte, Olga perguntou de forma pertinente qual era o pé certo para sair da cama para que 'o pé errado não me faça portar mal hoje'. Conseguia ser irritável, desdenhosa e difícil e os seus ataques de raiva revelavam um lado negro que, por vezes, era difícil de controlar, mas Olga também era uma sonhadora. Em certa ocasião, quando estava a brincar aos espiões com as filhas, Alexandra reparou que 'a Olga lembra-se sempre do sol, das nuvens, no céu, na chuva ou algo relacionado com o paraíso e explica-me que fica muito feliz quando pensa nestas coisas'". Em 1903, com oito anos de idade, confessou-se pela primeira vez e, pouco tempo depois da morte trágica da sua prima [Isabel de Hesse] nesse mesmo ano, começou a fascinar-se com o paraíso e a vida depois da morte. "A prima Ella já sabe, já está no paraíso, sentada a falar com Deus e Ele está a explicar-lhe como e porque fez isto", disse Olga a Margaretta Eager quando as duas conversavam sobre o sofrimento de uma mulher cega.


Olga com a sua prima Isabel, o tio Ernesto Luís de Hesse e o pai, Nicolau II.

Texto retirado do livro "Four Sisters - The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

segunda-feira, 31 de março de 2014

Four Sisters - The Lost Lives of the Grand Duchesses de Helen Rappaport


No dia 27 de Março foi publicado no Reino Unido um novo livro sobre as quatro filhas do czar Nicolau II da Rússia. "Four Sisters" foi escrito por Helen Rappaport, que tinha já escrito sobre este tema no seu livro "Ekaterinburg: The Last Days of the Romanovs".

O livro tem sido bem recebido por críticos e seguidores da família imperial e é o mais vendido na categoria de política russa no site Amazon.co.uk.

Actualmente pode ser adquirido a partir de £9.33 + portes de envio através do seguinte link:http://www.amazon.co.uk/gp/product/0230768172/ref=ox_sc_act_title_1?ie=UTF8&psc=1&smid=A3P5ROKL5A1OLE.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

The Life and Times of Lord Mountbatten

Neste vídeo extraordinário, que faz parte de um documentário produzido em 1969 sobre a vida do Lord Luís Mountbatten, sobrinho da czarina Alexandra, o próprio fala dos seus parentes Romanov, incluindo as primas Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, bem como de Alexei, Nicolau e até Isabel Feodorovna. Um verdadeiro tesouro para quem sempre quis ouvir histórias sobre os Romanov da parte de uma pessoa que os conheceu pessoalmente! O vídeo está em inglês, mas farei os possíveis para disponibilizar uma versão legendada!

 
The.Life.and.Times.of.Lord.Mountbatten.02of12... por waja100

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Nota Yurovsky (1922) - Primeira Parte

Yakov Yurovsky

Nos primeiros dias de Julho de 1918, recebi uma ordem da parte dos deputados dos Urais do Comité Executivo de trabalhadores, camponeses e soldados soviéticos que me elevaram à posição de Comandante da chamada Casa do Propósito Especial, na qual se encontravam o czar Nicolau II, a sua família e alguns criados chegados a eles.

Entre 7 e 8 de Julho, parti, juntamente com o presidente do Comité Executivo Regional dos Soviéticos dos Urais, o camarada Beloboridov, para a Casa do Propósito Especial, onde substituí o antigo comandante, o camarada Avdeyev. Deve dizer-se que o camarada Avdeyev, assim como o seu assistente, o camarada Ukraintzev, cuidaram dos seus deveres de maneira descuidada no que diz respeito à guarda do czar que, na opinião deles, devia ter sido liquidado imediatamente. Esta atitude reflectiu-se irremediavelmente na moral dos antigos trabalhadores da Fábrica Zlokazovky que se tinham tornado guardas da casa, assim como dos soldados do Exército Vermelho da Fábrica Syseretsky. Já há algum tempo que os trabalhadores diziam que Nicolau e a sua família deviam ter sido mortos para não gastarem o dinheiro das pessoas a manter guardas e tudo o mais. Contudo, nesta altura, o Comité Central ainda não tinha tomado nenhuma decisão definitiva sobre esta questão e era necessário tomar medidas para que os guardas tivessem o mais alto nível de conduta possível. Deve dizer-se que nem o aparelho de comunicação que nos ligava ao regimento soviético e secções da guarda exterior, nem as metralhadoras que tinham sido arranjadas em vários locais funcionavam correctamente. Esta situação forçou-me a contratar alguns camaradas experientes que conhecia da Comissão Extraordinária regional onde tinha sido colega e membro. Desta forma, organizei a guarda interna, contratei novos metralhadores  um dos quais me recordo em particular: o camarada Tzsalms. Neste momento não me recordo dos apelidos de outros camaradas. Deve dizer-se que, em caso de incêndio, não se tomariam quaisquer precauções. Havia equipamento de fogos, havia um poço ao qual se poderia ir buscar água e organizei pessoalmente tudo o que fosse necessário em caso de incêndio. À medida que fui conhecendo os prisioneiros, reparei que estes ainda possuíam bens preciosos, nomeadamente nas mãos de Nicolau, bem como nas da sua família e criados – o cozinheiro Kharitonov, o criado de quarto Trupp e também no Dr. Botkin e na dama-de-companhia, Demidova. Entre os prisioneiros também havia um rapaz chamado Sednev, que servia o Alexei. Os bens de Nicolau estavam guardados em vários locais, dentro de casa e na zona do armazém. Propus organizar uma busca, mas o Comité Executivo não me deu autorização para tal.


A Casa Ipatiev
Deve compreender-se que esta busca não foi considerada necessária uma vez que, por esta altura, tinham acabado de descobrir um esquema que permitia a troca de cartas entre Nicolau e o mundo exterior. No entanto considerei que deixá-los ficar com os seus valores nesta altura poderia não ser seguro tendo em conta o facto de que tal poderia tentar alguns dos guardas, decidi, por minha própria conta e risco, retirar-lhes os bens valiosos que possuíam. Para tal, convidei o assistente do comandante, o camarada Nikulin para me acompanhar e pedi-lhe que documentasse estes bens. Nicolau e os filhos não mostraram descontentamento. O czar só pediu para deixarmos Alexei ficar com o relógio, uma vez que sem ele ficaria aborrecido. Contudo, Alexandra Feodorovna mostrou-se descontente e expressou-se em voz alta quando tentei retirar-lhe a pulseira de ouro do pulso, que se estendia por todo o seu braço e não podia retirar-se sem a ajuda de uma ferramenta. A mulher anunciou que usava aquela pulseira há vinte anos e que agora invadiam a sua privacidade para a tirar. Tendo em conta que as suas filhas possuíam pulseiras iguais, e que não pareciam particularmente valiosas, deixei-as ficar com elas. Depois de documentar estes objectos, pedi a caixa de jóias que Nicolau me entregou para colocar lá dentro todos os objectos. Selei-a com o selo de comandante e entreguei-a a Nicolau para que a guardasse. Quando os visitei para a inspecção, Nicolau entregou-me a caixa de jóias e disse-me: “A sua caixa de jóias está intacta.”


Nicolau e Alexandra na varanda da Casa do Governador em Tobolsk
Quanto a rações, inicialmente, a família recebia uma ração do soviete. Estas refeições estavam longe de ser luxuosas, mas decidimos impedir que chegassem refeições do exterior e estas começaram a ser preparadas na cozinha. Além disso, consegui descobrir que o mosteiro local conseguia entregar tortas coalhadas, manteiga, ovos e coisas parecidas à família. Decidi permitir que tal acontecesse, mas fiquei muito surpreendido por serem permitidas tais liberdades. Mais tarde descobri que o Comandante Avdeyev tinha permitido que tal acontecesse, mas que não permitia que grande parte chegasse à família, ficando com as ofertas para si e para os camaradas. Decidi que tudo o que chegasse para a família lhes devia ser entregue. Foi só no segundo ou no terceiro dia que descobri que as entregas tinham sido autorizadas pelo camarada Avdeyev. Decidi proibir todas as entregas, deixando entrar apenas leite. O Dr. Botkin disse-me que “só depois de ter nomeado nos últimos dois dias temos recebido tudo o que o mosteiro entregava e de repente não podemos receber nada outra vez, as crianças precisam de ser nutrridas, mas a nutrição é tão insuficiente que ficamos muito felizes por receber as entregas do mosteiro”. Contudo, recusei-me a entregar fosse o que fosse, a não ser o leite e decidi que essas entregas deviam ser distribuídas pela população de Ecaterimburgo, uma vez que todas elas eram produzidas na cidade. Pensei que, já que os meus prisioneiros não faziam nada, deviam dar-se por satisfeitos com a mesma ração que todos os cidadãos recebiam. Por esta razão, o cozinheiro Kharitonov anunciou-me que não conseguia preparar nada com meio quarteirão de carne, ao que lhe respondi que eles se deviam habituar a viver sem regalias. Tinham de aprender a sobreviver, como se estivessem presos.

Fosse difícil ou não, Kharitonov teve de começar a usar medidas e pesos exactos para que a quantidade chegasse para cada dia. Disse-lhe que não lhes seria fornecido mais nada caso acabassem com o que tinham antes do previsto.

Maria e Anastásia durante o exílio no Palácio de Alexandre
O quarto no qual se encontravam Alexandra Feodorovna e o herdeiro tinha janelas com saída para o quintal cuja vista da rua estava barricada com cercas de madeira. Alexandra dava-se ao luxo de espreitar pela janela com frequência e de se aproximar dela. No entanto, uma vez, Alexandra deu-se ao luxo de se aproximar demasiado dela. A sentinela ameaçou bater-lhe com uma baioneta, pelo que ela veio queixar-se a mim. Disse-lhe que não tinha permissão para espreitar pelas janelas.

Três ou quatro dias antes da execução, foi instalado um painel de ferro na janela de Alexandra Feodorovna. Por causa disso, o Dr. Botkin anunciou que seria bom se fossem instalados painéis em todas as outras janelas. O horário interior era o seguinte: de manhã levantavam-se todos antes das 10. Ás 10 aparecia eu para inspeccionar a aparência de todos os prisioneiros. Alexandra Feodorovna manifestou o seu descontentamento em relação a esta prática, uma vez que não estava habituada a levantar-se tão cedo. Depois disse que a podia inspeccionar enquanto ela estivesse na cama, ao que ela declarou que não estava habituada a receber ninguém na sua cama. Declarei que isso não me fazia diferença, que faria a inspecção da forma que ela preferisse, mas teria de a fazer todos os dias. A Tatiana, a Olga ou a Maria (mais a Tatiana) pediam-me muitas vezes se podiam ir dar um passeio. Era raro ver Alexandra Feodorovna a caminhar. Quando ela saía de casa para tal, levava sempre um pára-sol e um chapéu. Os restantes costumavam caminhar sempre com as cabeças descobertas. Nicolau passeava à vez com cada uma das suas filhas. Nesta altura o Alexei entretinha-se com armas de brincar e com o rapaz Sednev.

Maria, Olga, Alexandra, Tatiana e Anastásia durante a Primeira Guerra Mundial
Enquanto estava a reparar o poço, Nicolau veio ter comigo e fez um comentário qualquer, mas eu fiz os possíveis para não desenvolver a conversa. Uma vez enquanto passeava, a Olga conversou com um dos oficiais e perguntou-lhe onde tinha prestado serviço durante a guerra. Ele respondeu que tinha prestado serviço num dos regimentos de granadeiros, no qual, durante uma revista militar, tinha visto as filhas do czar. Olga virou-se para Nicolau e exclamou: “Papá, este é um dos nossos granadeiros!”. Nicolau aproximou-se dele e disse: “Saudações!”, esperando, evidentemente, ouvir a resposta militar normal de “Desejo-lhe saúde!”, mas tudo o que ouviu foi um simples “olá”. Muito depois disso, um oficial camarada disse que não tinha tido oportunidade de falar porque eu me aproximei e a conversa terminou.


Tanto quanto pude notar, a família tinha um estilo de vida típico da classe média: de manhã bebiam chá, depois ocupavam-se com algum trabalho – cozer, remendar, bordar. Os mais inteligentes de todos eram a Tatiana, a segunda filha e a Olga, que se parecia muito com a irmã, incluindo nas expressões faciais. A Maria não era parecida com as duas irmãs mais velhas. É um pouco reticente e considerada como uma filha adoptiva. Anastásia, a mais nova, era corada e tinha um rosto bastante bonito. Alexei estava constantemente doente com uma doença que herdou da família, passava grande parte do tempo na cama e por isso tinha de ser levado ao colo para fora. Uma vez perguntei ao Dr. Botkin qual era a doença dele e ele respondeu-me que não se sentia à-vontade para me dizer uma vez que se tratava de um segredo da família, por isso não voltei a perguntar. Alexandra Feodorovna esforçava-se por ter um porte real, tentando relembrar-nos de quem era. Quanto a Nicolau, parecia que pertencia a uma família normal, onde a mulher era mais forte do que o marido. Ela pressionava-o muito. Na situação em que convivi com eles, pareciam uma família calma, governado pelo punho de ferro da mulher. Nicolau, com o seu rosto abatido, parecia muito normal, simples, quase que podia dizer que parecia um soldado camponês.


Olga, Tatiana, Anastásia e Maria no exílio no Palácio de Alexandre, 1917


Além de Alexandra Feodorovna, não se notavam sinais de arrogância em mais ninguém. Se esta não fosse a família imperial detestada, que bebia tanto sangue do povo, podia dizer-se que eram pessoas simples e não arrogantes. As raparigas, por exemplo, iam para a cozinha, ajudavam a cozinhar, tratavam das limpezas ou jogavam às cartas. Todos vestiam roupas simples, não havia nada elaborado. Nicolau comportava-se de forma honesta, “democrática” e, apesar de termos descoberto mais tarde que possuía vários pares de botas novos, só calçava botas remendadas. Um dos seus únicos prazeres era tomar banho várias vezes por dia. Contudo, proibi-os de o fazerem porque havia pouca água. Se uma pessoa considerasse esta família de forma objectiva, podia dizer-se que eram completamente inofensivos.

O pequeno Sednev tinha-se habituado tanto à família que já nem parecia um criado a servir o herdeiro do trono russo. Alexandra Feodorovna queixava-se muitas vezes do barulho que faziam com o cão que tinham, mas ele não deixava esta actividade de que gostava tanto, apesar de a incomodar. Trupp e Kharitonov eram leais como cães para os seus mestres.

O Dr. Botkin com os seus dois filhos
O Dr. Botkin era um amigo leal da família. Sempre que a família tinha alguma necessidade, ele desempenhava o papel de suplicante. Era leal à família de corpo e alma e preocupava-se juntamente com a família Romanov com as dificuldades das suas vidas. Toda a gente sabe que Nicolau e a sua família eram muito religiosos. Perguntaram-me se seria possível participarem numa liturgia. Convidei um padre e um diácono. Quando estavam no quarto do comandante a vestir-se, avisei-os de que podiam realizar a liturgia da forma que deveriam, seguindo os seus rituais, mas não podiam ter qualquer tipo de conversa com a família. O diácono afirmou: “isto já nos aconteceu antes e não servimos indivíduos tão importantes. Uma pessoa pode ficar confusa e pode haver escândalo, mas neste caso vamos espalhar o incenso com prazer pelas suas almas bondosas”. O Obednya foi servido. Nicolau e Alexnadra Feodorovna rezaram ferventemente.

Quando iniciei as minhas funções já se colocava a questão sobre a liquidação da família Romanov, uma vez que os checoslovacos e os cossacos já estavam próximos dos Montes Urais e aproximavam-se cada vez mais rapidamente de Ecaterimburgo. Afinal de contas, Nicolau tinha algum contacto com o exterior.

Tendo esta situação ameaçadora em vista, o assunto foi acelerado.

Fiquei encarregue desta situação, mas a liquidação estava nas mãos de outro camarada.

Anastásia, Maria e Tatiana numa janela em Tobolsk
A 16 de Julho de 1918, perto das duas da tarde, o camarada Filipp chegou à casa e apresentou-me a solução do Comité Executivo para executar Nicolau e foi nesta altura que alertei para o facto de que o jovem Sednev devieria ser retirado do local.

Durante essa noite chegaria um camarada que diria a palavra-passe “limpador-de-chaminés” e seria a ele que os corpos deveriam ser entregues, já que seria ele o responsável pelo enterro e por acabar com o trabalho. Chamei o jovem Sednev e disse-lhe que no dia anterior o seu tio Sednev, que tinha sido preso, tinha fugido, mas tinha já sido capturado novamente e desejava vê-lo. Por isso mandei-o ter com o tio. O rapaz ficou muito contente por poder regressar à sua terra-natal. A família Romanov começou a ficar inquieta. Como sempre, o Dr. Botkin veio ter comigo e perguntou-me para onde tínhamos mandado o rapaz. Disse-lhe o que tinha dito ao rapaz, mas mesmo assim ele continuava a parecer preocupado. Mais tarde foi a Tatiana que veio ter comigo, mas acalmei-a, dizendo-lhe que o rapaz tinha ido visitar o tio, mas que regressaria em breve. Convoquei o chefe do departamento, o camarada Pavel Medvedev da Fábrica Syseretsky e outros, e disse-lhes que, caso acontecesse algo fora do normal, teriam de esperar até receber um sinal especial que combinamos no momento. Depois de ter chamado os guardas interiores que tinham sido seleccionados para a execução de Nicolau e da sua família, distribuí tarefas e informeu quem deveria matar quem. Entreguei-lhes revólveres com o sistema “Nagan”. Quando os papéis estavam distribuídos, os oficiais pediram-me que os poupasse da responsabilidade de matar as jovens, uma vez que não seriam capazes de o fazer. Depois decidi que o melhor seria mesmo poupar completamente estes camaradas da execução, uma vez não eram capazes de cumprir os seus deveres pela revolução no momento mais crucial. Depois de ter cumprido todos os deveres, esperamos pelo “limpa-chaminés”. Contudo ele não chegou nem à meia-noite nem à uma da manhã e o tempo começava a esgotar-se. Finalmente, à uma e meia da manhã bateu à porta. O “limpa-chaminés” tinha chegado. Fui até aos aposentos dos prisioneiros e acordei o Dr. Botkin, dizendo-lhe que todos se tinham de vestir o mais depressa possível uma vez que estavam a haver distúrbios na cidade e tinha de os transferir para um lugar mais seguro. Não queria apressá-los, por isso dei-lhes a oportunidade de se vestirem. Às duas da manhã, transferi os guardas para os andares mais baixos. Disse-lhes para se colocarem na ordem combinada. Conduzi a família para a cave sozinho. Nicolau levava Alexei nos braços. O resto levava consigo algumas almofadas nas mãos, outros levavam outras coisas. Finalmente chegamos ao andar mais baixo e dirigimo-nos para uma divisão que tinha sido preparada anteriormente. Alexandra Feodorovna pediu uma cadeira e Nicolau pediu outra para Alexei.


Ordenei que trouxessem as cadeiras. Alexandra Feodorovna sentou-se e o Alexei também. Sugeri que todos se levantassem, o que fizeram, ocupando toda a parede de trás e uma das paredes de lado. A divisão era muito pequena. Nicolau estava levantado de costas para mim. Então anunciei: “O Comité Executivo dos Trabalhadores, Camponeses e Soldados Soviéticos dos Montes Urais tomou a decisão de vos executar.” Nicolau virou-se para mim e perguntou: “O quê, o quê?” Repeti a sentença e dei imediatamente a ordem para disparar. Fui o primeiro e matei Nicolau imediatamente. Os disparos prolongaram-se durante muito tempo e, apesar das minhas esperanças de que a parede de madeira não levasse as balas a fazer ricochete, estas começaram a ir para todo o lado. Não consegui ordenar aos soldados que parassem de disparar durante muito tempo, o que fez com que as coisas se descontrolassem. Mas quando consegui fazê-los parar finalmente, percebi que muitos deles ainda estavam vivos.

Por exemplo, o Dr. Botkin estava deitado sobre o cotovelo do seu braço direito, como se estivesse numa pose relaxada, mas um tiro de revólver eliminou-o imediatamente. O Alexei, a Tatiana, a Anastásia e a Olga também ainda estavam vivos, assim com a Demidova. O camarada Ermakov queria acabar o trabalho com uma baioneta. Contudo, tal não era possível. A razão pela qual foi tão difícil matá-los tornou-se clara mais tarde. As filhas do czar tinham uma armadura de diamantes cozida nos seus corpetes. Fui forçado a matar um de cada vez. Infelizmente os valores que os executados traziam chamaram a atenção de alguns guardas vermelhos que se encontravam presentes e decidiram roubá-los. Propus que se acabasse com o saque aos cadáveres e pedi ao camarada Medvedev que verificasse se não tinham sido roubados valores da mala. Decidi juntar tudo que se encontrava no local imediatamente.

Pedi ao Nikulin que vigiasse a estrada quando os cadáveres fossem carregados e também deixei outro soldado na cave para vigiar os que ainda se encontravam lá. Depois de carregar os cadáveres chamei os participantes e exigi que devolvessem imediatamente tudo o que tinham roubado senão seriam castigados. Um a um, os soldados começaram a devolver o que tinham. No final descobrimos que havia dois ou três homens fracos. Apesar do facto de ter a inclinação de entregar o resto do trabalho ao camarada Ermakov, temi que ele não conseguisse cumpri-lo da forma mais correcta e decidi ir eu mesmo. Deixei o Nikulin para trás. Ordenei-lhe que não mudasse a guarda que estava de vigia para que parecesse que estava tudo normal.

Esboço para um quadro da família Romanov realizado pouco depois do nascimento de Anastásia
Nota: Ao todo existem 6 notas escritas por Yurovsky sobre o assassinato dos Romanov, cada uma com detalhes contraditórios.