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domingo, 16 de março de 2014


"O destino da antiga família imperial foi discutido por volta da mesma altura em que Kerensky os visitou. Um dos primeiros pedidos para a libertação dos Romanov que chegou do estrangeiro foi realizado pelo kaiser Guilherme e da sua esposa, a imperatriz Augusta Vitória. Apesar de a Rússia e a Alemanha serem inimigos, Guilherme ofereceu ao seu primo e à sua família exílio em Berlim. Anos mais tarde, Guilherme disse: ´Ordenei que o meu chanceler tentasse entrar em contacto com o governo de Kerensky através de canais neutros, para o informar de que, se alguém tocasse num cabelo que fosse da família imperial, iria responsabilizá-lo se tivesse essa possibilidade.´

Mas Alexandra nunca conseguiu perdoar os defeitos de Guilherme e nunca conseguiu colocar de lado o ódio que sentia por tudo o que era alemão. Ficou indignada com a proposta, afirmando: ´Depois de tudo o que eles fizeram ao czar, prefiro morrer na Rússia do que ser salva pelos alemães.´ Quando o plano falhou, Guilherme admitiu: ´O sangue do infeliz czar não é da minha responsabilidade. Não está nas minhas mãos.´"

"Imperial Requiem - Four Royal Women, The Fall of the Age of Empires" de Justin C. Vovk

domingo, 6 de outubro de 2013

Carta de Maria Feodorovna ao seu filho Nicolau II



Esta foi a última carta que Nicolau II recebeu da sua mãe durante a sua vida. A carta foi escrita no dia 2 de Novembro de 1917. 

Querido Nicky, 

Acabei de receber a tua carta do dia 27 de Outubro, o que me encheu de alegria. Não consigo encontrar as palavras para expressar os meus sentimentos e agradecer-te com todo o meu coração, meu querido. Sabes que os meus pensamentos e orações nunca te deixam e penso em ti todo todos os dias e todas as noites e ás vezes sinto uma dor tão grande no coração que penso que não vou conseguir aguentar mais. Mas Deus é misericordioso. Ele vai dar-nos força durante este suplício. Graças a Deus que estás bem e que, pelo menos, vocês estão a viver juntos e confortáveis. Já passou um ano desde que tu e o querido Alexei vieram ver-me em Kieff. Quem poderia adivinhar na altura o que o futuro nos reservava, e pelo que teríamos de passar. É inacreditável. Vivo apenas nas minhas memórias do passado feliz e tento o melhor que posso esquecer este pesadelo. O Misha também me escreveu sobre o vosso último encontro na presença de testemunhas e [ilegível] e sobre a vossa partida horrenda e revoltante.

Recebi a tua primeira carta de 19 de Setembro e peço desculpa por não ter podido responder antes, mas a Xénia vai explicar-te o porquê. 

Lamento não te permitirem dar passeios, sei o quanto isso é necessário para ti e para as crianças; é uma crueldade incompreensível! 

Já recuperei bem de uma doença longa e aborrecida e já posso sair outra vez dois meses depois. 

O tempo tem estado muito bom, principalmente nestes últimos dias. Estamos a viver de forma muito modesta e calma e não vemos ninguém, já que não nos é permitido deixar a propriedade, o que é um grande incómodo. 

É uma bênção eu estar com a Xenia, a Olga e os meus netos que jantam comigo à vez todos os dias. O meu neto novo, o Tikhon é uma alegria para todos nós. Ele está cada vez maior e mais cheio e é tão querido, tão encantador e calmo. É um prazer ver a Olga tão feliz e satisfeita com o bebé que ela desejava há tanto tempo. 

Eles vivem muito confortavelmente acima da adega. Ela e a Xenia vêm ver-me todas as manhãs e tomámos o nosso cacau juntas, porque estamos sempre com fome. É tão difícil ter provisões, as coisas de que tenho mais saudades são o pão branco e a manteiga, mas ás vezes algumas pessoas bondosas manda-me um pouco disso: o Papa Felix [Yusupov, sénios] envia maçãs bravas e manteiga e estou-lhe muito grata. 

O príncipe Shervashidze chegou há pouco tempo. É muito agradável tê-lo, visto que ele é uma mais-valia, está sempre bem disposto e é divertido e está tão contente por estar aqui e descansar depois de ter estado em São Petersburgo, onde foi tão horrível. 

Fiquei muito feliz por receber aquelas cartas boas da Alix e dos meus netos, que escrevem todos tão bem. Agradeço e mando beijos para todos. Estamos sempre a pensar e a falar de ti. É tão triste estarmos separados, não podermos ver-nos uns aos outros, não podermos falar. Eu recebo cartas da Tia Alix e do Valdemar [os seus irmãos] de vez em quando, mas demoram sempre tanto a chegar e eu só posso esperar e desejar notícias. 

Compreendo muito bem o quanto deves gostar de voltar a ler as tuas velhas cartas e diários, apesar de um passado feliz despertem uma mágoa profunda no coração. Eu nem sequer tenho esse consolo, porque as minhas foram-me todas retiradas na Primavera quando me revistaram a casa. Todas as tuas cartas, todas as que recebi em Kieff, as cartas das crianças, três diários, etc., etc., e ainda não me devolveram nada, o que é revoltante e qual foi a razão disto, pergunto? 

Hoje é dia 2 de Novembro e é o aniversário do meu querido Misha. Penso que ele ainda está na cidade. Que Deus lhe dê saúde e felicidade. 

O tempo mudou de repente e está a soprar um vento forte e está frio, só estão 3 graus e, apesar de os quartos estarem aquecidos, não estão suficientemente quentes e as minhas mãos estão frias.

O Nikita foi ao K., o dentista [Kastritsky]. Foi através dele que eu soube novidades tuas. Fico feliz por saber que a pobre Alix não tem dores de dentes e que ele já acabou os teus tratamentos. 

Espero que a Isa B. [Buxhoeveden] tenha chegado com segurança e tenha recuperado da operação. Dá os meus cumprimentos a todos e também ao Il. Tatischeff, por favor. 

Que criados estão contigo? Espero que o Teteridtnikoff esteja convosco. Eu só fiquei com o Yaschick e o Poliakoff e não tenho palavras de elogio suficientes para eles, são pessoas tão esplêndidas e de confiança. Eles servem à mesa e conseguem fazê-lo muito bem. O Kukushkin e o Yashchik são grandes amigos e convivem muito. 

No dia 6 de Dezembro todos os meus pensamentos vão estar contigo, meu querido Nicky, e envio-te os meus melhores desejos. Que Deus te abençoe, Te envie força e paz e que não permita que a Rússia esmoreça. Muitos beijos. Que Cristo esteja contigo. Com muito carinho e amor da tua velha, 

Mama



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Outros - Entrevista à Grã-Duquesa Isabel Feodorovna (1917) - 2.ª parte



A porta abriu-se e a Grã-duquesa entrou com um sorriso radiante de boas-vindas e a sua mão branca estendida. “”Estou tão contente por ver que tive tempo para vê-la hoje, senhora Dorr!”, disse ela, numa voz de rara doçura.
“Vossa Alteza fala inglês?” exclamei eu, surpresa, e ela respondeu, apontando para uma cadeira confortável. “Porque não? A minha mãe era inglesa.”

Tinha-me esquecido por um momento que a Grã-duquesa e a sua irmã mais nova, a antiga Imperatriz da Rússia, eram filhas da Princesa Alice de Inglaterra e netas da Rainha Vitória. A Rússia também parecia ter-se esquecido disso e só se lembrava que o pai destas mulheres era o Grão-duque de Hesse e do Reno. A Grã-duquesa acrescentou enquanto nos sentávamos que quando era criança falava sempre inglês com a sua mãe e alemão apenas com o seu pai. “Fico feliz com a oportunidade de falar inglês, já que sendo completamente russa, como sou, e especialmente se formos uma russa ortodoxa, uma pessoa ouve muito pouco além de russo e francês.” Depois disse, com outro sorriso radiante: “Diga-me o que acha do meu convento.”


Disse-lhe que me sentia como se tivesse voltado atrás no tempo para o resplandecente e romântico século XIII.

“Era exactamente isso que eu queria para o meu convento!” Respondeu ela. “Queria que fosse um daqueles lugares ocupados e úteis dos tempos medievais. Os conventos assim eram magnificamente eficientes na idade média e acho que eles nunca deviam ter desaparecido. A Rússia precisa deles, de certeza, do tipo de convento que se coloque entre as ordens religiosas austeras e fechadas e o mundo exterior. Aqui lemos jornais, mantemo-nos informadas e recebemos conselhos de pessoas activas. Somos Marias, mas também somos Martas.”

O interesse da Grã-duquesa no mundo exterior é patente. Ela pediu-me entusiasticamente para lhe contar como estavam as coisas em Petrogrado e o seu rosto entristeceu-se quando lhe contei dos motins e acontecimentos sangrentos a que assisti durante a Revolução de Julho que ainda mal tinha passado. “É uma altura muito má para nós neste momento”, disse ela, “mas elas hão-de melhorar em breve, tenho a certeza. Os russos são bons e gentis, mas a maior parte deles são crianças grandes, ignorantes e impulsivas. Se conseguirem encontrar bons líderes, e se perceberem que lhes têm de obedecer, vão emergir do caos e construir uma Rússia nova e forte. Já viu Kerensky e o que pensa dele?”


Respondi-lhe com cuidado. Como toda a gente, ainda tinha esperança que o Kerensky deitasse tudo a perder e não queria abalar a confiança que alguém pudesse depositar nele. Disse-lhe que o Kerensky era muito admirado, que as pessoas gostavam dele e que poderia vir a tornar-se no líder forte que a Rússia precisava na sua aflição.

“Espero que sim,” respondeu a última dos Romanov, “rezo por ele todos os dias.”

Os sinos da igreja anunciaram a hora suavemente e a Grã-duquesa interrompeu-se para fazer o sinal da cruz. “Quero saber sobre essas maravilhosas escolas públicas,” disse ela, “mas primeiro diga-me o que está a América a fazer para se preparar para a guerra.”


À medida que eu falava, ela ouvia, acenando com a cabeça e sorrindo, imensamente agradada. A grande frota aérea que estava a ser construída parecia deixá-la muito feliz e, quando lhe falei sobre a conservação de mantimentos e das restrições ao fabrico de álcool, ela ficou radiante. “A América é simplesmente magnífica,” exclamou ela. “Lamento muito nunca ter lá ido. Claro que agora isso nunca vai acontecer. Para mim os Estados Unidos representam a ordem e a eficiência no seu melhor. O tipo de ordem que só um estado livre consegue criar. O tipo de liberdade que rezo para que um dia seja construído aqui na Rússia.” E depois mencionou brevemente o czar deposto. Não sabia que naquele momento o czar estava a caminho da Sibéria, mas é muito provável que ela já soubesse. Ela disse: “Fico feliz por saber que vão proteger os vossos soldados do mal da bebida. Ninguém compreende o bem que a abolição da vodka fez às nossas gentes. Acho que um dia a História vai dar crédito ao Imperador pela sua parte na ideia, não acha?” Concordei que o Imperador devia receber todo o crédito pelo que fez e disse-o com toda a sinceridade.


Isabel Feodorovna deixou-me falar durante quase três quartos de hora sobre as escolas Gary que ela gostaria muito de ver instituídas na Rússia; sobre o esforço das mulheres americanas na guerra e no trabalho social para as crianças, especialmente as tuberculose e as anémicas. “É maravilhoso,” disse ela com um suspiro. “Quase nem consigo impedir-me de cometer o pecado da inveja. Pense numa nação jovem, grande e apressada que ainda arranja tempo para estudar todos estes problemas assustadores da pobreza e da doença, e luta contra eles. Espero que continuem a fazer isso, e que ainda encontrem mais e mais maneiras de trazer paz à vida dos trabalhadores. Como se pode esperar que os trabalhadores que trabalham o dia inteiro em fábricas quentes e horríveis em quintas distantes, sem nada nas suas vidas a não ser o trabalho e a preocupação, possam ter paz nas suas almas?”


Ela queria muito saber sobre as mulheres soldado e disse que admirava muito o seu heroísmo. Queria saber como era a vida nos seus acampamentos e se tinham força suficiente para aguentar o tormento. A Grã-duquesa Sérgio é uma boa feminista e concordou comigo que a crise russa, tal como noutros países afectados pela guerra, tinha demonstrado completamente como as mulheres deviam, a partir de agora, ter um papel tão importante e proiminente como o dos homens.

Teve sempre uma devoção especial por Joana d’ Arc e acreditava que ela se tinha inspirado em Deus.


“Fico feliz por ter gostado do meu convento,” repetiu ela enquanto nos afastávamos. “Por favor visite-nos novamente. Sabe que ele já não me pertence, pertence ao Governo Provisório, mas espero que eles me deixem ficar com ele.”

Espero que a deixem. A Casa de Maria e Marta, com as belas mulheres que lá vivem, é uma das coisas que a nova Rússia não pode perder.


Em Março de 1918, Isabel foi presa no seu convento e levada para o exílio na Sibéria. Acabaria assassinada no dia 18 de Julho do mesmo ano. A Casa de Marta e Maria ainda existe e está em pleno funcionamento nos dias de hoje. As freiras ainda seguem as mesmas regras escritas por Isabel Feodorovna e existe uma estátua dedicada à fundadora no jardim.

Outros - Entrevista à Grã-Duquesa Isabel Feodorovna (1917) - 1.ª parte



No dia em que o czar Nicolau II e a sua família se preparavam para deixar Czarskoe Selo e partir para o seu exílio em Tobolsk, uma jornalista americana, Rheta Childe Dorr, entrevistou Isabel Feodorovna. Era ainda a única Romanov em liberdade, mas isso mudaria poucos meses depois. A entrevista foi publicada já depois da morte da Grã-duquesa.


A Casa de Maria e Marta

Na tarde do dia em que Nicolau II, Imperador deposto e autocrata de todas as Rússias, juntamente com a sua esposa e filhos deixaram Czarskoe Selo e iniciaram a sua longa viagem para o seu exílio na Sibéria, eu estava sentada numa sala pacifica de um convento em Moscovo e falei com quase o último membro da família imperial que disfrutava de total liberdade dentro do Império. Era Isabel Feodorovna, irmã da antiga Imperatriz e viúva do Grão-duque Sérgio, tio do Imperador. O Grão-duque Sérgio foi assassinado, rebentado até sobrarem dele apenas pedaços por uma bomba, quase perante os olhos da sua esposa, por um revolucionário no dia 4 de Fevereiro (estilo antigo) de 1905. Foi morto quando se ia juntar à Grã-duquesa numa das igrejas do Kremlin em Moscovo. Ela correu para fora de casa e viu os seus restos mutilados sobre a neve. A Grã-duquesa Sérgio era já conhecida há muito tempo como uma mulher nobre de espírito e santa e a conduta que tomou depois da morte horrenda do seu marido mostra bem o seu carácter. Implorou ao czar para que retirasse a sentença de morte dada ao assassino e quando ele recusou, ela foi até à prisão onde o homem moribundo aguardava a sua morte, conseguiu obter permissão para entrar na sua cela e, quase até ao último momento, rezou com ele e confortou-o. Nunca teve filhos e, depois do evento que cortou o último laço que a mantinha à pompa real e ao brilho, a Grã-duquesa retirou-se da sociedade e entregou-se à religião. O mais cedo que pôde, tornou-se freira. A sua fortuna privada, até ao último rublo, investimento, palácio, mobília, arte, jóia, carro, sabre e qualquer outro bem foram convertidos em dinheiro que foi usado para a construção de um convento e para pagar a criação de uma ordem religiosa da qual ela se tornou madre superiora. A Grã-duquesa Sérgio obedeceu literalmente ao édito de Cristo aos homens ricos: “Vendei tudo o que tendes e dai-lo aos pobres.”

Isabel com o marido em 1904

O Convento de Maria e Marta, da Ordem da Misericórdia em Moscovo, é um testemunho vivo do seu grande sacrifício. Tem vivido aqui nos últimos oito anos e trabalha junto das suas freiras entre as quais pelo menos uma era uma senhora da corte e muitas outras que pertenciam às classes mais altas. Algumas das freiras pertenciam a casas mais humildes, uma vez que a ordem é perfeitamente democrática. Cada uma das mulheres que entra na Casa de Maria e Marta fá-lo sabendo que a sua vida será passada em serviço, tanto espiritual como o estudo dos Envagelhos de Maria, como material com trabalho. Os Russos, que são um pouco sonhadores, dizem-nos que o convento de Isabel Feodorovna é uma das instituições mais eficientes do Império e acrescentam normalmente que: “Dizem que ela obriga as freiras a trabalhar ao extremo.”

Quando os dias da revolução chegaram em Fevereiro de 1917, uma grande multidão foi até à Casa de Maria e Marta, escancarou os portões e inundou os degraus do convento, exigindo entrar A porta abriu-se e uma mulher alta e séria, vestida com um hábito cinza-prateado pálido e véu branco saiu para o pátio e perguntou o que queria a multidão.


“Queremos a mulher alemã, a irmã da espiã alemã de Czarskoe Selo!” Gritou a multidão. “Queremos a Grã-duquesa Sérgio.”
Alta e brilhante, como um lírio, a mulher ficou no mesmo lugar. “Eu sou a Grã-duquesa Sérgio.” Respondeu ela numa voz firme que flutuou por entre os clamores. “O que querem de mim?”

“Viemos aqui para a prender,” gritaram eles. “Muito bem,” foi a resposta calma. “Se me querem prender claro que vou convosco. Mas tenho uma regra. Antes de sair o convento por qualquer razão vou sempre à igreja rezar. Venham comigo à igreja e depois de ter rezado vou convosco.”

Ela deu meia volta e caminhou pelo jardim até à igreja, com a multidão atrás dela. Tantos quanto puderam entraram no pequeno edifício e seguiram-na. Ajoelhou-se perante o altar e todas as suas freiras se ajoelharam à sua volta e choraram. A Grã-duquesa não chorou. Rezou por um momento, fez o sinal da cruz, depois levantou-se e abriu as mãos para a multidão em silêncio, olhando-os nos olhos.

“Agora já estou pronta para ir,” disse ela.


Mas nem uma mão se ergueu para levar Isabel Feodorovna. O que Kerensky nunca poderia ter feito, o que nenhuma força policial na Rússia poderia ter feito com aqueles homens naquele dia, a perfeita coragem e humildade da Grã-duquesa fez. Intimidou e conquistou a hostilidade, dispersou a multidão. Aquela grande multidão de homens bêbados e libertinos, homens sedentos de sangue que foram calmamente embora, deixando um guarda para proteger o convento. É provavelmente o único local absolutamente impenetrável na Rússia hoje em dia para aqueles que dizem odiar os “bourju”, o nome que dão às classes intelectuais.

No dia de Agosto em que toquei a campainha do portão massivo, não sabia que ia mesmo ver e falar com a Grã-duquesa. O senhor William L. Cazalet de Moscovo, o amigo que me levou até lá, duvidava muito que eu pudesse ser recebida informalmente sem nenhuma marcação prévia. A seriedade dos tempos que vivíamos, principalmente a situação pela qual a família Romanov estava a passar, colocavam a Grã-duquesa Sérgio numa situação extremamente delicada e o senhor Cazalet disse-me com toda a franqueza que esperava vê-la afastada de todos. O melhor que podia prometer, disse ele, era que eu podia ver o convento, onde uma das suas primas era freira.


O convento, que se encontrava localizado no centro de Moscovo, é um conjunto de pedra branca e casas de estuque construídas em volta de um velho jardim e rodeadas por um muro branco alto coberto de era. Uma chave foi rodada, o portão castanho foi aberto e entramos no jardim que estava em flor. Lembro-me de doces-de-bico brancos e cor-de-rosa no muro, dos lírios brancos que dançavam com o vento e uma passadeira de verbenas que se estendia ao longo do pátio até à porta do convento. Havia muitas macieiras e uma floresta de lilases roxos e brancos.

Fomos recebidos numa sala pequena que era uma mistura de escritório e sala-de-estar, pela chefe executiva do convento, a senhor Gardeeve, uma amiga de longa data de Isabel Feodorovna.Tal como a Grã-duquesa, esta mulher tinha tido uma vida cheia de lágrimas e tribulações apesar da sua posição privilegiada e quando ela tomou o véu, Gardeeve tomou-lhe o exemplo e tornou-se freira. Os negócios do convento realizam-se sob a sua supervisão e de uma forma notável, segundo o que me foi dito. A eficiência e a habilidade estão escritas em cada traço do rosto delicado de Gardeeve assim como na sua voz decidida e transparente e através dos seus gestos graciosos. Foi uma alegria ouvi-la conversar, especialmente para mim, uma vez que tenho dificuldades em compreender o francês indistinto falado pelo russo comum. O francês da senhor Gardeeve era perfeito, do tipo que se ouve mais em digressões do que em Paris ou outro lado qualquer. Uma mulher do mundo da cabeça aos pés, a senhora Gardeeve usava o hábito distinto da ordem com a mesma graciosidade com que teria usado um vestido da última moda. Sorriu e conversou com o senhor Cazelet, que é muito conhecido no convento, e foi muito gentil e cordial comigo. Depois de ficarmos a conversar durante alguns minutos, o meu amigo disse-lhe que eu lhe tinha contado coisas muito interessantes sobre as escolas publicas americanas e queria que eu as contasse a ela.


Por isso contei-lhe algo sobre as experiências extraordinárias que tinham resultado em Gary, Indiana e sobre o trabalho que estava a ser feito em Nova Iorque e outros lugares para que as crianças, ricas e pobres, tivessem as mesmas oportunidades nos estudos. Á medida que falava, ela exclamava de vez em quando: “Mas isso é excelente! Acho admirável! A Grã-duquesa devia ouvir isto!”

Eu disse-lhe que gostava muito de conhecer a Grã-duquesa e ela respondeu que poderia haver possibilidade de isso acontecer. Mas não naquele dia, uma vez que a Grã-duquesa estava extremamente ocupada. Perguntou-me quanto tempo é que eu ficaria em Moscovo e disse que dentro dessa semana seria possível arranjar o encontro. Perguntou-me depois o que gostava de ver no convento e quando eu disse que queria ver tudo, ela riu-se, tocando uma campainha. Apareceu então uma pequena freira e a senhora Gardeeve entregou-me a ela com ordens de que me mostrasse todo o convento.