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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov - Primeira Parte

Jorge V e Nicolau II
"Chegaram más notícias da Rússia," escreveu o rei Jorge V do Reino Unido no seu diário a 13 de Março de 1917, dois dias antes de o seu primo direito, o czar Nicolau II da Rússia, ter abdicado do trono, dando início à Revolução Russa, "praticamente que rebentou uma revolução em Petrogrado e alguns dos regimentos de guardas fizeram motins e mataram os seus oficiais. Este levantamento é contra o governo, não contra a guerra". A 15 de Março, já tinha recebido mais informações: "temo que a responsável por tudo isto seja a Alicky e o Nicky foi fraco (...) estou em desespero".

Era quase o único que se sentia daquela forma. Por todas as ruas do império, desde Moscovo até Tiflis, o fim da autocracia foi celebrado foi sinos, canções, vivas e bandeira. Os símbolos do poder imperial, as insígnias e estátuas, foram arrancados de edifícios e pedestais. Em França e na Grã-Bretanha, a queda do czar foi recebida com alívio. Os excessos do regime tinham-se tornado embaraçosos e havia a esperança de que, com uma democracia, a Rússia tivesse menos vontade de fazer acordos com a Alemanha. Os EUA, que tinham acabado de entrar na guerra, reconheceram o novo governo com entusiasmo logo uma semana depois da abdicação. Lloyd George [primeiro-ministro do Reino Unido], que se estava a esforçar por combater o cansaço da guerra com a ideia de que os sacrifícios da Entente eram a favor da grande causa da Liberdade e da Democracia, enviou um telegrama a dar os parabéns pela revolução, "a melhor coisa que o povo russo fez até agora na defesa da causa pela qual os Aliados estão a lutar". Demonstrava "a verdade fundamental de que esta guerra é, no fundo, uma luta pelo governo do povo, tanto como o é pela liberdade. Mostra que, ao longo da guerra, o princípio da liberdade, que é a única garantia de paz no mundo, já conquistou uma vitória arrebatadora". 

Lloyd George
Jorge V odiou o telegrama e não conseguiu compreender que este tinha sido escrito tanto para consumo interno como para o novo governo russo (que, como se viria a constatar, incluía um número significativo de novos membros que eram muito mais favoráveis às tradições políticas britânicas do que qualquer pessoa do regime czarista). Stamfordham [secretário particular do rei] recebeu instruções para se queixar que o telegrama era "um pouco forte", principalmente tendo em conta que vinha de um governo monárquico. Lloyd George recordou o secretário do rei que a própria constituição britânica tinha surgido graças a uma revolução - a revolução sem sangue de 1688.

Jorge decidiu então enviar a sua própria mensagem de apoio a Nicolau: "os eventos da semana passada deixaram-me profundamente perturbado. Estou sempre a pensar em ti e serei sempre um verdadeiro e dedicado amigo tal como sabes que já fui no passado". O ministro dos negócios estrangeiros do governo provisório, Pavel Miliukov, um antigo membro da Duma que reverenciava Sir Edward Grey [ministro dos negócios estrangeiros do Reino Unido entre 1905 e 1916] e admirava as tradições liberais da Grã-Bretanha, disse a Buchanan [embaixador do Reino Unido na Rússia] que a carta não podia ser entregue ao destinatário. O novo Soviete começava a mostrar uma vontade preocupante de executar o czar. O clima político em Petrogrado era de tal forma instável que o telegrama de Jorge apenas serviria para piorar a situação. A única solução que Miliukov via era retirar o czar da Rússia o mais rapidamente possível. Quando, a 21 de Março, Buchanan avisou que "qualquer violência exercida sobre o imperador e a sua família teria um efeito deplorável e chocaria a opinião publica neste país", Miliukov perguntou-lhe se a Grã-Bretanha estaria disposta a dar asilo aos Romanov. Quando reportou o pedido do ministro dos negócios estrangeiros, Buchanan acrescentou a sua opinião de que o pedido deveria concedido.

Sir George Buchanan, embaixador da Grã-Bretanha na Rússia
Nesse mesmo dia, o antigo imperador e a família foram colocados em prisão domiciliária. Os soldados tinham chegado a Czarskoe Selo uma semana antes, tinham cercado o palácio e cortado o fornecimento de água. Alexandra não soube nada de Nicolau durante três dias. Alexei estava com sarampo e em grande sofrimento. A czarina quase desmaiou quando soube da abdicação, depois reagiu com o seu fatalismo característico: "é o melhor. É a vontade de Deus. Deus vai garantir que a Rússia fica a salvo. É só isso que interessa". O governo provisório disse aos seus prisioneiros que aquela medida era apenas uma precaução para os manter em segurança. Disseram-lhes que o plano era levá-los até à fronteira marítima da Finlândia, que ficava a apenas algumas horas de distância, e colocá-los a bordo de um navio britânico, onde viajariam até à Inglaterra. Nicolau, que recebeu permissão para deixar Stavka antes de regressar a Czarskoe Selo, disse ao representante militar britânico que tinha a esperança de se retirar para a Crimeia, mas que, "se isso não for possível, prefiro ir para a Inglaterra do que para qualquer outro sítio".

Nicolau, Alexandra e as filhas Anastásia, Olga e Maria por volta de 1916-17
Lloyd George não gostava muito da ideia de dar abrigo ao autocrata de todas as Rússias que tinha perdido todo o crédito, mas, quando pediu a opinião do antigo conselheiro do rei Eduardo VII, Sir Charles Hardinge, e a Stamfordham, concordou que "a proposta (...) não pode ser recusada". Stamfordham acrescentou que Buchanan devia "dar a entender" que o governo russo deveria atribuir um rendimento ao ex-czar para ele viver. Quando Lloyd George sugeriu (sem dúvida de forma provocatória) que o rei [Jorge V] podia emprestar "uma das suas casas", o ministro respondeu rispidamente que o rei "não tem casas, excepto Balmoral", que não tinha quaisquer condições. 


Lloyd George (esq.) com o rei Jorge V e o futuro rei Eduardo VIII
Nicolau chegou a Czarskoe Selo nesse mesmo dia, fazendo o seu caminho da desgraça por entre as divisões cheias de soldados curiosos que, agora, não tinham qualquer motivo para se colocar em formação ou fazer a saudação. Quando chegou aos aposentos privados da família, perdeu a compostura e começou a chorar. Um cortesão disse que ele parecia "um velho". Quando tentou sair para ir dar uma volta a pé, foi cercado por seis soldados que o mandaram afastar-se com a ponta das suas espingardas. "Não pode ir para aí, Gospodin Polkovnik [Sr. Coronel]", disseram eles. "Afaste-se quando o mandam, Gospodin Polkovnik". Nicolau deixou-se ficar, pequeno, em silêncio e sem qualquer expressão no rosto. Mais tarde, nessa mesma noite, chegaram três carros armados cheios de soldados demasiado entusiasmados de Petrogrado que anunciaram que iam levar o ex-czar para a fortaleza de São Pedro e São Paulo - outro sinal que mostrava como o controlo que o governo provisório tinha sobre os soldados era ténue. Eventualmente, conseguiram convencer os soldados a ir embora, com a condição de que poderiam ver o czar. Pouco depois da meia-noite, outro grupo de soldados assaltou a campa de Rasputine no parque imperial, exumaram o corpo e queimaram-no.


Nicolau II no verão de 1917, no Palácio de Alexandre
Miliukov garantiu a Buchanan que o governo russo iria pagar o exílio do czar, mas pediu-lhe que não revelasse que o pedido de santuário tinha vindo da parte do governo, uma vez que temia enfurecer a opinião pública e o Soviete de Petrogrado. Parecia claro que levar a família às escondidas para a Finlândia não seria tão simples como parecia. Entretanto passou uma semana. A Inglaterra e Jorge ocupavam claramente os pensamentos da família imperial. Nicolau escreveu no seu diário que estava a planear começar a escolher as coisas que levaria consigo para Inglaterra, Alexandra começou a falar constantemente das memórias que tinha de Osborne e os seus filhos começaram a perguntar aos tutores como seria a sua vida em Inglaterra.

Tatiana e Anastásia com soldados no verão de 1917
Em Londres, Jorge começou a ter sérias dúvidas se seria boa ideia trazer o seu primo para Inglaterra. A 30 de Março, Stamfordham escreveu ao antigo primeiro-ministro, Arthur Balfour, que Lloyd George tinha escolhido para ministro dos negócios estrangeiros:
"O rei tem pensado muito na proposta do governo para que o imperador e a família venham para Inglaterra. Como, sem dúvida, sabe, o rei tem uma amizade pessoal muito profunda com o imperador e, por isso, teria todo o prazer em fazer qualquer coisa para o ajudar nesta crise. No entanto, Sua Majestade não consegue evitar certas dúvidas, não só no que diz respeito aos perigos da viagem, mas também, de um modo mais geral, em termos de conveniência, se seria aconselhável a família real passar a residir neste país".
Balfour enviou uma resposta sem compromissos. Miliukov tinha acabado de enviar outro telegrama a pedir que o czar deixasse a Rússia de uma vez e o antigo primeiro-ministro era da opinião que "embora os ministros de Sua Majestade compreendam as dificuldades aludidas na sua carta (...) são da opinião que, a não ser que haja uma mudança de posição, neste momento já não é possível retirar o convite que foi enviado, e, por isso, esperam que o rei concorde com o convite original, que foi enviado seguindo o conselho dos ministros de Sua Majestade".

A 3 de Abril, duas das damas-de-companhia de Alexandra, Lili Dehn e a odiada Anna Vyrubova, foram presas e levadas para Petrogrado para serem interrogadas. O casal imperial recebeu também ordens para viver em separado enquanto a questão da traição de Alexandra era investigada. 


Alexandra com a sua dama-de-companhia Lili Dehn e a filha Tatiana
A 6 de Abril, Stamfordham escreveu a Balfour a insistir para que o convite fosse retirado:
"A cada dia que passa, o rei preocupa-se cada vez mais com a questão da vinda do imperador e da imperatriz para este país. Sua Majestade recebe cartas de pessoas de todas as classes sociais, pessoas que lhe são ou não conhecidas, nas quais lhe dizem que o assunto está a ser muito discutido, não só nos clubes, mas também pelos trabalhadores, e que os membros do partido trabalhista na Câmara dos Comuns estão-se a mostrar adversos à proposta (...) tenho a certeza que sabe como tudo isto será estranho para a nossa Família Real, que tem relações de parentesco tão próximas tanto com o imperador como com a imperatriz (...) o rei quer que lhe pergunte se, depois de se reunir com o primeiro-ministro, não devermos contactar Sir George Buchanan, no sentido de pedir ao governo russo que arranje outro local para estabelecer a futura residência de Suas Majestades Imperiais?"
Algumas horas depois, enviou outra carta: 
"O rei pede-lhe que faça ver ao primeiro-ministro que, tendo em conta tudo aquilo que ele tem ouvido e aquilo que lê na imprensa, o público iria ressentir fortemente a vinda para este país do ex-imperador e imperatriz e, sem dúvida alguma, iria comprometer a posição do rei e da rainha, de quem, de um modo geral, as pessoas já acham que veio o convite. (...) Buchanan tem de receber instruções para dizer a Miliukov que a oposição à vinda do imperador e da imperatriz para este país é tão forte que temos de retirar o consentimento que foi dado à proposta do governo russo inicialmente".
O rei Jorge V, acompanhado da mãe, a rainha Alexandra, a tia, a imperatriz Maria Feodorovna, e a esposa, a rainha Mary do Reino Unido
A 10 de Abril, Stamfordham encurralou LLoyd George em Downing Street para "lhe transmitir a opinião do rei de que o imperador e a imperatriz da Rússia não deveriam vir para este país e que (...) seria muito injusto para o rei se Suas Majestades Imperiais viessem para aqui quando o sentimento popular contra eles é tão pronunciado". Depois voltou a queixar-se a Balfour, dizendo-lhe que tinha visto um telegrama de Buchanan que "evidentemente achou que a vinda do imperador e da imperatriz estava garantida e que era apenas uma questão de tempo". O rei era da opinião que Buchanan já deveria ter retirado o convite.  

Os argumentos de Stamfordham tiveram efeito no governo. LLoyd George sabia que proteger os Romanov não seria bem visto na Grã-Bretanha e não queria fazer nada que afastasse o governo russo que ia ficando cada vez mais instável. Temia que acabassem por sair da guerra de repente, deixando a frente ocidental vulnerável a um ataque alemão em larga escala. Balfour achava que o rei estava "numa posição complicada". Ninguém iria acreditar que o convite não tinha sido feito pela corte. Talvez fosse melhor enviar os Romanov para o sul da França? O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado: "o governo de Sua Majestade não irá insistir na oferta de hospitalidade que colocou anteriormente à família imperial". Balfour enviou um telegrama a Buchanan e disse-lhe para não falar mais no convite. O embaixador obedeceu com era seu dever. Miliukov já não referia o assunto há alguns dias, parecia óbvio que a questão se estava a tornar numa batata quente para o governo russo e, obviamente, se houvesse "algum perigo de criar um movimento anti-monárquico", então a Inglaterra não era o melhor lugar para colocar o czar e era melhor pedir a opinião dos franceses. Mas, em casa, segundo a sua filha, era óbvio que o embaixador estava profundamente perturbado.

Anastásia e Nicolau rodeados de soldados no parque de Alexandre no verão de 1917
Texto retirado do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter

domingo, 16 de março de 2014


"O destino da antiga família imperial foi discutido por volta da mesma altura em que Kerensky os visitou. Um dos primeiros pedidos para a libertação dos Romanov que chegou do estrangeiro foi realizado pelo kaiser Guilherme e da sua esposa, a imperatriz Augusta Vitória. Apesar de a Rússia e a Alemanha serem inimigos, Guilherme ofereceu ao seu primo e à sua família exílio em Berlim. Anos mais tarde, Guilherme disse: ´Ordenei que o meu chanceler tentasse entrar em contacto com o governo de Kerensky através de canais neutros, para o informar de que, se alguém tocasse num cabelo que fosse da família imperial, iria responsabilizá-lo se tivesse essa possibilidade.´

Mas Alexandra nunca conseguiu perdoar os defeitos de Guilherme e nunca conseguiu colocar de lado o ódio que sentia por tudo o que era alemão. Ficou indignada com a proposta, afirmando: ´Depois de tudo o que eles fizeram ao czar, prefiro morrer na Rússia do que ser salva pelos alemães.´ Quando o plano falhou, Guilherme admitiu: ´O sangue do infeliz czar não é da minha responsabilidade. Não está nas minhas mãos.´"

"Imperial Requiem - Four Royal Women, The Fall of the Age of Empires" de Justin C. Vovk

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Nicolau II - A biografia (2ª parte)

Com a formação da Terceira Duma, Nicolau começou a ter mais confiança no seu sistema. “Esta Duma não pode ser novamente vista com uma tentativa de lhe retirar o poder e não há qualquer tipo de necessidade de o fazer.” Disse a Stolypin em 1909. Infelizmente os planos do Primeiro-Ministro foram interrompidos pelos conservadores da corte. Reaccionários como o príncipe Vladimir Orlov nunca se cansavam de dizer ao czar que a própria existência da Duma era um golpe à autocracia e que Stolypin era um traidor e um revolucionário secreto que se estava a esforçar, com a ajuda da Duma, para roubar os poderes que Deus tinha dado ao czar. Witte, o ex-Primeiro Ministro, também se envolvia frequentemente em intrigas contra Stolypin. Apesar de este não estar de forma alguma implicado na queda de Witte, ele culpava-o por isso. Stolypin tinha também, sem saber, enfurecido a imperatriz Alexandra quando ordenou uma investigação a Rasputine e a entregou ao czar. Stolypin, com a sua própria autoridade, tinha ordenado ao monge que deixasse São Petersburgo. Alexandra protestou veemente, mas Nicolau recusou ir contra o seu ministro que, na altura, tinha uma maior influência junto do czar. Pouco antes de Stolypin ser assassinado por Dimitri Bogrov, um estudante (e informador da polícia) num teatro em Kiev no dia 18 de Setembro de 1911, o ministro já se tinha cansado dos fardos da sua posição. Para um homem que preferia acções limpas e decisivas, trabalhar com um soberano que acreditava em fatalismo e misticismo era frustrante.

Nicolau por volta de 1911
Por exemplo, numa ocasião, Nicolau devolveu um documento por assinar com uma nota que dizia: “Apesar dos argumentos extremamente convincentes a favor de adoptar uma posição positiva neste assunto, uma voz interior continua a insistir cada vez mais para que eu não aceite a responsabilidade dele. Até agora a minha consciência não me enganou. Por isso pretendo que este caso seja esquecido. Sei que também tu acreditas que 'um coração de czar está nas mãos de Deus'. Que assim seja. Tenho uma grande responsabilidade perante Deus antes de ditar qualquer lei, e estou preparado para discutir sobre a minha decisão a qualquer altura.” Alexandra acreditava que Stolypin tinha prejudicado a saúde do seu filho, quando decidiu afastar Rasputine, e odiava-o por isso. Em Março de 1911, num momento de raiva, afirmou que ele já não merecia a confiança imperial e então Stolypin pediu para que fosse dispensado da sua posição. Dois anos antes, quando ele tinha levantado essa hipótese durante uma conversa informal, Nicolau disse-lhe que, “Isto não é uma questão de confiança ou falta dela. É a minha vontade. Lembra-te de que vivemos na Rússia e não no estrangeiro… e por isso não vou considerar a possibilidade de qualquer demissão."

Nicolau, Alexandra e Alexei
Para além da vida política, Nicolau II enfrentava também problemas graves na sua vida pessoal, principalmente devido ao grave problema de sucessão. Alexandra tinha dado à luz quatro filhas, Olga em 1895, Tatiana em 1897, Maria em 1899 e Anastásia em 1901, antes de o seu filho Alexei nascer no dia 12 de Agosto de 1904. O jovem herdeiro começou a mostrar desde cedo os primeiros sintomas de Hemofilia, uma doença genética que impede o sangue de coagular normalmente, que, na altura, era não tinha cura e, normalmente, levava à morte.

Sendo  neta da rainha Vitória, Alexandra era portadora do mesmo gene que afectou várias famílias reais europeias como a espanhola e a prussiana, um facto que fez com que a doença fosse chamada de "doença real”. Alexandra acabou por passar esse gene ao seu filho.

Nicolau com o seu filho Alexei
Devido ao período conturbado que a sua autoridade atravessava na altura, Nicolau e Alexandra escolheram não divulgar a doença de Alexei a ninguém fora do circulo real mais próximo. De facto, havia muitos membros dentro da própria família real, incluindo a mãe do czar, o seu irmão Miguel e a irmã Xenia, que não sabiam ao certo de que doença sofria o czarevich.

Numa primeira fase, Alexandra virou-se para médicos russos para tratar de Alexei, contudo os seus tratamentos falharam e a czarina começou a virar-se cada vez mais para o misticismo e para os chamados “homens santos”. Um deles, Gregório Rasputine, pareceu ter algum sucesso na cura do seu filho.

Como governador absoluto (e pai de quatro filhas até ao nascimento do czarevich), até 1905, Nicolau tinha total liberdade para alterar as Leis de Sucessão do Império Russo para que uma das suas filhas pudesse suceder ao trono. Estas leis foram instauradas na época de Paulo I após a morte da sua mãe, a imperatriz Catarina, a Grande, mais como uma vingança contra ela do que para organizar a sucessão. Estas leis impediam que uma mulher subisse ao trono, a não ser que não houvesse homens na linha de sucessão. Por razões nunca conhecidas, Nicolau optou por não mudar ou abolir estas leis.

Nicolau com a sua filha mais velha, Olga. Muitos acreditavam que, se Alexei não sobrevivesse à infância, Nicolau teria alterado as leis de sucessão de modo a permitir que a sua filha mais velha se tornasse czarina da Rússia. O seu breve noivado com Dmitri Pavlovich em 1913, pouco depois de Alexei sofrer uma grave crise de Hemofilia em Spala que o colocou entre a vida e morte, parece indicar essa intenção. No entanto, essa alteração acabaria por nunca ser feita.

Nicolau foi descrito como um pai atencioso e afável para com todos os seus filhos que raramente castigava sem, no entanto, se descuidar em criá-los da forma mais simples possível para que estes não ficassem demasiado fascinados com a fortuna de que dispunham.

Segundo relatos da altura, de todos os seus filhos, aquela que se parecia mais consigo tanto física como psicologicamente era a sua terceira filha Maria que alguns diziam ser a sua favorita, embora fosse muito próximo de todos.

Nicolau com três das suas filhas: Anastásia, Tatiana e Olga

Quando o arquiduque Francisco Fernando da Áustria foi assassinado por Gavrilo Princip, um membro da associação nacionalista servia conhecida por “Mão Negra”, em Sarajevo do dia 28 de Junho de 1914, Nicolau vacilou relativamente à posição que a Rússia deveria tomar. O país tinha assinado vários tratados de protecção com a Sérvia e, por isso, tornava-se difícil aceitar o ultimato proveniente do Império Austro-Húngaro para cortar relações com o país, mas o czar também não desejava provocar uma guerra total. Numa série de cartas trocadas com o seu primo, o kaiser alemão (a chamada “correspondência Willy e Nicky), os dois proclamaram o seu desejo de manter a paz e cada um tentou fazer com que o outro desistisse. Nicolau pôs em marcha medidas drásticas em seu favor, mobilizando as suas tropas para a fronteira Austríaca, na esperança de prevenir a guerra com o Império Alemão.

Nicolau com o kaiser Guilherme II da Alemanha em 1894
Os russos não tinham planos alternativos para uma mobilização parcial e, no dia 31 de Julho de 1914, Nicolau deu um passo em falso, confirmando a ordem para uma mobilização geral que incluía a invasão da Alemanha, apesar de ter sido aconselhado vivamente para não o fazer. Como a Alemanha e o Império Austro-húngaro tinham acordos mútuos de defesa, isto levou quase imediatamente à mobilização alemã, à declaração de guerra e, inevitavelmente, ao rebentar da Primeira Guerra Mundial. A guerra era um grande perigo para a estabilidade da dinastia Romanov. O conde Witte disse ao embaixador francês que, do ponto de vista russo, a guerra era uma loucura, a solidariedade para com a Servia não fazia sentido e a Rússia não podia esperar ganhar alguma coisa com o conflito.

O rebentar da guerra no dia 1 de Agosto de 1914 destacou a falta de preparação militar russa. Tanto o país como os seus aliados depositaram a sua fé no seu famoso “Esmagador Exército Russo”. A sua mobilização  antes da guerra era de 1,400,000 homens aos quais foram acrescentados 3,100,000 homens de reserva após o inicio propriamente dito das hostilidades, isto além dos milhões de homens que o país tinha disponíveis para começar a combater assim que fossem chamados. Em todos os outros aspectos, no entanto, a Rússia não estava minimamente preparada. A Alemanha tinha dez vezes mais caminhos-de-ferro por quilómetro quadrado, ou seja, enquanto um soldado russo tinha de percorrer, em média 1,290 quilómetros para chegar à frente de combate, um soldado alemão tinha apenas de percorrer um quarto dessa distância. A indústria pesada russa era ainda demasiado insuficiente para equipar os seus gigantescos exércitos e as suas reservas e munições eram extremamente diminutas. Com o mar báltico ocupado por barcos alemães e os Dardanelos cercados pela sua antiga aliada Turquia, a Rússia apenas podia receber ajuda através de Arcangel, uma cidade que se tornava quase mortalmente gelada no Inverno, ou então por Vladivostok, que se encontrava a mais de 6400 quilómetros da frente de combate. O Alto Comando Russo estava cada vez mais enfraquecido pelo mútuo ódio entre Vladimir Sukhomlinov, Ministro da Guerra, e o temido e gigantesco guerreiro grão-duque Nicolau Nikolaievich que comandava os exércitos em campo. Apesar de tudo isto, um ataque imediato foi ordenado contra a província alemã da Prússia Oriental. Os alemães mobilizaram-se lá com grande eficácia e derrotaram completamente os dois exércitos russos que os tinham invadido.

Nicolau II rodeado de oficiais durante a Primeira Guerra Mundial
As baixas totais sofridas na Primavera e Verão de 1915 eram de 1,400,000 mortos ou feridos, e 976,000 prisioneiros de guerra. No dia 5 de Agosto, com a retirada do exército, Varsóvia caiu em mãos alemãs. As pesadas derrotas na frente traziam desordem no seio do país. Inicialmente,  os alvos eram os alemães e, durante três dias em Junho, as lojas, padarias, fábricas, casas privadas e terrenos que pertenciam a pessoas com nomes alemães foram saqueados e/ou queimados. Depois as multidões zangadas viraram-se para o governo, declararam que a imperatriz (nascida na Alemanha) deveria ser enviada para um convento, o czar destituído e Rasputine enforcado.

Nicolau não ignorava de todo este descontentamento. Foi marcada uma sessão de emergência com a Duma e foi criado um Concelho de Defesa Especial, constituído por membros da Duma e ministros do czar.

Em Julho de 1915, o rei Cristiano X da Dinamarca, primo direito do czar, enviou Hans Niels Andersen a Czarskoe Selo com uma oferta para servir de mediador entre os vários países. Fez várias viagens entre Londres, Berlim e Petrogrado e, em Julho, encontrou-se com a sua tia e mãe do czar, Maria Feodorovna. Andersen disse-lhe que deveriam concluir o processo de paz, mas Nicolau optou por recusar a oferta do primo.

Maria Feodorovna (mãe de Nicolau) com o seu sobrinho e primo de Nicolau, o rei Cristiano X da Dinamarca

O energético o e eficiente General Polivanov substituiu Sukhomlinov como Ministro da Guerra. A situação não melhorou e as retiradas continuaram a suceder-se. Influenciado por Alexandra, que o convenceu de que aquele era o seu dever e que a sua presença iria inspirar as tropas, o czar Nicolau II decidiu comandar o seu próprio exercito directamente contra os conselhos da sua família e governo. Assumiu a posição de comandante-em-chefe depois de dispensar os serviços do seu primo, o respeitado e experiente grão-duque Nicolau Nikolaevich em Setembro de 1915, a seguir à perda da Polónia. Este foi um erro fatal, uma vez que ele passou a ser culpado directamente pelas batalhas que se continuaram a perder. Além disso, o czar permaneceu “escondido” num quartel em Mogilev, muito longe tanto da frente de combate como da capital do país onde o governo passou a ser chefiado pela sua inexperiente esposa.

Nicolau com o seu primo, o grão-duque Nicolau Nikolaevich


Sendo  alemã, Alexandra era extremamente odiada. A Duma estava constantemente a pedir reformas políticas e a instabilidade continuou ao longo de todo o período de guerra. Distanciado da opinião pública na capital, Nicolau recusou-se a ver o cansaço que população em geral sentia da sua dinastia e o quanto as pessoas odiavam a sua mulher. Tinha sido repetidamente avisado em relação à influência destrutiva de Gregório Rasputine, mas tinha falhado na tentativa de o afastar. Nicolau recusara censurar a imprensa e os rumores selvagens e acusações contra Alexandra e Rasputine apareciam quase diariamente. Alexandra foi até acusada de traição devido às suas raízes alemãs. Zangados com a inércia de Nicolau relativamente ao grande mal que Rasputine estava a causar à família e ao país, um grupo de nobres liderados pelo príncipe Yussupov e pelo grão-duque Dmitri Pavlovich, primo do czar, conseguiu assassinar o monge siberiano do dia 16 de Dezembro de 1916.

Nicolau II com o filho Alexei e o primo, o grão-duque Dmitri Pavlovich, um dos assassinos de Rasputine

Na Primavera de 1917, a Rússia estava prestes a entrar em colapso. O exército tinha levado 15 milhões de homens do campo, o que fez com que houvesse menos mão-de-obra e os preços aumentassem. Um ovo custava quatro vezes mais do que em 1914 e a manteiga, cinco vezes mais. O Inverno severo desse ano destruiu muitos troços de caminho-de-ferro, o que atrasou a distribuição de mantimentos e munições para o exercito. Como golpe final, o país tinha começado a guerra com 20,000 locomotivas, das quais apenas 9000 estavam em serviço em 1917, enquanto que o número de vagões tinha diminuído de meio milhão para 170,000. Em Fevereiro de 1917, 1200 locomotivas foram bombardeadas e quase 60,000 vagões foram imobilizados. Em Petrogrado as reservas de farinha e combustível esgotaram-se completamente.

Em Fevereiro de 1917, na capital do Império Russo, uma combinação de tempo frio severo aliada a um corte nas reservas de comida nos armazéns, fez com que a população começasse a partir janelas de lojas para conseguir pão e outras necessidades. Nas ruas apareceram faixas vermelhas e as multidões gritavam: “Abaixo com a mulher Alemã!”, "Abaixo com Protopopov!”, “Abaixo com a guerra!” A policia começou a disparar contra a população dos telhados, o que provocou vários motins. As tropas em Petrogrado estavam pouco motivadas e os seus oficiais não tinham razões para ser leais ao regime. Estavam zangados e cheios de fervor revolucionário e rapidamente se juntaram à população. O governo implorou a Nicolau para que regressasse a Petrogrado e que abdicasse voluntariamente. A 800 quilómetros de distância, o czar, mal informado pelo seu general Protopopov, de que a situação estava controlada, ordenou que fossem tomadas medidas drásticas contra os manifestantes. Em Petrogrado havia 170,000 recrutas, rapazes do campo ou homens mais velhos dos subúrbios de classes trabalhadoras para manter o controlo na cidade sob o comando dos oficiais inválidos da frente de combate, e cadetes das academias militares. Muitas unidades com falta de oficiais e munições, nunca chegaram a ter qualquer tipo de treino. O General Khabalov tentou pôr as ordens do czar em prática na manhã de 11 de Março de 1917. Apesar dos grandes cartazes que ordenavam às pessoas para se afastarem das ruas, grandes multidões juntaram-se e apenas se começaram a separar depois de cerca de 200 pessoas terem sido abatidas a tiro, apesar de o regimento de Volinsky ter disparado para o ar e não para a multidão e uma companhia de Pavlovsky ter morto o oficial que tinha dado a ordem para disparar. Quando informado da situação, Nicolau ordenou o reforço das tropas na capital e a dissolução da Duma.

Revolução de Fevereiro de 1917
Era tarde demais. No dia 12 de Março, o regimento de Volinsky revoltou-se e foi rapidamente seguido de quase todos os outros, incluindo a legendária Guarda Preobrajensky, o mais antigo e consistente regimento do czar, fundado por Pedro, o Grande. O arsenal foi pilhado, o Ministério do Interior, o edifício do Governo Militar, esquadras de polícia, tribunais e muitos outros centros de poder foram queimados. Ao meio-dia, a Fortaleza de Pedro e Paulo, com a sua artilharia pesada, estava nas mãos dos revoltosos. Quando caiu a noite, 60,000 soldados já se tinham juntado à revolução. Instalou-se a confusão e membros da Duma formaram um Governo Provisório para tentar restaurar a ordem, mas era impossível mudar o curso da revolução. Já a Duma e os Sovietes tinham formado os núcleos de um Governo Provisório e decidido que Nicolau II deveria abdicar. Confrontado com esta exigência, que foi repetida por todos os seus generais, desprovido de tropas leais, com a sua família firmemente nas mãos do Governo Provisório , o medo crescente de uma guerra civil e a abertura do caminho para uma conquista alemã, Nicolau não teve outra escolha senão aceitar. No final da “Revolução de Fevereiro” de 1917 (Fevereiro de acordo com o antigo calendário russo), no dia 2 de Março (15 de Março do calendário gregoriano), Nicolau II foi forçado a abdicar. Na sua primeira carta, Nicolau abdicou em nome do seu filho Alexei, mas depois acabou por mudar de ideias ao ouvir os conselhos dos médicos que afirmavam que o herdeiro não poderia sobreviver por muito tempo longe dos pais que teriam de ser exilados. Assim, o czar assinou uma nova carta onde nomeava o seu irmão, o grão-duque Miguel, como o novo imperador de todas as Rússias.

O grão-duque Miguel recusou-se a aceitar o trono até que as pessoas fossem autorizadas a votar através de uma Assembleia Constituinte para saber se a população queria permanecer sob um regime monárquico ou preferia enveredar por uma república. Ao contrário do que se pensa, Miguel nunca abdicou, simplesmente atrasou a posse do poder.

O grão-duque Miguel Alexandrovich, irmão de Nicolau
No dia 22 de Março de 1917, Nicolau, já deposto, juntou-se à sua família no Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo. Toda a família e todos os criados que os desejassem acompanhar foram condenados a prisão domiciliária pelo Governo Provisório. Rodeados pelos seus guardas, presos nos seus aposentos, a família imperial foi rudemente inspeccionada na primeira noite em que Nicolau chegou. O ex-czar permaneceu calmo e digno e até insistiu em rever as lições dos filhos. Continuou a acompanhar os desenvolvimentos da guerra através dos jornais, mas ficou chocado com a forma alegre e luxuosa como a imprensa contava histórias sobre Rasputine e a imperatriz através das “confissões” de antigos criados e das histórias sobre as vidas privadas dos proclamados “amantes” das suas quatro filhas.

Em Agosto de 1917, o governo de Kerensky evacuou a família para Tobolsk, nos Montes Urais, alegando estar a protegê-los do crescente perigo que uma nova revolução lhes poderia trazer. Lá, os Romanov viveram com grande conforto.

Nicolau II durante o seu período de prisão no Palácio de Alexandre
Depois de os bolcheviques chegarem ao poder em Outubro de 1917, as condições da sua detenção passaram a ser mais rigorosas e várias vozes se levantavam a favor de levar Nicolau a julgamento. O ex-czar seguiu os acontecimentos com interesse, sem, no entanto, se alarmar excessivamente. Continuou a subestimar a importância de Lenine, mas já começava a compreender que a sua abdicação tinham feito mais mal que bem à Rússia. Entretanto ele a família ocupavam o seu tempo a tentar manter-se quentes numa região onde as temperaturas chegavam a atingir os 55.6 graus negativos. O domínio soviético significava agora restrições cada vez mais ridículas. O czar estava proibido de usar epaulettes e os sentinelas desenhavam desenhos rudes nas paredes para ofender as filhas. No dia 1 de Março de 1918, a família foi obrigada a comer apenas o que sobrava dos soldados que tinham de partilhar entre si e os 10 servos que continuavam com eles.

Nicolau II com os filhos em Tobolsk
À medida que a contra-revolução do Movimento Branco ganhava força, levando a uma guerra civil de grande escala no Verão, Nicolau, Alexandra e a sua filha Maria foram levados em Abril para Ecaterinburgo. Alexis estava demasiado doente para acompanhar os seus pais e permaneceu por mais um mês em Tobolsk com as suas irmãs Olga, Tatiana e Anastasia. A família foi presa com os poucos criados que restavam na Casa Ipatiev (conhecida como a “Casa Para Fins Especiais”), um posto de comando bolchevique fortemente militarizado.

Nicolau, Alexandra, os seus filhos, o médico e os três criados que restavam, foram acordados e levados para a cave da casa onde seriam executados às 2:30 da manhã do dia 17 de Julho de 1917. Um anúncio oficial apareceu na imprensa nacional dois dias depois, informando que o monarca tinha sido executado por ordem do Presidium do Soviete da Região Ural. Agora é do conhecimento geral que Lenine tinha ordenado pessoalmente a execução de toda a família. Apesar de vários terem colocado a responsabilidade da decisão naquele Soviete, o diário de Trotsky é bem claro quanto ao facto de o assassinato ter decorrido sob a ordem de Lenine:

A minha outra visita a Moscovo decorreu depois da queda de Ecaterimburgo. Durante uma conversa com o Sverdlov, perguntei-lhe de passagem, 'Ah sim, e onde está o czar?' 'Está por todo o lado,' respondeu ele. 'Ele foi morto.' 'E onde está a família?' 'A família morreu com ele.' 'Todos eles?', perguntei eu, pelos vistos um pouco surpreendido. 'Eles todos', replicou o Sverlov. 'O que tem?' Ele estava à espera de ver a minha reacção. Eu não disse nada. 'E quem tomou essa decisão?', perguntei. 'Decidimos aqui. O Ilyich (Lenine) achou que não os devíamos deixar vivos, especialmente com os Brancos tão perto, tendo em conta as circunstâncias.'"


Os corpos do czar e da sua família seriam apenas descobertos em 1979 por dois investigadores russos e apenas veriam a luz do dia após a queda do regime comunista 10 anos mais tarde. O funeral seria realizado no dia 18 de Julho de 1998, 80 anos depois da execução ainda sem os corpos de Alexei e Maria.

Última fotografia conhecida de Nicolau II

Nicolau II morreu com 50 anos de idade, afirmando no dia do seu aniversário, dois meses antes, que estava surpreendido por ter vivido tanto tempo.