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quinta-feira, 9 de março de 2017

[Notícias] - Descendente dos Romanov emociona-se ao recordar a morte da família

A princesa Olga Romanoff na série documental "The Royal House of Windsor"
A princesa Olga Romanoff, filha do príncipe André Alexandrovich da Rússia, sobrinho do czar Nicolau II, emocionou-se recentemente quando recordou a morte de vários membros da família entre 1918 e 1919 e o facto de o rei Jorge V do Reino Unido não os ter ajudado, recusando-lhes exílio em Inglaterra.
No primeiro episódio da série documental "The Royal House of Windsor", emitida pelo Channel 4 no Reino Unido, a princesa Olga Andreevna, de 66 anos de idade, recordou o seu avô, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, afirmando "o meu avô tinha sido um dos conselheiros de Nicolau [II da Rússia] e acho que se ele tivesse ouvido os conselhos do meu avô, é possível que este desastre não tivesse acontecido", tendo-se emocionado de seguida.
Depois, Olga acrescentou que o seu pai, o príncipe André, "nunca, nunca culpou o Jorge [V do Reino Unido] por isso. Sempre disse que tinha sido por causa do primeiro-ministro, mas, pelos vistos, não foi o primeiro-ministro de todo, foi tudo culpa do Jorge. Fico aliviada por o meu pai ter morrido antes de encontrar aquela carta [onde Jorge afirmava que não era prudente receber Nicolau II e a família em Inglaterra] porque teria ficado muito transtornado."

Parte da família da princesa Olga Romanoff: os seus avós Alexandre Mikhailovich e Xenia Alexandrovna, o pai, o príncipe André, e a tia, a princesa Irina Alexandrovna.
Muitos criticaram a princesa Olga pelas suas palavras, uma vez que, embora não tenha permitido a ida de Nicolau II e da sua família mais próxima para o Reino Unido, mais tarde, em Dezembro de 1918, o rei Jorge V enviou um navio inglês, o HSM Marlborough, à Crimeia para salvar outros membros da família Romanov, incluindo a bisavó (Maria Feodorovna), avós (Alexandre Mikhailovich e Xenia Alexandrovna), o pai e os tios de Olga. Outros acrescentaram também que a reacção de Olga parece exagerada, tendo em conta que ela nasceu trinta anos depois da tragédia, em 1950.
No entanto, há também muitos que a defendem, recordando que a morte de 18 membros da família no espaço de alguns meses deixou para sempre as suas marcas nos sobreviventes e que foi nessa atmosfera que Olga foi criada. Também se destaca o facto de, apesar de ter salvo a família mais próxima de Olga, foi de facto a falta de acção de Jorge V relativamente ao resto da família que contribuiu directamente para as suas mortes.
Para saber mais sobre a forma como Jorge V do Reino Unido agiu para com a família Romanov, podem consultar a primeira e a segunda parte do artigo "Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov" neste blog.
O documentário está disponível online aqui, mas apenas no território do Reino Unido.



Quem é a princesa Olga Romanoff?


Nascida a 8 de Abril de 1950 em Londres, no Reino Unido, a princesa Olga Romanoff é a única filha do segundo casamento do príncipe André Alexandrovich da Rússia com Nadine Sylvia Ada McDougall, proveniente de uma família abastada de Inglaterra. Olga tem três meios-irmãos do primeiro casamento do pai, incluindo o actual chefe da família Romanov e presidente da Associação da Família Romanov, o príncipe André Andreyevich Romanov.

Durante a década de 1970, Olga chegou a ser considerada como uma possível candidata a noiva do príncipe de Gales, Carlos, mas acabaria por se casar em 1975 com Thomas Mathew com quem teve quatro filhos antes de os dois se separarem em 1989.

Olga é conhecida por participar em vários reality shows, nomeadamente o "Australian Princess", onde foi uma das mentoras e o "You Can't Get This Staff" onde apresentava os seus criados. Também um dos seus filhos, Francis Alexander Mathew participou na versão ucraniana do programa "The Bachelor" e noutro reality show chamado "Secret Princes".

Actualmente, Olga é uma das organizadoras do Baile de Debutantes Russas que se realiza todos os anos em Londres e está também a escrever um livro de memórias.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich - A Última Visita ao Palácio de Alexandre

O grão-duque Alexandre Mikhailovich da Rússia (1866-1933)
O ano novo de 1917 começou com grandes mudanças no executivo e ainda mais tristeza. O príncipe Golitzin, recentemente nomeado primeiro-ministro, era uma caricatura da palavra francesa “ramolli”. Não compreendida nada, não sabia nada e só o Nicky e a Alix poderiam explicar porque se lembraram de nomear aquele antigo cortesão sem qualquer experiência administrativa. Juntamente com o ministro do interior, Protopopoff, um cobarde histérico e antigo liberar que se transformou em conservador ortodoxo graças à magia de Rasputine, os dois eram um par extraordinário que assentava que nem uma luva no acto final da Morte da Nação.

O grão-duque Alexandre com a sua esposa, a grã-duquesa Xenia
Em inícios de Fevereiro, recebi ordens da Stavka para estar presente numa conferência em São Petersburgo com os representantes dos governos aliados para discutir as munições que iriamos precisar para os doze meses seguintes. Decidi aproveitar esta oportunidade para me encontrar com a Alix. Em Dezembro, durante a minha última visita à cidade, não a quis incomodar [esta visita do grão-duque realizou-se pouco depois do assassinato de Rasputine], mas, desta vez, sentia-me zangado o suficiente para lhe dizer aquilo que pensava. A esta altura já todos esperávamos que rebentasse uma revolta na capital. Alguns “especialistas” diziam que essa revolta seria iniciada dentro do palácio, o que significava que o czar seria obrigado a abdicar a favor do seu filho Alexei e os poderes da regência seriam entregues a um conselho de pessoas que “compreendiam o povo russo”. Este projecto deixou-me estupefacto. Nunca tinha conhecido ninguém que compreendesse o povo russo. A ideia parecia-me ter origem estrangeira e acabaria por descobrir que tinha surgido da embaixada britânica. Um jovem rico e bem-parecido visitou-me em Kiev pouco tempo depois e falou-me por alto deste plano extraordinário, inventado pelos britânicos. Disse-lhe que tinha escolhido o homem errado para se confessar, uma vez que jamais um grão-duque poderia quebrar o juramento que tinha feito ao imperador. Foi a estupidez dele que o livrou de ser castigado de forma mais severa. Depois da revolução, tornou-se um criado muito estimado do senhor Kerensky e ocupou os cargos de ministro das finanças e ministro dos assuntos estrangeiros.

Alexandra, Xenia e Alexandre por volta de 1912
Assim, cheguei a São Petersburgo, felizmente pela última vez na vida. No dia que tinha sido marcado para a minha conversa com a Alix, chegou uma mensagem de Czarskoe Selo a informar-me de que ela não se sentia bem e que não me podia receber. Escrevi-lhe uma carta pouco simpática onde lhe implorava que me deixasse falar com ela, uma vez que só ia estar na capital alguns dias. Enquanto esperava pela resposta dela, falei com várias pessoas. O meu cunhado, Misha [o grão-duque Miguel Alexandrovich] estava na cidade e sugeriu que devíamos falar com o irmão dele [Nicolau II], um de cada vez, assim que eu conseguisse falar com a Alix. O presidente da Duma, o senhor Rodzianko, um homem gordo e insípido, visitou-me e informou-me de uma série de rumores, teorias e planos anti-dinásticos. A arrogância dele não tinha limites. Juntamente com as suas deficiências mentais, parecia o bobo da corte das comédias medievais. Um mês depois, deu a Cruz de São Jorge a um soldado do Regimento Volinsky que tinha sido o primeiro homem a matar o seu comandante em 1917. Nove meses depois, Rodzianko foi obrigado a fugir de São Petersburgo quando passou a ser perseguido pelos bolcheviques.

O grão-duque Alexandre (esq.) com soldados durante a Primeira Guerra Mundial
Depois recebi um convite da Alix para um lanche em Czarskoe Selo. Ah, aqueles lanches! Tenho a sensação que desperdicei quarenta anos da minha vida naqueles lanches em Czarskoe Selo.

A Alix estava na cama e prometeu receber-me assim que terminássemos a refeição. Na mesa havia oito pessoas: o Nicky, eu, o herdeiro, as quatro grã-duquesas imperais e o ajudante-de-campo Linevich. As meninas estavam vestidas com os seus uniformes da Cruz Vermelha e falaram do trabalho que estavam a fazer no seu hospital. Já não as via desde a primeira semana da guerra e achei que estavam crescidas e muito bonitas. A mais velha, Olga, tinha opiniões muito parecidas com a sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna. A segunda mais velha, Tatiana, era a mais bonita da família. Estavam todas bem-dispostas Não sabiam nada sobre os eventos políticos que estavam a acontecer. Brincaram com o irmão e elogiaram os feitos da sua tia Olga. Foi a última vez que me sentei na mesa deles em Czarskoe Selo e, por isso, foi também a última vez que vi os filhos do czar.

Grão-duque Alexandre Mikhailovich (centro) com o czar Nicolau II e as grã-duquesas Olga Alexandrovna, Xenia Alexandrovna, Tatiana e Olga
Tomámos o café no salão lilás enquanto o Nicly foi até à sala ao lado para avisar a Alix que eu já estava pronto para a ver.

Entrei com cuidado. A Alix estava deitada na cama, vestida com uma camisa de dormir beje e com uma expressão de preocupação no seu belo rosto que parecia anunciar problemas para este intruso indesejado. Estava prestes a ser atacado, o que me deixou triste, uma vez que não vinha como inimigo, mas sim para ajudar. Também não gostei de ver o Nicky sentado ao lado dela na cama, uma vez que, na minha carta, tinha pedido especificamente para falar com ela em privado. Seria embaraçoso avisá-la que estava a arrastar o marido para o abismo com ele presente.

Alexandra Feodorovna
Beijei-lhe a mão e ela tocou ao de leve na minha bochecha com os seus lábios: a saudação mais fria que ela alguma vez me deu desde que nos conhecemos em 1893. Peguei numa cadeira e coloquei-a perto da cama, em frente a uma parede coberta de ícones iluminados por dois círios.

Comecei a apontar para os ícones e a dizer que gostava de falar com ela tão abertamente como se me estivesse a confessar ao meu padre. Dei-lhe uma ideia geral da situação política, hesitei em dizer-lhe que a propaganda revolucionária já tinha penetrado por toda a população e que os liberais e caluniosos estavam a acreditar nela.

Ela interrompeu-me zangada:

Isso não é verdade. A nação continua a ser-lhe leal”, disse, virando-se para o Nicky. “Só a Duma traiçoeira e a sociedade de São Petersburgo é que estão contra ele.

Alexandra e Nicolau em 1917
Admiti que a afirmação dela estava, em parte, correcta.

Alix, não há nada mais perigoso do que uma meia-verdade”, disse-lhe, olhando-a directamente nos olhos. “A nação é leal ao seu czar, mas a nação também está indignada com a influência que aquele homem, o Rasputine, exerceu. Ninguém sabe melhor do que eu o amor e devoção que tens pelo Nickly e, no entanto, tenho de confessar que a tua interferência nos assuntos de estado está a prejudicar tanto o prestígio do Nicky como a concepção que o povo tem do seu czar. Sempre fui um dos teus amigos mais fiéis, Alix, durante vinte-e-quatro anos. Continuo a sê-lo e, como teu amigo, tenho de te avisar que todas as classes estão contra as tuas políticas. Tens uma bela família, porque não te dedicas a assuntos que tragam paz e harmonia? Por favor, Alix, deixa os assuntos de estado para o teu marido.

Ela corou e olhou para o Nicky. Ele não disse nada e continuou a fumar. É triste que, quando falo do comportamento do último czar em momentos de crise, tenha de repetir sempre a mesma frase: “não disse nada e continuou a fumar.” Mas o que posso fazer se, qualquer outra frase não corresponde à verdade?

Nicolau II por volta de 1915
Continuei. Expliquei que, por muito que fosse contra as reformas parlamentares na Rússia, acreditava que conceder um governo aceitável à Duma iria retirar responsabilidades ao Nicky e tornar a tarefa dele mais fácil.

Por favor, Alix, não deixes que a tua sede de vingança supere o teu bom senso. Se houvesse uma mudança radical nas nossas políticas, poderíamos desviar a raiva da população. Não deixes que essa raiva expluda.

A Alix escarniou-me. “Esta conversa é ridícula. O Nicky é um autocrata. Como pode partilhar os seus direitos divinos com um parlamento?

Alexandre Mikhailovich com a sua esposa, Xenia
Estás muito enganada, Alix. O teu marido deixou de ser autocrata no dia 17 de Outubro de 1905. Só nesse dia é que ele podia ter pensado nos direitos divinos dele. Agora é tarde demais. Talvez daqui a dois meses já não reste nada deste nosso país que nos faça lembrar que alguma vez existiram autocratas no trono dos nossos antepassados.”

Ela deu-me uma resposta incoerente e levantou a voz, o que me levou a levantar também a minha. Nessa altura, decidi mudar o tom da conversa.

Lembra-te, Alix, que estive calado durante trinta meses!” Gritei enfurecido. “Durante trinta meses, nunca te disse uma palavra sobre os acontecimentos escandalosos do governo, do teu governo! Estou a ver que estás disposta a morrer e que o teu marido é da mesma opinião, mas então e nós? Temos de sofrer todos por causa da tua teimosia cega? Não, Alix, não tens o direito de arrastar os teus parentes contigo para o precipício! Estás a ser profundamente egoísta!

Alexandra Feodorovna
Recuso-me a continuar com esta discussão," disse ela, friamente. “Estás a exagerar o perigo. Um dia destes, quando não estiveres tão zangado, vais admitir que eu é que tinha razão.”

Levantei-me, beijei-lhe a mão, ela não me cumprimentou, e fui-me embora. Nunca mais a voltei a ver.

Quando passei pelo salão lilás, vi o ajudante-de-campo do czar, o Linevich, a falar com a Olga e a Tatiana. A presença dele, mesmo ao lado do quarto da czarina, surpreendeu-me. A Madame Vyrobovna, a principal confidente da Alix durante os últimos anos do regime, e uma grande admiradora do Rasputine, diz nas suas memórias que “a czarina tinha medo que o grão-duque Alexandre perdesse a compostura e fizesse algum disparate.” Se isso for verdade, então a Alix não tinha mesmo noção do que se passava, o que pode justificar a sua teimosia.

Alexandra, Nicolau e o grão-duque Miguel Alexandrovich
No dia seguinte, o Misha e eu falamos com o czar, o que foi uma perda de tempo tanto para ele como para nós. Eu praticamente não consegui falar. Os nervos e as emoções não me deixaram. “Obrigado, Sandro, pela carta que me enviaste de Kiev.” Foi a única referência que fez às várias páginas que lhe escrevi com conselhos.

Alexandre Mikhailovich
Texto retirado do livro de memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich "Once a Grand Duke".

terça-feira, 10 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Segunda Parte


O irmão de Anastásia Mikhailovna, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, com a grã-duquesa Xenia Alexandrovna. Este foi o primeiro casamento entre membros da família Romanov e apenas pôde ser celebrado porque os dois eram primos em segundo grau. Alexandre e Xenia conheceram-se porque faziam parte do mesmo grupo de primos e amigos que cresceu junto na década de 1880. Os dois começaram por ser amigos, apesar de ele ser mais velho nove anos do que a sua futura noiva e os seus sentimentos começaram a desenvolver-se quando Xenia estava a meio dos seus anos de adolescente. Alexandre III e Maria Feodorovna não estavam muito convencidos desta união, em parte porque Xenia era ainda muito nova e em parte porque não sabiam se podiam confiar no carácter de Alexandre. Mas a persistência acabaria por ser compensada e, em 1894, após a intervenção do grão-duque Miguel Nikolaevich, pai de Alexandre, o noivado foi anunciado. Mas mesmo assim houve percalços. A czarina não gostava da arrogância e falta de educação de Alexandre ao mesmo tempo que este se queixava que teria de esperar demasiado tempo entre o noivado e o casamento. A cerimónia celebrou-se em Peterhof a 6 de Agosto de 1894.


Alexandre e Xenia com a sua primeira filha, a princesa Irina Alexandrovna, por volta de 1896. Apesar de terem tido mais seis filhos, todos rapazes, a atracção romântica entre o casal não durou muito. O grão-duque não estava satisfeito com o rumo dos acontecimentos na Rússia e começou a ficar cada vez mais frustrado com a vida na corte. Ao fim de cerca de doze anos de casamento, tanto ele como Xenia começaram a passar longos períodos de tempo fora da Rússia. Ambos tiveram amantes com o total conhecimento do outro. No caso de Alexandre tratou-se de uma mulher identificada apenas como "Maria Ivanovna"; no caso de Xenia foi um inglês chamado Fane que ainda trocava correspondência com ela durante a Primeira Guerra Mundial. Apesar de tudo, Xenis e Alexandre continuaram casados em nome e estão enterrados ao lado um do outro.


A grã-duquesa Helena Vladimirovna com o seu noivo, o príncipe Max de Baden. O príncipe Max era neto da grã-duquesa Maria Nikolaevna da Rússia, duquesa de Leuchtenberg. Era um jovem atraente e rico e, por isso, não faltavam mães da realeza desejosas por ver as suas filhas casadas com ele. Em 1898, parecia que a grã-duquesa Maria Vladimirovna tinha ganho o grande prémio quando Max ficou noivo da sua filha Helena. Foram publicados os anúncios e tiradas as fotografias, mas o príncipe mudou de ideias. Os Vladimirovich ficaram furiosos e começaram a espalhar-se rumores de que Maria Vladimirovna estava a ficar desesperada para casar a sua filha. Em 1900, o nome de Helena foi sugerido para uma possível união com o rei da Bulgária, que tinha ficado viúvo pouco tempo antes. Nesse mesmo ano, o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, terceiro filho da rainha Olga da Grécia, pediu Helena em casamento, mas Maria Pavlovna repreendeu a filha por encorajar um homem sem perspectivas nem fortuna. Estava mais virada para o príncipe Alberto, futuro rei da Bélgica, mas ele recusou todos os seus convites para visitar a Rússia e acabaria por anunciar o seu noivado com a princesa Isabel da Baviera pouco tempo depois.

Helena Vladimirovna e Nicolau da Grécia e Dinamarca
Em Junho de 1902, Maria Pavlovna admitiu a derrota e deu permissão à filha para aceita o pedido de casamento do príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca. A tia dele, a czarina Maria Feodorovna, tinha as suas dúvidas: "A forma como foram criados e como vêm a coisas são tão diferentes e divergentes. Será necessária muita paciência de ambos os lados. É verdade que ela tem um tom brusco e arrogante que pode chocar as pessoas". Mas a rainha Olga, que estava afastada da velha rivalidade que sempre tinha colocado as duas Marias em campos opostos, tinha mais esperança na união e acabaria por ter razão. A ideia de superioridade que a mãe de Helena lhe tinha transmitido causou sempre problemas na família, mas eles dois, Helena e Nicolau foram sempre felizes e tiveram um longo casamento do qual resultaram três filhas.


A grã-duquesa Olga Alexandrovna com o seu marido, o duque Pedro de Oldemburgo, pouco depois do seu noivado na primavera de 1901. Quando era já idosa e estava a viver no Canadá, Olga recordou o seu primeiro casamento como uma fachada vazia. Sentia que tinha sido enganada ao aceitar a proposta de Pedro e o seu biografo, Ian Vorres, concluiu que a mãe dela teria arranjado a união para manter a sua filha por perto. No entanto, não foi esse o caso. Os documentos da época mostram que Maria Feodorovna ficou admirada e divertida com o facto de Olga ter aceite a proposta. Era um par improvável: Pedro tinha trinta-e-dois anos, enquanto Olga tinha apenas dezoito. O duque era tão adoentado e cansado como Olga era robusta e energética. Mas ela aceitou o pedido e, durante os primeiros anos de casamento, pelo menos ele estava muito apaixonado: "Minha queria e doce Olga (...) sinto muito a tua falta e a nossa casa parece morta sem ti. Fui até ao teu quarto e fiquei a pensar nos tempos que passamos aqui juntos e vieram-me as lágrimas aos olhos." Fazes-me feliz  porque sei que és feliz. Abraço-te com amor". O homem frio e desinteressado descrito nos relatos mais conhecidos não teria encontrado palavras para exprimir estes sentimentos. Talvez o problema fosse o facto de haver poucos sentimentos. Por razões ainda não completamente apuradas, o casamento desfez-se e Olga, ao recordá-lo da perspectiva de um segundo casamento feliz, apenas o conseguia recordar como uma falha.


Outro noivado recordado de uma perspectiva retorcida foi o da grã-duquesa Maria Pavlovna Júnior com o príncipe Guilherme da Suécia, arranjado pela tia de Maria, a grã-duquesa Isabel Feodorovna em 1907. Mais tarde, Maria culpou Isabel pela sua "pressa em casar-me e a total ausência de consideração pelo lado sentimental de tal pacto", embora admitisse ao mesmo tempo que gostou da atenção que recebeu na altura. "Ela era cheia de vida e muito alegre", recordou outra tia, a grã-duquesa Maria Georgievna, "mas tinha uma inclinação obstinada e egoísta que faziam com que fosse bastante difícil lidar com ela". Maria Pavlovna não falou nas memórias do desejo que tinha de fugir da disciplina da infância: "Depois vamos poder viajar juntos", escreveu Maria a Guilherme durante o seu noivado, "e viver como queremos. Estou ansiosa como começar uma vida maravilhosa - uma vida cheia de amor e felicidade, como disseste nas tuas últimas cartas."


Cinco gerações, com Maria Pavlovna, atrás, a segurar uma fotografia da sua falecida mãe, a grã-duquesa Alexandra Georgievna. A sua avó, a rainha Olga da Grécia, surge na direita, a sua bisavó, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna, está à direita e o bebé é o filho de Maria, o príncipe Lennart da Suécia, nascido em Estocolmo a 8 de Maio de 1909. Maria acabaria por não encontrar a felicidade que esperava na Suécia. Sendo um oficial da marinha no activo, Guilherme passava muito tempo fora e a vida na corte tinha tantas limitações como aquela que tinha deixado na Rússia. Maria sentia-se frustrada e sozinha. Ficou tão doente que, em 1913, a sua família tomou a iniciativa de a levar de volta para a Rússia e dar início às negociações para o divórcio. Maria abandonou o filho que seria criado na Suécia pelo pai.


Em Maio de 1911, a princesa Tatiana Constantinovna ficou noiva do príncipe Constantino Bagration-Mukhransky. Esta união foi um sinal de que os tempos estavam a mudar. Com tantos membros da família a chegar à idade de casar, havia poucas hipóteses de encontrar parceiros do mesmo estatuto social. Além do mais, a maioria dos jovens Romanov queria ficar na Rússia. Por isso, Nicolau II deu o seu consentimento para o casamento de Tatiana e, em Agosto de 1911, formalizou uma nova lei que limitava a regra do mesmo estatuto social aos grão-duques e grã-duquesas que fossem filhos e netos de czares pela linha masculina. Os membros mais antigos da família olharam para esta nova lei com desconfiança. "Sabias que a filha do tio Kostia [Constantino Constantinovich] está noiva de um príncipe Bagration do Cáucaso?" escreveu a grã-duquesa Maria Alexandrovna à sua filha. "É o primeiro casamento morganático de uma mulher na nossa família. Ela estava ansiosa e a sofrer por causa deste amor morganático e agora foi sancionado. É um precedente perigoso para a nossa família e o início de uma nova era social." O casamento, que na verdade não era morganático, celebrou-se a 6 de Setembro  em Pavlovsk.


A princesa Irina Alexandrovna, única filha do grão-duque Alexandre Mikhailovich e da grã-duquesa Xenia Alexandrovna, e o príncipe Félix Yussupov. Irina foi o segundo membro da família imperial a beneficiar da alteração da lei do casamento. O príncipe Félix Yussupov, conde Sumarakov-Elston, era o único filho ainda vivo de um dos casais mais ricos da Rússia - dizia-se que eram até mais ricos que o czar - mas não era um príncipe real. Irina aceitou a sua proposta de casamento em inícios de 1913 e os seus pais deram o seu consentimento em principio, mas não se fez qualquer anúncio.  A família tinha muitas dúvidas acerca desta união, uma vez que Félix tinha má reputação. O anúncio foi adiado o mais possível para que houvesse tempo de avaliar atempadamente o carácter do noivo.


Nessa primavera, surgiu um segundo candidato à mão de Irina. O grão-duque Dmitri Pavlovich (acima) disse a Félix que estava apaixonado por Irina e pretendia pedi-la em casamento. Passou a aproveitar todos os momentos que tinha para estar com ela encorajado, pelo menos assim acreditava a mãe de Félix, a princesa Zinaida Yusupova, pela avó de Irina, a czarina Maria Feodorovna. Numa carta ao filho datada de 10 de Junho de 1913, a princesa Zinaida disse-lhe: "Meu querido menino (...) a mãe dela não nega que a avó é a favor do Dmitri, mas diz que, por ela, não teria nada contra ti se for isso que a Irina quiser". E foi isso mesmo que aconteceu. A decisão de Irina já estava tomada e, em Setembro, o noivado foi anunciado. Os dois casaram-se no Palácio de Anichkov, casa da avó de Irina.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat

domingo, 6 de outubro de 2013

Carta de Maria Feodorovna ao seu filho Nicolau II



Esta foi a última carta que Nicolau II recebeu da sua mãe durante a sua vida. A carta foi escrita no dia 2 de Novembro de 1917. 

Querido Nicky, 

Acabei de receber a tua carta do dia 27 de Outubro, o que me encheu de alegria. Não consigo encontrar as palavras para expressar os meus sentimentos e agradecer-te com todo o meu coração, meu querido. Sabes que os meus pensamentos e orações nunca te deixam e penso em ti todo todos os dias e todas as noites e ás vezes sinto uma dor tão grande no coração que penso que não vou conseguir aguentar mais. Mas Deus é misericordioso. Ele vai dar-nos força durante este suplício. Graças a Deus que estás bem e que, pelo menos, vocês estão a viver juntos e confortáveis. Já passou um ano desde que tu e o querido Alexei vieram ver-me em Kieff. Quem poderia adivinhar na altura o que o futuro nos reservava, e pelo que teríamos de passar. É inacreditável. Vivo apenas nas minhas memórias do passado feliz e tento o melhor que posso esquecer este pesadelo. O Misha também me escreveu sobre o vosso último encontro na presença de testemunhas e [ilegível] e sobre a vossa partida horrenda e revoltante.

Recebi a tua primeira carta de 19 de Setembro e peço desculpa por não ter podido responder antes, mas a Xénia vai explicar-te o porquê. 

Lamento não te permitirem dar passeios, sei o quanto isso é necessário para ti e para as crianças; é uma crueldade incompreensível! 

Já recuperei bem de uma doença longa e aborrecida e já posso sair outra vez dois meses depois. 

O tempo tem estado muito bom, principalmente nestes últimos dias. Estamos a viver de forma muito modesta e calma e não vemos ninguém, já que não nos é permitido deixar a propriedade, o que é um grande incómodo. 

É uma bênção eu estar com a Xenia, a Olga e os meus netos que jantam comigo à vez todos os dias. O meu neto novo, o Tikhon é uma alegria para todos nós. Ele está cada vez maior e mais cheio e é tão querido, tão encantador e calmo. É um prazer ver a Olga tão feliz e satisfeita com o bebé que ela desejava há tanto tempo. 

Eles vivem muito confortavelmente acima da adega. Ela e a Xenia vêm ver-me todas as manhãs e tomámos o nosso cacau juntas, porque estamos sempre com fome. É tão difícil ter provisões, as coisas de que tenho mais saudades são o pão branco e a manteiga, mas ás vezes algumas pessoas bondosas manda-me um pouco disso: o Papa Felix [Yusupov, sénios] envia maçãs bravas e manteiga e estou-lhe muito grata. 

O príncipe Shervashidze chegou há pouco tempo. É muito agradável tê-lo, visto que ele é uma mais-valia, está sempre bem disposto e é divertido e está tão contente por estar aqui e descansar depois de ter estado em São Petersburgo, onde foi tão horrível. 

Fiquei muito feliz por receber aquelas cartas boas da Alix e dos meus netos, que escrevem todos tão bem. Agradeço e mando beijos para todos. Estamos sempre a pensar e a falar de ti. É tão triste estarmos separados, não podermos ver-nos uns aos outros, não podermos falar. Eu recebo cartas da Tia Alix e do Valdemar [os seus irmãos] de vez em quando, mas demoram sempre tanto a chegar e eu só posso esperar e desejar notícias. 

Compreendo muito bem o quanto deves gostar de voltar a ler as tuas velhas cartas e diários, apesar de um passado feliz despertem uma mágoa profunda no coração. Eu nem sequer tenho esse consolo, porque as minhas foram-me todas retiradas na Primavera quando me revistaram a casa. Todas as tuas cartas, todas as que recebi em Kieff, as cartas das crianças, três diários, etc., etc., e ainda não me devolveram nada, o que é revoltante e qual foi a razão disto, pergunto? 

Hoje é dia 2 de Novembro e é o aniversário do meu querido Misha. Penso que ele ainda está na cidade. Que Deus lhe dê saúde e felicidade. 

O tempo mudou de repente e está a soprar um vento forte e está frio, só estão 3 graus e, apesar de os quartos estarem aquecidos, não estão suficientemente quentes e as minhas mãos estão frias.

O Nikita foi ao K., o dentista [Kastritsky]. Foi através dele que eu soube novidades tuas. Fico feliz por saber que a pobre Alix não tem dores de dentes e que ele já acabou os teus tratamentos. 

Espero que a Isa B. [Buxhoeveden] tenha chegado com segurança e tenha recuperado da operação. Dá os meus cumprimentos a todos e também ao Il. Tatischeff, por favor. 

Que criados estão contigo? Espero que o Teteridtnikoff esteja convosco. Eu só fiquei com o Yaschick e o Poliakoff e não tenho palavras de elogio suficientes para eles, são pessoas tão esplêndidas e de confiança. Eles servem à mesa e conseguem fazê-lo muito bem. O Kukushkin e o Yashchik são grandes amigos e convivem muito. 

No dia 6 de Dezembro todos os meus pensamentos vão estar contigo, meu querido Nicky, e envio-te os meus melhores desejos. Que Deus te abençoe, Te envie força e paz e que não permita que a Rússia esmoreça. Muitos beijos. Que Cristo esteja contigo. Com muito carinho e amor da tua velha, 

Mama



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Xenia Alexandrovna no Exílio


Ao longo de toda a sua vida no exílio, a grã-duquesa Xenia fez os possíveis para manter certos aspectos da sua vida anterior. Começou a pintar novamente, vendendo alguns dos seus trabalhos a instituições de caridade. Agarrou-se aos seus criados russos, principalmente à lavadeira Anna Belousoff. A optimista Belousoff, que chegou a ter dez serventes e um cozinheiro, tinha sempre uma mala feita, pronta para um regresso iminente à Rússia. Tal como o príncipe Dmitri [filho de Xenia] recordou: "Ela costumava dizer: 'vamos regressar', e continuou a fazê-lo sempre até morrer com mais de noventa anos."

Xenia com a filha Irina
Mas a nostalgia que Xenia sentia pelo passado teve de se adaptar a assuntos mais urgentes, principalmente às suas finanças. Em 1921, o tutor dos seus filhos, Mr. Stewart, ajudou-a a abrir uma conta no banco Coutts, mas esta experiência começou mal: com mil libras de crédtico, Xenia gastou imediatamente noventa e oito no Harrods, uma soma equivalente a duas mil libras nos dias de hoje. Nesse mesmo ano, um encontro infeliz com um burlão americano custou-lhe dez mil libras. O homem tinha-lhe prometido milhões se ela investisse num inovador processo de impressão de fotografias. Foi preso depois de ter defraudado uma mulher e lhe ter ficado com o relógio, foi preso durante três meses e deportado para os Estados Unidos.

Xenia com a mãe Maria, a filha Irina e a neta Irina.
Nesta altura, o rei Jorge V decidiu intervir, tendo chegado a acordo para pagar duas mil e quatrocentas libras por ano à prima. Em 1925, decidiu também instala-la em Frogmore. A carta de agradecimento de Xenia é efusiva ao ponto de se tornar namorisqueira: "A sério Georgie, é muito bom e gentil da tua parte. Tive de te escrever imediatamente, mas estraguei muitas folhas de papel porque me sentia tímida! E não sabia bem o que estava a acontecer." Se soubesse que Jorge não tinha tentado salvar o czar, talvez Xenia não se sentisse tão agradecida.

O rei Jorge V do Reino Unido
Embora as suas necessidades práticas imediatas tivessem sido satisfeitas, Xenia teve ainda de enfrentar uma série de golpes inesperados. Após a morte de Lenine em 1924, os bolcheviques começaram a vender bens confiscados. Tesouros que tinham pertencido à família imperial começaram a aparecer em Inglaterra. A certa altura, um conhecido de Xenia mostrou-lhe uma caixa jade com uma coroa imperial estampada. "Tenho curiosidade em saber de quem seriam estas iniciais", disse ele. Quando Xenia respondeu: "São minhas," o homem, um coleccionador, voltou a colocar a caixa na janela e não disse nem mais uma palavra.

Xenia com o marido Sandro
Noutra ocasião, a rainha Maria apareceu com uma caixa cor-de-rosa onix Fabergé que servia para guardar cartas. Perguntou a Xenia o que achava dela. Xenia reconheceu-a imediatamente e disse: "Isso costumava estar em cima da minha escrivaninha". A partir daí, a rainha Maria passou a guardar a caixa num armário. Apesar de tudo, a rainha Maria não se sentiu minimamente mal por saber que a caixa de cartas pertencia a outra pessoa. A sua paixão por adquirir bens de outras pessoas era tão bem conhecida que os seus tesouros eram cuidadosamente escondidos dos seus convidados.

A rainha Maria do Reino Unido (Maria de Teck)
Em 1928, a dor de Xenia ao perder a mãe seria posta em segundo plano devido ao surgimento de uma campanha que apoiava uma mulher que dizia ser a sua sobrinha, a filha mais nova do czar, Anastásia. O processo que se seguiu, que foi o golpe final às já de si precárias finanças de Xenia, arrastar-se-ia ao longo de cinquenta anos. O problema da herança não se poderia resolver enquanto não se provasse que o czar, a esposa e os cinco filhos estavam mortos. Na década de 1930, Xenia visitou uma prima sua, a princesa Xenia Leeds, que acreditava na pretendente. A princesa tinha recebido 'Anastásia' na sua propriedade de Long Island durante vários meses e dizia que a sua suposta prima tinha reconhecido a voz do príncipe Dmitri do outro lado do campo de ténis.

Xenia Leeds, filha do grão-duque Jorge Mikhailovich, uma das únicas  Romanov que deu crédito a Anna  Anderson
Nos anos que se seguiram, as tragédia foram-se misturando com pequenas preocupações à medida que Xenia lutava para conseguir pagar sanitas, utensílios de cozinha e um serviço de água quente do governo britânico. As contas seguiam primeiro para o tesouro do estado, de onde eram posteriormente enviadas para o palácio real. "Uma vez que a grã-duquesa é muito pobre," explicou o gerente da fortuna privada do rei de forma severa, "o rei tem vindo a adquirir o hábito de pagar-lhe alterações e melhoramentos."

Xenia com dois dos seus netos
O rei Jorge V tinha tentado conter os gastos de Xenia durante vários anos, mas, em 1934, um surto de febre escarlate em Frogmore fez com que o seu sucessor, Eduardo VIII, sugerisse que Xenia se mudasse para Wilderness House, em Hampton Court. Os médicos tinham ficado alarmados quando encontraram mais de vinte convidados em Frogmore.

Xenia com a mãe Maria e o filho Rostislav
Foi construída uma capela ortodoxa na sala-de-estar de Wilderness House e Xenia instalou-se de forma satisfatória, não partilhando nenhuma das opiniões de Capability Brown que achava que a casa tinha "quartos desconfortáveis, uma cozinha ofensiva e escritórios maus."

Em 1938, o ambiente russo da casa de Xenia foi apimentado com a chegada de uma mística russa chamada Mãe Marta. "É uma freira (...) o Bertie e a Elizabeth conhecem-na," escreveu Xenia, de forma breve, numa carta dirigida à rainha Maria. A Mãe Marta tornou-se uma "figura controversa na família", como disse mais tarde um dos netos de Xenia, Alexandre. As pequenas princesas inglesas, Isabel e Margarida, tinham ficado muito surpreendidas com a sua parente russa, cantando a música "Volga Boat Song" [A Canção do Barco do Volga], sempre que passavam pela casa de Xenia. Agora ficaram ainda mais surpreendidas com a Mãe Marta, reparando principalmente nos seus pés grandes. Ambas as irmãs achavam que ela era um homem.

Isabel II e a irmã Margarida
James Pope-Hennessey, que visitou Xenia em finais da década de 1950, confirmou a opinião das duas irmãs, dando uma descrição elaborada do aspecto da Mãe Marta. "Usava uma touca de linho desarranjado e até mesmo amassado, cor de chá, atado na nuca com duas fitas. Tem a cara de um velho poderoso". Depois de terem passado pouco mais de vinte minutos juntos, Pope-Hennessey e Xenia foram interrompidos pela Mãe Marta, que tentou acabar com o encontro. Pope-Hennessey comparou imediatamente a grã-duquesa a um "pássaro selvagem excessivamente nervoso... encurralado". O facto de Xenia sentir pena desta freira melancólica pode ter sido um sinal da sua generosidade  ou da sua ingenuidade, que, segundo a grã-duquesa, estava "reduzida a esta existência, a saúde arruinada, os nervos abalados e eu sento-me e olho para ela, com o coração partido e mais preocupada do que as palavras podem descrever, acabando também por me sentir mal".


Xenia com a filha Irina e alguns dos seus netos
Xenia morreu em Hampton Court a 20 de Abril de 1960, rodeada pelos seus adorados netos. Segundo uma biografia: "A Mãe Marta apareceu carregando uma caixa com uma etiqueta a dizer 'véus negros de luto' que tinha sempre preparada para qualquer eventualidade". Depois do funeral desapareceu.

Xenia deixou 117,272.16 libras em testamento. Foi enterrada em Roquebrune, perto de Nicem ao lado do seu marido Sandro. No fim, o seu desejo de ser enterrada em Ai-Tudor, mas, segundo o seu filho Dmitri, Roquebrune foi escolhida por ser tão parecida com a Crimeia. 

Xenia em Inglaterra


Texto retirado do livro "The Russian Court at Sea" de Frances Welch.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Casar na Família (Parte 2)

Uma fotografia de Maria Feodorovna com os seus filhos Miguel e Xenia, provavelmente tirada depois da ascensão do seu marido ao trono na primavera de 1881. A família imperial tinha sido  muito alemã, tanto em personalidade como nas simpatias, durante séculos, mas a chegada de Maria Feodorovna, princesa Dagmar da Dinamarca, marcou uma mudança. O seu primeiro noivo, o czarevich Nicolau, afirmou firmemente que o casamento iria acontecer por ser esse o seu desejo e que não tinha qualquer implicação política. Apesar disso, a Prússia e a Dinamarca tinham declarado guerra pouco antes do noivado e a antipatia entre os dois países durou décadas. A diminuição  das simpatias prussianas na corte russa durante o reinado de Alexandre III deveu-se, em parte, à influência da sua esposa. Apesar da sua dedicação ao país do marido, Maria Feodorovna manteve-se muito dinamarquesa e deu sempre o seu melhor para promover os interesses dinamarqueses na Rússia.


Mas as simpatias alemãs continuaram na corte do irmão de Alexandre, o grão-duque Vladimir, visto aqui com a sua noiva, a duquesa Maria de Mecklenburg-Schwerin. Maria era trineta do czar Paulo I. Quando conheceu Vladimir em 1871, tinha dezassete anos e tinha acabado de ficar noiva, por escolha própria, de um príncipe alemão muito mais velho. Rompeu o noivado imediatamente, apesar de terem sido precisos três anos para assegurar o seu noivado com Vladimir. A atracção foi mútua, o problema era que Maria se recusava firmemente a converter-se à religião ortodoxa, um passo que era exigido a todas as noivas Romanov há várias gerações. As negociações duraram três anos. Depois, na primavera de 1874, Alexandre II cedeu e permitiu a formalização do noivado. Esta decisão não foi bem-vista na Rússia, principalmente entre as princesas que já tinham sido forçadas a converter-se. Marcou a chegada de uma jovem assertiva e confiante que se tornaria uma força formidável na família.


A grã-duquesa Maria Pavlovna, o nome de casada de Maria, com o seu segundo filho, o grão-duque Cyril Vladimirovich, cerca de 1878. Um primeiro filho, chamado Alexandre, tinha morrido em 1877, pouco antes de completar dois anos de idade. Maria Pavlovna adaptou-se maravilhosamente ao esplendor e à riqueza de São Petersburgo e não demorou muito a tornar-se o centro dos círculos mais elegantes. Todos aqueles que não eram aceites na corte imperial, mais tradicional, viravam-se naturalmente para ela. Maria gostava de ser o centro das atenções. Uma mulher com um charme infinito, tinha como principal talento guiar e aconselhar qualquer pessoa mais nova ou com menos experiência do que ela. Teria sido uma imperatriz magnifica, mas a sua personalidade fazia com que não conseguisse contentar-se com o segundo lugar mais importante para uma mulher na Rússia. Foi rival da sua cunhada Maria Feodorovna desde o início.


A princesa Isabel de Saxe-Altenburg tinha dezasseis anos no verão de 1882, quando o grão-duque Constantino Constantinovich visitou Altemburgo. Constantino tinha vinte-e-quatro anos e estava a recuperar de um desgosto amoroso, e a atracção entre os dois foi imediata. Mas enquanto Isabel não tinha dúvidas, Constantino agonizava. Era um homem profundamente introspectivo e passou um ano sem escrever a Isabel, ao contrário do que tinha prometido, apesar de escrever poemas sobre ela. Depois regressou para pedi-la em casamento. Em Abril de 1884, Isabel chegou à Rússia. Tinha escolhido manter a religião luterana. Esta decisão foi um duro golpe para Constantino devido à sua forte devoção ortodoxa. Para piorar a situação, Isabel ofendeu a corte quando se recusou a beijar cruz erguida durante a missa.

Os medos de Constantino voltaram a despertar, mas, na manhã do casamento, Isabel escreveu-lhe uma carta para o acalmar: "Prometo que nunca farei nada para te enfurecer ou magoar por causa das nossas religiões divididas (...). Só te posso dizer mais uma vez que te amo muito."


Constantino acalmou-se e levou a carta de Isabel no bolso o dia inteiro. Sobre a cerimónia ortodoxa escreveu: "Depois de ouvir as palavras 'Deus nosso Senhor, pela honra e pela glória, casa este casal!', vi a Isabel como minha esposa, que me é entregue para sempre e quem devo amar, cuidar e estimar. O momento no qual o padre nos conduziu ao altar foi especialmente solene para mim, senti-me leve e feliz (...). Eramos marido e mulher. Tivemos permissão para nos beijar. Depois dirigimo-nos a Sua Majestade, à czarina e aos meus pais. A cerimónia começou. O canto era maravilhoso. Caiu-me uma pedra do coração."

As fotos de casamentos da família imperial no século XIX são raras, mas esta mostra Isabel, a grã-duquesa Isabel Mavrikievna, no dia de casamento, a usar a coroa das noivas. Durante a cerimónia de casamento ortodoxa, as coroas eram erguidas sobre as cabeças do casal, normalmente pelos parentes masculinos mais jovens. Colocando o seu início turbulento para trás, Isabel e Constantino começaram felizes a vida de casados. Ele chamava-a 'Lilinka'. Um mês depois do casamento, Constantino disse ao pai que "Ela já nos pertence." 



Os Vladimirovich: A grã-duquesa Maria Pavlovna e o marido com os filhos em 1884. As crianças são, da esquerda para a direita, Boris, Helena, Cyril e André.


Isabel de Hesse hesitou durante mais de um ano antes de aceitar o pedido de casamento do grão-duque Sérgio Alexandrovich que conhecia desde criança. Ele também estava hesitante, mas os dois ficaram noivos em Setembro de 1883. O pai de Isabel disse numa carta a Alexandre III: "Não hesitei antes de dar o meu consentimento porque conheço o Sérgio desde criança. Vejo que tem modos simpáticos e agradáveis e sei que fará a minha filha feliz". As cartas privadas que começam agora a surgir mostram que o casamento não foi o longo martírio que muitos descreveram. Essa ideia surgiu, acima de tudo, devido aos boatos da corte e das memórias do grão-duque Alexandre Mikhailovich que odiava Sérgio. 

Sérgio era um homem profundamente religioso que não escondia o seu gosto pela sociedade elegante, e fez muitos inimigos. "Muitas vezes era inseguro", recordou o grão-duque Ernesto Luís, irmão de Isabel."Isso fazia com que a sua postura endurecesse e os seus olhos pareciam severos (...) por isso as pessoas ficaram com uma impressão errada dele e achavam-no orgulhoso e frio, algo que ele certamente não era. Houve muitas, bastantes pessoas que ele ajudou, mas apenas o fazia no mais profundo sigilo."

"O Sérgio é uma pessoa," escreveu Isabel numa carta ao pai, "que quanto mais tempo passa com alguém, mais essa pessoa gosta dele (...)"


A grã-duquesa Isabel Feodorovna e o grão-duque Sérgio Alexandrovich em Darmstadt, cerca de 1889. Esta fotografia conta muito de um casal que ficou lado-a-lado durante mais de vinte anos, sem se preocupar com o que as pessoas diziam sobre eles. "As pessoas vão arranjar intrigas e mentir enquanto o mundo existir," escreveu Isabel numa carta à sua avó Vitória em 1896, "e nós não somos os primeiros nem vamos ser os últimos a ser caluniados." A relação aprofundou-se em 1891 quando Isabel decidiu converter-se à religião ortodoxa, tendo inicialmente preferido manter a sua religião luterana. Tal como para o grão-duque Constantino Constantinovich, esta decisão tinha sido difícil para Sérgio, mas não disse nada - "Foi um verdadeiro anjo da bondade  (...) nunca, nunca se queixou"- e a sua paciência foi recompensada. O facto de não terem filhos foi uma mágoa permanente que o casal partilhou e parece que ambos sabiam que a situação seria assim para sempre. Outros membros da família também o sabiam. "Coitados do Sérgio e da Ella", escreveu Alexandre III numa carta à esposa na primavera de 1892 "(...) por lhes ser negada esta bênção o resto da vida."


Desde a infância que Sérgio era muito chegado ao seu irmão mais novo, o grão-duque Paulo Alexandrovich, ao ponto de o levar consigo na sua lua-de-mel. Vítima de doenças pulmonares frequentes, Paulo passava os invernos na Grécia com a sua prima, a grã-duquesa Olga Constantinovna, e a sua família, e foi assim que encontrou a sua noiva. A princesa Alexandra da Grécia, filha de Olga, que se tornou a grã-duquesa Alexandra Georgievna após o seu casamento em Junho de 1889, não era uma desconhecida na Rússia, nem da família imperial devido às visitas da mãe à Rússia e à família do pai na Dinamarca que também a conhecia desde que tinha nascido. Também era ortodoxa, por isso a sua mudança para norte para se casar com Paulo não foi uma grande agitação, apesar de ter sentido a falta do clima grego.


Isabel Feodorovna e Alexandra Georgievna tornaram-se quase irmãs, criando uma relação semelhante aquela que existia entre os maridos desde sempre. O criado-de-quarto de Paulo, Alexei Volkov, descreveu desta forma os primeiros tempos de casamento do patrão: "Os recém-casados mudaram-se para o seu palácio no talude do Neva, atrás da Igreja da Anunciação e de frente para o quartel-general da marinha. A vida familiar deles seguiu tranquila e serena lá. A primeira filha (...) nasceu no palácio e os companheiros mais próximos e adorados do casal eram o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a sua esposa, a grã-duquesa Isabel Feodorovna."


A grã-duquesa Alexandra Georgievna com a sua filha Maria Pavlovna que nasceu no dia 6/18 de Abril de 1890 e foi baptizada um mês depois, tendo a czarina Maria Feodorovna e o grão-duque Sérgio como padrinhos.


Alexandra em 1891 com a sua mãe, a grã-duquesa Olga Constantinovna, a sua avó, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna e a sua filha Maria.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat