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terça-feira, 4 de julho de 2017

Um Czar em Guerra - A Guerra Russo-Turca de 1877-78

Alexandre II
A 23 de Dezembro de 1877, Alexandre II entrou triunfalmente em São Petersburgo. Após vários meses de derrotas e desilusões, os seus exércitos conseguiram derrotar os turcos na Bulgária e na Arménia e pareciam estar mais perto do que nunca de conseguir cumprir o sonho de dar liberdade a todos os povos cristãos dos Balcãs e, talvez até o sonho ainda mais antigo de expandir a influência russa até Constantinopla. A família imperial e os oficiais mais importantes da corte e do governo deram-lhe as boas vindas na praça ao largo da Estação de Nicolau e as ruas estavam cheias com milhares de pessoas que o aplaudiam e se juntavam às comemorações. Chamavam-lhe "Duas Vezes Libertador", primeiro dos servos e, agora, dos Balcãs, e, em alguns momentos, a sua carruagem quase não conseguia avançar devido ao entusiasmo da multidão. Poucos dos que estavam presentes conseguiram chegar perto o suficiente para ver o efeito que a guerra tinha tido no "Czar Libertador", mas uma testemunha reparou com horror que "os seus músculos estavam relaxados, os seus olhos apáticos, a sua figura desleixada, todo o seu corpo tão magro que parecia não ter carne nos ossos. Tinham bastado alguns meses para ele envelhecer completamente". Assim que as comemorações oficiais terminaram, Alexandre escondeu-se no único lugar no mundo onde se sentia à vontade: a cada no Cais Inglês que tinha alugado em 1874 para a sua amante Catarina.

Alexandre II (sentado) com o príncipe Suvorov, o príncipe Carlos da Roménia e o grão-duque Nicolau Nikolaevich na vila de Pordim na Bulgária em 1877
Tinham passado três anos desde que a repressão exercida pelos turcos sobre os Balcãs tinha começado a alarmar os governos europeus. Um motim em Nevesinye, perto de Mostar, na Herzogovina, foi reprimido com grande crueldade. A instabilidade começava também a espalhar-se pela Sérvia e pela Bulgária, e as histórias sobre as atrocidades cometidas pelos turcos multiplicavam-se. Era difícil ignorar o que estava a acontecer, mas as grandes potências tinham os seus próprios planos contraditórios para os Balcãs e não parecia provável que fossem agir em conjunto. A Áustria queria aumentar o seu próprio império, ao mesmo tempo que a Grã-Bretanha queria proteger o seu status quo e evitar o risco de aumentar a influência russa na região. Já há vários anos que os pan-eslavistas russos tentavam fortalecer os laços dos Balcãs com a Igreja Ortodoxa e alguns intelectuais russos defendiam que deveria haver uma guerra de libertação na região.


Quadro a representar o Massacre de Batak, na Bulgária, um dos acontecimentos que levaria mais tarde ao rebentar da Guerra Russo-Turca de 1877-78
Em Janeiro de 1876, as grandes potências enviaram um protesto oficial à Turquia, que não teve qualquer efeito. Milhares de voluntários russos viajaram para sul e surgiu até o falso rumor de que um dos filhos do czar, o grão-duque Vladimir Alexandrovich, tinha oferecido os seus serviços ao príncipe da Sérvia. À medida que a crise se aprofundava e o movimento a favor da guerra ganhava expressão na Rússia, Alexandre II viajou por toda a Europa para defender a paz. Falou com o seu tio, o kaiser Guilherme I da Alemanha e com Bismark, o chanceler da Alemanha, e apelou também à ajuda da rainha Vitória através da sua filha Alice, que contou à mãe que o czar falou na necessidade de preservar a paz com lágrimas dos olhos. Depois, Alexandre tentou convocar uma conferência europeia. Em Julho, os turcos massacraram os habitantes de Batak, na Belgária, depois de estes terem prometido livre passagem em troca da sua rendição. A luta intensificou-se e Alexandre foi para casa.
Alexandre II
O czar não estava com vontade de entrar em guerra. Tinha testemunhado os danos que o conflito na Crimeia tinha causado no seu país e sabia que a Rússia não estava em condições de enfrentar outra guerra. As reformas que ele tinha tentado levar a cabo nas forças armadas ainda não tinham tido tempo de surtir efeito, mas dentro do país, a vontade de ir para a guerra era tal que ninguém queria dar ouvidos ao czar. Apesar de tal estar banido oficialmente, realizam-se apelos e recrutamentos para a guerra nos Balcãs por todo o império e até a própria família do czar estava profundamente empenhada na causa. Quando chegou a casa, Alexandre encontrou Maria Alexandrovna a financiar e equipar comboios hospitalares, incentivada pelo seu confessor, o padre Bajanov. A czarina estava firme no seu entusiasmo pela guerra e, após vários anos a trabalharem juntos, Alexandre e a sua esposa viram-se em lados opostos. Os seus irmãos e filhos também estavam ansiosos por se juntarem à luta e o czarevich Alexandre estava a dar permissão aos soldados do seu regimento para se juntarem para a guerra nos Balcãs. Os governos europeus não acreditavam que o governante autocrático de todas as Rússias tivesse tão pouco controlo e duvidavam da sinceridade dele. O stress desta época fez com que o asma de que Alexandre sofrera toda a vida piorasse e sentia-se magoado com os ataques de que era alvo na imprensa internacional. Colocou toda a sua esperança numa conferência de paz que estava planeada para Dezembro, mas Lord Beaconsfield, o primeiro-ministro britânico, piorou a atmosfera com um discurso sobre a inviolabilidade das possessões turcas que causou grande indignação na Rússia. Havia o perigo muito real de que, caso Alexandre não levasse o seu país para a guerra, o país iria para guerra sem ele, por isso, mesmo perante as acusações de duplicidade vindas do estrangeiro, Alexandre ordenou uma mobilização parcial.

Maria Alexandrovna
Em Março de 1877, as Grandes Potências ordenaram que a Turquia reduzisse a força dos seus exércitos e que prometesse reformas. A Turquia recusou. Alexandre partiu do Palácio de Inverno e caminhou sozinho até à Catedral de Kazan para rezar. A sua decisão estava tomada: a 12 de Abril, a Rússia declarou guerra à Turquia e, entre cenas de júbilo generalizado, as tropas receberam ordens para marchar para sul. Alexandre seguiu com elas, apesar de ter entregue o comando supremo dos exércitos ao seu irmão, o grão-duque Nicolau Nikolaevich. O seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel Nikolaevich, que comandava o exército do Cáucaso, iria abrir uma segunda frente de combate a ocidente do Mar Negro. Houve apenas uma pessoa que apoiou o czar sem rodeios: Alexandre escreveu a Catarina "compreendes melhor do que ninguém aquilo que sinto no começo de uma guerra que queria e esperava tanto evitar (...) É um pesadelo". O discurso que fez ao exército foi igualmente fatalista e honesto: "lamento profundamente ter de vos enviar nesta missão. Como devem saber, tentei continuamente evitá-la até a última réstia de esperança ter desaparecido. Agora, só posso desejar-vos sucesso".

Alexandre II
As chuvas fortes impediram a marcha do exército pelos planaltos da Valáquia e aumentaram de tal forma o caudal do rio Danúbio, a fronteira entre a Roménia e a Bulgária, que foi impossível passá-lo durante várias semanas. Alexandre viajou para sul com os seus filhos, Alexandre, Vladimir e Sérgio. O seu quarto filho, Alexei, estava a comandar uma companhia naval no Danúbio e os seus sobrinhos Nicolau Nikolaevich Júnior, que se tornaria comandante supremo dos exércitos russos em 1914, e Sérgio de Leuchtenberg também estavam a combater no exército russo. Outro sobrinho, o príncipe Alexandre de Battenberg, tinha recebido permissão especial para deixar o seu regimento em Berlim e juntar-se ao pessoal do czar. Recebeu a Cruz de Vladimir pelo papel que desempenhou na passagem do rio Danúbio, que foi conseguida a 27 de Junho com grande custo. A czarina tinha oferecido cinco comboios-hospital luxuosos com 600 camas, mas, nos primeiros dias da guerra, registaram-se milhares de mortes e feridos todos os dias que tinham se ser retirados do campo de batalha em carrinhos de mão, nas carroças das armas ou em carros de bois.

Caravanas de transporte de feridos russos durante a Guerra Russo-Turca
Alexandre escolheu como quartel-general a cidade de Sysov, na Bulgária, ao mesmo tempo que os engenheiros russos se apressavam por construir pontes permanentes ao longo do rio. O czarevich recebeu o comando do XII e XIII Corpos do exército, com ordens para aguentar uma linha de oitenta quilómetros ao longo do rio Lom, para proteger o flanco esquerdo do exército e ameaçar as forças turcas em Rustchuk, Shumla, Varna e Silistra. O futuro czar Alexandre III não era nenhum génio militar, mas segurou a sua posição com grande coragem contra um exército muito mais forte e ganhou um horror à guerra que iria durar o resto da sua vida. Todos os dias, escrevia cartas à sua esposa, Maria Feodorovna, que estava ocupada com trabalho caritativo em São Petersburgo para ajudar as famílias dos soldados feridos. Chegou mesmo a correr o rumor na cidade que a futura czarina se disfarçou de enfermeira para ir visitar o marido à frente de batalha.

O futuro czar Alexandre III e a sua esposa Maria Feodorovna
O czar também escrevia cartas todos os dias, mas não para a esposa. A czarina Maria Alexandrovna apoiava a guerra de tal forma que Alexandre sentia que não podia ser sincero com ela e guardava apenas para a sua amante Catarina os seus verdadeiros sentimentos sobre o que estava a acontecer e a sua ansiedade perante a atitude demonstrada pelas potências estrangeiras, principalmente por parte da Grã-Bretanha. Sentia-se humilhado por a sua saúde não lhe permitir lutar e trabalhava durante várias horas por dia, gastas principalmente em visitas aos hospitais de campanha para ver os soldados feridos. Sofria de insónimas e a sua asma piorou. O Dr. Botkin pediu-lhe que regressasse para norte, mas ele recusou.

Alexandre II
Inicialmente, o exército teve êxito, capturando as cidades de Tyvorno e Plevna, no entanto, a pressão da guerra não demorou a revelar fraquezas graves no alto comando. Depois de ter consigo atravessar para a Bulgária de forma épica através da passagem de Khainkioy e de ter conquistado Shipka com sucesso, a divisão do general Hourko foi obrigada a bater em retirada porque ninguém lhes enviou reforços. Tyvorno tinha grande importância simbólica, uma vez que era a antiga capital da Bulgária, mas os comandantes russos não conseguiram compreender a importância estratégica de Plevna, que ficava num cruzamento vital. Deixada sem uma defesa eficaz, a cidade voltou a cair em mãos turcas pouco tempo depois, e, após uma série de reviravoltas, Alexandre teve de mudar o seu quartel-general para Gorny Studen, a oeste de Tyvorno.

Tropas russas a marchar perante o czar Alexandre II e o grão-duque Nicolau Nikolaevich em Ploesti, 30 de Junho de 1877
No calor insuportável do verão, com mantimentos inadequados e, muitas vezes, inexistentes, Alexandre continuou a trabalhar sem parar. Um velho opositor das suas políticas, o príncipe Cherkassky, visitou Gorny Studen em Julho na categoria de comandante da Cruz Vermelha Russa, que tinha sido criada recentemente pela czarina Maria Alexandrovna, e ficou preocupado com a incompetência do pessoal, mas deixou muitos elogios a Alexandre: "neste vortéx", escreveu ele, "não posso deixar de admirar o imperador, que mantém a calma, apesar da sua agonia mental profunda. É a única pessoa por aqui que parece capaz de avaliar o que está mesmo a acontecer. Quando o vemos, cansado e doente como está, a visitar hospitais, a querer saber sobre os interesses e as necessidades dos homens, a comportar-se com a dignidade de um soberano e a compaixão de um amigo (...) é impossível não o amar como um homem."

Médicos e enfermeiros da Cruz Vermelha Russa num hospital de campo durante a Guerra Russo-Turca
Apercebendo-se tarde demais de que precisavam de Plevna, os russos tentaram voltar a conquistar a cidade, mas o primeiro assalto, realizado a 20 de Julho, resultou em milhares de vítimas. Os atacantes estavam em menor número numa proporção de 3 para 1 e, se os turcos tivessem continuado a sua retirada atá ao fim, as esperanças da Rússia poderiam ter acabado nesse mesmo dia. Dez dias depois, tentaram um segundo assalto que também falhou. Gorny Studen já não estava a salvo e o quartel-general de Alexandre teve de ser deslocado novamente. Os seus filhos pediram-lhe em vão que deixasse a Bulgária. A leste, o exército do grão-duque Miguel Nikolaevich foi dizimado pelos turcos em Kizil Tépé: era quase impossível que a moral esteve mais baixa e Alexandre foi obrigado a pedir ajuda ao príncipe Carlos da Roménia, que contribuiu com um exército de 50.000 homens e 180 armas. O czar também voltou a chamar o general Totleben, que tinha ganho fama graças à defesa de Sevastopol durante a Guerra da Crimeia. Em inícios de Setembro, foi levado a cabo um terceiro assalto a Plevna que também falhou e resultou na morte de 25.000 pessoas. Os romenos lutaram com grande bravura e firmeza, o que conquistou a admiração de todos, mas um oficial inglês deixou uma descrição do estado caótico em que se encontrava o exército russo: "a negligência e falta de organização (para os feridos) é assombrosa. Um dia, em Plevna, três mil soldados russos, feridos na cabeça, braços e peito, tiveram de marchar vinte milhas para a retaguarda, uma vez que só havia carros de bois para aqueles que não se aguentavam de pé!". "Deus nos ajude a acabar com esta guerra", escreveu Alexandre à sua amante Catarina, "desonra a Rússia e a Cristandade. É esta a angústia do meu coração e ninguém a compreende melhor do que tu, meu tesouro e minha vida".

A batalha em Plevna
Na Rússia, a moral também estava em baixo. As pessoas tinham imaginado uma guerra vitoriosa rápida, com muito brilho e glória e não estavam preparadas para o que estava a acontecer. Os grão-duques eram criticados, o czar foi acusado de cobardia por não participar nas batalhas e de negligência por não regressar a São Petersburgo - alguém tinha de arcar com as culpas de toda a miséria. Houve quem defendesse a criação de uma Assembleia Nacional e a actividade revolucionária era abundante. A 13 de Setembro, realizou-se um concílio de guerra no quartel-general. Temendo que, com a chegada do inverno, houve uma falha geral na entrega de mantimentos, o grão-duque Nicolau Nikolaevich era da opinião de que o exército devia bater em retirada pelo Danúbio até chegar à segurança da Roménia e os seus comandantes concordaram. Apenas Milutin, o ministro da guerra, se manifestou contra a ideia, afirmando que a Rússia não se podia dar ao luxo de abandonar uma posição que já tinha custado a vida a 60.000 pessoas: Plevna comandava a estrada para sul, por isso era necessário conquistar Plevna. Rompeu uma violenta discussão até que o czar se levantou. "Não haverá retirada, cavalheiros", afirmou e, depois, saiu da sala na companhia de Milutin e Totleben.

O grão-duque Nicolau Nikolaevich Sr.
Alexandre tinha assumido o controlo e os efeitos da sua decisão foram abrangentes. Totleben passou a comandar o cerco de Plevna e recusou-se a desperdiçar mais vidas num ataque frontal, decidindo, em vez disso, concentrar-se em cortar todas as vidas de fornecimento de mantimentos à cidade. Quando chegou o inverno, o Dr. Botkin voltou a pedir para Alexandre regressar a casa, uma vez que a sua asma, insónias e o stress da campanha tinham piorado consideravelmente. Alexandre contou a Catarina que "todas estas visões fazem sangrar o meu coração e é difícil para mim aguentar as lágrimas". No entanto, estava determinado a ficar até que Plevna caísse.

Alexandre II
 A 24 de Outubro, o seu sobrinho, o príncipe Sérgio de Leuchtenberg, morreu em combate. Sérgio pertencia ao XII Corpo do czarevich, que tinha recebido ordens para avançar na direcção de Basarbowa e Iovan-Tschiflik depois de pequenos grupos de combate terem conseguido fazer os turcos recuar nessa região. Em Basarbowa, os combates intensificaram-se: Sérgio estava a liderar um grupo de reconhecimento quando uma bala turca o atingiu na têmpora e o matou. Tinha vinte-e-seis anos de idade. Longe, em Berlim, a princesa-herdeira da Prússia lamentou a sua morte, apesar de acrescentar que o príncipe "era o mais rebelde que se pode imaginar". No entanto, quem o conhecia melhor tinha uma opinião mais gentil. Sérgio era um jovem culto e inteligente que tinha passado grandes períodos de tempo a viver na Itália. Doze anos antes, em Florença, tinha sido ele o maior conforto que o seu primo, o czarevich Nicolau, tinha tido quando estava a morrer, uma vez que Sérgio o confortava com descrições das maravilhas da cidade que conhecia tão bem. Uma amiga dele, a princesa Kurakin, tinha-se encontrado com ele na casa da irmã antes de ele partir para a frente de combate: "era um europeu ocidental de gema" recordou ela, "um artista, elegante e inteligente. Adorava a Itália, a casa das artes, a ciência e a cultura, mas disse-me que não tinha qualquer compaixão pelos búlgaros, sérvios e outros eslavos". A guerra tinha matado um dos seus poucos opositores.

O príncipe Sérgio de Leuchtenberg, filho da grã-duquesa Maria Nikolaevna e sobrinho do czar Alexandre II.
A primeira oportunidade surgiu a leste em Novembro, quando o general Loris Melikov, o chefe do pessoal do grão-duque Miguel Nikolaevich, conquistou a cidade de Kars. Plevna caiu a 10 de Dezembro, após algumas horas de combate, quando os turcos tentaram quebrar as linhas russas uma última vez. Alexandre esteve presente numa missa de acção de graças na cidade capturada antes de regressar a São Petersburgo, tal como tinha prometido. Chegou ás 10 da manhã do dia 23 de Dezembro e foi recebido por multidões em júbilo.

Depois da conquista de Plevna, a resistência turca esmoreceu. Ao mesmo tempo que Alexandre entrava em São Petersburgo, a divisão do general Hourko repetia a sua travessia dos Balcãs. Desta vez, conquistou Shipka e avançou na direcção de Sofia. Algumas semanas depois, o general Skobelev, cunhado do príncipe Eugénio de Leuchtenberg, irmão mais velho de Sérgio, conquistou Adrianpole sem disparar um único tiro e, em Fevereiro, foram assinadas as tréguas e começaram as negociações para um tratado de paz. O Tratado de San Stefano criou uma grande Bulgária autónoma - na verdade, autónoma só em nome, uma vez que, na verdade, se encontrava sob controlo russo - e deu a independência à Roménia, Sérvia e Montenegro, assim como o pagamento de indemnizações e território à Rússia. No entanto, as clausulas do tratado eram pouco generosas para o príncipe da Roménia, cujo exército tinha dado um apoio essencial quando a Rússia estava no seu ponto mais baixo.

Negociações do Tratado de San Stefano
As Grandes Potências ficaram alarmadas e decidiram que a Rússia não devia beneficiar tanto. Os países dos Balcãs também ficaram alarmados, uma vez que agora o caminho estava aberto para a cidade de Constantinopla. Alexandre considerou a hipótese de ordenar a conquista da cidade, mas depois esmoreceu. As suas tropas estavam a sofrer de tifo e já não havia dinheiro para pagar uma guerra prolongada. Os britânicos enviaram uma força naval para o Mar Negro para o desencorajar ainda mais. A princesa Maria de Battenberg descreveu a ansiedade que sentiu nas semanas que se seguiram, uma vez que o seu irmão Alexandre fazia parte do exército de Alexandre e um outro irmão, Luís, pertencia à Marinha Britânica e estava a bordo de um dos navios que tinha sido enviado para o Mar Negro.

As famílias reais de Battenberg e Hesse-Darmstadt em Osborn, Inglaterra. A princesa Maria de Battenberg encontra-se de pé, no extremo esquerdo da fotografia, ao lado do seu irmão, o príncipe Alexandre de Battenberg, depois príncipe da Bulgária. Na fotografia também se encontram os seus pais Alexandre e Júlia, os restantes irmãos (Henrique e Luís) e as suas respectivas famílias, incluindo a princesa Beatriz do Reino Unido, as princesas Irena, Alix e Vitória de Hesse-Darmstadt, o príncipe Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt e o grão-duque Luís IV de Hesse-Darmstadt.
O czar não teve outra escolha senão voltar atrás, mas o seu país nunca conseguiu perdoá-lo. Os termos do Tratado de San Stefano foram alterados por um congresso internacional em Berlim, no qual as outras potências intervieram para ficarem com a sua parte dos despojos. Mesmo assim, a Rússia conseguiu libertar os Balcãs do domínio turco e estabelecer o novo estado da Bulgária. No aniversário de Alexandre II em 1879, o seu sobrinho, o príncipe Alexandre de Battenberg tornou-se no primeiro príncipe reinante da Bulgária.

Alexandre de Battenberg, sobrinho de Alexandre II e primeiro príncipe reinante da Bulgária.
No entanto, dentro da Rússia, as consequências da guerra foram tão más quanto o czar tinha previsto. Os termos do novo acordo foram muito mal recebidos, havia grande instabilidade e os grupos terroristas começaram a surgir a um ritmo nunca antes visto. Multiplicavam-se os assassinatos políticos e foram os heróis da guerra (Hourko, Totleben e Loris Melikov) que receberam a responsabilidade de controlar a situação. Incentivado por Loris Melikov e pelo grão-duque Constantino Nikolaevich, Alexandre deu início a um novo programa para levar a cabo uma reforma constitucional, a única forma que o governo via para acalmar os distúrbios a longo prazo. No entanto, em privado, Alexandre estava doente, desiludido e muito cansado. Agora, estava completamente dependente a nível emocional de Catarina Dolgorukaya e chocou profundamente a sua família, a corte e toda a Europa quando a convidou a ela e aos filhos a viver no Palácio de Inverno, para os poder ver com mais frequência enquanto a sua esposa definhava nos seus aposentos, que ficavam imediatamente abaixo dos da amante do marido e da família. Alexandre passaria o resto da sua vida a viver numa espécie de exílio, tanto em público como em privado.

Alexandre II com a sua amante, Catarina, e dois dos seus filhos.
No entanto, ninguém sabe ao certo qual era a opinião de Maria relativamente à amante do marido e à sua segunda família, depois de o segredo se tornar ainda mais exposto. Em Julho de 1878, Maria Alexandrovna sofreu uma crise grave na sua doença e parecia estar prestes a morrer, mas recebeu e ficou na companhia do marido, partilhando com ele as suas preocupações do dia-a-dia, como sempre tinha feito. A ideia de que o seu casamento só existia em nome depois do caso amoroso de Alexandre com Catarina não passa de um palpite, e a verdade podia ter sido bastante diferente. Vera Borovikova, a criada que cuidava dos filhos de Catarina, descreveu uma ocasião durante estes últimos anos da vida da imperatriz, quando Georgi e Catarina (filhos de Alexandre e Catarina) visitaram o Palácio de Inverno. O próprio czar levou-os até ao quarto da imperatriz e apresentou-lhes a sua esposa como "tia" Maria. Depois, a imperatriz abençoou as crianças e tanto ela como o marido ficaram em lágrimas.

Maria Alexandrovna
Há profundezas em todas as relações que o mundo exterior simplesmente não consegue compreender. Até ao fim, quando Maria estava prestes a morrer, Alexandre nunca se esqueceu de tudo o que os dois partilharam nem o que significavam um para o outro. Em Fevereiro de 1880, quando uma bomba terrorista destruiu a sala-de-jantar do Palácio de Inverno, onde Alexandre II estava prestes a jantar, num ataque que matou muitos soldados que se encontravam no andar de baixo, Maria tinha acabado de regressar de Cannes, naquela que provavelmente era a pior altura do ano para quem sofria de tuberculose. O primeiro impulso de Alexandre foi correr até ao quarto dela para garantir que ela estava bem. Quando a encontrou ainda a dormir, sentou-se do lado de fora da porta para que pudesse ser o primeiro a contar-lhe o que tinha acontecido e reconforta-la. Durante catorze anos, o czar Alexandre II tentou ser o marido de duas mulheres e o pai de duas famílias, sem magoar ninguém. Mas esse era um desafio demasiado exigente, até para um czar.

Alexandre II lamenta a morte da esposa Maria Alexandrovna numa gravura da época.

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A nossa alegria desde que nasceu - Czarevich Nicolau Alexandrovich - Primeira Parte

Nicolau Alexandrovich
A emancipação dos servos foi a grande conquista de Alexandre II que também levou a cabo um impressionante número de reformas na educação, direito, governo e forças armadas do império russo. Fez todos os possíveis para satisfazer a onda de esperança que o tinha acompanhado desde a sua subida ao trono. No entanto, foi também durante o seu reinado que surgiu uma nova ameaça: grupos terroristas que queriam colocar os seus próprios programas para o império em vigor, escolheram o czar como alvo principal e a sua vida estava constantemente em perigo. Os sonhos começaram a morrer e a esperança a desvanecer. Alexandre hesitava entre a reforma e a repressão. Até o seu casamento, que tinha começado tão bem, e contribuído tanto para as conquistas positivas do seu reinado, também começou a falhar e a sua felicidade a escapar-lhe entre os dedos. Tudo aconteceu de forma gradual, mas um dos golpes mais duros que sofreu, embora poucos o tivessem visto na altura, foi a morte do filho mais velho do casal imperial, o czarevich Nicolau.

Nicolau Alexandrovich por Hau
"Se alguma vez encontrar algo tão belo quanto isto em qualquer outro país, ficarei a saber que as minhas viagens valeram a pena". Nicolau Alexandrovich, filho mais velho do czar Alexandre II e herdeiro do trono da Rússia, estava na varanda do Chalé de Peterhof no início do verão de 1864, a ver as florestas, o mar, e o reflexo distante do sol nos telhados de Kronstadt quando escreveu esta frase. No dia seguinte, iria partir para uma visita prolongada ao estrangeiro para terminar a sua educação e encontrar uma noiva.

Nicolau com a sua irmã mais velha, Alexandra.
Todos os relatos parecem indicar que o czarevich era um jovem excepcional. O poeta Tiutchev dizia que ele era "a nossa alegria desde que nasceu". Alto e magro, tinha herdado a postura e feitio do pai, com a beleza e inteligência da mãe, a czarina Maria Alexandrovna. Nasceu em São Petersburgo, a 20 de Setembro de 1843, e o acontecimento foi comemorado tanto como o nascimento de qualquer primeiro varão em linha de sucessão directa ao trono: "foi uma grande alegria para nós e para o império", escreveu o seu avô Nicolau I, "que Deus guarde esta criança tão preciosa para nós". Nicolau tornou-se herdeiro do trono quando tinha onze anos de idade, numa altura em que a Guerra da Crimeia estava a chegar ao fim. Juntamente com o seu irmão mais novo, Alexandre, o novo czarevich decidiu criar a sua pequena vingança do inimigo criando um mundo de fantasia chamado "Mopsopolis", desenhado a caneta com grande mestria e no qual os ingleses eram representados como cães pug.

Nicolau com os seus irmãos mais novos: Alexandre (futuro czar Alexandre III), Vladimir e Alexei.
Nicolau tinha cinco anos quando a sua irmã mais velha, Alexandra, morreu. Os seus companheiros de infância mais próximos foram os seus irmãos e os seus primos Leuchtenberg, filhos da irmã do pai, a grã-duquesa Maria Nikolaevna. Eram todos crianças felizes e normais. Anna Tiucheva, uma dama-de-companhia da czarina, descreveu uma briga entre Nicolau e os irmãos que aconteceu algumas semanas depois de o seu pai subir ao trono. Os rapazes estavam a falar sobre o pai quando 
"o pequeno grão-duque Nicolau disse, com um ar de importância: 'o papá agora anda tão ocupado que vai adoecer de exaustão. Quando o avô estava vivo, o papá ajudava-o, mas ninguém ajuda o papá. O tio Constantino está demasiado ocupado com a sua área e os tios Nix e Misha ainda são muito novos. Eu também ainda sou pequeno demais para o poder ajudar'. Quando ouviu isto, o seu irmão Alexandre levantou-se cheio de vontade: 'o problema não é seres pequeno demais, é seres estúpido demais'. O herdeiro protestou enfurecido: 'isso não é verdade, eu não sou estúpido. Sou só pequeno demais'. 'Não, não, és só estúpido'. O herdeiro perdeu a paciência com estas acusações desrespeitosas. Agarrou numa almofada e atirou-a às costas do irmão. O grão-duque Alexei decidiu que era um momento oportuno para escolher um lado e começou a gritar o mais alto que conseguia: 'és estúpido, só isso: estúpido'. Começou então uma briga e as amas tiveram de intervir e restaurar a paz. O herdeiro afastou-se, profundamente ofendido com a falta de confiança que os seus irmãos tinham na sua capacidade de ajudar na gestão do país".
Nicolau (dir) com os seus irmãos Alexandre, Alexei e Vladimir.
Nicolau foi educado para o trono, independentemente do que os irmãos poderiam pensar, e seguiu um programa rigoroso e intensivo de estudos que tinha sido criado especialmente para ele. Ambos os seus pais o adoravam, mas, embora o seu pai pudesse ser severo, a sua mãe dedicou-se exclusivamente a ele, quase esquecendo os seus outros filhos. Nicolau desenvolveu-se rapidamente, mostrando ter uma inteligência rápida e interesse em questões importantes que impressionavam e, por vezes, até preocupavam as pessoas responsáveis pela sua educação. O seu governante, o conde Stroganov, referiu que a maturidade de pensamento e da expressão do czarevich pareciam quase pouco saudáveis para alguém tão jovem. Um dos seus tutores tinha uma visão mais optimista: "se conseguir formar um estudante igual a Nicolau Alexandrovich a cada dez anos," escreveu o professor Soloviev, "ficarei com a sensação de que cumpri a minha vocação para o ensino".

Nicolau Alexandrovich
Parece tudo perfeito, mas existe uma imagem bastante diferente do czarevich nas memórias de um dos seus contemporâneos. Uma vez por semana, por insistência da mãe que achava que lhe faria bem estudar com outros rapazes, Nicolau tinha aulas de álgebra no Corps des Pages. Entre esses rapazes encontrava-se o príncipe Peter Kropotkin que recordou que o czarevich passava grande parte das aulas a desenhar - muito bem - e a fazer piadas com os amigos. O príncipe acrescentou que Nicolau era bem humorado e gentil, mas que tinha uma atitude extrema com tudo. Todos os esforços para o educar foram em vão e ele acabaria por chumbar no exame final que se realizou em Agosto de 1861. Podia estar a falar-se de uma outra criança, mas o testemunho de Kropotkin deve ser lido com cuidado. Quando escreveu as suas memórias, o príncipe estava exilado, depois de ter sido condenado à prisão na Rússia e na França devido às suas actividades revolucionárias. Não tinha motivos para gostar da família imperial, mas a sua descrição acaba mesmo por mostrar um lado mais humano do czarevich. Os desenhos e o humor fazem lembrar a sua criação de "Mopsopolis" e é possível que Nicolau visse esta sala-de-aulas como uma pausa do palácio, onde era o único aluno de uma equipa de tutores extremamente respeitada e exigente. Afinal, não deixava de ser uma criança, ainda que prodigiosa.

Nicolau Alexandrovich
Tal como tinha acontecido com o pai, quando Nicolau deixou a sala-de-aula, foi fazer uma viagem por todo o império russo que durou três anos. Nesta altura, já estava a começar a pensa no futuro. Em 1860, tinha comprado ou foi-lhe oferecida uma fotografia da princesa Dagmar da Dinamarca. Na altura, ela tinha apenas doze anos e ele dezassete, mas é possível que já lhe tivessem falado da importância do casamento para alguém na sua posição. Não há duvidas de que começou a ver Dagmar como uma forte candidata. A sua colecção de fotografias dela cresceu e, em Agosto de 1863, quando estava a visitar as cidades do sul da Rússia, garantiu à mãe que já não conseguia apaixonar-se por mais ninguém. As suas cartas mostram um jovem que sabia perfeitamente que tinha sido impulsivo no passado e que estava desesperado para ser levado a sério. Não sabia se alguma vez iria conhecer Dagmar, mas escreveu: "deixo isso nas mãos de Deus, uma vez que se trata de um assunto sagrado, um sacramento (...) estimo de tal forma estes sentimentos que seria doloroso se me dissesses que não passam de uma ilusão, que podem mudar mil vezes e por aí fora. Se assim fosse, por que motivo haveriam de durar três anos? E porque é que estão a aumentar e não a diminuir?". Em Junho de 1864, Nicolau deixou a Rússia na companhia do conde Stroganov e de uma grande comitiva.

A princesa Dagmar da Dinamarca por volta de 1860
Nesse verão, a Dinamarca estava em guerra contra a Prússia e as fronteiras estavam fechadas, por isso o primeiro destino da comitiva foi Bad Kissingen, onde a czarina estava a fazer tratamento num spa acompanhada de algumas das mais importantes figuras políticas da época. O imperador e a imperatriz da Áustria também lá estavam, assim como o grão-duque de Mecklemburgo-Schwerin e Nicolau ficou tempo suficiente para se tornar amigo do rei Luís II da Baviera de dezoito anos. Depois, viajou até Weimar, a convite de um primo do seu pai, o duque Carlos Alexandre. Nicolau ficou impressionado com as semelhanças que encontrou entre aquela capital de um pequeno estado alemão e a Rússia. Tal devia-se ao facto de, em 1804, a sua tia-avó, a grã-duquesa Maria Pavlovna da Rússia, ter ido viver para Saxe-Weimar como noiva do futuro grão-duque e a sua influência estava em todo o lado. Nicolau adorou a visita e não demoraram a surgir rumores de que tinha ficado noivo da filha de quinze anos do duque, a princesa Maria, que chegou mesmo a conhecer a czarina em Schwalbach. No entanto, Nicolau tinha outras ideias. De Weimar viajou até à Holanda onde passou várias semanas em Scheveningen, a tomar banhos de sol e mar. Outra prima do seu pai, a rainha Sofia dos Países Baixos, e a rainha-viúva Ana Pavlovna, sua tia-avó, ficaram encantadas por o conhecer, mas, logo que pôde, Nicolau apressou-se a chegar à Dinamarca para o encontro que tanto tinha antecipado. Em Copenhaga, foi recebido pelo príncipe-herdeiro e pelo irmão do rei, e, na manhã seguinte, chegaram as carruagens reais que os levaram numa viagem de três horas até Fredensborg: o rei e toda a sua família esperavam-nos na escadaria principal.

Dagmar da Dinamarca e Nicolau Alexandrovich (em pé, à esquerda) com a família real dinamarquesa no verão de 1864.
Dagmar não o desiludiu. As filhas da rainha Luísa da Dinamarca eram conhecidas pela sua simplicidade e a princesa cumprimentou o seu possível futuro noivo enquanto estava a usar um vestido de verão leve com um bibe preto por cima e o cabelo preso num puxo arranjado que lhe caía pelo pescoço. Segundo Feodor Oom, o secretário do Gabinete do Czarevich, a quem Nicolau tinha mostrado a fotografia de Dagmar várias vezes "ela brilhava com a frescura dos seus dezasseis anos de idade". Mas, inicialmente, a atmosfera era tensa e desconfortável. Apaixonar-se por uma fotografia era muito mais fácil do que conhecer uma jovem de carne e osso - sempre sob o olhar atento dos seus parentes. Durante vários dias, ninguém sabia o que dizer, e era o rei quem se sentia mais inibido entre todos. Nicolau gostou do rei Cristiano, reagindo bem à sua abertura e franqueza, mas teve algumas hesitações relativamente à sua futura sogra: numa longa carta que escreveu à mãe a 5 de Setembro, elogiou o rei, mas recusou-se a fazer comentários sobre a rainha, dizendo que se sentia demasiado feliz para estar a criticar alguém. Havia bons motivos para a sua felicidade, uma vez que Nicolau estava finalmente a ganhar coragem e a fazer progressos a sério. Ficou encantado com a atmosfera rural do palácio e encontrava uma escapatória nos jogos com os irmãos mais novos de Dagmar: Tira e Valdemar. Com a ajuda do seu ajudante-de-campo, o coronel Richter, conseguiu abordar pela primeira vez o assunto que o tinha levado até à Dinamarca através do irmão mais velho de Dagmar, o príncipe-herdeiro Frederico: será que uma proposta de casamento seria geralmente bem vista no país, e será que Dagmar sentia o mesmo por ele? A resposta para ambas as perguntas terá sido positiva.

Dagmar, a sua irmã Tira, o czarevich Nicolau Alexandrovich e a rainha Luísa da Dinamarca.
O tempo passou a correr e a conhecida boa disposição da família real dinamarquesa fez com que a timidez de Nicolau desaparecesse rapidamente. O grupo saía em passeio para locais interessantes, organizavam-se chás e jantares informais nos quais se conversava livremente, faziam-se corridas, jogos e riam sem parar - foi um tempo de alegria para os dinamarqueses que tinham acabado de sair de uma guerra. Nicolau ficou encantado com Dagmar, mas garantiu à sua mãe que tinha tido o cuidado de não falar do assunto do casamento, principalmente com ela, e que tinha apenas perguntado aos seus pais se poderia regressar. Sabendo que o seu filho tinha grandes esperanças para o encontro, a czarina aconselhou-o a conter os seus sentimentos. Antes de mais, tinha de se encontrar com os pais e obter a sua permissão antes de fazer a proposta de casamento oficial.

Nicolau Alexandrovich
Nicolau viajou da Dinamarca para sul para se juntar aos pais em Heiligenberg, a casa do seu tio materno a sul de Darmstadt. Passou a sua primeira noite lá sozinho com a mãe enquanto o resto da família estava no teatro. O czar e a czarina tiveram todo o gosto em aceitar os planos do filho e ele mostrou-se ansioso por regressar à Dinamarca para fazer o pedido de casamento, mas, antes disso, teria de passar pela Prússia para assistir a um dia inteiro de manobras militares juntamente com o pai. No caminho para lá, pararam em Estugarda para visitar outra tia, a rainha Olga de Wuttemberg, e Nicolau comemorou o seu 21.º aniversário na Alemanha. É provável que não tivesse grande vontade de saudar o exército que tinha acabado de derrotar de forma humilhante os dinamarqueses e que temesse que aquele compromisso fosse mal visto na Dinamarca. Pior ainda, na noite antes das manobras, o czarevich sofreu de dores fortes nas costas, mas esforçou-se por participar de qualquer das formas. Depois de passar onze horas em cima de um cavalo, ficou exausto e foi esse o primeiro sinal de que algo se passava. Infelizmente, ninguém lhe deu atenção.

Nicolau Alexandrovich
Assim que pôde, Nicolau viajou novamente para a Dinamarca e juntou-se à família real em Bernstorff. Teve imediatamente uma conversa com o rei que, posteriormente, explicou o motivo da visita de Nicolau com muita calma à sua visita e juntou o casal. Os dois foram depois dar um passeio pelo parque, com o rei e a rainha a caminhar um pouco mais à frente e um dos irmãos de Dagmar um pouco mais atrás. Tanto Nicolau como Dagmar se sentiram tímidos e apreensivos: "Queria que a Terra me engolisse", contou Nicolau à mãe. Mas esforçou-se por expressar os seus sentimentos e, com alívio, descobriu que eles eram recíprocos: Dagmar aceitou o seu pedido e os dois beijaram-se e deram aos mãos. "Mal conseguia falar", escreveu ele, "e apesar de ser um dia frio de outono, sentia-me a arder como se estivesse dentro de um forno". O noivado foi anunciado oficialmente nessa mesma noite, a 28 de Setembro, e, nos dias seguintes, houve trocas de presentes e visitas. O jovem casal teve também permissão para falar a sós pela primeira vez.  Nicolau mostrou a Dagmar as fotografias suas que tinha juntado ao longo de cinco anos e ela surpreendeu-o ao revelar que já pensava nele antes de se conhecerem e que tinha prometido a si mesma que não se casaria com mais ninguém. Existe a ideia de que os casamentos entre realeza nesta época eram sempre assuntos políticos, mas se era esse o caso com Nicolau e Dagmar, nenhum deles se sentia dessa forma. Nicolau garantiu à mãe que ninguém tinha falado de casamento com Dagmar anteriormente. Era importante saber que a atracção de Dagmar também tinha crescido lentamente e em privado. Mas ele foi ainda mais longe. O czarevich tinha reparado que havia muitos na Dinamarca que viam o casamento como uma aliança política e ele tinha tido o cuidado de não os encorajar. Pelo menos para ele, tratava-se de um assunto absolutamente privado.
 
Dagmar de mãos dadas com Nicolau Alexandrovich, rodeados de três dos irmãos de Dagmar (Valdemar, Tira e Frederico) e da sua mãe, a rainha Luísa.
A 12 de Outubro, Nicolau teve de partir para se juntar à sua família em Darmstadt. Estava intensamente feliz, bombardeando a sua mãe com histórias sobre a ingenuidade da sua noiva, a sua beleza e a gentileza dos seus olhos enquanto rezava com toda a sinceridade para que o seu futuro juntos fosse feliz. Ficou encantado quando soube que Dagmar iria escolher o nome da mãe dele, Maria, quando se convertesse para a Igreja Ortodoxa Russa. Um dos objectivos da sua viagem tinha sido cumprido, mas ainda faltavam várias visitas culturais antes de Nicolau poder regressar à Rússia com a sua noiva.

Nicolau Alexandrovich e Dagmar
A viajar com pequenas paragens por toda a Alemanha e Áustria, o czarevich e a sua comitiva chegaram a Veneza a 30 de Outubro. Passaram duas semanas a visitar museus, igrejas e teatros antes de avançarem para Milão onde foram recebidos por Humberto, o príncipe-herdeiro da Itália. Nicolau queria saber mais sobre o sistema político italiano, mas ficou desiludido com as respostas que príncipe-herdeiro deu às suas perguntas. Humberto disse que Nicolau, na categoria de herdeiro de uma monarquia absoluta, provavelmente seria obrigado a saber tudo sobre direito e sobre a constituição, mas que ele próprio preferia deixar esses assuntos nas mãos dos políticos. No entanto, os italianos ficaram impressionados com o nível de conhecimento que o czarevich tinha sobre os mais variados assuntos. Em comparação com os príncipes que tinham, ele parecia estar extremamente bem informado e as suas perguntas eram pertinentes e perspicazes. Na verdade, Nicolau recebia boletins diários com notícias do seu gabinete em São Petersburgo que lia sempre atentamente. O objectivo da viagem era impressionar a Europa com o homem que, um dia, iria governar a Rússia. Nicolau encontrou-se também com o rei Vítor Emanuel II num jantar de gala dado em sua honra em Turim e, a 11 de Novembro, partiu para Génova com a sua comitiva. O primeiro vislumbre que tive da cidade, com a luz outonal e o mar Mediterrâneo a toda a volta, fizeram-no lembrar com nostalgia a costa do Mar Negro e a sua casa. Nesse dia, estava um esquadrão naval russo ancorado no porto de Génova e o almirante foi cumprimentar Nicolau na estação de comboios. O czarevich ficou tão contente por ver homens em uniformes russos que convidou todos os oficiais do esquadrão para jantar no seu hotel.

Nicolau Alexandrovich
Nicolau estava com saudades de casa e decidiu fazer uma pausa do seu programa oficial para visitar a mãe. Nesse outono, a czarina teve uma crise de tuberculose particularmente grave e, da última vez que a tinha visto, a sua mãe estava a ser transportada numa maca para a estação de comboios de Darmstadt de onde viajou para Nice. Naquele momento, estava hospedada na Villa Bermond, que, embora tivesse o nome de Villa, era, na verdade, uma vasta propriedade numa colina, conhecida pelos seus pomares e campos de violetas de Parma. O parque tinha cinco casas, três das quais se encontravam ocupadas pela czarina e pela sua comitiva. Nicolau viajou por mar, a bordo de uma corveta russa chamada Vitiaz e com o nome falso de "Comte du Nord", o mesmo nome que o seu bisavô, o czar Paulo I, utilizava mais de meio século antes. Quando chegou a Nice, Nicolau ficou alojado na Villa Diesbach e passou alguns dias com a mãe antes de a corveta Vitiaz o levar de volta a Itália, desembarcando desta vez em Livorno. Grande parte da comitiva estava à sua espera em Florença, onde estava planeado um programa preenchido de actividades. No entanto, quando o comboio parou na estação, Nicolau queixou-se de dores nas costas de tal forma fortes que os seus companheiros quase tiveram de o carregar para os quartos que tinha reservado no Hotel Itália. 

Nicolau Alexandrovich
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Segunda Parte

Alexandre Alexandrovich
Com alguma relutância, Nicolau I deu autorização ao filho para convalescer em Itália, mas, em finais de Janeiro de 1839, a comitiva já estava novamente em viagem, desta vez pelas cortes da Alemanha. Não era segredo que Alexandre estava à procura de uma esposa. Os seus pais tinham esperança que gostasse da princesa Alexandrina de Baden, mas a jovem de dezoito anos não despertou qualquer sentimento em Alexandre. A partir da corte do pai dela, em Karlsruhe, Alexandre avançou para Heidelberg, mas estava normalmente a sentir-se exausto e, a 12 de Março, o general Kavelin sugeriu uma paragem não-planeada em Darmstadt. Alexandre queria uma noite descansada, mas o grão-duque de Hesse tinha outros planos, convidando o czarevich e a sua comitiva para o teatro e, depois, para jantar. A maioria sentia-se demasiado cansada para ir, mas Alexandre não podia recusar. "Foi só na manhã seguinte", contou Zhukovsky aos pais dele, "que fiquei a saber o que tinha acontecido na noite anterior. Dizer que estava feliz não chega (...). Atingimos o objectivo da nossa viagem".

Darmstadt em 1830
Alexandre ficou paralisado quando viu a filha do grão-duque. Aos catorze anos de idade, Maria de Hesse-Darmstadt ainda era uma criança, mas era alta para a idade e inteligente. Também se sentia sozinha, sentia a falta da mãe que a tinha criado longe da corte e que tinha morrido de tuberculose quando Maria tinha apenas onze anos de idade. Durante um curto período de tempo, quando Maria era mais nova, os seus pais tinham-se separado e havia rumores em todas as cortes da Europa de que o grão-duque não era o seu pai biológico. Nem toda a gente em Darmstadt era simpática para Maria e Alexandre era demasiado sensível para resistir à combinação da sua juventude, beleza e infelicidade. A sua comitiva ficou em Darmstadt durante alguns dias e, quando chegou a altura de partir, Alexandre levou consigo um medalhão com uma madeixa de cabelo de Maria.

Maria de Hesse-Darmstadt
Na noite de 19 de Março, Alexandre chegou a Haia onde iria passar um mês com a sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, princesa de Orange, e a família dela para comemorar a Páscoa e o seu vigésimo-primeiro aniversário. "O Sasha foi encantador no seu uniforme de cossaco, que lhe fica maravilhosamente bem.", escreveu Ana ao seu irmão nessa noite. "O bigode pequenino dele está a crescer e, quanto à aparência, posso dizer-te que o acho um jovem muito bonito". Os dias em Haia eram passados tranquilamente, a fazer visitas e escrever cartas, e, à noite, Alexandre fazia companhia à tia à hora do chá. É possível que lhe tenha falado de Maria, pelo menos é essa a ideia que a grã-duquesa Ana transmite numa outra carta dirigida ao irmão: "tenho a certeza que a diferença de locais e ambiente não o distraíram do objectivo principal que o devia ocupar". Ana ficou encantada com o seu sobrinho: "tem muito tacto, graciosidade e dignidade", escreveu ela, "com uma naturalidade que encanta".

Ana Pavlovna, princesa de Orange
A 20 de Abril, Alexandre deixou Haia e partiu para Inglaterra para mais uma visita de sucesso. A rainha Vitória, que era um ano mais nova do que ele e ainda solteira, achou a naturalidade tão encantadora como a sua tia tinha achado. Alexandre ficou no país um mês e foi recebido com entusiasmo por todo o lado. A 29 de Maio regressou a Haia e, depois, com a autorização dos pais, voltou a Darmstadt onde já tinham começado as negociações preliminares para o seu casamento com Maria.


A rainha Vitória em 1838

Existe uma história contada desde sempre e, por isso, dada como verdadeira, de que o czar Nicolau I estava contra o noivado e manteve a sua posição durante um ano, obrigando o filho a lutar por aquilo que queria. Almedingen descreveu como o czar, furioso, exigiu que Alexandre regressasse à Rússia após a primeira visita a Darmstadt, e escreve que Alexandre voltou para enfrentar a fúria do pai antes de continuar a sua viagem pelas cortes europeias. Apesar de este cenário parecer familiar, não há provas que o sustentem. A comitiva de Alexandre chegou a Darmstadt a 12 de Março e ficou lá durante alguns dias, chegando a Haia no dia 19. Sendo que na altura não tinham um meio de transporte mais rápido do que um cavalo, seria impossível incluir uma visita a São Petersburgo neste período de tempo, mesmo que o czar a tivesse ordenado, e, além disso, não existem sinais de que Nicolau estivesse realmente contra a união: o que o czar queria realmente era ver o filho bem casado. Em Abril, o embaixador austríaco em São Petersburgo reportou que o czar tinha aceite a aliança de Hesse e que a tinha comunicado ao seu próprio governo. Em Maio, Nicolau escreveu ao seu cunhado, o príncipe de Orange, e, ao referir-se ao seu sobrinho, o filho mais velho da sua irmã, acrescentou: "também o meu filho já encontrou o seu amor. Vamos ver o que irá acontecer. Pelo menos até agora, as belas jovens inglesas ainda não conseguiram ultrapassar Darmstadt". Havia apenas um motivo pelo qual Alexandre teria de esperar para o casamento: o facto de Maria ainda não ter sequer quinze anos de idade.

Maria de Hesse-Darmstadt
Após uma breve visita à família de Hesse, Alexandre regressou à Rússia, onde o seu pai o começou a incluir nos assuntos de estado e, à medida que o ano ia passando, o czarevich preparava-se para regressar a Darmstadt. O seu pai era da opinião de que ele não podia tomar uma decisão definitiva enquanto não visse a princesa novamente. O czar e a czarina não iriam tentar influenciar o filho, "mas ficaríamos encantados se a decisão fosse afirmativa". O noivado foi anunciado em Abril. Nicolau I e Alexandra também estavam a viajar pela Europa nessa primavera e deram os parabéns a Alexandre e Maria pessoalmente em Frankfurt, nesse mês de Junho. Em Agosto, algumas semanas depois de Maria completar dezasseis anos de idade, a família viajou em conjunto para a Rússia. A 28 de Abril de 1841, na véspera do dia em que Alexandre completou vinte-e-três anos de idade, os dois casaram-se na capela do Palácio de Inverno.

Maria Alexandrovna e o futuro czar Alexandre II
O casamento trouxe a Alexandre um nível de felicidade pessoal que ele já não sentia desde antes de o seu pai subir ao trono. Alexandre e Maria (agora conhecida como Maria Alexandrovna) eram jovens, interessavam-se por literatura, música e poesia, e a sua corte tornou-se no ponto principal dos seus amigos que partilhavam dos mesmos gostos. A maioria das suas noites eram passadas a dançar, a ouvir música, a ler em voz alta e a trocar ideias. A sua primeira filha, Alexandra, nasceu em Czarskoe Selo no verão de 1842 e um filho, Nicolau, nasceu um ano depois. Com o seu nascimento, a linha de sucessão ficou garantida e os avós ficaram encantados. Depois nasceram Alexandre, Vladimir, Alexei, Maria... Alexandre era um pai dedicado. As paredes do seu escritório em Czarskoe Selo estavam cobertas de retratos da sua esposa e filhos e a sua secretária quase transbordava com miniaturas deles. As crianças brincavam ao lado dele enquanto ele trabalhava. A pequena Alexandra morreu de meningite tuberculosa oito semanas antes de completar sete anos de idade e Alexandre guardou cuidadosamente o seu vestido de seda azul o resto da sua vida. A pequena grã-duquesa tinha um lugar especial no coração do pai. Muitos anos depois da sua morte, quando a sua outra filha, Maria, estava prestes a casar, Alexandre contou a Lady Augusta Stanley sobre a criança que tinha perdido, que "era tão dedicada a ele que costumava pedir para ficar na mesma divisão do pai, mesmo quando ele estava ocupado, e ficava lá durante longas horas, em silêncio, só para poder ver o papá".

Alexandre com os seus dois filhos mais velhos, Alexandra e Nicolau
Mas Alexandre e Maria Alexandrovna partilhavam mais do que os filhos. Alexandre estava já envolvido activamente no governo do seu pai e pedia a opinião da sua esposa para tudo. Levava os papéis de estado para casa e os dois liam e discutiam os mesmos entre si. Alexandre respeitava o bom senso de Maria, assim como o da sua tia Helena Pavlovna, que se tinha tornado na amiga mais chegada de Maria dentro da família imperial. Juntos, o jovem casal lia as obras acabadas de publicar de Turgenev e Gogol, que estavam na mira da censura oficial. Juntos, estudavam os relatórios mais recentes sobre o estado do país, que eram demasiado controversos para mostrar ao czar. Zhukovsky ainda estava por perto e continuava a incentivar Alexandre: "o teu coração deseja sinceramente o maior bem e, um dia, terás grande poder nas tuas mãos (...) mas terás de saber o que fazer (...) assim que souberes que uma medida é boa, a sua aceitação deve ser imediatamente seguida da sua concretização".

Alexandre Alexandrovich
Em 1842, Alexandre liderou um comité que o seu pai tinha convocado para alterar as condições da servidão. Os seus objectivos eram limitados, mas isso não impediu uma tempestade de protestos. Havia interesses ocultos na Rússia que estavam decididos a preservar o sistema tal como ele estava. As acções do comité foram atrasadas pela burocracia. O descontentamento aumentou. Em algumas zonas, a esperança numa reforma foi arrasada e, quando isso aconteceu, os camponeses tornaram-se violentos ou abandonaram as suas terras. Noutros locais também houve violência, mas pelo motivo contrário: os camponeses temiam a mudança. Era um ambiente caótico e desmotivante e a única resposta do czar Nicolau I foi aumentar ainda mais a repressão. Esta atitude prolongou-se ao longo da década de 1840. Com uma censura rigorosa e castigos medievais, Nicolau I tentou proteger a Rússia dos pedidos de mudança que se estavam a espalhar por toda a Europa, mas não havia nada que conseguisse silenciar a fúria no país. No entanto, Alexandre que, na altura, era já uma figura central do governo, não foi culpado por nenhuma destas políticas. Ainda havia uma aura dourada à sua volta.

Nicolau I da Rússia
O reinado de Nicolau aproximava-se do seu doloroso final. A partir de 1852, Alexandre viu o seu pai a entrar em conflito directo contra as grandes potências europeias. Ninguém queria que a Guerra da Crimeia acontecesse. Alexandre, que nunca se sentira como um verdadeiro soldado, detestava a ideia de ir para a guerra e percebeu imediatamente qual seria o resultado daquela em particular, mas não podia opôr-se ao pai. Era praticamente o regente do império, detendo todos os poderes à excepção do poder essencial para decidir a política geral, e Maria partilhava a sua ansiedade, à medida que ia procurando coragem nos evangelhos e nas cartas de Zhukovsky e assistia ao desenrolar dos acontecimentos. Não havia coragem suficiente do lado russo para compensar a falta de organização e de liderança. No início de 1855, Alexandre não aguentava mais e dispensou o comandante-em-chefe, substituindo-o por um homem da sua confiança. Dois dias depois, chegava a notícia de que o czar Nicolau I tinha morrido e que Alexandre se tinha tornado czar da Rússia. Tinha trinta-e-seis anos de idade e herdava um país perto do colapso.

Alexandre (esq) com o pai Nicolau I e o irmão Constantino Nikolaevich (dir).
Neste ponto baixo, havia mais esperança no seu reinado do que nunca. Nos seus primeiros meses de reinado, Alexandre aliviou a censura e levantou as restrições que tinham sido impostas a viagens ao estrangeiro. Mais tarde, iria abolir a pena capital e o castigo por chicotadas. Os responsáveis pela Revolta Dezembrista foram finalmente libertados. Até os maiores inimigos do regime esperavam que Alexandre conseguisse um milagre. Em Inglaterra, um socialista exilado, Alexander Herzen, editor do diário Kolokol (O Sino) fez uma promessa extraordinária. Disse que iria abandonar a oposição "porque tenho em mim a esperança de que o czar fará algo pela Rússia. Majestade, dê liberdade à palavra russa (...) dê-nos liberdade de expressão (...) dê a terra aos camponeses". Foi um momento extraordinário. Tudo parecia possível, e as pombas voavam por toda a Rússia.

Fogo de artíficio na coroação de Alexandre II em 1856
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat