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sexta-feira, 7 de julho de 2017

O Almirante General - Grão-Duque Constantino Nikolaevich - Primeira Parte

Grão-duque Constantino Nikolaevich da Rússia
A bomba no Palácio de Inverno foi apenas o início de muitas tentativas de assassinato e despertou os rumores mais inimagináveis. Murmurava-se em São Petersburgo que o grão-duque Constantino Nikolaevich estava a conspirar contra o trono do irmão e as más-línguas viam a sua mão em todos os atentados que eram feitos contra a vida de Alexandre. Nove anos mais novo do que o czar, Constantino conseguia ver apenas que havia a necessidade de fazer mudanças na Rússia, nunca pensava nas dificuldades, e incentivou o irmão com toda a confiança. Tinha uma forte veia de arrogância: a sua personalidade podia ser abrasiva e muitos desejavam a sua queda, mas, quando essa queda chegou, foi provocada pelo próprio Constantino e não pelos rumores. Deixou para trás uma família muito amada e unida que sempre foi leal à coroa... e uma ovelha muito negra.

O grão-duque Constantino Nikolaevich por Pyotr Fyodorovich Sokolov
"Podes imaginar a nossa alegria! Correu tudo muito bem e foi bastante rápido. Estou mais feliz do que eu mesmo consigo acreditar e agradeço a Deus com toda a minha alma". O czar Nicolau I adorava todos os seus filhos, mas, depois de nove anos a ter só filhas, ficou exultante quando a sua esposa deu à luz um segundo filho, em Setembro de 1827. O pequeno príncipe tinha apenas alguns meses de vida quando o seu pai o descreveu numa carta dirigida à sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, na Holanda, como "um rapaz grande, gordo e bonito, tão rápido e pesado que não consigo pegar nele: parece pertencer realmente à família, uma vez que a única coisa que ouve com prazer são os tambores". Quando tinha cinco anos de idade, Constantino tinha-se tornado demasiado obstinado e difícil para a sua governanta, por isso o seu pai decidiu contratar um tutor masculino. Foi o primeiro sinal da personalidade que iria tornar-se a sua característica menos atraente ao longo da sua vida.

Constantino com o seu pai, Nicolau I
O czar queria que, um dia, Constantino se torna-se almirante-general da Frota Russa, e escolheu um tutor com esse objectivo em mente. Frederick Lütke tinha circum-navegado o planeta aos vinte anos de idade e ensinou ao rapaz as ciências navais, enchendo-lhe a cabeça das suas histórias sobre a vida no mar. No hall do Palácio de Inverno, que na altura era uma espécie de sala de jogos para os filhos mais novos do czar, havia um navio feito à escala que era grande o suficiente para que os três rapazes subissem os mastros e aprendessem os fundamentos da navegação em terra firme. O jovem Constantino nunca se podia esquecer do seu destino e olhava ansiosamente para o futuro: "as horas do meu primeiro encontro com o rapaz passaram a correr," recordou Lütke, "com histórias sobre o Vesúvio, em Roma, e viagens marítimas. Senti imediatamente que a minha missão iria dar frutos."

Constantino Nikolaevich
No entanto, por muito ansioso que Constantino estivesse, o seu verdadeiro treino naval apenas iria começar aos doze anos de idade e, antes disso, o jovem grão-duque tinha de aprender outras coisas. Os seus pais e tutores criaram um programa de estudos muito menos académico do que o horário que Zhukovsky tinha criado para o czarevich. Só tinha três horas de aulas por dia e o resto do seu tempo era dedicado a caminhadas, exercícios e à música, uma vez que Constantino também aprendeu a tocar piano e violoncelo. Também começou a aprender francês e alemão, além de russo e inglês, que tinha começado a aprender ainda no berçário, e Constantino desenvolveu um grande gosto pela leitura. Lütke também estava decidido a ensinar o seu aluno aspectos sobre o mundo real que ficava além dos muros do palácio. Professor e aluno criaram uma amizade que iria durar o resto das suas vidas, mas, à medida que foi crescendo, Constantino passou a encontrar um ambiente mais estimulante a nível intelectual na casa da sua tia, a grã-duquesa Helena Pavlovna. Foi ela quem encorajou o seu gosto pela literatura e pela música, apresentando-lhe os melhores trabalhos que estavam a ser publicados na época. Também foi ela que lhe mostrou os mais recentes desenvolvimentos nas ciências e encorajou o idealismo político que iria caracterizar a sua vida.

Constantino Nikolaevich
Constantino vivia a alta velocidade. Antes de completar vinte-e-um anos de idade, ficou noivo da princesa Alexandra de Saxe-Altemburgo. Dizia-se que ela tão parecida com uma das irmãs de Constantino, a grã-duquesa Alexandra Nikolaevna, que tinha morrido alguns anos antes ao dar à luz, que a mãe dele começou a chorar quando a viu pela primeira vez. A princesa de Saxe-Altemburgo esteve em São Petersburgo para assistir à cerimónia de maioridade de Constantino, quando ele fez o juramento de lealdade ao seu pai e irmão mais velho, uma prática que tinha sido introduzida pelo seu pai para garantir que a ordem de sucessão nunca mais seria desafiada. O futuro czar Alexandre II foi o primeiro a fazer o juramento em 1834, quando tinha dezasseis anos de idade. Agora, no inverno de 1847, o czar conduziu o seu segundo filho à capela do Palácio de Inverno e "depois de fazer o sinal da cruz e de beijar a Bíblia, Constantino leu o juramento numa voz clara, com a mão levantada. Parecia estar muito impressionado, e, assim que acabou de ler o juramento, recebeu a bênção e um abraço do pai e da mãe, que estavam muito emocionados. Depois, abraçou os irmãos, as irmãs e a sua noiva". Depois, todos os presentes foram em procissão até ao Salão de São Jorge, onde o grão-duque voltou a repetir o juramento em frente de alguns oficiais e representantes do exército escolhidos a dedo.

Constantino Nikolaevich
Em Setembro de 1848, nove meses depois da sua cerimónia de maioridade, Constantino casou-se com Alexandra. A princesa juntou-se à família imperial como grã-duquesa Alexandra Iosifovna e, um ano depois, após a morte do grão-duque Miguel Pavlovich, marido da grã-duquesa Helena Pavlovna, o jovem casal herdou o Palácio de Pavlovsk, uma das propriedades mais bonitas dos Romanov. A maior parte da sua vida conjunta seria passada entre os palácios de Pavlovsk e de Mármore na cidade de São Petersburgo e o Palácio de Strelna, perto de Peterhof.

A grã-duquesa Alexandra Iosifovna
Alexandra Iosifovna era uma princesa até à ponta dos pés, com um sentido de dignidade nato e um respeito profundo pelos valores tradicionais. Nos seus últimos anos de vida, divertia-se quando ouvia as conversas das suas netas e damas-de-companhia sobre os seus pretendentes e contava sempre como os tempos tinham mudado. Recordava que, quando a sua irmã, a princesa Maria, tinha ficado noiva do príncipe-herdeiro de Hanôver, apenas o tinha visto uma vez e que, quando ele chegou ao palácio do pai dela para o anúncio oficial, a sua mãe mandou todas as quatro irmãs ao encontro dele vestidas com vestidos cor-de-rosa muito parecidos e com rosas no cabelo. O príncipe, que era praticamente cego, olhava para cada uma delas à vez, muito confuso. A noiva ficou muito envergonhada por não ser reconhecida e quase começou a chorar. Alexandra, que na altura tinha apenas doze anos, ajudou o seu futuro cunhado, dizendo-lhe em modo trocista: "Não sou eu!", mas foi preciso que um ajudante-de-campo empurrasse o príncipe na direcção de Maria para ele a encontrar. "Depois, deu-lhe um ramo de flores de modo cerimonial para as mãos e agradeceu-lhe a honra que lhe dava (...). A minha irmã fez uma vénia e eles ficaram noivos. Era assim que se fazia a corte no meu tempo", contava ela a rir-se.

Alexandra Iosifovna (em pé, à direita) com os pais, a princesa Amélia de Wüttenberg e José, Duque de Saxe-Altemburgo. No quadro encontra-se a sua irmã mais velha, Maria que, por sua vez, está a olhar para um outro retrato do seu marido, o futuro rei Jorge V de Hanôver. À esquerda de Alexandra está outra das suas irmãs mais velhas, a princesa Isabel de Saxe-Altemburgo, depois duquesa de Oldemburgo. 
No entanto, a corte dela foi mais elaborada: não havia dúvidas de que ela e Constantino tinham muitas coisas em comum e o casamento começou com muita felicidade. O seu primeiro filho, Nicolau, nasceu em São Petersburgo em 1859, sendo seguido, dezanove meses depois, de uma filha, Olga. Constantino era um pai carinhoso e o seu diário e cartas dirigidas ao seu irmão mais velho são testemunhos da harmonia pessoal dos seus primeiros anos de casado. Era raro os dois irmãos referirem as esposas sem usarem frases como "o teu anjo", ou, quando falavam dos filhos, sem referirem como eram crianças doces, gentis ou bonitas, adjectivos que ecoavam o afecto e orgulho que tinham nas suas famílias. Ambos os homens se envolviam completamente nos pormenores dos partos e dos cuidados para com as suas crianças, assuntos que a maioria dos homens da sua geração preferiam delegar às mulheres e criados. "Estou a escrever-te algumas palavras, meu querido Sasha", escreveu Constantino a partir de Strelna, no verão de 1858, pouco depois do nascimento do seu segundo filho, "para te contar que tudo aqui está a correr muito bem, graças a Deus. Hoje é o terceiro dia. O leite da minha esposa está a começar a aparecer, e os peitos dela estão cheios e inchados, o que lhe causa muito desconforto, mas, graças a Deus, ainda não há nenhum sintoma de febre. Infelizmente, as insónias que a afectaram há algum tempo voltaram. O pequeno Kostya [grão-duque Constantino Constantinovich] também está muito bem e fica deitado ao lado da mãe, na cama, o dia todo. A nossa mamã é inestimável, está connosco todos os dias e fica contente por poder ficar durante muito tempo. Ontem jantou comigo".

Constantino Nikolaevich com dois dos seus filhos.
Em Novembro de 1859, Nicolau adoeceu e os seus pais ficaram transtornados com preocupação. "O nosso pobre Nikola não está bem", escreveu Constantino no seu diário no quarto dia da doença, "a febre ainda não desceu, ele está a ficar mais fraco e os médicos começam a temer que seja tifo, apesar de não se atreverem a dizê-lo abertamente. Estamos muito preocupados. A nossa esperança está em Deus". Constantino e Alexandra passaram essa noite junto do filho, fizeram o mesmo no dia seguinte e ficaram encantados quando a criança começou a melhorar nessa noite. Os dois adoravam Nicolau, se calhar até demais, como os eventos futuros viriam a mostrar".
Constantino Nikolaevich com os seus filhos
No início do reinado do irmão, o que mais ocupava o tempo de Constantino eram os planos para uma reforma na marinha. Foi uma época durante a qual o grão-duque colocou os seus conhecimentos completamente à prova. Em 1857, as visitas que fez a Inglaterra e a França mostraram-lhe como deveria ser uma marinha moderna, mas tudo o que ele tinha eram 200 navios mal equipados, uma burocracia mal preparada que obstruía todos os seus movimentos, e praticamente nenhum financiamento. Constantino queria que o país tivesse os seus próprios estaleiros para que a marinha se libertasse da sua dependência de encomendas ao estrangeiro, mas era uma luta difícil. "Quero construtores de navios e marinheiros, não multidões de escrituários", dizia ele. Também explicou a um amigo quais eram as suas ambições a longo prazo: "estou prestes a criar um Marinha. Não temos nenhuma e temos de o fazer. O nosso primeiro dever é trabalhar no duro e não esperar grandes resultados (...) não devemos trabalhar para a nossa época, mas sim para o futuro". Nada parecia capaz de o parar, nem sequer as obrigações às quais o país se encontrava sujeito devido à Guerra da Crimeia e que proibiam a Rússia de colocar uma frota naval no Mar Negro.

Constantino Nikolaevich com o uniforme da marinha.
O grão-duque era energético e determinado, e, além de promover os seus planos para a marinha, também estava envolvido nas reformas dos colégios navais e militares, numa investigação rigorosa da corrupção no exército, e na revisão das leis intransigentes de censura do país. Patrocinava expedições para explorar e mapear zonas remotas do império. Era a arma secreta do czar. Abrupto e temperamental, odiava profundamente qualquer pessoa que se opunha às suas ideias, mas conseguia lidar mais eficazmente com os problemas que assombravam o seu irmão mais sensível. A emancipação dos servos, a reforma mais importante de todas, não era uma política popular. Quando o comité nomeado para a organizar colocava exigências e se mostrava inabalável, Alexandre chamava Constantino. O seu feitio fez com que ganhasse inimigos, mas ele insistiu nas suas ideias, apesar de essa atitude acabar por se tornar num pesadelo para ele. Depois de doze meses tempestuosos, Constantino perdeu a paciência e partiu num cruzeiro para o estrangeiro "desanimado e frustrado com tudo o que era dito sobre ele na Rússia". Regressou à sua posição quase um ano depois. Quando a emancipação entrou finalmente em vigor em 1861, Alexandre II agradeceu publicamente ao irmão o contributo que tinha feito.

Constantino Nikolaevich
Nesse mesmo ano, em 1861, alguns eventos trouxeram mudanças significativas à vida do grão-duque e da sua família. O sector russo da Polónia, repartida por vários países desde o século anterior, estava a passar por distúrbios e tinha sido imposta a lei marcial. O antigo vice-rei, que tinha implorado para ser libertado do seu cargo, tinha acabado por morrer de falha cardíaca.  À medida que a agitação aumentava, Alexandre achou que precisava de um vice-rei em quem pudesse confiar realmente e decidiu nomear Constantino. O grão-duque chegou a Varsóvia em inícios de 1862 e foi quase imediatamente alvejado no ombro por um aprendiz de alfaiate. O czar voltou a chamá-lo para casa, para o grão-duque recusou-se a ir e a sua esposa e família decidiram apoiá-lo e ficar com ele. Assim que pôde, Constantino apareceu em público e pediu o fim da violência.

Constantino Nikolaevich
O grão-duque sentia compaixão pelos polacos e, ignorando os conselhos dos generais nomeados pelo irmão, acabou com a lei marcial e deu início a um programa de liberalização. O polaco voltou novamente a ser a língua oficial do país, Constantino nomeou polacos para cargos administrativos e reuniu uma corte de polacos e russos de renome à sua volta. Muitos anos depois, a condessa Marie Kleinmichel, filha do conde von Keller, um dos ministros nomeados por Constantino, ainda recordava aquele período glorioso da sua vida.

Constantino Nikolaevich
Ainda criança na altura, Marie era muitas vezes convidada para brincar com os filhos do grão-duque. A sua filha mais velha, Olga, tinha-se tornado numa menina gentil e tímida, que se desfazia em lágrimas muito facilmente. A filha mais nova, Vera, passava longos períodos de tempo na Alemanha com a sua tia, a grã-duquesa Olga Nikolaevna, que não tinha filhos. Com doze anos de idade, Marie era, em idade, mais próxima do filho mais velho, Nicolau, que era já moreno, atraente e, em todos os aspectos, o filho favorito dos pais, ofuscando completamente os seus irmãos mais novos, Constantino, de quatro anos, e Dmitri, que era ainda bebé. Tanto Nicolau como Marie estavam, na altura, obcecados com o livro "A Casa de Gelo", que descrevia as lutas do herói Artemi Volinsky contra o malvado estadista Biron, durante o reinado da czarina Anna Ivanovna, no século XVIII. O jovem sonhava ser Volinsky e imaginava grandes aventuras, nas quais ele é que era o herói. Tinha herdado o idealismo do pai, mas também o seu orgulho e temperamento imprevisível.

Constantino e Alexandra com o seu filho mais velho, Nicolau.
Em Julho de 1862, a grã-duquesa Alexandra deu à luz o sexto filho do casal no Palácio de Lazienki em Varsóvia. Para elogiar os polacos, o casal decidiu chamá-lo Vacslav, mas a escolha foi infeliz. Os russos na corte em São Petersburgo insistiam em utilizar a forma russa do nome, Viacheslav, o que causou muitas querelas e situações desagradáveis desnecessariamente. Apesar de tudo, o bebé Vacslav, ou Viacheslav, foi baptizado em grande estilo. O seu tio, o grão-duque Miguel Nikolaevich e a esposa dele, assim como uma das filhas da grã-duquesa Maria Nikolaevna, duquesa de Leuchtenberg, viajaram até Varsóvia com as suas comitivas, e o czar mandou o seu segundo filho, o grão-duque Alexandre Alexandrovich, para segurar o bebé na pia. Com dezassete anos de idade, Alexandre era alto, pesado e desajeitado. Ao contrário do seu irmão mais velho, o czarevich, faltavam-lhe as boas maneiras e era, muitas vezes, tempestuoso nos momento errados, deitava mobílias ao chão e mostrava não se sentir confortável em ocasiões formais. Os seus primos até lhe chamavam "Sasha Patas-de-Urso".

Alexandra Feodorovna com o seu filho mais novo, Vacslav.
Durante a semana de festividades que assinalou o baptizado, os observadores mais atentos poderiam ter reparado que havia problemas no horizonte. O grão-duque Constantino não era um homem tolerante. Conhecia os filhos do irmão desde que eles tinham nascido e tinha uma relação particularmente próxima com o czarevich Nicolau. Quando o seu sobrinho mais velho começou a mostrar um interesse sério por música, Constantino registou esse facto com muito orgulho no seu diário e assistiu ao seu progresso com muita satisfação. No entanto, nunca tinha conseguido sentir o mesmo nível de afecto por Alexandre e ficou transtornado com o fraco desempenho que o jovem mostrou em Varsóvia. Durante um jantar formal, Alexandre deixou cair um decantador de vinho tinto, o que levou Constantino a comentar: "Vejam só o porco que nos mandaram de São Petersburgo". Alexandre não disse nada, mas lançou um olhar furioso ao tio e nunca lhe perdoaria a humilhação.

Alexandre Alexandrovich (futuro czar Alexandre III) com a sua prima, a princesa Eugénia de Leuchtenberg.
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Segunda Parte

Alexandre Alexandrovich
Com alguma relutância, Nicolau I deu autorização ao filho para convalescer em Itália, mas, em finais de Janeiro de 1839, a comitiva já estava novamente em viagem, desta vez pelas cortes da Alemanha. Não era segredo que Alexandre estava à procura de uma esposa. Os seus pais tinham esperança que gostasse da princesa Alexandrina de Baden, mas a jovem de dezoito anos não despertou qualquer sentimento em Alexandre. A partir da corte do pai dela, em Karlsruhe, Alexandre avançou para Heidelberg, mas estava normalmente a sentir-se exausto e, a 12 de Março, o general Kavelin sugeriu uma paragem não-planeada em Darmstadt. Alexandre queria uma noite descansada, mas o grão-duque de Hesse tinha outros planos, convidando o czarevich e a sua comitiva para o teatro e, depois, para jantar. A maioria sentia-se demasiado cansada para ir, mas Alexandre não podia recusar. "Foi só na manhã seguinte", contou Zhukovsky aos pais dele, "que fiquei a saber o que tinha acontecido na noite anterior. Dizer que estava feliz não chega (...). Atingimos o objectivo da nossa viagem".

Darmstadt em 1830
Alexandre ficou paralisado quando viu a filha do grão-duque. Aos catorze anos de idade, Maria de Hesse-Darmstadt ainda era uma criança, mas era alta para a idade e inteligente. Também se sentia sozinha, sentia a falta da mãe que a tinha criado longe da corte e que tinha morrido de tuberculose quando Maria tinha apenas onze anos de idade. Durante um curto período de tempo, quando Maria era mais nova, os seus pais tinham-se separado e havia rumores em todas as cortes da Europa de que o grão-duque não era o seu pai biológico. Nem toda a gente em Darmstadt era simpática para Maria e Alexandre era demasiado sensível para resistir à combinação da sua juventude, beleza e infelicidade. A sua comitiva ficou em Darmstadt durante alguns dias e, quando chegou a altura de partir, Alexandre levou consigo um medalhão com uma madeixa de cabelo de Maria.

Maria de Hesse-Darmstadt
Na noite de 19 de Março, Alexandre chegou a Haia onde iria passar um mês com a sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, princesa de Orange, e a família dela para comemorar a Páscoa e o seu vigésimo-primeiro aniversário. "O Sasha foi encantador no seu uniforme de cossaco, que lhe fica maravilhosamente bem.", escreveu Ana ao seu irmão nessa noite. "O bigode pequenino dele está a crescer e, quanto à aparência, posso dizer-te que o acho um jovem muito bonito". Os dias em Haia eram passados tranquilamente, a fazer visitas e escrever cartas, e, à noite, Alexandre fazia companhia à tia à hora do chá. É possível que lhe tenha falado de Maria, pelo menos é essa a ideia que a grã-duquesa Ana transmite numa outra carta dirigida ao irmão: "tenho a certeza que a diferença de locais e ambiente não o distraíram do objectivo principal que o devia ocupar". Ana ficou encantada com o seu sobrinho: "tem muito tacto, graciosidade e dignidade", escreveu ela, "com uma naturalidade que encanta".

Ana Pavlovna, princesa de Orange
A 20 de Abril, Alexandre deixou Haia e partiu para Inglaterra para mais uma visita de sucesso. A rainha Vitória, que era um ano mais nova do que ele e ainda solteira, achou a naturalidade tão encantadora como a sua tia tinha achado. Alexandre ficou no país um mês e foi recebido com entusiasmo por todo o lado. A 29 de Maio regressou a Haia e, depois, com a autorização dos pais, voltou a Darmstadt onde já tinham começado as negociações preliminares para o seu casamento com Maria.


A rainha Vitória em 1838

Existe uma história contada desde sempre e, por isso, dada como verdadeira, de que o czar Nicolau I estava contra o noivado e manteve a sua posição durante um ano, obrigando o filho a lutar por aquilo que queria. Almedingen descreveu como o czar, furioso, exigiu que Alexandre regressasse à Rússia após a primeira visita a Darmstadt, e escreve que Alexandre voltou para enfrentar a fúria do pai antes de continuar a sua viagem pelas cortes europeias. Apesar de este cenário parecer familiar, não há provas que o sustentem. A comitiva de Alexandre chegou a Darmstadt a 12 de Março e ficou lá durante alguns dias, chegando a Haia no dia 19. Sendo que na altura não tinham um meio de transporte mais rápido do que um cavalo, seria impossível incluir uma visita a São Petersburgo neste período de tempo, mesmo que o czar a tivesse ordenado, e, além disso, não existem sinais de que Nicolau estivesse realmente contra a união: o que o czar queria realmente era ver o filho bem casado. Em Abril, o embaixador austríaco em São Petersburgo reportou que o czar tinha aceite a aliança de Hesse e que a tinha comunicado ao seu próprio governo. Em Maio, Nicolau escreveu ao seu cunhado, o príncipe de Orange, e, ao referir-se ao seu sobrinho, o filho mais velho da sua irmã, acrescentou: "também o meu filho já encontrou o seu amor. Vamos ver o que irá acontecer. Pelo menos até agora, as belas jovens inglesas ainda não conseguiram ultrapassar Darmstadt". Havia apenas um motivo pelo qual Alexandre teria de esperar para o casamento: o facto de Maria ainda não ter sequer quinze anos de idade.

Maria de Hesse-Darmstadt
Após uma breve visita à família de Hesse, Alexandre regressou à Rússia, onde o seu pai o começou a incluir nos assuntos de estado e, à medida que o ano ia passando, o czarevich preparava-se para regressar a Darmstadt. O seu pai era da opinião de que ele não podia tomar uma decisão definitiva enquanto não visse a princesa novamente. O czar e a czarina não iriam tentar influenciar o filho, "mas ficaríamos encantados se a decisão fosse afirmativa". O noivado foi anunciado em Abril. Nicolau I e Alexandra também estavam a viajar pela Europa nessa primavera e deram os parabéns a Alexandre e Maria pessoalmente em Frankfurt, nesse mês de Junho. Em Agosto, algumas semanas depois de Maria completar dezasseis anos de idade, a família viajou em conjunto para a Rússia. A 28 de Abril de 1841, na véspera do dia em que Alexandre completou vinte-e-três anos de idade, os dois casaram-se na capela do Palácio de Inverno.

Maria Alexandrovna e o futuro czar Alexandre II
O casamento trouxe a Alexandre um nível de felicidade pessoal que ele já não sentia desde antes de o seu pai subir ao trono. Alexandre e Maria (agora conhecida como Maria Alexandrovna) eram jovens, interessavam-se por literatura, música e poesia, e a sua corte tornou-se no ponto principal dos seus amigos que partilhavam dos mesmos gostos. A maioria das suas noites eram passadas a dançar, a ouvir música, a ler em voz alta e a trocar ideias. A sua primeira filha, Alexandra, nasceu em Czarskoe Selo no verão de 1842 e um filho, Nicolau, nasceu um ano depois. Com o seu nascimento, a linha de sucessão ficou garantida e os avós ficaram encantados. Depois nasceram Alexandre, Vladimir, Alexei, Maria... Alexandre era um pai dedicado. As paredes do seu escritório em Czarskoe Selo estavam cobertas de retratos da sua esposa e filhos e a sua secretária quase transbordava com miniaturas deles. As crianças brincavam ao lado dele enquanto ele trabalhava. A pequena Alexandra morreu de meningite tuberculosa oito semanas antes de completar sete anos de idade e Alexandre guardou cuidadosamente o seu vestido de seda azul o resto da sua vida. A pequena grã-duquesa tinha um lugar especial no coração do pai. Muitos anos depois da sua morte, quando a sua outra filha, Maria, estava prestes a casar, Alexandre contou a Lady Augusta Stanley sobre a criança que tinha perdido, que "era tão dedicada a ele que costumava pedir para ficar na mesma divisão do pai, mesmo quando ele estava ocupado, e ficava lá durante longas horas, em silêncio, só para poder ver o papá".

Alexandre com os seus dois filhos mais velhos, Alexandra e Nicolau
Mas Alexandre e Maria Alexandrovna partilhavam mais do que os filhos. Alexandre estava já envolvido activamente no governo do seu pai e pedia a opinião da sua esposa para tudo. Levava os papéis de estado para casa e os dois liam e discutiam os mesmos entre si. Alexandre respeitava o bom senso de Maria, assim como o da sua tia Helena Pavlovna, que se tinha tornado na amiga mais chegada de Maria dentro da família imperial. Juntos, o jovem casal lia as obras acabadas de publicar de Turgenev e Gogol, que estavam na mira da censura oficial. Juntos, estudavam os relatórios mais recentes sobre o estado do país, que eram demasiado controversos para mostrar ao czar. Zhukovsky ainda estava por perto e continuava a incentivar Alexandre: "o teu coração deseja sinceramente o maior bem e, um dia, terás grande poder nas tuas mãos (...) mas terás de saber o que fazer (...) assim que souberes que uma medida é boa, a sua aceitação deve ser imediatamente seguida da sua concretização".

Alexandre Alexandrovich
Em 1842, Alexandre liderou um comité que o seu pai tinha convocado para alterar as condições da servidão. Os seus objectivos eram limitados, mas isso não impediu uma tempestade de protestos. Havia interesses ocultos na Rússia que estavam decididos a preservar o sistema tal como ele estava. As acções do comité foram atrasadas pela burocracia. O descontentamento aumentou. Em algumas zonas, a esperança numa reforma foi arrasada e, quando isso aconteceu, os camponeses tornaram-se violentos ou abandonaram as suas terras. Noutros locais também houve violência, mas pelo motivo contrário: os camponeses temiam a mudança. Era um ambiente caótico e desmotivante e a única resposta do czar Nicolau I foi aumentar ainda mais a repressão. Esta atitude prolongou-se ao longo da década de 1840. Com uma censura rigorosa e castigos medievais, Nicolau I tentou proteger a Rússia dos pedidos de mudança que se estavam a espalhar por toda a Europa, mas não havia nada que conseguisse silenciar a fúria no país. No entanto, Alexandre que, na altura, era já uma figura central do governo, não foi culpado por nenhuma destas políticas. Ainda havia uma aura dourada à sua volta.

Nicolau I da Rússia
O reinado de Nicolau aproximava-se do seu doloroso final. A partir de 1852, Alexandre viu o seu pai a entrar em conflito directo contra as grandes potências europeias. Ninguém queria que a Guerra da Crimeia acontecesse. Alexandre, que nunca se sentira como um verdadeiro soldado, detestava a ideia de ir para a guerra e percebeu imediatamente qual seria o resultado daquela em particular, mas não podia opôr-se ao pai. Era praticamente o regente do império, detendo todos os poderes à excepção do poder essencial para decidir a política geral, e Maria partilhava a sua ansiedade, à medida que ia procurando coragem nos evangelhos e nas cartas de Zhukovsky e assistia ao desenrolar dos acontecimentos. Não havia coragem suficiente do lado russo para compensar a falta de organização e de liderança. No início de 1855, Alexandre não aguentava mais e dispensou o comandante-em-chefe, substituindo-o por um homem da sua confiança. Dois dias depois, chegava a notícia de que o czar Nicolau I tinha morrido e que Alexandre se tinha tornado czar da Rússia. Tinha trinta-e-seis anos de idade e herdava um país perto do colapso.

Alexandre (esq) com o pai Nicolau I e o irmão Constantino Nikolaevich (dir).
Neste ponto baixo, havia mais esperança no seu reinado do que nunca. Nos seus primeiros meses de reinado, Alexandre aliviou a censura e levantou as restrições que tinham sido impostas a viagens ao estrangeiro. Mais tarde, iria abolir a pena capital e o castigo por chicotadas. Os responsáveis pela Revolta Dezembrista foram finalmente libertados. Até os maiores inimigos do regime esperavam que Alexandre conseguisse um milagre. Em Inglaterra, um socialista exilado, Alexander Herzen, editor do diário Kolokol (O Sino) fez uma promessa extraordinária. Disse que iria abandonar a oposição "porque tenho em mim a esperança de que o czar fará algo pela Rússia. Majestade, dê liberdade à palavra russa (...) dê-nos liberdade de expressão (...) dê a terra aos camponeses". Foi um momento extraordinário. Tudo parecia possível, e as pombas voavam por toda a Rússia.

Fogo de artíficio na coroação de Alexandre II em 1856
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O outro Nicolau e a outra Alexandra - Nicolau I e Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia) - Primeira Parte


"Quando olhamos para trás, é assustador ver como o tempo passa depressa...". A Rússia estava no auge do seu poder quando Nicolau I escreveu estas palavras à sua irmã, ao recordar o dia em que, mais de trinta anos antes, quando tinha partido para a guerra com o irmão, o czar Alexandre I. Na altura, tinha apenas dezassete anos de idade e não fazia ideia que um dia iria suceder ao trono. Era feliz e, embora não o soubesse, estava prestes a conhecer a jovem com quem se viria a casar. Em Berlim, foi a filha do rei da Prússia, Carlota, que recebeu os visitantes. Tinha quinze anos, era alta, bonita e um tanto inocente. Nicolau também era bonito. Tinham os dois terminado a sua educação há pouco tempo e apaixonaram-se loucamente um pelo outro, apesar de as suas famílias insistirem que tinham de esperar um ano antes de sequer ficarem noivos. A derrota de Napoleão e a reorganização da Europa era muito mais importante do que as esperanças de dois adolescentes românticos - apesar de as suas famílias verem que o casamento iria reforçar a aliança política entre os dois países. Passaram três anos até Carlota se converter à Igreja Ortodoxa com o nome de Alexandra Feodorovna, que passaria a utilizar para o resto da vida. No dia em que completou dezanove anos, casou-se com Nicolau na capela do Palácio de Inverno. Corria o ano de 1817, cem anos antes do colapso da dinastia.

Alexandra Feodorovna (Carlota da Prússia)
Nicolau nasceu para ser soldado, e era essa a única vida que queria. Demasiado novo para sentir as tensões que levaram ao assassinato do seu pai, o czar Paulo I, era o produto de uma infância segura numa família extremamente unida. Quando nasceu, no Palácio de Catarina, em Czarskoe Selo, no verão de 1796, os seus irmãos Alexandre e Constantino eram quase adultos. Era mais chegado à sua irmã Ana, que era apenas um ano mais velha do que ele, e ao seu irmão mais novo, Miguel; mais tarde, os três decidiram apelidar-se de a "Triopatia" e passaram a usar anéis especiais gravados com o lema "Firmeza e Esperança". Ofereceram um anel semelhante à sua mãe, a czarina Maria Feodorovna, tornando-a assim um membro do seu circulo.

Ana Pavlovna (futura rainha dos Países Baixos), Nicolau Pavlovich (futuro czar Nicolau I) e Miguel Pavlovich por F. Ferriere em 1806
Maria Feodorovna era mulher forte e foi a sua vontade de ferro que tornou a sua grande família tão unida, sobrepondo-se às suas diferenças de idade e educações distintas. A czarina tinha sido obrigada a entregar os seus filhos mais velhos à sua sogra, a imperatriz Catarina, a Grande, o que serviu para reforçar ainda mais a sua vontade de educar os restantes filhos à sua maneira. Nicolau aprendeu a falar quatro línguas, e estudou os clássicos, economia, direito e ciência política. Tocava flauta e as suas pinturas podiam facilmente ser confundidas com o trabalho de um artista profissional, mas, por muito que a sua mãe o tentasse convencer, nunca o conseguiu tornar tão encantador e educado como queria. Tanto Nicolau como Miguel gostavam mais de paradas militares do que de salões de festas: "os teus irmãos parecem inválidos", queixou-se Maria Feodorovna numa carta à sua filha Ana, "e nunca dançam um passo que seja, escondem-se nos cantos e parecem estar sempre aborrecidos".

A czarina Maria Feodorovna, nascida princesa Sofia Doroteia de Wuttenberg
Alexandra Feodorovna recordava-se da falta de jeito do marido com humor num livro de memórias que escreveu sobre os seus primeiros anos de casamento com Nicolau. Dizia que, em privado, ele era uma pessoa completamente diferente e "tanto ele como eu só estávamos realmente felizes e satisfeitos quando ficávamos sozinhos nos nossos aposentos, comigo sentada no colo dele enquanto ele me cobria de amor e afecto".  A czarina-viúva adorava vê-los juntos: "O Nicky é um marido muito afectuoso. É impossível ser mais cuidadoso, mais atencioso do que ele é com a esposa (...) a esposa dele é encantadora e vive só para ele, adivinhando todos os seus desejos, todos os seus pensamentos; a fazer tudo o que pode para o agradar". Poucas semanas depois do casamento, Alexandra já estava grávida. Desmaiou durante a missa e, depois de a levar para o quarto, Nicolau foi a correr até um jovem pajem e anunciou que ia ser pai. O bebé, um menino, nasceu no Kremlin, o coração histórico da Rússia, rodeado de bons presságios: "na Semana Santa, num lindo dia de primavera, enquanto os sinos ainda tocavam em celebração pela grande festa da Ressurreição. (...) O Nicky beijou-se e desfez-se em lágrimas, e ambos agradecemos a Deus juntos."

Alexandra Feodorovna com os seus dois filhos mais velhos: Maria e Alexandre
Na verdade, o cenário do nascimento do pequeno Alexandre Nikolevich não teve nada de acidental. Tinha sido planeado pela czarina-viúva para chamar a atenção para a importância nacional da jovem família. Todos sabiam que, um dia, o trono iria passar para Nicolau e o nascimento de um filho confirmou a sua importância. Ele e Alexandra eram os únicos que se recusavam a lidar com o inevitável. O casamento de Alexandre I era vazio e as suas duas filhas tinham morrido ainda bebés. Constantino era divorciado. Em 1820, casou-se morganaticamente e disse à mãe que não queria nada a impedir a sucessão de Nicolau ao trono. Ainda assim, Nicolau não queria discutir a sucessão. Alexandre tentou falar sobre o assunto uma noite, depois de um jantar de família, mas Nicolau e Alexandra ficaram tão perturbados que o czar desistiu da ideia. Quando Constantino renunciou formalmente aos seus direitos em 1822, Alexandre manteve o documento em segredo.

Alexandre I
A felicidade do casal era um problema. Tudo o que queriam era estar juntos e aproveitar a sua vida familiar com os filhos. O segundo bebé foi uma menina a quem chamaram Maria; Nicolau rapidamente ultrapassou a sua desilusão inicial e as suas cartas começaram a encher-se de descrições de quanto adorava os seus filhos. A sua mãe concordava. "Fui abraçar os meus queridos netos, que são encantadores," escreveu a czarina-viúva em 1820, sete meses após o nascimento de Maria. "A menina está a ficar muito mais bonita e vai ser tão bonita como a mãe (...) já gosta muito do pai que lhe dá muita atenção e que se diverte muito com ela. Adora-a verdadeiramente. Quanto ao menino, é um anjo e a melhor criança que se possa imaginar".

Maria Nikolaevna
Alguns meses depois de estas palavras serem escritas, Alexandra deu à luz uma bebé que nasceu morta. Foi a sua terceira gravidez em três anos de casamento e a perda da bebé deixou-a profundamente deprimida. Nicolau dedicou toda a sua atenção e carinho à esposa, tendo tratado dela com as suas próprias mãos, embora a sua mãe tenha reparado que ele "distrai-se e esquecesse de manter a abstinência que devia estar a cumprir". Os médicos aconselharam umas férias e Nicolau levou a esposa para a sua terra natal: Berlim. Os dois gostaram tanto das férias que acabaram por regressar à Alemanha no ano seguinte e em 1824, numa altura em que já tinham três filhos para deixar com a czarina-viúva, e memórias dolorosas da perda de mais um bebé. Será que sonhavam em deixar a Rússia para sempre? Alexandre I temia que isso pudesse vir a acontecer, por isso, na primavera de 1825, mandou chamar o irmão e a cunhada, dizendo que precisava da companhia deles. Ofereceu terrenos a Alexandra em Peterhof, a propriedade imperial da qual ela tinha gostado mais quando tinha chegado à Rússia. Algumas semanas depois de receber este presente, teve mais uma filha, a grã-duquesa Alexandra.

A grã-duquesa Alexandra Nikolaevna
Quando Alexandre I pediu ao seu irmão para regressar à Rússia em 1825, estava a perder rapidamente o interesse pela vida. O czar estava cansado, e, por conselho médico, viajou com a esposa, que estava doente, para sul nesse outono, tendo nomeado Nicolau para regente. Ninguém estava à espera de receber a notícia de que Alexandre tinha morrido na distante cidade de Taganrog; foi um choque para toda a família. Nicolau ordenou a guarda imperial a jurar lealdade a Constantino, recusando-se a aceitar a renuncia do irmão ao trono porque nunca ninguém o tinha informado da mesma, nem mostrado os documentos. Em Varsóvia, onde vivia, Constantino jurou lealdade a Nicolau e este impasse durou quase três semanas, durante as quais cada um dos irmãos declarava lealdade ao outro e o grão-duque Miguel tinha de viajar de um lado para o outro entre eles. A situação até poderia ter sido divertida, se não fosse tão perigosa. Quando Nicolau soube que havia uma conspiração no exército, aceitou o inevitável e assumiu o trono a 13 de Dezembro de 1825.

Nicolau I
O ar na cidade estava tenso. Havia grupos de soldados nas ruas a gritar por Constantino. Os seus líderes eram, na sua maioria, jovens de famílias nobres que tinham visto como os seus pares viviam noutros países da Europa e tinham regressado à Rússia convencidos de que era necessária uma reforma liberal. Alguns eram republicanos, mas outros não; não tinham uma liderança coerente e Constantino não tinha qualquer interesse neles, mas, durante algumas horas, o perigo foi intenso. No pátio coberto de neve do Palácio de Inverno, à luz das tochas, Nicolau entregou o seu filho Alexandre à protecção dos Guardas Finlandeses, que lhe eram leais. Quando nasceu o dia, os rebeldes juntaram-se na Praça do Senado. Regimentos inteiros recusaram-se a jurar lealdade ao novo czar: quando o governador de São Petersburgo tentou explicar que Constantino tinha renunciado ao trono, foi morto a tiro. Antes do meio-dia, Nicolau foi até à praça de cavalo e as tropas que lhe eram leais acompanharam-no. Falou aos rebeldes e ofereceu um armistício, mas não conseguiu quaisquer avanços e, à medida que anoitecia, os seus generais pediram-lhe que disparasse sobre a multidão. Nicolau cedeu e a Revolta Dezembrista foi esmagada à força.

A Revolta Dezembrista - soldados reunidos na Praça do Senado em São Petersburgo
Ninguém duvidava da coragem que Nicolau mostrou naquele dia, mas muitos questionaram a sua humanidade. Os soldados comuns que se juntaram à revolta foram perdoados, mas cinco dos seus líderes foram condenados à morte, e quase trezentos foram exilados para a Sibéria. O novo czar tomou medidas firmes para o império, impondo restrições severas ao movimento e pensamento individual. Precisava de assumir o controlo rapidamente e de voltar a restaurar a ordem, mas o fardo pessoal era demasiado. Nicolau era completamente dedicado ao dever, e a sua mãe via com preocupação a saúde do filho, que se foi deteriorando perante o peso das suas novas responsabilidades. "Diz que o reinado só lhe trouxe problemas," escreveu ela, "está sobrecarregado com assuntos do estado, com trabalho. Nunca vai para a cama antes das duas ou três da manhã. Nem sequer tem tempo para jantar descansado. (...) Está mais magro, mais pálido, de uma forma assustadora."

Constantino Pavlovich, irmão mais velho de Nicolau que renunciou ao trono
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os descendentes dos Romanov ainda ocupam algum trono?

Cristiano X da Dinamarca com a sua sogra, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna e a a esposa, a princesa Alexandra de Mecklenburg-Schwerin
A resposta a esta pergunta pode surpreender alguns e não ser grande novidade para outros, mas é um grande e extenso sim. Neste momento, algumas das famílias reais mais conhecidas da Europa descendem de algum membro da família Romanov. Vamos explorar as relações familiares que os actuais reis e rainhas da Europa têm com a desaparecida família imperial russa.

Dinamarca
A rainha Margarida II da Dinamarca com os seus descendentes em 2014
Dentro das famílias reais que ainda estão no trono, a da rainha Margarida II é a que possui uma relação mais directa com os Romanov. A sua avó materna era a princesa Alexandrina de Mecklenburg-Schwerin, filha da grã-duquesa Anastásia Mikhailovna. Esta não era a grã-duquesa que foi imortalizada em filmes e livros, mas sim a única filha do grão-duque Miguel Nikolaevich, filho do czar Nicolau I, que reinou no Império Russo entre 1825 e 1855.

Mas as ligações não terminam por aqui. A rainha Margarida é também sobrinha-bisneta da imperatriz Maria Feodorovna, uma princesa dinamarquesa, filha do rei Cristiano IX, que se casou com o czar Alexandre III. Maria Feodorovna era mãe do último czar da Rússia, Nicolau II, e avó da Anastásia dos filmes.

Para terminar as ligações familiares, Margarida II é também pentaneta de outra grã-duquesa russa: Helena Pavlovna, filha do czar Paulo I e neta da imperatriz Catarina, a Grande.

Holanda
O rei Guilherme-Alexandre da Holanda com a mãe, a rainha Beatriz, a esposa Máxima e as filhas Catarina-Amália, Alexia e Ariane
As famílias reais da Dinamarca e da Holanda têm uma antepassada Romanov em comum: a grã-duquesa Helena Pavlovna. Enquanto que, no caso de Margarida II, esta ligação surge pelo lado da sua avó materna, Beatriz é quadraneta da grã-duquesa russa através do seu avô materno, o príncipe Henrique de Mecklenburg-Schwerin, que era também o meio-irmão mais novo de uma outra figura muito conhecida da família Romanov: a grã-duquesa Maria Pavlovna, esposa do grão-duque Vladimir Alexandrovich da Rússia e matriarca do clã familiar rival de Nicolau II: os Vladimirovich.

No entanto, existe uma ligação familiar ainda mais próxima com a dinastia russa: a avó materna de Beatriz, a rainha Guilhermina da Holanda, era neta de outra filha do czar Paulo I, a grã-duquesa Ana Pavlovna da Rússia, que se casou em 1816 com o rei Guilherme II da Holanda.

Reino Unido
A família real britânica em 2012
Embora não seja muito comum ver os Windsor a conviver com outras famílias reais europeias, a sua ligação aos Romanov é também bastante forte, começando logo pelo marido da rainha Isabel II, o príncipe Filipe, duque de Edimburgo que é, nada mais nada menos, sobrinho-neto tanto da imperatriz Alexandra Feodorovna como da grã-duquesa Isabel Fedorovna. Além disso, é neto da grã-duquesa Olga Constantinovna, rainha da Grécia e sobrinho da grã-duquesa Alexandra Georgievna, a primeira esposa do grão-duque Paulo Alexandrovich, filho mais novo do czar Alexandre II. As ligações são tantas e tão próximas que este blog já lhes dedicou um artigo em 2012.

A rainha Isabel II tem também a sua quota parte de ligações aos Romanov, embora não sejam tão directas. A sua bisavó, a princesa Alexandra da Dinamarca, era irmã mais velha da czarina Maria Feodorovna e o seu avô, Jorge V, era tão parecido fisicamente com o seu primo direito, o czar Nicolau II, que os dois eram muitas vezes confundidos.

Dentro da família real britânica existe também um ramo com ligações aos Romanov: os primos direitos da rainha, o duque de Kent, a princesa Alexandra e o príncipe Michael de Kent. Filhos do príncipe Jorge, duque de Kent, e da princesa Marina da Grécia e da Dinamarca, são netos do príncipe Nicolau da Grécia e da Dinamarca e da grã-duquesa Helena Vladimirovna da Rússia, o que os torna bisnetos da grã-duquesa Maria Pavlovna e do grão-duque Vladimir Alexandrovich da Rússia e trinetos do czar Alexandre II, o Libertador.

Eduardo, duque de Kent, a princesa Alexandra, Honourable Lady Ogilvy e o príncipe Michael de Kent
Espanha
A família real espanhola em 2007
Há uma característica que salta logo à vista quando pensamos nas ligações entre a família real espanhola e os Romanov: a hemofilia. Além da Rússia, também a Espanha teve um herdeiro ao trono que padeceu desta doença em inícios do século XX: Afonso, príncipe das Astúrias. Filho do rei Afonso XIII e da rainha Vitória Eugénia, a doença surgiu pelo lado da rainha Vitória. A czarina Alexandra Feodorovna e a rainha Vitória Eugénia eram primas direitas e ambas sofreram na pele as consequências públicas e privadas que a hemofilia trouxe às suas vidas.

Em termos de relações familiares propriamente ditas, elas também existem. A rainha Sofia de Espanha é filha do rei Paulo I da Grécia e da princesa Frederica de Hanôver. O seu pai era neto da grã-duquesa Olga Constantinovna da Rússia, rainha da Grécia entre 1867 e 1913.  

Grécia
A família real grega
Embora tenham perdido o seu trono em 1973, as ligações da família real grega aos Romanov merecem, sem dúvida, uma menção honrosa.

Para começar, a antiga rainha, Ana Maria, esposa de Constantino II, é irmã mais nova da rainha Margarida II da Dinamarca, portanto todas as relações familiares especificadas mais acima também se aplicam a ela.

Constantino II é, por seu lado, irmão mais velho da rainha Sofia de Espanha, e, por isso, é também bisneto da grã-duquesa Olga Constantinovna da Rússia.

Antepassados Romanov

Helena Pavlovna, filha de Paulo I e antepassada das famílias reais da Dinamarca e da Holanda
Ana Pavlovna, irmã mais nova de Helena e antepassada da família real holandesa
Anastásia Mikhailovna, antepassada da família real dinamarquesa
Olga Constantinovna: antepassada das famílias reais do Reino Unido, Espanha e Grécia
A família de Nicolau II e Alexandra Feodorovna pode ter sido dizimada na fatídica madrugada de 16 de Julho de 1918, mas esse acto não foi capaz de eliminar por completo o sangue dos Romanov que, ainda hoje, se mantém forte e no poder em vários países da Europa e promete permanecer assim pelo menos durante mais uma geração.