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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Segunda Parte

Alexandre Alexandrovich
Com alguma relutância, Nicolau I deu autorização ao filho para convalescer em Itália, mas, em finais de Janeiro de 1839, a comitiva já estava novamente em viagem, desta vez pelas cortes da Alemanha. Não era segredo que Alexandre estava à procura de uma esposa. Os seus pais tinham esperança que gostasse da princesa Alexandrina de Baden, mas a jovem de dezoito anos não despertou qualquer sentimento em Alexandre. A partir da corte do pai dela, em Karlsruhe, Alexandre avançou para Heidelberg, mas estava normalmente a sentir-se exausto e, a 12 de Março, o general Kavelin sugeriu uma paragem não-planeada em Darmstadt. Alexandre queria uma noite descansada, mas o grão-duque de Hesse tinha outros planos, convidando o czarevich e a sua comitiva para o teatro e, depois, para jantar. A maioria sentia-se demasiado cansada para ir, mas Alexandre não podia recusar. "Foi só na manhã seguinte", contou Zhukovsky aos pais dele, "que fiquei a saber o que tinha acontecido na noite anterior. Dizer que estava feliz não chega (...). Atingimos o objectivo da nossa viagem".

Darmstadt em 1830
Alexandre ficou paralisado quando viu a filha do grão-duque. Aos catorze anos de idade, Maria de Hesse-Darmstadt ainda era uma criança, mas era alta para a idade e inteligente. Também se sentia sozinha, sentia a falta da mãe que a tinha criado longe da corte e que tinha morrido de tuberculose quando Maria tinha apenas onze anos de idade. Durante um curto período de tempo, quando Maria era mais nova, os seus pais tinham-se separado e havia rumores em todas as cortes da Europa de que o grão-duque não era o seu pai biológico. Nem toda a gente em Darmstadt era simpática para Maria e Alexandre era demasiado sensível para resistir à combinação da sua juventude, beleza e infelicidade. A sua comitiva ficou em Darmstadt durante alguns dias e, quando chegou a altura de partir, Alexandre levou consigo um medalhão com uma madeixa de cabelo de Maria.

Maria de Hesse-Darmstadt
Na noite de 19 de Março, Alexandre chegou a Haia onde iria passar um mês com a sua tia, a grã-duquesa Ana Pavlovna, princesa de Orange, e a família dela para comemorar a Páscoa e o seu vigésimo-primeiro aniversário. "O Sasha foi encantador no seu uniforme de cossaco, que lhe fica maravilhosamente bem.", escreveu Ana ao seu irmão nessa noite. "O bigode pequenino dele está a crescer e, quanto à aparência, posso dizer-te que o acho um jovem muito bonito". Os dias em Haia eram passados tranquilamente, a fazer visitas e escrever cartas, e, à noite, Alexandre fazia companhia à tia à hora do chá. É possível que lhe tenha falado de Maria, pelo menos é essa a ideia que a grã-duquesa Ana transmite numa outra carta dirigida ao irmão: "tenho a certeza que a diferença de locais e ambiente não o distraíram do objectivo principal que o devia ocupar". Ana ficou encantada com o seu sobrinho: "tem muito tacto, graciosidade e dignidade", escreveu ela, "com uma naturalidade que encanta".

Ana Pavlovna, princesa de Orange
A 20 de Abril, Alexandre deixou Haia e partiu para Inglaterra para mais uma visita de sucesso. A rainha Vitória, que era um ano mais nova do que ele e ainda solteira, achou a naturalidade tão encantadora como a sua tia tinha achado. Alexandre ficou no país um mês e foi recebido com entusiasmo por todo o lado. A 29 de Maio regressou a Haia e, depois, com a autorização dos pais, voltou a Darmstadt onde já tinham começado as negociações preliminares para o seu casamento com Maria.


A rainha Vitória em 1838

Existe uma história contada desde sempre e, por isso, dada como verdadeira, de que o czar Nicolau I estava contra o noivado e manteve a sua posição durante um ano, obrigando o filho a lutar por aquilo que queria. Almedingen descreveu como o czar, furioso, exigiu que Alexandre regressasse à Rússia após a primeira visita a Darmstadt, e escreve que Alexandre voltou para enfrentar a fúria do pai antes de continuar a sua viagem pelas cortes europeias. Apesar de este cenário parecer familiar, não há provas que o sustentem. A comitiva de Alexandre chegou a Darmstadt a 12 de Março e ficou lá durante alguns dias, chegando a Haia no dia 19. Sendo que na altura não tinham um meio de transporte mais rápido do que um cavalo, seria impossível incluir uma visita a São Petersburgo neste período de tempo, mesmo que o czar a tivesse ordenado, e, além disso, não existem sinais de que Nicolau estivesse realmente contra a união: o que o czar queria realmente era ver o filho bem casado. Em Abril, o embaixador austríaco em São Petersburgo reportou que o czar tinha aceite a aliança de Hesse e que a tinha comunicado ao seu próprio governo. Em Maio, Nicolau escreveu ao seu cunhado, o príncipe de Orange, e, ao referir-se ao seu sobrinho, o filho mais velho da sua irmã, acrescentou: "também o meu filho já encontrou o seu amor. Vamos ver o que irá acontecer. Pelo menos até agora, as belas jovens inglesas ainda não conseguiram ultrapassar Darmstadt". Havia apenas um motivo pelo qual Alexandre teria de esperar para o casamento: o facto de Maria ainda não ter sequer quinze anos de idade.

Maria de Hesse-Darmstadt
Após uma breve visita à família de Hesse, Alexandre regressou à Rússia, onde o seu pai o começou a incluir nos assuntos de estado e, à medida que o ano ia passando, o czarevich preparava-se para regressar a Darmstadt. O seu pai era da opinião de que ele não podia tomar uma decisão definitiva enquanto não visse a princesa novamente. O czar e a czarina não iriam tentar influenciar o filho, "mas ficaríamos encantados se a decisão fosse afirmativa". O noivado foi anunciado em Abril. Nicolau I e Alexandra também estavam a viajar pela Europa nessa primavera e deram os parabéns a Alexandre e Maria pessoalmente em Frankfurt, nesse mês de Junho. Em Agosto, algumas semanas depois de Maria completar dezasseis anos de idade, a família viajou em conjunto para a Rússia. A 28 de Abril de 1841, na véspera do dia em que Alexandre completou vinte-e-três anos de idade, os dois casaram-se na capela do Palácio de Inverno.

Maria Alexandrovna e o futuro czar Alexandre II
O casamento trouxe a Alexandre um nível de felicidade pessoal que ele já não sentia desde antes de o seu pai subir ao trono. Alexandre e Maria (agora conhecida como Maria Alexandrovna) eram jovens, interessavam-se por literatura, música e poesia, e a sua corte tornou-se no ponto principal dos seus amigos que partilhavam dos mesmos gostos. A maioria das suas noites eram passadas a dançar, a ouvir música, a ler em voz alta e a trocar ideias. A sua primeira filha, Alexandra, nasceu em Czarskoe Selo no verão de 1842 e um filho, Nicolau, nasceu um ano depois. Com o seu nascimento, a linha de sucessão ficou garantida e os avós ficaram encantados. Depois nasceram Alexandre, Vladimir, Alexei, Maria... Alexandre era um pai dedicado. As paredes do seu escritório em Czarskoe Selo estavam cobertas de retratos da sua esposa e filhos e a sua secretária quase transbordava com miniaturas deles. As crianças brincavam ao lado dele enquanto ele trabalhava. A pequena Alexandra morreu de meningite tuberculosa oito semanas antes de completar sete anos de idade e Alexandre guardou cuidadosamente o seu vestido de seda azul o resto da sua vida. A pequena grã-duquesa tinha um lugar especial no coração do pai. Muitos anos depois da sua morte, quando a sua outra filha, Maria, estava prestes a casar, Alexandre contou a Lady Augusta Stanley sobre a criança que tinha perdido, que "era tão dedicada a ele que costumava pedir para ficar na mesma divisão do pai, mesmo quando ele estava ocupado, e ficava lá durante longas horas, em silêncio, só para poder ver o papá".

Alexandre com os seus dois filhos mais velhos, Alexandra e Nicolau
Mas Alexandre e Maria Alexandrovna partilhavam mais do que os filhos. Alexandre estava já envolvido activamente no governo do seu pai e pedia a opinião da sua esposa para tudo. Levava os papéis de estado para casa e os dois liam e discutiam os mesmos entre si. Alexandre respeitava o bom senso de Maria, assim como o da sua tia Helena Pavlovna, que se tinha tornado na amiga mais chegada de Maria dentro da família imperial. Juntos, o jovem casal lia as obras acabadas de publicar de Turgenev e Gogol, que estavam na mira da censura oficial. Juntos, estudavam os relatórios mais recentes sobre o estado do país, que eram demasiado controversos para mostrar ao czar. Zhukovsky ainda estava por perto e continuava a incentivar Alexandre: "o teu coração deseja sinceramente o maior bem e, um dia, terás grande poder nas tuas mãos (...) mas terás de saber o que fazer (...) assim que souberes que uma medida é boa, a sua aceitação deve ser imediatamente seguida da sua concretização".

Alexandre Alexandrovich
Em 1842, Alexandre liderou um comité que o seu pai tinha convocado para alterar as condições da servidão. Os seus objectivos eram limitados, mas isso não impediu uma tempestade de protestos. Havia interesses ocultos na Rússia que estavam decididos a preservar o sistema tal como ele estava. As acções do comité foram atrasadas pela burocracia. O descontentamento aumentou. Em algumas zonas, a esperança numa reforma foi arrasada e, quando isso aconteceu, os camponeses tornaram-se violentos ou abandonaram as suas terras. Noutros locais também houve violência, mas pelo motivo contrário: os camponeses temiam a mudança. Era um ambiente caótico e desmotivante e a única resposta do czar Nicolau I foi aumentar ainda mais a repressão. Esta atitude prolongou-se ao longo da década de 1840. Com uma censura rigorosa e castigos medievais, Nicolau I tentou proteger a Rússia dos pedidos de mudança que se estavam a espalhar por toda a Europa, mas não havia nada que conseguisse silenciar a fúria no país. No entanto, Alexandre que, na altura, era já uma figura central do governo, não foi culpado por nenhuma destas políticas. Ainda havia uma aura dourada à sua volta.

Nicolau I da Rússia
O reinado de Nicolau aproximava-se do seu doloroso final. A partir de 1852, Alexandre viu o seu pai a entrar em conflito directo contra as grandes potências europeias. Ninguém queria que a Guerra da Crimeia acontecesse. Alexandre, que nunca se sentira como um verdadeiro soldado, detestava a ideia de ir para a guerra e percebeu imediatamente qual seria o resultado daquela em particular, mas não podia opôr-se ao pai. Era praticamente o regente do império, detendo todos os poderes à excepção do poder essencial para decidir a política geral, e Maria partilhava a sua ansiedade, à medida que ia procurando coragem nos evangelhos e nas cartas de Zhukovsky e assistia ao desenrolar dos acontecimentos. Não havia coragem suficiente do lado russo para compensar a falta de organização e de liderança. No início de 1855, Alexandre não aguentava mais e dispensou o comandante-em-chefe, substituindo-o por um homem da sua confiança. Dois dias depois, chegava a notícia de que o czar Nicolau I tinha morrido e que Alexandre se tinha tornado czar da Rússia. Tinha trinta-e-seis anos de idade e herdava um país perto do colapso.

Alexandre (esq) com o pai Nicolau I e o irmão Constantino Nikolaevich (dir).
Neste ponto baixo, havia mais esperança no seu reinado do que nunca. Nos seus primeiros meses de reinado, Alexandre aliviou a censura e levantou as restrições que tinham sido impostas a viagens ao estrangeiro. Mais tarde, iria abolir a pena capital e o castigo por chicotadas. Os responsáveis pela Revolta Dezembrista foram finalmente libertados. Até os maiores inimigos do regime esperavam que Alexandre conseguisse um milagre. Em Inglaterra, um socialista exilado, Alexander Herzen, editor do diário Kolokol (O Sino) fez uma promessa extraordinária. Disse que iria abandonar a oposição "porque tenho em mim a esperança de que o czar fará algo pela Rússia. Majestade, dê liberdade à palavra russa (...) dê-nos liberdade de expressão (...) dê a terra aos camponeses". Foi um momento extraordinário. Tudo parecia possível, e as pombas voavam por toda a Rússia.

Fogo de artíficio na coroação de Alexandre II em 1856
Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Primeira Parte

A imperatriz Alexandra Feodorovna com os seus dois filhos mais velhos: Maria e Alexandre
Em meados do século XIX, a ideia de um trono passar pacificamente de pai para filho era uma novidade na Rússia, onde, ao longo de duzentos anos, a sucessão tinha sido problemática e, muitas vezes, violenta. Alexandre I tornou-se czar após o assassinato do pai e muitos suspeitavam que ele tinha estado envolvido no mesmo; a sombra dessa dúvida nunca o abandonou. O seu irmão mais novo foi obrigado a subir ao trono que não queria devido à repressão violenta da Revolta Dezembrista. Por isso, quando Nicolau I morreu na sua cama e deixou um filho capaz, com experiência e pronto para assumir o governo do país, até os inimigos da dinastia estavam prontos para acreditar num futuro melhor. Mas este tipo de esperança já rodeava o czar desde o seu nascimento.

Alexandre II com a sua irmã Maria Nikolaevna
Os presságios favoráveis e ruinosos acompanham sempre os príncipes como uma sombra. Quando a criança que se tornaria no "Czar Libertador" da Rússia nasceu no Kremlin em Abril de 1818, todos os sinos de Moscovo estavam a tocar para celebrar a Páscoa. Diz-se que um bando de pombas brancas sobrevoou o telhado do Mosteiro Chudov, onde, tradicionalmente, os bebés imperiais eram baptizados. Muitas vezes repetida, esta história acabaria por simbolizar o pesado fardo de esperança e expectativa que Alexandre Nikolaevich sempre carregou consigo. Ao descrever o seu nascimento muitos anos depois, a sua mãe lembra-se de se ter sentido "um tanto solene e melancólica, ao pensar que aquele menino seria um dia o imperador". 

Alexandre Nikolaevich
Existem pequenos vislumbres da infância de Alexandre Nikolaevich nas cartas da sua avó, a imperatriz Maria Feodorovna. "O menino (...) muda todos os dias. É uma criança encantadora (...) sobe às árvores, mas acho que consegue livrar-se das situações mais perigosas. Baloiça-se nos ramos, salta por todo o lado (...) o Sasha é ágil como um macaquinho". Protegido por uma família anormalmente chegada e afectuosa, Alexandre não tinha noção da importância da sua posição. O seu pai, o grão-duque Nicolau Pavlovich, era severo, mas também sabia dar o braço a torcer e brincar com os filhos nas alturas certas e, muitas vezes, tinha um papel activo nos seus jogos. Quando Alexandre tinha seis anos de idade, o gentil capitão Karl Merder foi nomeado para substituir as suas amas e governantas, mas o padrão pacifico da sua vida não foi perturbado por esta mudança.


Alexandre com a sua irmã Maria Nikolaevna
Uma outra mudança que teve um impacto mais palpável aconteceu em 1825, quando o seu pai Nicolau subiu ao trono da Rússia num período de caos e violência. Quando os Dezembristas dispararam os primeiros tiros na Praça do Senado, a ideia de russos a derramar sangue uns dos outros parecia uma novidade assustadora, no entanto, com o passar do tempo, tornar-se-ia em algo demasiado familiar. O pequeno Alexandre não deve ter percebido o que estava a acontecer à sua volta. Durante alguns dias mais tensos, teve de sair de sua casa e foi colocado sob a protecção dos Guardas Finlandeses, no pátio iluminado a tochas do Palácio de Inverno, e ficou ao lado da sua mãe destroçada enquanto ela rezava pela protecção do marido. Foi uma apresentação assustadora ao mundo do poder político. Desde cedo que Alexandre começou a ser educado para levar a cabo as reformas que a Rússia tanto precisavam nas temia as forças que as reformas mal executadas poderiam libertar. A sombra daqueles dias de Dezembro nunca o abandonou. Mas nunca houve um príncipe melhor preparado do que ele: em 1826, Nicolau I ofereceu ao poeta Zhukovsky a posição de tutor do herdeiro, em parceria com Merder.

Alexandre Nikolaevich
Perante os acontecimentos, Zhukovsky parece ter sido uma escolha improvável. Filho ilegítimo de um proprietário das províncias, a sua mãe tinha sido uma refém adolescente, levada para a Rússia depois de uma das guerras do império contra a Turquia. O seu pai proporcionou-lhe uma boa educação, com o objectivo de o preparar para o serviço público, mas o jovem Zhukovsky nunca se sentiu atraído por essa área. Foi andando de emprego em emprego até que os seus poemas chamaram a atenção da imperatriz-viúva Maria Feodorovna. Foi na sua casa que Zhukovsky floresceu e, quando o seu filho Nicolau casou com a princesa de Berlim, o poeta foi o escolhido para lhe ensinar a língua russa. Seria Alexandra a pedir ao marido para nomear Zhukovsky para tutor do seu filho mais velho. O poeta mostrou ser imune às tentações da vida na corte. Honesto e idealista, dizia aquilo que pensava sem temer represálias e nunca se aproveitou da sua posição privilegiada junto dos imperadores. Acabaria por morrer relativamente pobre.

Vasily Zhukovsky, tutor de Alexandre.
Ainda antes de iniciar o seu trabalho, Zhukovsky emitiu um proteste veemente contra a introdução do czarevich de oito anos à vida militar. Tinha sido permitido ao rapaz andar de cavalo ao lado das tropas durante a parada da coroação do seu pai: as multidões adoraram o momento e Nicolau não conseguiu esconder o seu orgulho, mas Merder reparou que Alexandre ficou demasiado entusiasmado depois e não se conseguia concentrar nas suas lições. "Senhora, perdoe-me," escreveu Zhukovsky à czarina, "uma paixão demasiado desenvolvida pela arte da guerra - mesmo se encorajada durante uma parada - seria prejudicial para o corpo e para a mente (...) ele acabaria por ver o seu povo como um regimento gigantesco e o seu país como um quartel". Inicialmente, o czar ficou furioso, mas quando o tutor ameaçou demitir-se, acabou por ceder e ouviu as ideias do poeta.

Alexandre Nikolaevich
Zhukovsky definiu um programa de estudos de nove anos para o czarevich. Alexandre teria dois colegas com quem iria partilhar as suas lições, num ambiente escolar estruturado que não deveria ser interrompido por qualquer dever cerimonial. Os três iriam dormir, comer, trabalhar e brincar juntos: a competição entre eles eram mal vista, e os rapazes foram encorajados a discutir os livros que andavam a ler uns com os outros, assim como a escrever diários. As áreas mais importantes da sua formação foram história, línguas e uma temática religiosa. À medida que foram progredindo, os rapazes também começaram a aprender ciências, direito e filosofia. O bom-comportamento era recompensado com a oportunidade de colocar dinheiro na caixa para os pobres - algo que poderia ser uma receita para o desastre noutras salas-de-aula. O treino militar era uma parte secundária do programa, durante o qual aprendiam esgrima, ginástica e equitação. Aos domingos as aulas eram substituídas por trabalhos manuais e passeios.

Alexandre Nikolaevich
Quando estava bem-disposto, Alexandre era uma criança educada e honesta, era visivelmente inteligente e tinha uma natureza generosa. Ficava comovido com qualquer sinal de sofrimento e tristeza. Mas, apesar de tudo, não deixava de ser um rapaz normal que também tinha momentos de travessuras e preguiça, e os seus tutores repararam que tinha a tendência preocupante de transformar qualquer pequeno percalço numa crise. Chorava com demasiada facilidade e, muitas vezes, sem motivo. Com paciência e com o passar do tempo, Zhukovsky descobriu temia a sua herança, por ter ainda na memória a violência da Revolta Dezembrista, que associava à subida ao poder do pai. Alexandre tinha onze anos quando a sua mãe deu à luz um segundo filho varão. Alexandre terá dito: "Estou tão feliz. Assim o papá vai poder escolhê-lo a ele para herdeiro".

Nicolau I (centro) com Alexandre (esquerda), Constantino (direita), Nicolau e Miguel durante a Guerra da Crimeia.
Apesar de Zhukovsky ser gentil, o seu idealismo exacerbado também pode ter contribuído para os medos do seu aluno. Em certa ocasião, deu a Alexandre um ensaio no qual definia aquele que, do seu ponto de vista, era o governante ideal, e o futuro czar guardou-o consigo o resto da vida. "Respeita a lei," escreveu Zhukovsky, "uma lei que seja negligenciada pelo czar nunca será cumprida pelo povo (...). Respeita a opinião pública, pois esta ilumina muitas vezes o soberano (...). Governa pela ordem, não pelo poder (...). Ama o teu povo; a não ser que o czar ame o seu povo, o povo não pode amar o seu czar". O tutor também deixou a seguinte nota na secretária de Alexandre: "Serás tu a entrar na História um dia. Isso é inevitável pelo acaso do teu nascimento. A História irá julgar-te antes do resto do mundo e esse julgamento será para todo o sempre". Era uma perspectiva aterrorizante para um rapaz de onze anos.

Alexandre Nikolaevich
Nesse mesmo ano, em 1829, Alexandre participou em manobras militares pela primeira vez. O seu pai notou uma certa falta de entusiasmo, o que levou ao aumento das tensões entre o czar e os tutores do filho. Nicolau queria que se desse mais importância às ciências militares e ficou chocado quando Zhukovsky escolheu para tutor de História do filho o professor Arseniev, que tinha sido expulso da universidade onde dava aulas por ter atacado a corrupção do sistema judicial. Zhukovsky argumentou que Alexandre tinha de compreender em que estado se encontrava realmente o país. Um professor de religião de quem ele gostava particularmente foi dispensado devido às suas simpatias por dissidentes. À medida que as tensões entre a escola e a corte aumentavam, Alexandre começou a levar as aulas menos a sério e a discutir com os seus companheiros. Em 1832, Merder sofreu um pequeno ataque cardíaco. Arseniev culpou Alexandre pelo sucedido e ele desfez-se em lágrimas e prometeu que se iria portar melhor.


Alexandre Nikolaevich
Alexandre estava prestes a iniciar uma nova etapa da sua vida. Em 1834, quando fez dezasseis anos de idade, tornou-se no primeiro príncipe Romanov a fazer um juramento de lealdade ao czar - com o passar do tempo, este iria tornar-se num ritual de passagem importante para todos os homens da família imperial. As palavras e o cenário eram esmagadores: na capela do Palácio de Inverno, perante uma congregação de cortesãos, representantes do governo, convidados estrangeiros e do clero, o jovem prometeu obedecer ao pai "em tudo, sem poupar o meu corpo, até à minha última gota de sangue". "Pushkin recordou que todos os presentes "ficaram profundamente comovidos". Muitos não conseguiram segurar as lágrimas. Alexandre herdou a sua fortuna naquele dia e, por opção própria, ofereceu quantias de dinheiro generosas aos governadores-gerais de São Petersburgo e Moscovo para que eles as distribuíssem pelos pobres. Só muito mais tarde é que soube que Merder, que tinha ido para Itália para descansar e recuperar a saúde, tinha sofrido outro ataque cardíaco alguns dias antes da cerimónia e que a última palavra que tinha dito antes de morrer tinha sido o nome do seu aluno.


Alexandre Nikolaevich
O czarevich voltou para a sala de aulas com a determinação de ter sucesso. Sentia-se culpado e triste por Merder e a única forma que encontrou para se sentir melhor foi através do trabalho. Ainda faltavam três anos para concluir o sistema de nove criado por Zhukovsky e, no exame final, o jovem de dezanove anos mostrou que dominava várias áreas de conhecimento e que possuía uma compreensão profunda do mundo à sua volta. Mas, além das aulas, Alexandre também passou os seus três últimos anos de estudo a conhecer a sociedade. Todos os queriam ver e, para um rapaz habituado a camas de campanha e a salas-de-aula funcionais, esta nova vida deve ter parecido cheia de tentações. Inevitavelmente, começaram a surgir alguns rumores de que o czarevich estava apaixonado, mas nada escandaloso. Além do mais, Alexandre detestava lisonjas. Não demorou muito até toda a corte estar rendida ao seu futuro imperador.

Alexandre Nikolaevich
Com a sua educação formal concluída, Alexandre foi enviado para uma visita de sete meses pela Rússia, com uma agenda de visitas exigente elaborada pelo pai. Na companhia de Zhukovsky e do General Kavelin, o substituto de Merder, o herdeiro viajou por todo o país a uma velocidade estonteante. "Até quando estamos na cama à noite," queixou-se Zhukovsky à czarina, "sentimos que ainda estamos a galopar". As vilas que iam surgindo pelo caminho organizaram recepções civis, missas nas igrejas, banquetes e bailes, e os dignitários locais faziam fila para conhecer o seu futuro governante. Os camponeses faziam caminhadas de vários quilómetros só para ver a carruagem de Alexandre a passar. O grupo visitou escolas, hospitais, fábricas, instituições caritativas e igrejas; Alexandre observava e ouvia com interesse, mas sabia que ainda lhe faltava ver muita coisa.

Alexandre Nikolaevich
Alexandre começou a pedir para parar nas aldeias mais sujas e negligenciadas, nas quais saía da carruagem e caminhava, entrando nas cabanas dos camponeses como convidado. Não se importava que estas visitas não planeadas atrasassem a sua agenda. Para os camponeses devem ter parecido visitas fora deste mundo, mas se alguém se sentisse demasiado intimidado para falar, pelo menos Alexandre podia ver com os seus próprios olhos como viviam. O seu itinerário incluía uma visita à Sibéria, onde a família imperial nunca tinha estado. Enquanto lá esteve, decidiu ir visitar os campos de prisioneiros para falar com eles enquanto estes arrastavam as suas correntes. Em Tobolsk, fez um desvio especial para conhecer os Dezembristas exilados, responsáveis por uma rebelião da qual ele tinha as piores recordações. As condições do seu exílio deixaram-no de tal forma chocado que Alexandre escreveu uma carta arrebatadora ao pai a pedir-lhe clemência. O czar ouviu, mas não fez nada.

Nicolau I e Alexandre Nikolaevich
É fácil ver estas histórias com algum cinismo. Alexandre vinha do nível mais privilegiado da sociedade e quando a sua visita acabasse, ele podia regressar aos seus palácios. Mas os seus sentimentos eram genuínos e duradouros: ele insistiu em ver o verdadeiro estado em que se encontrava a Rússia, e não admira que tenha sido a fonte de grandes esperanças. O desafio seria quando o seu desejo de fazer o bem tivesse de ser traduzido em acções políticas duras. Nessa altura, as certezas dos ensinamentos de Zhukovsky, de que a opinião pública ficaria sempre do lado de um governante justo, e de que, se um governante que amasse o seu povo, este iria sempre amá-lo em troca, já não fariam tanto sentido.


Alexandre Alexandrovich
No entanto, por agora, tudo o que Alexandre fazia se transformava em ouro. A Rússia adorava-o e a sua missão seguinte seria uma digressão pela Europa pela qual os seus pais ansiavam com urgência uma vez que os rumores sobre as paixões de Alexandre se tinham transformado em realidade. Em inícios de 1838, Alexandre tinha-se apaixonado profundamente por uma dama-de-companhia polaca chamada Olga Kalinovskaya e, apesar de o czarevich saber que nunca se poderia casar com ela, os pensamentos de como poderia ser uma vida ao pé dela atormentavam-no. Alexandre iria apaixonar-se com demasiada facilidade e demasiado envolvimento o resto da vida. O seu pai compreendia-o e estava ansioso por o levar a conhecer o mundo, por o manter ocupado e por lhe encontrar uma esposa adequada. O czar planeou um calendário exaustivo para o filho que Alexandre seguiu com vontade, mas não demorou muito até o ritmo o começar a afectar. No início do verão de 1838, quando se encontrava em Copenhaga, Alexandre apanhou uma constipação que rapidamente se agravou e transformou numa bronquite que o obrigou a passar vários dias de cama. Finalmente a sua comitiva chegou até Ems, mas acabaram por ficar retidos na cidade durante três meses, devido aos ataques de tosse agoniantes e às febres que o czarevich não conseguia curar. Durante o resto da viagem, sofreu de asma.

Olga Kalinovskaya 

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Off-topic - Excerto de "Queen Victoria's Children" de John Van Der Kiste (Biografia da Rainha Vitória - Parte Um)

"Os avós da rainha Vitória, o rei Jorge III e a rainha Carlota, tiveram quinze filhos. Destes, doze chegaram à maioridade. As cinco filhas ficaram solteiras ou não tiveram filhos. Dos seus sete irmãos, apenas três tiveram casamentos válidos aos olhos das leis de sucessão, aprovadas pelo rei em 1772, uma salvaguarda contra alianças inadequadas. Entre estes, apenas podiam contar uma neta legítima ou reconhecida oficialmente - a princesa Carlota de Gales, resultado do casamento tumultuoso do príncipe regente (o futuro Jorge IV) com Carolina de Brunsvique.

Jorge III e Carolina de Brunsvique com os 6 filhos mais velhos
Em maio de 1816, Carlota casou-se com o belo e sério Leopoldo de Saxe-Coburgo- Gota Saalfeld. A união foi popular, uma vez que o príncipe Leopoldo representava uma mudança agradável em relação aos tios envelhecidos e devassos da sua esposa. Porém, a sua felicidade estava destinada a ser tragicamente breve. Dezoito meses após o casamento, ela deu à luz um rapaz natimorto e morreu no parto.


Carlota de Gales com o seu marido, Leopoldo
Foram raras as ocasiões que o país se juntou de forma tão unânime na dor por uma morte na realeza. A grande família do rei Jorge III não passava agora de uma sombra cega e demente e parecia que caminhava para a sua extinção. O príncipe regente e a sua esposa não poderiam ter mais filhos e os duques de Iorque (Frederico) e de Cumberland (Ernesto Augusto) tinham casamentos válidos, mas sem filhos. Tentados pela perspetiva de rendimentos parlamentares generosos em troca do cumprimentos dos seus deveres dinásticos, os outros três duques estavam preparados para deixar as suas amantes e procurar esposas adequadas.

Em julho de 1818, Eduardo, o duque de Kent, casou-se com a irmã mais velha de Leopoldo, Vitória, a princesa viúva de Leiningen. Os duques de Clarence (Guilherme) e de Cambridge (Adolfo) também se casaram com princesas alemãs nesse ano e, em 1819, nasceram quatro bebés no seio da família real. Todas as três duquesas e a duquesa de Cumberland deram filhos aos seus maridos nessa primavera. Em março, nasceu a princesa Carlota de Clarence, mas viveu apenas algumas horas. Ao contrário desta, o príncipe Jorge de Cambridge era um bebé saudável que viveu até à idade madura de oitenta e quatro anos. A estes nascimentos, seguiram-se mais dois em maio, O segundo destes nascimentos foi o do príncipe Jorge de Cumberland, uma criança delicada que mais tarde sobreu de cegueira e foi o último rei de Hanôver.

Eduardo, Duque de Kent, o pai da rainha Vitóri
Vitória de Kent, a mãe da rainha Vitória

Três dias antes, a 24 de maio, tinha nascido a princesa Alexandra Vitória de Kent no Palácio de Kensington.

À semelhança da sua prima Carlota, Vitória seria filha única. Os duques de Kent, completamente falidos, passaram o inverno desse ano na vila costeira de Sidmouth em Devon, onde o custo de vida era consideravelmente mais baixo do que em Londres. Com alguma ironia, o duque era cuidadoso em relação à saúde da sua família, mas bastante descuidado com a sua. Uma constipação evoluiu para uma pneumonia pouco depois de ter chegado a Devon. O príncipe, que se vangloriava frequentemente dizendo que viveria mais tempo do que todos os seus irmãos, morreu a 23 de janeiro de 1820 com cinquenta e dois anos. Seis dias depois, o rei Jorge III seguiu-o para a sua morte.

A rainha Vitória em criança
O príncipe regente subiu ao trono como rei Jorge IV. O seu herdeiro era Frederico, o duque de Iorque cuja esposa morreu nesse ano. O segundo na linha de sucessão era Guilherme, o duque de Clarence. Todos pensavam que era apenas uma questão de tempo até que Adelaide, a sua esposa lhe desse um herdeiro, uma vez que ele já era pai de dez filhos saudáveis com a sua amante, a atriz Dorothy Jordan que na altura tinha já falecido. Infelizmente, para os duques de Clarence, nenhum dos seus filhos sobreviveu para além da infância. Assim, em 1825, o Parlamento reconheceu que a princesa Vitória seria certamente a sucessora do duque de Clarence no trono e concedeu um rendimento de 6000 libras anuais à duquesa de Kent para as despesas da filha.

Em 1827, Vitória aproximou-se do trono com a morte do duque de Iorque. Três anos depois, o rei Jorge IV morreu e o duque de Clarence sucedeu-o no trono como rei Guilherme IV.

Guilherme IV, tio de Vitória

A infância de Vitória foi solitária, com poucos companheiros que se aproximassem da sua idade. A sua meia-irmã, a princesa Feodora, doze anos mais velha do que ela, casou-se com o príncipe Ernesto de Holenlohe-Langenburg em 1828 e foi viver para a Alemanha. Depois disso, a única companheira permanente de brincadeira de Vitória era Victoire Conroy, a filha do controlador da duquesa de Kent. Porém, esta amizade foi corrompida pelo comportamento sem escrúpulos de Sir John Conroy. Muitos acreditavam - e a própria princesa Vitória talvez o suspeitasse- que sua lealdade à duquesa era excessivamente familiar. Era pouco provável que os dois fossem amantes, mas o ambicioso Sir John insinuava-se certamente de outras formas. Quando tinha dezasseis anos, Vitória ficou gravemente doente com febre tifóide. Quando ainda convalescia, ele tentou obrigá-la a assinar um documento que o tornaria seu secretário quando ela se tornasse rainha. Horrorizada com esta atitude dele e da sua mãe que se aproveitavam da sua doença para fazer exigências tão autoritárias, ela recusou-se a assinar sem qualquer dúvida. Este episódio causou danos incalculáveis na relação de Vitória com a sua mãe.

Sir John Conroy
A única amiga verdadeira de Vitória enquanto crescia foi Louise Lehzen que se tinha mudado para a Inglaterra para ser governanta de Feodora. Em 1824 foi também nomeada governanta de Vitória e, seis anos mais tarde, tornou-se dama de companhia da Duquesa de Kent. A princesa confiava em Louise e considerava-a uma confidente de confiança, principalmente quando as tentativas de coerção por parte de John Conroy lhe fizeram a vida ainda mais negra. No seu diário de infância - que foi muito provavelmente escrito tendo em consideração que a sua mãe o inspecionava regularmente e, assim, escrito com cuidado - havia mais referências à "querida Lehzen" do que à "querida Mamã".

Louise Lehzen
A única influência masculina permanente na vida de Vitória era a do seu tio Leopoldo. Apesar de se ter casado uma segunda vez (com Luísa, a filha do rei Luís Filipe de França) e de ter sido eleito rei dos belgas em 1831, ele manteve correspondência regular com a sua irmã duas vezes viúva e com a sua jovem sobrinha. Todos os anos escrevia-lhe uma longa carta no seu aniversário, cheia de afeto e de bons conselhos avunculares, ainda que os exprimisse de forma algo afetada. Quando ele visitou a Inglaterra com a rainha Luísa em setembro de 1835, a princesa ficou completamente encantada: "Que felicidade é atirar-me para os braços do meu tio mais querido que sempre foi como um pai para mim e que adoro com tanto carinho".

Leopoldo I da Bélgica, o tio adorado de Vitória
O facto de Vitória não ter conseguido criar uma relação próxima do excêntrico, mas bondoso rei Guilherme e com a rainha Adelaide não era culpa de nenhum deles. A duquesa de Kent e John Conroy evitavam de forma ostentosa a corte o mais que podiam, ao que parece porque não queriam que Vitória se aproximasse de um monarca que tinha tantos filhos ilegítimos. Durante o reinado de Guilherme, John Conroy organizou uma série de viagens não oficiais que tinham como propósito apresentar a princesa aos seus futuros súbditos. Conroy não pediu autorização ao rei Guilherme para fazer isto, o que enfureceu o rei uma vez que parecia que estava a montar uma corte rival. Apesar utilidade que estas viagens tiveram para Vitória, uma vez que a fizeram conhecer o seu país em primeira mão, ela ficou furiosa ao saber o mau estar que tinham causado.

A contenda atingiu o seu auge no verão de 1836. O rei convidou a sua cunhada e a princesa para o aniversário da rainha em Windsor que seria celebrado no dia 13 de agosto e pediu que ficassem como convidadas até ao dia 21 de agosto, o aniversário do rei e para um jantar no dia seguinte. A duquesa ignorou o aniversário da rainha Adelaide e mandou avisar que só chegaria no dia 20 de agosto. O rei ficou furioso com esta descortesia para com a sua esposa e, após um brinde feito à sua saúde durante o seu jantar de aniversário, levantou-se e fez um discurso ressentido onde anunciou que desejava viver mais nove meses para que não houvesse uma regência. Assim, teria a satisfação de "deixar a autoridade real nas mãos daquela jovem (apontando para a sua sobrinha)... e não nas mãos de uma pessoa próxima que está rodeada de conselheiros maldosos e que é ela própria incompetente para agir corretamente no lugar onde seria colocada. Depois de declarar veementemente que a mesma pessoa o tinha insultado de forma contínua e que estava determinado a fazer com que a sua autoridade fosse respeitada no futuro, acabou o discurso num tom mais amigável, porém os estragos estavam feitos. A rainha Adelaide ficou envergonhada, a princesa Vitória alagou-se em lágrimas e a duquesa permaneceu calada e sem expressão. Quando o jantar terminou, a duquesa foi buscar a sua filha e anunciou que as duas iam embora imediatamente.

Vitória aos 17 anos em 1836
Apesar da sua saúde frágil, o desejo do rei foi concedido. Vitória atingiu a maioridade a 24 de maio de 1837 e, assim, pôs-se de parte a hipótese de uma regência. O rei Guilherme ofereceu-lhe um rendimento anual de 10 000 libras e uma residência independente da sua mãe. A duquesa e John Conroy tentaram mais uma vez em desespero criar um período de regência até Vitória fazer 21 anos, alegando que ela era demasiado nova, inexperiente e desequilibrada para reinar. As tentativas para fazer a princesa concordar "voluntariamente" fizeram com que ela deixasse de falar com a sua mãe durante algum tempo. John Conroy e Vitória tentaram, de forma absurda, conseguir o apoio de Leopoldo para os seus planos. Ciente de que estava a ser preparada uma conspiração, ele enviou o seu conselheiro de confiança, o barão Stockmar a Londres. O barão falou com ambas as partes e viu que a princesa estava a ser intimidada. As discussões e conspirações continuaram durante quase um mês e Conroy ainda tentou persuadir alguns membros mais antigos do Parlamento a juntar-se à sua causa. Quase sem exceção, eles aliaram-se a Stockmat e à futura rainha.

A 20 de junho, pouco depois das duas da manhã, o rei Guilherme IV faleceu no Castelo de Windsor. O arcebispo da Cantuária e o lord chamberlein, Lord Conyngham, foram até ao Palácio de Kensignton e exigiram ver "a Rainha". Vitória acordou de sobressalto e vestiu rapidamente uma camisa para receber a notícia.

Vitória recebe a notícia da morte do tio e da sua ascensão ao trono

O livro Queen Victoria's Children de John Van Der Kiste está disponível aqui.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Casamentos Morganáticos - Grão-duque Constantino Pavlovich e Joanna Grudzińska


Um casamento morganático acontece quando um nobre, príncipe ou rei contrai matrimónio com alguém abaixo da sua posição social, seja o conjugue plebeu ou da baixa nobreza. A família imperial russa teve, na sua história, vários exemplos deste tipo de união, mesmo quando ela era ainda vista quase como um crime. De facto, não foi até ao casamento de Pedro III com a futura czarina Catarina II que a noção de união dinástica foi introduzida na Rússia. Até então, o czar podia escolher livremente a sua esposa entre as famílias nobres do Império. A lei que proibiu definitivamente os casamentos entre a realeza e nobres menores surgiu apenas com as leis paulinas de 1796, mas, quando começou a ser aplicada, foi rigorosa.

Grão-duque Constantino Pavlovich

Constantino Pavlovich, segundo filho do czar Paulo I da Rússia, tinha apenas 17 anos quando a sua avó Catarina o forçou a casar com a Princesa Juliana de Saxe-Coburgo-Saalfeld, uma tia da Rainha Vitória. O casamento foi extremamente infeliz, principalmente para ela. A principal razão para a antipatia entre o casal, terá sido a personalidade violenta de Constantino que chocou a sua jovem esposa de apenas 14 anos. Três anos depois, em 1799, o casal separou-se e Juliana voltou para Coburgo. Ainda houve uma tentativa de reconciliação em 1801, mas também não resultou. O divórcio oficial chegou em 1820, mais de vinte anos depois da separação.

Juliana de Saxe-Coburgo-Saafeld (Ana Feodorovna), primeira esposa de Constantino

Entretanto, em 1815, Constantino foi nomeado pelo seu irmão mais velho para o cargo de vice-rei da Polónia, algo aceitou de bom grado por lhe dar a oportunidade de exercer o poder pelo qual esperava ansiosamente. Nesta altura toda a corte tinha a certeza que seria ele o próximo czar, visto que Alexandre I e a sua esposa Luísa não tinham filhos e estavam já a caminhar para a meia-idade. No entanto, isso nunca viria a acontecer. No mesmo ano em que chegou a Varsóvia, Constantino conheceu Joanna Grudzińska, uma nobre polaca filha de um dos últimos grandes senhorios do país.

Joanna

Ao contrário do seu casamento com Juliana, a relação com Joanna sempre foi relativamente calma, embora tivesse também os seus momentos conturbados devido à natureza excessivamente romântica dela, à qual Constantino não conseguia corresponder. Ao fim de quatro anos, o Grão-duque decidiu-se a pedir o divórcio oficial de Juliana e autorização para contrair um matrimónio legal com a sua amante polaca ao seu irmão Alexandre. O czar ficou dividido entre o seu dever em defender as regras da família e a empatia que sentia pelo irmão. No final os dois chegaram a um acordo secreto: Constantino abdicaria dos seus direitos ao trono e, assim, poderia casar-se com Joanna. O acordo foi feito de uma forma tão discreta que, anos mais tarde, quando Alexandre I morreu e Constantino ofereceu o trono directamente ao seu irmão Nicolau, nem este sabia que ele tinha abdicado do trono anos antes.

Joanna e Constantino casaram-se no dia 27 de Março de 1820, na Polónia. Durante vários anos, o casal desfrutou de uma harmonia quase perfeita. Numa carta à sua irmã gémea Maria, Joanna escreveu: “O dia de hoje foi igual ao de ontem e o de ontem igual ao anterior. Deus queira que nada se intrometa entre nós e a nossa doce monotonia.”

Constantino

Contudo, os seus desejos não foram cumpridos. Constantino tinha herdado o carácter violento do pai em tudo o que dissesse respeito à governação e o seu reinado na Polónia foi tão desastroso que resultou na Revolta de Novembro de 1830. O casal foi forçado a fugir do seu palácio em Varsóvia depois de uma multidão enraivecida o tentar invadir. Os meses seguintes foram extremamente conturbados. Os dois viveram durante alguns meses nas zonas russas que ainda não tinham sido afectadas pela revolução, mas eventualmente chegaram à conclusão de que a Polónia não resistiria por muito mais tempo.

Joanna

Em Junho de 1831, quando o casal tinha já planos para se mudar para São Petersburgo, Constantino adoeceu subitamente de cólera e acabou por morrer poucos meses depois. Joanna ficou destroçada. Teve ainda forças para entregar o corpo do marido na capital do Império, mas recusou todos os convites por parte do czar Nicolau I para passar a viver na cidade. Em Novembro do mesmo ano, quando se preparava para regressar à Polónia, numa altura em que a revolta começava a ser controlada, morreu daquilo a que muitos chamaram de desgosto.

Joanna nos seus últimos anos