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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Anastásia Nikolaevna por Helen Rappaport

Anastásia Nikolaevna, por volta de 1912
Logo aos quatro anos de idade, Anastásia era "uma macaquinha muito vigorosa, sem medo de nada". De todos os filhos do casal imperial, Nastasya ou Nastya, como lhe chamavam, era a que tinha um aspecto menos russo. Tinha cabelo louro escuro como Olga e tinha herdado os olhos azuis do pai, mas as suas feições assemelhavam-se muito à família da sua mãe, os Hesse-Darmstadt. 


Anastásia com a mãe em 1913

Também não era tímida como as irmãs. Na verdade, era muito frontal, até com os adultos. Podia ser a mais nova das quatro irmãs, mas era sempre a que chamava mais a atenção. Tinha o dom do humor e "sabia como pôr um sorriso na cara de qualquer pessoa". Certo dia, pouco depois do nascimento de Alexei, Margaretta Eager apanhou Anastásia a comer ervilhas com as mãos: "Repreendi-a, dizendo-lhe muito séria que nem o bebé comia ervilhas com as mãos, ao que ela respondeu: 'come sim, até as come com os pés!'". 

Anastásia, por volta de 1906.

Anastásia recusava-se a fazer qualquer coisa à qual fosse obrigada; se lhe dissessem para não subir para cima das coisas, era precisamente isso que fazia. Quando lhe disseram para não comer as maçãs colhidas no pomar e que seriam servidas assadas ao jantar, a grã-duquesa empanturrou-se delas de propósito. Quando foi reprimida, sem mostrar qualquer sinal de arrependimento, disse a Margaretta Eager em forma de provocação: "Não sabe como aquela maçã que comi no jardim me soube bem!". Foi preciso proibi-la de ir ao pomar durante uma semana para que Anastásia prometesse finalmente que não voltaria a roubar maçãs.

Anastásia e Alexei por volta de 1906

Com Anastásia, tudo era uma batalha. Era uma aluna impossível, distraída, negligente, sempre desejosa por sair da cadeira e fazer outra coisa que não a obrigasse a ficar quieta. No entanto, apesar de não ser uma intelectual, tinha um dom instintivo para lidar com pessoas. Quando era castigada por mau-comportamento, dava sempre a volta por cima: "podia sentar-se e avaliar as consequências de qualquer coisa que iria fazer e aceitar o castigo como um soldado", como Margaretta Eager recordou. Mas esse facto nunca a impediu de ser a maior encorajadora de maus comportamentos e conseguia escapar de mais castigos do que qualquer uma das irmãs. Em certas ocasiões, à medida que foi crescendo, chegou mesmo a tornar-se bruta e até vingativa quando brincava com outras crianças. Arranhava-as e puxava-lhes o cabelo, o que levava os seus primos a acusá-la de ser "desagradável, ao ponto de ser má" quando as coisas não corriam à sua maneira.

Anastásia em Darmstadt

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Maria Nikolaevna por Helen Rappaport

Maria com o pai em 1910
A terceira irmã, Maria, era uma criança tímida que, mais tarde, viria a sofrer por estar no meio das suas irmãs mais velhas e dos irmãos mais novos. A sua mãe fez um par com ela e a irmã mais nova, Anastásia, apelidando-as de "o pequeno par", mas, à media que o tempo foi passando, Maria sentia-se por vezes afastada de Anastásia e Alexei - que podem até ser considerados o "pequeno par" mais natural - e que não recebia o amor e afecto que desejava.

Maria em 1910

O seu físico forte fazia com que parecesse bastante deselegante e tinha a reputação de ser desastrada e rude. No entanto, para aqueles que conheciam a família, Maria era de longe a mais bonita com as suas feições rosadas, o seu cabelo castanho volumoso e uma personalidade russa nata que mais nenhuma das irmãs possuía; toda a gente elogiava os seus olhos que brilhavam "como lanternas" e o seu sorriso sincero.

Maria com o irmão, Alexei, e o pai, Nicolau

Maria não era particularmente inteligente, mas tinha muito talento para a pintura e o desenho. Mashka, como as suas irmãs lhe chamavam muitas vezes, era a que menos se deixava afectar pela sua posição. "Apertava a mão a qualquer mordomo ou criado do palácio e trocava beijos com criadas de quarto ou camponesas que conhecia. Se um criado deixasse cair alguma coisa, ela corria logo para a apanhar". 

Maria numa aula de pintura

Uma vez, quando estava a ver um regimento a marchar por baixo da sua janela, no Palácio de Inverno, exclamou: "Oh, como gosto destes soldados tão queridos! Gostava de os beijar a todos!". De todas as irmãs era a mais aberta e sincera e sempre foi muito atenciosa com os pais. Margaretta Eager achava que ela era a filha preferida de Nicolau que se sentia comovido com o seu afecto nato. Em certa ocasião, quando Maria admitiu que tinha roubado um biscoito de um prato à hora do chá, Nicolau ficou aliviado já que "tinha medo das asas que lhe estavam a crescer". Ficou contente por ver que ela "era apenas uma criança humana normal".

Maria, por volta de 1910
Com uma personalidade tão complacente, talvez fosse inevitável que Maria fosse completamente ofuscada pela personalidade dominadora da sua irmã mais nova, Anastásia, já que a grã-duquesa mais nova da família era uma força da natureza cuja presença não deixava ninguém indiferente.

Maria e Anastásia

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Tatiana Nikolaevna por Helen Rappaport

Tatiana em 1905
Aos oito anos de idade, Tatiana tinha pele de marfim, era mais delgada, tinha cabelo mais negro e olhos mais acinzentados do que o tom azul marinho das irmãs. Tinha uma beleza cativante, "era uma cópia viva da sua linda mãe", com um olhar naturalmente imperial, realçado pela sua excelente estrutura óssea e olhos 'orientais'. À primeira vista, parecia ser uma menina muito confiante, mas, na verdade, era muito reservada e cautelosa com as suas emoções, tal como a mãe. 

Tatiana, por volta de 1910

Nunca se deixou dominar pelo seu temperamento, como Olga e, ao contrário da irmã mais velha - que teve uma relação volátil com a mãe à medida que foi crescendo - não havia dúvidas de que Tatiana lhe era completamente dedicada; era sempre em ela que Alexandra confiava e se abria. Era sempre a mais educada e atenciosa à mesa e acabaria por se tornar numa organizadora nata com uma mentalidade metódica e uma conduta humilde que as suas irmãs nunca conseguiram igualar. Não é de admirar que as suas irmãs a apelidassem de "a governanta". 

Tatiana com a mãe

Enquanto Olga tinha um ouvido para a música e tocava muito bem piano, Tatiana tinha grande talento para trabalhos com agulhas, como a mãe. Era também muito altruísta e sensível ao que os outros faziam por ela. Quando descobriu que a sua ama e Margaretta Eagar eram pagas pelos seus serviços porque não tinham  dinheiro próprio e precisavam de ter uma profissão para o ganhar, Tatiana dirigiu-se até à cama de Eager na manhã seguinte, enfiou-se debaixo dos cobertores e abraçou-a, dizendo: "Seja como for, não é paga para fazer isto".

Tatiana, a bordo do Standard com um oficial

Texto retirado do livro "Four Sisters - The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Olga Nikolaevna por Helen Rappaport

Olga Nikolaevna, por volta de 1905

Em 1905 e quase a completar dez anos de idade, Olga estava já ciente da sua posição como filha mais velha e adorava dar saudações militares aos soldados que estavam em guarda enquanto ela passava. Até ao nascimento de Alexei, algumas pessoas tinham o hábito de a chamar a sua "pequena imperatriz" e Alexandra acentuou esse facto, pedindo às suas damas-de-companhia que beijassem a mão de Olga em vez de expressarem o seu afecto de formas mais "efusivas". Apesar de, por vezes, ser rude com as irmãs, Olga já mostrava um lado mais sério. Possuía um certo carácter honesto e íntegro que lhe teria sido muito útil se alguma vez tivesse chegado a ser czarina. Desde cedo, Alexandra colocou em Olga um certo nível de responsabilidade que lhe relembrava constantemente em pequenas notas: "A mama dá um beijo muito carinhoso à sua menininha e pede a Deus para que a ajude a ser sempre uma criança cristã bondosa e amorosa. Sê simpática para todos, sê gentil e amorosa e todos vão gostar de ti", escreveu em 1905.

Olga com a mãe, Alexandra.

Margaretta Eagar viu desde cedo que Olga tinha herdado o espírito altruísta da mãe e da avó Alice. Era muito sensível aos problemas dos mais infelizes. Certo dia, quando passeava de carruagem por São Petersburgo, viu um polícia a prender uma mulher por embriaguez e desacatos e implorou a Margaretta que a soltassem. Quando viu os camponeses pobres a cair de joelhos na berma da estrada na Polónia enquanto a família imperial passava, também ficou perturbada e pediu a Margaretta que lhes dissesse para 'não fazer aquilo'. Pouco depois do Natal certo ano, quando estava a passear pela cidade, viu uma menina a chorar na estrada. 'Veja,' exclamou ela, muito exaltada, 'o Pai Natal não devia saber onde ela morava' e atirou imediatamente a sua boneca que tinha consigo pela carruagem fora, gritando: 'Não chores, menina, toma uma boneca'".

Olga, por volta de 1904,1905

Olga era curiosa e tinha muitas perguntas. Uma vez, quando uma ama a repreendeu por estar mal-disposta, dizendo que ela 'tinha saído da cama com o pé errado', na manhã seguinte, Olga perguntou de forma pertinente qual era o pé certo para sair da cama para que 'o pé errado não me faça portar mal hoje'. Conseguia ser irritável, desdenhosa e difícil e os seus ataques de raiva revelavam um lado negro que, por vezes, era difícil de controlar, mas Olga também era uma sonhadora. Em certa ocasião, quando estava a brincar aos espiões com as filhas, Alexandra reparou que 'a Olga lembra-se sempre do sol, das nuvens, no céu, na chuva ou algo relacionado com o paraíso e explica-me que fica muito feliz quando pensa nestas coisas'". Em 1903, com oito anos de idade, confessou-se pela primeira vez e, pouco tempo depois da morte trágica da sua prima [Isabel de Hesse] nesse mesmo ano, começou a fascinar-se com o paraíso e a vida depois da morte. "A prima Ella já sabe, já está no paraíso, sentada a falar com Deus e Ele está a explicar-lhe como e porque fez isto", disse Olga a Margaretta Eager quando as duas conversavam sobre o sofrimento de uma mulher cega.


Olga com a sua prima Isabel, o tio Ernesto Luís de Hesse e o pai, Nicolau II.

Texto retirado do livro "Four Sisters - The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Peterhof e Baptizado da Grã-Duquesa Maria

Alexandra, Maria, Nicolau, Tatiana e Olga
A cerca de seis ou oito quilómetros de Peterhoff encontra-se a Subswina Datcha (a minha villa), uma pequena casa rococó mobilada no estilo do Primeiro Império. Só a mobília daria uma fortuna muito considerável se fosse vendida em Londres. É muito bonita. Há muitos quadros valiosos e porcelanas do mais bonito possível, incluindo grandes jarras da bela porcelana de Dresden. A casa é rodeada por parques e jardins cheios de árvores e bem tratados, entre os quais se incluía um belo jardim de rosas. Foi construída por ordem do czar Nicolau I e foi lá dado um baile em honra do décimo-primeiro aniversário do seu filho. Os convidados dançaram na grande ponte de madeira que se ergue sobre a estrada.

Uma das coisas que as crianças mais gostavam de fazer era ir lá passar a tarde e tomar chá, principalmente durante a época do feno, quando escorregavam pelos montes de feno e corriam para cima e para baixo nas encostas cobertas de relva. Outra coisa de que gostavam muito era visitar a quinta, ver as vacas a ser ordenhadas, alimentar as galinhas, recolher os ovos e encher cestos de maçãs. Há dois anos atrás, a esposa do agricultor, uma mulher muito simpática, estava a criar quatro gatinhos cuja mãe tinha sido morta. Quando as pequenas grã-duquesas passavam por lá de manhã nos seus póneis ou de bicicleta, os gatinhos eram sempre trazidos cá para fora e quatro biberões eram entregues, um para cada criança. Com um gatinho numa mão e o biberão na outra, as meninas iam dar uma volta pelo quintal enquanto os alimentavam.

Olga, Tatiana, Maria e Anastásia em Peterhof
Quando a grã-duquesa Maria era bebé, fomos passar um dia a Robshai. Estavam a haver manobras militares na altura e nas quais participaram o imperador e a imperatriz e, um dia, entramos numa carruagem puxada por quatro cavalos lado-a-lado e, duas horas depois, chegamos a Robshai. O palácio era grande, mas pouco ocupado e tinha jardins bonitos. Algum tempo depois, passamos alguns dias em Krasnow Selo, onde também decorriam manobras militares. Krasnoe Selo significa “cidade bonita”, um termo impróprio, se alguma vez tal existiu. A cidade é uma colecção miserável de cabanas de madeira sujas, cada uma delas erguendo-se um pouco antes da estrada e com uma poça de água parada antes delas. Não havia sinais de um jardim, nem sequer de uma couve à vista. Há um pequeno parque bonito com várias sorveiras e era lá que costumávamos caminhar todas as manhãs.

Quando a Maria tinha duas semanas de idade, foi baptizada na igreja do Grande Palácio em Peterhoff. A cerimónia, que foi muito imponente, durou duas horas ou mais. A imperatriz tinha feito preparativos para que eu entrasse na igreja por uma porta particular e para regressar pela mesma. Portanto, no dia marcado, metida dentro de um vestido branco de seda, ocupei o meu lugar na carruagem e fui levada para a igreja. O cossaco que estava de guarda não estava a permitir a passagem da carruagem. Eu não falava russo e pensava que talvez recebesse permissão para entrar a pé. Por isso saí da carruagem. Mas não! O homem baixou a baioneta e bloqueou-me o caminho. Ali estava eu, no meu vestido branco, no meio da estrada, com uma multidão a olhar para mim. Não sabia o caminho por outra porta, mas finalmente vi um oficial que conhecia do palácio. Fui até ele, falei em francês e contei-lhe o meu dilema. O oficial foi extremamente simpático e passamos pelos guardas até entrar na igreja onde os padres e bispos já estavam reunidos. Estavam ocupados a escovar os longos cabelos. Um deles veio ter comigo e numa maravilhosa mistura de línguas perguntou-me a que temperatura deveria estar a água. Respondi-lhe em francês e inglês, mas não pareceu que ele tivesse percebido. Depois mostrei-lhe o número de graus com os meus dedos e um grupo de padres interessados e entusiasmados começaram a preparar a pia para a criança. Pouco depois começaram a entrar os convidados: embaixadores e as suas esposas, todos com os vestidos das suas cortes. Uma mulher chinesa pequena parecia muito simpática e inteligente. Tinha um quimono de seda azul vestido e um chapéu redondo pequeno na cabeça, uma flor vermelha em cada orelha e uma branca em cima delas. A igreja católica foi representada por um cardial com o seu chapéu vermelho e batina, e o chefe da Igreja Luterana na Rússia também estava presente, vestindo uma batina preta com rendas branca. Os polacos são maioritariamente católicos e os finlandeses luteranos ou da igreja reformadora. Também estavam presentes membros de várias cortes. A imperatriz-viúva e a imperatriz tinham quinhentas damas que pertenciam à corte – “Demoiselles d’honneur”, como eram chamadas. Estas damas vestiam-se todas de forma semelhante nestas ocasiões, com mantos de veludo vermelho bordados a ouro com anáguas de cetim branco. As senhoras mais velhas, “Les dames de la cour”, levavam vestidos verde-escuros bordados a ouro.

Alexandra Feodorovna com o vestido da corte
Quando estavam todos reunidos, a pequena heroína foi levada para a igreja pela princesa Galitzin, a senhora mais antiga da corte. A princesa levava uma almofada de pano de ouro, na qual repousava a pequena Maria Nikolaevna, na glória plena do seu vestido de renda cor-de-rosa e com um pequeno chapéu na cabeça à sua medida. O imperador, a imperatriz-viúva, os outros padrinhos e todos os grão-duques e duquesas e membros da realeza estrangeira surgiram a seguir. Segundo a lei da Igreja Ortodoxa Russa, os pais não podem ficar na igreja durante o baptismo, por isso o imperador, depois de receber os parabéns dos seus parentes, retirou-se da igreja, voltando depois para a Confirmação e para entregar a Ordem de Santa Ana à sua pequena filha. A bebé foi depois despida até ficar só de camisa interior, a mesma que o imperador tinha usado no seu baptismo. Infelizmente a mesma foi roubada da igreja nesse mesmo dia e nunca mais voltou a aparecer. Depois a bebé foi mergulhada três vezes na pia, o seu cabelo foi cortado em quatro sítios em forma de cruz. O que foi cortada foi enrolado em cera e atirado para a pia. Segundo a superstição russa, o bem ou o mal do futuro da criança depende se o cabelo flutuar ou se afunda. O cabelo da pequena Maria comportou-se de forma ortodoxa e afundaram todos imediatamente, por isso não há necessidade de nos preocuparmos com o seu futuro. A criança foi depois levada para trás de um painel onde foi vestida com roupas novas de prata e a missa continuou. Depois foi levada novamente para a igreja e ungida com óleo. O seu rosto, olhos, ouvidos, mãos e pés foram tocados com uma escova fina mergulhada em óleo. A seguir foi levada pela imperatriz-viúva para dar três voltas à igreja, apoiada em cada lado pelos seus padrinhos. Dois pajens seguravam o manto da imperatriz. O imperador, que tinha voltado a entrar na igreja depois de a cerimónia acabar, chegou-se à frente e investiu-lhe a Ordem com diamantes e depois a procissão retirou-se pela mesma ordem em que tinha entrado na igreja. A bebé foi levada para a igreja numa carruagem dourada de vidro puxada por seis cavalos brancos como a neve, cada um deles conduzido por um cavalariço vestido numa libré branca e escarlate com uma peruca, e foi escoltada por um guarda dos Cossacos. 

Maria com a mãe, Alexandra
Quando quis regressar pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo, os soldados não me deixaram passar e fui obrigada a regressar para a igreja. Não podia ficar lá, por isso fui pelo caminho pelo qual tinha passado a procissão, pelas grandes salas de estado e tive a sorte de encontrar alguém do palácio. Expliquei o meu dilema e fui entregue aos cuidados de uma senhora idosa respeitável que depois vim a descobrir tratar-se de uma das criadas do palácio e o meu guia disse-me que ia fazer um telefonema para me arranjar uma carruagem. Contudo, a carruagem não chegou e regressar a pé estava fora de questão porque, por um lado, a distância era muita e não sabia falar russo suficiente para perguntar o caminho a um polícia. Cerca das três e meia da tarde, a mulher foi procurar alguém que me pudesse ajudar. Pouco depois regressou com um homem que me disse: “Eu não falar inglês, eu falar alemão”. Expliquei-lhe que não sabia falar nem russo nem alemão. No entanto, problema da língua não preocupou o bom samaritano que chamou uma izvochik, o nome pelo qual são chamadas as carruagens na Rússia, colocou-me dentro dela e mandou-me para o sítio que pensava ser a minha casa. Fui levada primeiro para o palácio da imperatriz-viúva por erro e quando consegui finalmente regressar a casa, tinha estado desaparecida durante várias horas e sentia-me muito cansada e cheia de fome.

Margaret Eager com as quatro grã-duquesas
Na manhã seguinte chegou a notícia de que o czarevich Jorge Alexandrovich tinha morrido. Este pobre jovem sofria de tuberculose há muitos anos. Tinha vivido no Egipto durante algum tempo e tinha também experimentado muitos outros climas, mas só sentiu que conseguia respirar em Abbas Turman, no Cáucaso. A sua vida lá foi solitária e triste. A sua mãe e as suas irmãs, as grã-duquesas Xenia e Olga, bem como os seus sobrinhos da primeira costumavam visitá-lo todos os anos depois da Páscoa e ficavam até o tempo ficar demasiado quente para elas, uma vez que o clima é quente e a viagem longa e difícil, principalmente para crianças. Nesse ano, devido ao nascimento da pequena Maria, a viagem tinha sido adiada para um pouco mais tarde do que o costume e o pobre grão-duque esperava a chegada delas impacientemente. Numa carta escrita pouco antes da sua morte, ele disse que tinha saudades de ouvir o som da voz de uma mulher, o toque da mão de uma mulher e implorou que a sua mãe fosse ter com ele o mais depressa possível depois do baptismo. Ficou também muito desiludido pela Maria não ter sido um rapaz, pois sentia que o fardo da sua responsabilidade era quase intolerável.

Por erro, o imperador tinha-o nomeado czarevich em vez de herdeiro-aparente. Na Rússia este título nunca pode ser retirado, excepto quando aquele que o tem se torna imperador. Após a sua morte, o imperador nomeou o seu irmão mais novo, Miguel, herdeiro-aparente que tem usado este título com muita dignidade e honra, mas ficou muito feliz quando deixou de o ter após o nascimento do pequeno herdeiro, o grão-duque Alexei a 12 de Agosto de 1904.

O grão-duque Jorge Alexandrovich
Na manhã a seguir ao baptismo, o czarevich Jorge tinha-se levantado mais cedo do que o costume. Sentia-se melhor e mais animado e, apesar dos avisos do seu criado particular, decidiu dar uma volta de bicicleta. Desceu uma encosta e, quando chegou ao fundo, caiu de repente da bicicleta. Uma velha camponesa que estava a caminho da casa dele para lhe levar leite, acompanhada do seu neto, foram as únicas testemunhas do acidente. A mulher correu para o ajudar e viu que tinha sangue a escorrer-lhe da boca. Mandou o neto à casa dele para ir buscar ajuda e estava sentada no chão com a cabeça do jovem grão-duque no colo, mas poucos minutos depois ele morreu. Foi assim, ao lado da estrada, com os cuidados de uma velha camponesa, que morreu o herdeiro do trono russo. Cumpriu o ditado sobre os Romanov, que nenhum deles vai morrer deitado numa cama. Até onde sei, apenas o czar Nicolau I foi o único a conseguir esse feito. Morreu de pneumonia alguns dias após a queda de Sevastopol. Apesar de Alexandre III ter tido também uma morte natural, estava sentado numa cadeira na varanda quando tal aconteceu.

Jorge Alexandrovich
Foi construída uma igreja no local onde Jorge Alexandrovich faleceu. A imperatriz-viúva e a família viajaram para a Crimeia para acompanhar o seu corpo que foi levado para São Petersburgo para repousar na igreja da Fortaleza de Pedro e Paulo. A sua sepultura é cuidada por mãos carinhosas, com flores e plantas frescas sempre por perto e todos os anos se celebra uma missa em sua honra. Esta missa vai continuar a celebrar-se enquanto houver membros da família vivos, uma vez que este é um costume da igreja russa. Diz-se que o grão-duque Jorge se casou com a rapariga do telégrafo. Esta história é completamente infundada. O grão-duque vivia sozinho na sua casa no Cáucaso com os seus criados e a única excepção dava-se quando era visitado pela mãe e pela família.

Alguns dias depois do funeral, o encouraçado Alexandre III foi baptizado. O imperador, a imperatriz, a imperatriz-viúva e outros membros da família estiveram presentes na cerimónia. Segundo a tradição russa, todos se vestiram de luto branco, uma vez que ninguém participa numa cerimónia na Rússia vestido de peto. Começou uma tempestade súbita e um raio atingiu o navio, ferindo sete ou oito pessoas. O navio tinha o nome do marido da imperatriz-viúva que ficou muito perturbada com este acontecimento e disse que o navio se afundaria na sua primeira missão. 

Maria Feodorovna
Texto retirado do livro "Six Years at the Russian Court" de Margaret Eager.






terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Nascimento da Grã-Duquesa Maria - Margaret Eager

Olga Nikolaevna com a tia Olga Alexandrovna em 1899

Um dia, na altura da Páscoa, fomos dar um passeio pela avenida de Nevski e a pequena grã-duquesa Olga não se estava a portar bem. Eu tentava falar com ela, tentando fazer com que se sentasse quieta quando, inesperadamente, ela me obedeceu, colocando as mãos muito educadamente no colo. Alguns segundos depois perguntou-me: “Viu aquele polícia?”. Respondi-lhe que isso não era nada de extraordinário e que o polícia não lhe ia fazer nada. Ela respondeu: “mas este estava a escrever alguma coisa, tive medo que estivesse a escrever que tinha visto a Olga e que ela se estava a portar muito mal.” Expliquei-lhe que isso era muito improvável e ela relembrou-me, de forma bastante indignada, que um dia, algum tempo antes, tinha visto uma mulher bêbada a ser presa na rua e que me tinha pedido para ir dizer ao polícia para não a magoar, e eu tinha-me “recusado a interferir e dito que a mulher se tinha portado muito mal e que o polícia tinha toda a razão por a estar a levar” . Nesta altura expliquei-lhe que uma pessoa tinha de ser bastante crescida e portar-se muito mal antes de a polícia levar alguém para a prisão. Quando voltamos a casa, ela perguntou a toda a gente se algum polícia tinha passado pelo palácio e perguntado por ela enquanto estivemos fora. Quando foi visitar os pais nessa tarde, contou tudo o que tinha acontecido ao pai, dizendo-lhe que eu lhe tinha dito que era bastante provável viver uma vida inteira sem ir para a prisão. Depois perguntou ao pai se ele alguma vez tinha estado preso e o imperador respondeu que nunca se tinha portado mal o suficiente para ir para a prisão, ao que ela respondeu: “Ah, então também te deves ter portado muito bem”. 

Olga em 1899
Ficamos cerca de dois dias em São Petersburgo e depois regressamos a Czarskoe Selo. A primavera chega tão rapidamente na Rússia que quando regressamos, as paisagens já estavam verdes e magníficas, os pássaros já estavam a cantar e tudo estava lindo com a chegada da primavera.

A esposa do czar Alexandre II adorava primaveras. Importava-as da Alemanha e plantava-as no parque de Czarskoe Selo. Deram-se muito bem e agora qualquer as encontra até em Peterhoff, que fica cerca de cinquenta quilómetros de São Petersburgo.

Maria Alexandrovna
Ficamos em Czarskoe Selo até ao início de Maio, quando nos mudamos para Peterhoff, a residência de verão no Golfo da Finlândia. Lá existem várias residências imperiais e o grande palácio é usado para cerimónias de estado. O parque é limitado pelo calmo Báltico de um lado. No horizonte vê-se a cidade de Kronstadt, rodeada pelos seus fortes. Há uma pequena igreja inglesa onde vive um capelão durante o verão que trabalha com os marinheiros. Kronstadt é o segundo lugar mais seguro do mundo e, até muito recentemente, era considerado impenetrável por causa do gelo. Contudo, a quebra do gelo mudou tudo. O lugar mais seguro do mundo é, claro, Gilbraltar.

As pequenas grã-duquesas começaram a ir regularmente à igreja desde bebés. Foi durante este ano que a grã-duquesa Olga começou a compreender o que lá se dizia. Chegou a casa um dia e disse-me: “o padre rezou pela mamã e pelo papá, pela Tatiana e por mim, pelos soldados, pelos marinheiros, os pobres doentes, as maçãs e as pêras e por Madame G.” Contestei quando falou desta última e ela respondeu-me: “Mas eu ouvi-o dizer ‘Maria Feodorovna’!” Então disse-lhe que se calhar se estava a referir à avó dela, mas ela protestou: “Não! A avó chama-se Amama [avó em dinamarquês], ou Sua Majestade, mas não se chama Maria Feodorovna.” Disse-lhe: “Também se chama Maria Feodorovna”, mas ela não aceitou: “ninguém tem mais de dois nomes e tenho a certeza que a Madame G. ia ficar muito contente se soubesse que os padres rezam sempre por ela na igreja.”

Olga Nikolaevna com a avó Maria Feodorovna
Foi em Peterhoff, durante o quente mês de Junho, que nasceu a pequena grã-duquesa Maria. Penso muitas vezes que ela já nasceu boa, com o mínimo sinal do pecado original. O grão-duque Vladimir costumava chamar-lhe “o bebé amigável”, por ela ser tão boa e estar sempre a sorrir e alegre. É uma criança muito bonita e amorosa, com grandes olhos azuis-escuros e as sobrancelhas negras da família Romanov. Há pouco tempo, um cavalheiro ao falar dela disse que tinha o rosto de um anjo de Botticelli. Mas por muito boa e gentil que seja, também é muito humana, como as seguintes histórias vão mostrar. Um dia, quando ela ainda era muito pequena, estava no boudoir da imperatriz onde o imperador e a imperatriz estavam a tomar chá. A imperatriz tinha umas wafers pequenas com sabor a baunilha que se chamavam Biblichen, das quais as crianças gostavam muito, mas não tinham permissão para pedir nada enquanto estivessem na mesa. A imperatriz mandou-me chamar e quando cheguei a pequena Maria estava de pé, no meio da sala, com os olhos lavados em lágrimas e a engolir alguma coisa apressadamente. “Pronto! Comi tudo!”, disse ela, “Agora já não as podem comer!” Fiquei muito admirada e sugeri logo que se mandasse a criança para cama de castigo. A imperatriz disse: “Muito bem, leve-a”, mas o imperador interrompeu-a e pediu que a deixássemos ficar, dizendo: “Já estava com medo que lhe começassem a crescer as asas, ainda bem que ela é só uma criança humana.” Servia muitas vezes de exemplo para as suas irmãs mais velhas que declararam que ela era uma meia-irmã. Disse-lhes em vão que, nos contos de fadas, eram as irmãs mais velhas que eram as meias-irmãs e que a terceira é que era a irmã verdadeira. Elas não me ouviam e excluíam-na de todas as suas brincadeiras. Disse-lhes que ela não ia aguentar aquele comportamento para sempre e que, um dia, elas seriam castigadas. Um dia, as duas mais velhas fizeram uma casa com cadeiras numa ponta do berçário e não deixaram entrar a pobre Maria, dizendo-lhe que ela podia fazer de mordomo, mas que, para isso, tinha de ficar do lado de fora. Fiz outra casa do outro lado e ela brincou lá. De repente, a Maria correu para o outro lado do quarto, foi até à casa das irmãs, deu um estalo na cara a cada uma delas e foi para o quarto ao lado, voltando vestida com o manto de uma boneca e um chapéu e as mãos cheias de brinquedos pequenos. “Não vou ser o mordomo, vou ser a tia boa e gentil que dá brinquedos!”, disse ela. Depois distribuiu os brinquedos, beijou as suas “sobrinhas” e sentou-se. As irmãs dela olharam uma para a outra envergonhadas e depois a Tatiana disse: “Fomos tão más para a pobre Maria e ela não resistiu a bater-nos.” Aprenderam a lição e a partir daí passaram a dar-lhe os direitos de família que ela merecia.

Maria Nikolaevna
Desde muito cedo que o amor pelo pai era muito visível. Quando ainda mal conseguia andar, a Maria tentava sempre fugir do berçário para ir ter com o papá e sempre que o via no jardim ou no parque, chamava-o. Se ele a ouvisse ou visse, esperava sempre por ela para a poder levar um pouco ao colo.

Quando ele esteve doente na Crimeia, sofreu muito por não o poder ver. Tinha de trancar a porta do berçário, senão ela fugia para o corredor e incomodava-o com os seus esforços para chegar até ele. Todas as noites, depois do chá, sentava-se no chão, mesmo encostada à porta do berçário, a ouvir os sons que podiam vir do quarto. Se ouvisse a voz dele por acaso, esticava os braços e começava a chamar pelo pai e a sua alegria quando o pôde ver foi enorme. Quando a imperatriz foi visitar as crianças na primeira noite depois de ter sido diagnosticada a febre tifóide, estava a usar um broche que tinha um retracto em miniatura do imperador. No meio de lágrimas e soluços, a pequena Maria reparou nele. Subiu para o colo da mãe e cobriu a fotografia de beijos, recusando-se a ir para a cama durante todas as noites em que a doença durou sem beijar esta miniatura.

Maria Nikolaevna com a mãe Alexandra
Texto retirado do livro "Six Years at the Russian Court" de Margaret Eager


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Viagem à Dinamarca e à Alemanha (1899) - Margaret Eager

Famílias reais russa e dinamarquesa em 1899
No outono desse ano (1899), fomos ao estrangeiro. Em Peterhoff entramos a bordo de um pequeno iate chamado Alexandra que nos levou até Kronstadt onde nos mudamos para o Standard. O Padre João de Kronstadt veio a bordo e abençoou o imperador, a imperatriz e as crianças; também me abençoou a mim.

Começamos a nossa viagem em Kronstadt no belo iate Standard que é tão grande como a linha costeira e leva quinhentos homens a bordo. Fomos sempre seguidos por outro iate, o Polar Star, para protecção. Foi nesse barco que o imperador fez a sua viagem educativa pelo mundo inteiro quando era czarevich.


Nicolau e Tatiana com Miss Eager a bordo do iate Standard
Tinham sido dadas ordens para o navio andar a meio gás em caso de nevoeiro que é muito comum no Báltico. O nevoeiro chegou e o Standard reduziu a velocidade, mas o Polar Star não, por isso acabou por nos ultrapassar e já estava a alguns nós de distância quando se percebeu o que tinha acontecido. Houve grande confusão a bordo de ambos os barcos e mudaram ambos um pouco a sua direcção. O Polar Star passou tão perto de nós que quase podemos apertar as mãos de quem estava a bordo dele. O resto da nossa viagem seguiu sem incidentes.

Quando chegamos a Copenhaga fomos recebidos pelo velho rei da Dinamarca, pelo príncipe de Gales (futuro rei Eduardo VII), pela princesa Vitória (do Reino Unido), pelo rei da Grécia e por muitos outros membros da realeza, e fomos de carro até ao Castelo de Bernstorff que ficava perto de Copenhaga. É uma residência muito pequena e havia tanta gente que chegava a ser desconfortável. Tem um pequeno parque e um jardim de rosas que a falecida rainha plantou.

Nicolau II  na companhia dos seus irmãos Miguel e Olga, do cunhado Alexandre, da prima Vitória do Reino Unido e dos primos Aage, Axel, Eric, Viggo e Cecília, filhos do príncipe Valdemar da Dinamarca
A princesa Vitória gostou muito das suas pequenas primas e elas, por seu lado, também mostraram muito afecto pela “Tia Toria”, como lhe chamavam. De facto, as três meninas foram o centro das atenções da família. A princesa de Gales ficou instalada num quarto ao lado do meu.

Ficamos cerca de dezasseis dias na Dinamarca, depois fomos para Kiel para visitar a irmã da imperatriz, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Naquela altura ela tinha dois filhos. Kiel é uma cidade bastante suja e muito movimentada, com um porto próspero; apesar de tudo tem lojas muito boas. Se alguém perguntar a um habitante de Kiel o que se pode comprar de recordação, ele sugere sempre peixe fumado. O peixe é muito valorizado por toda a Alemanha.

A princesa Vitória do Reino Unido com a princesa Cecília da Dinamarca
Ficamos dois dias em Kiel e depois fomos de comboio para Darmstadt, ou melhor, para Wolfsgarten. (…) Fomos recebidos na estação pelo grão-duque e grã-duquesa de Hesse e pela filha deles, a pequena princesa Ella, bem como pela irmã da grã-duquesa, a princesa-herdeira da Roménia que é uma mulher muito bonita. A princesa Ella tinha quatro anos na altura e era uma criança doce e bonita com grandes olhos cinza-esverdeados e uma grande quantidade de cabelo negro. Era muito parecida com a mãe, não só no rosto, mas também na forma como se movimentava. Gostava muito das suas primas e colocou alguns dos seus brinquedos na sala para que elas pudessem brincar e não demorou para que ficassem grandes amigas. A princesa queria muito ter um irmão e implorou com muita veemência para que a deixassem adoptar a grã-duquesa Tatiana. Disse que não íamos sentir tanta falta dela como da Olga ou da bebé (Maria) e chegou à conclusão de que Miss W. (a ama de Isabel) podia muito facilmente cuidar de mais uma criança. Nesse dia seguiu com muita atenção e olhos bem abertos a forma como eu tratava da bebé e perguntou à tia se não se importava de a deixar em Darmstadt e, claro, a imperatriz disse que não podia fazer isso. Depois tentou a via diplomática, assegurando a toda a gente que a Maria era uma bebé muito feia e que ficaríamos melhor sem aquela menina pateta. Quando pensou que tinha conseguido cumprir o seu objectivo, disse-me que a bebé era tão horrível que eu até a devia deitar fora!

A princesa Isabel de Hesse com a prima Olga, o pai Ernesto Luís, o tio Nicolau II e o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca
Passamos seis ou sete semanas muito felizes em Wolfgarten onde podemos usufruir de prazeres muito simples como chás ciganos. Fomos duas vezes a Darmstadt, tomamos chá no palácio e fomos às compras com as crianças. Darmstadt é uma cidade bem construída, com ruas largas e limpas e boas lojas. Levamos as crianças a uma loja de brinquedos e dissemos que elas podiam escolher o que quisessem para si e um presente para os seus familiares. A Olga escolheu o brinquedo mais pequeno que encontrou e agradeceu educadamente. Os funcionários da loja tentaram em vão mostrar-lhe brinquedos melhores, mas ela respondia sempre: “Não, obrigada, não quero isso.” Levei-a para um canto e perguntei-lhe porque é que ela não queria levar mais nada. Disse-lhe que as pessoas iam ficar tristes se ela não levasse mais nada e que não podia sair da loja sem escolher outras coisas. Então respondeu-me: “Mas de certeza que os brinquedos mais bonitos já são de outras meninas e ia ser muito mau se elas chegassem a casa e vissem que nós os tínhamos levado enquanto elas estavam a passear.” Expliquei-lhe como funcionava a loja e tanto ela como a Tatiana levaram um grande monte de brinquedos para casa.

Olga e Tatiana em Darmstadt em 1899
Foi com muita pena que deixamos Darmstadt. A caminho da Polónia, fizemos uma paragem em Potsdam para visitar o imperador e a imperatriz da Alemanha. Quando chegamos, havia tropas alinhadas na estação e foi o próprio imperador que nos veio receber. Uma banda tocou o hino nacional russo e os dois imperadores caminharam lado a lado enquanto inspeccionavam os regimentos que estavam presentes. O czar deu apertos de mão e felicitou os oficiais. O imperador e a imperatriz foram até ao palácio para almoçar, mas eu fiquei com as crianças no comboio até chegar uma carruagem que nos levou para lá já depois da refeição.

Nicolau com o kaiser Guilherme II em 1899
O imperador da Alemanha é exactamente igual ao que vemos nas fotografias e a esposa é uma mulher bonita e saudável. Nesta ocasião estava vestida de forma simples, com um vestido verde. Ambos adoraram as grã-duquesas e repararam principalmente nas roupas delas que tinham sido compradas em Londres de propósito para a visita. As meninas tinham vestido casacos creme de seda com chapéus a condizer. Debaixo tinham vestidos creme com faixas de seda cor-de-rosa.  A pequena princesa, única menina nascida do casal, levou-nos para o andar de cima e pareceu-me uma criança muito doce e bem-educada. Os quartos das crianças tinham todos papel de parede verde marinho e prateado e eram todos muito bonitos. Foi lá que tomamos chá com a princesa e o príncipe mais novo. Não havia criados na sala e foi próprio príncipe que distribuiu o pão e a manteiga por todos. Quando terminamos o chá, eles levaram a Olga para andar numa pequena carruagem puxada por um pónei vigiada pela ama inglesa que também levou consigo a Tatiana e andaram todos pelos conhecidos jardins de Sans Souci. Depois voltamos ao comboio e pusemos as crianças na cama. Cerca das dez da noite chegaram o imperador e a imperatriz. A banda tocou e começamos a viagem para a Polónia.

Vitória Luísa, filha do kaiser Guilherme II

domingo, 26 de junho de 2011

O Jovem Oficial e as Bonecas - Margaret Eager

Margaret Eager (esquerda, a segurar Anastásia) com as filhas do czar
Depois de sairmos de Spala fomos para a Criméia. Chegamos a Alma à hora de ir dormir e fiquei triste por não ter visto nada do seu famoso campo de batalha. Quando acordei na manhã seguinte fiquei encantada ao descobrir que ainda estávamos na estação de comboio, por isso acabei por conseguir ver o local muito bem pela janela. Começamos a viagem às oito da manhã e atravessamos campos magníficos. Havia montanhas altas, cheias de árvores, ainda mais maravilhosas devido à sua folhagem de Outono; nunca tinha visto cores assim. Pouco depois chegamos a Inkermann onde existe um mosteiro maravilhoso, na borda de um grande penhasco. A natureza moldou grande parte das cavernas que são usadas como quartos, mas os monges também construíram muita coisa. As janelas e portas foram feitas por eles e o mosteiro está bem mobilado e tem uma bela igreja.
Pouco depois de termos saído de Inkermann, chegamos a Sevastopol. Os russos pronunciam este nome como Sevastdpol, com acentuação na terceira sílaba. Era aqui que o iate estava à nossa espera e onde embarcamos. Sou uma entusiasta de iates, desde que estes estejam ancorados, mas quando eles começam a andar é outra história.

Margaret Eager com a grã-duquesa Tatiana a bordo do iate imperial
Sevastopol deve ter parecido quase impenetrável, situada entre penhascos altos e áridos, que se erguem da água; uma pessoa pode perguntar-se como é que os exércitos inimigos conseguiram atracar. Estava a olhar para a paisagem, a pensar nestas coisas, quando o barão M., que é general do regimento de cossacos, me perguntou no que estava eu a pensar. Respondi-lhe e, com um brilho nos olhos, contou-me o seguinte: “Está a ver, os pobres russos estavam com muita fome e o cozinheiro tinha-lhes preparado um belo jantar. Quando ouviram a sineta do jantar, todos foram a correr e os ingleses entraram por aqui calmamente. Quando os russos voltaram, os ingleses já estavam à espera do seu jantar dentro da cidade. Foi um grande choque para os russos.” Agradeci-lhe educadamente pelo conhecimento que me tinha transmitido e ele disse que ficava feliz por melhorar a minha educação, mas se aquilo que ouvia dele fosse diferente daquilo que tinha ouvido antes, podia acreditar no que quisesse.

Olga e Tatiana
Só passamos um dia em Sevastopol dessa vez e continuamos a percorrer o mar até Yalta. O Mar Negro costuma ser muito difícil de navegar e foi o que aconteceu desta vez. A viagem de Secastopol até Yalta durou cerca de quarenta horas. Tinhamos começado à noite e chegamos ao nosso destino na manhã do dia seguinte. Foi um grande alívio quando finalmente chegamos a terra firme.
Yalta é uma cidadezinha bonita onde grande parte da sua população consiste de viajantes e turistas, fora da época alta tem muito poucas pessoas. As lojas ficam fechadas e os seus donos viajam para o Cáucaso ou para partes ainda mais remotas da Rússia para fazerem os seus negócios lá. Muitos deles são judeus e alguns são arménios. Uma das lojas que conheci era gerida por uma mulher arménia de baixa estatura e pelo seu marido. A mulher tinha salvado alguns missionários e colocada numa escola de missões inglesa onde tinha aprendido a falar inglês. Adorava Mr. Gladstone e acreditava verdadeiramente que ele era um santo. Tinha uma pequena loja, muito bonita, com todo o tipo de objectos orientais, prata caucasiana e pequenas bugigangas que serviam de presentes. Algumas destas coisas tinham um preço muito razoável, enquanto outros eram mais caras do que em Londres. A prata, por exemplo, é barata e de muito boa qualidade.

A família imperial a bordo do iate
A propriedade do imperador nesta região chama-se Livadia e está localizada a meio de uma montanha, rodeada de vastas vinhas que descem a montanha até ao mar. As uvas são deliciosas. O Mar Negro, tal como o Báltico, não tem ondas. Em Livadia há uma praia rochosa onde as crianças brincavam todas as manhãs. As criadas vestiam-nas nos seus vestidos e sapatos de banho e elas chapinhavam na água quente pelo sol e apanhavam conchas. Um dia estava a levá-las para casa quando nos encontramos com um jovem oficial do Standart que lhes perguntou o que tinham elas nas mãos. As meninas mostraram os pedacinhos de pedras verdes que tinham apanhado e perguntaram-lhe timidamente se ele queria ficar com elas. O jovem recolheu as pedras das mãos das meninas e quando o voltei a ver elas estavam decoradas com ouro e presas à corrente do seu relógio. O jovem disse que nunca se iria separar delas por nada deste mundo, visto que tinham sido as meninas a encontrá-las e a ter a gentileza de as oferecer. De facto, era muito divertido ver como as pessoas tratavam estas pequenas donzelas. Certo dia estávamos a entrar numa carruagem em Peterhof quando vimos um oficial a correr na nossa direcção só para dizer bom dia. As pequenas grã-duquesas, que eram muito amigáveis, começaram a falar com ele e uma delas tirou um brinquedo de madeira do bolso e perguntou-lhe se ele gostaria de ficar com ele. O oficial ficou muito agradecido e contou-me que estava a passar por um período difícil e que se chegasse a tempo de reverenciar as meninas, os seus problemas desapareceriam. “E como pode ver,” disse ele, “não só cheguei a tempo de as reverenciar como beijei as suas mãos e ainda recebi um pequeno brinquedo de uma delas. Vou guardar este brinquedo até morrer.” Quando o voltei a ver ele garantiu que o mau agouro tinha passado e que agora estava tudo bem.
Olga, Tatiana e Maria com Miss Eager na praia de Livadia
Havia um oficial alemão alto nos Guardas e ele costumava pedir sempre uma boneca à grã-duquesa Olga, uma pequena que ele pudesse levar no bolso e brincar com ela enquanto estivesse de serviço. A pobre Olga Nikolaevna não sabia se ele estava a brincar ou a falar a sério. Disse-lhe que uma boneca o ia deixar muito feliz e que devia ser uma muito pequena. Olga acabou por me trazer duas bonequinhas muito pequenas, vestidas com roupas masculinas, uma sem um pé e a outra sem um braço. Disse-lhe que era melhor oferecer bonecas que não estivessem partidas e ela respondeu: “Sim, mas estas são meninos e ele é um homem, acho que ele não ia gostar de uma boneca de menina.” Disse-lhe que lhe perguntasse quando o visse.
Olga Nikolaevna
Na manhã seguinte pus a boneca do bolso da grã-duquesa e durante o nosso passeio encontramo-nos com o capitão S., que começou imediatamente a dizer que se sentia muito sozinho e que talvez uma pequena boneca lhe pudesse fazer companhia. A Olga colocou a mão no bolso e retirou a boneca, escondendo-a atrás das costas. “Qual preferia? Uma boneca menina ou uma boneca menino?” O oficial respondeu de forma muito séria, “Uma bonequinha menina seria igual à menina e iria gostar muito disso, mas um menino seria uma boa companhia.” A Olga ficou muito contente e deu-lhe a boneca, dizendo: “Fico muito contente, estava com medo de que não gostasse da menina.” O oficial guardou a boneca com todo o cuidado.

Olga
Pouco depois o oficial foi de férias. Quando regressou, logo que viu a grã-duquesa, começou a pedir outra boneca. A Olga respondeu reprovadoramente: “Será possível que já tenha partido a boneca que lhe dei?” Com grande cuidado, ele respondeu que a boneca se estava a sentir sozinha sem mais ninguém e queria dar-lhe um companheiro, não importando se ele estivesse partido ou não. Então a grã-duquesa andou com outra boneca no bolso durante vários dias até o encontrar novamente e a entregar.


Margaret Eager foi a ama das crianças, quase desde do nascimento de Olga até pouco depois do nascimento de Aleksei. Inglesa de origem, foi ela a grande responsável pelo ensino desta língua às quatro grã-duquesas. Este relato aconteceu em 1901, pouco depois do nascimento de Anastásia, durante uma viagem à Crimeia durante a qual o czar Nicolau II viria a adoecer de Tifo e é retirada do livro de memórias da mesma: "Six Years at the Russian Court".