Java

Mostrar mensagens com a etiqueta dmitri pavlovich. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dmitri pavlovich. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

As paixões de Olga e Tatiana

Olga, Anastásia, Maria e Tatiana com dois soldados imperiais
O dia 23 de Fevereiro de 1913 foi um dia muito especial para a grã-duquesa Olga Nikolaevna de dezoito anos quando, acompanhada pelo pai, pela mãe e pela sua tia Olga, participou no seu primeiro grande baile público em São Petersburgo, na Assembleia dos Nobres. O czar e a czarina já não estavam presentes num baile desde 1903 e Alexandra estava determinada a participar pela sua filha apesar de ter passado grande parte do dia de cama. Havia planos para Tatiana, a irmã mais nova de Olga, também estar presente, mas estava doente e de cama no Palácio de Inverno. Dois dias depois do baile, os médicos viriam a confirmar que a segunda filha do czar sofria de febre tifóide.

Olga e Tatiana em 1913
Olga estava determinada a não deixar esses contratempos estragar-lhe a noite. Estava linda, "vestida com um vestido cor-de-rosa claro simples de chiffon". Tal como tinha acontecido no baile para comemorar o seu décimo-sexto aniversário em Livadia, Olga "dançou todas as danças e divertiu-se de forma simples e completa como qualquer jovem no seu primeiro baile". O relato de Olga foi bastante mais prosaico: "Dancei muito, foi muito divertido. Estavam lá muitas pessoas, foi muito bonito". A grã-duquesa divertiu-se a dançar a quadrilha e a mazurka com muitos dos seus oficiais preferidos e ficou muito contente com a presença do seu querido amigo Nikolay Sablin, um oficial do Shtandart. Meriel Buchanan, filha do embaixador inglês em São Petersburgo, ficou cativada com a grã-duquesa mais velha nessa noite, "vestida com uma simplicidade clássica" e o seu colar era um simples "colar de pérolas de uma única fila", mas, mesmo assim, era completamente impossível resistir ao seu "nariz perfeito". Olga "tinha charme, uma frescura e um encanto exuberante que a tornavam irresistível". Meriel Buchanan lembra-se de a ver "hirta, nos degraus que levavam da galeria até ao salão de baile, a tentar resolver alegremente uma disputa entre três grão-duques que protestavam todos pelo direito de ter a primeira dança". No entanto, a imagem mereceu alguma reflexão: "ao vê-la, pensei no que lhe reservaria o futuro e qual dos muitos pretendentes que eram mencionados ocasionalmente seria o escolhido para se casar com ela."

Olga em 1913
A questão do futuro casamento de Olga tinha, inevitavelmente, ganho importância durante o ano de comemorações do Tricentenário da dinastia Romanov. Até então, as irmãs imperiais tinham sido um assunto tabu para a imprensa russa, mas depois de serem apresentadas oficialmente em público pela primeira vez, houve maior liberdade em falar sobre elas. A discussão do papel de Olga como filha mais velha tinha surgido nos bastidores uma vez mais depois da crise de sucessão que pairou no ar no Inverno de 1912-13. Quando Alexei esteve às portas da morte em Spala, o irmão mais novo de Nicolau, o grão-duque Miguel, tinha fugido para Viena para se casar em segredo com a sua amante, Natalya Wulfert, uma plebeia divorciada. Sabendo que, se Alexei morresse, e ele se tornasse herdeiro da coroa, Nicolau nunca permitiria este casamento morganático, Miguel tinha esperado que, se se casasse sem o seu irmão saber, o seu acto seria aceite como um 'fait accompli', mas Nicolau ficou furioso. A sua resposta não deixou sombra para dúvidas: exigiu que Miguel renunciasse aos seus direitos de sucessão ou que se divorciasse imediatamente de Natalya para impedir um escândalo. Quando Miguel se recusou a fazê-lo, Nicolau congelou os bens do irmão e expulsou-o da Rússia. Em finais de 1912, foi publicado um manifesto nos jornais russos no qual Miguel era retirado do conselho de regência e os seus comandos e honras imperiais eram retirados. Segundo as leis de sucessão, era o filho mais velho do grão-duque Vladimir Alexandrovich, o grão-duque Kirill Vladimirovich, que se tornaria regente caso Nicolau morresse antes de Alexei cumprir vinte-e-um anos de idade. No entanto, tanto ele como os seus dois irmãos, que levavam todos vidas de moral questionável, eram muito pouco populares na Rússia. Por isso, em vez de seguir o procedimento normal, Nicolau contornou as leis existentes e ordenou ao conde Freedericksz que redigisse um manifesto no qual nomeava Olga como sua regente e Alexandra a sua guardiã enquanto Alexei não chegasse à maioridade. Foi publicado em inícios de 1913, sem passar pela Duma, como era obrigatório. O documento, como seria de esperar, enfureceu a grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior.

Olga e Alexei                  

Da sua posição privilegiada na Embaixada Britânica, Meriel Buchanan percebeu que a família imperial estava a passar por um período complicado naquele ano:

"O casamento do grão-duque Miguel causou grande agitação e dizem que o querido imperador está com o coração partido. Ninguém sabe ao certo o que se passa com o menino e,  se acontecer o pior, a questão da sucessão irá tornar-se séria.  O Kyrill, claro, é o que está mais próximo, mas muitos duvidam que o clã Vladimir terá permissão para suceder, uma vez que a mãe deles não era ortodoxa quando eles nasceram. Se assim for, o Dmitri será o próximo e teria de se casar com uma das filhas do imperador."
Os Vladimirovich: (da esq. para a dir.) o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, o grão-duque Boris, a grã-duquesa Helena, o grão-duque André, a grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior e o grão-duque Kyrill.

Corriam claramente rumores sobre uma união entre Olga e Dmitri. Meriel, que tinha um gosto especial por boatos, achava essa ideia um quanto divertida. Ela própria tinha passado bastante tempo com Dmitri na sociedade de São Petersburgo, na qual toda a gente andava a aprender as danças da moda mais recentes. "Tive uma lição muito exigente com o Dmitri um dia destes," escreveu ela a uma prima. "Seria muito 'chic' se um dia o Dmitri se tornasse imperador de todas as Rússias para eu poder dizer que ele me ensinou a dançar o Bunnyhug, não achas?". No entanto, todas as conversas sobre a possível união desapareceram pouco tempo depois quando Dmitri pediu outra prima sua em casamento, a princesa Irina Alexandrovna, a única filha da grã-duquesa Xenia Alexandrovna. No entanto, o seu pedido acabaria por ser rejeitado e Irina preferiu aceitar a proposta do melhor amigo dele, o príncipe Felix Yussupov. À medida que o ano foi avançando, Nicolau e Dmitri começaram a afastar-se gradualmente, mas o grão-duque manteve o seu posto de ajudante-de-campo do imperador.


Dmitri Pavlovich com a sua prima e apaixonada, a princesa Irina Alexandrovna

Quanto a Olga, os seus pensamentos românticos de adolescente estavam na altura firmemente direccionados para pessoas que ocupavam lugares muito mais inferiores na sociedade, mais especificamente para um oficial chamado Alexander Konstantinovich Shvedov, capitão da escolta do czar. No seu diário, a grã-duquesa referia-se a ele pelo acrónimo AKSH e a presença dele nos chás da sua tia Olga ao Domingo era a altura mais importante da sua parca vida social durante grande parte da primeira metade do ano. Estas ocasiões eram pouco mais do que pequenas reuniões divertidas com um grupo de oficiais favoritos escolhidos a dedo. O pequeno grupo dançava ao som do fonógrafo e jogava jogos infantis como o gato-e-o-rato, a sardinha, as escondidas e à apanhada. As quatro irmãs eram vigiadas muito levianamente pela sua tia, mas os jogos acabavam quase sempre em muitos risos e brincadeiras animadas que colocavam as quatro irmãs em contacto físico próximo com homens com quem, noutras circunstâncias, elas nunca teriam permissão de manter tal grau de intimidade.


Olga com um dos marinheiros do Standard
Era um tipo de brincadeira muito estranho e perverso, mas nem a mãe nem a tia delas via nenhum mal nele. Lá estavam as grã-duquesas imperiais da Rússia, prestes a entrar na idade adulta, a comportar-se como crianças, num tipo de comportamento que fez com que a grã-duquesa Olga se apaixonasse por um jovem que, em quaisquer outras circunstâncias, estaria fora dos seus limites. “Sentei-me com o AKSH o tempo todo e apaixonei-me profundamente por ele”, escreveu ela no seu diário a 10 de Fevereiro. “Deus tenha piedade de nós. Estive com ele o dia todo, na liturgia e à noite. Foi muito bom e divertido. Ele é tão querido.” Durante várias semanas depois desta confissão, o novo padrão da sua vida, além das suas lições, passeios com o papá, fazer companhia à mamã e ouvir o Alexei a rezar à hora de dormir, eram os dias em que, ocasionalmente, podia ir visitar a tia Olga em São Petersburgo para jogar jogos infantis e admirar AKSH, o seu belo cossaco de bigode no seu uniforme cherkeska.

Maria, Anastásia e Olga com alguns soldados numa das festas de Domingo organizadas pela sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna
Tatiana ficou triste por ter de perder grande parte das comemorações do Tricentenário em São Petersburgo, já para não falar das visitas à tia Olga, nas quais ela tinha também os seus oficiais favoritos. Devido à sua doença (que, pouco tempo depois, também transmitiu ao Dr. Botkin e a Trina Schneider), a família foi obrigada a deixar o Palácio de Inverno a 26 de Fevereiro e regressar a Czarskoe Selo; mas antes de o fazer, Tatiana pediu à sua enfermeira, Shura Tegleva para telefonar a Nikolay Rodionov para lhe dizer que ia adorar se alguns dos oficiais passassem pela sua janela no Palácio de Inverno, para que ela os pudesse ver. Rodionov e Nikolay Vasilevich Sablin tiveram todo o prazer em fazê-lo e recordou o resto da vida o momento em que passou pela janela da pobre jovem doente que lhes fez uma vénia com a cabeça.

Tatiana em 1913, já sem cabelo devido à doença que sofreu nesse ano
Quando regressou ao Palácio de Alexandre, Tatiana ficou imediatamente em quarentena das irmãs e esteve muito doente durante mais de um mês. A 5 de Março, o seu lindo cabelo castanho teve de ser cortado e Tatiana teve de usar uma peruca até Dezembro, altura em que o cabelo voltou ao tamanho original. Presa em casa com a sua mãe, uma a tomar conta da outra, só em Abril é que Tatiana se aventurou a sair para a varanda de Alexandra, mas ainda estava a nevar e demasiado frio para sair de casa durante muito tempo. Quando finalmente o tempo melhorou o suficiente para ela poder sair, sentia-se envergonhada por causa da peruca. Um dia, quando estava a jogar um jogo de saltos no parque com Maria Rasputina e alguns jovens oficiais da academia militar Corps de Pages, o cão de Alexei foi atrás dela a ladrar; Tatiana ficou com o pé preso numa corda, caiu e, de repente, a sua peruca estava no chão", recordou Maria. A pobre Tatiana "revelou-nos a nós e aos oficiais envergonhados a parte de cima da cabeça dela, onde algum cabelo começava a nascer". Ficou completamente envergonhada e "tão depressa como caiu, pôs-se de pé, pegou na peruca e correu para trás de umas árvores. Apenas a vimos corar e zangada e ela não voltou a aparecer naquele dia."


Nicolau a ler para Tatiana durante a sua doença em 1913
Durante o inverno de 1913 no Palácio de Alexandre, o diário de Nicolau mostra como ele era um pai dedicado e activo na vida das suas filhas, ocupando um lugar que a sua esposa, que estava sempre doente, não tinha forças para assumir. Independentemente da quantidade de documentos que tivesse em cima da secretária, do número de reuniões com os seus ministros, audiências públicas e revistas militares que ocupavam os seus dias, nesta altura do ano, quando a família se encontrava em Czarskoe Selo, o czar arranjava sempre tempo para estar com os filhos. A História pode condená-lo por ter sido um czar fraco e reaccionário, mas era também, sem sombra de dúvidas, o pai mais exemplar da realeza. Os meses de Janeiro e Fevereiro eram especiais para ele e para as suas filhas, uma vez que era nessa altura que eles passeavam mais juntos e iam ao ballet. Sendo a filha mais velha, Olga (e, quando não estava doente, Tatiana) teve o privilégio de assistir a óperas como Madame Butterfly, Cidade Invisível de Kitezh e Lohengrin de Wagner, um espectáculo que Olga achou particularmente belo e comovente. 



Apesar de tudo, grande parte do tempo que tinham com o pai era passado no parque do Palácio de Alexandre, independentemente do tempo, em caminhadas, a andar de bicicleta, a ajudá-lo a partir o gelo que se formava nos canais, a fazer ski, a deslizar por montes de neve e a brincar com Alexei que, quando estava bem, juntava-se a eles com as suas botas especiais de biqueira de aço. As irmãs adoravam quando tinham o pai só para si; ele caminhava depressa sem nunca se cansar e todas as suas filhas aprenderam a acompanhar o seu ritmo, principalmente Olga e Tatiana que caminhava sempre ao lado dele, uma de cada lado. Maria e Anastásia corriam de um lado para o outro à volta deles, a deslizar no gelo ou a atirar bolas de neve uma à outra. Qualquer pessoa que se cruzasse com o czar e as suas filhas do parque via perfeitamente que ele tinha muito orgulho nas suas meninas. "Ficava contente quando as pessoas as admiravam. Era como se os seus gentis olhos azuis dissessem: 'Vejam só as filhas maravilhosas que eu tenho.'"

Nicolau II com as suas filhas em 1914
Texto retirado do livro "Four Sisters: The Lost Lives of the Romanov Grand Duchesses" de Helen Rappaport

terça-feira, 10 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Segunda Parte


O irmão de Anastásia Mikhailovna, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, com a grã-duquesa Xenia Alexandrovna. Este foi o primeiro casamento entre membros da família Romanov e apenas pôde ser celebrado porque os dois eram primos em segundo grau. Alexandre e Xenia conheceram-se porque faziam parte do mesmo grupo de primos e amigos que cresceu junto na década de 1880. Os dois começaram por ser amigos, apesar de ele ser mais velho nove anos do que a sua futura noiva e os seus sentimentos começaram a desenvolver-se quando Xenia estava a meio dos seus anos de adolescente. Alexandre III e Maria Feodorovna não estavam muito convencidos desta união, em parte porque Xenia era ainda muito nova e em parte porque não sabiam se podiam confiar no carácter de Alexandre. Mas a persistência acabaria por ser compensada e, em 1894, após a intervenção do grão-duque Miguel Nikolaevich, pai de Alexandre, o noivado foi anunciado. Mas mesmo assim houve percalços. A czarina não gostava da arrogância e falta de educação de Alexandre ao mesmo tempo que este se queixava que teria de esperar demasiado tempo entre o noivado e o casamento. A cerimónia celebrou-se em Peterhof a 6 de Agosto de 1894.


Alexandre e Xenia com a sua primeira filha, a princesa Irina Alexandrovna, por volta de 1896. Apesar de terem tido mais seis filhos, todos rapazes, a atracção romântica entre o casal não durou muito. O grão-duque não estava satisfeito com o rumo dos acontecimentos na Rússia e começou a ficar cada vez mais frustrado com a vida na corte. Ao fim de cerca de doze anos de casamento, tanto ele como Xenia começaram a passar longos períodos de tempo fora da Rússia. Ambos tiveram amantes com o total conhecimento do outro. No caso de Alexandre tratou-se de uma mulher identificada apenas como "Maria Ivanovna"; no caso de Xenia foi um inglês chamado Fane que ainda trocava correspondência com ela durante a Primeira Guerra Mundial. Apesar de tudo, Xenis e Alexandre continuaram casados em nome e estão enterrados ao lado um do outro.


A grã-duquesa Helena Vladimirovna com o seu noivo, o príncipe Max de Baden. O príncipe Max era neto da grã-duquesa Maria Nikolaevna da Rússia, duquesa de Leuchtenberg. Era um jovem atraente e rico e, por isso, não faltavam mães da realeza desejosas por ver as suas filhas casadas com ele. Em 1898, parecia que a grã-duquesa Maria Vladimirovna tinha ganho o grande prémio quando Max ficou noivo da sua filha Helena. Foram publicados os anúncios e tiradas as fotografias, mas o príncipe mudou de ideias. Os Vladimirovich ficaram furiosos e começaram a espalhar-se rumores de que Maria Vladimirovna estava a ficar desesperada para casar a sua filha. Em 1900, o nome de Helena foi sugerido para uma possível união com o rei da Bulgária, que tinha ficado viúvo pouco tempo antes. Nesse mesmo ano, o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca, terceiro filho da rainha Olga da Grécia, pediu Helena em casamento, mas Maria Pavlovna repreendeu a filha por encorajar um homem sem perspectivas nem fortuna. Estava mais virada para o príncipe Alberto, futuro rei da Bélgica, mas ele recusou todos os seus convites para visitar a Rússia e acabaria por anunciar o seu noivado com a princesa Isabel da Baviera pouco tempo depois.

Helena Vladimirovna e Nicolau da Grécia e Dinamarca
Em Junho de 1902, Maria Pavlovna admitiu a derrota e deu permissão à filha para aceita o pedido de casamento do príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca. A tia dele, a czarina Maria Feodorovna, tinha as suas dúvidas: "A forma como foram criados e como vêm a coisas são tão diferentes e divergentes. Será necessária muita paciência de ambos os lados. É verdade que ela tem um tom brusco e arrogante que pode chocar as pessoas". Mas a rainha Olga, que estava afastada da velha rivalidade que sempre tinha colocado as duas Marias em campos opostos, tinha mais esperança na união e acabaria por ter razão. A ideia de superioridade que a mãe de Helena lhe tinha transmitido causou sempre problemas na família, mas eles dois, Helena e Nicolau foram sempre felizes e tiveram um longo casamento do qual resultaram três filhas.


A grã-duquesa Olga Alexandrovna com o seu marido, o duque Pedro de Oldemburgo, pouco depois do seu noivado na primavera de 1901. Quando era já idosa e estava a viver no Canadá, Olga recordou o seu primeiro casamento como uma fachada vazia. Sentia que tinha sido enganada ao aceitar a proposta de Pedro e o seu biografo, Ian Vorres, concluiu que a mãe dela teria arranjado a união para manter a sua filha por perto. No entanto, não foi esse o caso. Os documentos da época mostram que Maria Feodorovna ficou admirada e divertida com o facto de Olga ter aceite a proposta. Era um par improvável: Pedro tinha trinta-e-dois anos, enquanto Olga tinha apenas dezoito. O duque era tão adoentado e cansado como Olga era robusta e energética. Mas ela aceitou o pedido e, durante os primeiros anos de casamento, pelo menos ele estava muito apaixonado: "Minha queria e doce Olga (...) sinto muito a tua falta e a nossa casa parece morta sem ti. Fui até ao teu quarto e fiquei a pensar nos tempos que passamos aqui juntos e vieram-me as lágrimas aos olhos." Fazes-me feliz  porque sei que és feliz. Abraço-te com amor". O homem frio e desinteressado descrito nos relatos mais conhecidos não teria encontrado palavras para exprimir estes sentimentos. Talvez o problema fosse o facto de haver poucos sentimentos. Por razões ainda não completamente apuradas, o casamento desfez-se e Olga, ao recordá-lo da perspectiva de um segundo casamento feliz, apenas o conseguia recordar como uma falha.


Outro noivado recordado de uma perspectiva retorcida foi o da grã-duquesa Maria Pavlovna Júnior com o príncipe Guilherme da Suécia, arranjado pela tia de Maria, a grã-duquesa Isabel Feodorovna em 1907. Mais tarde, Maria culpou Isabel pela sua "pressa em casar-me e a total ausência de consideração pelo lado sentimental de tal pacto", embora admitisse ao mesmo tempo que gostou da atenção que recebeu na altura. "Ela era cheia de vida e muito alegre", recordou outra tia, a grã-duquesa Maria Georgievna, "mas tinha uma inclinação obstinada e egoísta que faziam com que fosse bastante difícil lidar com ela". Maria Pavlovna não falou nas memórias do desejo que tinha de fugir da disciplina da infância: "Depois vamos poder viajar juntos", escreveu Maria a Guilherme durante o seu noivado, "e viver como queremos. Estou ansiosa como começar uma vida maravilhosa - uma vida cheia de amor e felicidade, como disseste nas tuas últimas cartas."


Cinco gerações, com Maria Pavlovna, atrás, a segurar uma fotografia da sua falecida mãe, a grã-duquesa Alexandra Georgievna. A sua avó, a rainha Olga da Grécia, surge na direita, a sua bisavó, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna, está à direita e o bebé é o filho de Maria, o príncipe Lennart da Suécia, nascido em Estocolmo a 8 de Maio de 1909. Maria acabaria por não encontrar a felicidade que esperava na Suécia. Sendo um oficial da marinha no activo, Guilherme passava muito tempo fora e a vida na corte tinha tantas limitações como aquela que tinha deixado na Rússia. Maria sentia-se frustrada e sozinha. Ficou tão doente que, em 1913, a sua família tomou a iniciativa de a levar de volta para a Rússia e dar início às negociações para o divórcio. Maria abandonou o filho que seria criado na Suécia pelo pai.


Em Maio de 1911, a princesa Tatiana Constantinovna ficou noiva do príncipe Constantino Bagration-Mukhransky. Esta união foi um sinal de que os tempos estavam a mudar. Com tantos membros da família a chegar à idade de casar, havia poucas hipóteses de encontrar parceiros do mesmo estatuto social. Além do mais, a maioria dos jovens Romanov queria ficar na Rússia. Por isso, Nicolau II deu o seu consentimento para o casamento de Tatiana e, em Agosto de 1911, formalizou uma nova lei que limitava a regra do mesmo estatuto social aos grão-duques e grã-duquesas que fossem filhos e netos de czares pela linha masculina. Os membros mais antigos da família olharam para esta nova lei com desconfiança. "Sabias que a filha do tio Kostia [Constantino Constantinovich] está noiva de um príncipe Bagration do Cáucaso?" escreveu a grã-duquesa Maria Alexandrovna à sua filha. "É o primeiro casamento morganático de uma mulher na nossa família. Ela estava ansiosa e a sofrer por causa deste amor morganático e agora foi sancionado. É um precedente perigoso para a nossa família e o início de uma nova era social." O casamento, que na verdade não era morganático, celebrou-se a 6 de Setembro  em Pavlovsk.


A princesa Irina Alexandrovna, única filha do grão-duque Alexandre Mikhailovich e da grã-duquesa Xenia Alexandrovna, e o príncipe Félix Yussupov. Irina foi o segundo membro da família imperial a beneficiar da alteração da lei do casamento. O príncipe Félix Yussupov, conde Sumarakov-Elston, era o único filho ainda vivo de um dos casais mais ricos da Rússia - dizia-se que eram até mais ricos que o czar - mas não era um príncipe real. Irina aceitou a sua proposta de casamento em inícios de 1913 e os seus pais deram o seu consentimento em principio, mas não se fez qualquer anúncio.  A família tinha muitas dúvidas acerca desta união, uma vez que Félix tinha má reputação. O anúncio foi adiado o mais possível para que houvesse tempo de avaliar atempadamente o carácter do noivo.


Nessa primavera, surgiu um segundo candidato à mão de Irina. O grão-duque Dmitri Pavlovich (acima) disse a Félix que estava apaixonado por Irina e pretendia pedi-la em casamento. Passou a aproveitar todos os momentos que tinha para estar com ela encorajado, pelo menos assim acreditava a mãe de Félix, a princesa Zinaida Yusupova, pela avó de Irina, a czarina Maria Feodorovna. Numa carta ao filho datada de 10 de Junho de 1913, a princesa Zinaida disse-lhe: "Meu querido menino (...) a mãe dela não nega que a avó é a favor do Dmitri, mas diz que, por ela, não teria nada contra ti se for isso que a Irina quiser". E foi isso mesmo que aconteceu. A decisão de Irina já estava tomada e, em Setembro, o noivado foi anunciado. Os dois casaram-se no Palácio de Anichkov, casa da avó de Irina.

Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Príncipe Filipe e os Romanov


A propósito das celebrações do Jubileu de Diamante da rainha Isabel II do Reino, o blog "Os Romanov" resolveu fazer uma pequena pesquisa em nome próprio sobre as relações familiares do seu consorte, o príncipe Filipe, mais especificamente o seu parentesco com a família imperial russa, os Romanov, que são mais próximas do que a maioria dos leitores terá alguma vez pensado.

De facto, estas relações são tão próximas que, aquando da descoberta dos corpos dos Romanov no início dos anos 90, o príncipe Filipe foi uma das pessoas que forneceu amostras de sangue para determinar o perfil de ADN dos mesmos. Mas vamos começar pelo principio.

O Lado do Pai

Príncipe André da Grécia e Dinamarca
Filipe é o filho mais novo do príncipe André da Grécia e Dinamarca e da princesa Alice de Battenberg. O seu pai, que durante alguns anos foi um militar muito respeitado na Grécia antes de ser injustamente acusado de crimes de guerra por ocasião da guerra greco-turca de 1919-1920, era filho do rei Jorge I da Grécia e da grã-duquesa Olga Constantinovna da Rússia, o que faz com que, logo aqui, encontremos uma ligação muito directa com os Romanov.

No entanto, Filipe parece ter tido pouco contacto com a sua avó paterna Olga uma vez que, quando tinha apenas alguns meses de idade, em Dezembro de 1922, a sua família foi forçada a fugir da Grécia depois de o seu pai ter escapado por pouco a uma sentença de morte e a monarquia ser abolida. Enquanto Filipe acompanhou os pais e as quatro irmãs para o exílio em Paris, a sua avó Olga foi para Itália e morreu em 1926, uma semana depois de Filipe completar cinco anos de idade.

A grã-duquesa Olga Constantinovna, avó paterna de Filipe

Além da sua avó Olga, Filipe tinha também uma relação de parentesco muito próxima com os Romanov no seu lado grego da família. A irmã mais velha do seu pai, a princesa Alexandra da Grécia e Dinamarca, tinha-se casado em Abril de 1889 com o grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia. Antes de morrer tragicamente depois de um parto prematuro, a tia paterna de Filipe teve dois filhos: a grã-duquesa Maria Pavlovna e o grão-duque Dmitri Pavlovich da Rússia. Isto faz então com que Filipe seja primo direito do assassino de Rasputine.

Devido a vários factores como a diferença de idades, o facto de a mãe deles ter morrido cedo e a distância que os separava, também não foram encontrados registos de que Filipe tivesse tido alguma relação próxima com estes dois primos, embora seja provável que os tenha conhecido, uma vez que tanto Maria como Dmitri passaram algum tempo exilados em Paris na mesma altura em que a família de Filipe se encontrava lá. Apesar de tudo, Filipe seria demasiado novo para se lembrar de tais encontros.

O grão-duque Dmitri Pavlovich e a grã-duquesa Maria Pavlovna eram primos direitos do príncipe Filipe

Outro dos irmãos do seu pai, o príncipe Nicolau da Grécia e da Dinamarca que, ele próprio, era muito chegado à família Romanov, como provam várias fotos da época, casou-se com a grã-duquesa Helena Vladimirovna da Rússia, filha do grão-duque Vladimir Alexandrovich e da grã-duquesa Maria Pavlovna Sénior. Neste caso, como a mãe de Filipe se tornou uma grande amiga de Helena quando ambas viviam na Grécia, existem registos de que ambos se encontraram várias vezes, principalmente depois de a monarquia ser restaurada na Grécia, altura em que o futuro consorte começou a passar sempre uma parte dos seus verões no país. Henry Channon, um socialite americano, recordou mesmo uma conversa que teve com Helena sobre o seu possível casamento com a princesa Isabel.

Nicolau da Grécia, tio paterno de Filipe, com o czar Nicolau II, o rei Jorge I da Grécia e a grã-duquesa Olga Alexandrovna
Filipe teve ainda a oportunidade de conviver de perto com um dos seus tios paternos que teve também um papel importante na história dos Romanov. O seu tio Jorge da Grécia e Dinamarca, conhecido por ter salvo Nicolau II do ataque de um japonês durante a Grande Digressão que ambos fizeram para completar os seus estudos, e a sua esposa Maria Bonaparte acolheram Filipe na sua casa em Paris depois de a sua mãe ser internada numa instituição de saúde mental e o seu pai ter partido para Monte Carlo. Foi mesmo Maria, que tinha estudado psicanálise com Freud, que recomendou os especialistas que diagnosticaram a mãe de Filipe com esquizofrenia. O casal também pagou os primeiros anos de escola de Filipe.

Maria Bonaparte e Jorge da Grécia e Dinamarca, tios paternos de Filipe

O Lado da Mãe

Alice de Battenberg, mãe do príncipe Filipe
Pelo lado da mãe, as ligações de Filipe aos Romanov são ainda mais evidentes e directas. Alice, que tinha recebido o nome em honra da sua avó materna, a princesa Alice do Reino Unido, era a filha mais velha da princesa Vitória de Hesse-Darmstadt e do seu marido, Luís de Battenberg. Vitória era irmã mais velha da grã-duquesa Isabel Feodorovna e da czarina Alexandra Feodorovna.

A relação de Filipe com a sua avó era muito forte, principalmente depois de a sua mãe ser internada quando o príncipe tinha pouco mais de seis anos de idade. Foi Vitória quem organizou a educação de Filipe e era ela quem decidia onde o neto iria passar as suas férias escolares. Era a principal responsável por Filipe e aquela que conseguiu manter alguma estabilidade na sua infância turbulenta. O duque de Edimburgo já falou muitas vezes da sua avó materna em várias entrevistas, sempre de forma carinhosa. "Admiro-a imensamente. Gostava muito dela. Era muito inteligente e culta. Tinha conversas fascinantes, sabia tudo, pelo menos do meu ponto de vista", disse, numa entrevista em 2011.

Vitória (esq.) avó materna de Filipe, com as irmãs Isabel Feodorovna e Alexandra Feodorovna

Embora Filipe não tenha tido muito contacto com as suas tias-avós russas, uma vez que nasceu três anos depois de elas morrerem, as suas irmãs mais velhas encontraram-se com a família Romanov pelo menos duas vezes, tendo em conta fotografias que existem da época. Os filhos do czar Nicolau II e da czarina Alexandra eram seus primos em segundo-grau.

Margarida e Teodora, irmãs mais velhas de Filipe, com as grã-duquesas Maria e Anastásia
Apesar de nunca ter conhecido Alexandra nem Isabel, Filipe passou muitas vezes férias com outra figura importante ligada à família Romanov: o grão-duque Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt. De facto, outra das suas irmãs, a princesa Cecília, casou-se com o filho mais velho dele, o príncipe Jorge Donatus. Foi Cecília que deixou o testemunho de umas férias que Filipe passou em Darmstadt com Ernesto Luís, a sua esposa Leonor e o resto da família:

"Foi muito bom (...) O tio Ernie e a tia Onor deram-lhe [a Filipe] uma bicicleta nova nos anos e agora ele anda em cima dela o dia todo. À noite, desde que vai tomar banho até ir para a cama toca a grafonola que lhe deste. Este ano recebeu presentes muito bons. A Dolla [Teodora] e a Tiny [Sofia] deram-lhe canivetes e o Don [Jorge Donatus] deu-lhe uma grande bola colorida para ele brincar na piscina. Eu dei-lhe uma toalha para ele se deitar no jardim. Tem-se portado muito bem e faz tudo o que a tia Onor manda."

Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt e Leonor de Solms, tios-avós  de Filipe, com o filho  Jorge Donatus, seu futuro cunhado
Quando foi para a escola em Inglaterra, Filipe começou a passar as suas férias de verão com um dos seus tios maternos, o marquês Jorge Mountbatten de Milford-Haven. Aqui encontramos mais uma ligação um pouco mais indirecta com os Romanov, uma vez que Jorge era casado com Nádia Mikhailovna de Torby, filha do grão-duque Miguel Mikhailovich da Rússia, um cunhado da grã-duquesa Xenia Alexandrovna. Por causa destas estadias, Filipe estabeleceu fortes amizades tanto com os filhos de Nádia como com os da sua irmã, Anastásia Mikhailovna de Torby. Jorge, que era também sobrinho de Isabel e Alexandra Feodorovna, também visitou os seus primos russos pelo menos uma vez.

Jorge Mountbatten, tio materno de Filipe, com as grã-duquesas Olga e Maria
Não foi possível encontrar testemunhos de Filipe em relação às suas relações familiares com os Romanov, no entanto, com o seu humor característico, Filipe respondeu da seguinte forma quando um jornalista lhe perguntou se gostaria de visitar a Rússia:

"Gostava muito de lá ir, embora essas bestas tenham assassinado metade da minha família"


Fontes

  • Eade Philip, "Young Prince Philip", Harper Press, 2011
  • BBC, "Prince Philip at 90", 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Último Inverno em Czarskoe Selo - Robert K. Massie (Parte 3)


A morte de Rasputine foi um acto monárquico. Foi planeada por um grão-duque, um príncipe e um deputado de direita com o objectivo de purificar o trono e recuperar o prestígio da dinastia. Foi também uma forma de eliminar a própria imperatriz dos assuntos do governo, já que os conspiradores acreditavam que era Rasputine o poder que a incitava. O czar, pensavam eles, ficaria então livre para escolher ministros e seguir uma política que salvasse a monarquia e a Rússia. Era esta a esperança de muitos membros da família imperial, que na sua maioria, não gostou da forma como o monge foi assassinado, mas ficou aliviada por o ver morto.

Rasputine
O facto de o czar ter castigado o grão-duque Dmitri e o príncipe Félix Yussupov, ainda que de forma bastante branda, foi uma desilusão. A família assinou uma carta em conjunto dirigida a Nicolau onde pediam para que Dmitri fosse perdoado e a formação de um governo responsável. Nicolau, que estava já ofendido com o facto de membros da sua família estarem envolvidos no assassinato, ficou ainda mais indignado com a carta: “Não me permito que ninguém me dê conselhos”, respondeu ele furioso. “Um assassinato é sempre um assassinato. De qualquer forma sei que a consciência de muitos que assinaram esta carta não está leve.” Alguns dias depois, quando soube que um dos grão-duques que tinha assinado a carta, o liberal Nicolau Mikhailovich, andava por todos os clubes sociais que frequentava em Petrogrado a criticar abertamente o governo, o czar ordenou-lhe que deixasse a capital e se refugiasse numa das suas propriedades no campo.

Dmitri Pavlovich, um dos assassinos de Rasputine
Longe de apaziguar a separação que havia entre a família Romanov, o assassinato serviu apenas para a aumentar ainda mais. A imperatriz-viúva estava profundamente alarmada: “Uma pessoa devia (…) perdoar”, escreveu Maria Feodorovna a partir de Kiev. “Tenho a certeza que sabes o quanto a tua resposta brusca ofendeu a família, atirando-lhes para cima uma acusação horrível e completamente injustificada. Espero que alivies o fardo do pobre Dmitri e não o deixes na Pérsia (…) O pobre tio Paulo [pai de Dmitri] escreveu-me em desespero por nem sequer ter tido a oportunidade de se despedir (…) Este comportamento nem parece teu (…) preocupa-me muito.”

Maria Feodorovna
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, cunhado e primo do czar, deixou apressadamente a sua casa em Kiev para se dirigir a Czarskoe Selo com o objectivo de pedir a Nicolau que retirasse a imperatriz do governo e que deixasse a Duma governar de forma eficiente. Este era o “Sandro” da juventude de Nicolau, o seu alegre companheiro nos jantares com Kschessinska, o marido da sua irmã Xenia e sogro do príncipe Félix Yussupov. Alexandro encontrou a imperatriz deitada na cama, vestida com uma camisa-de-noite branca bordada a renda. Apesar de o czar estar presente, sentado numa cadeira ao lado da cama de casal, a fumar calmamente, o grão-duque foi directo ao assunto: “A forma como interferes nos assuntos de estado está a prejudicar (…) o prestígio do Nicky. Tenho sido sempre um amigo fiel, Alix, há vinte-e-quatro anos (…) e como teu amigo tenho de te dizer que todas as classes da nossa população se opõem às tuas políticas. Tens uma bela família, com filhos, porque é que não podes deixar os assuntos de estado para o teu marido, Alix? Por favor!”

Quando a imperatriz respondeu, dizendo que era impossível um autocrata partilhar os seus poderes com um parlamento, o grão-duque disse: “Estás muito enganada, Alix. O teu marido deixou de ser um autocrata no dia 17 de Outubro de 1905.”

Alexandre Mikhailovich
O encontro acabou mal, com o grão-duque Alexandre a gritar enfurecido: “Lembra-te que eu fiquei calado trinta meses, Alix! Durante trinta meses nunca disse (…) uma palavra sobre os assuntos vergonhosos do nosso governo, ou melhor, do teu governo. Estou a ver que estás disposta a perecer e que o teu marido concorda contigo, mas então e nós? (…) Não tens o direito de arrastar os teus parentes contigo para o precipício!” Nesta altura, Nicolau interrompeu-o calmamente e levou o primo para fora do quarto. Mais tarde, já em Kiev, Alexandre escreveu: “Uma pessoa não pode governar um país sem ouvir a voz do povo (…) Por mais estranho que possa parecer, é o governo que está a preparar a revolução (…) o governo está a fazer os possíveis para aumentar o número de descontentes e está a conseguir fazê-lo de forma admirável. Estamos a assistir a um espectáculo sem precedentes no qual a revolução parte de cima e não debaixo.”

Alexandre Mikhailovich
Um ramo da família imperial, os Vladimirovich, não se contentavam com cartas, e falavam abertamente de uma revolução no palácio que iria substituir os seus primos à força. A grã-duquesa Maria Pavlovna e os grão-duques Kyril, Boris e André – a viúva e os filhos do tio mais velho do czar, o grão-duque Vladimir - tinham ressentimentos muito enraizados no passado. O próprio Vladimir, um homem duro e ambicioso, sempre teve inveja do seu irmão mais velho, Alexandre III, e digeriu muito mal a ascensão ao trono do seu brando sobrinho. Um anglófobo convicto, Vladimir ficou furioso quando Nicolau escolheu uma consorte que, apesar de ter nascido em Darmstadt, era neta da rainha Vitória. Maria Pavlovna, que também era alemã, era a terceira grande senhora do Império Russo, aparecendo logo depois das duas imperatrizes. Socialmente, Maria era tudo o que Alexandra não era. Energética, ponderada, inteligente, instruída, dedicada aos boatos e intrigas e abertamente ambiciosa pelo futuro dos seus três filhos, transformou o seu grandioso palácio no Neva numa corte brilhante, que ofuscava facilmente a de Czarskoe Selo. Nas conversas animadas que dominavam os seus jantares e festas, criticas e escorno ao casal imperial eram temas frequentes. A grã-duquesa nunca se esquecia que depois do czarevich, que estava doente, e do irmão do czar, que estava casado com uma plebeia, o próximo na linha de sucessão era o seu filho Kyril.

Helena Vladimirovna, André Vladimirovich, Boris Vladimirovich, Kiril Vladimirovich e Vitória Melita
Além do mais, cada um dos seus filhos tinha as suas razões para manterem relações complicadas com o czar e a imperatriz. Kyril estava casado com a ex-mulher do irmão de Alexandra, o grão-duque Ernesto de Hesse. André tinha como amante a bailarina Mathilde Kschessinska, que tinha tido uma relação com Nicolau antes de ele se casar. Boris, o filho do meio de Vladimir, tinha pedido Olga, a filha mais velha do czar, em casamento. A imperatriz, numa carta ao marido, expressou alguma da repulsa que sentia por Boris: “A sua esposa seria arrastada para um cenário horrível (…) intrigas sem fim, maneiras e conversas levianas (…) um homem meio-gasto, blasé (…) de trinta e oito anos para uma menina pura e jovem dezoito anos mais nova do que ele, a viver numa casa na qual tantas mulheres já “partilharam” a sua vida! Uma menina inexperiente iria sofrer muito com um marido em quarta ou quinta mão ou mais!” Como a proposta de casamento tinha sido feita não só em nome de Boris, mas também em nome da sua mãe, Alexandra passou a ter grande ressentimento por Maria Pavlovna.

Boris Vladimirovich
Rodzianko sentiu o gosto desta amargura e da conspiração crescente quando, em Janeiro de 1917, foi convidado com urgência a almoçar no Palácio de Vladimir. Depois do almoço, escreveu ele, a grã-duquesa “começou a falar do estado do país no geral, da incompetência do governo, de Protopopov e da imperatriz. Fez referência ao nome desta última e começou a ficar cada vez mais entusiasmada, falando da sua influência nefasta e na interferência que tinha em tudo e disse que estava a destruir o país, que era a causa do perigo que ameaçava o imperador e o resto da família imperial, que estas condições já não eram toleráveis, que algo tinha de mudar, algo tinha de ser feito, retirado, destruído…”

Desejando compreender melhor o que ela queria dizer, Rodzianko perguntou: “O que quer dizer com ‘removido’?”

“A Duma tem de fazer alguma coisa. Ela tem de ser aniquilada.”

“Quem?”

“A imperatriz.”

“Vossa Alteza”, disse Rodzianko, “permita-me que finja que esta conversa nunca aconteceu, porque se a senhora se está a dirigir a mim na qualidade de presidente da Duma, o meu juramento de lealdade obriga-me a que vá falar imediatamente com Sua Mjestade Imperial para o informar de que a grã-duquesa Maria Pavlovna me acabou de dizer que a imperatriz deve ser aniquilada.”

Maria Pavlovna
Durante várias semanas, o golpe dos grão-duques foi o assunto mais falado em Petrogrado. Toda a gente sabia os seus detalhes: quatro regimentos da guarda imperial iriam entrar em Czarskoe Selo de noite e capturar a família imperial. A imperatriz seria presa num convento – o método russo clássico para se livrar de imperatrizes indesejadas – e o czar seria forçado a abdicar a favor do seu filho, tendo o grão-duque Nicolau como regente. Ninguém, nem sequer a polícia secreta que tinha reunido todos os pormenores, levou os grão-duques a sério. “Ontem à noite”, escreveu Paléologue a 9 de Janeiro, “o príncipe Gabriel Constantinovich organizou um jantar em honra da sua amante que já foi actriz. Entre os convidados encontravam-se o grão-duque Boris (…), alguns oficiais e um esquadrão de cortesãos elegantes. Durante a refeição só se falou da conspiração – dos regimentos da guarda imperial nos quais se pode confiar, no momento mais favorável para a revolta, etc. E tudo isto aconteceu enquanto os criados de movimentavam de um lado para o outro, prostitutas a olhar e a ouvir, ciganos a cantar e todos os convidados a beber Moet e Chandon brut imperial que era servido com abundância.”

Nicolau e Alexei nas celebrações do centenário da Dinastia Romanov

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Reacção do Grão-duque Paulo Alexandrovich à morte de Rasputine


O Grão-duque Paulo Alexandrovich, era o filho mais novo do czar Alexandre II e, por isso, tio de Nicolau II, o único que ainda vivia durante a Primeira Guerra Mundial. Depois de ficar viúvo da Princesa Alexandra da Grécia e da Dinamarca, de quem teve 2 filhos, conheceu uma plebéia divorciada que, mais tarde, se tornaria na Princesa Olga Paley. Os dois fugiram da Rússia pouco depois do nascimento do seu primeiro filho em comum e casaram-se em segredo, na Itália, em 1902, o que fez com que Paulo perdesse os seus títulos e postos militares. Com Olga teve 3 filhos. Acabaria por receber perdão imperial em 1912, regressando ao seu país natal, onde passou a viver permanentemente na Primavera de 1914. Dmitri Pavlovich, filho do seu primeiro casamento, foi um dos acusados do assassinato de Rasputine.

Este relato foi escrito por Maurice Paléologue, embaixador francês na Rússia.


Terça-feira, 23 de Janeiro de 1917

Jantei em Czarskoe Selo com a família do Grão-duque Paulo Alexandrovich.

Quando nos levantamos da mesa, o Grão-duque levou-me para uma sala distante para que pudessemos ter uma conversa de homem para homem. Confiou-me todas as suas dores e ansiedades.

“O Imperador está mais na mão da Imperatriz do que nunca. Ela conseguiu convencê-lo de que os movimentos hostis que têm surgido contra ela – e que estão a começar a virar-se contra ele, infelizmente – não são nada mais do que uma conspiração dos Grão-duques e uma revolta de salas-de-estar. Isto só pode acabar em tragédia. Sabe qual é a minha crença na monarquia, e para mim o Imperador representa tudo o que é sagrado. Deve-se ter apercebido que sofro com tudo o que está a acontecer e pelo que está para vir.”

Pela sua emoção e pelo tom das suas palavras pude ver que ele está muito preocupado com o seu filho Dmitri que se tinha envolvido no drama. Proceguiu, impulsivamente:

“Não é terrível que, por toda a Rússia, estejam a acender velas junto ao ícone de São Dmitri e o meu filho esteja a ser chamado do libertino da Rússia?”

A noção de que o filho dele poderia ser proclamado czar a qualquer altura não parece ter-lhe subido à cabeça. Ele é o que sempre foi, o paradigma da liberdade e da boa-educação.

Depois contou-me que quando ouviu em Mohilev sobre o assassinato de Rasputine, regressou imediatamente a Czarskoe Selo.

Quando chegou à estação ao final do dia 31 de Dezembro, tinha a Princesa Paley à espera dele na estação e foi ela que lhe disse que o Dmitri tinha sido preso no seu palácio em Petrogrado. Ele pediu imediatamente uma reunião com o Imperador, que consentiu em recebê-lo às onze nessa mesma noite, mas “apenas por cinco minutos,” uma vez que tinha muito para fazer.

Quando foi arrastado apressadamente para o gabinete do seu sobrinho, o Grão-duque Paulo protestou vivamente contra a prisão do seu filho:

“Ninguém tem o direito de prender um Grão-duque sem um mandato formal teu. Por favor liberta-o… certamente não tens medo que ele fuja, pois não?”

O Imperador fugiu a respostas concretas e pôs um ponto final na conversa.

Na manhã seguinte, o Grão-duque Paulo foi a Petrogrado para ver o seu filho. Perguntou-lhe:

“Mataste o Rasputine?”

“Não.”

“Estás pronto para jurar isso sob o ícone sagrado da virgem e uma fotografia da tua mãe?”

“Sim.”

O Grão-duque Paulo entregou-lhe depois o ícone da virgem e uma fotografia da falecida Grã-duquesa Alexandra:

“Agora: jura que não mataste o Rasputine.”

“Juro.”

Enquanto me contava este episódio, o Grão-duque foi verdadeiramente nobre, sincero e digno. Terminou com estas palavras:

“Não sei mais nada sobre a tragédia. Não quis saber mais nada.”