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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Um Conto de Duas Mulheres: as esposas de Alexandre II - Segunda Parte

Maria Alexandrovna e Alexandre II
Quando a diversão acabou, Maria estava demasiado doente para regressar à Rússia com o marido e teve de ser levada numa maca até à estação, para ir passar o inverno a Nice. Ainda ninguém podia adivinhar, mas seria o inverno mais triste das suas vidas, dominado pela doença do czarevich Nicolau Alexandrovich. Quando ele morreu, a família regressou a Heiligenberg, onde os seus dias passaram de forma calma e solene. Um dia, a princesa Maria de Battenberg encontrou o seu primo Alexandre, o novo czarevich, a chorar no sofá da sala porque não conseguia aceitar a mudança no seu futuro - uma cena que se repetiria vinte-e-nove anos depois, quando o seu filho Nicolau também teve de lidar com a herança súbita de governar a Rússia. Maria Alexandrovna também estava desfeita, tanto física como psicologicamente, e o seu sobrinho Luís (futuro grão-duque de Hesse) temia que ela não teria força para sobreviver à morte do filho. Só o seu pai, o príncipe Carlos de Hesse, conseguiu consolá-la. Também ele tinha acabado de perder a sua única filha (a princesa Ana de Hesse-Darmstadt), por isso compreendia melhor do que ninguém o que a sua irmã estava a sentir, e os dois partilharam histórias sobre os seus filhos juntos. "Ontem a tia Maria falou durante muito tempo sobre o filho, sobre a sua educação e muitas outras coisas", escreveu a princesa Alice à sua mãe. "O Nix era a vida dela, ela trabalhava e vivia para ele, para o transformar num grande homem, sabendo do papel que ele teria no futuro".
O príncipe Carlos de Hesse-Darmstadt com a sua esposa, a princesa Isabel da Prússia, e dois dos seus filhos, o príncipe Luís de Hesse-Darmstadt (futuro grão-duque de Hesse e pai da czarina Alexandra Feodorovna) e a princesa Ana de Hesse-Darmstadt.
Esse futuro tinha desaparecido. Maria passou a dedicar-se aos seus filhos mais novos e às suas causas mais queridas tanto quanto podia. Em Abril de 1866, Maria e Alexandre comemoram as suas bodas de prata. Havia rumores de que, a esta altura, Alexandre já tinha tido vários casos amorosos com outras mulheres, mas, apesar disso, os dois continuavam a ser um casal apaixonado, apesar de estarem sobre cada vez mais pressão. Em meados da década de 1860, os terroristas ameaçavam cada vez mais a vida do czar e, com cada nova tentativa de assassinato, Maria ficava mais transtornada.

Maria Alexandrovna e Alexandre II com dois dos seus filhos mais novos: o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a grã-duquesa Maria Alexandrovna
Os ecos da antiga vida familiar eram mais palpáveis quando o casal estava longe da Rússia. Em 1868, Maria e Alexandre regressaram a Heiligenberg com Maria, Sérgio e Paulo. A sua visita era muito aguardada pelos habitantes locais, uma vez que a czarina tinha fama de ser generosa com os seus antigos conterrâneos. Os aldeões montaram um arco do triunfo e, na manhã de 24 de Outubro, uma procissão de bagagens e empregados subiu a colina até ao palácio. Nessa noite, o príncipe Alexandre de Battenberg e a sua família foram até à estação de comboio para receber os seus convidados. Havia uma nova sala de espera e quarenta carruagens alinhadas à espera deles, mas apesar de todas as formalidades da realeza, a família imperial estava tão entusiasmada como qualquer família tradicional, e, à medida que o comboio entrava na estação, os russos tinham as cabeças fora das janelas. "A czarina chorou de alegria e o czar foi muito cordial; atrás deles vinham a Maria, o Sérgio e o Paulo, as damas-de-companhia, e todo o pessoal da corte. Depois todos ocuparam os seus lugares nas carruagens que estavam à espera e partimos. Fizemos uma paragem junto do arco do triunfo, onde se cantou o hino da Rússia e os aldeões atiraram flores".

A família imperial em Heiligenberg
Não houve um único momento triste durante estas férias e os dias iam-se sucedendo, cada um mais agitado do que o anterior. Até Maria se sentia bem o suficiente para se juntar à diversão. A sua sobrinha recordou uma noite particularmente feliz, na qual a família passou o serão junta do lado de fora da casa. "Estava muito escuro e estávamos todos assustados, principalmente os meninos, que davam os gritinhos mais altos que já ouvi. Começaram a inventar histórias sobre as ruínas que ficavam próximas, diziam que estavam a ver um 'Pirenpinker', uma figura branca colossal que era iluminada misteriosamente pela lua e nos fazia saltar de medo. Sempre que se falava de um fantasma, todos começávamos a gritar (...) depois começaram a aparecer todo o tipo de fantasmas: uma freira vestida de branco atrás de um limoeiro (era a czarina); o czar também nos assustou várias vezes quando ficou muito quieto num dos cantos das ruínas, com a roupa clara iluminada de forma muito estratégica pela lua, parecia mesmo um fantasma (...) ficámos nas ruínas até às dez da noite". 

Maria Alexandrovna
O dia do aniversário do czar amanheceu com bom tempo, o que foi uma sorte, uma vez ue tinha sido erguida uma tenda especial no terraço do palácio para receber todos os convidados que tinham aparecido para a missa ortodoxa dada em sua honra. Os cossacos fizeram a guarda e foi uma grande ocasião, mas, assim que os visitantes se foram embora, a família passou a controlar o dia e deu um concerto especial, no qual todos participaram. A festa acabou com uma sessão de fogo de artifício e, quando chegou a altura de os russos se irem embora uma semana depois, houve um mar de lágrimas. "Parecia ser particularmente difícil para o czar despedir-se destas colinas pacíficas, onde passava dias tão tranquilos em segurança. Ficou tão comovido (...)", reparou a sua sobrinha. Haveria mais reuniões de família em Heiligenberg em 1871, 74, 75 e 76, mas, à medida que as crianças foram crescendo e seguindo as suas próprias vidas, as coisas nunca mais voltaram a ser como antes.

Maria Alexandrovna com os seus filhos Paulo e Sérgio
Havia outro motivo pelo qual as coisas nunca mais voltariam a ser como antes. Durante uma festa de família em 1876, a princesa Maria de Battenberg ficou surpreendida quando ouviu alguém comentar que tinha visto o czar a passear num vale com uma jovem mulher e um menino. Só quando os visitantes se foram embora é que a mãe de Maria lhe contou aquilo que toda a cidade de São Petersburgo já sabia há nove anos: o czar Alexandre II tinha uma amante. Apesar de continuar a viver e viajar com a esposa, e de continuar a ser carinhoso com ela, havia outra mulher nas sombras, um segredo que era do conhecimento geral.

Catarina Dolgorukaya e Alexandre II
A história do romance é simples e até previsível. Quando a saúde de Maria Alexandrovna começou a piorar e ela deixou de conseguir estar presente em todos os seus compromissos, Alexandre começou a substituí-la em alguns deles. Um desses compromissos foi uma visita ao Instituto Smolny, que era patrocinado pelas czarinas desde que foi fundado por Catarina, a Grande. O Instituto Smolny dava educação às filhas da nobreza e, entre as suas alunas em inícios da década de 1860, encontravam-se duas irmãs, as princesas Catarina e Maria Dolgorukaya, cujo pai tinha morrido e deixado apenas dívidas aos seus filhos. Por causa disso, as suas duas filhas e quatro filhos foram colocados sob protecção imperial. Quando Alexandre viu Catarina pela primeira vez, lembrou-se imediatamente de um outro encontro no outono de 1857 (outras fontes apontam para 1859), quando ficou hospedado na casa do pai dela perto de Poltava, no sul da Rússia. Nessa altura, Catarina era apenas uma menina traquina. Agora, tinha catorze ou quinze anos, era muito bonita e sentia-se profundamente infeliz. Era uma menina do campo que sempre tinha sido livre e o Instituto Smolny, com os seus uniformes e regras exigentes, parecia uma prisão.

Catarina Dolgorukaya 
Parecia que a história se estava a repetir. Em Darmstadt, em 1839, Alexandre também se tinha apaixonado por uma bonita jovem de catorze anos que parecia infeliz e fora do seu elemento. Agora começava a sentir o mesmo por outra adolescente infeliz. Tal como Maria, Catarina era séria e reservada. As primeiras fotografias que existem dela mostram que, com esta idade, era até parecida com a czarina, e a combinação de juventude, beleza e infelicidade era algo ao qual Alexandre não conseguia resistir. A certa altura, a fraca saúde de Maria fez com que as relações físicas entre o casal se tornassem difíceis (ou até impossíveis), e Alexandre era um homem que precisava de amor físico. As suas visitas ao Instituto Smolny passaram a ser cada vez mais frequentes e o czar parecia dar mais atenção às duas irmãs do que a qualquer outra aluna. Quando fez dezassete anos de idade, Catarina deixou o instituto e foi viver com o irmão e com a esposa dele numa casa na cidade. Cruzava-se frequentemente com Alexandre em bailes e recepções e, certo dia, quando estava a passear pelo Jardim de Verão em São Petersburgo, o czar juntou-se a ela e a uma criada. Na primeira oportunidade, Alexandre ficou a sós com ela e confessou que a amava, mas Catarina limitou-se a fazer uma vénia e a afastar-se.

Catarina
O impasse durou um ano. Catarina não tinha nascido para se tornar numa amante. A sua linhagem era mais antiga e orgulhosa do que a do própria Alexandre, e não fazia parte da sua personalidade apaixonar-se facilmente. Os dois não voltaram a estar sozinhos até Julho de 1866, quando ela se encontrou com ele no Pavilhão Belvedere, em Peterhof. Diz-se que foi a tentativa de assassinato que o czar tinha sofrido às mãos de Dmitri Karakozov que finalmente a convenceu a submeter-se a ele. Tal como Maria, também ela temia pela vida dele. Nesse dia, os dois fizeram amor em Belvedere e Alexandre prometeu-lhe que um dia se casaria com ela se pudesse. Chamava-lhe a sua "esposa perante Deus" e os seus encontros continuaram em segredo até ao início de 1867, quando a sua cunhada descobriu o que estava a acontecer. Chocada, insistiu em levá-la consigo para Itália e nem Catarina nem o czar protestaram. A sua estadia em Itália durou cinco meses, mas ela continuou a trocar cartas cheias de paixão com Alexandre. Em Junho de 1867, o czar pediu-lhe para ela se encontrar com ele em Paris e, depois, os dois seguiram viagem juntos até São Petersburgo. Em 1869, o czar deu-lhe uma casa na Millionnaya, uma das ruas mais exclusivas da cidade, e perto do Palácio de Inverno. Foi a primeira das muitas casas que os dois partilharam.

Catarina
Oficialmente, o caso amoroso não era discutido, mas era quase impossível mantê-lo em segredo. A infidelidade fazia parte da mitologia dos czares; a sociedade tinha a certeza que todos os czares tinham tido casos amorosos, quer isso fosse verdade ou não, mas havia um sentimento de traição relativamente a este caso em particular. Não havia rumores interessantes sobre ele. Catarina nunca tentou obter qualquer vantagem do facto de o czar estar apaixonado por ela. Nunca fez favores aos amigos. Na verdade, tinha até muito poucos. Afastou-se por completo da sociedade e refugiou-se na pequena ilha da vida doméstica que tinha criado com o seu amante. Parecia até que o czar estava a levar o caso muito mais a sério do que seria conveniente. Alguns dos seus encontros aconteciam no próprio Palácio de Inverno: o seu primeiro filho, Georgi, nasceu lá em 1872, tendo até direito à presença de um médico imperial durante o parto. Desafiando ainda mais as convenções, o czar nunca procurou um marido de fachada para a sua amante, para dar um apelido à criança. Georgi e os seus cuidadores mudaram-se para aposentos na casa de um dos amigos de Alexandre, o General Ryleev para que, pelo menos a nível oficial, fosse possível manter a aparência de que Catarina era uma senhora solteira e virgem. Quando o bebé tinha dezoito meses de idade, nasceu uma segunda filha, Olga, que se juntou à casa secreta. Todos os dias, às três da tarde, quando o czar estava em São Petersburgo, ia visitar Catarina e os seus filhos. Quando estava na sua companhia, Alexandre voltou a descobrir a felicidade sem problemas que tinha sentido nos primeiros anos de casamento com Maria, quando os seus filhos ainda eram pequenos. Adorava a sua segunda família, mas, para Catarina, esta deve ter sido uma existência estranha. Toda a sua felicidade se centrava naquelas horas fugidas, e não podia ser vista com os filhos a não ser nesses momentos.

Alexandre, Catarina e os seus dois filhos mais velhos, Georgi e Olga
As cartas privadas trocadas entre os dois amantes mostram que a princesa podia ser difícil e que, muitas vezes, sentia ciúmes, algo que, provavelmente, seria inevitável tendo em conta as restrições que a relação impunha na sua vida. Mas Alexandre estava demasiado apaixonado para se importar, e confiava nela o suficiente para lhe falar sobre as preocupações da sua posição. Gradualmente, Catarina tornou-se uma fonte de apoio, dando continuidade ao trabalho que a sua esposa, agora profundamente doente com tuberculose, já não lhe podia dar. Catarina não era tão inteligente como Maria, nem tão bem educada: limitava-se a ouvir e a dar o apoio sem críticas de uma amante. A sua presença foi-se tornando cada vez mais importante para o czar, mas os benefícios para o czar tiveram um grande custo. Maria sabia da relação e estava consciente de que todos à sua volta estavam à espera para ver qual seria a sua reacção, mas ela não mostrou nenhuma. Continuou com os seus deveres e com o seu casamento, tanto quanto a sua saúde permitia, com uma dignidade silenciosa, guardando a sua dor para si.

Maria Alexandrovna a tomar chá no Palácio de Alexandre nos seus últimos anos de vida
Eram as necessidades das outras pessoas que lhe ocupavam o pensamento. Em 1875, o príncipe de Montenegro pediu-lhe para cuidar de duas das suas filhas e Maria arranjou-lhes um lugar no Instituto Smolny. Quando soube que a mais nova, Militsa, estava doente com tifo, foi visitá-la imediatamente e mandou chamar os melhores médicos da cidade. Ficou ao lado da jovem ao longo de toda a sua doença e enviava mensagens ao pai dela todos os dias. Muitas vezes era a sua própria doença que a forçava a deixar a Rússia, mas ninguém a criticava por passar longos períodos de tempo no estrangeiro. A sua filha Maria casou-se com o príncipe Alfredo do Reino Unido, filho da rainha Vitória, em inícios de 1874, e, em Dezembro do ano seguinte, Maria viajou até Inglaterra para o baptizado do seu neto, o príncipe Alfredo de Edimburgo. "Achei-a muito feminina (...) e muito gentil e simpática", escreveu a rainha Vitória à sua filha mais velha. "Ficámos logo à vontade uma com a outra, mas ela tem uma expressão muito triste e parece ser muito delicada. Acho que nos vamos dar muito bem. Coitada, tenho muita pena dela".

Maria com o seu neto, o príncipe Alfredo de Edimburgo em 1875
Todas as cortes europeias sentiam pena de Maria Alexandrovna, por vezes com um certo tom condescendente. Todos falavam sobre o escândalo. Alguns condenavam-na por ficar ao lado do czar. Maria recusava-se a mostrar qualquer reacção, e passou a dedicar todo o seu tempo aos filhos, à sua religião e às suas obras. À medida que a década de 1870 chegava ao fim, os eventos políticos pressionaram ainda mais o seu casamento, que já estava com problemas suficientes. Pela primeira vez, Alexandre II e Maria Alexandrovna, que tinham começado a sua união de forma tão harmoniosa e que sobreviveram a tantos problemas, ficaram em lados opostos quando rebentou a Guerra Russo-Turca de 1877-78. Mas apesar de a guerra ter prejudicado a sua relação, não teve força suficiente para os separar. O seu casamento tinha um sentimento inabalável, tal como os eventos dos seus últimos anos de vida iriam mostrar.

Maria Alexandrovna e Alexandre II com alguns dos seus filhos

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Um Conto de Duas Mulheres: as esposas de Alexandre II - Primeira Parte

Maria Alexandrovna e Alexandre II
Na década de 1890, o último czar da Rússia e a sua esposa contrataram uma ama irlandesa para as suas filhas. Margaretta Eagar tinha um fascínio pelo sobrenatural e acreditava que o espírito da czarina Maria Alexandrovna assombrava o Palácio de Inverno. Assim que encostou a cabeça na almofada naquela noite, ouviu a voz de uma mulher, a chorar amargamente e queixar-se da infidelidade do marido. A czarina Alexandra disse-lhe que a cama onde ela dormia tinha sido a mesma onde a czarina Maria Alexandrovna tinha morrido e relacionou a história que a ama lhe contou com a avó do seu marido. Em várias ocasiões, a grã-duquesa Olga Nikolaevna, que tinha apenas três anos de idade na altura, disse à senhora Eagar que tinha visto uma senhora velha vestida de azul no seu quarto. A ama nunca viu nada. Depois, um dia, quando as duas passeavam pela Rotunda do primeiro andar do palácio, a criança apontou para um retrato de Maria Alexandrovna e disse que era aquela a senhora que tinha visto. Estas histórias demonstram que a ideia da infelicidade de Maria Alexandrovna já estava encrostada na memória da corte russa, que nunca a aceitou completamente no seu tempo.

Olga Nikolaevna
A vida de Maria Alexandrovna começou cedo a ser infeliz. A czarina tinha onze anos de idade quando a mãe morreu, passando a ser a única mulher na família, à excepção da sua cunhada que tinha acabado de chegar à corte de Hesse. Maria era uma jovem tímida, inteligente e baixa que levava a vida muito a sério: uma coisa tão simples como furar as orelhas deu-lhe pesadelos durante várias semanas e a operação teve de ser adiada até que ela ganhasse coragem para a enfrentar. Maria era muito chegada à mãe e corria o rumor (que era aceite pela maioria das pessoas) de que a grão-duque de Hesse não era o seu pai biológico. Esta história já foi contada tantas vezes que os factos e a ficção se cruzam inevitavelmente. Os seus pais, o príncipe Luís de Hesse e a princesa Guilhermina de Baden, eram primos direitos que se tinham casado em Karlsruhe em 1804, durante um pequeno período de paz das Guerras Napoleónicas. Guilhermina era uma jovem bonita e encantadora de quinze anos de idade, enquanto que Luís tinha vinte-e-seis e era tão tímido e reservado que a maioria das pessoas sentia que não conseguia comunicar com ele. Os primeiros anos do casamento desenrolaram-se num cenário de guerra: o seu primeiro filho, um rapaz, nasceu seis meses depois da Batalha de Austerlitz. Seguiram-se mais dois rapazes, um dos quais nasceu morto, e depois houve um período de onze anos em que o casal não teve filhos, até ao nascimento da princesa Isabel. Depois dela, Guilhermina deu à luz mais uma menina que nasceu morta. No ano seguinte, em 1823, Guilhermina teve outro filho: Alexandre. Maria era a mais nova e nasceu em Darmstadt a 8 de Agosto de 1824, tendo recebido os nomes de Maximiliana Guilhermina Augusta Sofia Maria.

Guilhermina de Baden, mãe de Maria Alexandrovna
A diferença de idades e personalidades seria suficiente para explicar os problemas no casamento de Guilhermina. Mas, além disso, durante cinco dos onze anos em que não tiveram filhos, Luís passava longos períodos de tempo longe de casa a liderar as tropas de Hesse no campo de batalha. Foi também devido a essas ausências que surgiu o rumor de que os três filhos mais novos de Guilhermina: Isabel, Alexandre e Maria, não eram filhos de Luís, mas sim do camareiro da corte, o barão Augustus Senarclens von Grancy. A ideia persiste até aos dias de hoje e, muitas vezes, é vista como um facto: muitos também acreditaram nela na altura, embora parece pouco provável que o pai de Luís, o grão-duque Luís I de Hesse, permitisse que a sua nora tivesse um caso aberto durante tanto tempo com um membro da corte sem que este perdesse o seu lugar, o que nunca aconteceu. Oficialmente, não havia dúvidas de que os três eram todos descendentes da família de Hesse-Darmstadt: os seus nomes aparecem nos volumes da época do Almanaque de Gota e, quando Alexandre nasceu, o seu tio, o czar Alexandre I da Rússia, foi um dos padrinhos, um sinal de aceitação ao mais alto nível.

Luís II de Hesse-Darmstadt, pai de Maria Alexandrovna
Isabel morreu de escarlatina em Lausana em 1826, quando tinha cinco anos de idade. Foi sepultada no mausoléu da família Hesse, em Rosenhoe, Darmstadt, e toda a família fez luto, mas os rumores conseguem persistir mesmo perante as provas mais convincentes. É possível que Luís tenha sabido dos rumores e que se tenha, ele próprio, questionado sobre a verdadeira origem das crianças. Por isso, ou por qualquer outro motivo, parece ter havido realmente um curto período de afastamento entre ele e Guilhermina. A czarina-viúva, Maria Feodorovna referiu esse facto numa carta dirigida à sua filha em 1827, mas disse também estar do lado de Guilhermina. Em 1828, a corte de Hesse (ou, segundo algumas pessoas, a própria Guilhermina) comprou a propriedade de Heiligenberg e Guilhermina mudou-se para lá com Alexandre e Maria. O escândalo ganhou asas e todas as cortes europeias ficaram intrigadas, mesmo apesar de, no ano seguinte, Guilhermina e Luís terem celebrado as suas Bodas de Prata em aparente harmonia.

Maria Alexandrovna na sua adolescência
Mas, verdadeiros ou falsos, os rumores espalharam-se, deixando um rasto de miséria. Maria passou grande parte da sua infância em Heiligenberg e, quando a sua mãe morreu de tuberculose em 1836, a jovem sentiu-se dolorosamente só. Não estava habituada à corte do pai e as pessoas que tinham espalhado boatos contra a sua mãe também foram desagradáveis com ela. Adorava os seus irmãos mais velhos, mas eles já eram adultos com família e o seu único companheiro na família era Alexandre. Os dois irmãos foram criados juntos, mas, na década de 1830, Alexandre passou a ser considerado demasiado velho para partilhar a sala de aula com uma menina. Por isso, após a morte da mãe, Maria passou a ser educada e cuidada por uma dama-de-companhia chamada Mademoiselle von Grancy, irmã do barão que diziam ser o seu pai biológico, e continuou a passar grande parte do seu tempo em Heiligenberg, onde se sentia mais à vontade.

Maria Alexandrovna
Quando o czarevich Alexandre fez a sua paragem não programada em Darmstadt em Março de 1839, ficou sensibilizado com esta jovem triste de catorze anos, que estava a usar as pérolas da mãe. Sem querer, Maria tinha chamado a atenção de um dos prémios mais prestigiantes da Europa - para tristeza de muitas princesas mais velhas - e as más línguas dispararam. Os velhos escândalos foram ressuscitados, principalmente em Berlim, onde os Hohenzollern tinham velhos ressentimentos contra a família de Hesse e nunca perdiam uma oportunidade para os criticar, e é provável que a czarina Alexandra, a mãe do czarevich, que era também uma Hohenzollern, tivesse o mesmo preconceito. O czar sabia as histórias que se contavam sobre as origens de Maria, mas tinha uma visão muito realista das mesmas. O embaixador da Áustria em São Petersburgo informou o seu país natal em Abril de que Nicolau I "sabe bem o que se diz sobre o nascimento dela mas (...) se o grão-duque de Darmstadt optou por ignorar as histórias, ele também não encontra obstáculos de momento. Apesar de só ter passado um dia em Darmstadt, o filho dele sente-se muito atraído pela princesa por ela não ser muito bem tratada, e o imperador compreende o motivo pelo qual esse facto pode ter aumentado o interesse que o filho já tinha nela; disse também que sentiria o mesmo se estivesse no lugar do filho".

Alexandre II
Maria sentia-se impressionada e aterrorizada com a viragem dos acontecimentos. Gostava de Alexandre o suficiente para aceitar o pedido de casamento dele, mas se Darmstadt já parecia grande para ela, como é que conseguiria lidar com São Petersburgo? Em Junho de 1840 encontrou-se pela primeira vez com Nicolau I e Alexandra Feodorovna em Frankfurt e, dois meses depois, viajou com eles para a Rússia, onde, durante um ano, iria aprender russo e preparar-se para se converter à Igreja Ortodoxa Russa. Tinha dezasseis anos quando teve de fazer tudo isto. Reconhecendo a timidez da jovem, o czar convidou o irmão dela para a acompanhar, o que acabava por ser uma certa tradição na família. Vários anos antes, uma tia-avó de Maria e Alexandre, a princesa Guilhermina de Hesse, tinha também viajado para a Rússia como noiva e também foi acompanhada pelo irmão. A mademoiselle von Grancy também foi para a Rússia com Maria.

Guilhermina de Hesse-Darmstadt, tia-avó de Maria e Alexandre e primeira esposa de Paulo I
Os primeiros meses foram um tormento. Maria tinha saudades de casa e estava desorientada com a nova corte. Anos mais tarde, contou a uma dama-de-companhia que teve de esconder as lágrimas tantas vezes que até descobriu uma técnica para isso: abria uma janela, colocava a cabeça de fora e deixava que o ar gélido do inverno russo lhe tirasse a vermelhidão dos olhos. Tão tímida como o pai, sentia-se demasiado tensa para causar uma boa impressão na corte, onde ser social era extremamente importante. Felizmente, encontrou uma aliada compreensiva na tia do marido, a grã-duquesa Helena Pavlovna, e as duas ficariam amigas para o resto da vida. Apesar de terem uma diferença de idades de dezassete anos, as duas tinham personalidades muito semelhantes e a mesma atitude perante a vida.

Maria Alexandrovna
Mas, pelo por um lado, Maria teve muito mais sorte do que a sua nova amiga. O czarevich era tudo o que ela podia desejar num marido e, depois do casamento, Maria e Alexandre tornaram-se companheiros além de amantes. A jovem aprendeu russo extremamente depressa - algumas pessoas diziam que tinha aprendido a língua tão depressa como a imperatriz Catarina, a Grande - e partilhava com o marido o sonho de levar a cabo reformas palpáveis no país. Era inteligente e instrospectiva, e Alexandre confiava nas suas decisões. Juntos, criaram o seu próprio círculo de amigos e, tal como Alexandre precisava de Maria para o seu trabalho, Maria precisava dele para a orientar na sociedade, e dar-lhe confiança. O historiador russo Tatichev descreveu estes primeiros anos como "anos de felicidade sem problemas para a família (...) havia convívios quase todos os dias na jovem corte (...) lia-se em voz alta, toca-se música, jogava-se às cartas (...) o anfitrião e a anfitriã encantavam todos com as suas personalidades".

Maria Alexandrovna e Alexandre II nos seus aposentos privados
O jovem casal recebeu apartamentos no bloco sudeste do Palácio de Inverno e outros aposentos na asa Zuboc do Palácio de Catarina em Czarskoe Selo; foi lá que nasceu a sua primeira filha, Alexandra, em 1842. A família cresceu depressa. Para assinalar cada um dos nascimentos, Alexandre e Maria plantavam um carvalho no seu jardim privado em Czarskoe Selo, onde mandaram colocar  brinquedos, baloiços e escorregas para as crianças. Um par de mastros de um navio tornaram-se um local de escalada para os rapazes que também tinham uma linha férrea em miniatura, uma quinta e uma horta. Maria importou lírios do vale e prímulas da sua terra natal na Alemanha e tratava deles com cuidado. Dentro de casa, tocava piano com os filhos, tecia tapetes e até se dedicava à decoração de interiores. Pensa-se que um tecto no Palácio de Inverno que está coberto de flores azuis claras e folhagem verde foi obra sua.


Maria Alexandrovna com o seu filho mais velho, Nicolau
Foi a época mais feliz das suas vidas, mas mesmo assim foi marcada por problemas. Maria dava muita importância ao facto de ter o seu irmão por perto. O príncipe Alexandre tinha-se tornado num homem alto, bonito e inteligente; dava-se bem com o czarevich e a sua irmã venerava-o. O príncipe prestou um bom serviço militar no exército russo na campanha do Cáucaso. Costumava dizer à irmã que "é muito importante para um soldado enfrentar a morte tantas vezes. Uma pessoa sente que tem mais direito de usar o uniforme". Com a amizade do czar e uma carreira brilhante à sua frente, chegou-se até a falar numa possível união entre Alexandre e a grã-duquesa Catarina Mikhailovna, filha da grã-duquesa Helena Pavlovna, mas todos os planos caíram por terra quando ele se apaixonou por uma das damas-de-companhia da irmã, Julie Hauke. Nicolau I não lhe deu permissão para continuar a viver na Rússia caso se casasse morganaticamente, por isso, em 1851, Alexandre demitiu-se da sua comissão e foi-se embora. Eventualmente, acabaria por se mudar para Helligenberg com a sua esposa Julie, que se tornou princesa de Battenberg, mas Maria sentiu muito a sua falta.

Julie Hauke e Alexandre de Hesse-Darmstadt, príncipes de Battenberg
Houve também outros desgostos. A morte da pequena Alexandra Alexandrovna em 1849 não se tornou tão pública como a do seu irmão Nicolau alguns anos mais tarde, mas foi um golpe devastador para os pais. Vinte-e-quatro anos depois, quando Maria estava de visita à esposa do seu sobrinho, a princesa Alice do Reino Unido, que tinha acabado de perder o seu filho Frederico, a sua dor ainda era bem visível: "a tia Maria mostrou grande compaixão, foi muito maternal e carinhosa; fiquei muito comovida", contou Alice à sua mãe, a rainha Vitória. "Nestes momentos mostra-se particularmente doce e feminina e também ama os filhos com grande ternura. Chorou muito e contou-me da morte triste da filhinha mais velha dela (...)"

Maria Alexandrovna e Alice do Reino Unido
A resposta de Maria perante a dor foi isolar-se e procurar consolo na religião que fora forçada a adoptar quando se casara. Não fazia parte da sua personalidade converter-se apenas como formalidade: Maria aceitou a fé ortodoxa com todo o seu coração e com uma intensidade que confundia muitos que tinham nascido ortodoxos. Além da religião, Maria tinha também um fascínio cada vez maior pelo país que a tinha recebido e pela sua cultura. É irónico o facto de terem sido Maria e a sua sobrinha-neta, a imperatriz Alexandra Feodorovna, as duas czarinas estrangeiras que mais amaram a Rússia quando se casaram, e as que mais foram rejeitadas pela sociedade. No entanto, dentro da família, as coisas eram diferentes, pelo menos para Maria. Depois de Alexandre subir ao trono, começou a convocar toda a sua família para uma refeição no palácio todos os domingos, o que acabou por se tornar numa tradição. O objectivo inicial tinha sido o de mostrar à sua família o lado gentil e amistoso da sua esposa. No entanto, fora do circulo familiar, as pessoas achavam que Maria era demasiado séria e confundiam a ser reserva, achando-a fria e distante. Nunca foi muito popular.

Maria Alexandrovna
No entanto, continuava a ser czarina e podia pelo menos ajudar o marido com o programa de reformas que os dois já discutiam há anos. Uma testemunha descreveu a sua coroação na Catedral da Assunção em Moscovo a 26 de Agosto de 1856. Alexandre tomou a coroa e colocou-a na cabeça e, depois, "foi a vez da imperatriz Maria Alexanrovna que se ajoelhou perante o imperador. Este retirou a sua coroa e tocou com ela levemente na cabeça de Maria; depois colocou a coroa mais pequena na cabeça da esposa e colocou-lhe a capa e a corrente de diamante da Ordem de São André nos ombros." Os dois desceram a Grande Escadaria do Kremlin, e "não há descrição que faça justiça à solenidade daquele momento quando, rodeados pelos monumentos da Rússia Antiga (...) aquelas duas cabeças, com as suas coroas a reflectir os raios de sol como um símbolo externo e visível da sua grandeza, se curvaram perante o amor e confiança do estado. O canhão disparou e já não era possível ouvir o som dos sinos com o clamor da multidão".

Maria Alexandrovna na coroação do marido
O fim da servidão e outros abusos eram causas partilhadas pelo casal, mas, com o apoio da grã-duquesa Helena Pavlovna, Maria também utilizou a sua posição como czarina para desenvolver um programa de reformas seu. Interessava-se particularmente pelas causas das mulheres, principalmente pela sua educação e saúde, e teve um papel activo na criação de muitas escolas para meninas. Também se interessava pelos serviços médicos e, inspirada pelo trabalho que a grã-duquesa Helena tinha começado durante a Guerra da Crimeia, em 1877, Maria fundou a Cruz Vermelha da Rússia com o mote "A força não está no poder, mas sim no amor".

Maria Alexandrovna
Mas isso seria apenas muitos anos depois, e, à medida que o novo czar e czarina se preparava para enfrentar os seus novos deveres públicos, surgiu uma nova ansiedade na sua vida pessoal. À medida que a década de 1850 se aproximava do fim, a saúde de Maria começou a deteriorar-se. Tal como a mãe, também ela sofria de tuberculose, uma doença que, aos doze anos de idade, quase a tinha matado. O efeito do clima húmido e frio de São Petersburgo juntamente com as suas muitas gravidezes seguidas enfraqueceram-lhe o corpo. Era cada vez mais frequente estar demasiado doente para aparecer em público, e estava a perder cada vez mais peso. Alexandre preocupava-se com ela e consultou vários médicos. Nove meses depois da coroação, em Maio de 1857, Maria deu à luz o seu sétimo filho, o grão-duque Sérgio Alexandrovich. O czar escreveu ao seu irmão Constantino, pouco depois do nascimento: "a Maria recuperou completamente, graças a Deus, mas os médicos vão mandá-la para Kissingen, e penso que vou com ela". 

Maria com a sua filha Maria, o filho Sérgio e uma das suas amas
Esta foi a primeira de muitas viagens a spas europeus, que pouco fizeram para ajudar a travar o lento declínio da saúde da czarina, mas pelo menos deram-lhe a oportunidade de voltar a ver o seu país natal. A 28 de Junho desse ano, Maria e Alexandre partiram na companhia dos seus três filhos mais novos. Primeiro visitaram Darmstadt, depois Wildbad e Kissingen; em Bad Bruckenau, foi com grande alegria que Maria se reencontrou com o seu adorado irmão Alexandre e com a família dele. A filha mais velha do príncipe Alexandre, a princesa Maria de Battenberg, que na altura tinha cinco anos de idade, contou mais tarde à sua neta que tinha vagas memórias de "um hotel ou kurhaus; e do rosto sério e gentil de uma mulher majestosa que todos tratavam por 'Majestade'".

Maria Alexandrovna
Esta foi só a primeira de uma série de reuniões familiares nas quais era possível ver o lado mais alegre da czarina, e os registos fotográficos que sobreviveram dos encontros em Heiligenberg têm grande valor porque mostram uma Maria Alexandrovna muito diferente da figura trágica que é recordada na Rússia. Em Julho de 1864, quase quatro anos depois do nascimento do grão-duque Paulo Alexandrovich, o seu filho mais novo, os médicos voltaram a aconselhar uma viagem à Alemanha, para fazer um tratamento com águas termais em Schwalbach. O jovem e excêntrico rei da Baviera também estava lá e gostou tanto de Maria que resolveu enviar-lhe ramos de flores todos os dias. A 23 de Agosto, no meio de uma tempestade, o seu comboio chegou à estação de Bickenbach, perto de Heiligenberg, e a czarina saiu na companhia dos seus três filhos mais novos e de treze carruagens de empregados e bagagem. Os donos da casa que alugaram em Heiligenberg ficaram apertados numa das alas para poder dar espaço à visitante real e a maioria dos empregados teve de dormir em Jugenheim, uma aldeia próxima. Uma semana depois, chegou o czar com os seus filhos Alexandre e Vladimir. Três dias depois, o príncipe Luís de Hesse, a sua esposa Alice e a sua filha Vitória juntaram-se a eles, e o grupo ficou completo quando o czarevich Nicolau chegou na companhia do seu irmão Alexei. Nicolau tinha acabado de ficar noivo da princesa Dagmar da Dinamarca e a sua chegada foi motivo para fazer uma comemoração.

Maria Alexandrovna, Alexandre II, Sérgio e Maria (centro) numa das reuniões de família na Alemanha
O noivado de Nicolau e Dagmar não foi o único motivo para comemorações. O aniversário do czar, a 11 de Setembro, foi também celebrado com uma missa ortodoxa, um jantar e jogos. No dia seguinte, as crianças da família Battenberg decidiram mostrar aos primos um dos locais mais bonitos da zona. Partiram todos montados em burros, mas, a meio da viagem, caiu um aguaceiro que os obrigou a procurar refúgio na cabana de um habitante local, que lhes deu comida, café e roupas secas. "O czar, a czarina e o resto do grupo já estavam na mesa quando regressámos, e todos se fartaram de rir quando nos vieram receber no pátio. Foi uma festa maravilhosa". As férias acabaram em grande quando ambas as famílias decidiram comemorar os bons tempos que tinham passado. "Antes do pequeno-almoço, fomos até à grande bétula que fica na estrada a caminho de Felsenberg para a rebaptizarmos com o nome 'Bétula do Czar'". Foi colocada uma tabuleta branca no tronco da árvore onde estava escrito: "Bétula do Czar, 14 de Setembro de 1864". "Demos as mãos e dançámos à volta da árvore três vezes. Depois regressámos a casa para beber café".

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Hemofilia na Família Real (Segunda Parte)

Alexandra com o pai, Luís, as irmãs Isabel e Vitória, o cunhado Sérgio Alexandrovich, o irmão Ernesto e a sobrinha Alice (mãe de Filipe, duque de Edimburgo) por volta de 1886.
A imperatriz Alexandra tinha um ano quando Frittie morreu e doze anos quando o seu tio Leopoldo morreu da mesma doença. Nenhuma destas tragédias a afectou directamente. O seu primeiro contacto relevante com a hemofilia deu-se quando a doença foi diagnosticada a dois dos seus sobrinhos, filhos da sua irmã Irene e do marido, o príncipe Henrique da Prússia. Um dos rapazes, Henrique, o mais novo, terá morrido em 1904 devido a uma hemorragia quando tinha quatro anos de idade, pouco antes do nascimento de Alexei. Durante o seu curto tempo de vida, a sua doença não foi revelada ao público, provavelmente para esconder o facto de que a hemofilia tinha surgido na família imperial da Alemanha [Henrique era irmão do kaiser Guilherme II]. O irmão mais velho, o príncipe Valdemar, viveu até aos cinquenta-e-seis anos de idade, mas também morreu devido a uma hemorragia.
Alexandra com a irmã Irene, o cunhado Henrique da Prússia e o sobrinho mais velho, Valdemar.
Em circunstâncias normais, o facto de o seu tio, o seu irmão e os seus sobrinhos sofrerem de hemofilia deveria ter sido um indicador de que ela era também portadora do gene que provocava a doença. Há muito que se conhecia o padrão genético da hemofilia: tinha sido descoberto em 1803 pelo Dr. John Conrad Otto de Filadélfia e confirmado em 1820 pelo Dr. Christian Nasse de Bonn. Em 1865, o monge e botânico austríaco Gregor Johann Mendel formulou a sua lei genética, tendo por base um estudo de vinte-e-cinco anos recorrendo ao cruzamento de ervilhas caseiras. Em 1876, um médico francês chamado Grandidier declarou que "todos os membros de famílias com hemofilia devem ser aconselhados a evitar o matrimónio." E, em 1905, um ano após o nascimento de Alexei, o Dr. M. Litten, natural de Nova Iorque, adquiriu experiência suficiente com a doença para escrever que os rapazes hemofílicos deviam ser vigiados enquanto estivessem a brincar com outras crianças e que não deviam ser disciplinados com castigos físicos. "Os hemofílicos que tenham possibilidades económicas," acrescentou, "devem exercer uma profissão erudita; se estiverem na escola, os duelos estão proibidos."

Então, por que motivo foi um choque tão grande para Alexandra saber que o filho sofria de hemofilia?

Alexei Nikolaevich
Um dos motivos sugeridos pelo falecido geneticista britânico J. B. S. Haldane é o de que, embora o padrão genético já fosse conhecido entre a comunidade cientifica, esse conhecimento nunca chegou aos círculos fechados das cortes europeias: "É provável," escreveu Haldane, "que Nicolau soubesse que a sua noiva tinha irmãos hemofílicos, apesar de nunca referir esse facto em cartas ou diários. No entanto, devido à educação que recebeu, nunca deu grande importância a esse conhecimento. Não sabemos, e quase de certeza que isso nunca será descoberto, se o médico da corte o terá aconselhado a não seguir em frente com o casamento. Se um médico distinto que estivesse fora do circulo da corte eventualmente desejasse avisar Nicolau relativamente ao perigo da sua união, não creio que o tivesse conseguido, quer directamente, quer através da imprensa. Os reis são protegidos com muito cuidado das realidades desagradáveis. A hemofilia do czarevich foi um sintoma do divórcio entre a realeza e a realidade."


Nicolau II e Alexei
Tal como Haldane referiu, não existem provas de que Nicolau ou Alexandra alguma vez tivessem interpretado as leis da genética para determinar as suas próprias hipóteses de dar à luz um filho hemofílico. É quase certo que ambos tenham considerado que o mistério da doença, ou seja, quem seria afectado ou não, estava nas mãos de Deus. Também parece ter sido esta a atitude da rainha Vitória que, aparentemente, não compreendia o padrão hereditário da doença que se tinha espalhado a partir de si. Quando um dos seus netos morreu ainda criança, a rainha limitou-se a escrever: "a nossa família parece ser perseguida por esta doença horrível, a pior que conheço."

A rainha Vitória com a neta, a futura imperatriz Alexandra da Rússia
Alexandra estava rodeada de parentes hemofílicos antes de se casar, mas essa era uma realidade partilhada pela maioria das princesas europeias. A prole da rainha Vitória era de tal forma numerosa - nove filhos e trinta-e-quatro netos - que o gene defeituoso se espalhou por todos os cantos do continente. Quando se casavam e tinham filhos, os membros da realeza viam já a hemofilia como uma das doenças com as quais se iriam ter de preocupar, juntamente com a difteria, pneumonia, varíola e a escarlatina. Os príncipes reais, mesmo quando estavam destinados a herdar um trono, não excluíam uma possível candidata a noiva só por esta ter um historial de hemofilia na família. O príncipe Alberto Vítor de Inglaterra que, se tivesse vivido tempo suficiente,teria reinado em vez do seu irmão mais novo, Jorge V, tinha tentado casar-se com Alix antes de Nicolau a conquistar. Se esse casamento tivesse realmente acontecido, a hemofilia teria surgido na família real britânica. O kaiser Guilherme II estava rodeado de hemofilia por todos os lados. Tanto ele como os seus seis filhos escaparam, mas o seu tio e dois dos seus sobrinhos não tiveram a mesma sorte. O próprio kaiser tinha-se até apaixonado por Ella, irmã mais velha de Alexandra antes de ambos se casarem com outras pessoas. Se Ella se tivesse casado com Guilherme em vez de escolher o grão-duque Sérgio Alexandrovich, também é possível que tivessem dado à luz um herdeiro hemofílico.

Alexandra (2.ª da esquerda) com vários membros da família real britânica, incluindo o príncipe Alberto Vítor (1.º da esquerda). 
Naquela época, todas as famílias, incluindo as famílias reais, tinham vários filhos e era esperado que um ou mais perdessem a vida antes de chegar à idade adulta. A morte de uma criança nunca era uma experiência trivial, mas raramente significava mais do que uma interrupção temporária na rotina familiar. Apesar disso, no caso de Alexandra, só a ameaça de morte do seu filho mais novo levava tudo de si e colocou em causa o destino de toda uma dinastia.

Alexandra e Alexei

Texto retirado do livro "Nicholas & Alexandra" de Robert K. Massie.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Hemofilia na Família Real (Primeira Parte)

A rainha Vitória e a sua família no casamento da sua filha mais velha, Vitória.
O caso mais conhecido de mutação espontânea de hemofilia aconteceu na família da rainha Vitória. A mulher de baixa estatura e indominável, que reinou em Inglaterra durante sessenta-e-quatro anos e que era avó de grande parte da realeza europeia era, sem o saber, portadora de hemofilia quando se casou. O seu filho mais novo, o príncipe Leopoldo, duque de Albany, sofria de hemofilia. Duas das suas cinco filhas, a princesa Alice e a princesa Beatriz, eram portadoras de hemofilia. Quando as filhas de Alice e Beatriz - as netas da rainha Vitória - se casaram nas casas reais da Rússia e de Espanha, os seus filhos, os herdeiros desses tronos, nasceram com hemofilia.


A princesa Alice, o príncipe Leopoldo, a princesa Luísa e a princesa Helena com John Brown.

Quando soube que o seu próprio filho sofria de hemofilia, a rainha ficou abismada. Aturdida, protestou, afirmando que "esta doença não existe na nossa família," e, de facto, nunca se tinha manifestado até então. Tinha ocorrido uma mutação espontânea, quer no material genético da própria Vitória ou no cromossoma X, que lhe foi transmitido pelo pai, o duque de Kent, na altura da concepção. Fosse como fosse, pouco tempo depois do nascimento de Leopoldo em 1853, era impossível não reconhecer os sintomas da doença que surgiam sob a forma de inchaços e nódoas negras. Quando tinha dez anos de idade, foi-lhe dada a tarefa, durante um casamento, de tomar conta do seu sobrinho Guilherme de quatro anos que era tão teimoso quanto ele. Quando Guilherme se impacientou e Leopoldo o reprimiu, o futuro kaiser da Alemanha deu um pontapé na perna do tio. Leopoldo não ficou ferido, mas a rainha Vitória ficou furiosa.


O príncipe Leopoldo
Leopoldo cresceu e tornou-se um príncipe alto, inteligente, afectuoso e teimoso. Ao longo da sua infância e adolescência, a sua obstinação levava muitas vezes a hemorragias e o jovem acabaria por ficar com o joelho afectado para sempre. Em 1868, o British Medical Journal relatou uma das suas hemorragias: "Sua Alteza Real, que, até agora, gozava de uma saúde excelente e de um nível de actividade normal, sofreu, ao longo de toda esta semana uma hemorragia acidental grave. O príncipe ficou reduzido a um estado de exaustão extrema e perigosa devido à perda de sangue." Em 1875, quando Leopoldo tinha vinte-e-dois anos, o mesmo diário registou: "A capacidade peculiar do príncipe para sofrer hemorragias graves, das quais sempre padeceu, é essencialmente um caso de vigilância médica e cuidados atentos. Está nas mãos daqueles que o vigiam desde o berço e que estão armados com a experiência especial da sua constituição, assim como do comando vasto de recursos profissionais."


O príncipe Leopoldo
A rainha reagiu da forma mais típica no que diz respeito a pais de filhos com hemofilia. Afeiçoou-se de forma atípica a este filho, preocupava-se com ele, protegia-o demasiado e o resultado das suas constantes advertências para que ele tivesse cuidado foi uma relação pautada por discussões frequentes. Quando ele tinha quinze anos, a rainha presenteou-o com a Ordem da Jarreteira, mais cedo do que aos outros irmãos "porque está mais avançado e porque desejo dar-lhe este encorajamento e prazer, já que tem sofrido tantas privações e desilusões." Quando Leopoldo tinha vinte-e-seis anos, a sua mãe contou ao primeiro-ministro, Benjamin Disraeli, que Leopoldo não a poderia representar na abertura da exposição na Austrália, como Disraeli lhe tinha pedido. Recorrendo a um discurso na terceira pessoa, a rainha escreveu: "a rainha não pode consentir o envio do seu filho que padece de um estado muito delicado e já esteve às portas da morte quatro ou cinco vezes e que raramente passa mais do que alguns meses sem ter de ficar de cama, para tal distância, para um clima com o qual não está familiarizado e expô-lo a perigos que ele talvez não possa evitar. Mesmo que ele não sofresse, o nível de ansiedade ao qual a rainha seria exposta faria com que não fosse capaz de realizar os seus deveres em casa e poderia colocar a sua saúde em risco."


Leopoldo com as irmãs, as princesas Luísa e Helena, a cunhada, a princesa Alexandra de Gales, os sobrinhos (Alberto Eduardo, Jorge e Luísa) e a mãe, a rainha Vitória.
Constantemente frustrado pelas tentativas da mãe para o proteger, Leopoldo procurou algo para fazer. O seu irmão mais velho, o príncipe de Gales, sugeriu dar-lhe o comando dos Voluntários de Balmoral, uma companhia militar colocada perto do castelo real na Escócia. A rainha, preocupada com o joelho de Leopoldo, recusou a sugestão e, a partir de então, Leopoldo recusou voltar a Balmoral. Quando a rainha tentou prender o filho num andar superior do Palácio de Buckingham, Leopoldo fugiu para Paris durante duas semanas. Aos vinte-e-nove anos, para grande surpresa da mãe, Leopoldo encontrou uma noiva alemã, a princesa Helena de Waldeck, que não tinha medo da doença e estava disposta a casar com ele. Os dois viveram felizes durante dois anos e tiveram uma filha. Helena estava grávida pela segunda vez quando, durante uma estadia em Cannes, Leopoldo caiu, sofreu um pequeno golpe na cabeça e morreu, aos trinta-e-um anos de idade, de hemorragia cerebral. A sua mãe sofreu por si e pela família, mas escreveu no seu diário: "não há nada que lamentar em relação ao querido Leopoldo. Havia nele um desejo inquietante por aquilo que não podia ter que parecia aumentar cada vez mais, em vez de diminuir."


Leopoldo com a sua esposa, a princesa Helena de Waldeck
O príncipe Leopoldo era tio [e padrinho] da imperatriz Alexandra. A sua doença significava que todas as suas cinco irmãs poderiam ser portadoras do gene, mas apenas Alice e Beatriz o transmitiram aos seus filhos. Dos oito filhos de Alice, duas das meninas - Alexandra e Irene - eram portadoras. Um dos seus filhos, Frederico, irmão mais velho de Alexandra, a quem todos chamavam Frittie, era hemofílico.  Quando tinha dois anos de idade, um corte que fez no ouvido sangrou durante três dias. Certa manhã, quando tinha três anos, Frittie e o seu irmão mais velho, Ernesto, entraram a correr pelo quarto da mãe quando ela ainda estava na cama. As janelas que iam até ao chão estavam abertas. Frittie desequilibrou-se e caiu a uma altura de cerca de seis metros no terraço de pedra que ficava em baixo. Não partiu nenhum osso e, inicialmente, parecia que tinha ficado apenas assustado e com algumas negras. No entanto, a hemorragia cerebral já tinha começado e, nessa mesma noite, Frittie morreu.


O príncipe Frederico (Frittie) de Hesse-Darmstadt

Texto retirado do livro "Nicholas & Alexandra" de Robert K. Massie