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quinta-feira, 9 de março de 2017

[Notícias] - Descendente dos Romanov emociona-se ao recordar a morte da família

A princesa Olga Romanoff na série documental "The Royal House of Windsor"
A princesa Olga Romanoff, filha do príncipe André Alexandrovich da Rússia, sobrinho do czar Nicolau II, emocionou-se recentemente quando recordou a morte de vários membros da família entre 1918 e 1919 e o facto de o rei Jorge V do Reino Unido não os ter ajudado, recusando-lhes exílio em Inglaterra.
No primeiro episódio da série documental "The Royal House of Windsor", emitida pelo Channel 4 no Reino Unido, a princesa Olga Andreevna, de 66 anos de idade, recordou o seu avô, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, afirmando "o meu avô tinha sido um dos conselheiros de Nicolau [II da Rússia] e acho que se ele tivesse ouvido os conselhos do meu avô, é possível que este desastre não tivesse acontecido", tendo-se emocionado de seguida.
Depois, Olga acrescentou que o seu pai, o príncipe André, "nunca, nunca culpou o Jorge [V do Reino Unido] por isso. Sempre disse que tinha sido por causa do primeiro-ministro, mas, pelos vistos, não foi o primeiro-ministro de todo, foi tudo culpa do Jorge. Fico aliviada por o meu pai ter morrido antes de encontrar aquela carta [onde Jorge afirmava que não era prudente receber Nicolau II e a família em Inglaterra] porque teria ficado muito transtornado."

Parte da família da princesa Olga Romanoff: os seus avós Alexandre Mikhailovich e Xenia Alexandrovna, o pai, o príncipe André, e a tia, a princesa Irina Alexandrovna.
Muitos criticaram a princesa Olga pelas suas palavras, uma vez que, embora não tenha permitido a ida de Nicolau II e da sua família mais próxima para o Reino Unido, mais tarde, em Dezembro de 1918, o rei Jorge V enviou um navio inglês, o HSM Marlborough, à Crimeia para salvar outros membros da família Romanov, incluindo a bisavó (Maria Feodorovna), avós (Alexandre Mikhailovich e Xenia Alexandrovna), o pai e os tios de Olga. Outros acrescentaram também que a reacção de Olga parece exagerada, tendo em conta que ela nasceu trinta anos depois da tragédia, em 1950.
No entanto, há também muitos que a defendem, recordando que a morte de 18 membros da família no espaço de alguns meses deixou para sempre as suas marcas nos sobreviventes e que foi nessa atmosfera que Olga foi criada. Também se destaca o facto de, apesar de ter salvo a família mais próxima de Olga, foi de facto a falta de acção de Jorge V relativamente ao resto da família que contribuiu directamente para as suas mortes.
Para saber mais sobre a forma como Jorge V do Reino Unido agiu para com a família Romanov, podem consultar a primeira e a segunda parte do artigo "Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov" neste blog.
O documentário está disponível online aqui, mas apenas no território do Reino Unido.



Quem é a princesa Olga Romanoff?


Nascida a 8 de Abril de 1950 em Londres, no Reino Unido, a princesa Olga Romanoff é a única filha do segundo casamento do príncipe André Alexandrovich da Rússia com Nadine Sylvia Ada McDougall, proveniente de uma família abastada de Inglaterra. Olga tem três meios-irmãos do primeiro casamento do pai, incluindo o actual chefe da família Romanov e presidente da Associação da Família Romanov, o príncipe André Andreyevich Romanov.

Durante a década de 1970, Olga chegou a ser considerada como uma possível candidata a noiva do príncipe de Gales, Carlos, mas acabaria por se casar em 1975 com Thomas Mathew com quem teve quatro filhos antes de os dois se separarem em 1989.

Olga é conhecida por participar em vários reality shows, nomeadamente o "Australian Princess", onde foi uma das mentoras e o "You Can't Get This Staff" onde apresentava os seus criados. Também um dos seus filhos, Francis Alexander Mathew participou na versão ucraniana do programa "The Bachelor" e noutro reality show chamado "Secret Princes".

Actualmente, Olga é uma das organizadoras do Baile de Debutantes Russas que se realiza todos os anos em Londres e está também a escrever um livro de memórias.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov - Segunda Parte

As famílias reais do Reino Unido e da Rússia em 1910
Em Czarskoe Selo, os dias iam passando e a partida da família continuava a ser adiada. As conversas sobre Inglaterra começaram a desaparecer aos poucos.

Será que a presença de Nicolau em Inglaterra teria colocado o trono de Jorge em perigo? Olhando para trás, tendo em conta a forma como os eventos se desenrolaram, essa hipótese parece extremamente improvável. Era verdade que a Grã-Bretanha não tinha ficado imune às greves e motins que tinham rebentado por toda a Europa desde a Revolução Russa. Pequenos problemas levavam a greves repentinas. Em 1918, 12.000 trabalhadores de uma fábrica de aviões em Conventry abandonaram os seus postos de trabalho porque tinham ouvido rumores falsos de que seriam obrigados a juntar-se ao exército. Além disso, a Inglaterra, tal como o resto da Europa, tinha a sua quota-parte de pessoas que apregoava uma retórica de mudança, revolução e até uma república. Uma semana depois de o Ministério dos Negócios Estrangeiros retirar o convite ao czar, H. G. Wells escreveu no The Times que a Grã-Bretanha se devia livrar das "amarras antigas do trono e do ceptro", e propôs a criação de sociedades republicanas por todo o país. (Wells tinha já escrito um artigo célebre no qual descreveu o circulo de amigos de Jorge V como "uma corte de extraterrestres e sem inspiração", ao que o rei deu a sua única resposta bem-humorada da qual há conhecimento: "posso não ter grande inspiração, mas raios me partam se sou um extraterrestre"). No entanto, não havia, da parte da população, uma resposta relevante ao republicanismo revolucionário - nada, por exemplo, à escala das centenas de clubes republicanos que surgiram ao longo da década de 1870. De todas as populações civis envolvidas na guerra, os britânicos foram os que menos sofreram em termos de necessidades e mortes - as mortes de civis na Alemanha foram muito superiores do que as da Grã-Bretanha  - e eram os que estavam mais afastados dos campos de batalha. LLoyd George lidou com a agitação que encontrou de forma muito mais eficaz do que qualquer outro estadista na Europa. Apesar de o seu governo ser dominado pelos Conservadores, a grande popularidade que tinha e o seu historial de melhoramentos na vida social do país deram-lhe credibilidade junto dos grevistas, ao mesmo tempo que os seus instintos políticos o levaram a conseguir acordos com os revoltosos, ao contrário do que aconteceu noutros países, onde a solução encontrada foi uma forte e violenta repressão. Enquanto fazia tudo isto, dizia ao país que estava a defender a Liberdade - da forma como esta era vista no sistema britânico - e a destruir a casta militar alemã e a opressão que esta exercia sobre o povo alemão.

O rei Jorge V com membros da alta aristocracia
Se Lloyd George e outros políticos achassem mesmo que trazer o ex-czar para a Inglaterra fosse uma ameaça para a coroa e para a estrutura constitucional da Grã-Bretanha - algo que nenhum deles queria, então nunca teriam sequer aceite o pedido de asilo em primeiro lugar. Foi outra grande ironia que Jorge nunca compreendeu: Lloyd George, o homem que tinha ideais políticos completamente opostos aos dele, foi o homem que manteve o seu trono em segurança. Seria também o homem que iria encobrir o envolvimento de Jorge na rejeição dos Romanov, omitindo por completo o papel que teve no seu livro de memórias, intitulado "War Memoirs", e assumindo por completo a culpa que havia a assumir - apesar de ter alegado falsamente que a Grã-Bretanha nunca tinha retirado o convite, e ter dito, de forma mais verdadeira, que não havia garantias de que o governo provisório tivesse a capacidade de retirar o czar da Rússia. Buchanan também seria culpado por os britânicos não terem conseguido levar o plano adiante; passaria o resto da vida a tentar exonerar-se sem sucesso - também assumiu que a fonte da decisão para retirar o convite tinha sido LLoyd George.

Nicolau II (sentado) com a sua tia Alexandra do Reino Unido (sentada, ao fundo), a sua mãe, Maria Feodorovna (sentada,em frente), o seu primo, Jorge V (em pé) e a avó de ambos, a rainha Lusa da Dinamarca (em pé).
A verdade era que Jorge tinha-se tornado imensamente sensível às críticas dirigidas tanto a si como à monarquia - nesse aspecto estava, na altura, muito mais informado e atento à opinião pública do que qualquer dos seus primos. Qualquer sussurro deixava-o incomodado e profundamente deprimido. Um sinal claro da ansiedade que sentia ficaria para a História alguns meses depois, quando, em Julho de 1917, ficou de tal forma incomodado com algumas insinuações da parte da opinião pública de que a família real não era completamente leal à causa da guerra por terem o apelido alemão de Saxe-Coburgo-Gota, que decidiu mudá-lo para "Windsor". Jorge não estava errado ao assumir que a vinda do seu primo seria muito mal vista num país cujo o governo justificava a guerra como uma luta pela liberdade contra a autocracia. No entanto, é extremamente improvável que tal decisão lhe tivesse custado o trono. Entrou em pânico e colocou as suas preocupações acima das suas relações familiares, que sempre tinha defendido como essenciais, e acima do primo com quem dizia preocupar-se tanto. Foi o golpe final ao culto da família que a sua avó, a rainha Vitória, tinha defendido com toda a força. Foi também uma decisão que revelou uma monarquia ciente da necessidade de se vender aos seus súbditos para sobreviver.

A rainha Alexandra do Reino Unido, Jorge V, a grã-duquesa Xenia Alexandrovna, o príncipe Valdemar da Dinamarca, a princesa Thyra da Dinamarca, o príncipe Jorge da Grécia e Dinamarca, a princesa Maria da Grécia e da Dinamarca e o czar Nicolau II, na Dinamarca, em finais da década de 1880
A 16 de Julho de 1918, o dia em que o czar e a sua família foram assassinados, Jorge V foi assistir a um treino de balões da RAF em Roehampton. A notícia da morte do antigo czar foi dada oficialmente três dias depois. A 25 de Julho, Jorge decretou um mês de luto na corte e escreveu no seu diário que, na companhia da sua esposa Maria tinha estado presente "numa missa na igreja russa em Welbeck street, em memória do querido Nicky que, temo, foi morto a tiro o mês passado pelos bolcheviques. Adorava o Nicky, que era o homem mais gentil que conheci, um verdadeiro cavalheiro que amava o seu país e o seu povo". Três dias depois, escreveu que o vice-cônsul da Grã-Bretanha em Moscovo, Robert Bruce Lockhart, tinha reportado que "o querido Nicky" tinha sido morto a tiro pelo Soviete local de Ecaterimburgo. "Não foi nada mais que um homicídio brutal". Em finais de Agosto, escreveu: "soube da Rússia que há grandes probabilidades de que a Alicky, as quatro filhas e o menino tenham sido assassinados ao mesmo tempo que o Nicky. É demasiado horrível e mostra os demónios que esses bolcheviques são. Talvez tenha sido o melhor para a pobre Alicky. Mas para aquelas pobres crianças inocentes!".

Olga, Anastásia, Alexei, Tatiana e Alexandra, no Palácio de Alexandre, no Outono de 1915
Parece que Jorge e Stamfordham concordaram tacticamente numa espécie de amnésia intencional. Também não demoraram a culpar o governo por não ter feito nada. No dia em que se realizou a missa fúnebre em honra de Nicolau, Stamfordham escreveu a Lord Esher, em tom ofendido:
Alguma vez terá havido um homicídio tão cruel e será que alguma vez este país mostrou uma indiferença de tal forma caluniosa a uma tragédia desta magnitude? O que significa tudo isto? Tanto quanto saiba, o primeiro-ministro nem sequer se fez representar por ninguém. Onde está a nossa compaixão, gratidão, decência comum nacional? Por que motivo é que o kaiser não fez da libertação do czar e da sua família uma condição no tratado de paz de Brest-Litovsk?
Maria com o pai, Nicolau II

Esta carta é um quanto dissimulada, uma vez que apenas três dias antes da missa, Stamfordham tinha dito a Balfour que Jorge não deveria estar presente, uma vez que temia irritar a opinião pública.

O filho mais velho de Jorge, o duque de Windsor, disse que o assassinato dos Romanov abalou profundamente a "confiança que [o pai] tinha na decência humana. Havia uma ligação muito verdadeira entre ele e o primo Nicky". O duque de Windsor afirmou que o seu pai "tinha planeado ir salvar o czar pessoalmente com um navio cruzador britânico, mas o plano acabou por ser bloqueado de alguma forma. De qualquer das formas, o meu pai ficou profundamente magoado por os britânicos não terem levantado uma mão para salvar o seu primo Nicky". Até ao fim da vida, o rei Jorge V costumava dizer "aqueles políticos! Se fosse um deles, tinham agido a tempo!".

Eduardo (futuro rei Eduardo VII e duque de Windsor), Nicolau II, Alexei e Jorge V em 1910

Texto retirado do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter


Reacção do rei Jorge V à morte dos Romanov, retratada na mini-série "The Lost Prince"

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Jorge V do Reino Unido e o exílio dos Romanov - Primeira Parte

Jorge V e Nicolau II
"Chegaram más notícias da Rússia," escreveu o rei Jorge V do Reino Unido no seu diário a 13 de Março de 1917, dois dias antes de o seu primo direito, o czar Nicolau II da Rússia, ter abdicado do trono, dando início à Revolução Russa, "praticamente que rebentou uma revolução em Petrogrado e alguns dos regimentos de guardas fizeram motins e mataram os seus oficiais. Este levantamento é contra o governo, não contra a guerra". A 15 de Março, já tinha recebido mais informações: "temo que a responsável por tudo isto seja a Alicky e o Nicky foi fraco (...) estou em desespero".

Era quase o único que se sentia daquela forma. Por todas as ruas do império, desde Moscovo até Tiflis, o fim da autocracia foi celebrado foi sinos, canções, vivas e bandeira. Os símbolos do poder imperial, as insígnias e estátuas, foram arrancados de edifícios e pedestais. Em França e na Grã-Bretanha, a queda do czar foi recebida com alívio. Os excessos do regime tinham-se tornado embaraçosos e havia a esperança de que, com uma democracia, a Rússia tivesse menos vontade de fazer acordos com a Alemanha. Os EUA, que tinham acabado de entrar na guerra, reconheceram o novo governo com entusiasmo logo uma semana depois da abdicação. Lloyd George [primeiro-ministro do Reino Unido], que se estava a esforçar por combater o cansaço da guerra com a ideia de que os sacrifícios da Entente eram a favor da grande causa da Liberdade e da Democracia, enviou um telegrama a dar os parabéns pela revolução, "a melhor coisa que o povo russo fez até agora na defesa da causa pela qual os Aliados estão a lutar". Demonstrava "a verdade fundamental de que esta guerra é, no fundo, uma luta pelo governo do povo, tanto como o é pela liberdade. Mostra que, ao longo da guerra, o princípio da liberdade, que é a única garantia de paz no mundo, já conquistou uma vitória arrebatadora". 

Lloyd George
Jorge V odiou o telegrama e não conseguiu compreender que este tinha sido escrito tanto para consumo interno como para o novo governo russo (que, como se viria a constatar, incluía um número significativo de novos membros que eram muito mais favoráveis às tradições políticas britânicas do que qualquer pessoa do regime czarista). Stamfordham [secretário particular do rei] recebeu instruções para se queixar que o telegrama era "um pouco forte", principalmente tendo em conta que vinha de um governo monárquico. Lloyd George recordou o secretário do rei que a própria constituição britânica tinha surgido graças a uma revolução - a revolução sem sangue de 1688.

Jorge decidiu então enviar a sua própria mensagem de apoio a Nicolau: "os eventos da semana passada deixaram-me profundamente perturbado. Estou sempre a pensar em ti e serei sempre um verdadeiro e dedicado amigo tal como sabes que já fui no passado". O ministro dos negócios estrangeiros do governo provisório, Pavel Miliukov, um antigo membro da Duma que reverenciava Sir Edward Grey [ministro dos negócios estrangeiros do Reino Unido entre 1905 e 1916] e admirava as tradições liberais da Grã-Bretanha, disse a Buchanan [embaixador do Reino Unido na Rússia] que a carta não podia ser entregue ao destinatário. O novo Soviete começava a mostrar uma vontade preocupante de executar o czar. O clima político em Petrogrado era de tal forma instável que o telegrama de Jorge apenas serviria para piorar a situação. A única solução que Miliukov via era retirar o czar da Rússia o mais rapidamente possível. Quando, a 21 de Março, Buchanan avisou que "qualquer violência exercida sobre o imperador e a sua família teria um efeito deplorável e chocaria a opinião publica neste país", Miliukov perguntou-lhe se a Grã-Bretanha estaria disposta a dar asilo aos Romanov. Quando reportou o pedido do ministro dos negócios estrangeiros, Buchanan acrescentou a sua opinião de que o pedido deveria concedido.

Sir George Buchanan, embaixador da Grã-Bretanha na Rússia
Nesse mesmo dia, o antigo imperador e a família foram colocados em prisão domiciliária. Os soldados tinham chegado a Czarskoe Selo uma semana antes, tinham cercado o palácio e cortado o fornecimento de água. Alexandra não soube nada de Nicolau durante três dias. Alexei estava com sarampo e em grande sofrimento. A czarina quase desmaiou quando soube da abdicação, depois reagiu com o seu fatalismo característico: "é o melhor. É a vontade de Deus. Deus vai garantir que a Rússia fica a salvo. É só isso que interessa". O governo provisório disse aos seus prisioneiros que aquela medida era apenas uma precaução para os manter em segurança. Disseram-lhes que o plano era levá-los até à fronteira marítima da Finlândia, que ficava a apenas algumas horas de distância, e colocá-los a bordo de um navio britânico, onde viajariam até à Inglaterra. Nicolau, que recebeu permissão para deixar Stavka antes de regressar a Czarskoe Selo, disse ao representante militar britânico que tinha a esperança de se retirar para a Crimeia, mas que, "se isso não for possível, prefiro ir para a Inglaterra do que para qualquer outro sítio".

Nicolau, Alexandra e as filhas Anastásia, Olga e Maria por volta de 1916-17
Lloyd George não gostava muito da ideia de dar abrigo ao autocrata de todas as Rússias que tinha perdido todo o crédito, mas, quando pediu a opinião do antigo conselheiro do rei Eduardo VII, Sir Charles Hardinge, e a Stamfordham, concordou que "a proposta (...) não pode ser recusada". Stamfordham acrescentou que Buchanan devia "dar a entender" que o governo russo deveria atribuir um rendimento ao ex-czar para ele viver. Quando Lloyd George sugeriu (sem dúvida de forma provocatória) que o rei [Jorge V] podia emprestar "uma das suas casas", o ministro respondeu rispidamente que o rei "não tem casas, excepto Balmoral", que não tinha quaisquer condições. 


Lloyd George (esq.) com o rei Jorge V e o futuro rei Eduardo VIII
Nicolau chegou a Czarskoe Selo nesse mesmo dia, fazendo o seu caminho da desgraça por entre as divisões cheias de soldados curiosos que, agora, não tinham qualquer motivo para se colocar em formação ou fazer a saudação. Quando chegou aos aposentos privados da família, perdeu a compostura e começou a chorar. Um cortesão disse que ele parecia "um velho". Quando tentou sair para ir dar uma volta a pé, foi cercado por seis soldados que o mandaram afastar-se com a ponta das suas espingardas. "Não pode ir para aí, Gospodin Polkovnik [Sr. Coronel]", disseram eles. "Afaste-se quando o mandam, Gospodin Polkovnik". Nicolau deixou-se ficar, pequeno, em silêncio e sem qualquer expressão no rosto. Mais tarde, nessa mesma noite, chegaram três carros armados cheios de soldados demasiado entusiasmados de Petrogrado que anunciaram que iam levar o ex-czar para a fortaleza de São Pedro e São Paulo - outro sinal que mostrava como o controlo que o governo provisório tinha sobre os soldados era ténue. Eventualmente, conseguiram convencer os soldados a ir embora, com a condição de que poderiam ver o czar. Pouco depois da meia-noite, outro grupo de soldados assaltou a campa de Rasputine no parque imperial, exumaram o corpo e queimaram-no.


Nicolau II no verão de 1917, no Palácio de Alexandre
Miliukov garantiu a Buchanan que o governo russo iria pagar o exílio do czar, mas pediu-lhe que não revelasse que o pedido de santuário tinha vindo da parte do governo, uma vez que temia enfurecer a opinião pública e o Soviete de Petrogrado. Parecia claro que levar a família às escondidas para a Finlândia não seria tão simples como parecia. Entretanto passou uma semana. A Inglaterra e Jorge ocupavam claramente os pensamentos da família imperial. Nicolau escreveu no seu diário que estava a planear começar a escolher as coisas que levaria consigo para Inglaterra, Alexandra começou a falar constantemente das memórias que tinha de Osborne e os seus filhos começaram a perguntar aos tutores como seria a sua vida em Inglaterra.

Tatiana e Anastásia com soldados no verão de 1917
Em Londres, Jorge começou a ter sérias dúvidas se seria boa ideia trazer o seu primo para Inglaterra. A 30 de Março, Stamfordham escreveu ao antigo primeiro-ministro, Arthur Balfour, que Lloyd George tinha escolhido para ministro dos negócios estrangeiros:
"O rei tem pensado muito na proposta do governo para que o imperador e a família venham para Inglaterra. Como, sem dúvida, sabe, o rei tem uma amizade pessoal muito profunda com o imperador e, por isso, teria todo o prazer em fazer qualquer coisa para o ajudar nesta crise. No entanto, Sua Majestade não consegue evitar certas dúvidas, não só no que diz respeito aos perigos da viagem, mas também, de um modo mais geral, em termos de conveniência, se seria aconselhável a família real passar a residir neste país".
Balfour enviou uma resposta sem compromissos. Miliukov tinha acabado de enviar outro telegrama a pedir que o czar deixasse a Rússia de uma vez e o antigo primeiro-ministro era da opinião que "embora os ministros de Sua Majestade compreendam as dificuldades aludidas na sua carta (...) são da opinião que, a não ser que haja uma mudança de posição, neste momento já não é possível retirar o convite que foi enviado, e, por isso, esperam que o rei concorde com o convite original, que foi enviado seguindo o conselho dos ministros de Sua Majestade".

A 3 de Abril, duas das damas-de-companhia de Alexandra, Lili Dehn e a odiada Anna Vyrubova, foram presas e levadas para Petrogrado para serem interrogadas. O casal imperial recebeu também ordens para viver em separado enquanto a questão da traição de Alexandra era investigada. 


Alexandra com a sua dama-de-companhia Lili Dehn e a filha Tatiana
A 6 de Abril, Stamfordham escreveu a Balfour a insistir para que o convite fosse retirado:
"A cada dia que passa, o rei preocupa-se cada vez mais com a questão da vinda do imperador e da imperatriz para este país. Sua Majestade recebe cartas de pessoas de todas as classes sociais, pessoas que lhe são ou não conhecidas, nas quais lhe dizem que o assunto está a ser muito discutido, não só nos clubes, mas também pelos trabalhadores, e que os membros do partido trabalhista na Câmara dos Comuns estão-se a mostrar adversos à proposta (...) tenho a certeza que sabe como tudo isto será estranho para a nossa Família Real, que tem relações de parentesco tão próximas tanto com o imperador como com a imperatriz (...) o rei quer que lhe pergunte se, depois de se reunir com o primeiro-ministro, não devermos contactar Sir George Buchanan, no sentido de pedir ao governo russo que arranje outro local para estabelecer a futura residência de Suas Majestades Imperiais?"
Algumas horas depois, enviou outra carta: 
"O rei pede-lhe que faça ver ao primeiro-ministro que, tendo em conta tudo aquilo que ele tem ouvido e aquilo que lê na imprensa, o público iria ressentir fortemente a vinda para este país do ex-imperador e imperatriz e, sem dúvida alguma, iria comprometer a posição do rei e da rainha, de quem, de um modo geral, as pessoas já acham que veio o convite. (...) Buchanan tem de receber instruções para dizer a Miliukov que a oposição à vinda do imperador e da imperatriz para este país é tão forte que temos de retirar o consentimento que foi dado à proposta do governo russo inicialmente".
O rei Jorge V, acompanhado da mãe, a rainha Alexandra, a tia, a imperatriz Maria Feodorovna, e a esposa, a rainha Mary do Reino Unido
A 10 de Abril, Stamfordham encurralou LLoyd George em Downing Street para "lhe transmitir a opinião do rei de que o imperador e a imperatriz da Rússia não deveriam vir para este país e que (...) seria muito injusto para o rei se Suas Majestades Imperiais viessem para aqui quando o sentimento popular contra eles é tão pronunciado". Depois voltou a queixar-se a Balfour, dizendo-lhe que tinha visto um telegrama de Buchanan que "evidentemente achou que a vinda do imperador e da imperatriz estava garantida e que era apenas uma questão de tempo". O rei era da opinião que Buchanan já deveria ter retirado o convite.  

Os argumentos de Stamfordham tiveram efeito no governo. LLoyd George sabia que proteger os Romanov não seria bem visto na Grã-Bretanha e não queria fazer nada que afastasse o governo russo que ia ficando cada vez mais instável. Temia que acabassem por sair da guerra de repente, deixando a frente ocidental vulnerável a um ataque alemão em larga escala. Balfour achava que o rei estava "numa posição complicada". Ninguém iria acreditar que o convite não tinha sido feito pela corte. Talvez fosse melhor enviar os Romanov para o sul da França? O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado: "o governo de Sua Majestade não irá insistir na oferta de hospitalidade que colocou anteriormente à família imperial". Balfour enviou um telegrama a Buchanan e disse-lhe para não falar mais no convite. O embaixador obedeceu com era seu dever. Miliukov já não referia o assunto há alguns dias, parecia óbvio que a questão se estava a tornar numa batata quente para o governo russo e, obviamente, se houvesse "algum perigo de criar um movimento anti-monárquico", então a Inglaterra não era o melhor lugar para colocar o czar e era melhor pedir a opinião dos franceses. Mas, em casa, segundo a sua filha, era óbvio que o embaixador estava profundamente perturbado.

Anastásia e Nicolau rodeados de soldados no parque de Alexandre no verão de 1917
Texto retirado do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Regência de Alexandra Feodorovna em 1915-17

Alexandra Feodorovna no Palácio de Alexandre, no outono de 1916
Durante a Primeira Guerra Mundial, Nicolau II poderia ter assumido o papel de líder civil, coordenando o governo, garantindo que o exército estava bem equipado, fazendo os possíveis para garantir que os feridos eram tratados, os refugiados apoiados, e que o país continuava a funcionar. No entanto, Nicolau, tal como Guilherme II na Alemanha, sentia um grande fascínio pelo lado romântico do exército, tinha má opinião da administração civil e sentia-se demasiado sobrecarregado com as falhas no governo para saber sequer por onde devia começar. (...)

A sua solução para a crise foi assumir o comando supremo do exército em Setembro de 1915. Num momento de optimismo exacerbado, Nicolau tinha-se convencido de que essa seria a decisão que iria remediar todos os problemas da Rússia: se fosse ele a assumir o comando, Deus salvaria a Rússia e os camponeses que prestavam serviço no exército iriam lutar com ainda mais vontade. Nicolau adorava a ideia de lutar ao lado dos seus soldados e de fugir às intrigas e cabalas e "pouco interesse pessoal" que havia em São Petersburgo - que tinha sido rebatizada de Petrogrado para a afastar das suas origens alemãs. "Na frente de batalha," confidenciou o czar a Pierre Gilliard, tutor do seu filho, "só se pensa numa coisa: na determinação de vencer."

Nicolau II durante a Primeira Guerra Mundial
Já há vários meses que Alexandra tentava convencer o marido a tomar esta decisão, afirmando que ele era o salvador da Rússia e que Deus o iria proteger. Era uma ideia tão má que, quando Nicolau a anunciou ao seu Conselho de Ministros, todos ficaram em silêncio. "É tão horrível," escreveu Sazonov [Sergei Sazonov, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia entre 1910 e 1916], "que a minha cabeça está um caos". Outro ministro afirmou secamente que esta decisão "reflecte completamente as suas crenças espirituais e a forma mística como vê o seu chamamento imperial". Depois de vários anos de lutas internas, o Conselho de Ministro tomou a decisão nunca antes vista de se unir para escrever uma carta em conjunto ao czar onde lhe pediam para não seguir em frente com aquela decisão. Até Goremykin [Ivan Goremykin, primeiro-ministro da Rússia em 1906 e, mais tarde, entre 1914 e 1916], que concordava sempre com o czar, assinou a carta. Até a mãe e a irmã de Nicolau [Olga Alexandrovna] acharam que seria uma catástrofe. Apesar de todos os pedidos, o czar decidiu avançar com a sua decisão de qualquer das formas. Sem qualquer experiência em estratégia ou em batalhas, não demorou muito até todos no quartel-general passarem a ver Nicolau como alguém irrelevante. A decisão teve o resultado já esperado de fazer com que ele fosse mais culpado do que nunca pelos desastres militares que se iam sucedendo.

Nicolau II
Quando Nicolau deixou São Petersburgo e o governo civil, Alexandra sentiu-se na obrigação de ocupar o seu lugar. Deixou a sua cama de inválida e decidiu dar à Rússia aquilo que acreditava ser uma grande lição em autocracia. Começou a dispensar ministros a uma velocidade estonteante logo quatro dias depois da partida de Nicolau. Todos à sua volta percebiam que, para ela, a política era "um assunto de sentimentos e personalidades". O esforço que o governo estava a fazer para sobreviver durante a guerra foi substituído por uma luta pessoal entre aqueles que Alexandra considerava estarem a seu favor e aqueles que achava estarem contra ela. Os ministros que tinham pedido ao czar para não se tornar comandante supremo do exército foram sistematicamente descredibilizados e dispensados. Qualquer pessoa que sugerisse algum tipo de colaboração com a Duma era dispensada. Qualquer pessoa de quem ela não gostasse, se tivesse oposto a alguma das suas decisões ou criticasse Rasputine - a quem a imperatriz procurava cada vez mais para obter conselhos políticos e que, tal como Pierre Gilliard observou, se limitava a confirmar aquilo que ela queria ouvir - era dispensada. Até o velho Goremykin perdeu as boas graças da imperatriz.

Nicolau e Alexandra
As cartas que escrevia a Nicolau - ainda em inglês - estavam cheias de referências ao "Nosso Amigo" e de pedidos para a remoção de ministros. "Quem me dera poder enforcar o Rodzianko [presidente da Duma]", escreveu ela, "é um homem horrível e insolente". Também o incentivava a ser assertivo e autocrático. Entretanto, em São Petersburgo, ia mudando de ministros a uma velocidade quase cómica, nomeando e dispensando quatro primeiros-ministros - cada um deles mais conservador e menos eficaz do que o anterior - num período de dezasseis meses, tentando desesperadamente encontrar aquele ministro "leal", o homem que odiasse suficientemente a Duma e que respeitasse suficientemente Rasputine. O primeiro-ministro de quem mais gostou foi Protopopov, um antigo representante da Duma que se tinha tornado admirador de Rasputine e que quase todos achavam ter algum tipo de problema mental, enquanto que outros eram da opinião que era completamente louco. A imperatriz promoveu-o, apesar de reconhecer que ele era "extremamente nervoso e muitas vezes perde a linha de raciocínio", só porque "ouvia" Rasputine e, segundo ela, "tem uma grande devoção por nós!". Segundo relatos da época, é possível que, a esta altura, Protopopov sofresse de sífilis terciária em estado avançado.

Alexandre Protopopov
Pierre Gilliard, que simpatizava completamente com a agonia que Alexandra sentia devido à doença do filho, temia que ela estivesse a enlouquecer: "muitas vezes passava por períodos de êxtase místico nos quais perdia por completo a noção da realidade". Entretanto, a visão obsessivamente polarizada que a imperatriz tinha do mundo levou-a a favorecer Rasputine em público, ao mesmo tempo que ignorava a forma cada vez mais aberta com que ele se aproveitava da sua posição privilegiada. Havia figuras que serviam na corte há vários anos, como Mossolov [chanceler da corte russa entre 1900 e 1916), que viam como o governo se tornava cada vez mais caótico sem poder fazer nada para o impedir. As nomeações e sinecuras eram cada vez mais preenchidas pelos amigos e clientes de Rasputine e parecia não haver nada a fazer senão aceitar o que estava a acontecer. O governo, que já estava em dificuldades, tornou-se ainda mais ineficaz, ridículo e corrupto. Em comparação, a Duma e o movimento dos Zemstvo pareciam cada vez mais eficazes e apelativos. Juntamente com o facto de Nicolau ter assumido o comando do exército, o efeito deste período na reputação do casal imperial foi devastador.

Alexandra Feodorovna
Já há muitos anos que as classes altas da Rússia não gostavam de Alexandra, mas, depois de assumir o governo, não demorou muito até começar a ser odiada veemente. Nicolau dava a impressão de ser um homem falhado e fraco. Ao ressentimento sentido pelas exigências da guerra, começaram a juntar-se as histórias de corrupção, caos e até de traição que se desenrolavam nas posições mais importantes do governo. Tendo em conta os desastres que se iam sucedendo na frente de batalha e a aparente indiferença e incapacidade do governo para resolver os problemas mais básicos, não é de admirar que os rumores relativos à suposta simpatia de Alexandra pelos alemães e à sua relação bizarra com Rasputine se tenham começado a espalhar além da elite e chegado ao resto do país e ao exército que estava cada mais insatisfeito. Em 1916, muitos acreditavam que Rasputine e os seus comparsas eram agentes alemães que tinham como objectivo entregar a Rússia à Alemanha e que a imperatriz de origem alemã estava a trabalhar com eles.

Alexandra Feodorvna
A relação entre Nicolau e Alexandra e a família (tanto a mais próxima, na Rússia, como os parentes mais afastados em Inglaterra e na Alemanha) começou também a ser afectada devido às más políticas e suspeitas da guerra. A correspondência entre Nicolau II e o seu primo direito, o rei Jorge V do Reino Unido, que sempre tinha sido cordial, começou a encher-se de coisas por dizer e explicações não requisitadas. "Tenho estado muito ocupado com algumas mudanças de ministros, das quais deves ter ouvido falar," escreveu Nicolau depois de a Rússia ter batido em retirada várias vezes em meados de 1915. "Relativamente à retirada na Galicia (...) teve de ser feita para salvar o nosso exército - única e exclusivamente devido à falta de munições e espingardas. E este motivo é muito doloroso. Mas o meu país compreendeu-o bem e todos estão a trabalhar para colmatar as necessidades do exército com energia redobrada (...) falta pouco para se completar um ano desde que esta guerra terrível rebentou e só Deus sabe quanto tempo poderá durar - mas vamos lutar até ao fim!". A resposta de Jorge pegou noutra crítica implícita: "posso garantir-te que aqui na Inglaterra estamos a fazer todos os possíveis para produzir as munições e armas necessárias e estamos a enviar tropas dos nossos novos exércitos para a frente de batalha o mais rapidamente possível". Entretanto, Minny [Maria Feodorovna, mãe do czar), cuja relação com Alexandra se tinha deteriorado gravemente desde que a imperatriz começou a dispensar ministros, - "está a arruinar-se a ela e à dinastia", disse a Kokovtsov - contava histórias dos seus excessos à irmã, a rainha-mãe de Inglaterra. "Tenho a certeza que se acha a imperatriz Catarina deles," escreveu a rainha Alexandra ao seu filho Jorge- A opinião que a família real britânica tinha de Alexandra piorava cada vez mais.


Nicolau II (dir.) com o primo Jorge (esq.) e o tio, o rei Eduardo VII de Inglaterra (centro).
Até Sir George Buchanan [embaixador do Reino Unido na Rússia] começou a acreditar nos rumores de que Alexandra tinha simpatias alemãs. Estava convencido de que a imperatriz estava a afastar os políticos moderados favoráveis à Inglaterra como Sazonov, que foi dispensado em 1915, para os substituir por conservadores favoráveis à Alemanha que queriam afastar a Rússia da Entente. O embaixador questionou-se se ela estaria a conspirar contra a aliança, mas, no final, decidiu que a imperatriz não passava de um fantoche de Rasputine. No entanto, Buchanan estava completamente errado. O casal imperial estava completamente dedicado à guerra. Era o seu país que se começava a revoltar contra ela. Nicolau não conseguia sequer pensar em mais derrotas para a Rússia. Alexandra tinha renunciado o seu país-natal que, segundo contou a Pierre Gilliard, se tinha tornado "um país que não conheço e que nunca conheci". Segundo o embaixador francês, a imperatriz apresentava-se como um mulher inglesa "tanto no seu aspecto exterior, na sua pose, como numa certa inflexibilidade e puritanismo". Ninguém acompanhava os acontecimentos do exército britânico com mais devoção. Quando o seu irmão, Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt, tentou entrar em contacto com ela através de um antigo empregado que vivia na Áustria, Alexandra recusou-se a fazê-lo.

Alexandra e Ernesto Luís
Texto retirado em parte do livro "The Three Emperors - Three Cousins, Three Empires and the Road to World War One" de Miranda Carter

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Xenia Alexandrovna no Exílio


Ao longo de toda a sua vida no exílio, a grã-duquesa Xenia fez os possíveis para manter certos aspectos da sua vida anterior. Começou a pintar novamente, vendendo alguns dos seus trabalhos a instituições de caridade. Agarrou-se aos seus criados russos, principalmente à lavadeira Anna Belousoff. A optimista Belousoff, que chegou a ter dez serventes e um cozinheiro, tinha sempre uma mala feita, pronta para um regresso iminente à Rússia. Tal como o príncipe Dmitri [filho de Xenia] recordou: "Ela costumava dizer: 'vamos regressar', e continuou a fazê-lo sempre até morrer com mais de noventa anos."

Xenia com a filha Irina
Mas a nostalgia que Xenia sentia pelo passado teve de se adaptar a assuntos mais urgentes, principalmente às suas finanças. Em 1921, o tutor dos seus filhos, Mr. Stewart, ajudou-a a abrir uma conta no banco Coutts, mas esta experiência começou mal: com mil libras de crédtico, Xenia gastou imediatamente noventa e oito no Harrods, uma soma equivalente a duas mil libras nos dias de hoje. Nesse mesmo ano, um encontro infeliz com um burlão americano custou-lhe dez mil libras. O homem tinha-lhe prometido milhões se ela investisse num inovador processo de impressão de fotografias. Foi preso depois de ter defraudado uma mulher e lhe ter ficado com o relógio, foi preso durante três meses e deportado para os Estados Unidos.

Xenia com a mãe Maria, a filha Irina e a neta Irina.
Nesta altura, o rei Jorge V decidiu intervir, tendo chegado a acordo para pagar duas mil e quatrocentas libras por ano à prima. Em 1925, decidiu também instala-la em Frogmore. A carta de agradecimento de Xenia é efusiva ao ponto de se tornar namorisqueira: "A sério Georgie, é muito bom e gentil da tua parte. Tive de te escrever imediatamente, mas estraguei muitas folhas de papel porque me sentia tímida! E não sabia bem o que estava a acontecer." Se soubesse que Jorge não tinha tentado salvar o czar, talvez Xenia não se sentisse tão agradecida.

O rei Jorge V do Reino Unido
Embora as suas necessidades práticas imediatas tivessem sido satisfeitas, Xenia teve ainda de enfrentar uma série de golpes inesperados. Após a morte de Lenine em 1924, os bolcheviques começaram a vender bens confiscados. Tesouros que tinham pertencido à família imperial começaram a aparecer em Inglaterra. A certa altura, um conhecido de Xenia mostrou-lhe uma caixa jade com uma coroa imperial estampada. "Tenho curiosidade em saber de quem seriam estas iniciais", disse ele. Quando Xenia respondeu: "São minhas," o homem, um coleccionador, voltou a colocar a caixa na janela e não disse nem mais uma palavra.

Xenia com o marido Sandro
Noutra ocasião, a rainha Maria apareceu com uma caixa cor-de-rosa onix Fabergé que servia para guardar cartas. Perguntou a Xenia o que achava dela. Xenia reconheceu-a imediatamente e disse: "Isso costumava estar em cima da minha escrivaninha". A partir daí, a rainha Maria passou a guardar a caixa num armário. Apesar de tudo, a rainha Maria não se sentiu minimamente mal por saber que a caixa de cartas pertencia a outra pessoa. A sua paixão por adquirir bens de outras pessoas era tão bem conhecida que os seus tesouros eram cuidadosamente escondidos dos seus convidados.

A rainha Maria do Reino Unido (Maria de Teck)
Em 1928, a dor de Xenia ao perder a mãe seria posta em segundo plano devido ao surgimento de uma campanha que apoiava uma mulher que dizia ser a sua sobrinha, a filha mais nova do czar, Anastásia. O processo que se seguiu, que foi o golpe final às já de si precárias finanças de Xenia, arrastar-se-ia ao longo de cinquenta anos. O problema da herança não se poderia resolver enquanto não se provasse que o czar, a esposa e os cinco filhos estavam mortos. Na década de 1930, Xenia visitou uma prima sua, a princesa Xenia Leeds, que acreditava na pretendente. A princesa tinha recebido 'Anastásia' na sua propriedade de Long Island durante vários meses e dizia que a sua suposta prima tinha reconhecido a voz do príncipe Dmitri do outro lado do campo de ténis.

Xenia Leeds, filha do grão-duque Jorge Mikhailovich, uma das únicas  Romanov que deu crédito a Anna  Anderson
Nos anos que se seguiram, as tragédia foram-se misturando com pequenas preocupações à medida que Xenia lutava para conseguir pagar sanitas, utensílios de cozinha e um serviço de água quente do governo britânico. As contas seguiam primeiro para o tesouro do estado, de onde eram posteriormente enviadas para o palácio real. "Uma vez que a grã-duquesa é muito pobre," explicou o gerente da fortuna privada do rei de forma severa, "o rei tem vindo a adquirir o hábito de pagar-lhe alterações e melhoramentos."

Xenia com dois dos seus netos
O rei Jorge V tinha tentado conter os gastos de Xenia durante vários anos, mas, em 1934, um surto de febre escarlate em Frogmore fez com que o seu sucessor, Eduardo VIII, sugerisse que Xenia se mudasse para Wilderness House, em Hampton Court. Os médicos tinham ficado alarmados quando encontraram mais de vinte convidados em Frogmore.

Xenia com a mãe Maria e o filho Rostislav
Foi construída uma capela ortodoxa na sala-de-estar de Wilderness House e Xenia instalou-se de forma satisfatória, não partilhando nenhuma das opiniões de Capability Brown que achava que a casa tinha "quartos desconfortáveis, uma cozinha ofensiva e escritórios maus."

Em 1938, o ambiente russo da casa de Xenia foi apimentado com a chegada de uma mística russa chamada Mãe Marta. "É uma freira (...) o Bertie e a Elizabeth conhecem-na," escreveu Xenia, de forma breve, numa carta dirigida à rainha Maria. A Mãe Marta tornou-se uma "figura controversa na família", como disse mais tarde um dos netos de Xenia, Alexandre. As pequenas princesas inglesas, Isabel e Margarida, tinham ficado muito surpreendidas com a sua parente russa, cantando a música "Volga Boat Song" [A Canção do Barco do Volga], sempre que passavam pela casa de Xenia. Agora ficaram ainda mais surpreendidas com a Mãe Marta, reparando principalmente nos seus pés grandes. Ambas as irmãs achavam que ela era um homem.

Isabel II e a irmã Margarida
James Pope-Hennessey, que visitou Xenia em finais da década de 1950, confirmou a opinião das duas irmãs, dando uma descrição elaborada do aspecto da Mãe Marta. "Usava uma touca de linho desarranjado e até mesmo amassado, cor de chá, atado na nuca com duas fitas. Tem a cara de um velho poderoso". Depois de terem passado pouco mais de vinte minutos juntos, Pope-Hennessey e Xenia foram interrompidos pela Mãe Marta, que tentou acabar com o encontro. Pope-Hennessey comparou imediatamente a grã-duquesa a um "pássaro selvagem excessivamente nervoso... encurralado". O facto de Xenia sentir pena desta freira melancólica pode ter sido um sinal da sua generosidade  ou da sua ingenuidade, que, segundo a grã-duquesa, estava "reduzida a esta existência, a saúde arruinada, os nervos abalados e eu sento-me e olho para ela, com o coração partido e mais preocupada do que as palavras podem descrever, acabando também por me sentir mal".


Xenia com a filha Irina e alguns dos seus netos
Xenia morreu em Hampton Court a 20 de Abril de 1960, rodeada pelos seus adorados netos. Segundo uma biografia: "A Mãe Marta apareceu carregando uma caixa com uma etiqueta a dizer 'véus negros de luto' que tinha sempre preparada para qualquer eventualidade". Depois do funeral desapareceu.

Xenia deixou 117,272.16 libras em testamento. Foi enterrada em Roquebrune, perto de Nicem ao lado do seu marido Sandro. No fim, o seu desejo de ser enterrada em Ai-Tudor, mas, segundo o seu filho Dmitri, Roquebrune foi escolhida por ser tão parecida com a Crimeia. 

Xenia em Inglaterra


Texto retirado do livro "The Russian Court at Sea" de Frances Welch.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Biografia Xenia Alexandrovna

A Grã-Duquesa Xenia da Rússia nasceu às quatro da manhã do dia 6 de Abril de 1875 no Palácio de Anichkov em São Petersburgo. O seu pai era o Imperiador Alexandre III da Rússia e a sua mãe a Imperatriz Maria Feodorovna da Rússia.

O seu avô paterno, o Imperador Alexandre II da Rússia ficou encantado com o nascimento da sua nova neta, tal como demonstram as palavras do seu manifesto anunciando o seu nascimento. “No 25º dia do presente mês de Março [a Rússia utilizava um calendário diferente] a nossa adorada nora, Sua Alteza Imperial, a Czarena, esposa de Sua Alteza Imperial, o Czarevitch, trouxe a este mundo uma filha que recebeu o nome de Xenia. Recebemos este novo membro da família com uma nova graça de intervenção divina.”

Xenia no colo do pai Alexandre III

A pequena Xenia foi baptizada no dia de aniversário do seu avô a 17 de Abril de 1875 na capela do Palácio de Inverno. A pequena Grã-Duquesa usou um vestido de baptizado feito pela sua mãe de algodão e renda. Tinha um babete removível com o símbolo da família Romanov bordado e uma coroa imperial. Os padrinhos de Xenia foram a sua avó paterna, a Imperatriz Maria Alexandrovna da Rússia, o seu avô materno, o Rei Cristiano IX da Dinamarca, o irmão do pai, Grão-Duque Vladimir Alexandrovich e a irmã mais nova da mãe, a Princesa Thyra da Dinamarca (mais tarde Duquesa de Cumberland).

Xenia em 1876

A tia de Xenia, a Princesa de Gales (mais tarde Rainha Alexandra do Reino Unido) escreveu à mãe da bebé, sua irmã, “Graças a Deus que está tudo acabado e que passaste por tudo bem e que tens uma menina!!! Sofreste muito? Minha pobrezinha Minny – ou tiveste de beber um pouco de Clorofórnio desta vez? Afinal prometeste-me que o farias… Xenia ou lá como se chama a criança, sim é um nome muito bonito, quem se lembrou dele?” A tia de Xenia, Alexandra manteria sempre um grande interesse na sua sobrinha, uma vez que esta nasceu no mesmo dia que o seu filho, o Príncipe John, que morreu 24 horas depois. A prova está na grande quantidade de presentes que lhe enviava de Inglaterra. Alexandra chamava à sua sobrinha Xenie.

Xenia com 2 anos de idade

Xenia tinha dois irmãos mais velhos, o futuro Imperador Nicolau II e o Grão-Duque Jorge Alexandrovich, bem como dois irmãos mais novos, o Grão-Duque Miguel Alexandrovich (que foi durante um breve período de tempo o Imperador Miguel II da Rússia) e a Grã-Duquesa Olga Alexandrovna. Xenia e os irmãos foram criados de forma simples, principalmente no Palácio de Gatchina. Quando era mais nova, Xenia era uma “maria-rapaz” e muito tímida.


Em Fevereiro de 1880, um grupo de niilistas conseguiu entrar no Palácio de Inverno e colocaram uma bomba na sala de jantar da família. A bomba explodiu e causou grandes danos, mas felizmente a família tinha atrasado o jantar e ninguém ficou ferido. O pai de Xenia enviou-a a ela e aos irmãos imediatamente para o Palácio de Yelagin onde estariam em segurança. A mãe de Xenia escreveu à sua mãe na Dinamarca, “As pobres crianças estão felizes por estar fora da cidade e a aproveitar este lugar.”



 Tragicamente, no dia 13 de Março de 1881, quando tinha 6 anos, Xenia testemunhou a morte do seu avô Alexandre II que foi assassinado por um revolucionário numa explosão. O seu pai ascendeu ao trono e tornou-se o Czar Alexandre III. O novo Czar não perdeu tempo e mudou toda a família do perigo de São Petersburgo para a segurança e conforto do Palácio de Gatchina. Gatchina era um vasto palácio com torres, muros altos e alta segurança que ficava a 48 quilómetros de São Petersburgo. Antes de se tornar na casa de Alexandre III e da sua família, pertenceu a Paulo I. Alexandre e a família escolheram viver numa das alas do palácio, no andar mezzanino. Infelizmente os seus quartos foram destruídos durante a invasão Nazi da Rússia, O quarto de Xenia era simples, tal como os dos seus irmãos e também ela dormia numa cama amovível. Mas ela tinha um pouco mais de conforto com um quarto de vestir e cadeiras confortáveis.

Palácio de Gatchina

Xenia, como os seus irmãos, recebeu uma boa educação de tutores privados com especial atenção para a aprendizagem de línguas estrangeiras. Além do Russo nativo, Xenia aprendeu Inglês, Francês e Alemão. Surpreendentemente, Xenia nunca soube falar a língua nativa da mãe, Dinamarquês. Os seus pais eram grandes defensores da utilização construtiva do tempo livre. Xenia divertiu-se enquanto criança aprendendo culinária, trabalhos manuais e como fazer fantoches para os teatros das crianças, incluindo as roupas. Ela também gostava de jogar jogos com os irmãos e também de cavalgar e pescar no lago do palácio. Xenia escreveu, “A mamã e eu fomos ao Admirador [edifício da marinha em São Petersburgo] onde alimentamos patos e depois, levamos um marinheiro e ele pescou connosco. Começamos na Moya e acabamos na ponte grande perto de Menagerie onde fomos para terra e começamos a escolher o ângulo. Foi muito divertido!”
Xenia com a mãe, Maria Feodorovna

Xenia também gostava de desenhar, de ginástica e de tocar piano. A Religião também era muito importante. Xenia realizou a sua Primeira Comunhão em 1883. Sobre a ocasião, a sua mãe escreveu, “Ela esteve muito séria durante toda a sexta-feira e qualquer um percebia que ela estava a pensar muito sobre isso.” Mais tarde, nesse mesmo ano, Xenia esteve presente na coroação dos pais no Kremlin de Moscovo. A sua mãe perguntou às filhas sobre a experiência do seu primeiro evento social, “ela não sabia muito bem – ela não falou e olhou para tudo e curvou-se perante todas as pessoas, como fazia.” Mais tarde nesse ano acompanhou os pais a Copenhaga para a consagração da nova Igreja Ortodoxa em Bredgado.

Olga Alexandrovna, Maria Feodorovna e Xenia Alexandrovna

Xenia, como o resto da família, gostava particularmente das férias de Verão “fora da prisão” na Rússia para o país natal da mãe, a Dinamarca. As reuniões de família em casa dos seus avós maternos (o Palácio de Fredensborg) eram ocasiões divertidas e barulhentas e era frequente ela juntar-se aos seus primos mais novos para andar de patins. Foi em ocasiões deste tipo que ela conheceu a sua amiga de uma vida inteira, a Princesa Maria da Grécia, filha do rei Jorge I da Grécia.

O pai de Xenia gostava tanto de Fredensborg que comprou uma casa modesta mesmo à saída dos portões do palácio em 1885. Quanto a Xenia, era muito conhecida na Dinamarca ao ponto de o compositor Valdemar Vater lhe ter prestado um tributo escrevendo o “Polka Mazuraka de Xenia”. Além das visitas à Dinamarca, a família de Xenia adorava refugiar-se no seu iate para a costa finlandesa. Em 1889, o governo finlandês ofereceu uma casa de Verão ao Czar em Langinkoski. Aí eles costumavam pescar salmão no rio Kymi enquanto a mãe cozinhava sopa de salmão na cozinha.


Em 1884, o Grão-Duque Luís IV de Hesse fez uma visita ao Palácio de Peterhof juntamente com a sua família para o casamento da sua segunda filha, Ella com o tio de Xenia, o Grão-Duque Sergei Alexandrovich da Rússia. Foi a primeira vez que Xenia viu a sua futura cunhada Alexandra Feodorovna que na altura tinha 12 anos e ainda se chamava Alice. As duas deram-se muito bem e brincaram juntas durante muito tempo. A sua nova tia Ella também criou um laço muito especial com Xenia e com o seu irmão Nicolau. Em 1888, Xenia e Alexandra começaram a escrever uma à outra. Xenia era a “galinha” e Alexandra a “velha hen”.

Xenia com 16 anos

Xenia e a sua família viviam em constante medo de morte às mãos dos terroristas. Em 1887, quando a família estava prestes a entrar num comboio para fazer a viagem de regresso a Gatchina de São Petersburgo, o seu pai foi informado de que vários estudantes tinham sido detidos por transportarem livros que continham bombas e que tinham como objectivo ser atiradas à família imperial. Um dos cinco terroristas enforcados em resultado desta tentativa de assassinato foi Alexandre Illyich Ulyanov, irmão mais velho de Vladimir Lenine. Em Outubro de 1888, a família estava a viajar do Cáucaso quando, subitamente, o comboio onde seguiam descarrilou. Xenia foi a primeira a sair dos destroços. O seu pai tinha conseguido manter o tecto da carruagem suficientemente alto para que todos conseguissem rastejar para fora. Apesar de a culpa do acidente se prender com problemas técnicos, nunca foi excluída a hipótese de que uma bomba tinha sido escondida no comboio.

Xenia (ultima da direita) com a família

Xenia e o seu primo, o Grão-Duque Alexandre Mikhailovich, brincavam juntos desde a infância e a sua relação começou como sendo simplesmente amigos. Quando chegou à adolescência, Xenia apaixonou-se pelo seu primo 9 anos mais velho que era um grande amigo do seu irmão Nicolau. Em 1886, quando Alexandre de 20 anos estava a servir na marinha, Xenia de 11 anos enviou-lhe um postal quando o seu navio se encontrava no Brasil, “Felicidades e volta depressa! A tua marinheira, Xenia.” Em 1889, Alexandre escreveu sobre Xenia, “Ela tem 14 anos. Acho que gosta de mim.”

Xenia e Alexandre queriam casar-se desde quando ela tinha 15 anos. Foi uma atracção na qual os seus pais não estavam inclinados para confiar, uma vez que Xenia era muito nova e eles não tinham a certeza sobre a personalidade de Alexandre. Finalmente, em Janeiro de 1894, os pais de Xenia aceitaram o noivado depois do pai dele, o Grão-Duque Miguel Nikolaievich, intervir, apesar da Czarina Maria Feodorovna se queixar da arrogância e falta de educação de Alexandre. O casal casou-se no dia 6 de Agosto de 1894 no Palácio de Peterhof e a sua prima Maude, futura rainha da Noruega, comentou sobre a ocasião: “A pequena Xenia estava muito querida como noiva, foi um dia esgotante para ela. Teve de pôr a coroa e a tiara antes de todas nós (…) O calor na igreja era insuportável uma vez que havia velas e candelabros e demasiada gente para um espaço tão pequeno. Podes imaginar como foi desconfortável – a cerimónia durou quase duas horas.” A irmã mais nova de Xenia, Olga, escreveu sobre a alegria do seu casamento, “O Imperador estava tão feliz. Foi a última vez que o vi assim.”

Eles passaram a noite de núpcias no Palácio de Ropsha e a lua-de-mel em Ai-Todor (a propriedade de Alexandre na Crimeia). Durante a lua-de-mel, o pai de Xenia começou a adoecer e morreu no dia 1 de Novembro de 1894. Xenia escreveu sobre a triste perda do seu pai, “Ainda não acredito. Parece impossível que o nosso adorado anjo tenha partido e deixado a sua pobre e miserável família de coração partido e a chorar por ele. Mas ele está feliz agora. Deus não queria que ele sofresse mais.” Com a morte do seu pai, o seu irmão mais velho, Nicolau, herdou a coroa e tornou-se o Czar Nicolau II.

Xenia com o marido Alexandre em 1894

Xenia e Alexandre tiveram sete filhos juntos:

·         Princesa Irina Alexandrovna (1895 – 1970)
·         Príncipe Andrei Alexandrovich (1897-1981)
·         Príncipe Feodor Alexandrovich (1898-1968)
·         Príncipe Nikita Alexandrovich (1900-1974)
·         Príncipe Dimitri Alexandovich (1901-1980)
·         Príncipe Rostislav Alexandrovich (1902-1978)
·         Príncipe Vasil Alexandrovich (1907-1989)


Um dos descendentes de Xenia poderia ser actualmente o líder da Família Romanov, mas todos os seus filhos tiveram casamentos inválidos, por isso, se a monarquia voltasse à Rússia, nenhum deles poderia subir ao trono.

Em 1913, a filha de Xenia, Iria, expressou a sua vontade de se casar com o Príncipe Felix Yussupov, herdeiro da maior fortuna privada da Rússia. Felix tinha decidido que Irina seria uma esposa perfeita, mas Xenia não ficou feliz com a perspectiva de aceitar o casamento da sua única filha com ele devido à sua reputação duvidável. Chegaram a aparecer rumores de que ele teve um caso com o Grão-Duque Dimitri Pavlovich da Rússia. Maria Feodorovna tinha ouvido estes rumores e pediu uma reunião com ele. Ela terá dito, “Não te preocupes, eu farei tudo o que estiver ao meu alcance pela tua felicidade.” A única filha de Xenia casou-se no dia 9 de Fevreiro de 1914 na presença do Czar que a levou até ao altar.


Infelizmente a atracção romântica entre Xenia e o seu marido não durou muito. Durante a última gravidez de Xenia em 1907, Alexandre teve um caso com uma mulher identificada como “Maria Ivanovna” enquanto estava em Biarritz. Um ano depois também Xenia começou um caso com um inglês a quem chamava “Fane” e apenas se referia a ele como “F” nos seus diários. Eles trocaram correspondência até ao inicio da Primeira Guerra Mundial. Depois de Alexandre e Xenia admitirem os casos um ao outro o seu casamento entrou em crise. Apesar de ainda se sentirem apaixonados um pelo outro, começaram a dormir em quartos separados e começaram a levar vidas diferentes. A sua cunhada, a Imperatriz Alexandra Feodorovna comentou sobre o casamento, “Coitada da Xenia, com filhos tão bonitos e a com a filha casada com aquela família imoral – e com um marido tão falso.” Antes da revolução, Alexandre tinha-se desencantado com o rumo da Rússia e com a vida na Corte. Tanto ele como Xenia passavam a maior parte do tempo fora do país, mas ambos regressaram antes do inicio da Primeira Guerra Mundial. Depois da revolução, ambos se separaram e conseguíram escapar da Rússia.


Como se viu anteriormente, Xenia tinha uma relação próxima com o seu irmão e a esposa antes de eles se casarem. Quando Nicolau e Alexandre se mudaram para o Palácio de Inverno depois do casamento, Xenia e Alexandre (conhecido na família como Sandro) passavam longas noites juntos na sala de entretenimento. Alexandra estava isolada do resto da família Romanov e, além das suas duas cunhadas, Xenia e Olga, apenas a Rainha Olga da Grécia a tentava compreender. Eventualmente um grande ressentimento começou a crescer entre Xenia e Alexandra devido ao facto de a primeira, para além da primeira filha, Irina, ter dado à luz apenas rapazes saudáveis. Em contraste, Alexandra tinha quatro filhas seguidas e nenhum herdeiro masculino.

Em 1902, toda a família imperial russa esperava desesperadamente o nascimento de um herdeiro. Xenia escreveu que, nesse ano, Alexandra teve “um pequeno aborto – se lhe podemos chamar um aborto de todo! Apenas saiu um pequeno óvulo!” Alexandra acreditava que estava grávida devido à influência maligna de um charlatão francês chamado Philippe Nizier-Vachot. Vachot tinha convencido a impressionável e desesperada Czarina de que ela estava grávida de um rapaz. Xenia estava preocupada e contou à dama-de-companhia da mãe, “Ainda não consegui chegar perto de encontrar a origem do misterioso, senão falso, Phillipe.”

Finalmente, em Julho de 1904, Alexandra deu à luz um rapaz, Alexis Nikolaievich. A alegria depressa se transformou em desespero quando em Setembro o pequeno Czarevich começou a sangrar do umbigo. Alguns meses mais tarde foi confirmado que o bebé sofria de Hemofilia. O filho doente de Alexandra e os rapazes saudáveis de Xenia eram, na cabeça da Imperatriz, um antagonismo constante. Xenia nunca soubre a verdade sobre os pensamentos de Alexandra durante muitos anos. Infelizmente o nascimento de Alexis resultou no controlo completo da Czarina sobre o seu marido. A chegada de Rasputine também causou tensões. Tal como o resto da família, Xenia era muito céptica em relação aos supostos poderes do “sinistro Gregório”.

Irina (2º da esquerda) com a filha Irina nos braços.

Em 1911, para a desilusão de Xenia, Alexandra estava a pedir a Rasputine para avaliar os potenciais ministros. Num jantar com a sua mãe, o monge siberiano foi o único tema da conversa. Maria Feodorovna foi falar com o seu filho sobre ele e Ella tinha também mostrado preocupação em relação à sua influência com a irmã. Ela escreveu em desespero a Xenia: “Qualquer um sente uma atmosfera demoníaca de má disposição e nojo e intriga como se uma onda negra estivesse a afectar todos que acreditam neste profeta falso. Que Deus nos ajude e ouça as nossas orações. Foi apenas em 1912 que Xenia descobriu através da sua irmã Olga que Alexis tinha Hemofilia. A relação de Xenia e Alexandra sofreu um novo e duro golpe, mas ela continuou muito ligada ao seu irmão. Nicolau visitava-a frequentemente quando estava na Crimeia e ela dava longos passeios com as suas sobrinhas Olga e Tatiana. A sua cunhada raramente a visitava.

Xenia pouco antes da Primeira Guerra Mundial

Além de Nicolau, Xenia era dedicada aos seus outros irmãos, o Grão-Duque Jorge Alexandrovich e o Grão-Duque Miguel Alexandrovich. Ambos estavam destinados a morrer tragicamente antes dela. Jorge morreu de Tuberculose em 1899 e Miguel foi brutalmente assassinado em Perm em 1918. A morte de Jorge, embora esperada, foi traumática, uma vez que agora o seu irmão Miguel estava mais perto do trono. Sem nenhum homem de Nicolau e Alexandra, se ambos os seus irmãos morressem, o trono seria entregue ao Grão-Duque Vladimir Alexandrovich.


Xenia tinha esperança de que Miguel se casasse e partilhasse a sua tristeza quando surgiu a hipótese de uma união entre ele e a Princesa Beatriz de Save-Coburgo e Gotha, mas esta foi negada pela igreja. O nascimento de um rapaz de Nicolau e Alexandra trouxe alivio a ambos os irmãos. Por não poder casar com a Princesa que queria e já não sendo Czarevich, Miguel queria ter uma relação feliz. Isto levou a que se separasse da sua família quando se casou com Natasha Sergeyevna sem a permissão do Czar. O casal foi exilado como castigo. Xenia não descriminou o irmão pela sua escolha, uma vez que ela própria estava a passar por dificuldades no seu casamento e compreendia a sua atitude. Ela recebeu Miguel e a sua esposa em Cannes em 1913 e tentou convencer Nicolau a perdoá-lo. Mais tarde o Czar permitiu a entrada de Miguel na Rússia, mas sem a sua esposa. Xenia também conseguiu acalmar a sua mãe e, finalmente em Julho desse mesmo ano, Maria Feodorovna aceitou encontrar-se com Miguel e até recebeu a sua esposa Natasha.


Como outros membros da família, Xenia estava grata por o seu pai ter mantido a Rússia fora de guerras. No dia 25 de Janeiro de 1904, Xenia escreveu no seu diário, “Foi declarada guerra! Que Deus nos ajude!” A Rússia estava então em guerra com o Japão. No mês anterior, Xenia tinha mencionado ao ministro da guerra que não haveria guerra pois o seu irmão não queria guerra. Ela disse que, “não havia razão para lutar contra o Japão e a Rússia não precisava da Coreia”. O ministro da guerra confessou tristemente que a Rússia não seria capaz de controlar a situação.

Em Fevreiro de 1905, o tio de Xenia, o Grão-Duque Sergei foi morto por uma bomba em Moscovo. Xenia quis ir para o lado de Ella, mas disseram-lhe que a situação era demasiado perigosa. Pouco depois soube-se da derrota da Rússia na Coreia. “Que terrível! Que pesadelo! Porquê, porque estamos a ser castigados por Deus?! Estou a caminhar como se estivesse a sonhar, incapaz de compreender o que se passa”, escreveu ela. Xenia tinha-se mostrado contra a guerra e acrescentou a sua opinião, “Um fim ainda mais estúpido!” Na altura ela encontrava-se na Crimeia com o seu marido e filhos e ficou aterrorizada. Em Outubro, o seu irmão foi obrigado a concordar com a formação de uma Duma. Alguns membros da família viram isto como o fim da autocracia na Rússia. O seu marido demitiu-se da sua posição no Ministério da Marinha Mercante e a família passou o Natal em Ai-Todor na Crimeia por ser perigoso viajar para Norte.


O rebentar da Primeira Guerra Mundial apanhou Xenia e a sua mãe desprevenidas. A primeira estava na França e a segunda em Londres. As duas combinaram encontrar-se em Calais onde o comboio privado de Maria Feodorovna estava à espera para as levar para a Rússia. Elas estavam confiantes de que o Kaiser as deixaria passar, mas quando chegaram a Berlim descobriram que a linha férrea para a Rússia tinha sido fechada. Quando ouviram que o Youssoupovs também estavam em Berlim, Maria Feodorovna pediu-lhes para se juntarem a elas no comboio. Depois de uma situação complicada em Berlim, foi dada finalmente autorização para o comboio seguir para a Dinamarca. Xenia e a mãe chegaram a casa pela Finlândia. Quando chegaram a casa, Xenia, Sandro e Maria Feodorovna viveram juntos no Palácio de Yelagin. Miguel obteve também autorização para regressar e juntou-se à família no dia 11 de Agosto.


Xenia e a mãe sabiam que a Rússia não estava em condições para lutar numa guerra moderna, por isso Xenia lançou-se ao trabalho. Ela providenciou o seu próprio comboio para hospitais e abriu um grande hospital para feridos. Também abriu o Instituto Xenia que oferecia próteses artificiais para os incapacitados pela guerra. Em 1915, Xenia e Maria Feodorovna ficaram horrorizadas ao saber que Nicolau pretendia tomar o comando das forças armadas. Ela acompanhou a sua mãe a Czarskoe Selo para o tentar fazer mudar de ideias. Tal como Maria Feodorovna escreveu no seu diário, “fui tentar a minha sorte.” Para aumentar as suas frustações, a conversa não teve qualquer efeito. Xenia regressou de coração partido para o Palácio de Yelagin. Em Fevereiro de 1916, Xenia viajou para Kiev depois de uma doença para ver a sua mãe e irmã. Olga Alexandrovna tinha finalmente recebido permissão do Czar para dissolver o seu primeiro casamento e casou-se em Novembro de 1916 com Nikolai Kulikovsky na presença da sua mãe. Xenia não esteve presente, mas ouviu tudo sobre o casamento da sua mãe. Em Outubro de 1916, cada vez mais deprimida pelo dilema da Rússia, Xenia escrevey à sua mãe, “O que teria acontecido se o querido Papa ainda estivesse vivo? Será que haveria guerra – desordem, fermento intelectual, desacordos – numa palavra, tudo o que está a acontecer ou não – acho que não – pelo menos grande parte do que está acontecer, não aconteceria e podemos dizê-lo com certeza.” Xenia, a sua mãe e a sua irmã Olga pediram ao Grão-Duque Nicolau Mikhailovich da Rússia para escrever ao Czar para o avisar sobre a influência de Alexandra nos assuntos do governo.
Nicolau nem sequer abriu o envelope, mas Alexandra leu a carta e acusou o Grão-Duque de “rastejar atrás da tua mãe e irmãs”.

Xenia com Alexandra

Compreendendo o perigo que corria, Xenia e a sua família mudaram-se para Ai-Tudor na Crimeia. Aí recebiam poucas notícias. Xenia ouviu falar do assassinato de Rasputine e ficou inconfortável com o episódio. Ela escreveu à sua mãe que estava em Kiev, “Dormi pouco. Há um rumor sobre o assassinato de Rasputine!” O cunhado de Xenia tinha sido um dos assassinos. Nos inícios de 1917, Xenia esperava que a sua mãe conseguisse fazer com que o seu irmão se consciencializasse sobre o colapso cada vez mais próximo da Rússia. Ela escreveu em desespero, “Se pudesses falar serias ouvida. Se as coisas não mudarem, será o fim de tudo. As pessoas parecem pôr as suas últimas esperanças em ti e se isso falhar, só pode acabar mal.”


A sua mãe achava que não podia fazer nada e não tinha intenções de regressar a São Petersburgo de Kiev. No dia 19 de Fevereiro de 1917, Xenia regressou a São Petersburgo e ao seu palácio. No dia 25 de Fevereiro, escreveu no seu diário, “Há distúrbios na cidade, até dispararam contra a multidão, dizem eles, mas tudo está calmo em Nevsky. Eles estão a pedir pão e as fábricas estão de greve.” No dia 1 de Março de 1917 ela escreveu, “Não há fim para o pesadelo e há tantos rumores por aí. Diz-se que o comboio do Nicky foi parado e que ele foi forçado a abdicar!” Mais tarde ela escreveu, “Infelizmente o Nicky não compreendeu o perigo. Se o Nicolau tivesse reagido mais cedo e garantido as condições impostas pela Duma podia ter salvado o trono. Estas horas fizeram toda a diferença!” Maria Feodorovna escreveu-lhe sobre a reunião com Nicolau em Mogiliev, “Ainda não consigo acreditar que este horrível pesadelo é real!” Mais tarde ela também escreveu, “Não sei nada do pobre Nicky, por isso estou a sofrer horrivelmente.” Xenia tentou ver o seu irmão, mas o Governo Provisório não lhe deu permissão. Não vendo futuro onde estava, Xenia voltou para Ali-Todor no dia 25 de Março, dia do seu 42º aniversário.

Xenia chegou a Ai-Todor onde se juntou com a sua mãe, irmã e marido no dia 28 de Março de 1917. No final de Novembro, Xenia escreveu ao seu irmão Nicolau que estava em exílio em Tobolsk, “O meu coração sangra sempre que penso no que passaste, no que viveste e no que ainda estás a viver! A cada passo houve horrores e humilhações injustas. Mas não temas, o Senhor vê tudo. Desde que estejas saudável e bem. Às vezes parece tudo um pesadelo terrível e que vou acordar e tudo vai estar bem! Pobre Rússia! O que lhe vai acontecer?” Em 1918, enquanto estava na Crimeia, Xenia recebeu a notícia de que o seu irmão Nicolau II, esposa e filhos tinham sido mortos pelos bolcheviques. Quando o exercito vermelho se estava a aproximar cada vez mais da Crimeia, Xenia e a sua mãe conseguiram escapar da Rússia no dia 11 de Abril de 1919 com a ajuda da Rainha Alexandra do Reino Unido, irmã de Maria Feodorovna. O rei Jorge V enviou um navio de guerra britânico que as levou a elas e a outros Romanov da Crimeia pelo Mar Negro para Malta e depois para a Inglaterra. Mais tarde a sua irmã Olga juntou-se à família. Xenia permaneceu no Reino Unido, enquanto que a sua mãe e irmã preferiram partir para a Dinamarca.


Xenia visitava a sua mãe na Dinamarca sempre que podia. Ela estava a viver na Villa Hvidore que ela e a irmã Alexandra tinham construído na costa norte de Copenhaga. Em Outubro de 1928, Maria Feodorovna ficou gravemente doente. Durante esta altura ambas as suas filhas estavam sempre ao seu lado, junto à cama. No dia 13 de Outubro a antiga Imperatriz acabou por morrer. Um jornal dinamarquês escreveu que, “a Dinamarca está de luto pela sua sábia e corajosa filha”.

Xenia nos seus últimos anos

No dia 17 de Maio de 1920, Xenia recebeu os direitos para as propriedades de Nicolau na Inglaterra por ser a irmã mais velha do falecido Czar. O seu valor é de 500 libras. O seu marido Sandro estava a viver em Paris. Em 1925, a situação financeira de Xenia tinha-se tornado desesperante. O seu primo directo, o Rei Jorge V, permitiu que ela vivesse em Frogmore Cottage, uma boa casa no Windsor Great Park. Ela escreveu ao primo em agradecimento, “A sério Georgie, é muito bom e gentil da tua parte. Eu aceitaria tudo excepto ser mantida por outros. Não tenho palavras para te dizer como me sinto.”

Xenia à porta de casa

Mais tarde ela teve de lidar com as afirmações fraudulentas de Anna Anderson que dizia ser a sua sobrinha Anastasia. A sua irmã Olga tinha realçado que se aparecessem mais gastos excessivos por parte da família, a sua mãe deixaria de receber a sua pensão do Rei Britânico. Em Julho de 1928, dez anos depois do suposto assassinato de Nicolau, Alexandra e filhos, todos assumiam que eles estavam mortos e, por isso a família lutava pelas suas possessões, principalmente pela propriedade finlandesa, mas acabaram por perder.


Depois da morte da sua mãe, a venda de Hvidore e das jóias de Maria Feodorovna trouxe algum dinheiro. Pouco depois, Xenia recebeu uma carta de Gleb Botkin, filho do médico da família do seu irmão, acusando-a de estar a tentar roubar aquilo que pertencia à sua sobrinha Anastasia. O seu marido não escondeu os sentimentos que tinha em relação à Botkin numa carta a Xenia, “Obrigado pela tua carta (…) Também pela malvadez do Botkin, que feitio! Estou envergonhado pelo povo russo, Vou procurar conselhos junto de um advogado americano, mas na minha opinião é melhor não fazer nada e esperar pelo ataque deles.” No dia 26 de Fevereiro de 1933, o seu marido Sandro morreu. No dia 1 de Março ele foi enterrado em Roquebrune-Cap-Martin no sul de França e tanto ela como os seus filhos estiveram presentes na cerimónia.

Xenia com os filhos

Em 1934, a Frogmore Cottage tornara-se demasiado pequena para Xenia e a família. O rei mandou adicionar uma nova ala à casa. Em Março de 1937, Cenia mudou-se da Frogmore House para a Wilderness House nos jardins do Palácio de Hampton Court. Xenia continuou a viver lá até à sua morte no dia 20 de Abril de 1960. Mesmo apesar das dificuldades por que passava na altura, Xenia deixou uma pequena quantia para cada um dos seus filhos.

Xenia com o vestido da corte em 1893