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sábado, 12 de março de 2011

Casamentos Morganáticos - Paulo Alexandrovich e Olga Valerianovna Paley

Olga Paley e Paulo Alexandrovich
O grão-duque Paulo Alexandrovich, filho mais novo do czar Alexandre II, sempre tinha levado uma vida calma, seguindo rigorosamente os padrões impostos a um membro da realeza. Quando nasceu, o casamento dos pais já se encontrava, para todos os efeitos, acabado e a sua mãe começava a mostrar os primeiros sintomas de tuberculose, que a obrigavam a passar o inverno longe do clima rigoroso da Rússia. Por este motivo, Paulo passou grandes períodos da sua infância no estrangeiro, principalmente no sul de França e em Hesse-Darmstatd na companhia da mãe, da irmã Maria e do irmão Sérgio. Assim, Paulo tinha uma mentalidade mais aberta ao Ocidente e uma educação mais refinada do que os seus irmãos mais velhos, embora tivesse sido um grande patriota russo ao longo da sua vida.

Paulo Alexandrovich em criança
Por ter sido criado longe da Corte, Paulo tornou-se muito tímido e pouco dado à pompa e circunstância desta. A sua adversão por cerimónias e formalidades seria uma constante ao longo de toda a sua vida. O facto de ter herdado a constituição e saúde fracas da mãe ajudavam ao seu isolamento. Depois da morte da mãe em 1880, quando Paulo tinha 20 anos, a grã-duquesa Olga Constantinovna, sua prima em segundo grau, sugeriu que ele devia trocar o sul de França pela Grécia. Tal como a imperatriz Maria, Paulo tinha problemas de pulmões que o forçavam a refugiar-se do inverno rigoroso russo e, por isso, aceitou a sugestão.

Embora já conhecesse a sua prima Alexandra da Grécia das visitas que esta tinha feito à família na Rússia, foi durante as suas estadias na Grécia que Paulo a começou a conhecer melhor e foi lá que ele a viu crescer. Nas suas primeiras visitas ela era ainda uma criança de 10 anos, mas à medida que crescia, Alexandra foi-se apaixonando pelo seu primo Romanov e ele viu-se subitamente a sentir o mesmo. No entanto, antes de começar a nutrir sentimentos pela sua prima grega, corriam rumores em São Petersburgo de que Paulo estava apaixonado pela nova esposa do seu irmão Sérgio, a grã-duquesa Isabel Feodorovna, principalmente porque ele tinha ido com o irmão e a cunhada na sua lua-de-mel. Estes rumores nunca foram confirmados, mas é provável que tenham tido um fundo de verdade.
Paulo e Sérgio com o grão-duque Luís III de Hesse-Darmstadt e as suas primas Isabel e Irene
Paulo e Alexandra casaram-se no dia 17 de Junho de 1889 e tiveram um casamento extremamente feliz e harmonioso. Sérgio e Isabel continuaram a ser uma constante na vida de Paulo, já que os dois casais passam a maioria do tempo juntos e viviam em palácios próximos. Mesmo quando Sérgio foi nomeado Governador-geral de Moscovo na primavera de 1891, Paulo e Alexandra continuaram a visitar o casal muito frequentemente.

A primeira filha do casal, a grã-duquesa Maria Pavlovna, nasceu nove meses e um dia depois do casamento. Foi muito desejada e mimada pelos pais e pelos tios que ainda não tinham tido filhos. Menos de 6 meses depois do nascimento de Maria, Alexandra estava novamente grávida.

Quando estava no sétimo mês de gestação, Sérgio e Isabel convidaram Paulo e Alexandra para passar férias em Moscovo com eles na companhia da filha Maria. Durante um passeio pelos jardins, Alexandra decidiu saltar directamente da margem para um barco que estava atracado no lago e caiu. A principio nada aconteceu, mas no dia seguinte, durante um baile dado em sua honra, Alexandra desmaiou e pouco tempo depois deu à luz o seu segundo filho, Dmitri, prematuramente. O bebé sobreviveu, mas Alexandra entrou em coma e morreu seis dias depois.

Paulo com a sua primeira esposa, Alexandra
Paulo ficou muito afectado com a morte da esposa. No dia do funeral tentou atirar-se para dentro da cova quando o caixão estava a ser enterrado, mas foi impedido por Sérgio, pelo grão-duque Constantino Constantinovich (tio de Alexandra) e outros membros da família. Depois do golpe, a família decidiu enviar Paulo para a Criméia para descansar enquanto que os seus filhos foram deixados com os tios em Moscovo. A estadia durou quase um ano, mas quando regressou Paulo parecia ter recuperado parte da sua vitalidade.

Passou a viver com os filhos em São Petersburgo, algo que entristeceu Sérgio que se tinha afeiçoado aos sobrinhos. Lá a família vivia calmamente. Paulo foi forçado a contratar amas e governantas, mas fazia questão de tomar todas as refeições na companhia dos filhos. Durante muitos anos ninguém acreditava que o grão-duque se fosse voltar a casar ou sequer encontrar uma amante apesar do encorajamento para tal por parte do seu irmão Vladimir Alexandrovich de quem se tinha aproximado após a morte da esposa.

Paulo com os filhos Maria e Dmitri, o irmão Sérgio e a cunhada Isabel
No entanto, os acontecimentos começaram a mudar rapidamente quando, em 1895, o grão-duque Vladimir Alexandrovich contratou um novo ajudante-de-campo chamado Erich von Pistohlkors que Paulo conheceu durante uma visita ao palácio do irmão. Erich gostou tanto do grão-duque que, algum tempo depois, durante uma parada militar em São Petersburgo, fez questão de o apresentar à sua esposa e mãe dos seus três filhos, Olga Valerianova von Pistohlkors.

Olga era filha de um médico proeminente de Czarskoe Selo e tinha-se casado com o General von Pistohlkors em 1884, tornando-se uma figura conhecida entre a sociedade aristocrática de São Petersburgo pela sua inteligência e personalidade alegre, descontraída e extrovertida. Todos pensavam que tinha um casamento harmonioso com o marido, mas a verdade era que, como muitos outros homens da sua época, Erich tinha amantes e a própria Olga gostava de correr riscos ao seduzir vários homens da aristocracia e nobreza para se vingar do marido. Entre os homens com quem tinha namoriscado inocentemente incluía-se o próprio grão-duque Vladimir que esteve apaixonado por ela durante um breve período. Mas com Paulo foi diferente.

Olga Valerianovna com o seu primeiro marido Erich

Olga gostava da simplicidade de Paulo, das suas conversas inteligentes, do charme da sua timidez natural e, acima de tudo, do amor e fidelidade com que recordava a sua esposa Alexandra. Em resumo, era o completo oposto do seu marido. Paulo, por seu lado, gostava de Olga porque ela era o seu completo oposto: era positiva, adorava a vida em sociedade e era extrovertida, no entanto receava que um envolvimento com ela fosse uma ofenda para Erich.

No entanto, o seu irmão Vladimir diminuiu a importância que o seu irmão queria dar à moralidade do caso. Quando percebeu que Paulo estava finalmente interessado em ter um caso com uma mulher mais de quatro anos depois da morte da sua esposa, não só o apoiou como encorajou, revelando que Erich também tinha as suas amantes e que o casamento era uma fachada. Na altura Vladimir queria apenas que o irmão se distraísse e talvez um caso amoroso sem importância lhe desse vontade suficiente para que ele começasse a procurar uma segunda esposa entre as casas reais europeias.
Olga Valerianovna
O caso acabou por acontecer. Paulo e Olga começaram a encontrar-se discretamente e, durante muito tempo, nem o marido dela desconfiou do que estava a acontecer, apesar de Paulo nunca ter gostado da ideia de a sua amante continuar casada. Vladimir tinha esperado que o romance durasse apenas alguns meses, mas quando ao fim de um ano continuava e que Paulo era cada vez menos cuidadoso, começou a ficar preocupado.

As suas preocupações ainda se tornaram maiores quando, em Janeiro de 1897, Olga deu à luz um filho que todas as circunstâncias indicavam ser de Paulo. Foi a partir daí que o grão-duque se cansou de esconder. Assim que soube do nascimento da criança, trouxe os dois consigo para o seu palácio de São Petersburgo e o escândalo rebentou. A criança foi chamada de Vladimir, em honra do tio através do qual os seus pais se tinham conhecido, mas como Olga continuava casada, a lei obrigou a que ele recebesse o apelido do marido dela. Paulo ficou indignado.

Vladimir, o primeiro filho de Paulo e Olga
Pouco tempo depois do nascimento, Paulo foi falar com o seu sobrinho, o czar Nicolau II e informou-o do caso que tinha mantido e do seu filho, pedindo-lhe que permitisse um divórcio entre Olga e o marido. O czar ficou chocado e recusou-se a fazê-lo. Paulo não aceitou a resposta.

Para chamar as atenções do sobrinho, começou a passear publicamente com Olga, os filhos do primeiro casamento e o novo bebé, escandalizando ainda mais a sociedade de São Petersburgo e, durante um baile no Palácio de Inverno que tinha sido organizado pelo czar e pela esposa, resolveu aparecer com Olga, ainda casada, pelo braço. O casal foi educadamente convidado a sair pela imperatriz e no dia seguinte Paulo foi chamado ao palácio. Nicolau concordou em dar o divórcio a Olga, mas apenas com a condição de que o tio não se casaria com ela. Paulo deu a sua palavra, mas tinha todas as intenções de quebrá-la.

Paulo e Olga com o grão-duque Alexei Alexandrovich
Pouco tempo depois de Olga se ter divorciado oficialmente e de Paulo ter enviado os seus dois filhos do primeiro casamento para casa dos tios, o casal fugiu da Rússia com o filho Vladimir. Durante dois anos os três andaram de hotel em hotel por toda a Europa, na esperança de que Nicolau lhes desse permissão para casar, mas tal nunca aconteceu.

Finalmente, no verão de 1902, o casal cansou-se de esperar e casou-se numa igreja em Itália. Assim que a notícia chegou aos ouvidos do czar, Paulo perdeu todos os seus títulos e posições militares assim como o direito de viver na Rússia permanentemente. Durante este período o grão-duque ainda tentou obter a custódia da sua filha Maria, mas a sugestão foi recusada. Os seus dois filhos do primeiro casamento passaram a viver permanentemente com os tios.

Paulo com a filha Irina
Depois do casamento Paulo comprou uma casa em Bologne-sur-sein e passou a viver lá com a sua nova família. Pouco mais de um ano depois do casamento nasceu uma filha que o casal chamou de Irina. Um ano depois dela Olga deu à luz outra menina chamada Natália.

A vida em Paris era calma e idealista. O casal tornou-se a sensação da cidade e por isso tinha uma vida social muito activa. Mesmo assim a família tomava todas as refeições junta, rezava e quase todos os dias conviviam durante uma hora antes de ir dormir, costumes muito raros da aristocracia e nobreza da época. Paulo ressentia-se por estar longe da Rússia e dos seus dois filhos mais velhos, por isso começou a afastar-se cada vez mais da política e a refugiar-se na sua vida familiar.

Paulo com a esposa Olga, os seus três filhos Vladimir, Irina e Natália e os três filhos do primeiro casamento de Olga: Alexandre, Olga e Mariana
Paulo só voltaria à Rússia em 1905 aquando da morte do seu irmão Sérgio. Queria assistir ao funeral dele em Moscovo, mas o czar proibiu-o por temer novos ataques contra grão-duques. Mais uma vez quis levar a sua filha Maria consigo para Paris, mas o czar não permitiu que tal acontecesse, visto que Maria pertencia à coroa e não ao pai. Mais tarde, durante esta visita, Paulo percebeu que Dmitri em particular não queria deixar a tia, uma vez que após a morte do tio Sérgio, sentia que era sua responsabilidade protegê-la. Maria também nunca se separaria do irmão, por isso Paulo acabou por aceitar a decisão do czar.

Quatro anos depois, Paulo descobriu através de uma carta de Maria que esta se encontrava noiva do príncipe Guilherme da Suécia sem que a sua autorização tivesse sido pedida. Paulo ficou furioso e viajou propositadamente à Rússia só para falar pessoalmente com o czar que jurou não ter tido nada a ver com o assunto. O casamento tinha sido arranjado numa colaboração entre Isabel Feodorovna e a sua irmã mais nova, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Depois de falar com o pai, Maria chegou a considerar pensar melhor na união, mas numa carta Irene disse-lhe que se ela desistisse do casamento iria matar a sua tia Isabel e, por isso, decidiu seguir em frente com a união.

Paulo ameaçou não estar presente se a sua esposa e filhos não o pudessem acompanhar, mas depois de uma conversa com a filha acabou por aparecer. O casamento revelou-se um desastre. Embora tivesse tido um filho, Maria viria a separar-se do marido pouco mais de 3 anos depois, passando a viver com o pai e os meios-irmãos em Paris. O divórcio foi oficializado em 1914.

Paulo com os filhos Dmitri e Maria
1914 foi também o ano em que Paulo finalmente regressou à Rússia com a esposa e os filhos. Depois de uma onda de remorso por ter apoiado o casamento de Maria sem pedir a opinião de Paulo, a imperatriz Alexandra Feodorovna convenceu o marido a perdoar o tio em 1912. Assim que soube da notícia, Paulo comprou um terreno no Parque de Alexandre, em Czarskoe Selo e começou a construir um palácio para a família.

As obras ficaram concluidas no final de 1913 e a família mudou-se na Primavera de 1914. Os primeiros meses foram muito calmos e alegres. Vladimir, que já se tinha mudado para a Rússia em 1912 para começar a sua carreira militar, fez grande sucesso na família devido aos seus inúmeros talentos como poeta, pintor e músico e as duas filhas mais novas foram muito bem recebidas pela sua graciosidade. Olga teve mais dificuldade em ser aceite, mas aos poucos foi conseguindo ganhar o respeito da família.

No entanto os dias de felicidade acabaram com o rebentar da Primeira Guerra Mundial no verão.

Palácio Paley em Czarskoe Selo
Vladimir foi imediatamente enviado para as trincheiras, mas Paulo não pôde juntar-se ao filho devido aos graves problemas de saúde que o afligiam na altura. Olga abriu uma oficina no salão de baile do palácio patrocionado pela imperatriz Alexandra que confeccionava sacos-cama e outros produtos de primeira necessidade para os soldados russos.
Paulo não aguentou muito tempo em casa. Logo em 1916 quando começou a melhorar foi nomeado General de um regimento e partiu para a guerra.

Vladimir Paley durante a Primeira Guerra Mundial
Quando rebentou a Revolução Russa em 1917, os Paley foram das últimas famílias Romanov a ser abordada pelo governo de Kerensky. O novo líder chegou a decretar a prisão domiciliária da família em Junho de 1917, mas graças à intervenção de Mariana, filha de Olga, que conhecia os oficiais mais importantes do regime, foram libertados poucas semanas depois.

No entanto, quando rebentou a revolução bolchevique em Outubro desse ano, os dias de calma acabaram. Muitos aconselharam Paulo e Olga a fugir da Rússia enquanto tinham tempo, mas nenhum dos dois reconheceu a gravidade da situação até ser tarde demais. Logo no mês seguinte apareceu um anúncio do jornal que convocava todos os grão-duques e príncipes Romanov para que estes se apresentassem na sede da Cheka em São Petersburgo para se registarem nos seus cadernos. Na altura o grão-duque Paulo estava gravemente doente com uma úlcera no estômago, por isso a sua esposa apareceu em seu nome. Os oficiais da Cheka não ficaram satisfeitos e exigiram que no dia seguinte Vladimir se apresentasse mesmo apesar de não ser um Romanov.

Quando Vladimir se encontrou com os oficiais, estes apresentaram-lhe dois documentos. Num deles era pedido que Vladimir Pavlovich negasse a paternidade do grão-duque Paulo, o outro era uma ordem de exílio. O príncipe escolheu o segundo e partiu para Volodga, na Sibéria em Março de 1918. Foi a última vez que viu a família.

Paulo em 1916, uma das suas últimas fotografias
Paulo conseguiu escapar às primeiras vagas de detenção de membros da família imperial devido ao seu delicado estado de saúde, mas não por muito tempo. A última vez que foi visto em público livremente foi no baptizado do seu neto, Roman Sergeievich Putiatin, filho do segundo casamento da sua filha Maria Pavlovna, no dia 18 de Julho de 1918. A família não fazia a minima ideia que nessa mesma noite Vladimir seria assassinado na Sibéria.

O grão-duque foi preso em Agosto. Olga fez tudo ao seu alcance para o conseguir libertar, passando todo o tempo que podia em São Petersburgo a visitar o marido ou a tentar encontrar-se com oficiais bolcheviques. Os seus esforços acabaram por ser em vão. Em Janeiro de 1919, extremamente débil, Paulo foi fuzilado como um prisioneiro comum. Na altura estava tão fraco que foi alvejado quando estava deitado numa maca.

Olga Paley depois da morte do marido
Olga nunca recuperou do choque da morte do marido. Depois da sua morte fugiu para a Finlândia onde já se encontravam as suas filhas onde descobriu que tinha um cancro de mama. Conseguiu recuperar, mas quando ainda estava em convalescença recebeu outra notícia que a deixou de rastos: em Setembro um grupo de soldados do exército branco descobriu o corpo de Vladimir juntamente com outros membros da família.
Apesar dos seus esforços, os corpos não puderam seguir para Paris, por isso Olga não pôde assistir ao funeral do filho. Olga passou os restantes dez anos da sua vida em Paris, junto das filhas. Irina casou-se em 1924 com o seu primo, o príncipe Feodor Alexandrovich Romanov e Natália em 1927 com o estilista Lucien Lelong. 

Olga morreu em 1929, em Paris, de cancro.

Olga Paley com a filha Natália

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Vídeo - Ensaio de Natalie Paley

A actriz da família ensaia uma cena no seu primeiro filme, "L'Epervier".

Uma Actriz na Família - Biografia de Natalie Paley (2ª parte)


Natalie com uma criação de Lucien Lelong

Lucien Lelong, nascido em Paris no dia 11 de Outubro de 1889, herdou a sua famosa casa de moda do pai. Pai de uma menina, ele era um herói da Primeira Guerra Mundial que tinha recebido várias honras pelo serviço prestado. Com as suas origens aristocráticas e beleza distinta, Natália foi uma lufada de ar fresco para o negócio de Lelong. Para Natalie (como passou a ser conhecida), a posição deste homem significava poder, dinheiro e segurança.

Natalie Paley com Lucien Lelong

Embora ela considerasse com cada vez mais seriedade a ideia de se casar com ele, a sua família e amigos viam a união como estranha devido aos rumores da homossexualidade de Lelong. Apesar disso, o casal contraiu um matrimónio civil no dia 9 de Agosto de 1927. No dia seguinte, sendo seguidos por um grande número de jornalistas, eles casaram-se numa cerimónia religiosa na Igreja Ortodoxa de Santo Alexandre. Para o casamento Natalie usou um vestido criado pelo marido e cativou os olhares das centenas de pessoas que a admiravam. No entanto existem relatos de que ela estava bastante perturbada neste dia.

Natalie e Lucien Lelong no dia de casamento

A reputação de Lucien Lelong cresceu com a ajuda da sua delicada esposa de gostos maravilhosos. Delicada e glamurosa, vestida com vestidos de noite brancos ou pretos e com capas vermelhas e púrpura, ela não seguia nenhuma moda e tinha o seu próprio estilo. Era conhecida pelos seus chapéus e luvas que usava na sua própria maneira. Começou a fazer trabalhos como modelo para o marido e tornou-se uma das pessoas que o fotografo Cecil Beaton mais gostava de utilizar nos seus trabalhos. Muitas das fotografias tiradas por Beaton de Natália apareceram nas revistas "Harper Baazar" e " Vogue" em finais dos anos 20 e ao longo dos anos 30. A Princesa causou sensação quando apareceu a acompanhar o seu marido num evento público usando um casaco curto de noite feito inteiramente de celofane.

Natalie por Cecil Beaton

A nova inspiração dos fotógrafos de moda, não demorou muito até o nome e fotografias dela começarem a aparecer em revistas e jornais, não apenas nas páginas de moda, mas também nas colunas sociais. Não se ficando pela sombra do marido, Natalie criou a sua própria imagem e posição entre a elite parisience.

Apesar de partilharem o mesmo gosto pelas artes e pela moda, muitas coisas separavam o novo casal. Demasiado envolvido com o seu trabalho e apaixonado por uma das suas modelos, Lelong nunca conseguiu compreender as angústias da esposa nem os seus ataques de raiva que a afectavam quando ela se encontrava em público.


Natalie ficou devastada com a morte da mãe em Novembro de 1929 devido a complicações com o cancro que tinha conseguido vencer 9 anos antes. Com a perda da mãe, as memórias de felicidade da infância dela perderam-se. Mesmo os seus laços com Irina faziam parte do passado.

Enquanto Natalie se tinha tornado numa socialite, a sua irmã mais velha vivia uma vida calma com o marido e o filho, dedicando-se a trabalhos de caridade e à construção de uma escola para meninas russas.


Com a afeição do marido a ser dirigida para outra mulher, Natalie foi à procura de consolação para outro lado. Enquanto passava o Verão de 1930 em Veneza, começou um caso com o carismático dançarino Serge Lifar, cujo talento era admirado por todo o mundo. Um antigo amante do mestre de bailado, Serge de Diaghileff, ele era o acompanhante ideal para Natalie. Tendo sido abusada sexualmente quando criança, ela nunca aceitou outro amor que não o platónico, e assim a relação deles era sentimental e não física. A relação durou quase dois anos. Depois ela seguiu para um outro caso. A escolha voltou a ser estranha.

Natalie Paley na "Vanity Fair" de Abril de 1933

Natália iniciou um curto e ambiguo romance com o escritor Jean Cocteau. Os pormenores sobre este romance são vagos e divergentes. Alguns dizem que os dois tiveram uma relação intensa que resultou na gravidez de Natália. Esta relação terá sido manchada pelo ciume doentio de Marie-Laure de Noailles, uma mulher obsecada por Cocteau que terá feito os possíveis para causar a infelicidade do casal. Supostamente devido à influência de Marie-Laure, Natália terá decidido abortar, uma decisão que entristeceu Cocteau e a perceguiu para o resto da vida. Outros dizem que o escritor terá exagerado o tipo de relação que tinha com a Princesa, uma vez que, de acordo com relatos da altura, Natália seria apenas uma amiga próxima, mas Cocteau costumava passar horas ao telefone com os amigos afirmando que a amava. Os que defendem esta versão dizem mesmo que ela nunca esteve grávida e que essa foi uma invenção de Cocteau. Se realmente existiu um romance, não se sabe, mas Jean Cocteau baseou-se na sua relação com Natália para escrever o livro "Os Meninos Diabólicos" publicado 1939.


Após terminar a sua relação com Cocteau, Natalie decidiu sair de casa do marido e abandonar a vida que tinha construido. Comprou um apartamente em Esplanade dês Invalides onde entertinha a sociedade e os artistas mais proiminentes que jantavam frequentemente com ela. Mas ela cansou-se depressa desta vida e sentiu necessidade de novos desafios. As suas fotografias continuavam a fazer sucesso nas revistas, mas a mente dela estava longe desse mundo. Tão naturalmente como se virou para a moda, virou-se para o mundo do cinema na Primavera de 1933.


O seu primeiro papel foi no filme “L’Epervier”, realizado pelo primo do seu marido, Marcel L'Herbier no qual foi também Lelong a desenhar o guarda-roupa. Para se preparar, Natalie teve aulas de representação com a actriz belga Eve Francis, antiga esposa do realizador Louis Delluc. O enredo de “L’Epervier” era comum, mas o elenco era interessante. A história conta as aventuras de um aristocrata, o Conde George de Dasetta, interpretado por Charles Boyer, e da sua esposa Marina (Natalie), dois jogadores compulsivos que vivem uma vida luxuosa até que ela o deixa por um jovem diplomata, Rene de Tierrache (Pierre Richard-Willm). Depois, informada sobre as tentativas de suicídio do marido, a esposa infiel volta para ele. Filmado nos estúdios parisiences de “Joinville”, “Biarritz” e “Rome”, “L’Epervier” reflectia a vida de Natalie, embora poucos se tenham apercebido disso na altura. Não foi dos filmes com mais sucesso do ano, mas constituiu uma vitória para uma mulher cuja vida parecia vazia.

A crítica adorou Natalie. “Uma estrela está a erguer-se, iluminada por uma chama de promessas”, “um raio de sol numa paisagem gelada”, “Ela parece uma personagem de Andersen, uma daquelas inquestionáveis personagens de contos de fadas com uma cara de anjo,” foram algumas das opiniões que recebeu.

Natalie numa cena de "L'Epervier" com Charles Boyer

Agora que era apelidada de “nova Garbo” e frequentemente comparada à sua amiga Marlene Dietrich, ela começou a acreditar nas suas próprias capacidades e entrou no filme melodramático de 1934, “Le Prince Jean”, novamente com o actor Pierre Richard-Willm, e cujo realizador era Jean de Marguenat. Com a excepção dos protagonistas, o filme em si (que contava a história de um príncipe que, após vários anos numa legião estrangeira, regressa ao seu reino para descobrir que o trono foi ocupado pelo irmão) foi bastante mal recebido e foi um desastre nas bilheteiras.

No filme seguinte, “The Private Life of Don Juan”, teve apenas uma pequena participação. No filme participavam Douglas Fairbanks e Merle Oberon e era realizado por Alexander Kords. O filme foi realizado para o “London Films” e mais uma vez teve pouco sucesso nas bilheteiras. Desiludida com a carreira na Europa, Natalie fez as malas e, no Outono de 1934, respondeu ao convite da Twentieth Century Fox para tentar a sua sorte nos Estados Unidos da América. A imprensa francesa previa um futuro brilhante para a sua estrela. Infelizmente a previsão não se cumpriu.

Natalie Paley por Cecil Beaton

Co-realizado por Roy del Ruth e Marcel Achard, o musical “L’Homme des Folies Bergeres”que iniciou as filmagens em Dezembro de 1934, foi a versão francesa e orginal de “Folies Bergere”. Maurice Chevalier, na sua habitual personagem cortês, interpretou em ambas as versões o papel de dois homens que trocam de identidade por algumas horas. Natalie tinha o papel de Baronesa Genevieve Cassini, interpretada por Merle Oberonna versão inglesa. Ela estava consciente que não tinha dado o seu melhor nesta comédia inesquecível e a estreia do filme na Primaverade1936 não ajudou ao seu lançamento na América.



Natalie sentiu-se mais confortável sob os conselhos de George Cukor, no seu primeiro filme em inglês, “Sylvia Scarlett”, adaptado para o ecrã por John Collier do romance de Compton Mackenzie e que contava com a participação de Katherine Hepburn, Cary Grant e Brian Aherne. Sendo uma das protagonistas, Natalie desempenhou na perfeição a personalidade “Vamp” de Lily Levetsky, uma refugiada russa.


Filmado em Laurel Canyon e Malibu desde meados de Agosto até finais de Outubro de 1935, “Sylvia Scarlett” custou 1 milhão de dólares para ser produzido. A primeira de quatro colaborações entre Katherine Hepburn e Cary Grant (mais tarde eles participariam juntos em “Bringing Up Baby”, “Holiday” e “The Philadelphia Story”), o filme é notável por mostrar a ambiguidade da própria personalidade de Hepburn, reflectindo tanto o seu charme feminino e o seu comportamento masculino. Apesar de ser um dos filmes mais intrigantes dos anos 30, foi um grande fracasso nas bilheteiras e chegou mesmo a classificar Katherine Hepburn como “veneno” para bilheteiras.

Natalie numa cena do filme "Sylvia Scarlett" com Katherine Hepburn

Natalie esqueceu depressa a carreira que tinha para promover, uma vez que tinha encontrado em Cukor o amigo perfeito que procurava. O próprio realizador ficou encantado com o charme dela. Durante toda a sua vida, ele guardou uma das fotos de Natalie tirada por Cecil Beaton na sua casa, uma honra que apenas partilhou com Katherine Hepburn. Também começou uma amizade com Hepburn que duraria até ao final da sua vida. Lançado no dia 3 de Janeiro de1936, o filme não teve sucesso devido à sua ambiguidade sexual. O beijo de Katherine Hepburn com Dennie Moore e certas falas como quando Brian Aherne diz que se sente um pouco “maricas” ao olhar para Katherine Hepburn vestida de homem, chocaram o puratismo americano e não ajudaram em nada a carreira de Natalie Paley.

Uma cena de "Sylvia Scarlett" com Cary Grant

A carreira cinematográfica de Natalie foi muito breve. O seu último filme, “Les Hommes Nouveaux”, foi realizado em 1936 e era um drama sobre o falecido marechal Liautey, um herói da Primeira Guerra Mundial em Marrocos. Contava com a participação de Harry Baur, Gabriel Signoret, Max Michaell e Jean Marais.

Apesar de ela não estar muito interessada em embarcar no projecto, foi convencida por Marcel L'Herbier a interpretar uma bonita viúva, a Condessa Christiane de Sainte-Foy, apanhada pelos segredos do seu passado problemático. A estreia a 22 de Dezembro de 1936 foi um sucesso fenomenal, mas Natalie já se tinha decidido quanto à sua vida. Queria escapar do seu casamento que há muito constituía apenas uma formalidade, da sua carreira, que apenas continuava a subir devido à sua beleza e não ao seu talento e também do seu passado violento que a continuava a atormentar.

Natalie no filme "Les Hommes Noveaux"

Pouco depois do seu divórcio oficial de Lelong, a 24 de Maio de 1937, ela fez declarações oficiais à imprensa de que se iria casar com o produtor teatral John Chapman Wilso nno mês de Setembro.  Tal como Lelong e Cocteau, John Chapman Wilson era abertamente homossexual e os seus romances com o actor Noel Coward e Cole Porter eram bem conhecidos entre a sociedade nova-iorquina, particularmente os pormenores sórdidos sobre o abuso de álcool e drogas partilhado pelo casal, por isso a notícia de que ele se iria casar com a delicada Natalie chocou o público. Talvez tanto a noiva como o noivo fossem igualmente calculistas nesta união. Wilson sabia que a sua bonita e popular esposa lhe poderia abrir muitas portas no seu negócio como produtor da Broadway, enquanto que Natalie gostava do humor dele e o facto de ser homossexual protegia-a da sua incapacidade de manter relações físicas. Mais uma vez ela procurava um companheiro e não um amante.

Natalie com o seu segundo marido, John Chapman Wilson

O mundo que a tinha recebido antes começava a distanciar-se e Natalie caiu na escuridão após a morte do marido. A maior parte dos seus amigos, as testemunhas do seu antigo esplendor, estavam agora mortos. Jean Cocteau, Erich Maria Remarque, Coco Chanel, Noel Coward, Lucien Lelog, e muitos outros tinham já desaparecido. Ela viu-se condenada à solidão. Após 1975, ela fechou-se do mundo e tornou-se uma reclusa. Recusou-se mesmo a receber os poucos amigos e familiares que lhe restavam, apesar de continuar a responder às suas cartas e chamadas. Com a velhice, Natalie ficou cega e recebeu a assistência de familiares do marido e alguns admiradores que cuidaram dela até ao fim. Em 1978 ficou emocionada quando o seu antigo amigo e amante Serge Lifar lhe enviou uma pequena carta na qual utilizou uma citação de Pushkin: “Nunca nos esqueceremos do nosso primeiro amor. O coração da Rússia nunca te esquecerá. E quanto a ti, o meu coração nunca te esquecerá."

No dia 21 de Dezembro de 1981, Natalie tinha caído na banheira e partido o fémur, sendo levada de emergência para o Hospital Roosevelt. Foi operada de urgência, mas a operação correu mal e o estado de saúde piorou. As suas últimas palavras foram sussurradas a uma enfermeira: “Eu quero morrer com dignidade.” Nunca mais voltou a falar.

Natalie Paley tinha 76 anos quando morreu na noite de 27 de Dezembro de 1981. Depois de uma cerimónia privada, foi enterrada ao lado de John Chapman Wilson no cemitério de New Jersey.

Uma Actriz na Família - Biografia de Natalie Paley (1ª parte)


Natália Pavlovna Paley nascida a 5 de Dezembro de 1905, foi um ícone da moda, socialite e actriz nascida em França. O seu pai era o Grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia, filho do czar Alexandre II e tio do czar Nicolau II. Ficou mais conhecida entre o grande público pelo seu nome artístico, Natalie Paley.

Natália era descrita como o sonho dos publicitas de Hollywood. Uma criatura fascinante, descendente da mais rica e famosa família europeia, os Romanov, era a figura viva do “chic” francês e quase demasiado perfeita para ser real. A sua vida romântica e trágica foi algo que a ficção nunca poderia ter igualado. Viveu os últimos tempos da Rússia czarista, os glamorosos anos 30 na alta sociedade parisiense e movimentou-se pelos círculos mais altos de Hollywood e Nova Iorque.

A sua vida floresceu e depois apagou-se. No final tudo o que restou foi uma mulher triste e só que agraciou o seu século como uma rara, mas desperdiçada flor.

Natalie fotografada por Cecil Beaton

Os pais de Natália, o Grão-duque Paulo Alexandrovich da Rússia e a aristocrata Olga Paley, conheceram-se em São Petersburgo por volta de 1895. Na altura ela estava casada com um oficial e era mãe de três crianças. Paulo era também pai de dois filhos, (a Grã-duquesa
Maria Pavlovna e o Grão-duque Dmitri Pavlovich) mas viúvo. A sua esposa, a Princesa Alexandra da Grécia, tinha morrido ao dar à luz o seu filho Dmitri. Os dois apaixonaram-se rapidamente e começaram um caso em segredo. Contudo o segredo não durou muito tempo, uma vez que no dia 9 de Janeiro de 1897, Olga deu à luz o primeiro filho do casal, Vladimir Pavlovich. Olga conseguiu obter o divórcio do marido e deixou a Rússia na companhia de Paulo. Os dois casaram-se em
Livorno, na Itália, a 10 de Outubro de 1902.
No dia 21 de Dezembro de 1903 voltaram a ser pais, desta vez de uma menina a quem chamaram Irina. Pouco tempo depois do nascimento da bebé, o Rei da Baviera deu a Olga o título de Condessa von Hohenfelsen, que deveria ser transmitido aos seus descendentes. A família ainda se encontrava na Itália quando Paulo recebeu uma carta do seu sobrinho, o czar Nicolau II da Rússia, onde lhe foi transmitido que, devido ao casamento realizado sem a sua autorização, o casal e os filhos estavam banidos da Rússia. Embora tivesse sido um preço alto a pagar, principalmente para Paulo que tinha os seus dois filhos do primeiro casamento em São Petersburgo e era um patriota convicto.

Os pais de Natalie, o Grão-duque Paulo Alexandrovich e a Princesa Olga Paley

A família instalou-se em Paris e comprou uma casa em Boulogne-sur-Seine, onde Natália nasceu em 1905. A casa luxuosa onde viviam tinha pertencido anteriormente à Princesa Zenaide Ivanovna Youssoupova (mãe do Príncipe Félix Yussupov) e tinha permanecido fechada desde a morte dela em 1897. Paulo e Olga contrataram, ao todo, 16 criados que incluíam camareiras, jardineiros e tutores.

Natalie ainda bebé com a irmã Irina e o irmão Vladimir
Vladimir, Irene e Natália tiveram uma infância muito feliz com todas as vantagens de uma vida privilegiada e, durante algum tempo, viveram protegidos do mundo exterior. Apesar dos seus pais terem uma vida social ocupada, as crianças eram muito chegadas a eles e comiam todas as refeições juntos, um costume pouco comum para a sua época e posição. Aos Domingos a família costumava ir até a uma Igreja Ortodoxa próxima da sua casa e participar numa missa privada conduzida pelo padre que tinha baptizado Natália.

Natalie durante a sua infância na casa em Paris

O perdão chegou do czar Nicolau II em Janeiro de 1912 e Paulo decidiu deixar a França imediatamente para visitar os seus filhos do primeiro casamento em Czarskoe Selo, perto de São Petersburgo. Paulo sentiu-se em casa novamente e decidiu mandar construir um luxuoso palácio na sua cidade natal. Este novo projecto precisava de 64 criados, um grande contraste em relação à casa que a família mantinha em Paris. A família mudou-se para Czarskoe Selo na Primavera de 1914.

Natalie (dir.) com a irmã Irina

A pequena Natália, isolada das realidades que afectavam a Rússia czarista, ficou muito entusiasmada com a viagem, bem como com a descoberta de uma nova família, incluindo a sua avó materna e os seus meios-irmãos. Tornou-se rapidamente amiga das suas primas Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, filhas do czar Nicolau II. Foi um momento dourado na vida de Natália, mas muito curto. Três meses depois de a família começar a sua nova vida, rebentou a Primeira Guerra Mundial. Ela tinha 9 anos de idade.

Natalie em 1914

A vida sem preocupações de Natália terminou. O seu irmão Vladimir, bem como a maioria dos homens da sua família, juntou-se ao seu regimento para lutar contra a Áustria e a Alemanha. Apesar da sua saúde fraca, o seu pai decidiu ignorar os conselhos médicos e juntou-se aos esforços russos na guerra em 1916.
A revolução eclodiu em Fevereiro e todos os membros da família Romanov foram mantidos sob vigilância. Em vez de abandonar o país, Paulo e a sua esposa, não vendo perigo, decidiram ficar no seu palácio. Quando o czar e a família foram exilados para a Sibéria, Natália e a sua família receberam ordens de prisão domiciliária. Cada dia que passava trazia novas humilhações ao ponto de terem soldados bêbados a dormir nos corredores. Em Janeiro de 1918, o governo de Lenine decretou que o palácio onde a família residia se deveria tornar num museu e Olga foi forçada a trabalhar como guia dos seus antigos bens confiscados pelo governo. O carro da família foi também confiscado e passou a ser utilizado por Lenine.

Natalie com a irmã em Czarskoe Selo

Natália, a irmã e a mãe foram depois forçadas a viver noutra área do palácio e a cozinhar para os guardas, sempre debaixo de insultos e insinuações. Apesar de ela nunca ter falado sobre isso em nenhuma entrevista ou em cartas, os amigos e familiares de Natália confessaram que um grupo de soldados abusou sexualmente dela durante a prisão, quando ela tinha pouco mais de 13 anos. Durante o resto da vida, este crime afectou as suas relações com homens.

Mas o pior ainda estava para chegar. Vladimir foi preso em Viatka a 22 de Março de 1918 e o pai de Natália recebeu a mesma ordem a 30 de Julho. Em desespero Olga organizou a fuga das filhas com a ajuda de alguns amigos. A fuga aconteceu numa noite de Dezembro. As duas irmãs foram transportadas de carro até à estação de comboios de Ochta. Após uma viagem de quatro horas onde tiveram que viajar dentro do vagão de gado, as duas saltaram do comboio perto da fronteira com a Finlândia. O resto da viagem até ao país vizinho foi feita a pé. As duas adolescentes foram levadas para uma casa de caridade e esperaram pela chegada dos pais e irmão.

Natalie (dir.) com a irmã

O pai delas nunca conseguiu fugir da Rússia. O Grão-duque Paulo foi assassinado em Janeiro de 1919 juntamente com outros três parentes. Olga conseguiu chegar à Finlândia e encontrou as filhas. Na altura ela ainda estava a recuperar lentamente da tragédia da morte do marido e também de uma cirurgia de emergência à qual se tinha submetido para tratar de um tumor no peito. Em Setembro de 1919 as três descobriram que Vladimir tinha sido também assassinado em Julho do ano anterior juntamente com outros membros da família, incluindo a Grã-duquesa Isabel Feodorovna, tia de Natália. Também o ex-czar e a sua família tinham sido assassinados.

Natalie (em baixo) com a família em 1914

Natália mudou-se com a irmã e a mãe para a Suécia onde viveram até à Primavera de 1920. Depois voltaram para França onde venderam a sua antiga casa e compraram outra no 16º distrito. Com algumas jóias que lhe sobraram, Olga comprou uma villa em Biarritz, na costa atlântica, onde a família se juntava. Mais tarde ela vendeu a casa em Paris e comprou uma mais pequena em Neuilly. A saúde de Olga foi piorando ao longo que os meses avançavam. Em 1928 soube-se que os bens que tinham sido confiscados à família seriam vendidos num leilão em Londres. A família foi até Inglaterra para os tentar recuperar, mas não conseguiu.

Natalie (esq.) com a irmã durante a adolescência

Natália e a sua irmã foram enviadas para um colégio privado proeminente na Suiça, mas ela não se conseguiu misturar com os seus colegas. Tal como confessou mais tarde durante uma entrevista a uma revista, ela sentia-se “tão diferente dos outros. Aos 12 anos as meninas francesas ainda liam Robinson Crusoe e viam filmes do Douglas Fairbanks. Aos 12 anos eu levava pão ao o meu pai na prisão. Como poderia eu ser como elas? Eu era muda e não brincava. Mas andava a ler muito. Eu tinha visto a morte de tão perto. O meu pai, o meu irmão, os meus primos e os meus tios foram todos executados, todo aquele sangue Romanov derramado durante a minha adolescência. Tudo isso me deu gosto por coisas tristes, poesia e morte. Rapidamente as minhas colegas compreenderam-me e respeitaram a forma como era, por muito estranha que possa ter parecido.”


As irmãs regressaram a Paris onde Irina se casou com o Príncipe Feodor Alexandrovich da Rússia, filho da Grã-duquesa Xenia Alexandrovna. O casamento realizou-se no dia 31 de Maio de 1923. Apesar da felicidade da irmã, Natália não pensava em casamento, apesar de não lhe faltarem admiradores.

Tal como a maioria dos aristocratas russos sobreviventes da revolução que se tinham estabelecido em França, Natália foi à procura de emprego. Encontrou um quando entrou na casa de moda de Lucien Lelong em Matignon, perto dos Campos Elísios, onde foi contratada como modelo.