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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Morte de Maria Alexandrovna e o Segundo Casamento de Alexandre II

Alexandre II, Maria Alexandrovna e três dos seus filhos
Em Maio era costume a corte imperial mudar-se para Gatchina para assistir às manobras de verão ao mesmo tempo que o czarevich, o grão-duque Vladimir e as suas respectivas famílias partiam para as suas residências de verão. Embora estivesse a perder as suas forças, a czarina [Maria Alexandrovna] queria ir passar o verão a Gatchina e os médicos concordaram que ela o devia fazer se assim o entendesse. Tinha passado o outono e o inverno em Cannes e sentia-se bem o suficiente para viajar. Em Maio, a sua filha Maria foi avisada que já não restava muito tempo de vida à mãe, por isso decidiu viajar até à Rússia, para estar com ela. A duquesa de Edimburgo estava tão desencantada com a vida em Inglaterra sob a vigilância matriarcal da sua sogra, a rainha Vitória, que estava desejosa por arranjar alguma desculpa para poder regressar a casa. Apesar disso, ficou chocada quando descobriu que Catarina Dolgorouky, a amante do pai, e os seus filhos se tinham instalado em aposentos no Palácio de Inverno que ficavam directamente acima dos aposentos da sua mãe e teve uma discussão séria com o seu pai. Abalado por perder a sua última aliada na família, o czar partiu apressadamente para Gatchina antes dela para poder assistir às manobras militares. No entanto, a discussão com a filha pesou-lhe na consciência, já que regressava todas as manhãs a São Petersburgo para saber da saúde da esposa.

Alexandre II com a sua filha, a duquesa de Edimburgo
No entanto, no dia 3 de Junho de 1880, os sofrimentos da czarina Maria Alexandrovna terminaram quando ela morreu em paz enquanto dormia. No dia do funeral, que se realizou na catedral da Fortaleza de Pedro e Paulo, o czar carregou o caixão com a ajuda dos filhos desde a catedral até à sua sepultura, embora os seus filhos talvez considerassem com alguma amargura que Alexandre tinha contribuído para a sua morte. Uma vez que ainda era apenas uma dama-de-companhia, Catarina Dolgorouky não foi obrigada a estar presente.

A czarina Maria Alexandrovna nos seus últimos anos de vida
O viúvo passou então a estar livre para oficializar a sua relação com a mulher que já considerava ser a sua "verdadeira esposa perante Deus". Um mês após a morte de Maria Alexandrovna, apanhou o seu camareiro, o conde Adlerberg, quando o informou de que tencionava casar-se com a princesa Dolgorouky daí a uma semana numa divisão escondida do Palácio de Isabel em Czarskoe Selo, no mais profundo dos segredos. Alderberg questionou se não seria mais prudente esperar até que o herdeiro do trono e a sua esposa, que, na altura, estavam no estrangeiro, regressassem, mas o czar insistiu que não havia tempo a perder. De qualquer das formas, o conde já devia saber qual era a opinião do seu filho relativamente ao assunto. A Igreja Ortodoxa exigia no mínimo um período de luto de quarenta dias para viúvos. Segundo Alexandre, todos os dias havia o risco de ele vir a sofrer um atentado terrorista que o mataria e, por isso, "estava preocupado em garantir o futuro do ser que tinha vivido só para mim ao longo dos últimos quarenta anos", assim como o dos seus filhos com ela.


Catarina Dolgorukov
A 6/18 de Julho, os dois casaram-se num dos apartamentos do palácio em Czarskoe-Selo. Os únicos que os ajudaram a preparar-se foram o padre, um diácono e um corista. O czar vestiu o seu uniforme azul de hussardo da guarda e a princesa levou o seu casaco de dia beije preferido. Foi montado um pequeno altar com uma mesa com uma cruz em cima, o evangelho, duas lanternas, os anéis nupciais e as coroas. Quando o casal chegou, começou a cerimónia com dois ajudantes-de-campo a segurar as coroas matrimoniais por cima das cabeças do noivo e da noiva que estavam ajoelhados. Os preparativos para a cerimónia secreta tinham sido realizados com tal secretismo que não só não havia convidados nem tinham sido chamados os representantes de outras potências estrangeiras, como nem sequer tinham sido avisados os oficiais do governo, funcionários do palácio nem criados, excepto os que organizaram a cerimónia. No dia do casamento, o czar deu à sua nova esposa o título de Sua Alteza Sereníssima, a princesa Youriecsky e os seus filhos foram legitimados através de uma ukaze imperial. Quando o czarevich e a sua esposa regressaram da Dinamarca, o czar convocou-os à sua presença e comunicou-lhes a notícia, pedindo-lhes para a tratarem sempre bem. Alguns dias depois, Alexandre II chamou Loris-Melikov e pediu-lhe para o aconselhar relativamente ao título da sua esposa. Este admitiu que, embora não existe qualquer precedente de um czar que se tivesse casado uma segunda vez e tivesse coroado a sua segunda esposa imperatriz (Pedro, o Grande tinha-se divorciado da sua primeira esposa e ambas tinham sido coroadas imperatrizes), esses precedentes poderiam ser sempre criados por um autocrata.

Alexandre II
A decisão do czar foi condenada por todas as cortes europeias, apesar de a maior parte mostrar um certo nível de compreensão pela atitude. Em Berlim, a princesa-herdeira Vitória considerou que "penso que a pressa incrível com que o imperador se casou enquanto a corte estava ainda de luto pela pobre imperatriz poderá ser atribuída e, até certo ponto, justificada pela sua vontade de cumprir o dever de um homem honrado perante uma senhora e os seus filhos que ele tinha colocado numa situação muito dolorosa". Embora fosse quase impossível não sentir algum ressentimento pela falta de respeito demonstrada à memória da falecida imperatriz, "e por muito que os filhos tenham ficado magoados com o segundo casamento do pai, penso que é preferível que assim seja do que se tivessem continuado a sentir-se envergonhados da vida que ele vivia".

Vitória, princesa-herdeira da Alemanha
Os grão-duques mão podiam fazer nada relativamente à ordem do czar para que eles e as suas esposas jantassem com ele e com a sua nova esposa, mas as grã-duquesas nunca deixaram de tratá-la de forma fria e chamávam-na "aquela aventureira manipuladora". Na posição de filho mais velho da czarina e sendo aquele que mais ressentia a atitude do pai, o czarevich mostrava-se particularmente insensível. Pelo bem das boas maneiras, tal como os irmãos faziam, estava preparada para ser civilizada, mas não cortês perante a sua madrasta. No entanto, quando ela não estava presente, não hesitava em denunciar "a intrusa" que achava "manipuladora e imatura". Com trinta-e-três anos de idade, ela era apenas dois anos mais nova do que ele. Até chegou a considerar mudar-se com a esposa e os filhos para a Dinamarca, apesar de o momento de subir ao trono poder chegar a qualquer altura e isso não passar de uma ameaça sem conteúdo.

O czarevich Alexandre, futuro Alexandre III
Catarina não era tratada oficialmente como "Sua Majestade", mas o czar planeava coroá-la sua consorte numa data futura. Existe a teoria de que Loris-Melikov tinha sugerido que o casamento deveria ser anunciado publicamente, que ela deveria ser declarada imperatriz e que se deveria enfatizar o facto de, pela primeira vez na história da casa imperial, havia uma imperatriz que era realmente russa. Ao mesmo tempo, uma zemsky sobor, ou seja uma assembleia de delegados dos zemstvos, deveria ser convocada para colocar o regime czarista numa nova base constitucional e nacional. Alguns temiam que, se tal tivesse sido feito, teria surgido um movimento a favor de substituir o czarevich Alexandre por Jorge Alexandrovich Yourievsky, filho mais velho de Catarina e do czar. Embora Loris-Melikov pudesse considerar essa ideia viável, seria pouco provável. De qualquer das formas, o czar deixou claro em privado que, independentemente da relação que tinha com o seu filho, Alexandre era e continuaria a ser o seu herdeiro.


Jorge Alexandrovich Yourievsky, filho do czar Alexandre II e da sua segunda esposa, Catarina
Dentro da família, apenas os grão-duques Constantino e Miguel continuaram a apoiar completamente o irmão e a sua nova cunhada. Antes de levarem as suas esposas e filhos a São Petersburgo para os conhecerem, avisaram-nos de forma firme que tinham de estar preparados para conhecer a sua nova imperatriz, ignorando os protestos das suas esposas de que "ela" não era nenhuma imperatriz e relembrando-as que, como súbditos do czar, não tinham direito de criticar as suas decisões. A princesa seria coroada imperatriz assim que o período de luto pela "tia Maria" terminasse e, até lá, devia ser tratada como tal. Todos os filhos do grão-duque Miguel aceitaram o assunto sem problemas, apesar de ter terminado abruptamente a conversa quando um deles, o grão-duque Sérgio Mikhailovich, começou a fazer perguntas embaraçosas relativamente às origens da sua nova prima.

Grão-duque Miguel Mikhailovich
Alguns ministros, principalmente Loris-Melikov, aceitaram o casamento como algo perfeitamente razoável e procuraram sempre obter a amizade e apoio da princesa Yourievsky. O czar encontrou conforto na companhia da sua segunda família e, depois de passar uma hora com o seu filho mais velho do segundo casamento, Jorge (ou 'Gogo'), de oito anos, parecia estar sempre de bom-humor.

Catarina com os seus dois filhos mais velhos, Jorge e Olga
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, sobrinho do czar, descreveu uma refeição em família na qual o czar, já com mais de sessenta anos, se comportou como um jovem de dezoito apaixonado, sussurrando palavras de encorajamento à sua esposa, perguntando-lhe se ela queria vinho, concordando com tudo o que ela dizia e satisfeito pelos membros mais jovens à mesa a terem aceitado. No fim do jantar, a governanta trouxe os seus filhos para a sala e o czar sentou Jorge no seu joelho. "Diz-nos, Gogo, qual é o teu nome completo?" ao que a criança de oito anos respondeu com orgulho: "Sou o príncipe Jorge Alexandrovich Yourievsky" enquanto brincava com as patilhas do pai com as suas mãozinhas. "Ficámos todos muito contentes por o ter na nossa presença, príncipe Yourievsky. Já agora, gostavas de ser grão-duque?" Quando ouviu esta pergunta, a princesa Youriesky corou profundamente. Foi uma manifestação de afecto paternal que o resto da família achou um quanto nauseabunda, principalmente a grã-duquesa Olga Feodrovna, esposa do grão-duque Miguel, que disse irritada ao marido que nunca na vida iria reconhecer aquela "aventureira calculista" que tinha separado a família e estava a "conspirar para arruinar o império".

Texto retirado do livro "The Romanovs: 1818-1959" de John van der Kiste

sábado, 12 de março de 2011

Casamentos Morganáticos - Paulo Alexandrovich e Olga Valerianovna Paley

Olga Paley e Paulo Alexandrovich
O grão-duque Paulo Alexandrovich, filho mais novo do czar Alexandre II, sempre tinha levado uma vida calma, seguindo rigorosamente os padrões impostos a um membro da realeza. Quando nasceu, o casamento dos pais já se encontrava, para todos os efeitos, acabado e a sua mãe começava a mostrar os primeiros sintomas de tuberculose, que a obrigavam a passar o inverno longe do clima rigoroso da Rússia. Por este motivo, Paulo passou grandes períodos da sua infância no estrangeiro, principalmente no sul de França e em Hesse-Darmstatd na companhia da mãe, da irmã Maria e do irmão Sérgio. Assim, Paulo tinha uma mentalidade mais aberta ao Ocidente e uma educação mais refinada do que os seus irmãos mais velhos, embora tivesse sido um grande patriota russo ao longo da sua vida.

Paulo Alexandrovich em criança
Por ter sido criado longe da Corte, Paulo tornou-se muito tímido e pouco dado à pompa e circunstância desta. A sua adversão por cerimónias e formalidades seria uma constante ao longo de toda a sua vida. O facto de ter herdado a constituição e saúde fracas da mãe ajudavam ao seu isolamento. Depois da morte da mãe em 1880, quando Paulo tinha 20 anos, a grã-duquesa Olga Constantinovna, sua prima em segundo grau, sugeriu que ele devia trocar o sul de França pela Grécia. Tal como a imperatriz Maria, Paulo tinha problemas de pulmões que o forçavam a refugiar-se do inverno rigoroso russo e, por isso, aceitou a sugestão.

Embora já conhecesse a sua prima Alexandra da Grécia das visitas que esta tinha feito à família na Rússia, foi durante as suas estadias na Grécia que Paulo a começou a conhecer melhor e foi lá que ele a viu crescer. Nas suas primeiras visitas ela era ainda uma criança de 10 anos, mas à medida que crescia, Alexandra foi-se apaixonando pelo seu primo Romanov e ele viu-se subitamente a sentir o mesmo. No entanto, antes de começar a nutrir sentimentos pela sua prima grega, corriam rumores em São Petersburgo de que Paulo estava apaixonado pela nova esposa do seu irmão Sérgio, a grã-duquesa Isabel Feodorovna, principalmente porque ele tinha ido com o irmão e a cunhada na sua lua-de-mel. Estes rumores nunca foram confirmados, mas é provável que tenham tido um fundo de verdade.
Paulo e Sérgio com o grão-duque Luís III de Hesse-Darmstadt e as suas primas Isabel e Irene
Paulo e Alexandra casaram-se no dia 17 de Junho de 1889 e tiveram um casamento extremamente feliz e harmonioso. Sérgio e Isabel continuaram a ser uma constante na vida de Paulo, já que os dois casais passam a maioria do tempo juntos e viviam em palácios próximos. Mesmo quando Sérgio foi nomeado Governador-geral de Moscovo na primavera de 1891, Paulo e Alexandra continuaram a visitar o casal muito frequentemente.

A primeira filha do casal, a grã-duquesa Maria Pavlovna, nasceu nove meses e um dia depois do casamento. Foi muito desejada e mimada pelos pais e pelos tios que ainda não tinham tido filhos. Menos de 6 meses depois do nascimento de Maria, Alexandra estava novamente grávida.

Quando estava no sétimo mês de gestação, Sérgio e Isabel convidaram Paulo e Alexandra para passar férias em Moscovo com eles na companhia da filha Maria. Durante um passeio pelos jardins, Alexandra decidiu saltar directamente da margem para um barco que estava atracado no lago e caiu. A principio nada aconteceu, mas no dia seguinte, durante um baile dado em sua honra, Alexandra desmaiou e pouco tempo depois deu à luz o seu segundo filho, Dmitri, prematuramente. O bebé sobreviveu, mas Alexandra entrou em coma e morreu seis dias depois.

Paulo com a sua primeira esposa, Alexandra
Paulo ficou muito afectado com a morte da esposa. No dia do funeral tentou atirar-se para dentro da cova quando o caixão estava a ser enterrado, mas foi impedido por Sérgio, pelo grão-duque Constantino Constantinovich (tio de Alexandra) e outros membros da família. Depois do golpe, a família decidiu enviar Paulo para a Criméia para descansar enquanto que os seus filhos foram deixados com os tios em Moscovo. A estadia durou quase um ano, mas quando regressou Paulo parecia ter recuperado parte da sua vitalidade.

Passou a viver com os filhos em São Petersburgo, algo que entristeceu Sérgio que se tinha afeiçoado aos sobrinhos. Lá a família vivia calmamente. Paulo foi forçado a contratar amas e governantas, mas fazia questão de tomar todas as refeições na companhia dos filhos. Durante muitos anos ninguém acreditava que o grão-duque se fosse voltar a casar ou sequer encontrar uma amante apesar do encorajamento para tal por parte do seu irmão Vladimir Alexandrovich de quem se tinha aproximado após a morte da esposa.

Paulo com os filhos Maria e Dmitri, o irmão Sérgio e a cunhada Isabel
No entanto, os acontecimentos começaram a mudar rapidamente quando, em 1895, o grão-duque Vladimir Alexandrovich contratou um novo ajudante-de-campo chamado Erich von Pistohlkors que Paulo conheceu durante uma visita ao palácio do irmão. Erich gostou tanto do grão-duque que, algum tempo depois, durante uma parada militar em São Petersburgo, fez questão de o apresentar à sua esposa e mãe dos seus três filhos, Olga Valerianova von Pistohlkors.

Olga era filha de um médico proeminente de Czarskoe Selo e tinha-se casado com o General von Pistohlkors em 1884, tornando-se uma figura conhecida entre a sociedade aristocrática de São Petersburgo pela sua inteligência e personalidade alegre, descontraída e extrovertida. Todos pensavam que tinha um casamento harmonioso com o marido, mas a verdade era que, como muitos outros homens da sua época, Erich tinha amantes e a própria Olga gostava de correr riscos ao seduzir vários homens da aristocracia e nobreza para se vingar do marido. Entre os homens com quem tinha namoriscado inocentemente incluía-se o próprio grão-duque Vladimir que esteve apaixonado por ela durante um breve período. Mas com Paulo foi diferente.

Olga Valerianovna com o seu primeiro marido Erich

Olga gostava da simplicidade de Paulo, das suas conversas inteligentes, do charme da sua timidez natural e, acima de tudo, do amor e fidelidade com que recordava a sua esposa Alexandra. Em resumo, era o completo oposto do seu marido. Paulo, por seu lado, gostava de Olga porque ela era o seu completo oposto: era positiva, adorava a vida em sociedade e era extrovertida, no entanto receava que um envolvimento com ela fosse uma ofenda para Erich.

No entanto, o seu irmão Vladimir diminuiu a importância que o seu irmão queria dar à moralidade do caso. Quando percebeu que Paulo estava finalmente interessado em ter um caso com uma mulher mais de quatro anos depois da morte da sua esposa, não só o apoiou como encorajou, revelando que Erich também tinha as suas amantes e que o casamento era uma fachada. Na altura Vladimir queria apenas que o irmão se distraísse e talvez um caso amoroso sem importância lhe desse vontade suficiente para que ele começasse a procurar uma segunda esposa entre as casas reais europeias.
Olga Valerianovna
O caso acabou por acontecer. Paulo e Olga começaram a encontrar-se discretamente e, durante muito tempo, nem o marido dela desconfiou do que estava a acontecer, apesar de Paulo nunca ter gostado da ideia de a sua amante continuar casada. Vladimir tinha esperado que o romance durasse apenas alguns meses, mas quando ao fim de um ano continuava e que Paulo era cada vez menos cuidadoso, começou a ficar preocupado.

As suas preocupações ainda se tornaram maiores quando, em Janeiro de 1897, Olga deu à luz um filho que todas as circunstâncias indicavam ser de Paulo. Foi a partir daí que o grão-duque se cansou de esconder. Assim que soube do nascimento da criança, trouxe os dois consigo para o seu palácio de São Petersburgo e o escândalo rebentou. A criança foi chamada de Vladimir, em honra do tio através do qual os seus pais se tinham conhecido, mas como Olga continuava casada, a lei obrigou a que ele recebesse o apelido do marido dela. Paulo ficou indignado.

Vladimir, o primeiro filho de Paulo e Olga
Pouco tempo depois do nascimento, Paulo foi falar com o seu sobrinho, o czar Nicolau II e informou-o do caso que tinha mantido e do seu filho, pedindo-lhe que permitisse um divórcio entre Olga e o marido. O czar ficou chocado e recusou-se a fazê-lo. Paulo não aceitou a resposta.

Para chamar as atenções do sobrinho, começou a passear publicamente com Olga, os filhos do primeiro casamento e o novo bebé, escandalizando ainda mais a sociedade de São Petersburgo e, durante um baile no Palácio de Inverno que tinha sido organizado pelo czar e pela esposa, resolveu aparecer com Olga, ainda casada, pelo braço. O casal foi educadamente convidado a sair pela imperatriz e no dia seguinte Paulo foi chamado ao palácio. Nicolau concordou em dar o divórcio a Olga, mas apenas com a condição de que o tio não se casaria com ela. Paulo deu a sua palavra, mas tinha todas as intenções de quebrá-la.

Paulo e Olga com o grão-duque Alexei Alexandrovich
Pouco tempo depois de Olga se ter divorciado oficialmente e de Paulo ter enviado os seus dois filhos do primeiro casamento para casa dos tios, o casal fugiu da Rússia com o filho Vladimir. Durante dois anos os três andaram de hotel em hotel por toda a Europa, na esperança de que Nicolau lhes desse permissão para casar, mas tal nunca aconteceu.

Finalmente, no verão de 1902, o casal cansou-se de esperar e casou-se numa igreja em Itália. Assim que a notícia chegou aos ouvidos do czar, Paulo perdeu todos os seus títulos e posições militares assim como o direito de viver na Rússia permanentemente. Durante este período o grão-duque ainda tentou obter a custódia da sua filha Maria, mas a sugestão foi recusada. Os seus dois filhos do primeiro casamento passaram a viver permanentemente com os tios.

Paulo com a filha Irina
Depois do casamento Paulo comprou uma casa em Bologne-sur-sein e passou a viver lá com a sua nova família. Pouco mais de um ano depois do casamento nasceu uma filha que o casal chamou de Irina. Um ano depois dela Olga deu à luz outra menina chamada Natália.

A vida em Paris era calma e idealista. O casal tornou-se a sensação da cidade e por isso tinha uma vida social muito activa. Mesmo assim a família tomava todas as refeições junta, rezava e quase todos os dias conviviam durante uma hora antes de ir dormir, costumes muito raros da aristocracia e nobreza da época. Paulo ressentia-se por estar longe da Rússia e dos seus dois filhos mais velhos, por isso começou a afastar-se cada vez mais da política e a refugiar-se na sua vida familiar.

Paulo com a esposa Olga, os seus três filhos Vladimir, Irina e Natália e os três filhos do primeiro casamento de Olga: Alexandre, Olga e Mariana
Paulo só voltaria à Rússia em 1905 aquando da morte do seu irmão Sérgio. Queria assistir ao funeral dele em Moscovo, mas o czar proibiu-o por temer novos ataques contra grão-duques. Mais uma vez quis levar a sua filha Maria consigo para Paris, mas o czar não permitiu que tal acontecesse, visto que Maria pertencia à coroa e não ao pai. Mais tarde, durante esta visita, Paulo percebeu que Dmitri em particular não queria deixar a tia, uma vez que após a morte do tio Sérgio, sentia que era sua responsabilidade protegê-la. Maria também nunca se separaria do irmão, por isso Paulo acabou por aceitar a decisão do czar.

Quatro anos depois, Paulo descobriu através de uma carta de Maria que esta se encontrava noiva do príncipe Guilherme da Suécia sem que a sua autorização tivesse sido pedida. Paulo ficou furioso e viajou propositadamente à Rússia só para falar pessoalmente com o czar que jurou não ter tido nada a ver com o assunto. O casamento tinha sido arranjado numa colaboração entre Isabel Feodorovna e a sua irmã mais nova, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Depois de falar com o pai, Maria chegou a considerar pensar melhor na união, mas numa carta Irene disse-lhe que se ela desistisse do casamento iria matar a sua tia Isabel e, por isso, decidiu seguir em frente com a união.

Paulo ameaçou não estar presente se a sua esposa e filhos não o pudessem acompanhar, mas depois de uma conversa com a filha acabou por aparecer. O casamento revelou-se um desastre. Embora tivesse tido um filho, Maria viria a separar-se do marido pouco mais de 3 anos depois, passando a viver com o pai e os meios-irmãos em Paris. O divórcio foi oficializado em 1914.

Paulo com os filhos Dmitri e Maria
1914 foi também o ano em que Paulo finalmente regressou à Rússia com a esposa e os filhos. Depois de uma onda de remorso por ter apoiado o casamento de Maria sem pedir a opinião de Paulo, a imperatriz Alexandra Feodorovna convenceu o marido a perdoar o tio em 1912. Assim que soube da notícia, Paulo comprou um terreno no Parque de Alexandre, em Czarskoe Selo e começou a construir um palácio para a família.

As obras ficaram concluidas no final de 1913 e a família mudou-se na Primavera de 1914. Os primeiros meses foram muito calmos e alegres. Vladimir, que já se tinha mudado para a Rússia em 1912 para começar a sua carreira militar, fez grande sucesso na família devido aos seus inúmeros talentos como poeta, pintor e músico e as duas filhas mais novas foram muito bem recebidas pela sua graciosidade. Olga teve mais dificuldade em ser aceite, mas aos poucos foi conseguindo ganhar o respeito da família.

No entanto os dias de felicidade acabaram com o rebentar da Primeira Guerra Mundial no verão.

Palácio Paley em Czarskoe Selo
Vladimir foi imediatamente enviado para as trincheiras, mas Paulo não pôde juntar-se ao filho devido aos graves problemas de saúde que o afligiam na altura. Olga abriu uma oficina no salão de baile do palácio patrocionado pela imperatriz Alexandra que confeccionava sacos-cama e outros produtos de primeira necessidade para os soldados russos.
Paulo não aguentou muito tempo em casa. Logo em 1916 quando começou a melhorar foi nomeado General de um regimento e partiu para a guerra.

Vladimir Paley durante a Primeira Guerra Mundial
Quando rebentou a Revolução Russa em 1917, os Paley foram das últimas famílias Romanov a ser abordada pelo governo de Kerensky. O novo líder chegou a decretar a prisão domiciliária da família em Junho de 1917, mas graças à intervenção de Mariana, filha de Olga, que conhecia os oficiais mais importantes do regime, foram libertados poucas semanas depois.

No entanto, quando rebentou a revolução bolchevique em Outubro desse ano, os dias de calma acabaram. Muitos aconselharam Paulo e Olga a fugir da Rússia enquanto tinham tempo, mas nenhum dos dois reconheceu a gravidade da situação até ser tarde demais. Logo no mês seguinte apareceu um anúncio do jornal que convocava todos os grão-duques e príncipes Romanov para que estes se apresentassem na sede da Cheka em São Petersburgo para se registarem nos seus cadernos. Na altura o grão-duque Paulo estava gravemente doente com uma úlcera no estômago, por isso a sua esposa apareceu em seu nome. Os oficiais da Cheka não ficaram satisfeitos e exigiram que no dia seguinte Vladimir se apresentasse mesmo apesar de não ser um Romanov.

Quando Vladimir se encontrou com os oficiais, estes apresentaram-lhe dois documentos. Num deles era pedido que Vladimir Pavlovich negasse a paternidade do grão-duque Paulo, o outro era uma ordem de exílio. O príncipe escolheu o segundo e partiu para Volodga, na Sibéria em Março de 1918. Foi a última vez que viu a família.

Paulo em 1916, uma das suas últimas fotografias
Paulo conseguiu escapar às primeiras vagas de detenção de membros da família imperial devido ao seu delicado estado de saúde, mas não por muito tempo. A última vez que foi visto em público livremente foi no baptizado do seu neto, Roman Sergeievich Putiatin, filho do segundo casamento da sua filha Maria Pavlovna, no dia 18 de Julho de 1918. A família não fazia a minima ideia que nessa mesma noite Vladimir seria assassinado na Sibéria.

O grão-duque foi preso em Agosto. Olga fez tudo ao seu alcance para o conseguir libertar, passando todo o tempo que podia em São Petersburgo a visitar o marido ou a tentar encontrar-se com oficiais bolcheviques. Os seus esforços acabaram por ser em vão. Em Janeiro de 1919, extremamente débil, Paulo foi fuzilado como um prisioneiro comum. Na altura estava tão fraco que foi alvejado quando estava deitado numa maca.

Olga Paley depois da morte do marido
Olga nunca recuperou do choque da morte do marido. Depois da sua morte fugiu para a Finlândia onde já se encontravam as suas filhas onde descobriu que tinha um cancro de mama. Conseguiu recuperar, mas quando ainda estava em convalescença recebeu outra notícia que a deixou de rastos: em Setembro um grupo de soldados do exército branco descobriu o corpo de Vladimir juntamente com outros membros da família.
Apesar dos seus esforços, os corpos não puderam seguir para Paris, por isso Olga não pôde assistir ao funeral do filho. Olga passou os restantes dez anos da sua vida em Paris, junto das filhas. Irina casou-se em 1924 com o seu primo, o príncipe Feodor Alexandrovich Romanov e Natália em 1927 com o estilista Lucien Lelong. 

Olga morreu em 1929, em Paris, de cancro.

Olga Paley com a filha Natália

terça-feira, 8 de março de 2011

Casamentos Morganáticos - Alexei Alexandrovich e Alexandra Zhukovskaya

Grão-duque Alexei Alexandrovich
 Esta união parece ter sido a mais confusa da história da família Romanov. É um facto que Alexei Alexandrovich, filho do czar Alexandre II e da sua esposa Maria Alexandrovna, teve um caso com Alexandra Zhukovskaya entre finais da década de 1860, inicios da década de 1870, mas o ponto a que este caso chegou continua a ser muito debatido pelos historiadores.

Alexandra Zhukovskaya
Alexei conheceu Alexandra por esta ser uma das damas-de-companhia da sua mãe. Ela era uma grande amiga de Maria Mescherskaya, a primeira amante conhecida do czar Alexandre III que quase o fez abdicar dos seus direitos de sucessão ao trono antes do seu casamento com a princesa Dagmar da Dinamarca e, também ela, uma dama-de-companhia da imperatriz. O czar Alexandre II descobriu ambos os casos dos filhos e não aprovou nenhum deles, especialmente o de Alexei, visto que Alexandra era filha de um filho ilegítimo, nascido de um caso de um grande proprietário com uma escrava turca.

Embora tenha conseguido resolver o caso de Alexandre com relativa facilidade quando o enviou à Dinamarca para conhecer a antiga noiva do seu irmão mais velho, o czar viu-se com dificuldades acrescidas no caso de Alexei quando, no dia 26 de Novembro de 1871, esta deu à luz um filho do grão-duque chamado de Alexei em sua honra. A partir daqui o que terá acontecido continua a ser uma incógnita.

Alexei
Alguns dizem que Alexei e Alexandra se casaram, mas que o casamento foi anulado pela Igreja Ortodoxa por ter sido realizado sem a autorização do czar. No entanto, nesta época, a lei que dizia respeito a casamentos morganáticos apenas excluía os descendentes destes da sucessão, não proibindo necessariamente que a união se oficializasse ou que os infractores fossem castigados. A lei mais restrita apenas viria a ser aprovada em 1887. Não existem registos de um casamento ou sequer de que Alexei tenha pedido para este se realizar, mas estes podem ter sido destruídos após um possível anulamento.

Alexandra foi convidada a sair da Rússia juntamente com o filho pelo imperador e ambos passaram a viver em Paris sem qualquer título. Ao mesmo tempo Alexei foi enviado para uma longa viagem pela América. Só muito mais tarde o seu filho Alexei viria a receber o título de barão Seggiano pela República de San Marino. O título russo de conde Belevsky-Zhukovsky apenas lhe foi conferido após a morte de Alexandre II e subida ao trono do seu tio, Alexandre III.

Alexei Alexandrovich nunca se casou depois do seu caso com Alexandra, mas acredita-se que poderá ter tido outros filhos ilegítimos devido à sua fama de Don Juan da família Romanov. O seu caso mais conhecido foi com a duquesa Zinaida de Leuchtenberg, a esposa do seu primo Eugénio de Leuchtenberg. Como Eugénio estava em dificuldades financeiras profundas, aceitou que a sua esposa e o primo se encontrassem abertamente em público e até mesmo no seu palácio desde que Alexei os sustentasse.

Alexei e Zinaida
Embora o seu filho Alexei não fosse particularmente chegado aos Romanov de São Petersburgo, o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a grã-duquesa Isabel Feodorovna parecem tê-lo tido em boa conta, visto que ele morava numa casa dentro da propriedade deles em Moscovo e foi nomeado ajudante-de-campo de Sérgio quando este se tornou Governador-geral da cidade.

Alexei Alexandrovich morreu em 1908, depois de se ter mudado para Paris alguns anos antes. Alexandra casou-se oficialmente com o barão Christian-Henrich von Wohrmann em 1875, quando o filho tinha apenas 4 anos e foi enviado para a Rússia novamente. Alexei, o filho de ambos, viria a ser assassinado por comunistas no Cáucaso entre 1930 e 1932.

Alexei, filho do grão-duque Alexei Alexandrovich e de Alexandra Zhukovskaya

segunda-feira, 7 de março de 2011

Casamentos Morganáticos - Alexandre II e Catarina Dolgorukov

O czar Alexandre II com a sua segunda esposa, Catarina Dolgorukov, e dois dos seus 3 filhos, Boris e Olga
Alexandre II, o "czar libertador" parece não ter sido apenas liberal nas suas políticas. Além de ter trazido uma revolução às bases conservadoras que tinham sido deixadas no governo pelo seu pai Nicolau I, Alexandre também trouxe consigo uma revolução ao circulo fechado da família Romanov quando, em 1838 fez saber que tinha intenções de se casar com a filha mais nova do grão-duque Luís II de Hesse-Darmstadt e da princesa Guilhermina de Baden. O escândalo pode não ser perceptível imediatamente, mas torna-se mais claro quando se sabe que esta princesa, Maria de Hesse-Darmstadt, era, na verdade, filha do amante de longa data da sua mãe, o barão August von Senarclens de Gracy.

A mãe de Alexandre ficou profundamente chocada com a escolha do filho. Embora Maria tivesse direito a usar os títulos do marido da mãe, a certeza da sua verdadeira paternidade era tão clara que a princesa tinha passado a sua infância junto do seu irmão Alexandre, outro dos quatro filhos que Guilhermina deu à luz do seu amante, numa propriedade afastada de Hesse-Darmstadt e dos seus meios-irmãos legítimos. Mas Alexandre recusou-se a ouvir os conselhos da mãe. Estava decidido a casar-se com aquela princesa tímida e triste que tinha perdido a mãe ainda criança e se sentia excluída por uma Corte que a culpava pelos escândalos da princesa Guilhermina. Não é claro se estava verdadeiramente apaixonado. É provável que sentisse um afecto e amizade genuínos por Maria, mas o verdadeiro motivo que o levou a enfrentar a censura dos pais em relação a este matrimónio prendia-se com a pena que sentiu dela e a vontade de dar-lhe um lar onde ela se pudesse sentir realmente feliz.

O casamento realizou-se no dia 16 de Abril de 1841. Alexandre tinha 23 anos. Maria ainda não tinha completado 17.

Maria Alexandrovna, esposa de Alexandre II
O casamento foi bastante feliz nos primeiros tempos, mas a adaptação de Maria à Rússia foi extremamente difícil. Era muito tímida e odiava festas, bailes ou até simples encontros com a família do marido, algumas das suas cunhadas recusavam-se a visitá-la ou a ter qualquer tipo de relação com ela devido ao baixo estatuto do seu pai biológico (um sentimento, de resto, partilhado por grande parte da Corte) e o clima rigoroso do país prejudicou ainda mais a sua já frágil saúde. O seu único refúgio era a vida familiar com o marido e, mesmo apesar de ter os dedos da Corte apontados contra si, Maria conseguiu cumprir a sua principal função como futura imperatriz, dando à luz oito filhos, a maioria do sexo masculino, durante os primeiros vinte anos de casamento.

No entanto Alexandre não ficou fascinado pela esposa durante muito tempo. Logo em 1844, menos de 3 anos depois do casamento, nascia o primeiro filho ilegítimo do futuro czar, uma menina chamada Charlotte von Behse, mas as infidelidades terão começado muito antes, talvez ainda antes do casamento. Muitas outras amantes e filhos ilegítimos ainda estavam para vir. No geral, Maria tinha conhecimento de todas e sofria com a falta de fidelidade do marido. Quando ele deixava mais uma amante, encontrava-se com a esposa, contava-lhe tudo o que tinha acontecido e pedia desculpa. Maria perdoava-o e alguns meses depois nascia um novo grão-duque ou grã-duquesa.

Este ciclo apenas chegaria ao fim na década de 1860. Depois de dar à luz o seu último filho, Paulo, os médicos proibiram Maria de voltar a ter relações sexuais por questões de saúde. Apenas quatro anos depois, em 1864, Alexandre conheceu Catarina Dolgorukov.

Alexandre II
Catarina viu Alexandre pela primeira vez aos 12 anos, quando o czar visitou a propriedade do seu pai. Na altura ele viu-a apenas como uma menina e esqueceu-se do encontro. Após a morte do pai, que deixou a família na miséria, Catarina e a irmã foram mandadas para a Escola de Smolny Para Jovens Senhoras Nobres em São Petersburgo. Era o próprio czar que pagava as mensalidades da escola de Catarina e dos seus irmãos. Foi durante uma visita oficial a esta escola no Outono de 1864 que Alexandre se voltou a encontrar com Catarina, na altura já com 16 anos, e sentiu-se imediatamente atraído por ela.  As visitas começaram rapidamente a tornar-se cada vez mais frequentes, com Alexandre a levar a adolescente a passear a pé e de carruagem. Catarina tinha opiniões liberais, algo que o atraía, e teve o seu apoio para formar um partido liberal na sua escola. Quando ela terminou os estudos, Alexandre deu-lhe uma posição no palácio como dama-de-companhia da sua esposa que na altura começava a mostrar os primeiros sintomas de tuberculose.

Catarina gostava do czar e de estar na sua companhia, mas não tinha intenções de se tornar em mais uma das suas muitas amantes, mesmo apesar da sua mãe e da directora da escola a encorajarem a aproveitar essa oportunidade para melhorar as condições da família. No entanto esta relação apenas foi consumada em Julho de 1866. Catarina sentiu pena do czar pelo seu sofrimento após a morte do seu filho Nicolau e de uma tentativa de assassinato que tinha sido dirigida contra ele. A mãe da jovem tinha também morrido dois meses antes e esta sentia que Alexandre podia ser a sua única oportunidade de não cair na miséria. Nas memórias que publicou pouco antes da sua morte, Catarina recordou que nessa noite o czar lhe disse: “Agora és a minha esposa secreta. Juro que se algum dia estiver livre, caso contigo.”

Catarina Dolgorukov

O czar queria ter Catarina e os filhos que tiveram juntos por perto e via-os pelo menos três ou quatro vezes por semana, quando a família era levada até aos seus aposentos privados no Palácio de Inverno pela guarda. Além destas visitas, os dois escreviam cartas um ao outro todos os dias, às vezes até mais do que uma vez, nas quais falavam frequentemente do prazer que sentiam em fazer amor um com o outro. Numa carta de 28 páginas que Catarina lhe escreveu quando estava grávida, pedia-lhe que ele lhe fosse fiel, pois “sei que és capaz de te esquecer num momento que apenas me queres e desejas a mim.”

Apesar de tudo o czar tentava ser discreto. Nenhum dos dois assinava estas cartas com os seus nomes verdadeiros e usavam a palavra “bingerle” para se referirem ao acto sexual. No entanto Catarina não gostava de se esconder e, por isso, quando entrou em trabalho de parto para dar à luz o seu terceiro filho do imperador, Boris, em Fevereiro de 1876, insistiu em ser levada para o Palácio de Inverno e teve a criança nos aposentos do czar. Alexandre insistiu que o bebé não podia ficar no palácio e por isso ele foi enviado para a residência de Catarina enquanto esta permaneceu nos aposentos de Alexandre a recuperar. O bebé apanhou uma constipação e morreu algumas semanas depois.

Esta relação foi muito mal vista pela família do czar e pela Corte. Catarina foi acusada de conspirar para se tornar imperatriz e de influenciar Alexandre nas suas políticas liberais. Alguns membros da família temiam mesmo que os filhos de Catarina viessem a ultrapassar os filhos legítimos do czar na linha de sucessão. Mas Alexandre escreveu numa carta à sua irmã Olga Nikolaevna que estas criticas não tinham fundamento, uma vez que Catarina tinha abdicado da sua vida social para se dedicar inteiramente a ele e aos seus filhos.

Em 1880 Alexandre decidiu levar Catarina e os filhos para o terceiro andar do Palácio de Inverno, temendo que estes se pudessem tornar alvos para os terroristas que o tentavam assassinar. A mudança foi um escândalo e muitos criados começaram a espalhar histórias, dizendo que a imperatriz, que estava gravemente doente, era forçada a ouvir os filhos ilegítimos do marido no andar superior. Apesar de tudo, Alexandre e Maria ainda continuavam bons amigos e a imperatriz chegou mesmo a pedir para conhecer os filhos de Catarina. Alexandre levou-lhe os dois mais velhos, Olga e Jorge, e Maria abençoou-os e beijou-os entre lágrimas.

Maria morreu a 8 de Julho de 1880. Alexandre casou-se com Catarina menos de um mês depois, o que enfureceu os seus filhos. O czar explicou-lhes que se tinha casado tão depressa porque tinha medo de ser assassinado antes e, se tal acontecesse, Catarina seria deixada sem nada.


Alexandre foi duramente criticado por não mostrar qualquer sinal de tristeza pela morte da sua primeira esposa. Segundo o grão-duque Alexandre Mikhailovich, o czar "comportava-se como um adolescente sempre que estava ao pé de Catarina." A sua segunda esposa não se tornou imperatriz, mas sim princesa, mas a família temia que o czar a quisesse legitimar como co-governante da Rússia a qualquer momento. Pouco antes da sua morte, Alexandre chegou a considerar seriamente a hipótese de tornar os seus filhos com Catarina grão-duques e colocá-los na linha de sucessão em frente dos seus irmãos, mas a ideia nunca se chegou a concretizar. Os castigos normalmente dados a membros da família Romanov por casamentos morganáticos não se concretizaram no caso de Alexandre simplesmente porque um czar não se podia exilar a si mesmo.

No dia 13 de Março de 1881, menos de um ano depois do casamento, Alexandre viria a ser assassinado quando um grupo de revolucionários atirou duas bombas à sua carruagem. Quando Catarina soube que o seu marido tinha sido ferido mortalmente correu até à sala do Palácio de Inverno para onde ele tinha sido levado ainda de camisa de dormir e assistiu aos seus últimos minutos de vida rodeada da família dele. No dia do funeral Catarina e os filhos tiveram de assistir à cerimónia do lado de fora da igreja. No dia seguinte houve uma missa especial para eles.


Depois da morte do marido, Catarina teve de sair do Palácio de Inverno com os filhos, mas passou a receber uma pensão anual de 3,4 milhões de rublos. Saiu da Rússia e instalou-se na França, vivendo entre Paris e a Riviera onde, durante os restantes anos da sua vida, foi ignorada por praticamente todos os membros da família Romanov. O czar Alexandre III tinha mesmo agentes secretos da polícia a vigiá-la e a controlar os seus gastos. O único filho de Alexandre II que mantinha contacto com ela era o grão-duque Aleksei Alexandrovich. Viria a morrer 41 anos depois do marido, quase na miséria.

Filhos

Jorge Alexandrovich Yurievsky
 Alexandre nasceu em 1872. Chegou a fazer parte da marinha russa, mas o seu desempenho foi tão desastroso que acabou transferido para a cavalaria. Casou-se com Alexandra von Zanekau, uma filha do casamento morganático do duque Constantino de Oldemburgo. Juntos tiveram um filho chamado Alexandre e os seus descendentes chegam até ao dia de hoje.

Olga Alexandrovna Yurievskaya
Casou-se com o conde Jorge Nicolau de Meremberg, um filho do casamento morganático do príncipe Nicolau Guilherme de Nassau com Natália Alexandrovna Pushkina, filha do poeta Pushkin.

Catarina Alexandrovna Yurievskaya
Casou-se primeiro com o príncipe Alexandre Vladimirovich Baryatinsky de quem teve dois filhos. Após a morte dele voltou a casar-se com Serge Obolensky que a viria a trocar por outra mulher poucos anos depois. Depois da Revolução Russa tornou-se numa cantora bastante conhecida na época.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Casamentos Morganáticos - Grão-duque Constantino Pavlovich e Joanna Grudzińska


Um casamento morganático acontece quando um nobre, príncipe ou rei contrai matrimónio com alguém abaixo da sua posição social, seja o conjugue plebeu ou da baixa nobreza. A família imperial russa teve, na sua história, vários exemplos deste tipo de união, mesmo quando ela era ainda vista quase como um crime. De facto, não foi até ao casamento de Pedro III com a futura czarina Catarina II que a noção de união dinástica foi introduzida na Rússia. Até então, o czar podia escolher livremente a sua esposa entre as famílias nobres do Império. A lei que proibiu definitivamente os casamentos entre a realeza e nobres menores surgiu apenas com as leis paulinas de 1796, mas, quando começou a ser aplicada, foi rigorosa.

Grão-duque Constantino Pavlovich

Constantino Pavlovich, segundo filho do czar Paulo I da Rússia, tinha apenas 17 anos quando a sua avó Catarina o forçou a casar com a Princesa Juliana de Saxe-Coburgo-Saalfeld, uma tia da Rainha Vitória. O casamento foi extremamente infeliz, principalmente para ela. A principal razão para a antipatia entre o casal, terá sido a personalidade violenta de Constantino que chocou a sua jovem esposa de apenas 14 anos. Três anos depois, em 1799, o casal separou-se e Juliana voltou para Coburgo. Ainda houve uma tentativa de reconciliação em 1801, mas também não resultou. O divórcio oficial chegou em 1820, mais de vinte anos depois da separação.

Juliana de Saxe-Coburgo-Saafeld (Ana Feodorovna), primeira esposa de Constantino

Entretanto, em 1815, Constantino foi nomeado pelo seu irmão mais velho para o cargo de vice-rei da Polónia, algo aceitou de bom grado por lhe dar a oportunidade de exercer o poder pelo qual esperava ansiosamente. Nesta altura toda a corte tinha a certeza que seria ele o próximo czar, visto que Alexandre I e a sua esposa Luísa não tinham filhos e estavam já a caminhar para a meia-idade. No entanto, isso nunca viria a acontecer. No mesmo ano em que chegou a Varsóvia, Constantino conheceu Joanna Grudzińska, uma nobre polaca filha de um dos últimos grandes senhorios do país.

Joanna

Ao contrário do seu casamento com Juliana, a relação com Joanna sempre foi relativamente calma, embora tivesse também os seus momentos conturbados devido à natureza excessivamente romântica dela, à qual Constantino não conseguia corresponder. Ao fim de quatro anos, o Grão-duque decidiu-se a pedir o divórcio oficial de Juliana e autorização para contrair um matrimónio legal com a sua amante polaca ao seu irmão Alexandre. O czar ficou dividido entre o seu dever em defender as regras da família e a empatia que sentia pelo irmão. No final os dois chegaram a um acordo secreto: Constantino abdicaria dos seus direitos ao trono e, assim, poderia casar-se com Joanna. O acordo foi feito de uma forma tão discreta que, anos mais tarde, quando Alexandre I morreu e Constantino ofereceu o trono directamente ao seu irmão Nicolau, nem este sabia que ele tinha abdicado do trono anos antes.

Joanna e Constantino casaram-se no dia 27 de Março de 1820, na Polónia. Durante vários anos, o casal desfrutou de uma harmonia quase perfeita. Numa carta à sua irmã gémea Maria, Joanna escreveu: “O dia de hoje foi igual ao de ontem e o de ontem igual ao anterior. Deus queira que nada se intrometa entre nós e a nossa doce monotonia.”

Constantino

Contudo, os seus desejos não foram cumpridos. Constantino tinha herdado o carácter violento do pai em tudo o que dissesse respeito à governação e o seu reinado na Polónia foi tão desastroso que resultou na Revolta de Novembro de 1830. O casal foi forçado a fugir do seu palácio em Varsóvia depois de uma multidão enraivecida o tentar invadir. Os meses seguintes foram extremamente conturbados. Os dois viveram durante alguns meses nas zonas russas que ainda não tinham sido afectadas pela revolução, mas eventualmente chegaram à conclusão de que a Polónia não resistiria por muito mais tempo.

Joanna

Em Junho de 1831, quando o casal tinha já planos para se mudar para São Petersburgo, Constantino adoeceu subitamente de cólera e acabou por morrer poucos meses depois. Joanna ficou destroçada. Teve ainda forças para entregar o corpo do marido na capital do Império, mas recusou todos os convites por parte do czar Nicolau I para passar a viver na cidade. Em Novembro do mesmo ano, quando se preparava para regressar à Polónia, numa altura em que a revolta começava a ser controlada, morreu daquilo a que muitos chamaram de desgosto.

Joanna nos seus últimos anos