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quarta-feira, 11 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Terceira Parte


Um dos primeiros rebeldes da família foi o grão-duque Nicolau Constantinovich (em cima com os pais, o grão-duque Constantino Nikolaevich e a grã-duquesa Alexandra Iosifovna). Ignorando as tentativas da mãe de lhe arranjar uma noiva adequada, Nicolau gastou a sua fortuna nas suas amantes e na sua colecção de arte. Em 1874 já andava a roubar à própria família: quando se soube do que tinha feito, foi declarado louco, perdeu o seu título e foi colocado sob vigia, mas, para onde quer que fosse, arranjava problemas. Em 1874 e em 1876, uma mulher que não devia sequer ter-se aproximado dele ficou grávida com o seu filho. Em 1878, casou-se com outra mulher em segredo e sempre defendeu que devia haver uma revolução. Em termos oficiais, deixou de existir e, no verão de 1881, o czar Alexandre III enviou-o para o exílio e Tashkent. En 1895, apesar de ainda viver com a sua primeira esposa, casou-se com uma jovem de dezasseis anos cometendo uma bigamia que foi rapidamente anulada. Quando o visitou em 1904, a sua irmã Olga disse: "perdeu completamente qualquer sentido de moral entre o que pode ser feito e o que pode ser exigido". Mas havia outro lado em Nicolau. Interessou-se verdadeiramente pela Ásia Central e organizou expedições cientificas, publicando depois as suas descobertas. Em Tashkent lançou sistemas de irrigação e outros projectos benéficos. Recebeu bem a revolução e, quando morreu de infecção pulmonar em Abril de 1918, os bolcheviques da sua zona organizaram um grande funeral em sua honra na Catedral de Tashkent.


O grão-duque Miguel Mikhailovich chegou à idade adulta com muita vontade de se casar. Pediu a princesa Irene de Hesse-Darmstadt em casamento e 1886 e a princesa Luísa de Gales em 1887, achando que estava profundamente apaixonado em ambos os casos. No entanto, ambas recusaram o seu pedido. Em finais de 1887, apaixonou-se pela condessa Ignatiev, filha de um ministro do governo. O amor era correspondido, mas, depois de muita deliberação, o czar recusou ceder permissão para o casamento. Profundamente triste com a situação, Miguel iniciou uma viagem pela Europa e foi nessa altura que se apaixonou por Sofia, condessa de Merenberg (acima, ao centro). Casou-se com ela antes de alguém o conseguir impedir, uma acção que lhe custou o título e uma sentença de exílio perpétuo. A fotografia acima mostra o grão-duque com Sofia e a segunda filha do casal, Nádia, em 1896.


Quatro anos depois da morte da sua primeira esposa, o grão-duque Paulo Alexandrovich começou a ter um caso amoroso com Olga von Pistolkors, esposa do ajudante-de-campo do seu irmão, o grão-duque Vladimir. Quando ela deu à luz um filho de ambos e o czar se recusou a permitir o divórcio a Olga a não ser que o tio prometesse não se casar com ela, Paulo prometeu que não o faria, mas tinha todas as intenções de não cumprir o que tinha dito. Fugiu da Rússia, deixando os seus dois filhos legítimos para trás e casou-se em Itália. Por causa deste acto, foi banido da Rússia e os seus filhos foram colocados à guarda do irmão dele, o grão-duque Sérgio. Paulo tornou-se pai de uma segunda família. Na fotografia acima, tirada em 1906, Paulo surge no centro, com a sua filha Irina do lado direito, a esposa Olga logo a seguir com Natália ao colo e Vladimir na ponta. As outras pessoas são a mãe, irmã e filhas de Olga.


Em 1896, na coroação de Nicolau II, o grão-duque Cyrill Vladimirovich apaixonou-se pela sua prima Vitória Melita, segunda filha da grã-duquesa Maria Alexandrovna. O facto de ser sua prima direita seria suficiente para dificultar qualquer plano de casamento, mas a situação era ainda pior; ela era casada com o grão-duque Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt. Mas o casamento em Hesse já não estava a atravessar uma boa fase e acabou em divórcio em 1901. Segundo Cyril, Vitória tomou essa decisão porque o amava. Ao longo dos anos seguintes, os dois viveram juntos quando podiam, apesar de os pedidos de Cyril para se casar serem sempre negados. O seu comportamento causou muito desconforto na família e os pais de Cyril fizeram os possíveis para acabar com a relação. A sua mãe até lhe pediu para ficar com Vitória como amante e encontrar outra princesa para se casar, pelo bem da sua posição. No outono de 1905, os dois casaram em segredo na Baviera. Quando Cyrill apareceu na Rússia, à espera de ser perdoado, o czar retirou-lhe os títulos e rendimentos e enviou-o para o exílio.


Cyrill e Vitória Melita mudaram-se para uma casa ao lado do palácio da mãe de Vitória Melita em Coburgo, onde nasceu a sua primeira filha, Maria, em Fevereiro de 1907. Nicolau II foi cedendo aos poucos, graças à pressão dos pais de Cyrill, e reconheceu o casamento pouco depois do nascimento de Maria, dando títulos adequados à mãe e à criança. Em 1908, permitiu que Cyrill regressasse à Rússia para assistir ao funeral do seu tio, o grão-duque Alexei Alexandrovich, e devolveu-lhe o seu título na marinha. Acabaria por ser este perdão que iria causar ressentimento entre o resto da família, mais ainda do que o castigo inicial. Em 1910, Cyril regressou à Rússia com a esposa e as duas filhas - a princesa Kira nasceu em 1909 - e a família estabeleceu-se em São Petersburgo. A fotografia acima foi tirada em Coburgo e mostra Cyrill a segurar a sua filha mais velha, Maria.


Nenhum dos irmãos de Cyrill estava disposto a cumprir as regras. Boris nunca se casou e tornou-se um conhecido playboy. No verão de 1901, os irmãos do grão-duque André Vladmirovich (acima) apresentaram-no à bailarina Mathilde Kschessinskaya que descreveu o momento da seguinte forma: "Ele era muito bonito e também muito tímido, o que não estragava as coisas de todo, bem pelo contrário! Durante o jantar, ele derrubou um copo de vinho acidentalmente e o conteúdo acabou por me sujar o vestido. Mas não fiquei nada zangada. Senti que era um bom presságio (...) A partir daquele momento, o meu coração transbordou com uma emoção que já não sentia há muito tempo". Desde o casamento e ascensão ao trono de Nicolau II que Mathilde vivia sob a protecção do seu primo, o grão-duque Sérgio Mikhailovich. A sociedade achava que os dois eram amantes, mas, nas suas memórias a bailarina diz apenas que tinha por ele um grande afecto e amizade. Quando descreveu o nascimento do seu filho no verão de 1902, na datcha que Sérgio lhe tinha comprado, Mathilde escreveu: "ele sabia perfeitamente que não era o pai da criança, mas amava-me e... perdoou-me tudo."


Matilde com o seu filho Vladimir, conhecido por "Vova". A relação entre Mathilde e André continuou, para grande irritação da grã-duquesa Maria Vladimirovna. O grão-duque Sérgio Mikhailovich também continuou a estar muito presente na vida dos dois.


Para Nicolau II, a desobediência mais dolorosa foi o casamento às escondidas do seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel Alexandrovich (em cima). Miguel foi o herdeiro ao trono entre 1899 e 1904 e a saúde frágil do czarevich Alexei significava que esse posto lhe podia ser entregue novamente a qualquer momento. Não havia casamento mais vital para a continuidade da dinastia Romanov, mas, infelizmente, Migue apaixonava-se com demasiada facilidade. Em 1902, foi a irmã mais nova de Vitória Melita, a princesa Beatriz, que lhe chamou a atenção e ela também se apaixonou por ele. Os dois começaram a trocar correspondência, mas, em 1903, quando se levantou a hipótese de um casamento, o czar disse ao seu irmão que tal não seria possível, uma vez que Beatriz era sua prima direita. Miguel tentou romper o noivado, mas a sua atitude foi muito mal vista pela família dela, levando a uma zanga que durou até 1905. Mas, nessa altura, o grão-duque estava novamente apaixonado. Desta vez tratava-se de uma dama-de-companhia chamada Alexandra Kossikovskaya. Em 1906, Miguel pediu permissão para casar com ela. O seu irmão recusou e a mãe de ambos, Maria Feodorovna, fez com que a rapariga fosse discretamente enviada para longe do filho. Em 1907, Miguel planeou duas fugas para se casar com ela, mas ambas falharam.


Antes do final de 1907, surgiu uma terceira mulher na vida de Miguel. Natália Sheremetyevskaya era casada com um oficial do regimento do grão-duque, Vladimir Wulfert, que era já o seu segundo marido. Para ela, seduzir o grão-duque Miguel não passava de um jogo: seria possível conquistar o irmão do czar? Era possível e ela conseguiu. A relação tornou-se mais séria quando Wulfert a descobriu. Era um homem violento e, por isso, Miguel foi enviado para outro regimento, mas recusou-se a deixar Natália e o seu caso amoroso tornou-se um pesadelo para a corte. Em Julho de 1910, Natália deu à luz o filho de Miguel. No outono de 1912, com o czarevich à beira da morte, Miguel quebrou a promessa que tinha feito ao irmão e casou-se com Natália em segredo, em Viena. Foi muito honesto relativamente aos motivos que o levaram a tomar esta decisão: "Poderia nunca ter tomado esta medida se não fosse pela doença do pequeno Alexei e a ideia de que, como herdeiro do trono, poderia ser separado da Natália. Mas agora isso já não pode acontecer." Foi a razão mais cruel que poderia ter escolhido. Nicolau enviou-o para o exílio: a fotografia acima foi tirada durante esse período, em Inglaterra.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Último Inverno em Czarskoe Selo - Robert K. Massie (Parte 3)


A morte de Rasputine foi um acto monárquico. Foi planeada por um grão-duque, um príncipe e um deputado de direita com o objectivo de purificar o trono e recuperar o prestígio da dinastia. Foi também uma forma de eliminar a própria imperatriz dos assuntos do governo, já que os conspiradores acreditavam que era Rasputine o poder que a incitava. O czar, pensavam eles, ficaria então livre para escolher ministros e seguir uma política que salvasse a monarquia e a Rússia. Era esta a esperança de muitos membros da família imperial, que na sua maioria, não gostou da forma como o monge foi assassinado, mas ficou aliviada por o ver morto.

Rasputine
O facto de o czar ter castigado o grão-duque Dmitri e o príncipe Félix Yussupov, ainda que de forma bastante branda, foi uma desilusão. A família assinou uma carta em conjunto dirigida a Nicolau onde pediam para que Dmitri fosse perdoado e a formação de um governo responsável. Nicolau, que estava já ofendido com o facto de membros da sua família estarem envolvidos no assassinato, ficou ainda mais indignado com a carta: “Não me permito que ninguém me dê conselhos”, respondeu ele furioso. “Um assassinato é sempre um assassinato. De qualquer forma sei que a consciência de muitos que assinaram esta carta não está leve.” Alguns dias depois, quando soube que um dos grão-duques que tinha assinado a carta, o liberal Nicolau Mikhailovich, andava por todos os clubes sociais que frequentava em Petrogrado a criticar abertamente o governo, o czar ordenou-lhe que deixasse a capital e se refugiasse numa das suas propriedades no campo.

Dmitri Pavlovich, um dos assassinos de Rasputine
Longe de apaziguar a separação que havia entre a família Romanov, o assassinato serviu apenas para a aumentar ainda mais. A imperatriz-viúva estava profundamente alarmada: “Uma pessoa devia (…) perdoar”, escreveu Maria Feodorovna a partir de Kiev. “Tenho a certeza que sabes o quanto a tua resposta brusca ofendeu a família, atirando-lhes para cima uma acusação horrível e completamente injustificada. Espero que alivies o fardo do pobre Dmitri e não o deixes na Pérsia (…) O pobre tio Paulo [pai de Dmitri] escreveu-me em desespero por nem sequer ter tido a oportunidade de se despedir (…) Este comportamento nem parece teu (…) preocupa-me muito.”

Maria Feodorovna
O grão-duque Alexandre Mikhailovich, cunhado e primo do czar, deixou apressadamente a sua casa em Kiev para se dirigir a Czarskoe Selo com o objectivo de pedir a Nicolau que retirasse a imperatriz do governo e que deixasse a Duma governar de forma eficiente. Este era o “Sandro” da juventude de Nicolau, o seu alegre companheiro nos jantares com Kschessinska, o marido da sua irmã Xenia e sogro do príncipe Félix Yussupov. Alexandro encontrou a imperatriz deitada na cama, vestida com uma camisa-de-noite branca bordada a renda. Apesar de o czar estar presente, sentado numa cadeira ao lado da cama de casal, a fumar calmamente, o grão-duque foi directo ao assunto: “A forma como interferes nos assuntos de estado está a prejudicar (…) o prestígio do Nicky. Tenho sido sempre um amigo fiel, Alix, há vinte-e-quatro anos (…) e como teu amigo tenho de te dizer que todas as classes da nossa população se opõem às tuas políticas. Tens uma bela família, com filhos, porque é que não podes deixar os assuntos de estado para o teu marido, Alix? Por favor!”

Quando a imperatriz respondeu, dizendo que era impossível um autocrata partilhar os seus poderes com um parlamento, o grão-duque disse: “Estás muito enganada, Alix. O teu marido deixou de ser um autocrata no dia 17 de Outubro de 1905.”

Alexandre Mikhailovich
O encontro acabou mal, com o grão-duque Alexandre a gritar enfurecido: “Lembra-te que eu fiquei calado trinta meses, Alix! Durante trinta meses nunca disse (…) uma palavra sobre os assuntos vergonhosos do nosso governo, ou melhor, do teu governo. Estou a ver que estás disposta a perecer e que o teu marido concorda contigo, mas então e nós? (…) Não tens o direito de arrastar os teus parentes contigo para o precipício!” Nesta altura, Nicolau interrompeu-o calmamente e levou o primo para fora do quarto. Mais tarde, já em Kiev, Alexandre escreveu: “Uma pessoa não pode governar um país sem ouvir a voz do povo (…) Por mais estranho que possa parecer, é o governo que está a preparar a revolução (…) o governo está a fazer os possíveis para aumentar o número de descontentes e está a conseguir fazê-lo de forma admirável. Estamos a assistir a um espectáculo sem precedentes no qual a revolução parte de cima e não debaixo.”

Alexandre Mikhailovich
Um ramo da família imperial, os Vladimirovich, não se contentavam com cartas, e falavam abertamente de uma revolução no palácio que iria substituir os seus primos à força. A grã-duquesa Maria Pavlovna e os grão-duques Kyril, Boris e André – a viúva e os filhos do tio mais velho do czar, o grão-duque Vladimir - tinham ressentimentos muito enraizados no passado. O próprio Vladimir, um homem duro e ambicioso, sempre teve inveja do seu irmão mais velho, Alexandre III, e digeriu muito mal a ascensão ao trono do seu brando sobrinho. Um anglófobo convicto, Vladimir ficou furioso quando Nicolau escolheu uma consorte que, apesar de ter nascido em Darmstadt, era neta da rainha Vitória. Maria Pavlovna, que também era alemã, era a terceira grande senhora do Império Russo, aparecendo logo depois das duas imperatrizes. Socialmente, Maria era tudo o que Alexandra não era. Energética, ponderada, inteligente, instruída, dedicada aos boatos e intrigas e abertamente ambiciosa pelo futuro dos seus três filhos, transformou o seu grandioso palácio no Neva numa corte brilhante, que ofuscava facilmente a de Czarskoe Selo. Nas conversas animadas que dominavam os seus jantares e festas, criticas e escorno ao casal imperial eram temas frequentes. A grã-duquesa nunca se esquecia que depois do czarevich, que estava doente, e do irmão do czar, que estava casado com uma plebeia, o próximo na linha de sucessão era o seu filho Kyril.

Helena Vladimirovna, André Vladimirovich, Boris Vladimirovich, Kiril Vladimirovich e Vitória Melita
Além do mais, cada um dos seus filhos tinha as suas razões para manterem relações complicadas com o czar e a imperatriz. Kyril estava casado com a ex-mulher do irmão de Alexandra, o grão-duque Ernesto de Hesse. André tinha como amante a bailarina Mathilde Kschessinska, que tinha tido uma relação com Nicolau antes de ele se casar. Boris, o filho do meio de Vladimir, tinha pedido Olga, a filha mais velha do czar, em casamento. A imperatriz, numa carta ao marido, expressou alguma da repulsa que sentia por Boris: “A sua esposa seria arrastada para um cenário horrível (…) intrigas sem fim, maneiras e conversas levianas (…) um homem meio-gasto, blasé (…) de trinta e oito anos para uma menina pura e jovem dezoito anos mais nova do que ele, a viver numa casa na qual tantas mulheres já “partilharam” a sua vida! Uma menina inexperiente iria sofrer muito com um marido em quarta ou quinta mão ou mais!” Como a proposta de casamento tinha sido feita não só em nome de Boris, mas também em nome da sua mãe, Alexandra passou a ter grande ressentimento por Maria Pavlovna.

Boris Vladimirovich
Rodzianko sentiu o gosto desta amargura e da conspiração crescente quando, em Janeiro de 1917, foi convidado com urgência a almoçar no Palácio de Vladimir. Depois do almoço, escreveu ele, a grã-duquesa “começou a falar do estado do país no geral, da incompetência do governo, de Protopopov e da imperatriz. Fez referência ao nome desta última e começou a ficar cada vez mais entusiasmada, falando da sua influência nefasta e na interferência que tinha em tudo e disse que estava a destruir o país, que era a causa do perigo que ameaçava o imperador e o resto da família imperial, que estas condições já não eram toleráveis, que algo tinha de mudar, algo tinha de ser feito, retirado, destruído…”

Desejando compreender melhor o que ela queria dizer, Rodzianko perguntou: “O que quer dizer com ‘removido’?”

“A Duma tem de fazer alguma coisa. Ela tem de ser aniquilada.”

“Quem?”

“A imperatriz.”

“Vossa Alteza”, disse Rodzianko, “permita-me que finja que esta conversa nunca aconteceu, porque se a senhora se está a dirigir a mim na qualidade de presidente da Duma, o meu juramento de lealdade obriga-me a que vá falar imediatamente com Sua Mjestade Imperial para o informar de que a grã-duquesa Maria Pavlovna me acabou de dizer que a imperatriz deve ser aniquilada.”

Maria Pavlovna
Durante várias semanas, o golpe dos grão-duques foi o assunto mais falado em Petrogrado. Toda a gente sabia os seus detalhes: quatro regimentos da guarda imperial iriam entrar em Czarskoe Selo de noite e capturar a família imperial. A imperatriz seria presa num convento – o método russo clássico para se livrar de imperatrizes indesejadas – e o czar seria forçado a abdicar a favor do seu filho, tendo o grão-duque Nicolau como regente. Ninguém, nem sequer a polícia secreta que tinha reunido todos os pormenores, levou os grão-duques a sério. “Ontem à noite”, escreveu Paléologue a 9 de Janeiro, “o príncipe Gabriel Constantinovich organizou um jantar em honra da sua amante que já foi actriz. Entre os convidados encontravam-se o grão-duque Boris (…), alguns oficiais e um esquadrão de cortesãos elegantes. Durante a refeição só se falou da conspiração – dos regimentos da guarda imperial nos quais se pode confiar, no momento mais favorável para a revolta, etc. E tudo isto aconteceu enquanto os criados de movimentavam de um lado para o outro, prostitutas a olhar e a ouvir, ciganos a cantar e todos os convidados a beber Moet e Chandon brut imperial que era servido com abundância.”

Nicolau e Alexei nas celebrações do centenário da Dinastia Romanov

terça-feira, 15 de março de 2011

A Abdicação de Nicolau II - Anna Vyrubova (1ª parte)

Nicolau II em 1900
Na manhã seguinte, fui para a porta e vi o carro do imperador desaparecer dos terrenos do palácio, a imperatriz e os filhos foram com ele até à estação. Como era normal nestas ocasiões, houve uma mostra de bandeiras dos guardas que se posicionavam para o saudar e o dobrar dos sinos das igrejas a despedirem-se. Tudo parecia igual, no entanto, as bandeiras, os soldados e o dobrar dos sinos estavam a acelerar o czar de todas as Rússias para a sua ruína. 

Senti-me doente nessa manhã, doente mental e fisicamente, contudo cumpri o meu dever e fui para o meu hospital onde um soldado por quem me interessei especialmente, ia ser operado e, temendo-a, implorou-me que estivesse presente. Enquanto lhe estavam a administrar a anestesia, fiquei ao lado do pobre homem, segurando-lhe a mão, mas ao mesmo tempo percebi que estava a ficar com febre e que a minha dor de cabeça estava a aumentar insuportavelmente. Quando regressei ao palácio deitei-me no meu quarto, depois de ter escrito uma nota à imperatriz onde dizia que não estaria presente para tomar chá. Uma hora depois chegou a Tatiana, complacente como sempre, mas preocupada porque tanto a Olga como o Alexei estavam de cama com temperaturas altas e os médicos achavam que eles podiam ter sarampo.

Uma semana ou duas antes, alguns cadetes da escola militar tinham passado a tarde a brincar com o Alexei e um destes rapazes tinha tosse e o rosto tão corado que a imperatriz tinha chamado a atenção de M. Gilliard para a criança, temendo que esta estivesse doente. No dia seguinte soubemos que ele tinha sarampo, mas como as nossas cabeças estavam tão preocupadas com outras coisas, nenhum de nós pensou muito no perigo de contaminação. Quanto a mim, mesmo depois da Tatiana me dizer que a Olga e o Alexei poderiam estar a sofrer a doença, não me ocorreu nem uma vez que iria ficar doente. A minha temperatura continuou a subir e a minha dor de cabeça a aumentar. Fiquei de cama durante o dia seguinte, até à hora de jantar quando a Mme. Dehn veio ter comigo e fiz um esforço inútil para me levantar e vestir. A Mme. Dehn obrigou-me a deitar outra vez e, olhando para mim cuidadosamente, disse: "Está com muito mau aspecto. Acho que vai ter de ser vista pelo médico." No instante seguinte, assim me pareceu, o médico estava no meu quarto e ouvi-o dizer: "Sarampo. Um caso grave." Depois adormeci ou desmaiei.

Anna Vyrubova com a imperatriz Alexandra
Nesse mesmo dia a Tatiana ficou doente e agora a imperatriz tinha quatro pessoas nas mãos. Vestiu o seu uniforme de enfermeira e passou todos os dias seguintes entre os quartos das crianças e o meu. Quase inconsciente, sentia-a, agradecida, as suas mãos hábeis a arranjar-me as almofadas, a acariciar-me a testa a ferver e a colocar-me medicamentos e bebidas frescas nos lábios. Ouvi vagamente que a Maria a Anastásia tinham começado a tossir, mas esta notícia preocupou-me apenas como um sonho passageiro. Estava consciente da presença da minha mãe, do meu pai e da minha irmã mais nova e, ainda dentro de uma espécie de pesadelo, percebi que eles e a imperatriz falavam em murmúrios agitados de revoltas e desordem em São Petersburgo. Mas não sei nada sobre os primeiros dias da Revolução, das greves em São Petersburgo e Moscovo, das revoltas e das manifestações e da hesitação das milícias meio-disciplinadas em restaurar a ordem, excepto sobre o que depois me aconteceu a mim. Contudo sei que a imperatriz da Rússia estava completamente calma e corajosa e que a minha irmã, depois de testemunhar as cenas selvagens de São Petersburgo, tinha dito à imperatriz que o fim estava próximo. A imperatriz acalmou-a com palavras de confiança.


Alexandra e Anna Vyrubova
Foi o devoto grão-duque Paulo, como a imperatriz depois me contou, quem lhe deu as primeiras impressões oficiais sobre o que se estava a passar e fê-la compreender que a maior das calamidades entre todas as tragédias, uma revolução política a meio de uma guerra mundial, estava a acontecer. Até nessa altura, ela não perdeu nenhuma da sua maravilhosa coragem. Não queria chamar os ministros ou os embaixadores da Aliança para a proteger a ela ou aos filhos. Com dignidade, sem vacilar, assistiu a cada dia à covarde fuga de homens que tinham vivido na Corte durante vários anos e que tinham desfrutado da confiança e amizade da família imperial. Um a um, eles foram desaparecendo, o General Racine, o conde Apraxin, oficiais e homens do corpo de segurança, criados dos mais antigos e confiáveis, sempre com desculpas suaves de quem apenas se queria salvar a si mesmo. 

Alexandra em 1916
 Uma noite chegou o barulho de revoltas e de metralhadoras que pareciam estar cada vez mais próximas do palácio. Eram cerca das onze da noite e a imperatriz estava a descansar na ponta da minha cama. Levantando-se rapido e colocando um xaile em volta dos ombros, ela foi buscar a Maria, a única dos seus filhos que estava saudável, e saiu do palácio para o ar frio para enfrentar o que a ameaçava. A guarda naval e os cossacos Konvoi ainda estavam em dever apesar de até eles se estarem a preparar para desertar. É bem possível que eles tivessem ido embora naquela noite se não fosse pela aparição da imperatriz e da sua filha. Elas foram de guarda em guarda, a imperatriz com o seu ar imperial e a Maria com coragem, e deram palavras de encorajamento, fé pura e simples e confiança, enfrentando a fúria mortal deles. Não foi preciso mais nada para que os homens permanecessem nos seus postos durante aquela noite horrível e impediu que os manifestantes atacassem o palácio. No dia seguinte os guardas desapareceram. Os guardas navais, liderados pelo grão-duque Cyril Vladimirovich, marcharam com bandeiras vermelhas para a Duma e apresentaram-se a Rodzianko como alegres revolucionários. Os mesmos homens que na noite anterior tinham louvado a imperatriz com as saudações tradicionais de "Saúde e vida longa a Vossa Majestade!"

Maria Nikolaevna
Agora não havia praticamente ninguém dentro ou fora do palácio para defender a família imperial no caso de a multidão decidir atacar. Mesmo assim a imperatriz permaneceu calma, dizendo apenas que esperava que nenhum sangue tivesse de ser derramado para a proteger. Um telegrama do imperador revelou que ele já sabia da crise e por isso implorava que a imperatriz e os filhos se juntassem a ele no quartel-geral. No mesmo momento chegou uma mensagem espantosa de Rodzianko, agora chefe do Governo Provisório, a avisar a imperatriz de que ela e a sua família tinham de deixar o palácio de uma vez. A sua resposta para ambas as mensagens foi a de que não podia sair porque todos os seus filhos estavam gravemente doentes. A resposta de Rodzianko a este apelo desesperado de uma mãe foi: "Quando a casa estiver a arder, é altura de deitar tudo fora." A imperatriz consultou médicos e enfermeiras desesperadamente. As crianças podiam ir para outro sitio? E a Anna? O que poderia fazer se o governo se revelasse impiedoso?

Anastásia, Tatiana e Maria durante a Primeira Guerra Mundial
A este dilema da mãe, acrescentou-se a terrível notícia da abdicação. Não pude estar com ela nesta hora de dor, nem sequer a vi até á manhã seguinte. Foram os meus pais que me deram a notícia, mas estava demasiado doente para a compreender. A Mme. Dehn, que estava com a imperatriz na noite em que o grão-duque Paulo chegou com a fatal notícia, descreveu a cena quando a imperatriz, de coração partido, deixou o grão-duque e regressou ao seu quarto. 

"A cara dela estava distorcida com a agonia, os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Mancava em vez de andar e eu suportei-a até ela conseguir chegar à secretária que ficava entre as janelas. Encostou-se fortemente contra ela e, segurando as minhas mãos nas suas, disse tristemente: 'Abdique'. 

Mal podia acreditar nos meus ouvidos. Esperei pelas suas próximas palavras. Mal as consegui ouvir. Finalmente [ainda a falar francês porque a Mme. Dehn não falava inglês] disse: 'Pobrezinho - sozinho ali e a sofrer - Meu Deus! O que ele deve ter sofrido!'

Fotografia de noivado de Nicolau e Alexandra

sábado, 12 de março de 2011

Casamentos Morganáticos - Paulo Alexandrovich e Olga Valerianovna Paley

Olga Paley e Paulo Alexandrovich
O grão-duque Paulo Alexandrovich, filho mais novo do czar Alexandre II, sempre tinha levado uma vida calma, seguindo rigorosamente os padrões impostos a um membro da realeza. Quando nasceu, o casamento dos pais já se encontrava, para todos os efeitos, acabado e a sua mãe começava a mostrar os primeiros sintomas de tuberculose, que a obrigavam a passar o inverno longe do clima rigoroso da Rússia. Por este motivo, Paulo passou grandes períodos da sua infância no estrangeiro, principalmente no sul de França e em Hesse-Darmstatd na companhia da mãe, da irmã Maria e do irmão Sérgio. Assim, Paulo tinha uma mentalidade mais aberta ao Ocidente e uma educação mais refinada do que os seus irmãos mais velhos, embora tivesse sido um grande patriota russo ao longo da sua vida.

Paulo Alexandrovich em criança
Por ter sido criado longe da Corte, Paulo tornou-se muito tímido e pouco dado à pompa e circunstância desta. A sua adversão por cerimónias e formalidades seria uma constante ao longo de toda a sua vida. O facto de ter herdado a constituição e saúde fracas da mãe ajudavam ao seu isolamento. Depois da morte da mãe em 1880, quando Paulo tinha 20 anos, a grã-duquesa Olga Constantinovna, sua prima em segundo grau, sugeriu que ele devia trocar o sul de França pela Grécia. Tal como a imperatriz Maria, Paulo tinha problemas de pulmões que o forçavam a refugiar-se do inverno rigoroso russo e, por isso, aceitou a sugestão.

Embora já conhecesse a sua prima Alexandra da Grécia das visitas que esta tinha feito à família na Rússia, foi durante as suas estadias na Grécia que Paulo a começou a conhecer melhor e foi lá que ele a viu crescer. Nas suas primeiras visitas ela era ainda uma criança de 10 anos, mas à medida que crescia, Alexandra foi-se apaixonando pelo seu primo Romanov e ele viu-se subitamente a sentir o mesmo. No entanto, antes de começar a nutrir sentimentos pela sua prima grega, corriam rumores em São Petersburgo de que Paulo estava apaixonado pela nova esposa do seu irmão Sérgio, a grã-duquesa Isabel Feodorovna, principalmente porque ele tinha ido com o irmão e a cunhada na sua lua-de-mel. Estes rumores nunca foram confirmados, mas é provável que tenham tido um fundo de verdade.
Paulo e Sérgio com o grão-duque Luís III de Hesse-Darmstadt e as suas primas Isabel e Irene
Paulo e Alexandra casaram-se no dia 17 de Junho de 1889 e tiveram um casamento extremamente feliz e harmonioso. Sérgio e Isabel continuaram a ser uma constante na vida de Paulo, já que os dois casais passam a maioria do tempo juntos e viviam em palácios próximos. Mesmo quando Sérgio foi nomeado Governador-geral de Moscovo na primavera de 1891, Paulo e Alexandra continuaram a visitar o casal muito frequentemente.

A primeira filha do casal, a grã-duquesa Maria Pavlovna, nasceu nove meses e um dia depois do casamento. Foi muito desejada e mimada pelos pais e pelos tios que ainda não tinham tido filhos. Menos de 6 meses depois do nascimento de Maria, Alexandra estava novamente grávida.

Quando estava no sétimo mês de gestação, Sérgio e Isabel convidaram Paulo e Alexandra para passar férias em Moscovo com eles na companhia da filha Maria. Durante um passeio pelos jardins, Alexandra decidiu saltar directamente da margem para um barco que estava atracado no lago e caiu. A principio nada aconteceu, mas no dia seguinte, durante um baile dado em sua honra, Alexandra desmaiou e pouco tempo depois deu à luz o seu segundo filho, Dmitri, prematuramente. O bebé sobreviveu, mas Alexandra entrou em coma e morreu seis dias depois.

Paulo com a sua primeira esposa, Alexandra
Paulo ficou muito afectado com a morte da esposa. No dia do funeral tentou atirar-se para dentro da cova quando o caixão estava a ser enterrado, mas foi impedido por Sérgio, pelo grão-duque Constantino Constantinovich (tio de Alexandra) e outros membros da família. Depois do golpe, a família decidiu enviar Paulo para a Criméia para descansar enquanto que os seus filhos foram deixados com os tios em Moscovo. A estadia durou quase um ano, mas quando regressou Paulo parecia ter recuperado parte da sua vitalidade.

Passou a viver com os filhos em São Petersburgo, algo que entristeceu Sérgio que se tinha afeiçoado aos sobrinhos. Lá a família vivia calmamente. Paulo foi forçado a contratar amas e governantas, mas fazia questão de tomar todas as refeições na companhia dos filhos. Durante muitos anos ninguém acreditava que o grão-duque se fosse voltar a casar ou sequer encontrar uma amante apesar do encorajamento para tal por parte do seu irmão Vladimir Alexandrovich de quem se tinha aproximado após a morte da esposa.

Paulo com os filhos Maria e Dmitri, o irmão Sérgio e a cunhada Isabel
No entanto, os acontecimentos começaram a mudar rapidamente quando, em 1895, o grão-duque Vladimir Alexandrovich contratou um novo ajudante-de-campo chamado Erich von Pistohlkors que Paulo conheceu durante uma visita ao palácio do irmão. Erich gostou tanto do grão-duque que, algum tempo depois, durante uma parada militar em São Petersburgo, fez questão de o apresentar à sua esposa e mãe dos seus três filhos, Olga Valerianova von Pistohlkors.

Olga era filha de um médico proeminente de Czarskoe Selo e tinha-se casado com o General von Pistohlkors em 1884, tornando-se uma figura conhecida entre a sociedade aristocrática de São Petersburgo pela sua inteligência e personalidade alegre, descontraída e extrovertida. Todos pensavam que tinha um casamento harmonioso com o marido, mas a verdade era que, como muitos outros homens da sua época, Erich tinha amantes e a própria Olga gostava de correr riscos ao seduzir vários homens da aristocracia e nobreza para se vingar do marido. Entre os homens com quem tinha namoriscado inocentemente incluía-se o próprio grão-duque Vladimir que esteve apaixonado por ela durante um breve período. Mas com Paulo foi diferente.

Olga Valerianovna com o seu primeiro marido Erich

Olga gostava da simplicidade de Paulo, das suas conversas inteligentes, do charme da sua timidez natural e, acima de tudo, do amor e fidelidade com que recordava a sua esposa Alexandra. Em resumo, era o completo oposto do seu marido. Paulo, por seu lado, gostava de Olga porque ela era o seu completo oposto: era positiva, adorava a vida em sociedade e era extrovertida, no entanto receava que um envolvimento com ela fosse uma ofenda para Erich.

No entanto, o seu irmão Vladimir diminuiu a importância que o seu irmão queria dar à moralidade do caso. Quando percebeu que Paulo estava finalmente interessado em ter um caso com uma mulher mais de quatro anos depois da morte da sua esposa, não só o apoiou como encorajou, revelando que Erich também tinha as suas amantes e que o casamento era uma fachada. Na altura Vladimir queria apenas que o irmão se distraísse e talvez um caso amoroso sem importância lhe desse vontade suficiente para que ele começasse a procurar uma segunda esposa entre as casas reais europeias.
Olga Valerianovna
O caso acabou por acontecer. Paulo e Olga começaram a encontrar-se discretamente e, durante muito tempo, nem o marido dela desconfiou do que estava a acontecer, apesar de Paulo nunca ter gostado da ideia de a sua amante continuar casada. Vladimir tinha esperado que o romance durasse apenas alguns meses, mas quando ao fim de um ano continuava e que Paulo era cada vez menos cuidadoso, começou a ficar preocupado.

As suas preocupações ainda se tornaram maiores quando, em Janeiro de 1897, Olga deu à luz um filho que todas as circunstâncias indicavam ser de Paulo. Foi a partir daí que o grão-duque se cansou de esconder. Assim que soube do nascimento da criança, trouxe os dois consigo para o seu palácio de São Petersburgo e o escândalo rebentou. A criança foi chamada de Vladimir, em honra do tio através do qual os seus pais se tinham conhecido, mas como Olga continuava casada, a lei obrigou a que ele recebesse o apelido do marido dela. Paulo ficou indignado.

Vladimir, o primeiro filho de Paulo e Olga
Pouco tempo depois do nascimento, Paulo foi falar com o seu sobrinho, o czar Nicolau II e informou-o do caso que tinha mantido e do seu filho, pedindo-lhe que permitisse um divórcio entre Olga e o marido. O czar ficou chocado e recusou-se a fazê-lo. Paulo não aceitou a resposta.

Para chamar as atenções do sobrinho, começou a passear publicamente com Olga, os filhos do primeiro casamento e o novo bebé, escandalizando ainda mais a sociedade de São Petersburgo e, durante um baile no Palácio de Inverno que tinha sido organizado pelo czar e pela esposa, resolveu aparecer com Olga, ainda casada, pelo braço. O casal foi educadamente convidado a sair pela imperatriz e no dia seguinte Paulo foi chamado ao palácio. Nicolau concordou em dar o divórcio a Olga, mas apenas com a condição de que o tio não se casaria com ela. Paulo deu a sua palavra, mas tinha todas as intenções de quebrá-la.

Paulo e Olga com o grão-duque Alexei Alexandrovich
Pouco tempo depois de Olga se ter divorciado oficialmente e de Paulo ter enviado os seus dois filhos do primeiro casamento para casa dos tios, o casal fugiu da Rússia com o filho Vladimir. Durante dois anos os três andaram de hotel em hotel por toda a Europa, na esperança de que Nicolau lhes desse permissão para casar, mas tal nunca aconteceu.

Finalmente, no verão de 1902, o casal cansou-se de esperar e casou-se numa igreja em Itália. Assim que a notícia chegou aos ouvidos do czar, Paulo perdeu todos os seus títulos e posições militares assim como o direito de viver na Rússia permanentemente. Durante este período o grão-duque ainda tentou obter a custódia da sua filha Maria, mas a sugestão foi recusada. Os seus dois filhos do primeiro casamento passaram a viver permanentemente com os tios.

Paulo com a filha Irina
Depois do casamento Paulo comprou uma casa em Bologne-sur-sein e passou a viver lá com a sua nova família. Pouco mais de um ano depois do casamento nasceu uma filha que o casal chamou de Irina. Um ano depois dela Olga deu à luz outra menina chamada Natália.

A vida em Paris era calma e idealista. O casal tornou-se a sensação da cidade e por isso tinha uma vida social muito activa. Mesmo assim a família tomava todas as refeições junta, rezava e quase todos os dias conviviam durante uma hora antes de ir dormir, costumes muito raros da aristocracia e nobreza da época. Paulo ressentia-se por estar longe da Rússia e dos seus dois filhos mais velhos, por isso começou a afastar-se cada vez mais da política e a refugiar-se na sua vida familiar.

Paulo com a esposa Olga, os seus três filhos Vladimir, Irina e Natália e os três filhos do primeiro casamento de Olga: Alexandre, Olga e Mariana
Paulo só voltaria à Rússia em 1905 aquando da morte do seu irmão Sérgio. Queria assistir ao funeral dele em Moscovo, mas o czar proibiu-o por temer novos ataques contra grão-duques. Mais uma vez quis levar a sua filha Maria consigo para Paris, mas o czar não permitiu que tal acontecesse, visto que Maria pertencia à coroa e não ao pai. Mais tarde, durante esta visita, Paulo percebeu que Dmitri em particular não queria deixar a tia, uma vez que após a morte do tio Sérgio, sentia que era sua responsabilidade protegê-la. Maria também nunca se separaria do irmão, por isso Paulo acabou por aceitar a decisão do czar.

Quatro anos depois, Paulo descobriu através de uma carta de Maria que esta se encontrava noiva do príncipe Guilherme da Suécia sem que a sua autorização tivesse sido pedida. Paulo ficou furioso e viajou propositadamente à Rússia só para falar pessoalmente com o czar que jurou não ter tido nada a ver com o assunto. O casamento tinha sido arranjado numa colaboração entre Isabel Feodorovna e a sua irmã mais nova, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Depois de falar com o pai, Maria chegou a considerar pensar melhor na união, mas numa carta Irene disse-lhe que se ela desistisse do casamento iria matar a sua tia Isabel e, por isso, decidiu seguir em frente com a união.

Paulo ameaçou não estar presente se a sua esposa e filhos não o pudessem acompanhar, mas depois de uma conversa com a filha acabou por aparecer. O casamento revelou-se um desastre. Embora tivesse tido um filho, Maria viria a separar-se do marido pouco mais de 3 anos depois, passando a viver com o pai e os meios-irmãos em Paris. O divórcio foi oficializado em 1914.

Paulo com os filhos Dmitri e Maria
1914 foi também o ano em que Paulo finalmente regressou à Rússia com a esposa e os filhos. Depois de uma onda de remorso por ter apoiado o casamento de Maria sem pedir a opinião de Paulo, a imperatriz Alexandra Feodorovna convenceu o marido a perdoar o tio em 1912. Assim que soube da notícia, Paulo comprou um terreno no Parque de Alexandre, em Czarskoe Selo e começou a construir um palácio para a família.

As obras ficaram concluidas no final de 1913 e a família mudou-se na Primavera de 1914. Os primeiros meses foram muito calmos e alegres. Vladimir, que já se tinha mudado para a Rússia em 1912 para começar a sua carreira militar, fez grande sucesso na família devido aos seus inúmeros talentos como poeta, pintor e músico e as duas filhas mais novas foram muito bem recebidas pela sua graciosidade. Olga teve mais dificuldade em ser aceite, mas aos poucos foi conseguindo ganhar o respeito da família.

No entanto os dias de felicidade acabaram com o rebentar da Primeira Guerra Mundial no verão.

Palácio Paley em Czarskoe Selo
Vladimir foi imediatamente enviado para as trincheiras, mas Paulo não pôde juntar-se ao filho devido aos graves problemas de saúde que o afligiam na altura. Olga abriu uma oficina no salão de baile do palácio patrocionado pela imperatriz Alexandra que confeccionava sacos-cama e outros produtos de primeira necessidade para os soldados russos.
Paulo não aguentou muito tempo em casa. Logo em 1916 quando começou a melhorar foi nomeado General de um regimento e partiu para a guerra.

Vladimir Paley durante a Primeira Guerra Mundial
Quando rebentou a Revolução Russa em 1917, os Paley foram das últimas famílias Romanov a ser abordada pelo governo de Kerensky. O novo líder chegou a decretar a prisão domiciliária da família em Junho de 1917, mas graças à intervenção de Mariana, filha de Olga, que conhecia os oficiais mais importantes do regime, foram libertados poucas semanas depois.

No entanto, quando rebentou a revolução bolchevique em Outubro desse ano, os dias de calma acabaram. Muitos aconselharam Paulo e Olga a fugir da Rússia enquanto tinham tempo, mas nenhum dos dois reconheceu a gravidade da situação até ser tarde demais. Logo no mês seguinte apareceu um anúncio do jornal que convocava todos os grão-duques e príncipes Romanov para que estes se apresentassem na sede da Cheka em São Petersburgo para se registarem nos seus cadernos. Na altura o grão-duque Paulo estava gravemente doente com uma úlcera no estômago, por isso a sua esposa apareceu em seu nome. Os oficiais da Cheka não ficaram satisfeitos e exigiram que no dia seguinte Vladimir se apresentasse mesmo apesar de não ser um Romanov.

Quando Vladimir se encontrou com os oficiais, estes apresentaram-lhe dois documentos. Num deles era pedido que Vladimir Pavlovich negasse a paternidade do grão-duque Paulo, o outro era uma ordem de exílio. O príncipe escolheu o segundo e partiu para Volodga, na Sibéria em Março de 1918. Foi a última vez que viu a família.

Paulo em 1916, uma das suas últimas fotografias
Paulo conseguiu escapar às primeiras vagas de detenção de membros da família imperial devido ao seu delicado estado de saúde, mas não por muito tempo. A última vez que foi visto em público livremente foi no baptizado do seu neto, Roman Sergeievich Putiatin, filho do segundo casamento da sua filha Maria Pavlovna, no dia 18 de Julho de 1918. A família não fazia a minima ideia que nessa mesma noite Vladimir seria assassinado na Sibéria.

O grão-duque foi preso em Agosto. Olga fez tudo ao seu alcance para o conseguir libertar, passando todo o tempo que podia em São Petersburgo a visitar o marido ou a tentar encontrar-se com oficiais bolcheviques. Os seus esforços acabaram por ser em vão. Em Janeiro de 1919, extremamente débil, Paulo foi fuzilado como um prisioneiro comum. Na altura estava tão fraco que foi alvejado quando estava deitado numa maca.

Olga Paley depois da morte do marido
Olga nunca recuperou do choque da morte do marido. Depois da sua morte fugiu para a Finlândia onde já se encontravam as suas filhas onde descobriu que tinha um cancro de mama. Conseguiu recuperar, mas quando ainda estava em convalescença recebeu outra notícia que a deixou de rastos: em Setembro um grupo de soldados do exército branco descobriu o corpo de Vladimir juntamente com outros membros da família.
Apesar dos seus esforços, os corpos não puderam seguir para Paris, por isso Olga não pôde assistir ao funeral do filho. Olga passou os restantes dez anos da sua vida em Paris, junto das filhas. Irina casou-se em 1924 com o seu primo, o príncipe Feodor Alexandrovich Romanov e Natália em 1927 com o estilista Lucien Lelong. 

Olga morreu em 1929, em Paris, de cancro.

Olga Paley com a filha Natália

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Reacção do Grão-duque Paulo Alexandrovich à morte de Rasputine


O Grão-duque Paulo Alexandrovich, era o filho mais novo do czar Alexandre II e, por isso, tio de Nicolau II, o único que ainda vivia durante a Primeira Guerra Mundial. Depois de ficar viúvo da Princesa Alexandra da Grécia e da Dinamarca, de quem teve 2 filhos, conheceu uma plebéia divorciada que, mais tarde, se tornaria na Princesa Olga Paley. Os dois fugiram da Rússia pouco depois do nascimento do seu primeiro filho em comum e casaram-se em segredo, na Itália, em 1902, o que fez com que Paulo perdesse os seus títulos e postos militares. Com Olga teve 3 filhos. Acabaria por receber perdão imperial em 1912, regressando ao seu país natal, onde passou a viver permanentemente na Primavera de 1914. Dmitri Pavlovich, filho do seu primeiro casamento, foi um dos acusados do assassinato de Rasputine.

Este relato foi escrito por Maurice Paléologue, embaixador francês na Rússia.


Terça-feira, 23 de Janeiro de 1917

Jantei em Czarskoe Selo com a família do Grão-duque Paulo Alexandrovich.

Quando nos levantamos da mesa, o Grão-duque levou-me para uma sala distante para que pudessemos ter uma conversa de homem para homem. Confiou-me todas as suas dores e ansiedades.

“O Imperador está mais na mão da Imperatriz do que nunca. Ela conseguiu convencê-lo de que os movimentos hostis que têm surgido contra ela – e que estão a começar a virar-se contra ele, infelizmente – não são nada mais do que uma conspiração dos Grão-duques e uma revolta de salas-de-estar. Isto só pode acabar em tragédia. Sabe qual é a minha crença na monarquia, e para mim o Imperador representa tudo o que é sagrado. Deve-se ter apercebido que sofro com tudo o que está a acontecer e pelo que está para vir.”

Pela sua emoção e pelo tom das suas palavras pude ver que ele está muito preocupado com o seu filho Dmitri que se tinha envolvido no drama. Proceguiu, impulsivamente:

“Não é terrível que, por toda a Rússia, estejam a acender velas junto ao ícone de São Dmitri e o meu filho esteja a ser chamado do libertino da Rússia?”

A noção de que o filho dele poderia ser proclamado czar a qualquer altura não parece ter-lhe subido à cabeça. Ele é o que sempre foi, o paradigma da liberdade e da boa-educação.

Depois contou-me que quando ouviu em Mohilev sobre o assassinato de Rasputine, regressou imediatamente a Czarskoe Selo.

Quando chegou à estação ao final do dia 31 de Dezembro, tinha a Princesa Paley à espera dele na estação e foi ela que lhe disse que o Dmitri tinha sido preso no seu palácio em Petrogrado. Ele pediu imediatamente uma reunião com o Imperador, que consentiu em recebê-lo às onze nessa mesma noite, mas “apenas por cinco minutos,” uma vez que tinha muito para fazer.

Quando foi arrastado apressadamente para o gabinete do seu sobrinho, o Grão-duque Paulo protestou vivamente contra a prisão do seu filho:

“Ninguém tem o direito de prender um Grão-duque sem um mandato formal teu. Por favor liberta-o… certamente não tens medo que ele fuja, pois não?”

O Imperador fugiu a respostas concretas e pôs um ponto final na conversa.

Na manhã seguinte, o Grão-duque Paulo foi a Petrogrado para ver o seu filho. Perguntou-lhe:

“Mataste o Rasputine?”

“Não.”

“Estás pronto para jurar isso sob o ícone sagrado da virgem e uma fotografia da tua mãe?”

“Sim.”

O Grão-duque Paulo entregou-lhe depois o ícone da virgem e uma fotografia da falecida Grã-duquesa Alexandra:

“Agora: jura que não mataste o Rasputine.”

“Juro.”

Enquanto me contava este episódio, o Grão-duque foi verdadeiramente nobre, sincero e digno. Terminou com estas palavras:

“Não sei mais nada sobre a tragédia. Não quis saber mais nada.”