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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O noivado de Alexandre Alexandrovich e Dagmar da Dinamarca


A lenda diz que, no seu leito de morte, o czarevich Nicolau Alexandrovich uniu as mãos do seu irmão mais novo, Alexandre, com as da sua noiva, a princesa Dagmar da Dinamarca para simbolizar o seu desejo de os ver casados. No entanto, esta história sentimentalista deve-se a um erro de tradução das memórias do príncipe Vladimir Petrovich Meshchersky, um companheiro oficial do czarevich que o acompanhou nas suas viagens pela Rússia e pela Europa. A tradução correcta da passagem que sugere esta ideia refere-se, na verdade, ao momento em que Nicolau "transmitiu a sua confiança e amor ao novo herdeiro da coroa" e não à transferência da sua amada.

Nicolau Alexandrovich, czarevich da Rússia
Podemos encontrar mais verdade na explicação prosaica dada por Dagmar que, sabendo aquilo que era esperado dela, transferiu, em compromisso de dever, o seu afecto para o novo czarevich. Apesar de os dois jovens ainda não estarem apaixonados um pelo outro na altura, a vontade de Alexandre em seguir os planos da família ficou a dever-se tanto às suas inclinações naturais como ao seu sentido de dever. Talvez tivesse sentido ciúmes da forma calma e natural como aquela encantadora princesa dinamarquesa se tinha unido ao irmão. Quando a irmã dela, a princesa Alexandra da Dinamarca, tinha ficado noiva do príncipe de Gales em Inglaterra, a rainha Vitória tinha olhado com preocupação e desconfiança para o laço afectivo que se tinha formado entre ela e o irmão mais novo do noivo, o príncipe Alfredo que dizia que, se o seu irmão recusasse "aquela jóia", ele teria todo o gosto em ficar com ela. Embora fosse verdade que, na altura, Alexandre estivesse apaixonado pela princesa Meshcherschky, uma dama-de-companhia da sua mãe, era também sensível o suficiente para saber que, no papel de filho do soberano, ainda que no terceiro lugar de sucessão, nunca lhe seria permitido casar com ela. Agora, como filho mais velho e herdeiro, não precisava que ninguém lhe explicasse o caminho que tinha de tomar.

O jovem Alexandre Alexandrovich, futuro Alexandre III
A condessa Alexandrina Tolstoy escreveu sobre o estado de espírito miserável que ele sentiu na altura e sobre a expectativa generalizada de que se casasse com a princesa que estivera perto de se tornar viúva antes de se tornar esposa: "Fala do irmão, das últimas memórias que tem dele, da sua doença, dos erros que se cometeram no seu tratamento, de forma tão desoladora (...) Com um coração que ama de forma tão profunda e leal, uma educação tão correcta, não tem nada a temer do futuro. Se Deus quiser, vai casar-se com esta princesa encantadora, a Dagmar".

A jovem princesa Dagmar da Dinamarca, futura czarina Maria Feodorovna
Dagmar também sentia que os acontecimentos estavam fora do seu controlo. Olhando em retrospectiva, o grão-duque Alexandre Mikhailovich, o seu futuro genro e que, nesta altura, ainda não tinha nascido, afirmou que a sua sogra tinha sofrido um duro golpe. Segundo ele, que escrevia da perspectiva de um exilado político em Paris na década de 1930, "os deuses tinham feito todos os esforços para a avisar daquilo que a esperava". Após a morte de Nicolau, "qualquer pessoa supersticiosa teria fugido para casa e tentado casar-se com um dos cinquenta príncipes alemães disponíveis", mas, devido às ambições imperialistas do seu pai ambicioso, que utilizou as filhas para aumentar o prestígio da sua família, "já para não falar de uma frota e um exército amigos à sua disposição", Cristiano terá incentivado Dagmar a casar-se com Alexandre.

Dagmar (no centro) com a sua mãe, avó e irmãos e o seu primeiro noivo, Nicolau.
Mesmo quando o czarevich Nicolau estava ainda a morrer, já corria um rumor em São Petersburgo e Moscovo de que o czar Alexandre II achava que o seu segundo filho não era digno de ocupar o lugar do seu irmão e queria nomear o seu terceiro filho, o grão-duque Vladimir Alexandrovich, herdeiro. Se tal acontecesse, algumas pessoas diziam de forma pouco convincente, não seria a primeira vez, já que, o pai de Alexandre, o czar Nicolau I, tinha apenas chegado ao trono depois de o seu irmão mais velho, o grão-duque Constantino Pavlovich, o ter recusado. Não demorou muito até o czar esclarecer que seria o seu segundo filho mais velho a ocupar a posição de herdeiro. Pouco depois de o novo czarevich regressar a São Petersburgo após a morte do irmão, o czar convocou os seus súbditos para prestar o juramento de obediência ao novo herdeiro, o grão-duque Alexandre. Também recebeu uma deputação de nobres polacos que tinham viajado para dar as condolências ao czar pela morte do seu filho mais velho. Depois de os reprimir pelos pecados políticos dos seus compatriotas, que tinham agitado a independência do país, o czar apresentou-lhes o novo czarevich, dizendo que este tinha recebido o nome do czar que tinha criado o reino da Polónia; "Espero que ele saiba como governar esta herança com sabedoria e que não aceite aquilo que eu próprio não tolerei até hoje". Se alguma vez considerou excluir o seu segundo filho da linha de sucessão, é algo altamente discutível.


Alexandre II (sentado) com os filhos Paulo, Sérgio, Maria, Aleksei, Alexandre e Vladimir, a nora Maria Feodorovna e o neto, o futuro czar Nicolau II
Educado como soldado, um contemporâneo anónimo afirmou que o novo czarevich "não possui qualquer educação política, tem um conhecimento muito questionável de línguas para um homem na sua posição e possui um temperamento mais vocacionado para o comodismo do que para o trabalho. Acima de tudo, o novo herdeiro acha que aquilo de que mais precisa é de tempo para se adaptar a esta nova situação."

Alexandre (futuro Alexandre III, à direita) com o irmão mais velho, Nicolau
Tinha sido dada pouca atenção à sua educação até aquele momento; uma vez que ele não era herdeiro ao trono, os seus tutores não se tinham esforçado particularmente para o limar para o cargo de futuro soberano. Grande parte achava que teria um futuro pouco promissor na área académica, considerando-o lento e ponderado principalmente quando comparado com o seu irmão que possuía uma inteligência rápida. O czarevich tinha-se sempre esforçado arduamente por agradar aos outros, mas, a nível mental, era lento e tinha a tendência de levar a vida demasiado a sério. Era descrito como deselegante, grosseiro e com mau-feitio, quase como se fosse uma ovelha nega na família a quem faltavam boas maneiras, tinha uma disposição demasiado vincada para conflitos, era trapalhão, esbarrava contra tudo e deitava cadeiras e tudo o mais que se metesse no seu caminho ao chão. Os oficiais da corte nunca lhe tinham prestado grande atenção e tinham até a tendência de o ignorar pelo que a sua subida de posição e o facto de os outros o tratarem com mais respeito deve ter sido um motivo de satisfação para ele. Até Constantine Pobedonostsev, que mais tarde se tornaria seu amigo leal e conselheiro, tinha sempre elogiado os talentos naturais do seu falecido irmão mais velho ao mesmo tempo que lamentava o facto de Alexandre "ter sido tão mal tratado pela Natureza, que o colocou neste mundo sem o mínimo talento intelectual".

Alexandre em inícios da década de 1860
De modo a limá-lo como seu sucessor, o czar Alexandre II passou a convidá-lo a estar presente em reuniões com os seus ministros e conselheiros como observador, ao mesmo tempo que os seus tutores redobraram os seus esforços. No entanto, nenhum deles teve tanta influência como Pobedonostsev, cuja missão principal era convencer Alexandre dos seus deveres de respeitar e defender a autocracia na Rússia.

O futuro czar Alexandre III a cavalo
Dagmar da Dinamarca era filha do empobrecido príncipe Cristiano de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glucksburge da sua esposa, a princesa Luísa de Hesse-Cassel. A sua família, conhecida como os Glucksburg, vinha de meios modestos e os seus pais criaram os seus vários filhos de uma forma pouco ostensiva e religiosa, mas num ambiente despreocupado. Ninguém poderia imaginar que, um dia, os descendentes dos Glucksburg iriam reinar a Dinamarca, a Grécia e a Noruega e dar consortes para a Rússia, Grã-Bretanha, Hanôver, Roménia e Espanha. Mas, no final, esta família de poucos meios expandiu a sua influência por toda a Europa continental, o que valeu a Cristiano e à sua esposa a alcunha de “avós da Europa”.  

Cristiano IX e Luísa de Hesse-Cassel, pais de Dagmar
Dagmar foi uma das responsáveis pelo aumento da influência da família. Nascida na casa modesta da família, o Palácio Amarelo, em Copenhaga, a 26 de Novembro de 1847, era pouco mais do que a filha de um soldado nobre, uma vez que, na altura, o seu pai se encontrava a combater com o pequeno exército da Dinamarca enquanto que a sua mãe cuidava da família que crescia cada vez mais. As finanças da família eram de tal forma reduzidas que os seus pais não tinham possibilidades de contratar tutores, pelo que se responsabilizaram pessoalmente pela educação dos seus filhos.

Dagmar (à direita) com a sua mãe Luísa (centro) e três dos seus cinco irmãos (Thyra, Valdemar e Alexandra)
A sorte dos Glucksburg começou a melhorar quando o escandaloso rei Frederico VII da Dinamarca, que não tinha descendentes, reconheceu o príncipe Cristiano como seu herdeiro em 1852. Uma vez que a linha de sucessão principal da família real dinamarquesa se iria extinguir após a morte de Frederico VII, era necessário escolher um herdeiro. Cristiano não era o parente mais próximo do rei, mas a sua imagem era a que se encontrava menos comprometida perante a opinião internacional. Entretanto, enquanto o momento da sucessão não chegava, Dagmar e a sua irmã mais velha, Alexandra, continuaram a sua educação calmamente no Palácio Amarelo.

Frederico VII da Dinamarca com a sua esposa morganátia, Louise Rasmussen 
O início da década de 1860 trouxe consigo três eventos que mudariam para sempre o destino dos Glucksburgs. Primeiro, a princesa Alexandra da Dinamarca casou-se com o príncipe de Gales, depois o príncipe Guilherme foi escolhido como novo rei da Grécia, adoptando o nome de Jorge I e, por fim, o rei Frederico VII morreu e foi sucedido pelo príncipe Cristiano que passou a ser conhecido como rei Cristiano IX da Dinamarca. De um momento para o outro, as perspectivas de matrimónio da princesa Dagmar melhoraram consideravelmente. A sua mãe, agora rainha, mantinha contacto regular com a corte imperial russa, na qual pensava encontrar um substituto para a sua filha mais velha, Alexandra, caso a aliança com a Grã-Bretanha não se concretizasse. O contacto mais próximo que Luísa tinha na corte era a própria imperatriz Maria Alexandra, uma vez que ambas eram primas afastadas e conheciam-se dos seus tempos de juventude passados na Alemanha.

Luísa de Hesse-Cassel, rainha da Dinamarca e mãe de Dagmar
Assim que o casamento de Alexandra com o príncipe de Gales se realizou sem incidentes, Luísa centrou o seu entusiasmo e perseverança na sua filha Dagmar, recorrendo às suas relações familiares para chamar a atenção dos seus primos Romanov. Em finais de 1864, os seus esforços pareciam estar a dar resultado quando foi anunciado que o czarevich Nicolau Alexandrovich, herdeiro do czar Alexandre II da Rússia, iria casar-se com a jovem princesa dinamarquesa. A rede matrimonial dos Glucksburgs parecia imparável e colocou-os em confronto directo com a chancelaria de Berlim, governada por Otto von Bismark. Em 1863, após a morte de Frederico VII, Bismark orquestrou uma guerra contra a Dinamarca pelo controlo das províncias alemãs de Schleswig e Holstein. Ao mobilizar os exércitos dinamarqueses, Bismark conseguiu um ganho territorial importante, mas tornou-se também uma figurada odiada pelos Glusckburgs. Na qualidade de chanceler da Prússia, Bismark solidificou o ódio que a família real dinamarquesa sentia por tudo o que era prussiano, um ódio que foi transmitido por Dagmar e pelos seus irmãos aos seus filhos e netos, incluindo ao czar Nicolau II e ao rei Jorge V da Grã-Bretanha.

Dagmar (esquerda) com o pai Cristiano, o irmão Guilherme e a irmã Alexandra
Dagmar passou pela sua primeira grande tragédia da vida quando o seu noivo adoeceu subitamente e morreu em 1865. Com dezoito anos acabados de fazer, Dagmar perdeu aquele que tinha sido o seu primeiro grande amor. Não passou muito tempo até que a sua mãe e a sua futura sogra decidirem que Dagmar se deveria casar com o novo czarevich. O grão-duque Alexandre Alexandrovich era um jovem alto e bem-constituído que muitos desconfiavam estar secretamente apaixonado pela sua futura cunhada. Substituir Nicolau por Alexandre não foi uma tarefa demasiado complicada. Por seu lado, Dagmar também se começou a apaixonar intensamente pelo seu novo príncipe.

Postal publicado pela altura do noivado de Dagmar com o czarevich Nicolau Alexandrovich
No Outono de 1866, a princesa Dagmar chegou a São Petersburgo para se preparar para o seu novo papel como esposa do herdeiro do trono russo. Uma das suas primeiras aparições em público foi uma visita à catedral da Fortaleza de Pedro e Paulo para deixar uma coroa de flores na sepultura de mármore branco do seu primeiro noivo. Depois de ser baptizada na Igreja Ortodoxa pouco depois da sua chegada, recebeu o nome e título de grã-duquesa Maria Feodorovna.

Maria Feodorovna e Alexandre, pouco depois da chegada dela à Rússia
O casamento realizou-se a 28 de Outubro/9 de Novembro de 1866 na capela do Palácio de Inverno. A noiva usou um vestido de tecido prateado, uma cauda de brocado prateada forrada com arminho que brilhava com jóias. Foi a czarina Maria Alexandrovna que lhe colocou a coroa nupcial na cabeça. A cidade vibrou com uma salva de 21 balas de canhão. O czarevich, por seu lado, levou o uniforme azul do seu regimento de cossacos, e conduziu a sua noiva por uma série de galerias cheias de gente até à igreja onde se celebrou a cerimónia.

Gravura do casamento de Maria Feodorovna e Alexandre
Os pais de Maria não tiveram meios suficientes para viajar até São Petersburgo para estar presentes no casamento da filha, mas enviaram o irmão mais velho dela, o príncipe Frederico. O tesouro da família real dinamarquesa nunca fora abundante, mas, após a guerra de 1864 com a Prússia, tinha ficado particularmente pobre. Na cerimónia estava também presente o cunhado de Maria, o príncipe de Gales, mas teve de viajar sozinho, uma vez que a sua esposa, a irmã de Maria, estava grávida do seu terceiro filho na altura e não o pôde acompanhar. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Funeral de Alexandre II e a Condenação dos seus Assassinos

A morte de Alexandre II
O funeral do czar Alexandre II [que tinha sido assassinado num ataque à bomba a 13 de Março de 1881] realizou-se sob o maior dispositivo de segurança imaginável. Vários representantes de cortes estrangeiras viajaram para a Rússia, para se juntarem à família horrorizada, mas não sem algumas reservas da parte dos seus soberanos. O genro e a filha do falecido czar, o duque e a duquesa de Edimburgo [o príncipe Alfredo e a grã-duquesa Maria Alexandrovna], partiram imediatamente de Londres assim que souberam da notícia que tinham temido e esperado durante tanto tempo. Chegaram a São Petersburgo três dias depois e enviaram imediatamente um telegrama para Inglaterra ao príncipe e à princesa de Gales [o futuro rei Eduardo VII e a princesa Alexandra da Dinamarca] onde garantiam que o novo casal imperial, o "Sasha" [Alexandre III] e a "Minnie" [Maria Feodorovna] gostariam muito de ter a sua presença.


Maria Feodorovna, Alexandre III e Alexandra do Reino Unido
Lord Dufferin, embaixador inglês em São Petersburgo, concordou que era desejável que o casal estivesse presente no funeral. A rainha Vitória deu o seu consentimento de forma relutante e avisou Dufferin que, se alguma coisa lhes acontecesse, ele seria responsabilizado. De Berlim, o imperador Guilherme I enviou o seu filho, o príncipe-herdeiro Frederico Guilherme, apesar de ter recebido cartas anónimas a avisá-lo de que a sua vida seria posta em risco se fosse. O czar e a czarina ficaram no Palácio de Inverno e os seus convidados no Palácio de Anichkov em condições de claustrofobia quase impossíveis de aguentar. O conde Loris-Melikov garantiu-lhes que nada de mal lhes aconteceria desde que não saíssem à rua na companhia do czar. Mesmo assim, o príncipe de Gales não gostou do pequeno jardim coberto de neve no Palácio de Inverno, o único local considerado seguro para o czar fazer exercício, e disse que até uma viela de Londres tinha melhor aspecto.

O príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII do Reino Unido
O corpo do falecido estava em câmara ardente na capela mortuária do Palácio de Inverno, sem qualquer coroa na cabeça ou condecorações no peito, como era costume nos ritos funerários dos czares. Alexandre II tinha deixado ordens por escrito nas quais dizia que não queria levar emblemas para a sepultura. Na véspera do dia em que o corpo seria levado do palácio para a catedral da Fortaleza de Pedro e Paulo, Pobedonostsev [conselheiro do falecido czar] encarregou-se dos últimos preparativos. Quando todos já se tinham retirado, viu a viúva do czar, a princesa Catarina Dolgorukov [a segunda esposa de Alexandre II], a entrar a partir da divisão ao lado e, apesar de estar apoiada na irmã, era visível que se esforçava bastante para manter o equilíbrio e a postura. Caiu de joelhos ao lado do caixão, afastou o véu que cobria o rosto do marido e beijou-lhe o rosto demoradamente em vários locais antes de se arrastar para fora da capela. Apesar de a ter ressentido pelo escândalo que tinha causado, Pobedonostsev admitiu que, daquela vez, apenas tinha sentido compaixão pela sua dor. Nessa mesma noite, a princesa acabaria por voltar à capela, levando nas mãos o seu longo cabelo, que tinha acabado de cortar, e colocou-o dentro do caixão num gesto de despedida.

Alexandre II com a sua segunda esposa, a princesa Catarina Dolgorukov, e os seus dois filhos mais velhos: Jorge e Olga
Uma vez por dia, o czar tinha permissão para sair do palácio e estar presente numa missa dada na presença do caixão do seu pai na igreja da Fortaleza de Pedro e Paulo. De acordo com a tradição russa, todos os parentes do falecido tinham de beijar o seu rosto, uma tarefa desagradável já que as suas feições tinham sido danificadas pela bomba e começaram a apodrecer alguns dias antes do funeral que se realizou a 27 de Março. É possível que os seus filhos tenham visto alguma ironia no facto de o pai ser enterrado ao lado da primeira esposa que tanto tinha feito sofrer e que tinha deixado de amar há muito tempo.


Maria Alexandrovna numa fotografia rara ao lado do marido, Alexandre II. Ao seu lado estão dois dos seus filhos: o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a grã-duquesa Maria Alexandrovna
Antes de deixar São Petersburgo, o príncipe de Gales condecorou o seu cunhado com a Ordem da Jarreteira em nome da rainha Vitória. A cerimónia, realizada no Palácio de Anichkov, acabaria por trazer um momento de relaxamento à vida da família que tanto precisava dele. À medida que o herdeiro ao trono britânico ia caminhando pela Sala do Trono, liderando uma procissão de cinco membros da sua comitiva que levavam as insígnias em almofadas de veludo, como pedia a tradição, uma voz feminina disse num tom muito alto e em inglês que eles pareciam uma fila de amas-de-leite a carregar bebés. A princesa de Gales e a czarina olharam uma para a outra, não conseguiram manter a postura e começaram a rir descontroladamente.

Maria Feodorovna, czarina da Rússia e Alexandra, futura rainha do Reino Unido
Algumas facções da opinião russa acreditavam fervorosamente que tentar vingar o assassinato não era o caminho a seguir. Por muito que tivesse condenado a morte violenta do seu soberano, o conde Lev Tolstoi, escritor e filósofo, implorou ao novo czar que poupasse os responsáveis. Numa longa carta, o famoso escritor defendeu que os métodos decisivos de extermínio não tinham levado a uma redução do terrorismo, mas que "indulgências liberais" - nomeadamente a liberdade parcial e abrir caminho à criação de uma constituição - assim como o perdão cristão eram a melhor resposta a dar:
"Se não perdoar e executar os criminosos, irá conseguir a eliminação de três ou quatro indivíduos de um grupo com centenas de seguidores; mas o mal cria ainda mais mal e, em vez de três ou quatro, irão crescer mais trinta ou quarenta e irá deixar escapar o momento que vale por toda uma geração - o momento em que poderia ter cumprido a vontade de Deus e não o fez - e irá ignorar esta oportunidade de passar entre as ondas afastadas, quando poderia ter escolhido o bem acima do mal, e irá afundar-se para sempre a serviço do mal a que chamam o Interesse de Estado (...) Uma palavra de perdão e amor cristão, falada e executada a partir do alto de um trono e o caminho de um governo cristão, que está perante si, à espera de ser caminhado, pode destruir todo o mal que está a corromper a Rússia. Tal como a cera perante o fogo, as lutas revolucionárias irão derreter-se perante o homem-czar que cumpra a lei de Cristo."
Lev Tolstoi
Tolstoi convenceu o grão-duque Sérgio a colocar a carta na secretária do irmão e o czar leu-a, mas acabou por desdenhá-la. Ao mesmo tempo, o comité executivo da organização Vontade do Povo, acreditava, erradamente, que o novo czar iria certamente ouvir os seus conselhos para evitar sofrer o mesmo destino do pai.  Numa longa carta aberta, avisaram-no de que tinha apenas duas alternativas - "ou uma revolução inevitável, que não pode ser eliminada através de castigos corporais; ou o cumprimento voluntário da vontade do povo da parte do governo". Exigiam "uma amnistia geral de todos os ofensores políticos anteriores, uma vez que estes não eram criminosos, mas meros cumpridores do seu difícil dever cívico"; e "a convocação dos representantes de todo o povo russo para uma revisão e reforma das leis privadas do estado, de acordo com a vontade da nação". Estes seriam "os únicos meios para voltar a colocar a Rússia no caminho do progresso pacífico", e o seu partido nunca deveria ser acusado de qualquer acto de violência contra as medidas de um governo criado por tal parlamento. A carta terminava com as palavras "Sua Majestade tem de decidir. Tem dois cenários à sua frente; cabe-lhe a si decidir por qual deles irá optar."

O czar Alexandre III
Nenhum dos apelos surtiu qualquer efeito. Sua Majestade Imperial, o czar Alexandre III, czar de Todas as Rússias, já tinha decidido o que queria. Desde que soube da explosão no Palácio de Inverno, tinha vivido ainda com mais medo do que o pai e estava determinado a acabar com o terrorismo no seu império. O seu reinado ainda mal tinha começado quando começaram a ser erguidas barreiras em locais potencialmente vulneráveis. Os guardas passaram a vigiar os palácios de Inverno e de Anichkov com mais frequência e foram colocados homens com espingardas nas entradas de edifícios governamentais. Foram enviados homens armados e patrulhas montadas a cavalo para as ruas, com ordens para revistar todos os cantos à procura dos suspeitos. A nova família imperial também se adoptou às novas medidas de segurança o melhor possível e, durante os seus primeiros tempos de reinado, o czar e a czarina mal saíram à rua. Pobedonostsev aconselhou pessoalmente o czar a trancar as portas que davam acesso aos seus aposentos e a trancar a porta do quarto antes de ir dormir. Todos os seus filhos eram vigiados vinte-e-quatro horas por dia. De Berlim, o chanceler Bismark ordenou que o embaixador alemão em São Petersburgo lhe enviasse telegramas duas vezes por dia. Se não recebesse qualquer telegrama, teria de assumir que o telegrafo tinha sido destruído devido ao estado de anarquia contínua.


Alexandre III, Maria Feodorovna e os seus filhos
Esta atitude demonstra bem o clima de pânico que se vivia e, à medida que o período de calma e falta de actividade revolucionária se ia arrastando durante semanas e, depois, meses, os guardas e sentinelas começaram a ficar enfadados, à espera que algo acontecesse. Loris-Melikov recusou-se a entrar em pânico. Apesar de não ter conseguido manter o seu mestre vivo, ainda acreditava que havia apenas alguns revolucionários à solta e que estes poderiam ser apanhados através de métodos de segurança tradicionais. Temia que, se a concessão de reformas fosse adiada, a maioria dos russos com formação que simpatizavam com os revolucionários seriam atraídos por eles. Alguns oficiais achavam que o assassinato tinha destruído por completo a sua credibilidade e que Melikov seria dispensado em breve, mas o czar Alexandre III não desejava tomar nenhuma decisão precipitada relativamente a esse assunto. Talvez tenha sido esta relutância em tomar medidas à pressa que tenha sido interpretada pelo público como uma demonstração de que o novo czar era contra as medidas do seu pai ou talvez não tenha passado de uma falta de confiança temporária no seu próprio discernimento. 

Alexandre III
Foram dadas ordens aos tribunais para que julgassem os assassinos o mais rapidamente possível. Grinevitsky [um dos responsáveis pelo assassinato de Alexandre II já estava morto, mas Perovskaya ainda estava a monte. Quatro semanas depois, acabaria por ser presa juntamente com quatro dos seus colegas. Os cinco foram condenados à morte: Zelayabov, que já estava preso quando o czar foi assassinado, mas que se gabou de ser o eminence grise por detrás da operação; Kibalchich, o químico que fez as granadas; Rysakov, o último voluntário da operação; e Michelovich, que tinha participado em reuniões do grupo onde o plano para assassinar o czar tinha sido discutido. Jessica Hellman, que tinha emprestado o seu apartamento aos conspiradores foi poupada à pena de morte por estar grávida, mas foi condenada a servidão perpétua.

Sofia Perovskaya, uma das responsáveis pelo assassinato de Alexandre II
Os restantes foram enforcados a 15 de Abril naquela que seria a última execução pública alguma vez realizada em São Petersburgo. Os condenados estavam sentados em cadeiras, colocadas dentro de grandes carroças, de costas viradas para os cavalos. Cada um levava uma tableta com a palavra "Tsaryubeeyetz" ("Regicídio"). A carroça era seguida por duas bandas filarmónicas que tocavam as suas músicas alto o suficiente para impedir os condenados de falarem com uma multidão dividida entre os que aprovavam a medida e os que estavam contra ela. A música foi seleccionada sem grande consideração; uma das bandas começou a tocar Fatiniza e, sempre que os músicos faziam uma pausa, a outra banda começava a tocar Kaiser Alexander, uma marcha igualmente alegre e jovial. "A incongruência horrenda entre a música e a ocasião dava arrepios", escreveu o diplomata Lord Frederick Hamilton.

A execução dos assassinos de Alexandre II
A tensão foi diminuindo em São Petersburgo após as execuções, mas havia um sentimento sombrio por todas as zonas rurais da Rússia. Havia versões sensacionalistas do que tinha acontecido a circular de aldeia para aldeia. Alguns camponeses acreditavam que tinham sido os nobres que possuíam terras a matar o czar libertador por este ter sido gentil para com os camponeses e começaram a atacar proprietários locais para o vingar. Outros imaginaram, ou foi-lhes dito, que o novo czar desejava aproveitar a sua coroação para anunciar os seus planos para a distribuição das terras da aristocracia pelo povo e começaram a ficar impacientes por ter de esperar tanto tempo.


Texto retirado do livro "The Romanovs: 1818-1959" de John van der Kiste

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Viagem à Dinamarca e à Alemanha (1899) - Margaret Eager

Famílias reais russa e dinamarquesa em 1899
No outono desse ano (1899), fomos ao estrangeiro. Em Peterhoff entramos a bordo de um pequeno iate chamado Alexandra que nos levou até Kronstadt onde nos mudamos para o Standard. O Padre João de Kronstadt veio a bordo e abençoou o imperador, a imperatriz e as crianças; também me abençoou a mim.

Começamos a nossa viagem em Kronstadt no belo iate Standard que é tão grande como a linha costeira e leva quinhentos homens a bordo. Fomos sempre seguidos por outro iate, o Polar Star, para protecção. Foi nesse barco que o imperador fez a sua viagem educativa pelo mundo inteiro quando era czarevich.


Nicolau e Tatiana com Miss Eager a bordo do iate Standard
Tinham sido dadas ordens para o navio andar a meio gás em caso de nevoeiro que é muito comum no Báltico. O nevoeiro chegou e o Standard reduziu a velocidade, mas o Polar Star não, por isso acabou por nos ultrapassar e já estava a alguns nós de distância quando se percebeu o que tinha acontecido. Houve grande confusão a bordo de ambos os barcos e mudaram ambos um pouco a sua direcção. O Polar Star passou tão perto de nós que quase podemos apertar as mãos de quem estava a bordo dele. O resto da nossa viagem seguiu sem incidentes.

Quando chegamos a Copenhaga fomos recebidos pelo velho rei da Dinamarca, pelo príncipe de Gales (futuro rei Eduardo VII), pela princesa Vitória (do Reino Unido), pelo rei da Grécia e por muitos outros membros da realeza, e fomos de carro até ao Castelo de Bernstorff que ficava perto de Copenhaga. É uma residência muito pequena e havia tanta gente que chegava a ser desconfortável. Tem um pequeno parque e um jardim de rosas que a falecida rainha plantou.

Nicolau II  na companhia dos seus irmãos Miguel e Olga, do cunhado Alexandre, da prima Vitória do Reino Unido e dos primos Aage, Axel, Eric, Viggo e Cecília, filhos do príncipe Valdemar da Dinamarca
A princesa Vitória gostou muito das suas pequenas primas e elas, por seu lado, também mostraram muito afecto pela “Tia Toria”, como lhe chamavam. De facto, as três meninas foram o centro das atenções da família. A princesa de Gales ficou instalada num quarto ao lado do meu.

Ficamos cerca de dezasseis dias na Dinamarca, depois fomos para Kiel para visitar a irmã da imperatriz, a princesa Irene de Hesse-Darmstadt. Naquela altura ela tinha dois filhos. Kiel é uma cidade bastante suja e muito movimentada, com um porto próspero; apesar de tudo tem lojas muito boas. Se alguém perguntar a um habitante de Kiel o que se pode comprar de recordação, ele sugere sempre peixe fumado. O peixe é muito valorizado por toda a Alemanha.

A princesa Vitória do Reino Unido com a princesa Cecília da Dinamarca
Ficamos dois dias em Kiel e depois fomos de comboio para Darmstadt, ou melhor, para Wolfsgarten. (…) Fomos recebidos na estação pelo grão-duque e grã-duquesa de Hesse e pela filha deles, a pequena princesa Ella, bem como pela irmã da grã-duquesa, a princesa-herdeira da Roménia que é uma mulher muito bonita. A princesa Ella tinha quatro anos na altura e era uma criança doce e bonita com grandes olhos cinza-esverdeados e uma grande quantidade de cabelo negro. Era muito parecida com a mãe, não só no rosto, mas também na forma como se movimentava. Gostava muito das suas primas e colocou alguns dos seus brinquedos na sala para que elas pudessem brincar e não demorou para que ficassem grandes amigas. A princesa queria muito ter um irmão e implorou com muita veemência para que a deixassem adoptar a grã-duquesa Tatiana. Disse que não íamos sentir tanta falta dela como da Olga ou da bebé (Maria) e chegou à conclusão de que Miss W. (a ama de Isabel) podia muito facilmente cuidar de mais uma criança. Nesse dia seguiu com muita atenção e olhos bem abertos a forma como eu tratava da bebé e perguntou à tia se não se importava de a deixar em Darmstadt e, claro, a imperatriz disse que não podia fazer isso. Depois tentou a via diplomática, assegurando a toda a gente que a Maria era uma bebé muito feia e que ficaríamos melhor sem aquela menina pateta. Quando pensou que tinha conseguido cumprir o seu objectivo, disse-me que a bebé era tão horrível que eu até a devia deitar fora!

A princesa Isabel de Hesse com a prima Olga, o pai Ernesto Luís, o tio Nicolau II e o príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca
Passamos seis ou sete semanas muito felizes em Wolfgarten onde podemos usufruir de prazeres muito simples como chás ciganos. Fomos duas vezes a Darmstadt, tomamos chá no palácio e fomos às compras com as crianças. Darmstadt é uma cidade bem construída, com ruas largas e limpas e boas lojas. Levamos as crianças a uma loja de brinquedos e dissemos que elas podiam escolher o que quisessem para si e um presente para os seus familiares. A Olga escolheu o brinquedo mais pequeno que encontrou e agradeceu educadamente. Os funcionários da loja tentaram em vão mostrar-lhe brinquedos melhores, mas ela respondia sempre: “Não, obrigada, não quero isso.” Levei-a para um canto e perguntei-lhe porque é que ela não queria levar mais nada. Disse-lhe que as pessoas iam ficar tristes se ela não levasse mais nada e que não podia sair da loja sem escolher outras coisas. Então respondeu-me: “Mas de certeza que os brinquedos mais bonitos já são de outras meninas e ia ser muito mau se elas chegassem a casa e vissem que nós os tínhamos levado enquanto elas estavam a passear.” Expliquei-lhe como funcionava a loja e tanto ela como a Tatiana levaram um grande monte de brinquedos para casa.

Olga e Tatiana em Darmstadt em 1899
Foi com muita pena que deixamos Darmstadt. A caminho da Polónia, fizemos uma paragem em Potsdam para visitar o imperador e a imperatriz da Alemanha. Quando chegamos, havia tropas alinhadas na estação e foi o próprio imperador que nos veio receber. Uma banda tocou o hino nacional russo e os dois imperadores caminharam lado a lado enquanto inspeccionavam os regimentos que estavam presentes. O czar deu apertos de mão e felicitou os oficiais. O imperador e a imperatriz foram até ao palácio para almoçar, mas eu fiquei com as crianças no comboio até chegar uma carruagem que nos levou para lá já depois da refeição.

Nicolau com o kaiser Guilherme II em 1899
O imperador da Alemanha é exactamente igual ao que vemos nas fotografias e a esposa é uma mulher bonita e saudável. Nesta ocasião estava vestida de forma simples, com um vestido verde. Ambos adoraram as grã-duquesas e repararam principalmente nas roupas delas que tinham sido compradas em Londres de propósito para a visita. As meninas tinham vestido casacos creme de seda com chapéus a condizer. Debaixo tinham vestidos creme com faixas de seda cor-de-rosa.  A pequena princesa, única menina nascida do casal, levou-nos para o andar de cima e pareceu-me uma criança muito doce e bem-educada. Os quartos das crianças tinham todos papel de parede verde marinho e prateado e eram todos muito bonitos. Foi lá que tomamos chá com a princesa e o príncipe mais novo. Não havia criados na sala e foi próprio príncipe que distribuiu o pão e a manteiga por todos. Quando terminamos o chá, eles levaram a Olga para andar numa pequena carruagem puxada por um pónei vigiada pela ama inglesa que também levou consigo a Tatiana e andaram todos pelos conhecidos jardins de Sans Souci. Depois voltamos ao comboio e pusemos as crianças na cama. Cerca das dez da noite chegaram o imperador e a imperatriz. A banda tocou e começamos a viagem para a Polónia.

Vitória Luísa, filha do kaiser Guilherme II