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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Princesa Vitória da Prússia no casamento do irmão Alfredo com a grã-duquesa Maria Alexandrovna

Vitória da Prússia (esq.) com o irmão Alfredo e a irmã Helena do Reino Unido
A rainha Vitória não era a única que acreditava na eficácia política das amizades e casamentos entre monarcas - uma falácia típica do século XIX com a qual até Bismark concordava. Nesse sentido, Alix [Alexandra da Dinamarca] e a sua irmã Dagmar, esposas dos herdeiros dos tronos do Reino Unido e da Rússia, respectivamente, tinham promovido uma união entre o irmão de Vicky [Vitória da Prússia], Alfredo, e a filha do czar Alexandre II, a grã-duquesa Maria. A rainha opôs-se veemente ao casamento, em parte por motivos religiosos (os Romanov eram ortodoxos), mas principalmente porque o czar não saltou logo de alegria quando lhe foi dada a oportunidade de casar a sua única filha com o segundo filho da rainha Vitória.

A rainha Vitória
A princesa-herdeira da Alemanha [Vicky] tinha opiniões distintas sobre a escolha do irmão. Por um lado, não confiava na família real russa, mas, por outro, tinha ficado impressionada com a grã-duquesa Maria nas poucas vezes que as duas tinham estado juntas. Maria era o tipo de jovem de que Vicky gostava - muito inteligente e relativamente simples. Não era remotamente bonita, mas Vicky esforçou-se por encontrar aspectos positivos nela - um rosto pálido, uma boa testa, um feitio simples e sincero, e uma fortuna que seria muito útil para o ducado de Coburgo, que Alfredo iria herdar após a morte do seu tio, o duque Ernesto, que não tinha descendentes. Affie [Alfredo do Reino Unido] já tinha vinte-e-oito anos, à época uma idade já muito avançada para se casar e começar uma família.

O príncipe Alfredo e a grã-duquesa Maria
Vicky decidiu estar presente no casamento do irmão. A rainha Vitória não ficou muito contente com a notícia. "Espero que o frio de São Petersburgo não seja demasiado para ti," escreveu ela. "Tenho pena de não estar presente pela primeira vez no casamento de um dos meus filhos, mas, ao mesmo tempo, agora não gosto nada de ver casamentos e acho-os tristes e dolorosos".

Vitória, Princesa Real com a mãe, a rainha Vitória
O casamento da filha do czar com o filho da rainha Vitória realizou-se a 23 de Janeiro de 1874, no esplendor do Palácio de Inverno. Foi celebrado em duas partes, para satisfazer a noiva ortodoxa e o noivo anglicano. A cerimónia russa foi, de longe, a mais pitoresca, com a noiva e o noivo a circular pelo altar da capela imperial com velas acesas nas mãos. Alguns dias depois, os convidados viajaram para Moscovo, onde se realizaram mais almoços e jantares e bailes, incluindo uma festa dada em honra do casal uma semana depois do casamento.

Caricatura de Maria vestida de noiva, feita por um jornal inglês
Foi um casamento luxuoso, mesmo para os padrões reais. Augusta Stanley, esposa do capelão que oficializou a cerimónia anglicana, escreveu para casa a dizer que, apesar de ter pedido diamantes emprestados a toda a gente que conhecia antes de partir de Inglaterra, ficou muito aquém do desejado quando comparada com as grã-duquesas russas russas que estavam "literalmente cobertas deles - nos cintos, bordas dos vestidos, saias, corpetes, cabeças - pedras gigantescas - e esmeraldas, e ainda outras pedras preciosas." Outra dama inglesa, no entanto, queixou-se da falta de higiene destas senhoras cobertas de jóias, a quem acusou de cheirarem tão mal como os camponeses que as serviam.

A grã-duquesa Maria com o marido Alfredo e três dos seus cinco filhos
Vicky passou menos tempo no palácio do czar do que as outras senhoras. Preferia estar no exterior, a ver e a explorar este novo mundo exótico, que descreveu numa carta dirigida à sua mãe Vitória quando regressou a casa:

"Não há nada que se compare a Moscovo como uma visão - nunca vi nenhuma imagem semelhante (...) a grandeza daquelas 300 igrejas com as suas cúpulas douradas, verdes e azuis, as paredes imponentes da fortaleza com as suas lindas torres pequeninas, com tectos envidraçados verdes e as suas estranhas colunas, algumas bizantinas, outras normandas e outras ainda mouras - tudo isto coberto de uma bela neve brilhante e com corvos negros a circular a floresta de torres e colinas imponentes foi simplesmente magnífico. 
Fiquei contente por ter ido à Rússia, apesar de ficar muito agradecida por não ser russa e não precisar de passar lá os meus dias (...) parece-me que por toda a Rússia paira uma melancolia monótona, pesada e silenciosa muito deprimente para o espírito!  Não falo de Petersburgo como aquelas pessoas que a visitam numa onda viva de entusiasmo e frivolidade e que podiam fazer as mesmas coisas em Paris ou em Viena, sem tirarem algum tempo para (...) reflectir além dos salões brilhantes e do luxo exagerado dos palácios e da extravagância frenética de uma corte tão grande."

Vitória com o vestido da corte prussiana
Este laço matrimonial entre a Inglaterra e a Rússia não resultou em mais nada além de algumas semanas de comemorações reais caras. O casamento do príncipe Alfredo do Reino Unido e a grã-duquesa Maria da Rússia, que parecia prometedor no início de 1874 não foi feliz. Nem conseguiu, como muitos esperavam, melhorar as relações diplomáticas entre os seus países. Foi, na verdade, pouco mais do que uma irrelevância política - uma união que não alterou em nada o equilíbrio entre potências tão cuidadosamente delineado por Bismark.

Vitória da Prussia (sentada, à direita) com a sua cunhada, Maria Alexandrovna (em pé, à esquerda da rainha), três das filhas dela, as princesas Maria (futura rainha da Roménia), Alexandra e Vitória Melita, a sua mãe, a rainha Vitória, a sua filha Vitória (Moretta) e a sua irmã Beatriz.
Texto retirado do livro "An Uncommon Woman - The Empress Frederick" de Hannah Pakula

segunda-feira, 9 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Primeira Parte

O príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca com a sua esposa, a grã-duquesa Helena Vladimirovna no dia do seu casamento
Quando terminava a educação dos membros da família imperial, chegava a altura do casamento. Os estatutos impostos pelo czar Paulo I faziam com que os seus descendentes fossem obrigados a contrair matrimónio com parceiros do mesmo estatuto social, o que limitava a sua escolha a membros de famílias reinantes da Europa. Também havia considerações sociais a ter em conta: a Igreja Ortodoxa Russa proibia o casamento entre primos direitos, uma prática comum noutras casas reais, e, até 1874, as princesas estrangeiras que se casavam com homens da família Romanov eram obrigadas a converter-se à religião ortodoxa. Esta regra continuou a ser aplicada à esposa do herdeiro ao trono.

Gravura do casamento do futuro czar Alexandre III com Maria Feodorovna
Por outro lado, as grã-duquesas russas nunca se converteram a outra religião. Permaneceram ortodoxas, independentemente do noivo escolhido e, até aos dias de hoje, ainda sobrevivem igrejas russas por toda a Europa mandadas construir pelas filhas e netas de czares que se foram espalhando pelas famílias reais do continente. Era raro ver uma noiva Romanov que se adaptasse bem ao seu país de acolhimento. Rodeadas por culturas completamente diferentes daquela onde tinham nascido, quase todas elas acabariam por permanecer profundamente ligadas à Rússia e com saudades do seu país natal.

Para os seus irmãos, as coisas eram ainda mais complicadas. Os jovens Romanov não eram protegidos da sociedade e era quase inevitável que as suas primeiras paixões surgissem por alguma dama-de-companhia ou dançarina, o que tornava difícil a sua adaptação a uma casamento "adequado" e, à medida que a família foi crescendo, foi-se tornando cada vez mais difícil encontrar princesas pela Europa. Esse foi o maior problema da família imperial à medida que atravessava os seus últimos anos de existência e o número de membros da família que se foi casando abaixo da sua posição foi aumentando com o passar dos anos.

O grão-duque Paulo Alxandrovich com a sua segunda esposa, a aristocrata Olga Karnovitsch , depois princesa Paley
A grã-duquesa Maria Alexandrovna era particularmente afeiçoada ao seu pai, o czar Alexandre II da Rússia: "Perdemos a nossa filha mais velha e queríamos tanto ter outra que, quando ela nasceu, foi uma alegria. (...) Quando ela tinha aulas, as nossas horas não coincidiam e era raro ela poder fazer-me companhia nas minhas caminhadas, mas aos Domingos tinha-a só para mim e iamos sempre caminhar juntos (...) ontem, quando chegou à hora em que costumávamos fazer isso, não pude evitar e tive de lhe enviar um telegrama a dizer-lhe que estava a pensar nela e nas nossas caminhadas". Quando Maria e o príncipe Alfredo do Reino Unido começaram a apaixonar-se, ambos os seus pais mostraram alguma preocupação. As relações diplomáticas entre a Rússia e Grã-Bretanha estavam cortadas, mas o casal estava decidido e a cerimónia acabaria mesmo por celebrar-se na Grande Capela do Palácio de Inverno em Janeiro de 1872. Maria Alexandrovna teve muitas dificuldades para se adaptar à corte britânica e apenas acabaria por se sentir realmente à-vontade quando o seu marido se tornou duque de Saxe-Coburgo-Gota.

A grã-duquesa Maria Alexandrovna e o seu marido, o príncipe Alfredo do Reino Unido


Maria Alexandrovna mostra o seu filho mais velho, o príncipe Alfredo. A fotografia foi tirada na Rússia, por volta de 1875.


















As filhas mais velhas de Maria Alexandrovna: Maria, futura rainha da Roménia, e Vitória Melita, futura grã-duquesa de Hesse e grã-duquesa da Rússia. Ambos os seus casamentos seriam fonte de desentendimentos na Rússia.









A grã-duquesa Olga Constantinovna (em baixo, com a mãe) ficou noiva do rei Jorge I da Grécia no início de 1867, quando tinha apenas quinze anos de idade. Diz-se que o seu encontro em casa dos pais dela foi acidental, mas parece mais provável que a irmã dele, a futura czarina Maria Feodorovna, teve alguma influência para que ele acontecesse. É sabido que persuadiu os pais de Olga, que não estavam muito convencidos do sucesso da união, a dar o seu consentimento. "Onde é que foste aprender a ser tão casamenteira, minha marota?" perguntou o pai dela, o rei Cristiano IX da Dinamarca, "Deves ter tido muito trabalho a convencer o teu tio e a tua tia que, antes, estavam decididamente contra uma união deste tipo". Olga casou-se no Palácio de Inverno em Outubro e partiu para a Grécia pouco tempo depois, quando era ainda pouco mais do que uma criança. Levou consigo as suas bonecas e brinquedos favoritos que lhe serviram de conforto quando a experiência se tornou demasiado esmagadora. Acabaria por se adaptar relativamente bem ao seu novo país e tornou-se uma rainha bastante popular, mas o seu coração foi sempre russo. 


Olga Constantinovna e Alexandra Iosifovna
A rainha Olga com os seus filhos mais velhos, Constantino, herdeiro do trono grego, (à direita, sentado) e Jorge. Constantino nasceu em Agosto de 1868, antes de a sua mãe chegar aos dezassete anos de idade, e o seu nome foi escolhido por uma multidão que o entoou por baixo da varanda do palácio na noite do seu nascimento. Foi uma reviravolta curiosa: o primeiro Constantino da família imperial russa, o grão-duque Constantino Pavlovich, tinha recebido esse nome porque a sua avó, a czarina Catarina, a Grande, desejava criá-lo para que ele subisse um dia ao trono grego que era na altura ocupado pelo imperador otomano. Agora, quase um século depois, um dos seus descendentes, ainda para mais um com o mesmo nome, estava em linha directa para herdar o trono.

Olga Constantinovna com os seus dois filhos mais velhos
O rei Jorge e a rainha Olga em 1881 (abaixo). O rei e a rainha visitavam a Rússia e a Dinamarca, país natal do rei, com muita frequência. Na Dinamarca também se encontravam quase todos os outonos com Maria Feodorovna, Alexandre III e a sua família. Ambas as famílias foram sempre muito chegadas.

Jorge e Olga em 1881
A grã-duquesa Vladimir, Maria Pavlovna, com o seu irmão, o grão-duque hereditário Frederico Francisco de Mecklenburg-Schwerin em 1878 (abaixo). Maria Pavlovna também recorreu à sua posição de mulher casada para ajudar a arranjar o casamento dos seus irmãos solteiros. Apesar de ter uma personalidade gentil e quase santa, Frederico Francisco era o que precisava mais de ajuda. Sofria de uma forma grave de asma assim como ataques espaçados de uma doença de pele pouco atraente. Maria Feodorovna deixou-nos uma descrição bastante gráfica: "sofre de uma doença asquerosa, uma erupção cutânea que lhe afecta todo o pescoço e as orelhas de tal forma que ele teve de usar uma espécie de manto a semana inteira para não se ver. É uma tragédia para ele, coitado. É quase errado que ele se case". Mas Maria Pavlovna tinha quase tanto jeito como a cunhada para que as coisas acontecessem à sua maneira e reparou que uma prima do marido, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna de dezassete anos, poderia ser uma boa noiva para o irmão. Frederico Francisco fez uma visita a São Petersburgo e sentiu-se tão atraído por Anastásia que tomou imediatamente a iniciativa de escrever uma carta à mãe da sua futura esposa. "Pode imaginar como fiquei nervosa", escreveu Maria Pavlovna ao seu pai, "porque o futuro do meu irmão e o bem-estar do nosso amado estado de Mecklenburg-Schwerin depende disto."

Maria Pavlovna com o irmão, Frederico Francisco
Anastásia Mikhailovna em 1879 (abaixo), num retracto que faz justiça à descrição que Maria Feodorovna deixou dela no seu dia de casamento: "tão doce, delicada como uma rosa, bonita como uma fada". De forma característica, a futura czarina descreveu o noivo de forma perversa: "parecia alguém que tinha despertado do mundo dos mortos ou alguém que se esqueceram de enterrar". Mas Anastásia acabaria mesmo por o amar já que, de acordo com vários relatos, ele era uma pessoa muito amável - "o homem mais querido à face da Terra", segundo dizia a princesa de Pless. Foi com o estado de Mecklenburg-Schwerin que Anastásia teve problemas. Antes de se casar, a grã-duquesa esforçou-se verdadeiramente por estudar o estado que a ia receber, mas acabou por nunca se conseguir adaptar a ele. Detestava aquele lugar e os seus súbditos acabariam por sentir o mesmo em relação a ela. Não demorou muito até que Anastásia e Frederico compreendessem que apenas poderiam ser felizes como um casal longe do estado que ele estava destinado a reinar.

Anastásia Mikhailovna em 1879
Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Funeral de Alexandre II e a Condenação dos seus Assassinos

A morte de Alexandre II
O funeral do czar Alexandre II [que tinha sido assassinado num ataque à bomba a 13 de Março de 1881] realizou-se sob o maior dispositivo de segurança imaginável. Vários representantes de cortes estrangeiras viajaram para a Rússia, para se juntarem à família horrorizada, mas não sem algumas reservas da parte dos seus soberanos. O genro e a filha do falecido czar, o duque e a duquesa de Edimburgo [o príncipe Alfredo e a grã-duquesa Maria Alexandrovna], partiram imediatamente de Londres assim que souberam da notícia que tinham temido e esperado durante tanto tempo. Chegaram a São Petersburgo três dias depois e enviaram imediatamente um telegrama para Inglaterra ao príncipe e à princesa de Gales [o futuro rei Eduardo VII e a princesa Alexandra da Dinamarca] onde garantiam que o novo casal imperial, o "Sasha" [Alexandre III] e a "Minnie" [Maria Feodorovna] gostariam muito de ter a sua presença.


Maria Feodorovna, Alexandre III e Alexandra do Reino Unido
Lord Dufferin, embaixador inglês em São Petersburgo, concordou que era desejável que o casal estivesse presente no funeral. A rainha Vitória deu o seu consentimento de forma relutante e avisou Dufferin que, se alguma coisa lhes acontecesse, ele seria responsabilizado. De Berlim, o imperador Guilherme I enviou o seu filho, o príncipe-herdeiro Frederico Guilherme, apesar de ter recebido cartas anónimas a avisá-lo de que a sua vida seria posta em risco se fosse. O czar e a czarina ficaram no Palácio de Inverno e os seus convidados no Palácio de Anichkov em condições de claustrofobia quase impossíveis de aguentar. O conde Loris-Melikov garantiu-lhes que nada de mal lhes aconteceria desde que não saíssem à rua na companhia do czar. Mesmo assim, o príncipe de Gales não gostou do pequeno jardim coberto de neve no Palácio de Inverno, o único local considerado seguro para o czar fazer exercício, e disse que até uma viela de Londres tinha melhor aspecto.

O príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII do Reino Unido
O corpo do falecido estava em câmara ardente na capela mortuária do Palácio de Inverno, sem qualquer coroa na cabeça ou condecorações no peito, como era costume nos ritos funerários dos czares. Alexandre II tinha deixado ordens por escrito nas quais dizia que não queria levar emblemas para a sepultura. Na véspera do dia em que o corpo seria levado do palácio para a catedral da Fortaleza de Pedro e Paulo, Pobedonostsev [conselheiro do falecido czar] encarregou-se dos últimos preparativos. Quando todos já se tinham retirado, viu a viúva do czar, a princesa Catarina Dolgorukov [a segunda esposa de Alexandre II], a entrar a partir da divisão ao lado e, apesar de estar apoiada na irmã, era visível que se esforçava bastante para manter o equilíbrio e a postura. Caiu de joelhos ao lado do caixão, afastou o véu que cobria o rosto do marido e beijou-lhe o rosto demoradamente em vários locais antes de se arrastar para fora da capela. Apesar de a ter ressentido pelo escândalo que tinha causado, Pobedonostsev admitiu que, daquela vez, apenas tinha sentido compaixão pela sua dor. Nessa mesma noite, a princesa acabaria por voltar à capela, levando nas mãos o seu longo cabelo, que tinha acabado de cortar, e colocou-o dentro do caixão num gesto de despedida.

Alexandre II com a sua segunda esposa, a princesa Catarina Dolgorukov, e os seus dois filhos mais velhos: Jorge e Olga
Uma vez por dia, o czar tinha permissão para sair do palácio e estar presente numa missa dada na presença do caixão do seu pai na igreja da Fortaleza de Pedro e Paulo. De acordo com a tradição russa, todos os parentes do falecido tinham de beijar o seu rosto, uma tarefa desagradável já que as suas feições tinham sido danificadas pela bomba e começaram a apodrecer alguns dias antes do funeral que se realizou a 27 de Março. É possível que os seus filhos tenham visto alguma ironia no facto de o pai ser enterrado ao lado da primeira esposa que tanto tinha feito sofrer e que tinha deixado de amar há muito tempo.


Maria Alexandrovna numa fotografia rara ao lado do marido, Alexandre II. Ao seu lado estão dois dos seus filhos: o grão-duque Sérgio Alexandrovich e a grã-duquesa Maria Alexandrovna
Antes de deixar São Petersburgo, o príncipe de Gales condecorou o seu cunhado com a Ordem da Jarreteira em nome da rainha Vitória. A cerimónia, realizada no Palácio de Anichkov, acabaria por trazer um momento de relaxamento à vida da família que tanto precisava dele. À medida que o herdeiro ao trono britânico ia caminhando pela Sala do Trono, liderando uma procissão de cinco membros da sua comitiva que levavam as insígnias em almofadas de veludo, como pedia a tradição, uma voz feminina disse num tom muito alto e em inglês que eles pareciam uma fila de amas-de-leite a carregar bebés. A princesa de Gales e a czarina olharam uma para a outra, não conseguiram manter a postura e começaram a rir descontroladamente.

Maria Feodorovna, czarina da Rússia e Alexandra, futura rainha do Reino Unido
Algumas facções da opinião russa acreditavam fervorosamente que tentar vingar o assassinato não era o caminho a seguir. Por muito que tivesse condenado a morte violenta do seu soberano, o conde Lev Tolstoi, escritor e filósofo, implorou ao novo czar que poupasse os responsáveis. Numa longa carta, o famoso escritor defendeu que os métodos decisivos de extermínio não tinham levado a uma redução do terrorismo, mas que "indulgências liberais" - nomeadamente a liberdade parcial e abrir caminho à criação de uma constituição - assim como o perdão cristão eram a melhor resposta a dar:
"Se não perdoar e executar os criminosos, irá conseguir a eliminação de três ou quatro indivíduos de um grupo com centenas de seguidores; mas o mal cria ainda mais mal e, em vez de três ou quatro, irão crescer mais trinta ou quarenta e irá deixar escapar o momento que vale por toda uma geração - o momento em que poderia ter cumprido a vontade de Deus e não o fez - e irá ignorar esta oportunidade de passar entre as ondas afastadas, quando poderia ter escolhido o bem acima do mal, e irá afundar-se para sempre a serviço do mal a que chamam o Interesse de Estado (...) Uma palavra de perdão e amor cristão, falada e executada a partir do alto de um trono e o caminho de um governo cristão, que está perante si, à espera de ser caminhado, pode destruir todo o mal que está a corromper a Rússia. Tal como a cera perante o fogo, as lutas revolucionárias irão derreter-se perante o homem-czar que cumpra a lei de Cristo."
Lev Tolstoi
Tolstoi convenceu o grão-duque Sérgio a colocar a carta na secretária do irmão e o czar leu-a, mas acabou por desdenhá-la. Ao mesmo tempo, o comité executivo da organização Vontade do Povo, acreditava, erradamente, que o novo czar iria certamente ouvir os seus conselhos para evitar sofrer o mesmo destino do pai.  Numa longa carta aberta, avisaram-no de que tinha apenas duas alternativas - "ou uma revolução inevitável, que não pode ser eliminada através de castigos corporais; ou o cumprimento voluntário da vontade do povo da parte do governo". Exigiam "uma amnistia geral de todos os ofensores políticos anteriores, uma vez que estes não eram criminosos, mas meros cumpridores do seu difícil dever cívico"; e "a convocação dos representantes de todo o povo russo para uma revisão e reforma das leis privadas do estado, de acordo com a vontade da nação". Estes seriam "os únicos meios para voltar a colocar a Rússia no caminho do progresso pacífico", e o seu partido nunca deveria ser acusado de qualquer acto de violência contra as medidas de um governo criado por tal parlamento. A carta terminava com as palavras "Sua Majestade tem de decidir. Tem dois cenários à sua frente; cabe-lhe a si decidir por qual deles irá optar."

O czar Alexandre III
Nenhum dos apelos surtiu qualquer efeito. Sua Majestade Imperial, o czar Alexandre III, czar de Todas as Rússias, já tinha decidido o que queria. Desde que soube da explosão no Palácio de Inverno, tinha vivido ainda com mais medo do que o pai e estava determinado a acabar com o terrorismo no seu império. O seu reinado ainda mal tinha começado quando começaram a ser erguidas barreiras em locais potencialmente vulneráveis. Os guardas passaram a vigiar os palácios de Inverno e de Anichkov com mais frequência e foram colocados homens com espingardas nas entradas de edifícios governamentais. Foram enviados homens armados e patrulhas montadas a cavalo para as ruas, com ordens para revistar todos os cantos à procura dos suspeitos. A nova família imperial também se adoptou às novas medidas de segurança o melhor possível e, durante os seus primeiros tempos de reinado, o czar e a czarina mal saíram à rua. Pobedonostsev aconselhou pessoalmente o czar a trancar as portas que davam acesso aos seus aposentos e a trancar a porta do quarto antes de ir dormir. Todos os seus filhos eram vigiados vinte-e-quatro horas por dia. De Berlim, o chanceler Bismark ordenou que o embaixador alemão em São Petersburgo lhe enviasse telegramas duas vezes por dia. Se não recebesse qualquer telegrama, teria de assumir que o telegrafo tinha sido destruído devido ao estado de anarquia contínua.


Alexandre III, Maria Feodorovna e os seus filhos
Esta atitude demonstra bem o clima de pânico que se vivia e, à medida que o período de calma e falta de actividade revolucionária se ia arrastando durante semanas e, depois, meses, os guardas e sentinelas começaram a ficar enfadados, à espera que algo acontecesse. Loris-Melikov recusou-se a entrar em pânico. Apesar de não ter conseguido manter o seu mestre vivo, ainda acreditava que havia apenas alguns revolucionários à solta e que estes poderiam ser apanhados através de métodos de segurança tradicionais. Temia que, se a concessão de reformas fosse adiada, a maioria dos russos com formação que simpatizavam com os revolucionários seriam atraídos por eles. Alguns oficiais achavam que o assassinato tinha destruído por completo a sua credibilidade e que Melikov seria dispensado em breve, mas o czar Alexandre III não desejava tomar nenhuma decisão precipitada relativamente a esse assunto. Talvez tenha sido esta relutância em tomar medidas à pressa que tenha sido interpretada pelo público como uma demonstração de que o novo czar era contra as medidas do seu pai ou talvez não tenha passado de uma falta de confiança temporária no seu próprio discernimento. 

Alexandre III
Foram dadas ordens aos tribunais para que julgassem os assassinos o mais rapidamente possível. Grinevitsky [um dos responsáveis pelo assassinato de Alexandre II já estava morto, mas Perovskaya ainda estava a monte. Quatro semanas depois, acabaria por ser presa juntamente com quatro dos seus colegas. Os cinco foram condenados à morte: Zelayabov, que já estava preso quando o czar foi assassinado, mas que se gabou de ser o eminence grise por detrás da operação; Kibalchich, o químico que fez as granadas; Rysakov, o último voluntário da operação; e Michelovich, que tinha participado em reuniões do grupo onde o plano para assassinar o czar tinha sido discutido. Jessica Hellman, que tinha emprestado o seu apartamento aos conspiradores foi poupada à pena de morte por estar grávida, mas foi condenada a servidão perpétua.

Sofia Perovskaya, uma das responsáveis pelo assassinato de Alexandre II
Os restantes foram enforcados a 15 de Abril naquela que seria a última execução pública alguma vez realizada em São Petersburgo. Os condenados estavam sentados em cadeiras, colocadas dentro de grandes carroças, de costas viradas para os cavalos. Cada um levava uma tableta com a palavra "Tsaryubeeyetz" ("Regicídio"). A carroça era seguida por duas bandas filarmónicas que tocavam as suas músicas alto o suficiente para impedir os condenados de falarem com uma multidão dividida entre os que aprovavam a medida e os que estavam contra ela. A música foi seleccionada sem grande consideração; uma das bandas começou a tocar Fatiniza e, sempre que os músicos faziam uma pausa, a outra banda começava a tocar Kaiser Alexander, uma marcha igualmente alegre e jovial. "A incongruência horrenda entre a música e a ocasião dava arrepios", escreveu o diplomata Lord Frederick Hamilton.

A execução dos assassinos de Alexandre II
A tensão foi diminuindo em São Petersburgo após as execuções, mas havia um sentimento sombrio por todas as zonas rurais da Rússia. Havia versões sensacionalistas do que tinha acontecido a circular de aldeia para aldeia. Alguns camponeses acreditavam que tinham sido os nobres que possuíam terras a matar o czar libertador por este ter sido gentil para com os camponeses e começaram a atacar proprietários locais para o vingar. Outros imaginaram, ou foi-lhes dito, que o novo czar desejava aproveitar a sua coroação para anunciar os seus planos para a distribuição das terras da aristocracia pelo povo e começaram a ficar impacientes por ter de esperar tanto tempo.


Texto retirado do livro "The Romanovs: 1818-1959" de John van der Kiste