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terça-feira, 11 de julho de 2017

O Almirante General - Grão-Duque Constantino Nikolaevich - Segunda Parte


Na posição de vice-rei, o grão-duque tinha feito todos os possíveis para agradar aos polacos, mas o que eles queriam realmente era autonomia e não reformas e tiveram a oportunidade de colocar em marcha os seus planos bem formulados para um levantamento quando Constantino implementou um imposto para o recrutamento militar em 1863. O motim que se seguiu colocou um ponto final abrupto no governo de Constantino, que foi obrigado a regressar a São Petersburgo com a família e a voltar ao trabalho de reforma na marinha russa, principalmente na necessidade de possuir uma frota no Mar Negro. A abolição dos castigos corporais em Abril de 1863 tinha facilitado o seu trabalho, e os relatórios oficiais do Ministério da Marinha começaram a registar casos de oficiais disciplinados e dispensados por crueldade nos postos mais baixos. Em reconhecimento pelos vários serviços que tinha prestado ao país, Alexandre II elevou a posição de Constantino para presidente do Consílio de Estado.

Constantino Nikolaevich
Em meados da década de 1860, os seus filhos estavam a crescer. Em 1867, Olga ficou noiva do rei Jorge da Grécia, cuja irmã, a princesa Dagmar, se tinha casado com o czarevich Alexandre Alexandrovich no ano anterior, tornando-se a czarevna Maria Feodorovna. Maria esforçou-se ao máximo para conseguir assegurar o noivado do irmão, mesmo sabendo que os Constantinovich estavam contra ele: de alguma forma, a jovem conseguiu fazê-los reconsiderar o assunto. A sua hesitação era compreensível. Olga tinha apenas quinze anos de idade, ainda era uma criança, e o casamento realizou-se algumas semanas depois de ela completar dezasseis anos. A jovem partiu para a Grécia com todas as suas bonecas e brinquedos e considerou a sua chegada a Atenas avassaladora. Até a língua era estranha. Antes de uma recepção, Olga desapareceu e, depois de uma longa busca pelo palácio, os criados encontraram-na a chorar debaixo das escadas, enquanto se abraçava a um dos seus ursos-de-peluche favoritos. Com o passar do tempo, Olga acabaria por se habituar à sua nova vida, mas nunca perdeu o seu amor pela Rússia e regressava sempre que podia. Em Julho de 1868, nasceu o seu primeiro filho e ela deu-lhe o nome de Constantino, em homenagem ao pai.

Constantino e Alexandra com a sua filha Olga
Constantino e Alexandra deveriam ter conseguido entrar na nova fase das suas vidas como avós com alegria, mas o início de uma nova geração da família coincidiu com uma crise na sua. Por volta de 1866, no ano em que Alexandre II começou a sua relação com Catarina Dolgorukaya, Constantino começou a seduzir uma jovem bailarina da Conservatória de São Petersburgo. Anna Kousnetsova era vinte anos mais nova do que ele e resistiu aos seus avanços durante vários anos, mas Constantino sabia como conseguir aquilo que queria. Em 1873, Anna deu à luz o seu primeiro filho, a quem chamou Sergei. Iriam seguir-se mais quatro e o grão-duque mantinha uma casa independente para a sua amante e filhos dentro da propriedade de Pavlovsk e na Crimeia. Corriam até rumores de que ele tinha pedido autorização ao czar para se divorciar da sua esposa, mas que ele tinha recusado.

Anna Kousnetsova, amante de Constantino
Para Alexandra, este foi um golpe amargo. Tinha sido feliz com Constantino e era uma mulher orgulhosa. A partir do momento em que soube do caso do marido, começou a ter cada vez mais cuidado com a sua aparência. Havia um tom de desafio e até um pouco de tristeza quando começou a comparar-se insistentemente com a imperatriz da Áustria, que, na altura, tinha a reputação de ser a mulher mais bela da Europa: muitos enviados estrangeiros ficavam sem palavras quando ela o fazia, com medo de a ofender com uma resposta sincera. Há rumores de que, nos seus últimos anos de vida, Alexandra usava corpetes e sapatos na cama para manter a sua cintura fina e os seus pés pequenos. Ao contrário de Maria Alexandrovna, não estava preparada para amar de forma calada e sacrificada: quando foi confrontada com a traição de Constantino, afastou-se dele e da corte, refugiando-se na companhia dos seus filhos mais novos.

Alexandra Iosifovna
Alexandra estava a preparar-se para viajar para o casamento da sua filha mais nova, Vera, em 1874, quando descobriu que faltavam três diamantes valiosos de um ícone que lhe tinha sido oferecido pelo seu sogro, o czar Nicolau I, e que ela tinha no quarto. Um outro ícone estava danificado. Alexandra mostrou o que tinha acontecido a Constantino e foi chamada a polícia enquanto ela partiu para Estugarda, onde Vera, de vinte anos, se ia casar com um primo afastado, o duque Guilherme Eugénio de Wuttenberg. Dois dias depois, os diamantes foram encontrados na posse do capitão Varpakhovsky, ajudante-de-campo do grão-duque Nicolau Constantinovich. O chefe da polícia, o conde Schouvalov, informou Constantino de que o ladrão era o seu filho.

Alexandra Iosifovna com o seu filho Nicolau e a filha Olga
Vinte anos de adoração dos pais tinham transformado Nicolau Constantinovich no pior tipo de príncipe aristocrata possível. Atraente, culto e inteligente, gostava de se fazer passar por revolucionário liberal, mas, na verdade, não queria saber de ninguém a não ser ele próprio. Contava muitas vezes histórias sobre a severidade sem sentido, quase brutalidade, com a qual tinha sido criado, mas todos os que o tinham visto crescer lembravam-se de um adolescente mimado fora do controlo de todos, que era capaz de fazer a vida negra a qualquer tutor de quem não gostasse. Não respeitava os padrões normais do comportamento: quando tinha dezasseis anos, Marie von Keller viu-o a torturar um cordeiro que tinha atado a uma árvore, e a rir-se quando ele morreu. O sexo tornou-se uma obsessão e a tentativa da sua mãe de o tentar acalmar através de um casamento com a filha da sua irmã, a princesa Frederica de Hanôver, falhou porque Nicolau já estava envolvido com várias amantes. Agora, quando foi interrogado pelo seu pai e pelo conde Schouvalov, Nicolau não mostrou medo nem arrependimento. Acabou por se descobrir que aquele roubo tinha sido apenas mais um entre muitos e ambos os homens ficaram chocados com a atitude dele. Com a bênção do czar, Nicolau foi declarado louco e colocado sob vigilância médica. A nível privado, tal como Constantino escreveu no seu diário: "para castigar o Nikola, vamos fechá-lo numa cela sob vigilância apertada, e as suas medalhas e epaulettes vão ser retiradas. Apenas nós sabemos disto, e não o público".


O grão-duque Nicolau Constantinovich

Mas mesmo na prisão, Nicolau continuava a causar problemas. Enviado inicialmente para Oreanda na Crimeira, onde a vigilância não era tão apertada quanto o seu pai tinha esperado. Uma jovem, Alexandra Demidov-Abaza, teve acesso ao grão-duque e, quando escreveu ao czar a afirmar que estava grávida e a pedir o reconhecimento legal do seu filho, Nicolau foi enviado para a Ucrânia, depois de volta para a Crimeia, sendo sempre seguido pela sua amante. Quando a encontraram, Nicolau foi enviado novamente para outro local, mas, em Setembro de 1876, descobriram novamente a sua amante a viver nos seus aposentos e, desta vez, estava grávida novamente. O general responsável por vigiar o grão.duque pediu a demissão e, em Maio de 1877, o conde Rostovtsev chegou para o substituir, levando Nicolau para um novo local de exílio em Orenburg. Nicolau nunca mais voltou a ver Alexandra nem os seus filhos.



Nicolau Constantinovich
Em Orenburg, Nicolau começou a mostrar um lado diferente da sua personalidade. Interessou-se profundamente pela Ásia Central e passou várias horas a ler e a pesquisar seriamente sobre o assunto. No outono de 1878, organizou a primeira de várias expedições de investigação e, depois, escreveu artigos para jornais científicos. A sua grande paixão tornou-se o melhoramento da vida no Turquestão, principalmente através da introdução de sistemas de irrigação funcionais, mas isso não significou que as suas outras paixões tivessem ficado para segundo plano. O czar ficou exasperado quando soube que, a 15 de Fevereiro de 1878, Nicolau se tinha casado em segredo com Nadejda Dreyer, filha do chefe de polícia local. Para o fazer, tinha utilizado o nome de Coronel Volinsky, o seu herói da infância. Nicolau tentava passar a imagem de que era um revolucionário e que as pessoas se iriam revoltar e reunir à volta dela: não é de admirar que o seu pai e o tio tenham perdido a paciência e parece ter sido por esta altura que o seu nome foi removido das listas públicas da família imperial. Oficialmente, o grão-duque Nicolau Constantinovich deixou de existir.

Nicolau com a sua mãe, Alexandra, e a irmã Vera.
No entanto, em privado, como não podia deixar de ser, continuou a ser um problema com o qual a família tinha de lidar. Os responsáveis pela sua guarda, envergonhados, tentaram atirar as culpas uns para os outros, mas no outono de 1880, a vida em Orenburg tinha-se tornado insuportável. Nicolau recusou-se a receber mais ordens do conde Rostovtsev e um representante enviado pelo czar mostrou alguma compreensão pela sua posição. Em Novembro, foi enviado para uma pequena propriedade perto de São Petersburgo e a vigilância à sua volta foi relaxada.

Nicolau Constantinovich
Em inícios de Fevereiro de 1879, a grã-duquesa Alexandra Iosifovna estava a caminhar numa galeria em Pavlovsk quando viu uma aparição aterrorizante: uma dama vestida de branco a flutuar na direcção dela. A grã-duquesa acreditou que se tratava de um mau-presságio e os seus medos foram confirmados no dia seguinte quando o seu filho mais novo, Viacheslav, adoeceu. Acabaria por morrer em menos de uma semana. Agora, Alexandra estava mais só do que nunca, e via com tristeza e raiva a forma como o marido e o irmão se dedicavam cada vez às suas amantes. Ficou zangada com Constantino por este apoiar o caso amoroso do czar com Catarina e furiosa quando o seu filho ilegítimo, Georgi, recebeu uma casa temporária em Pavlovsk, no verão de 1872. A 22 de Maio/3 de Junho de 1880, a czarina Maria Alexandrovna morreu sozinha no seu quarto do Palácio de Inverno. O czar viúvo tomou medidas quase imediatas para cumprir a promessa que tinha feito a Catarina de se casar com ela. O czar explicou à sua irmã Olga, rainha de Wuttenberg, a sua decisão: "Nunca me teria casado antes de fazer um ano de luto se não fosse pelos tempos perigosos em que vivemos. (...) A Catarina Dolgorukova preferiu recusar todos os prazeres e alegrias da sociedade que dizem tanto a uma jovem da idade dela, para dedicar a vida dela a amar-me a cuidar de mim. Por isso, terá todo o direito ao meu amor, carinho e gratidão". Alexandre esperava que a sua família o compreendesse e aceitasse, mas a maioria, principalmente as mulheres, ficou horrorizada. Alexandra Iosifovna recusou-se a sequer conhecer Catarina, desafiando assim uma ordem imperial. Constantino tentou conversar com ela, mas de nada lhe valeu e Alexandra só acabaria por ceder à última da hora porque uma das filhas de Catarina adoeceu e, na altura, a situação parecia grave. No entanto, apesar de tudo, manteve-se sempre fiel à memória da czarina, que tinha sido sua amiga.

Alexandra Iosifovna com a sua filha Olga.
Não teria de aguentar a situação durante muito tempo. Pouco depois do meio-dia de domingo, dia 1/13 de Março de 1881, Alexandre II saiu do Palácio de Inverno para participar numa parada militar que se realizava todas as semanas na Escola de Cavalaria de Mikhailovsky, ignorando as ameaças terroristas que agora faziam parte da sua vida. Respondia-lhes com a mesma coragem resoluta que tinha mostrado perante o seu neto Nicolau na Capela Gótica em Peterhof. Além disso, nesta ocasião, o seu sobrinho Dmitri Constantinovich, iria cavalgar ao seu lado como ajudante-de-campo pela primeira vez, e a última coisa que Alexandre queria era desiludi-lo ao cancelar a parada. Quando terminou, o czar foi visitar a sua prima, a grã-duquesa Catarina Mikhailovna, no Palácio de Mikhail. Estava já de regresso a casa quando duas explosões ensurdecedoras abalaram a cidade. No silêncio que se seguiu, uma multidão abalada e assustada reuniu-se à volta do Palácio de Inverno para saber o que tinha acontecido. O czar tinha sido atingido com uma bomba de fabrico manual no cruzamento do Canal de Catarina e, apesar de o seu irmão Miguel ter corrido para o seu lado para o ajudar, e de o czar ter sido transportado ainda com vida para o Palácio de Inverno, os seus ferimentos eram muito graves. Acabaria por morrer poucas horas depois e esta tragédia dividiu profundamente a sua família.

Alexandre II no seu leito de morte, rodeado da família.
No seu último ano de reinado, Alexandre tinha dado início aos procedimentos necessários para começar as discussões que iriam levar a uma reforma constitucional. Constantino era um dos principais impulsionadores e, na categoria de Presidente do Conselho de Estado, ajudou a preparar a proposta para a criação de uma assembleia eleita limitada que Alexandre iria aprovar precisamente no dia em que morreu. Para Constantino e os seus colegas reformadores, a esperança acabou poucos meses depois da ascensão do novo czar. Inicialmente, parecia que Alexandre III poderia dar continuidade às políticas do pai, mas, atrás das costas deles, dava ouvidos ao conservadorismo do seu antigo tutor e redigiu um manifesto no qual acabou com todas as esperanças de conseguir reformas. Quando os reformadores o ouviram, não tiveram outra escolha senão demitir-se. Para Constantino, o dilema era tanto pessoal como político, uma vez que o novo czar era o "Sasha-Patas-de-Urso", o sobrinho de quem ele não gostava e que tinha humilhado. Aquele incidente distante na Polónia deve ter sido apenas um entre muitos e Alexandre III deixou bem claro que o seu tio já não era bem-vindo na corte. Foi gentil com Alexandra, mas recusou os pedidos que ela lhe fez para perdoar o seu filho Nicolau, uma vez que era da opinião de que também não podia confiar no primo. A sua vigilância foi novamente reforçada e Nicolau foi transferido para Pavlovsk, antes de ser finalmente condenado ao exílio no interior do império, em Tashkent. O desdém que Alexandre sentia pelo grão-duque Constantino e pelo seu filho foi notado e fez com que se espelhasse pelas cortes europeias o rumor de que Constantino estaria envolvido no assassinato do seu irmão.

Constantino Nikolaevich
Sem mais nada para fazer, o grão-duque retirou-se para Pavlovsk. Os seus problemas de xadrez foram publicados em jornais internacionais, mas isso nunca poderia substituir a posição que ele tinha ocupado no centro dos assuntos de estado. Em 1883, visitou a sua filha Olga e a família dela na Grécia e estava ansioso pela visita deles à Rússia: adorava os seus netos gregos e costumava diverti-los pregando partidas a criados distraídos. Alguns já estavam tão habituados aos truques do grão-duque que deixaram de reagir, mas Constantino ficava exultante se os conseguisse fazer dar um salto ou gritar, um sinal do seu aborrecimento e do agravamento do seu mau-feitio.

Constantino Nikolaevich
Constantino sofreu uma pequena apoplexia no casamento da sua neta, a princesa Alexandra da Grécia, com o seu sobrinho, o grão-duque Paulo Alexandrovich, no verão de 1889 e, um segundo ataque pouco tempo depois, deixo-o paralisado da cintura para baixo e sem a capacidade de falar. As suas tentativas para comunicar traduziam-se numa série de barulhos incompreensíveis. Agora dependente do cuidado de outros, o grão-duque passou a ser da responsabilidade da sua esposa, que aproveitou esta época para se vingar de certa forma da sua infidelidade. Anna Kousnetsova e os seus filhos ainda viviam numa casa perto do palácio, que Constantino lhes tinha oferecido, mas Alexandra Iosifovna certificava-se de que os seus criados nunca o lavavam até lá e ele não podia ir sozinho. O seu neto, o príncipe Cristóvão da Grécia, testemunhou as consequências de uma das tentativas que o grão-duque fez para os ir visitar: depois de ser trazido para casa por um dos criados que sabia que já não seguiam as suas ordens, Constantino agarrou a sua esposa pelos cabelos e começou a bater-lhe com a bengala até surgir alguém para os separar. Deve ter sido uma situação miserável para ambos.

Alexandra Iosifovna
Em Janeiro de 1892, o grão-duque Constantino Nikolaevich morreu em Pavlovsk. Nos seus últimos anos de vida, tinha-se tornado numa figura misteriosa, suspeito do envolvimento em todo o tipo de conspirações dos quais nunca se teria aproximado ao longo de toda a sua vida, uma vez que, apesar de ser um homem difícil, e muitas vezes desagradável, tinha-se esforçado sem pausas para ajudar o seu irmão e o seu país. No entanto, poucas pessoas se lembram do seu contributo.


Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Um Voo de Pombas - Os primeiros anos de Alexandre II - Primeira Parte

A imperatriz Alexandra Feodorovna com os seus dois filhos mais velhos: Maria e Alexandre
Em meados do século XIX, a ideia de um trono passar pacificamente de pai para filho era uma novidade na Rússia, onde, ao longo de duzentos anos, a sucessão tinha sido problemática e, muitas vezes, violenta. Alexandre I tornou-se czar após o assassinato do pai e muitos suspeitavam que ele tinha estado envolvido no mesmo; a sombra dessa dúvida nunca o abandonou. O seu irmão mais novo foi obrigado a subir ao trono que não queria devido à repressão violenta da Revolta Dezembrista. Por isso, quando Nicolau I morreu na sua cama e deixou um filho capaz, com experiência e pronto para assumir o governo do país, até os inimigos da dinastia estavam prontos para acreditar num futuro melhor. Mas este tipo de esperança já rodeava o czar desde o seu nascimento.

Alexandre II com a sua irmã Maria Nikolaevna
Os presságios favoráveis e ruinosos acompanham sempre os príncipes como uma sombra. Quando a criança que se tornaria no "Czar Libertador" da Rússia nasceu no Kremlin em Abril de 1818, todos os sinos de Moscovo estavam a tocar para celebrar a Páscoa. Diz-se que um bando de pombas brancas sobrevoou o telhado do Mosteiro Chudov, onde, tradicionalmente, os bebés imperiais eram baptizados. Muitas vezes repetida, esta história acabaria por simbolizar o pesado fardo de esperança e expectativa que Alexandre Nikolaevich sempre carregou consigo. Ao descrever o seu nascimento muitos anos depois, a sua mãe lembra-se de se ter sentido "um tanto solene e melancólica, ao pensar que aquele menino seria um dia o imperador". 

Alexandre Nikolaevich
Existem pequenos vislumbres da infância de Alexandre Nikolaevich nas cartas da sua avó, a imperatriz Maria Feodorovna. "O menino (...) muda todos os dias. É uma criança encantadora (...) sobe às árvores, mas acho que consegue livrar-se das situações mais perigosas. Baloiça-se nos ramos, salta por todo o lado (...) o Sasha é ágil como um macaquinho". Protegido por uma família anormalmente chegada e afectuosa, Alexandre não tinha noção da importância da sua posição. O seu pai, o grão-duque Nicolau Pavlovich, era severo, mas também sabia dar o braço a torcer e brincar com os filhos nas alturas certas e, muitas vezes, tinha um papel activo nos seus jogos. Quando Alexandre tinha seis anos de idade, o gentil capitão Karl Merder foi nomeado para substituir as suas amas e governantas, mas o padrão pacifico da sua vida não foi perturbado por esta mudança.


Alexandre com a sua irmã Maria Nikolaevna
Uma outra mudança que teve um impacto mais palpável aconteceu em 1825, quando o seu pai Nicolau subiu ao trono da Rússia num período de caos e violência. Quando os Dezembristas dispararam os primeiros tiros na Praça do Senado, a ideia de russos a derramar sangue uns dos outros parecia uma novidade assustadora, no entanto, com o passar do tempo, tornar-se-ia em algo demasiado familiar. O pequeno Alexandre não deve ter percebido o que estava a acontecer à sua volta. Durante alguns dias mais tensos, teve de sair de sua casa e foi colocado sob a protecção dos Guardas Finlandeses, no pátio iluminado a tochas do Palácio de Inverno, e ficou ao lado da sua mãe destroçada enquanto ela rezava pela protecção do marido. Foi uma apresentação assustadora ao mundo do poder político. Desde cedo que Alexandre começou a ser educado para levar a cabo as reformas que a Rússia tanto precisavam nas temia as forças que as reformas mal executadas poderiam libertar. A sombra daqueles dias de Dezembro nunca o abandonou. Mas nunca houve um príncipe melhor preparado do que ele: em 1826, Nicolau I ofereceu ao poeta Zhukovsky a posição de tutor do herdeiro, em parceria com Merder.

Alexandre Nikolaevich
Perante os acontecimentos, Zhukovsky parece ter sido uma escolha improvável. Filho ilegítimo de um proprietário das províncias, a sua mãe tinha sido uma refém adolescente, levada para a Rússia depois de uma das guerras do império contra a Turquia. O seu pai proporcionou-lhe uma boa educação, com o objectivo de o preparar para o serviço público, mas o jovem Zhukovsky nunca se sentiu atraído por essa área. Foi andando de emprego em emprego até que os seus poemas chamaram a atenção da imperatriz-viúva Maria Feodorovna. Foi na sua casa que Zhukovsky floresceu e, quando o seu filho Nicolau casou com a princesa de Berlim, o poeta foi o escolhido para lhe ensinar a língua russa. Seria Alexandra a pedir ao marido para nomear Zhukovsky para tutor do seu filho mais velho. O poeta mostrou ser imune às tentações da vida na corte. Honesto e idealista, dizia aquilo que pensava sem temer represálias e nunca se aproveitou da sua posição privilegiada junto dos imperadores. Acabaria por morrer relativamente pobre.

Vasily Zhukovsky, tutor de Alexandre.
Ainda antes de iniciar o seu trabalho, Zhukovsky emitiu um proteste veemente contra a introdução do czarevich de oito anos à vida militar. Tinha sido permitido ao rapaz andar de cavalo ao lado das tropas durante a parada da coroação do seu pai: as multidões adoraram o momento e Nicolau não conseguiu esconder o seu orgulho, mas Merder reparou que Alexandre ficou demasiado entusiasmado depois e não se conseguia concentrar nas suas lições. "Senhora, perdoe-me," escreveu Zhukovsky à czarina, "uma paixão demasiado desenvolvida pela arte da guerra - mesmo se encorajada durante uma parada - seria prejudicial para o corpo e para a mente (...) ele acabaria por ver o seu povo como um regimento gigantesco e o seu país como um quartel". Inicialmente, o czar ficou furioso, mas quando o tutor ameaçou demitir-se, acabou por ceder e ouviu as ideias do poeta.

Alexandre Nikolaevich
Zhukovsky definiu um programa de estudos de nove anos para o czarevich. Alexandre teria dois colegas com quem iria partilhar as suas lições, num ambiente escolar estruturado que não deveria ser interrompido por qualquer dever cerimonial. Os três iriam dormir, comer, trabalhar e brincar juntos: a competição entre eles eram mal vista, e os rapazes foram encorajados a discutir os livros que andavam a ler uns com os outros, assim como a escrever diários. As áreas mais importantes da sua formação foram história, línguas e uma temática religiosa. À medida que foram progredindo, os rapazes também começaram a aprender ciências, direito e filosofia. O bom-comportamento era recompensado com a oportunidade de colocar dinheiro na caixa para os pobres - algo que poderia ser uma receita para o desastre noutras salas-de-aula. O treino militar era uma parte secundária do programa, durante o qual aprendiam esgrima, ginástica e equitação. Aos domingos as aulas eram substituídas por trabalhos manuais e passeios.

Alexandre Nikolaevich
Quando estava bem-disposto, Alexandre era uma criança educada e honesta, era visivelmente inteligente e tinha uma natureza generosa. Ficava comovido com qualquer sinal de sofrimento e tristeza. Mas, apesar de tudo, não deixava de ser um rapaz normal que também tinha momentos de travessuras e preguiça, e os seus tutores repararam que tinha a tendência preocupante de transformar qualquer pequeno percalço numa crise. Chorava com demasiada facilidade e, muitas vezes, sem motivo. Com paciência e com o passar do tempo, Zhukovsky descobriu temia a sua herança, por ter ainda na memória a violência da Revolta Dezembrista, que associava à subida ao poder do pai. Alexandre tinha onze anos quando a sua mãe deu à luz um segundo filho varão. Alexandre terá dito: "Estou tão feliz. Assim o papá vai poder escolhê-lo a ele para herdeiro".

Nicolau I (centro) com Alexandre (esquerda), Constantino (direita), Nicolau e Miguel durante a Guerra da Crimeia.
Apesar de Zhukovsky ser gentil, o seu idealismo exacerbado também pode ter contribuído para os medos do seu aluno. Em certa ocasião, deu a Alexandre um ensaio no qual definia aquele que, do seu ponto de vista, era o governante ideal, e o futuro czar guardou-o consigo o resto da vida. "Respeita a lei," escreveu Zhukovsky, "uma lei que seja negligenciada pelo czar nunca será cumprida pelo povo (...). Respeita a opinião pública, pois esta ilumina muitas vezes o soberano (...). Governa pela ordem, não pelo poder (...). Ama o teu povo; a não ser que o czar ame o seu povo, o povo não pode amar o seu czar". O tutor também deixou a seguinte nota na secretária de Alexandre: "Serás tu a entrar na História um dia. Isso é inevitável pelo acaso do teu nascimento. A História irá julgar-te antes do resto do mundo e esse julgamento será para todo o sempre". Era uma perspectiva aterrorizante para um rapaz de onze anos.

Alexandre Nikolaevich
Nesse mesmo ano, em 1829, Alexandre participou em manobras militares pela primeira vez. O seu pai notou uma certa falta de entusiasmo, o que levou ao aumento das tensões entre o czar e os tutores do filho. Nicolau queria que se desse mais importância às ciências militares e ficou chocado quando Zhukovsky escolheu para tutor de História do filho o professor Arseniev, que tinha sido expulso da universidade onde dava aulas por ter atacado a corrupção do sistema judicial. Zhukovsky argumentou que Alexandre tinha de compreender em que estado se encontrava realmente o país. Um professor de religião de quem ele gostava particularmente foi dispensado devido às suas simpatias por dissidentes. À medida que as tensões entre a escola e a corte aumentavam, Alexandre começou a levar as aulas menos a sério e a discutir com os seus companheiros. Em 1832, Merder sofreu um pequeno ataque cardíaco. Arseniev culpou Alexandre pelo sucedido e ele desfez-se em lágrimas e prometeu que se iria portar melhor.


Alexandre Nikolaevich
Alexandre estava prestes a iniciar uma nova etapa da sua vida. Em 1834, quando fez dezasseis anos de idade, tornou-se no primeiro príncipe Romanov a fazer um juramento de lealdade ao czar - com o passar do tempo, este iria tornar-se num ritual de passagem importante para todos os homens da família imperial. As palavras e o cenário eram esmagadores: na capela do Palácio de Inverno, perante uma congregação de cortesãos, representantes do governo, convidados estrangeiros e do clero, o jovem prometeu obedecer ao pai "em tudo, sem poupar o meu corpo, até à minha última gota de sangue". "Pushkin recordou que todos os presentes "ficaram profundamente comovidos". Muitos não conseguiram segurar as lágrimas. Alexandre herdou a sua fortuna naquele dia e, por opção própria, ofereceu quantias de dinheiro generosas aos governadores-gerais de São Petersburgo e Moscovo para que eles as distribuíssem pelos pobres. Só muito mais tarde é que soube que Merder, que tinha ido para Itália para descansar e recuperar a saúde, tinha sofrido outro ataque cardíaco alguns dias antes da cerimónia e que a última palavra que tinha dito antes de morrer tinha sido o nome do seu aluno.


Alexandre Nikolaevich
O czarevich voltou para a sala de aulas com a determinação de ter sucesso. Sentia-se culpado e triste por Merder e a única forma que encontrou para se sentir melhor foi através do trabalho. Ainda faltavam três anos para concluir o sistema de nove criado por Zhukovsky e, no exame final, o jovem de dezanove anos mostrou que dominava várias áreas de conhecimento e que possuía uma compreensão profunda do mundo à sua volta. Mas, além das aulas, Alexandre também passou os seus três últimos anos de estudo a conhecer a sociedade. Todos os queriam ver e, para um rapaz habituado a camas de campanha e a salas-de-aula funcionais, esta nova vida deve ter parecido cheia de tentações. Inevitavelmente, começaram a surgir alguns rumores de que o czarevich estava apaixonado, mas nada escandaloso. Além do mais, Alexandre detestava lisonjas. Não demorou muito até toda a corte estar rendida ao seu futuro imperador.

Alexandre Nikolaevich
Com a sua educação formal concluída, Alexandre foi enviado para uma visita de sete meses pela Rússia, com uma agenda de visitas exigente elaborada pelo pai. Na companhia de Zhukovsky e do General Kavelin, o substituto de Merder, o herdeiro viajou por todo o país a uma velocidade estonteante. "Até quando estamos na cama à noite," queixou-se Zhukovsky à czarina, "sentimos que ainda estamos a galopar". As vilas que iam surgindo pelo caminho organizaram recepções civis, missas nas igrejas, banquetes e bailes, e os dignitários locais faziam fila para conhecer o seu futuro governante. Os camponeses faziam caminhadas de vários quilómetros só para ver a carruagem de Alexandre a passar. O grupo visitou escolas, hospitais, fábricas, instituições caritativas e igrejas; Alexandre observava e ouvia com interesse, mas sabia que ainda lhe faltava ver muita coisa.

Alexandre Nikolaevich
Alexandre começou a pedir para parar nas aldeias mais sujas e negligenciadas, nas quais saía da carruagem e caminhava, entrando nas cabanas dos camponeses como convidado. Não se importava que estas visitas não planeadas atrasassem a sua agenda. Para os camponeses devem ter parecido visitas fora deste mundo, mas se alguém se sentisse demasiado intimidado para falar, pelo menos Alexandre podia ver com os seus próprios olhos como viviam. O seu itinerário incluía uma visita à Sibéria, onde a família imperial nunca tinha estado. Enquanto lá esteve, decidiu ir visitar os campos de prisioneiros para falar com eles enquanto estes arrastavam as suas correntes. Em Tobolsk, fez um desvio especial para conhecer os Dezembristas exilados, responsáveis por uma rebelião da qual ele tinha as piores recordações. As condições do seu exílio deixaram-no de tal forma chocado que Alexandre escreveu uma carta arrebatadora ao pai a pedir-lhe clemência. O czar ouviu, mas não fez nada.

Nicolau I e Alexandre Nikolaevich
É fácil ver estas histórias com algum cinismo. Alexandre vinha do nível mais privilegiado da sociedade e quando a sua visita acabasse, ele podia regressar aos seus palácios. Mas os seus sentimentos eram genuínos e duradouros: ele insistiu em ver o verdadeiro estado em que se encontrava a Rússia, e não admira que tenha sido a fonte de grandes esperanças. O desafio seria quando o seu desejo de fazer o bem tivesse de ser traduzido em acções políticas duras. Nessa altura, as certezas dos ensinamentos de Zhukovsky, de que a opinião pública ficaria sempre do lado de um governante justo, e de que, se um governante que amasse o seu povo, este iria sempre amá-lo em troca, já não fariam tanto sentido.


Alexandre Alexandrovich
No entanto, por agora, tudo o que Alexandre fazia se transformava em ouro. A Rússia adorava-o e a sua missão seguinte seria uma digressão pela Europa pela qual os seus pais ansiavam com urgência uma vez que os rumores sobre as paixões de Alexandre se tinham transformado em realidade. Em inícios de 1838, Alexandre tinha-se apaixonado profundamente por uma dama-de-companhia polaca chamada Olga Kalinovskaya e, apesar de o czarevich saber que nunca se poderia casar com ela, os pensamentos de como poderia ser uma vida ao pé dela atormentavam-no. Alexandre iria apaixonar-se com demasiada facilidade e demasiado envolvimento o resto da vida. O seu pai compreendia-o e estava ansioso por o levar a conhecer o mundo, por o manter ocupado e por lhe encontrar uma esposa adequada. O czar planeou um calendário exaustivo para o filho que Alexandre seguiu com vontade, mas não demorou muito até o ritmo o começar a afectar. No início do verão de 1838, quando se encontrava em Copenhaga, Alexandre apanhou uma constipação que rapidamente se agravou e transformou numa bronquite que o obrigou a passar vários dias de cama. Finalmente a sua comitiva chegou até Ems, mas acabaram por ficar retidos na cidade durante três meses, devido aos ataques de tosse agoniantes e às febres que o czarevich não conseguia curar. Durante o resto da viagem, sofreu de asma.

Olga Kalinovskaya 

Texto retirado do livro "Romanov Autumn" de Charlotte Zeepvat

quarta-feira, 11 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Terceira Parte


Um dos primeiros rebeldes da família foi o grão-duque Nicolau Constantinovich (em cima com os pais, o grão-duque Constantino Nikolaevich e a grã-duquesa Alexandra Iosifovna). Ignorando as tentativas da mãe de lhe arranjar uma noiva adequada, Nicolau gastou a sua fortuna nas suas amantes e na sua colecção de arte. Em 1874 já andava a roubar à própria família: quando se soube do que tinha feito, foi declarado louco, perdeu o seu título e foi colocado sob vigia, mas, para onde quer que fosse, arranjava problemas. Em 1874 e em 1876, uma mulher que não devia sequer ter-se aproximado dele ficou grávida com o seu filho. Em 1878, casou-se com outra mulher em segredo e sempre defendeu que devia haver uma revolução. Em termos oficiais, deixou de existir e, no verão de 1881, o czar Alexandre III enviou-o para o exílio e Tashkent. En 1895, apesar de ainda viver com a sua primeira esposa, casou-se com uma jovem de dezasseis anos cometendo uma bigamia que foi rapidamente anulada. Quando o visitou em 1904, a sua irmã Olga disse: "perdeu completamente qualquer sentido de moral entre o que pode ser feito e o que pode ser exigido". Mas havia outro lado em Nicolau. Interessou-se verdadeiramente pela Ásia Central e organizou expedições cientificas, publicando depois as suas descobertas. Em Tashkent lançou sistemas de irrigação e outros projectos benéficos. Recebeu bem a revolução e, quando morreu de infecção pulmonar em Abril de 1918, os bolcheviques da sua zona organizaram um grande funeral em sua honra na Catedral de Tashkent.


O grão-duque Miguel Mikhailovich chegou à idade adulta com muita vontade de se casar. Pediu a princesa Irene de Hesse-Darmstadt em casamento e 1886 e a princesa Luísa de Gales em 1887, achando que estava profundamente apaixonado em ambos os casos. No entanto, ambas recusaram o seu pedido. Em finais de 1887, apaixonou-se pela condessa Ignatiev, filha de um ministro do governo. O amor era correspondido, mas, depois de muita deliberação, o czar recusou ceder permissão para o casamento. Profundamente triste com a situação, Miguel iniciou uma viagem pela Europa e foi nessa altura que se apaixonou por Sofia, condessa de Merenberg (acima, ao centro). Casou-se com ela antes de alguém o conseguir impedir, uma acção que lhe custou o título e uma sentença de exílio perpétuo. A fotografia acima mostra o grão-duque com Sofia e a segunda filha do casal, Nádia, em 1896.


Quatro anos depois da morte da sua primeira esposa, o grão-duque Paulo Alexandrovich começou a ter um caso amoroso com Olga von Pistolkors, esposa do ajudante-de-campo do seu irmão, o grão-duque Vladimir. Quando ela deu à luz um filho de ambos e o czar se recusou a permitir o divórcio a Olga a não ser que o tio prometesse não se casar com ela, Paulo prometeu que não o faria, mas tinha todas as intenções de não cumprir o que tinha dito. Fugiu da Rússia, deixando os seus dois filhos legítimos para trás e casou-se em Itália. Por causa deste acto, foi banido da Rússia e os seus filhos foram colocados à guarda do irmão dele, o grão-duque Sérgio. Paulo tornou-se pai de uma segunda família. Na fotografia acima, tirada em 1906, Paulo surge no centro, com a sua filha Irina do lado direito, a esposa Olga logo a seguir com Natália ao colo e Vladimir na ponta. As outras pessoas são a mãe, irmã e filhas de Olga.


Em 1896, na coroação de Nicolau II, o grão-duque Cyrill Vladimirovich apaixonou-se pela sua prima Vitória Melita, segunda filha da grã-duquesa Maria Alexandrovna. O facto de ser sua prima direita seria suficiente para dificultar qualquer plano de casamento, mas a situação era ainda pior; ela era casada com o grão-duque Ernesto Luís de Hesse-Darmstadt. Mas o casamento em Hesse já não estava a atravessar uma boa fase e acabou em divórcio em 1901. Segundo Cyril, Vitória tomou essa decisão porque o amava. Ao longo dos anos seguintes, os dois viveram juntos quando podiam, apesar de os pedidos de Cyril para se casar serem sempre negados. O seu comportamento causou muito desconforto na família e os pais de Cyril fizeram os possíveis para acabar com a relação. A sua mãe até lhe pediu para ficar com Vitória como amante e encontrar outra princesa para se casar, pelo bem da sua posição. No outono de 1905, os dois casaram em segredo na Baviera. Quando Cyrill apareceu na Rússia, à espera de ser perdoado, o czar retirou-lhe os títulos e rendimentos e enviou-o para o exílio.


Cyrill e Vitória Melita mudaram-se para uma casa ao lado do palácio da mãe de Vitória Melita em Coburgo, onde nasceu a sua primeira filha, Maria, em Fevereiro de 1907. Nicolau II foi cedendo aos poucos, graças à pressão dos pais de Cyrill, e reconheceu o casamento pouco depois do nascimento de Maria, dando títulos adequados à mãe e à criança. Em 1908, permitiu que Cyrill regressasse à Rússia para assistir ao funeral do seu tio, o grão-duque Alexei Alexandrovich, e devolveu-lhe o seu título na marinha. Acabaria por ser este perdão que iria causar ressentimento entre o resto da família, mais ainda do que o castigo inicial. Em 1910, Cyril regressou à Rússia com a esposa e as duas filhas - a princesa Kira nasceu em 1909 - e a família estabeleceu-se em São Petersburgo. A fotografia acima foi tirada em Coburgo e mostra Cyrill a segurar a sua filha mais velha, Maria.


Nenhum dos irmãos de Cyrill estava disposto a cumprir as regras. Boris nunca se casou e tornou-se um conhecido playboy. No verão de 1901, os irmãos do grão-duque André Vladmirovich (acima) apresentaram-no à bailarina Mathilde Kschessinskaya que descreveu o momento da seguinte forma: "Ele era muito bonito e também muito tímido, o que não estragava as coisas de todo, bem pelo contrário! Durante o jantar, ele derrubou um copo de vinho acidentalmente e o conteúdo acabou por me sujar o vestido. Mas não fiquei nada zangada. Senti que era um bom presságio (...) A partir daquele momento, o meu coração transbordou com uma emoção que já não sentia há muito tempo". Desde o casamento e ascensão ao trono de Nicolau II que Mathilde vivia sob a protecção do seu primo, o grão-duque Sérgio Mikhailovich. A sociedade achava que os dois eram amantes, mas, nas suas memórias a bailarina diz apenas que tinha por ele um grande afecto e amizade. Quando descreveu o nascimento do seu filho no verão de 1902, na datcha que Sérgio lhe tinha comprado, Mathilde escreveu: "ele sabia perfeitamente que não era o pai da criança, mas amava-me e... perdoou-me tudo."


Matilde com o seu filho Vladimir, conhecido por "Vova". A relação entre Mathilde e André continuou, para grande irritação da grã-duquesa Maria Vladimirovna. O grão-duque Sérgio Mikhailovich também continuou a estar muito presente na vida dos dois.


Para Nicolau II, a desobediência mais dolorosa foi o casamento às escondidas do seu irmão mais novo, o grão-duque Miguel Alexandrovich (em cima). Miguel foi o herdeiro ao trono entre 1899 e 1904 e a saúde frágil do czarevich Alexei significava que esse posto lhe podia ser entregue novamente a qualquer momento. Não havia casamento mais vital para a continuidade da dinastia Romanov, mas, infelizmente, Migue apaixonava-se com demasiada facilidade. Em 1902, foi a irmã mais nova de Vitória Melita, a princesa Beatriz, que lhe chamou a atenção e ela também se apaixonou por ele. Os dois começaram a trocar correspondência, mas, em 1903, quando se levantou a hipótese de um casamento, o czar disse ao seu irmão que tal não seria possível, uma vez que Beatriz era sua prima direita. Miguel tentou romper o noivado, mas a sua atitude foi muito mal vista pela família dela, levando a uma zanga que durou até 1905. Mas, nessa altura, o grão-duque estava novamente apaixonado. Desta vez tratava-se de uma dama-de-companhia chamada Alexandra Kossikovskaya. Em 1906, Miguel pediu permissão para casar com ela. O seu irmão recusou e a mãe de ambos, Maria Feodorovna, fez com que a rapariga fosse discretamente enviada para longe do filho. Em 1907, Miguel planeou duas fugas para se casar com ela, mas ambas falharam.


Antes do final de 1907, surgiu uma terceira mulher na vida de Miguel. Natália Sheremetyevskaya era casada com um oficial do regimento do grão-duque, Vladimir Wulfert, que era já o seu segundo marido. Para ela, seduzir o grão-duque Miguel não passava de um jogo: seria possível conquistar o irmão do czar? Era possível e ela conseguiu. A relação tornou-se mais séria quando Wulfert a descobriu. Era um homem violento e, por isso, Miguel foi enviado para outro regimento, mas recusou-se a deixar Natália e o seu caso amoroso tornou-se um pesadelo para a corte. Em Julho de 1910, Natália deu à luz o filho de Miguel. No outono de 1912, com o czarevich à beira da morte, Miguel quebrou a promessa que tinha feito ao irmão e casou-se com Natália em segredo, em Viena. Foi muito honesto relativamente aos motivos que o levaram a tomar esta decisão: "Poderia nunca ter tomado esta medida se não fosse pela doença do pequeno Alexei e a ideia de que, como herdeiro do trono, poderia ser separado da Natália. Mas agora isso já não pode acontecer." Foi a razão mais cruel que poderia ter escolhido. Nicolau enviou-o para o exílio: a fotografia acima foi tirada durante esse período, em Inglaterra.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Um Casamento Adequado - Primeira Parte

O príncipe Nicolau da Grécia e Dinamarca com a sua esposa, a grã-duquesa Helena Vladimirovna no dia do seu casamento
Quando terminava a educação dos membros da família imperial, chegava a altura do casamento. Os estatutos impostos pelo czar Paulo I faziam com que os seus descendentes fossem obrigados a contrair matrimónio com parceiros do mesmo estatuto social, o que limitava a sua escolha a membros de famílias reinantes da Europa. Também havia considerações sociais a ter em conta: a Igreja Ortodoxa Russa proibia o casamento entre primos direitos, uma prática comum noutras casas reais, e, até 1874, as princesas estrangeiras que se casavam com homens da família Romanov eram obrigadas a converter-se à religião ortodoxa. Esta regra continuou a ser aplicada à esposa do herdeiro ao trono.

Gravura do casamento do futuro czar Alexandre III com Maria Feodorovna
Por outro lado, as grã-duquesas russas nunca se converteram a outra religião. Permaneceram ortodoxas, independentemente do noivo escolhido e, até aos dias de hoje, ainda sobrevivem igrejas russas por toda a Europa mandadas construir pelas filhas e netas de czares que se foram espalhando pelas famílias reais do continente. Era raro ver uma noiva Romanov que se adaptasse bem ao seu país de acolhimento. Rodeadas por culturas completamente diferentes daquela onde tinham nascido, quase todas elas acabariam por permanecer profundamente ligadas à Rússia e com saudades do seu país natal.

Para os seus irmãos, as coisas eram ainda mais complicadas. Os jovens Romanov não eram protegidos da sociedade e era quase inevitável que as suas primeiras paixões surgissem por alguma dama-de-companhia ou dançarina, o que tornava difícil a sua adaptação a uma casamento "adequado" e, à medida que a família foi crescendo, foi-se tornando cada vez mais difícil encontrar princesas pela Europa. Esse foi o maior problema da família imperial à medida que atravessava os seus últimos anos de existência e o número de membros da família que se foi casando abaixo da sua posição foi aumentando com o passar dos anos.

O grão-duque Paulo Alxandrovich com a sua segunda esposa, a aristocrata Olga Karnovitsch , depois princesa Paley
A grã-duquesa Maria Alexandrovna era particularmente afeiçoada ao seu pai, o czar Alexandre II da Rússia: "Perdemos a nossa filha mais velha e queríamos tanto ter outra que, quando ela nasceu, foi uma alegria. (...) Quando ela tinha aulas, as nossas horas não coincidiam e era raro ela poder fazer-me companhia nas minhas caminhadas, mas aos Domingos tinha-a só para mim e iamos sempre caminhar juntos (...) ontem, quando chegou à hora em que costumávamos fazer isso, não pude evitar e tive de lhe enviar um telegrama a dizer-lhe que estava a pensar nela e nas nossas caminhadas". Quando Maria e o príncipe Alfredo do Reino Unido começaram a apaixonar-se, ambos os seus pais mostraram alguma preocupação. As relações diplomáticas entre a Rússia e Grã-Bretanha estavam cortadas, mas o casal estava decidido e a cerimónia acabaria mesmo por celebrar-se na Grande Capela do Palácio de Inverno em Janeiro de 1872. Maria Alexandrovna teve muitas dificuldades para se adaptar à corte britânica e apenas acabaria por se sentir realmente à-vontade quando o seu marido se tornou duque de Saxe-Coburgo-Gota.

A grã-duquesa Maria Alexandrovna e o seu marido, o príncipe Alfredo do Reino Unido


Maria Alexandrovna mostra o seu filho mais velho, o príncipe Alfredo. A fotografia foi tirada na Rússia, por volta de 1875.


















As filhas mais velhas de Maria Alexandrovna: Maria, futura rainha da Roménia, e Vitória Melita, futura grã-duquesa de Hesse e grã-duquesa da Rússia. Ambos os seus casamentos seriam fonte de desentendimentos na Rússia.









A grã-duquesa Olga Constantinovna (em baixo, com a mãe) ficou noiva do rei Jorge I da Grécia no início de 1867, quando tinha apenas quinze anos de idade. Diz-se que o seu encontro em casa dos pais dela foi acidental, mas parece mais provável que a irmã dele, a futura czarina Maria Feodorovna, teve alguma influência para que ele acontecesse. É sabido que persuadiu os pais de Olga, que não estavam muito convencidos do sucesso da união, a dar o seu consentimento. "Onde é que foste aprender a ser tão casamenteira, minha marota?" perguntou o pai dela, o rei Cristiano IX da Dinamarca, "Deves ter tido muito trabalho a convencer o teu tio e a tua tia que, antes, estavam decididamente contra uma união deste tipo". Olga casou-se no Palácio de Inverno em Outubro e partiu para a Grécia pouco tempo depois, quando era ainda pouco mais do que uma criança. Levou consigo as suas bonecas e brinquedos favoritos que lhe serviram de conforto quando a experiência se tornou demasiado esmagadora. Acabaria por se adaptar relativamente bem ao seu novo país e tornou-se uma rainha bastante popular, mas o seu coração foi sempre russo. 


Olga Constantinovna e Alexandra Iosifovna
A rainha Olga com os seus filhos mais velhos, Constantino, herdeiro do trono grego, (à direita, sentado) e Jorge. Constantino nasceu em Agosto de 1868, antes de a sua mãe chegar aos dezassete anos de idade, e o seu nome foi escolhido por uma multidão que o entoou por baixo da varanda do palácio na noite do seu nascimento. Foi uma reviravolta curiosa: o primeiro Constantino da família imperial russa, o grão-duque Constantino Pavlovich, tinha recebido esse nome porque a sua avó, a czarina Catarina, a Grande, desejava criá-lo para que ele subisse um dia ao trono grego que era na altura ocupado pelo imperador otomano. Agora, quase um século depois, um dos seus descendentes, ainda para mais um com o mesmo nome, estava em linha directa para herdar o trono.

Olga Constantinovna com os seus dois filhos mais velhos
O rei Jorge e a rainha Olga em 1881 (abaixo). O rei e a rainha visitavam a Rússia e a Dinamarca, país natal do rei, com muita frequência. Na Dinamarca também se encontravam quase todos os outonos com Maria Feodorovna, Alexandre III e a sua família. Ambas as famílias foram sempre muito chegadas.

Jorge e Olga em 1881
A grã-duquesa Vladimir, Maria Pavlovna, com o seu irmão, o grão-duque hereditário Frederico Francisco de Mecklenburg-Schwerin em 1878 (abaixo). Maria Pavlovna também recorreu à sua posição de mulher casada para ajudar a arranjar o casamento dos seus irmãos solteiros. Apesar de ter uma personalidade gentil e quase santa, Frederico Francisco era o que precisava mais de ajuda. Sofria de uma forma grave de asma assim como ataques espaçados de uma doença de pele pouco atraente. Maria Feodorovna deixou-nos uma descrição bastante gráfica: "sofre de uma doença asquerosa, uma erupção cutânea que lhe afecta todo o pescoço e as orelhas de tal forma que ele teve de usar uma espécie de manto a semana inteira para não se ver. É uma tragédia para ele, coitado. É quase errado que ele se case". Mas Maria Pavlovna tinha quase tanto jeito como a cunhada para que as coisas acontecessem à sua maneira e reparou que uma prima do marido, a grã-duquesa Anastásia Mikhailovna de dezassete anos, poderia ser uma boa noiva para o irmão. Frederico Francisco fez uma visita a São Petersburgo e sentiu-se tão atraído por Anastásia que tomou imediatamente a iniciativa de escrever uma carta à mãe da sua futura esposa. "Pode imaginar como fiquei nervosa", escreveu Maria Pavlovna ao seu pai, "porque o futuro do meu irmão e o bem-estar do nosso amado estado de Mecklenburg-Schwerin depende disto."

Maria Pavlovna com o irmão, Frederico Francisco
Anastásia Mikhailovna em 1879 (abaixo), num retracto que faz justiça à descrição que Maria Feodorovna deixou dela no seu dia de casamento: "tão doce, delicada como uma rosa, bonita como uma fada". De forma característica, a futura czarina descreveu o noivo de forma perversa: "parecia alguém que tinha despertado do mundo dos mortos ou alguém que se esqueceram de enterrar". Mas Anastásia acabaria mesmo por o amar já que, de acordo com vários relatos, ele era uma pessoa muito amável - "o homem mais querido à face da Terra", segundo dizia a princesa de Pless. Foi com o estado de Mecklenburg-Schwerin que Anastásia teve problemas. Antes de se casar, a grã-duquesa esforçou-se verdadeiramente por estudar o estado que a ia receber, mas acabou por nunca se conseguir adaptar a ele. Detestava aquele lugar e os seus súbditos acabariam por sentir o mesmo em relação a ela. Não demorou muito até que Anastásia e Frederico compreendessem que apenas poderiam ser felizes como um casal longe do estado que ele estava destinado a reinar.

Anastásia Mikhailovna em 1879
Texto retirado do livro "The Camera and the Tsars" de Charlotte Zeepvat